Aí cai da cama e acorda e percebe que era apenas um sonho.
Só em sonho mesmo!
(E no mundo dos sonhos, sabemos que quem manda é ele. Freddy!!!)
Pra tentar superar um clássico do tamanho de "A Hora do Pesadelo" de Wes Craven, tem que vir muito preparado e, em se tratando de um filme que marcou gerações e redefiniu padrões do terror, a tarefa é praticamente inglória.
"A Hora do Pesadelo" de 1984 apresentava um personagem assustador e praticamente incontrolável dentro de seus domínios, o subconsciente de quem estivesse dormindo. No mundo dos sonhos, Freddy Krugger, um misterioso homem com o rosto todo queimado e usando uma luva com lâminas em cada dedo, manipulava tempo, espaço, física, sentidos, tal como aqueles sonhos em que ora estamos em um lugar, ora em outro, sem a menor lógica.
Suas vítimas eram jovens de uma pequena cidadezinhna americana cujos pais revelam, ao longo do filme, terem ligação com um antigo ajuste de contas com um maníaco local que matava crianças naquela localidade. Mas por mais incrível que pudesse parecer, o psicopata queimado vivo pelos pais das crianças, agora retornava no sonho de seus filhos já adolescentes para se vingar.
Argumento incrível, repleto de possibilidades, alternativas e todo um surrealismo que a subconsciência do sonho permite, com mínima chance de escapatória para as vítimas. Afinal de contas, quem não dorme, quem não sonha?
A refilmagem tem praticamente mesma tônica, mas erra na estratégia de jogo ao dar uma ênfase muito grande, quase fundamental à situação envolvendo as crianças do bairro, acrescentando às mortes, o fato de que o criminoso abusava das crianças antes dos assassinatos, coisa que no outro era, talvez..., levemente sugerido. Fica quase um drama investigativo com elementos de terror, enquanto o antigo, pelo contrário, é um autêntico terror com um ingrediente dramático.
Esse novo tem bons atores, bom acabamento, mas era de se imaginar que com mais recursos, tecnologia mais avançada, conseguisse produzir algo mais significativo.
Não!
Tem denúncia, reflexão, dramaticidade, mas o terror mesmo, é apoiado na mera repetição das cenas clássicas indispensáveis do primeiro, como a da banheira, a da parede elástica atrás da cama, ou a da garota no corredor da escola, sempre levemente diferentes (só para não ficar uma cópia descarada).
E com Freddy teria como fazer alguma coisa de diferente, de original, de mais impressionante? A nova versão até deu um enfoque mais sério, reduziu um pouco as piadinhas de humor ácido do vilão original, mas basicamente tratou de replicá-lo, até porque trata-se de personagem tão consolidado que não tem como inventar muita coisa.
A propósito, por mais que Jackie Earl Haley tenha sido uma boa escolha para o remake, não tem como se falar em Freddy Krugger e não pensar em Robert Englund, um daqueles atores que chegam a se confundir com o personagem. Earl Haley não desagrada, faz um Freddy mais sério, cruel, mas no fim das contas não conquista.
Rooney Mara por sua vez, também é muito boa, a rigor é melhor atriz que Heather Langerkamp, mas parece que a atriz do primeiro filme e de algumas das sequências nasceu para aquele papel, tanto que o próprio diretor se aproveita dessa identidade, dela e de Robert Englund, em seu retorno à franquia de 2006, o interessante "O Novo Pesadelo de Wes Craven".
Mas, afinal, quem é melhor?
Bem, é lá dentro do campo é que a coisa se decide, não? Então vamos ao que interessa.
"A Hora do Pesadelo" (1984) vs. "A Hora do Pesadelo" (2010)
Os dois times entram em campo no estádio da Rua Elm com seus uniformes tradicionais, listras horizontais em verde e vermelho, igual ao tradicional uniforme da Portuguesa de Desportos e cheerleaders cantam a Cantiga de Ninar clássica de Freddy Krugger à beira do campo. "Um, dois: Freddy vem te pegar/ Três, quatro: É melhor trancar a porta/ Cinco, seis: Agarre seu crucifixo/ Sete, oito: Fique acordado/ Nove, dez: Você nunca mais vai dormir!".
O jogo começa e o Pesadelo de 1984 não dá a menor chance para Pesadelo 2010!
1x0 pelo argumento mais objetivo e mais enxuto. Menos enrolação, menos elementos externos e mias susto, pavor, arrepio.
2x0 pelas cenas clássicas, em especial para a morte do namoradinho, o então novato Johnny Deep sugado para dentro da cama com seu sangue jorrando contra a gravidade para o teto. Mas tem a da amiga, Tina, lutando e sendo jogada contra as paredes por um perseguidor invisível, a da língua no telefone, a arrepiante cena em que Freddy surge com braços longos num beco, tudo com brilhantes e criativos efeitos práticos.
![]() |
| Ainda hoje, uma das cenas mais impressionantes dos filme de horror. |
A dupla Heather/Englund é um pesadelo para a zaga adversária. Entrosamento perfeito sempre que estão em cena. Primeiro é a vez dela. Freddy dá aquela fatiada e Nancy queima da entrada da área. Joga a luva, goleirão! É 3x0.
Depois é a vez do matador: a defesa dorme, ela o deixa no mano a mano, Freddy corta pra dentro, corta pra fora, e não perdoa. A torcida canta, "O Freddy vem te pegar, o Freddy vem te pegar!!!". 4x0. Parece um pesadelo!
O time de 2010 faz o golzinho de honra por conta de toda a parte que envolve a investigação da nova Nancy a respeito do local para onde Freddy levava as crianças e a descoberta do quartinho no porão da pré-escola onde ele cometia os abusos. Cena que nem é tão chocante pelo horror sobrenatural e sim pelo horror humano. Mas valeu. Gol do remake: 4x1.
Quando parecia que o pesadelo tinha acabado, na cena final quando parecia que mais nada ia acontecer, numa cena típica de desenho animado, linguagem que Wes Craven soube utilizar muito melhor que seu desafiante em se tratando de possibilidades de sonho, a garra de Freddy puxa a mãe de Nancy por uma portinhola minúscula na entrada da casa, enquanto num Cadillac conversível coberto por uma capota nas cores do suéter do assassino, Nancy e os amigos entram em pânico, e ele segue em frente passando por crianças que pulam corda entoando a sinistra cantiga de Freddy: "Um, dois: Freddy vem te pegar/ Três, quatro: É melhor trancar a porta/ Cinco, seis...".
Dizem as más línguas que, na manhã seguinte ao confronto, quando a esposa do diretor Samuel Bayer foi acordá-lo e chamou, "Acorda, meu bem, já são 6", ele teria despertado suando e perguntado, "O que? Outro gol deles???
Não, calma... Ficou SÓ em cinco mesmo. 5x1 para HP'84.





Nenhum comentário:
Postar um comentário