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segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Wayne Shorter Featuring Milton Nascimento - "Native Dancer" (1975)

 

“Wayne Shorter foi – e sempre será – mais do que um parceiro musical. Desde que nos conhecemos, nunca nos separamos. Em 1975, ele me convidou para gravar o ‘Native Dancer’, e mudou a minha vida e carreira pra sempre”.
Milton Nascimento

“Graças a um gênio chamado Wayne Shorter, eu conheci o grande Milton Nascimento em 1975, pelo álbum 'Native Dancer'. Não sabíamos tanto sobre Milton como, talvez, devêssemos saber, mas amávamos Shorter, então, o que ele fizesse, nós escutaríamos." 
Steve Jordan

Humildade é uma qualidade dos grandes músicos. Mesmo sabendo de seus próprios tamanhos e importância, artistas da música dotados dessa integridade entendem que nunca é tarde para aprender e celebrar seus pares. Por exemplo, o Earth, Wind & Fire já era um grupo de sucesso em meados dos anos 70 e que vendia, há pelo menos três álbuns, mais de 1 milhão de cópias. Nem por isso Maurice White, principal líder da banda, deixou de manifestar sua admiração pelo brasileiro Milton Nascimento quando o encontrou por acaso num hotel em Los Angeles. Além da reverência, White admitia que a EW&F, já conhecida por seus arranjos vocais sofisticados, havia aprendido, por causa de um disco lançado por Milton em 1975, a usar os falsetes tal como o mestre de Três Pontas, o que deixou ele – que também admirava os colegas norte-americanos – bastante envaidecido e feliz.

O trabalho responsável por essa ponte de inspiração e gratidão, que completa 50 anos de lançamento, é fruto, aliás, do mesmo sentimento de admiração recíproca. A amizade de Milton com o saxofonista e compositor norte-americano Wayne Shorter, um dos deuses do jazz, já vinha de alguns anos, quando este, em passagem pelo Brasil com sua banda Weather Report, assistiu a um show do disco “Clube da Esquina”, de Milton e Lô Borges, no Rio de Janeiro. Shorter ficou fascinado por Milton e quis conhecê-lo. Dali, surgiu mais do que um encontro de almas e, sim, um convite: o de gravarem um disco juntos. Nascia o influente álbum “Native Dancer”.

Com a participação de músicos brasileiros, como os percussionistas Airto Moreira e Robertinho Silva e o pianista e maestro Wagner Tiso, e de norte-americanos, como o icônico pianista Herbie Hancock e os guitarristas Dave Amaro e Jay Graydon, “Native...” é um disco memorável em vários sentidos. Primeiro, por inserir de vez a latinidade no jazz fusion que Shorter já vinha desempenhando em carreira solo e com a Weather Report. Segundo, por abrir as portas daquilo que, tempo depois, passaria a se chamar de world music, quebrando as barreiras (e os preconceitos) de gêneros musicais. “O Wayne acertou na mosca”, disse Milton em entrevista ao Jornal do Brasil em 2008. “Naquela época, o pessoal de rock não gostava do pessoal de pop que não gostava de jazz, não gostava disso, não gostava daquilo... Ele acabou com isso”, salienta. Por fim, "Native..." é um marco pelo feito de reunir duas forças da natureza: Shorter e Milton, por si só um momento grandioso.

Equilibrado, “Native...”, mesmo sendo um disco de Shorter com Milton como convidado, intercala os protagonismos entre os dois, numa clara reverência do primeiro para com o amigo. Das nove faixas, mais da metade são de Bituca. O começo, inclusive, é dado a ele – que arrasa. “Ponta de Areia”, até então gravada apenas por Elis Regina e Marlene, ganha pela primeira vez a interpretação pela voz penetrante e divinal do seu autor. Milton viria a regravar a canção outras duas vezes ainda naquele ano: uma em duo com Nana Caymmi (num arranjo de ninguém menos que Tom Jobim) e outra no seu disco “Minas”. Nada, no entanto, se compara a essa versão: o impressionante falsete de Milton, que canta num tom acima da sua própria gravação, e o sax soprano de Shorter se entrelaçam e se congraçam. Pode-se dizer, tranquilamente, que essa música é o momento mais intenso da obra de Shorter em toda a década de 70. Algo divino.

A ritmada instrumental “Beauty and the Beast”, de Shorter, na sequência, mostra o quanto ele estava empenhado em saudar a música brasileira. Já a tristonha “Tarde”, depois, traz Milton de volta, agora com o elegante piano acústico de Hancock em pleno casamento com o piano elétrico de Tiso. Não fosse o solo de sax de Shorter, na segunda parte, poderia se dizer tranquilamente que a música foi gravada pela turma do Clube da Esquina em terras tupiniquins, tamanha o respeito que o norte-americano teve em manter à sonoridade dos mineiros.

É Milton quem dá as cartas novamente, agora para uma espetacular “Miracle of the Fishes”, cujo título em inglês não desbanca a letra em português original, a qual dá título ao célebre disco dele de 1973, “Milagre dos Peixes”. Que show de vocais, da bateria de Robertinho, do piano elétrico de Tiso, do violão indígena e ibérico de Bituca! Mas o mais espetacular mesmo é o duo voz/sax que os cabeças entregam da segunda metade em diante. Milton criando harmonias vocais impensáveis, improvisando vocalises, cantando versos; Shorter, com a sensibilidade de tocar no mesmo registro da voz e solando com a habilidade de um verdadeiro Jazz Massanger ou de um integrante do Second Great Quintet de Miles Davis. Uma sintonia excelsa entre os dois.

Os amigos Shorter e Milton, nos anos 2000, relembrando
os tempos de "Native Dancer"

Em “Diana” é a vez de aparecer a sintonia com Hancock, amigo comum de ambos. Hancock havia tocado com Milton em seu “Courage”, de 1968, na primeira incursão internacional do músico brasileiro, e seguiria colaborando com ele em muitos outros trabalhos a partir de então. Com Shorter, entretanto, a troca vinha de ainda antes, fosse nos revolucionários discos da Blue Note do início dos anos 60, fosse na formação da famosa banda de Miles. Toda essa intimidade lhe dá condições de criar a atmosfera perfeita para o sax tenor desfilar nesta balada jazz, especialidade de Shorter e dele. 

Não menos incrível é “From the Lonely Afternoons”, cujos vocalises de Milton iriam influenciar, assim como Maurice White, outro grande jazzista como Shorter e Hancock: Pat Metheny. Basta ver temas como “Estupenda Graça” (de “As Falls Wichita, So Falls Wichita Falls”, 1981) ou “(It's Just) Talk” (“Still Life (Talking)”, 1987). Samba-jazz instrumental - assim como “Me Deixa em Paz” e “Cais”, do repertório de “Clube da Esquina”, de 1972, que tanto impressionou Shorter - é “Ana Maria”, dedicada à então esposa de Shorter, a portuguesa Ana Maria Patrício. O sax desenha a melodia em tom alto, de difícil registro. Detalhe importante: a autoria desta bossa-nova, que bem podia ser de Milton ou de algum compositor da MPB, é do próprio Shorter.

Continuando a sessão de dedicatórias iniciada na faixa anterior, é a vez de Milton reverenciar a mãe “Lilia” noutro instrumental cheio de musicalidade e sofisticação. Originalmente gravada no famigerado álbum “Clube da Esquina”, agora a música recebe uma nova carga expressiva adicionada pelo sex soprano de Shorter, que extravasa e eleva a música ao ápice emocional do disco. Milton, obviamente, não fica para trás, usando seu canto carregado de beleza e mistério a serviço desta emotividade.

Outro número dedicado é “Joanna's Theme”, que encerra “Native...”. Autoria de Hancock, foi composta um ano antes para a trilha sonora do filme “Desejo de Matar” como tema de uma das personagens. A percussão atmosférica de Airto ajuda a dar clima para esse jazz sombrio em que, novamente, a parceria Hancock/Shorter funciona, literalmente, como música.

Como o próprio Milton evidencia, “Native...” foi um divisor-de-águas na sua carreira, tornando-o um artista global a partir de então. O posterior contato com os mais diversos músicos do planeta como Paul Simon, James Taylor, Quincy Jones, Sarah Vaughan, Jon Anderson e Annie Lennox só se deu em razão deste encontro de almas com Shorter. Os dois, aliás, se encontrariam diversas outras vezes ao longo das carreiras, como em “Milton/Raça”, de 1977, “A Barca dos Amantes”, de 1986, “Yauaretê”, de 1987, e “Angelus”, de 1993, todos discos de Milton. Shorter, por sua vez, nunca deixou de reverenciar o amigo, tocando com ele em apresentações, incluindo músicas suas no repertório próprio ou, simplesmente, apontando-o como um dos maiores gênios da música mundial. Para ele, assim como só existe um Miles Davis, também só existe um Milton.

Maurice White estava certo: deve-se eternamente agradecer e reverenciar Milton Nascimento. Metheny, Criolo, Esperanza Spalding, Steve Jordan, Peter Gabriel e Björk, outros renomados influenciados por Bituca, engrossam esse coro. Ainda mais Wayne Shorter, que, com a generosidade e a humildade dos grandes, abriu espaço para que Milton pudesse levar ao mundo sua musicalidade única em perfeita harmonia com a sua musicalidade. Simbiose que vai além de uma simples compreensão, pois resultante de uma conexão que se dá noutro plano, no astral. A “voz de Deus” e o “sopro divino”, juntos, só podia dar nessa comunhão, que dialoga através de música. Milton diz que ele e Shorter sempre se entendiam sem precisar dizer nada um para o outro, pois, segundo ele, já estava tudo "lá em cima”, onde somente os Deuses acessam.

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FAIXAS:
1. “Ponta De Areia” (Milton Nascimento/Fernando Brant) - 5:17
2. “Beauty And The Beast” (Wayne Shorter) - 5:07
3. “Tarde” (Nascimento) - 5:51
4. “Miracle of the Fishes” (Nascimento/ Brant) - 4:46
5. “Diana” (Shorter) - 2:59
6. “From The Lonely Afternoons” (Nascimento/ Brant) - 3:13
7. “Ana Maria” (Shorter) - 5:10
8. “Lilia” (Nascimento) - 7:01
9. “Joanna's Theme” (Herbie Hancock) - 4:19


OUÇA:

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Daniel Rodrigues

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Ed Motta - “Aystelum” (2005)


"20 anos de 'Aystelum', um dos meus prediletos. Toques de free jazz com samba, Broadway, funk. Que sorte que pude gravar esse disco. 'Aystelum' tem a bênção de um santo protetor na minha vida".
Ed Motta

O cara se contradiz, é desrespeitoso, brigão e, por vezes, arrogante. Ao mesmo tempo, é sincero e fala verdades necessárias que poucos ousam dizer. Controverso, paga o preço por isso, sendo “cancelado” em vários meios. Mas uma coisa não se pode discordar: como o próprio se autodefine sem nenhum constrangimento pela soberba, ele é um dos “gênios da nossa latinoamerica”. Ed Motta, essa figura única, é, definitivamente, um dos músicos mais completos do mundo. Dono de um vocal cheio de técnica e timbre, este carioca nascido em família musical (sobrinho de Tim Maia, conviveu na infância com o tio e seus amigos Lincoln Olivetti, Cassiano, Hyldon entre outros, o suficiente para se encantar com o universo dos músicos) é capaz de, como nenhum outro cantor, compositor e instrumentista vivo, unir com tamanha densidade a soul, o jazz, o samba, o funk e os ritmos latinos. Nisso, há de se concordar com ele sem se contaminar pela insolência do próprio: Ed é o cara.

Prodígio, Ed teve carreira artística iniciada aos 16 anos já com os megassucessos “Manoel” e “Vamos Dançar”, da Ed Motta & Conexão Japeri, de 1988. Sua precocidade, aliada à personalidade contestadora e, por vezes difícil, no entanto, o prejudicaram ao longo dos anos no mainstream. Fez sucesso, rompeu com gravadoras, voltou atrás, fez mais sucesso, vendeu milhões e, a exemplo de seu tio, rompeu de novo com as gravadoras que faltavam até ficar escanteado. Disso tudo, a consequência: o trabalho realmente autoral de um artista que sempre buscou esse objetivo só pode ser realizado por ele mais de uma década depois de sua estreia: em “Aystelum”, de 2005, décimo álbum de Ed, que completa 20 anos de lançamento.

Fruto do encontro de Ed com o selo Trama, de João Marcelo Bôscoli, “Aystelum”, na esteira do excelente “Dwitza”, de três anos antes, e “Poptical”, o primeiro pela Trama, é o resultado da libertação criativa de um músico sem fronteiras de gêneros, estilos e temporalidade. É música pura – e no mais alto nível que o país de Moacir Santos, Tom Jobim, Tânia Maria, Filó Machado, Johnny Alf, Dom Salvador e tantos outros mestres de sua admiração pode produzir. Mas, claro, não somente estes professores musicais. Fã da música negra norte-americana desde criança, Ed usa e abusa nesse disco da sonoridade do afro jazz, do free jazz, do latin jazz e do spiritual jazz, sem deixar de referenciar suas bases da soul, Donny Hathaway, Donald Fagen, Gil Scott-Heron, Patrice Ruschen, entre outros. “Aystelum”, no entanto, ainda adiciona outra paixão de Ed: a música da Broadway de autores como Leonard Bernstein, George Gershwin, Stephen Sodenhein e Irvin Berlin.

Essa sonoridade livre está impressa na faixa de abertura, um afro jazz modal latino e spiritual em que brilham não somente o band leader, nos teclados, como toda a banda: o baixista Alberto Continentino; o baterista Renato Massa; o trompetista Jessé Sadoc Filho; o piano elétrico de Rafael Vernet; o guitarrista Paulinho Guitarra; o craque da percussão Armando Marçal; e o chileno Andrés Perez, “saxofonista tenor com a sonoridade do Coltrane, Joe Henderson, conhecimento alto das escalas e também de efeitos que o sax pode fazer, harmônicos, etc.”, como aponta Ed.

A então recente aproximação de Ed com a música brasileira – uma vez que, infantilmente, até pouco tempo antes a renegava em detrimento da norte-americana – fez com que ganhasse, aqui, dois presentes. Nei Lopes. compositor, cantor, escritor e estudioso das culturas africanas escreve-lhe as letras de “Pharmácias”, um samba-jazz influenciado pela música brasileira tradicional tocado só com instrumentos eletroacústicos, e a obra-prima “Samba Azul”. Nesta última, em especial, Ed encontra uma improvável intersecção entre samba-canção, blues, bossa-nova e bolero, tudo num arranjo primoroso do maestro Jota Moraes, parceiro de longa data. Mas não só isso: a música, além da magnífica letra de Lopes (“Tudo azul/ Beija-flor voa ao leu/ Sobre Vila Isabel/ Elegante/ Vai pousar distante/ Na Portela”), ainda tem um duo com Alcione, uma “força da natureza” cuja voz põe todo mundo no estúdio para “voar”, descreveu Ed.

A faixa-título, composta por uma palavra inventada por Ed sem nenhum sentido, apenas dotada de sonoridade, é outro jazz instrumental em que a turma arrebenta. O tema mais spiritual jazz de todos do repertório, lembrando bastante coisas de John Coltrane e Pharoah Sanders. Esse abstratismo é logo contraposto por “É Muita Gig Véi!!!”, que é puro ritmo. Baseada na ideia de improvisação, cada músico traz para dentro da jam suas experiências e bagagens. Samba e jazz em perfeita comunhão com direito a show de cuíca de Mestre Marçal. Outra espetacular nesta linha é “Partidid”, das melhores do disco, na qual fica evidente a reverência à sonoridade sofisticada e gingada de bandas como Azymuth e Black Rio.

Porém, sem se prender a nenhum formato, Ed traz para dentro desse caldeirão musical algo extremamente próprio e bonito, que é o musical norte-americano. Neste sentido, “Balendoah” é divisional. Mais uma dessas palavras tiradas da mente de Ed (que querem dizer, no fundo, apenas “muita musicalidade”), este número é fundamental para a narrativa do disco. Nele, Ed une os dois polos que o álbum propõe: o jazz de matriz africana e a música da Broadway. “Negros e judeus, o ápice da música que eu amo”, classificou ele próprio. Com a engenhosidade harmônica complexa extraída dos mestres Duke Ellington, Randy West, Moacir Santos e Charles Mingus, Ed amalgama uma melodia de voz que cria essa ponte com o teatro/cinema musical norte-americano. “Balendoah”, assim, além de uma música arrebatadora, abre caminho para a “segunda parte” do disco.

Tal virada em “Aystelum” surpreende, mas não destoa. O trecho de "7 - O Musical”, que Ed escreve para a peça musical de Charles Möeller e Claudio Botelho, é um medley em que constam a graciosa “Abertura”, a atonal “Na Rua”, com vocal de timbres metálicos de Tetê Espíndola, e a bela “Canção Em Torno Dele”. Interessante notar o “libreto” em português e não em inglês, contrariando a própria lógica do tradicional musical, o que denota um Ed desprovido de afetação para com a língua inglesa, a qual teria maior naturalidade.

“A Charada”, parceria com Ronaldo Bastos, retoma a sonoridade soul num AOR romântico, que poderia tranquilamente ser uma música de trabalho não tivesse “Aystelum” feito tão pouco sucesso de público, que estranhou todo aquele experimentalismo. “Guezagui”, então, um funk tomado de groove e musicalidade, fecha a conta deste histórico e sui generis disco da discografia brasileira.

Ed já havia dado seu grito de independência com “Entre e Ouça”, de 1992, então apenas seu terceiro trabalho. Além de ainda muito jovem (só tinha 21 anos), naquela época não tinha a credibilidade e nem a experiência de um trintão amadurecido musicalmente como em “Aystelum”. Foram necessários que os anos lhe dessem tempo para agregar as diversas sonoridades entre as milhares que rondam sua cabeça, as quais absorve e traduz com espantoso poder de síntese e originalidade. Depois de tantos acertos e topadas, paixões e desavenças, fama e infortúnio, de tanto céu e inferno, Ed chegava, enfim, na paz da sua própria obra. Como quem toma a bênção de um santo protetor e pronuncia, em louvor, uma palavra que somente os deuses da música compreendem: “Aystelum”.

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FAIXAS:
1. "Awunism" - 5:37
2. "Pharmácias" (Nei Lopes/ Ed Motta) - 3:17
3. "Aystelum" - 6:48
4. "É Muita Gig Véi!!!" - 3:53
5. "Samba Azul" (Lopes/ Motta) - 4:49
6. "Balendoah" - 4:19
"7 - O Musical (Medley)" (Claudio Botelho/ Motta)
7. "Abertura" - 1:33
8. "Na Rua" - 2:06
9. "Canção Em Torno Dele" - 1:54
10. "A Charada" (Ronaldo Bastos/ Motta) - 4:00
11. "Patidid" - 2:26
12. "Guezagui" - 3:50
Todas as composições de autoria de Ed Motta, exceto indicadas

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OUÇA O DISCO:
Ed Motta - "Aystelum"



Daniel Rodrigues

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Criolo - Turnê "Criolo50" - Auditório Araújo Vianna - Porto Alegre/RS (17/10/2025)



“Nem estou acreditando que estou chegando nos 50. Esse projeto não é só sobre mim: é sobre todas as pessoas que me ajudaram a não desistir”.
Criolo

Que Criolo é o cara da nova música brasileira, isso já se sabe. Que este músico paulista, iniciado no rap, desenvolveu-se em tudo que é gênero musical, do samba ao afrobeat, também não é novidade. Que é um poeta raro, idem. Que é um dos artistas mais inovadores e influentes da música brasileira contemporânea, igualmente é outra certeza, assim como que ele já ocupa o panteão dos grandes da MPB. Porém, o palco ainda era uma dúvida, pois parecia carecer de uma afirmação. Afinal, é ali que se confirma um grande artista. É onde sua alma é impressa. Já havíamos Leocádia e eu assistido alguns shows de Criolo pela tevê, uns melhores e outros nem tanto. Mas o que não era possível captar à distância era justamente aquilo que se pode confirmar na inesquecível apresentação deste artista no Araújo Vianna, em Porto Alegre: a impressão de sua alma. E ela estava lá.

Comemorando seus 50 anos de idade - uma vitória para um rapaz preto e da periferia num país aporofóbico e racista, como ele mesmo observou -, Criolo e sua ótima banda mandaram ver num show empolgante, pois bem realizado em todos os aspectos: som, luz, projeções/arte, narrativa, repertório e, o mais importante, sintonia com a plateia. O carisma, a vibe zen e o bonito vocal de Criolo, dotado de pouca extensão mas que funciona mais em estúdio, é compensado, no palco, pela energia e o vozeirão do MC e DJ DanDan, parceiro antigo. Eles comandam o show, que percorre, num apanhado cirúrgico, o repertório dos cinco álbuns solo de carreira de Criolo dando especial destaque aos excelentes "Nó na Orelha" (2011) e "Convoque seu Buda" (2014), e o seu último, "Sobre Viver" (2022), além do disco de samba "Espiral da Ilusão" (2017).

Foram só pedradas, novos clássicos da música brasileira. Começando por "Mariô" e "Duas de Cinco", que abrem a apresentação puxando versos impactantes: "Tenho pra você uma caixa de lama/ Um lençol de féu pra forrar a sua cama/ Na força do verso a rima que espanca/ A hipocrisia doce que alicia nossas crianças" ou "Compro uma pistola do vapor/ Visto o jaco califórnia azul/ Faço uma mandinga pro terror/ E vou". Seguiram-se "Sistema Obtuso" e "Esquiva da Esgrima", esta, das preferidas do público. Em "Ogum Ogum" e "Iemanjá Chegou", duas de "Sobre...", Criolo abre espaço para a religiosidade afro, assim como faz para outros dois blocos distintos. Um deles, o momento reggae, em que canta "Samba Sambei" e "Pé de Breque", além de um novo arranjo para o rap "Sucrilhos", agora ao estilo de Bob Marley.

A clássica "Subirodoistiozin" pondo o 
público gaúcho para cantar

Outro ponto especial é a parte reservada ao samba, gênero que Criolo domina como poucos. O divertido partido-alto "Lá Vem Você" e o samba-canção engajado "Menino Mimado", ambas de "Espiral...", se juntam a "Linha de Frente", célebre samba de encerramento de "Nó..." ("O nó da tua orelha ainda dói em mim/ E Cebolinha mandou avisar/ Que quando a 'fleguesa' chegar/ Muitos pãezinhos há de degustar") em que Criolo já anunciava essa sua verve composicional. 

Mais clássicos contemporâneos: "Grajauex", "Não Existe Amor em SP", cantadas em coro pelo público, e "Subirodoistiozin", que ganha, ao final, um arrasador arranjo drum 'n' bass do DJ DanDan. Para fechar, uma versão do samba triste de Benito Di Paula "Retalhos de Cetim" ("Mas chegou o carnaval/ E ela não desfilou/ Eu chorei na avenida, eu chorei...") e o matador rap-ninja "Convoque seu Buda" para encerrar, quando todos fizeram o tradicional movimento de balançar a mão de cima para baixo como nos clipes de hip hop.

Se faltava a Criolo o atestado do palco, o show do Araújo Vianna foi uma mostra de que, chegado aos 50 anos e experiente como artista, não falta nada mais a ele, Sua alma estava lá, definitivamente. E se lhe foi uma vitória chegar ao primeiro meio século, esperamos que o Brasil lhe oportunize a partir de agora novos 50 anos de brilho, dignidade e sucesso. Ele merece.


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Aguardando Criolo!


Começando o show com alta energia


Criolo em sintonia com o público


Seja rap, soul, samba, afrobeat: Criolo manda bem no que vier


Sessão de samba do show


A linda projeção completando a arte do espetáculo


O rap se mistura à musicalidade brasileira no trabalho de Criolo  


Uma matadora "Convoque seu Buda" para encerrar 
o grande show de Criolo em Porto Alegre



texto: Daniel Rodrigues
fotos e vídeos: Daniel Rodrigues e Leocádia Costa

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Banda Black Rio - Blues Bossa Jam Session POA - Teatro do Bourbon Country - Porto Alegre/RS (1º/10/2025)

 

Sonho realizado. Ao longo dos anos, ver a Banda Black Rio, desde que a banda voltou, no final dos anos 90, e passou a se apresentar mais, tornou-se mais do que um desejo, mas um desafio. Isso porque, das várias vezes que viajamos ao Rio de Janeiro, nunca coincidia de pegarmos um show deles. Ou tinham se apresentado antes ou se apresentariam depois de retornarmos a Porto Alegre, onde, aliás, nunca tinham vindo. Essa realidade mudou com a primeira descida da Black Rio à capital gaúcha, dentro do projeto Blues Bossa Jam Session POA, quando pudemos Leocádia e eu conferi-los numa concorrida e feliz noite no Teatro do Bourbon Country. E foi uma festa.

Com uma considerável presença de um público preto – coisa meio rara em Porto Alegre, ainda mais de pessoas pretas de bom nível social – e bastante aguardados pelos gaúchos - que, como nós, queriam muito vê-los há muito tempo - a Black Rio subiu ao palco comandada por seu cabeça, o tecladista William Magalhães, responsável pela retomada do mítico grupo fundado por seu pai, o precocemente falecido Oberdan Magalhães, este, um dos maiores músicos que o Brasil já teve. 

Cumprindo muito bem a missão de prosseguir com a arte maior da Black Rio, com o groove inconfundível da grande banda da história da soul brasileira, William e seus competentes companheiros músicos começaram com alguns números do seu clássico álbum, “Maria Fumaça”, de 1977. Este marco na história da música brasileira conquistou, mesmo sem vocal ou letra, crítica e público, chegando a ser trilha de abertura de novela da Globo (“Locomotivas”, aliás, a primeira a conseguir esse feito). Foi a música que dá título ao cultuado primeiro disco da Black Rio, inclusive, que iniciou a apresentação. Um desbunde total de musicalidade, mas um pouco atrapalhado pelas as falhas técnicas no som tanto do teclado, que mal se ouvia no início, mas principalmente da guitarra. Não dava para ouvir direito justamente o marcante riff com som ecoado da guitarra. Uma pena.

Depois desse número inicial, o som melhorou, mas ainda apresentava algumas falhas, com William tendo que chamar o roadie algumas vezes para resolver problemas. Imagino que seja um pouco difícil equalizar satisfatoriamente todos os instrumentos para uma banda como a Black Rio, em que cada mínimo som é importante para o contexto sonoro. Porém, é inexplicável que não se tenha testado e ajustado isso tudo antes. Mas, tudo bem. A festa prosseguiu com outras três de “Maria Fumaça”: a estonteante “Mr. Funky Samba”, bem como as não menos impressionantes “Leblon Via Vaz Lobo” e “Casa Forte”.

Após estas, entrou no palco o ótimo cantor Marquinho Osócio, integrante oficial desde o começo dessa segunda fase, marcada pelo lançamento do álbum “Movimento”, de 2001. Embora muito competente, o show seguiu praticamente só com as músicas “novas”, o que poderia ter sido um pouco diferente em se tratando de uma estreia em solo gaúcho. O público, maior parte formada por fãs dos tempos antigos da Black Rio, esperavam, se não mais músicas de “Maria Fumaça”, como “Na Baixa do Sapateiro” e “Baião”, pelo menos coisas dos outros dois discos da fase clássica, “Gafieira Universal”, de 1978 (“Chega Mais”, “Samboreando”, “Expresso Madureira”, quem sabe) e “Saci Pererê”, de 1980, em que podiam ter resgatado o lindo reggae que lhe dá título feito por Gilberto Gil especialmente para o conjunto, ou “De Onde Vem” e “Amor Natural”, todas em que o vocal de Osócio se encaixaria bem ao formato atual.

O sentimento de que podiam ter maior trato no set list, no entanto, não tirou o brilho do show. Do repertório recente, eles tocaram números como “Nova Guanabara”, “Carrossel”, “Sexta Feira Carioca” e “América do Sul”, sempre contagiando a plateia. Ainda teve maravilhosas interpretações de "Boa Noite", de Djavan, e de “Tomorrow”, de Cassiano, música responsável pela volta da banda em 1999, quando o célebre compositor de “A Lua e Eu” chamou a então inoperante Black Rio para tocar com ele na TV. 

Banda Black Rio tocando o mestre Djavan


Sonoramente falando, não se escuta mais tanto o baixo imponente como era o de Jamil Joanes antigamente. E há de se entender, haja visto que nada se compara ao som tirado por aquele baixista, cheio e ondulante. No arranjo atual, então, William e sua turma decidem equilibrar mais os teclados, a percussão e os metais, além de dar maior peso à melodia de voz. E tudo bem, uma vez que a formação atual é esta – e também porque, convenhamos, é impossível reproduzir o estelar time Oberdan, Jamil, Cristóvão Bastos, Cláudio Stevenson, Luiz Carlos e Barrosinho tocando juntos novamente. Nessa configuração do grupo, além de William, um fera, destaque para o trio dos sopros – Feldeman (trombone), LG (trompete) e Marlon Cordeiro (sax) – e para o excelente percussionista Marcos César. 

Mais para o fim, rolou uma lindíssima versão de “Mistério da Raça”, de Luiz Melodia, tocada por uma Black Rio com a autoridade de quem formava originalmente a banda de Melodia no álbum “Nós”, de 1980. No encerramento, outra obra a qual somente eles mesmos poderiam tocar com a dignidade de quem também escreveu aquela história: o hit “Sossego”, de Tim Maia, gravada pelo “Síndico” com eles no delirante “Tim Maia Disco Club”, de 1978.

Sim: sonho realizado de ver a Black Rio! Esses verdadeiros criadores do brazillian jazz, os caras que representam no nome mais do que uma banda, mas um movimento! Uma instituição da música brasileira. A Black Rio não é sé esse patrimônio cultural, mas uma prova viva da resistência negra e de sua cultura. Em uma entrevista tempo atrás, William disse ter orgulho de seguir a profissão e a própria banda fundada pelo pai. “Me sinto um herói da música preta”, disse ele. Concordamos plenamente. 

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A brilhante e resistente Black Rio entre no palco


Tocando clássicos instrumentais do disco "Maria Fumaça"


Um trechinho de "“Leblon Via Vaz Lobo”, 
do repertório antigo


William Magalhães comanda seu timaço de músicos


Marquinho Osócio entra para animar ainda mais a festa


Muito groove samba-soul no Bourbon Country


A contagiante "Sossego", hit de Tim Maia, 
que encerrou o espetáculo


Momento de agradecer a acolhida
- e nós, o belo show da lendária Black Rio



texto: Daniel Rodrigues
fotos e vídeos: Daniel Rodrigues e Leocádia Costa

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Moacir Santos - "Coisas" (1965)


"Moacir Santos é um jedi."
Ed Motta

"Eu sou o 'Ouro Negro' do Brasil."
Moacir Santos

A música popular brasileira, mesmo com sua trajetória centenária, demorou a se reconhecer negra. O samba, ritmo mais característico do Brasil, embora a gênese africana, com elementos oriundos das nações Banto, Iorubá, Jeje, Mina, Bornu, Gurunsi e outras, sofreu, ao longo do tempo, com diversas intervenções que, às vezes propositalmente, o distanciaram da origem. Caso do "boleramento" do samba da Rádio Nacional, nos anos 40 e 50, e da própria bossa-nova, demasiado jazz para ouvidos mais ortodoxos. O morro, mesmo, não aparecia no cenário. Ambas as ondas propunham características tão estrangeiras, que só faziam reduzir o espaço simbólico da verdadeira raiz da música brasileira, fosse por modismo, entreguismo ou, pior, vergonha.

Jorge Ben, com o emblemático “Samba Esquema Novo”, de 1963, foi o primeiro sopro de resgate deste africanismo na MPB. Instintivo, pop e moderno, levava a raiz afro-brasileira a outro nível ancorado na tradição violeira. Mas ainda era pouco. Se se olhar para uma das pinturas de Heitor dos Prazeres (aliás, também um grande sambista), que tematizam a gente do samba dos morros e das ruas, fica claro que havia uma série de outros instrumentos – e, portanto, outras texturas e tonalidades – nas rodas e cordões cariocas do início do século 20, que iam além do pandeiro e tarol. Como descreve José Ramos Tinhorão em seu “Os Sons Negros no Brasil”, cabia no samba toda a influência ibérica trazida da Europa pelos portugueses, como o fado e a fofa, mais as diversas culturas diaspóricas vindas da África, tal o batuque, o calundu, o folguedo e a umbigada.

Alguma coisa haveria de salvar a africanidade na música brasileira, e isso veio das mãos de Moacir Santos. Compositor, arranjador, saxofonista e vocalista, este pernambucano lança seu primeiro e absolutamente marcante álbum de estreia com base nas lições que ensinava a seus alunos, as despretensiosamente chamadas “coisas”. Acontece que essas "coisas" eram preciosidades, assim como os seus seguidores. Seus discípulos – entre eles, nada menos que Baden Powell, João Donato, Paulo Moura, Sérgio Mendes, Nara Leão, Eumir Deodato, Carlos Lyra e Roberto Menescal – aprenderam estes valiosos ensinamentos de harmonia e composição com um já maduro e experiente músico capaz de sinterizar mundos. Ex-integrante de orquestras de circo e bandas militares de diversas cidades do Nordeste, nos anos 40, Moacir, após trabalhar como instrumentista e arranjador da orquestra da Rádio Nacional, em 1951, já no Rio de Janeiro, aperfeiçoou seus estudos eruditos com os maestros alemães Ernest Krenek (que o introduz na técnica dodecafônica) e o célebre Hans-Joachim Koellreuter, de quem se tornou assistente, além de estudar também com Claudio Santoro e Cesar Guerra-Peixe.

Lançado há 60 anos pelo cultuado selo Forma – responsável por obras icônicas da música brasileira dos anos 60 como “Os Afro-Sambas”, de Vinicius de Moraes e Baden, e a trilha sonora de Sérgio Ricardo para “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, o filme de Glauber Rocha“Coisas” é justamente o nome dado ao disco que resume as avançadas ideias musicais de Moacir Santos. O trabalho revitaliza a bossa-nova sob a aura das matrizes africanas, ao passo de que também engendra harmonias jazzísticas e ritmos da cultura nordestina, como o frevo, o samba-de-roda, o maracatu e as bandas marciais. A valorização da cultura negra é perceptível tanto na atenção dispensada pelo compositor à percussão, com a incorporação de instrumentos pouco usuais (como berimbau, kalimba, atabaque, agogô e afoxé), como na invenção de uma base rítmica original, ligada a esse matiz. Coisa de gênio. 

São apenas 10 coisas, ou melhor: 10 lições instrumentais, que inventam esse Brasil profundo e sofisticado de Moa. "Coisa n° 4" não à toa passa à frente de suas três companheiras ordinárias para abrir o disco, visto que escolhida para provocar o impacto necessário ao florescer da obra. E o cumpre com louvor: um ritmo de ponto de candomblé se funde a uma base de metais em tom baixo, como o de uma banda marcial em dia de quermesse. É quando entra o trombone solo de Edmundo Maciel desenhando o riff, que serpenteia com elegância o ritmado carregado do culto de orixá. Depois, juntam-se trombone, metais e madeira, num desenvolvimento melódico airoso.

Moacir, revolucionário e mestre dos mestres
da música brasileira 
Dá tempo de recuperar o fôlego – talvez nem tanto assim – com a “nº 10”, uma bossa-nova com traços caribenhos com uma das melodias mais bonitas já escritas por Moacir. Samba-jazz puro, seja no toque sincopado do piano, seja na insinuante linha do trompete. Tudo muito apurado e com clara referência aos mestres Tom Jobim, Johnny Alf, João Donato e Antônio Maria.

Recuperando o tema escrito dois anos antes para a trilha sonora de “Ganga Zumba”, o primeiro filme de Cacá Diegues, “Tema de Nanã” vira agora a “Coisa nº 5”. Novamente, como na abertura do disco, o toque percussivo prevalece, mas logo se transforma numa marcha, que dignifica o gênio militar do herói quilombola. O arranjo de Moacir é espantosamente bem arquitetado, conjugando todos os metais e madeiras (sax alto, sax barítono, sax tenor, trompete, trombone, trombone baixo e flauta). Um ano antes, Nara, com arranjos do próprio autor, a incluiria em seu celebrado álbum de estreia cantando-a apenas em melismas. Somente em 1972 a música ganharia letra – e em inglês – no LP “Maestro”, que Moacir gravaria já nos Estados Unidos, para onde se mudou em 1967 para lecionar e exercer trabalhos free-lancer para cinema.

Enquanto o tema “3” é quase o estudo de um samba minimalista escrito sobre a combinação de três acordes, a “segunda coisa”, que vêm na sequência, esmera num jazz sensual e enigmático conduzido pela bateria de Wilson das Neves e o vibrafone do seu irmão, o também percussionista Cláudio das Neves. Desfilam solos da flauta de Copinha e o trombone baixo de Armando Pallas sobre uma base arranjada no tom médio dos metais. Nesta fica clara a habilidade melódico-harmônica de Moacir, que emprega escalas modais e ambíguas no uso das terças (ora maiores, ora menores), gesto que que torna o número ainda mais negro.

Outra estonteante é a de “nº 9”, subtitulada "Senzala", um lamento nagô com ares jazzísticos cujo toque do sax alto sustenta uma das melodias mais bonitas da música brasileira pós bossa-nova. Há algo arábico nessa melodia em permanente mistério, como uma saudade da mãe-África, como um banzo. Não se nota exaltação: apenas o sofrimento calado das correntes prendendo a pele escrava na escaldante noite no engenho. Já a “Coisa nº 6” acelera o compasso para um samba gafieira em que a volumosa instrumentalização dignifica Severino Araújo e a Orquestra Tabajara. Ritmada, suingada e lindamente melodiosa.

Não menos brilhante, a “sétima lição” é um samba-jazz exemplar, das melhores desse primeiro e referencial repertório de Moacir. Já a “Coisa nº 1”, não menos elegante, forja-se sobre uma sutil percussão de bongôs, um violão sincopado e a dança dos metais, que esculpem este samba cadenciado, que capta as lições da bossa nova e as ressignifica ao deslocar rítmicos e métricos, característica do compositor pernambucano.

Intitulada de “Navegação” em 2001, quando ganhou letra de Nei Lopes e vocal de Milton Nascimento para o álbum-tributo “Ouro Negro”, produzido por Zé Nogueira e Mário Adnet, e um dos mais cultuados temas do cancioneiro de Moa, a “Coisa nº 8” é a escolhida para fechar essa pequena ópera preta. E no mais alto nível de musicalidade e sofisticação. Mesmo sem o vocal, é possível embarcar neste navio moaciriano e intuir os versos: “Da proa desta embarcação/ Consigo interpretar, enfim/ A carta de navegação/ Que o mar traçou dentro de mim”.

Não é exagero dizer que, se não existisse “Coisas”, não existiriam “Os Afro-Sambas” de Vinicius e Baden, nem a África universal do Milton de “Minas"/"Geraes”, nem a “Maria Fumaça” soul-funk da Black Rio, nem o samba enraizado do Martinho da Vila de “Origens”, nem a “Refavela” de Gilberto Gil, nem a musicalidade colorida da Europa moura de Djavan. Não haveria lastro para tudo isso não fosse Moacir Santos e o salvamento que ele promoveu à música brasileira negra. Tal uma nova abolição. Como disse Ed Motta, Moacir é “essa mão de proteção sobre as nossas criações e de tudo que a gente tem pra fazer daqui pra frente”. O que quer dizer muita, mas muita coisa.

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FAIXAS:
1. "Coisa Nº 4" - 4:01
2. "Coisa Nº 10" (Moacir Santos, Mário Telles) - 3:06
3. "Coisa Nº 5 (Nanã)" (Santos, Telles) - 2:45
4. "Coisa Nº 3" - 3:00
5. "Coisa Nº 2" - 4:55
6. "Coisa Nº 9 (Senzala)" (Santos, Regina Werneck) - 3:08
7. "!Coisa Nº 6" - 3:22
8. "Coisa Nº 7 (Quem É Que Não Chora?)" (Santos, Telles) - 2:25
9. "Coisa Nº 1" (Santos, Clovis Mello) - 2:41
10. "Coisa Nº 8 (Navegação)" (Santos, Werneck) - 2:19
Todas as composições de autoria de Moacir Santos, exceto indicadas

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Daniel Rodrigues

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Música da Cabeça - Programa #427


Hermeto nos ensinou que música está em tudo. Percebendo-a em todos os lugares, o MDC 427 homenageia o Bruxo e traz também outras bruxarias sonoras, como as de The Who, George Clinton, PJ Harvey, Milton Nascimento, Beth Carvalho e outros. E claro: o quadro Cabeção é com ele: Hermeto Pascoal, que nos deixou esta semana para ir morar no universo música. Ouvindo acordes em qualquer coisa, o programa toca seus instrumentos às 21h na musical Rádio Elétrica. Produção, apresentação e som de chaleira: Daniel Rodrigues


WWW.RADIOELETRICA.COM

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

João Donato - “Lugar Comum” (1975)

 

Acima, arte da capa original de
autoria de Rogério Duarte; abaixo,
capa da reedição em CD de 2004 

“Naquele momento fazíamos tudo informalmente: saíamos pelas noites, ele cantarolava as músicas e eu imaginava palavras pra elas. Assim fizemos ‘Bananeira’, ‘A Bruxa de Mentira’, ‘Emoriô’, ‘Que Besteira’”. 
Gilberto Gil

"A mais alta conquista de extrema complexidade em extrema simplicidade."
Caetano Veloso sobre João Donato


No final dos anos 60, João Donato e Gilberto Gil estavam distanciados de casa. Eles voltariam para o Brasil, porém, praticamente ao mesmo tempo, em 1972. Só que em condições totalmente distintas. Donato, depois de uma temporada frutífera de 10 anos nos Estados Unidos, em que tocou com músicos de alto calibre como Chet Baker, Buddy Shark e Wes Montgomery e lançou discos referenciais para o nascente jazz fusion, tal “A Bed Donato” e “Donato/Deodato” - este último, ao lado de outro brasileiro destacado no meio musical americano, Eumir Deodato. Um dos pioneiros da bossa nova, o acreano já era uma lenda entre os músicos brasileiros e já havia formatado seu estilo misto de samba com ritmos caribenhos e harmonias jazzísticas sofisticadas, o que só foi aperfeiçoado com a longa experiência nos EUA. 

Gil, por sua vez, deixaria o País em 1969 por um motivo bem mais espinhoso. Artífice do Tropicalismo, o baiano teve de se exilar em Londres por causa da Ditadura Militar junto com o parceiro e conterrâneo Caetano Veloso. Se o tempo de permanência foi bem menor do que o de Donato no estrangeiro, a sensação foi de que muitas vidas foram vividas naqueles pouco mais de 3 anos em solo europeu. Antenado e holístico, Gil aproveitou para se apropriar da atmosfera da Swingin’ London, mas, claro, não sem sentir falta do Brasil.

O retorno para casa representava, assim, tanto para Donato quanto Gil, um reencontro com suas próprias origens. O primeiro, de tão feliz, passou a escrever letras para suas composições instrumentais e, inclusive, a cantar, algo inédito até o célebre “Quem é Quem”, de 1973, quando se escuta pela primeira vez o registro de sua voz. Além disso, Donato arranjou e tocou com diversos artistas como Gal Costa, Marku Ribas, Emílio Santiago e Caetano, sempre adicionando sua musicalidade colorida e luminosa como sol dos trópicos. Estava pleno e realizado, semelhante a Gil, que retornara da expatriação com discos marcantes (“Expresso 2222”, “Gil & Jorge ou Xangô/Ogum”) e produzindo os amigos, como Jorge Mautner, Jards Macalé e Walter Smetak. Queria, agora, era aproveitar.

Não surpreende que estes dois brasileiros cheios de amor por sua terra se conectassem. O resultado disso está no não coincidentemente intitulado “Lugar Comum”, disco de Donato, que completa 50 anos de lançamento e que, embora creditado apenas a este, tem a essencial participação de Gil. Das 12 faixas, 8 são em parceria dos dois. Além disso, o próprio Gil é quem canta e/ou põe voz em quase metade dos números, inclusive creditado na ficha como responsável pelas “harmonias vocais” da obra como um todo. O protagonismo de Gil, somado ao de Donato, é tanto, que certamente credenciaria “Lugar...” a ser assinado por ambos. Mas quis-se – seja por camaradagem, modéstia ou questões contratuais – que somente o nome de Donato estivesse na capa.

Gil e Donato em 2006: reencontro para
cantarem juntos outra vez
Na contracapa e no miolo, no entanto, a união com Gil é evidente. A sonoridade jazzística de Donato cede espaço à africanidade baiana de Gil, seja em temas clássicos dos dois, como “Emoriô” e “Patumbalacundê”, seja contagiando outras, tal “Xangô É de Baê” (de Donato com Rubem Confete e Sidney da Conceição) ou “Ê Menina” (Donato e Gutemberg Guarabyra). Essa atitude afro-brasileira, que principalmente Gil começava a prescrutar – e que se manifestaria fortemente em dois de seus trabalhos subsequentes, ”Refavela” e ”Realce”, de 1977 e 79, respectivamente –, está evidente na instrumentalização do disco, que explora os microtons da percussão. Mas sem deixar de aproveitar também os ricos e característicos arranjos de Donato, que equilibram metais, madeiras, vozes e teclados em tons médios, tão bem escritos que suplantam as cordas. Caso da solar e lúdica “A Bruxa de Mentira” (“Não vejo a hora de ir/ Na barraquinha comprar/ Rapadoçura bombom/ Bruxinha gostosura (gostosura)”), que bem podia compor a trilha sonora de algum programa ou especial infantil como os que a TV brasileira tinha à época.

A faixa-título e de abertura, uma bossa nova refinada guiada pelo piano elétrico de Donato e completada por frases dos metais/madeiras, é um verdadeiro primor da MPB dos anos 70. A letra, igualmente, uma preciosidade: “Beira do mar, lugar comum/ Começo do caminhar/ Pra beira de outro lugar/ Beira do mar, todo mar é um/ Começo do caminhar/ Pra dentro do fundo azul”. Gravada por Gil um ano antes, no show "Ao Vivo no Tuca", “Lugar...”, antes chamada “Índio Perdido”, é um dos exemplos de temas instrumentais de Donato já existentes, que passam a ganhar letra e título diferente nesta época. Outra da dupla Gil/Donato, a rumba “Tudo Bem”, cantada pelos dois em coro, é de uma simplicidade formal e, ao mesmo tempo, beleza melódica, assombrosas. Poucos instrumentos (piano, violão, percussão e baixo) e um clima da mais pura Cuba musical.

Donato, mestre em criar arranjos engenhosos sobre melodias de estrutura simples, emprega esse método noutra clássica dele e de Gil: “Bananeira” – a qual ganharia, naquele mesmo ano, uma versão bem mais funk de Emílio Santiago em sua disco de estreia e cujo arranjo conta com a versatilidade do próprio Donato. Eles assinam juntos ainda “Deixei Recado”, um afoxé impregnado de jazz encarregado de encerrar de forma muito afro-baiana o álbum, e “Que Besteira”, típica composição forjada pelo improviso de dois artistas felizes com aquele recente e frutífero encontro e conscientes da beleza do que estavam criando. 

“Lugar...” ainda conta com mais duas pequenas joias com outros parceiros de Donato: “Pretty Dolly”, com Norman Gimbel, letrista norte-americano cantado por nomes como Sarah Vaughan, Dean Martin e Tony Benett e responsável pela tradução de “Garota de Ipanema” (“The Girl from Ipanema”), que popularizou o hino da bossa nova para o mundo; e “Naturalmente”, a primeira de uma série que assinaria com Caetano e que impressiona pela modernidade de letra e música, que lembra o pós-tropicalismo de Walter Franco e antecipa em quase 10 anos o rock concretista de Arnaldo Antunes/Titãs.

Gil conta, em seu livro “Gilberto Bem Perto” (coescrito com Regina Zappa), que várias músicas dele e de Donato surgiram de maneira informal, quando os dois caminhavam de noite do Rio de Janeiro costeando as praias compondo e se divertindo. Esta cena de espontaneidade e comunhão é a imagem perfeita da magia do encontro destes dois gênios, que tanto sentiram falta do calor dos trópicos. Agora, juntos, na beira do mar, recomeçavam o caminhar para a beira de outro lugar. Um lugar comum a eles: a música do Brasil.

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FAIXAS:
1. “Lugar Comum” (Gilberto Gil, João Donato) - 3:32
2. “Tudo Tem” (Gil, Donato) - 3:20
3. “A Bruxa De Mentira” (Gil, Donato) - 3:21
4. “Ê Menina” (Gutemberg Guarabyra, Donato) - 3:02
5. “Bananeira” (Gil, Donato) - 3:31
6. “Patumbalacundê” (Durval Ferreira, Gil, Donato, Orlandivo) - 3:05
7. “Xangô É de Baê” (Donato, Rubem Confete, Sidney da Conceição) - 3:13
8. “Pretty Dolly” (Donato, Norman Gimbel) - 2:19
9. “Emoriô” (Gil, Donato) - 3:25
10. “Naturalmente” (Caetano Veloso, Donato) - 3:22
11. “Que Besteira” (Gil, Donato) - 3:37
12. “Deixei Recado” (Gil, Donato) - 2:14


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OUÇA O DISCO:


Daniel Rodrigues