Curta no Facebook

Mostrando postagens com marcador Samba. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Samba. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 24 de junho de 2026

A Seleção do Chico


Existem muitos Chico Buarque. O malandro, a mulher, o político, o literato, a criança, o amante, o cronista. Todos eles, de alguma maneira, podem ser vistos em outros compositores da música brasileira. Mas um desses Chico que poucos conseguem reproduzir é o boleiro. Fluminense roxo, além de meia-armador e cartola do seu próprio time, o Politheama, Chico, do alto de seus 82 anos, viu muitas Copas do Mundo e muitos jogadores da Seleção Brasileira, entre estes, suas principais admirações dentro de campo: Pelé e Mané Garrincha. Nada melhor, portanto, que recorrer à obra de Chico neste momento de Copa.

Além do maior de todos os tempos e o gênio das pernas tortas, o futebol aparece no cancioneiro buarqueano recorrentemente. Assim, nós reunimos – tal qual fizemos para com Jorge Benjor na primeira rodada da Copa do Mundo EUA/México/Canadá – 11 delas neste dia da terceira partida da Seleção Canarinho. As referências ao futebol são as mais diversas, de uma zoação a um amigo flamenguista à simples menção ao jogo de bola.

Independentemente de como se aborda, o certo é que, na obra magistral de Chico Buarque, estamos falando sempre de grandes músicas. Dia de partida da Seleção na Copa? Eis, então, a Seleção do Chico! 

⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽



"Para estufar esse filó
Como eu sonhei
Se eu fosse o Rei"



1. "O Futebol", do álbum "Chico Buarque" (1989)Já que o tema é o esporte mais popular do mundo, nada melhor do que começar uma lista de 11 músicas de Chico sobre o tema com uma que se chama, justamente, “O Futebol”. Poucas vezes – ou talvez nenhuma – um compositor conseguiu traduzir com tamanha poética a dinâmica e a alma do futebol. A música faz curva como a própria bola, e a letra se integra a uma partida imaginária e onírica. Futebol-arte é isso aqui.

Ouça: O Futebol









2. "Barafunda", do álbum "Chico" (2011): Sabe quando a memória falha, mas aquilo que se quer lembrar está na ponta da língua? Aquele nome, aquela palavra, aquela memória que quase vêm à mente, mas em seguida escapa de novo, e a cabeça fica naquele ciclo interminável. No delicioso samba “Barafunda”, além de trazer essa letologia, Chico ainda integra-a ao universo do futebol de forma brilhante. Afinal, quem nunca se esqueceu exatamente como foi aquele lance? Será que aquele gol foi do Pelé... ou foi do Mané...?

Ouça: Barafunda



"Zanza na sarjeta
Fatura uma besteira
E tem as pernas tortas
E se chama Mané"


3. "Pivete", do álbum "Chico Buarque" ou "Disco da Samambaia" (1978)Essa é daquelas em que mais de um Chico aparece. Embora prevaleçam o cronista e o crítico social, o boleiro não deixa de marcar presença. A música, parceria com Francis Hime de 1978 e regravada em 1992, em "Paratodos", relata a vida marginal de trombadinhas nas ruas do Rio de Janeiro. Entre um assalto, um subemprego e uma esmola, as crianças desprezadas pela sociedade vivem para sobreviver sem nenhuma perspectiva de futuro. Quem sabe, se não tivessem oportunidade, não teríamos ali um Pelé ou um Garrincha?

Ouça: Pivete





4. "Pelas Tabelas", do álbum "Chico Buarque" (1984)O cara deve ter aprontado uma boa pra mulher dele, hein! Tanto que, em todo lugar que vai, ele a enxerga lá, pronta para pegá-lo e decapitá-lo (ou coisa pior...). E mais: só ele que sabe dessa situação. “Claro que ninguém se toca com minha aflição”, confessa o desgraçado. Seja da favela, nas janelas ou nas ruas, ele sabe que sua hora vai chegar. Já está até vendo sua “cabeça rolando no Maracanã” feito bola depois de ser degolado pela esposa.

Ouça: Pelas Tabelas



“Quem que te mandou tomar conhaque
Com o tíquete que te dei pro leite
Quieta, que eu quero ouvir Flamengo e River Plate”


5. "Biscate", do álbum "Paratodos" (1993)Outra que relata de forma divertida a relação marido/mulher e, claro, tendo o futebol no meio, é “Biscate”. Duo dele com a saudosa Gal Costa, é feita justamente para duas vozes, uma masculina e outra feminina, reproduzindo 0 conflituoso mas ao mesmo tempo apaixonado relacionamento deste casal típico de classe média carioca. Ciumentos, marrentos, vaidosos, inseguros, implicantes mas, no fundo, amantes. E ele, Chico, que nem flamenguista é, larga uma rima preciosa que combina "leite" com "River Plate".

Ouça: Biscate





6. "Feijoada Completa", do álbum "Chico Buarque" ou "Disco da Samambaia" (1978): Obviamente que é uma cena fictícia, mas chega a dar para vê-la: Chico com a galera da MPB-4, João Nogueira, Paulo César Caju, Bob Marley e outros amigos chegando suados em casa depois de uma pelada do Politheama e pondo a então esposa Marieta Severo pra cozinhar praquele batalhão todo. Caipirinha, cerveja estupidamente gelada, aperitivo, tudo rolando ali mesmo, no chão, e uma feijoada com tudo que se tem direito no fogo. 

Ouça: Feijoada Completa



"Pintei de branco o teu preto
Ficando completo
O jogo de cor
Virei-lhe o listrado do peito
E nasceu desse jeito
Uma outra tricolor”


7. "Ilmo. sr. Cyro Monteiro ou Receita pra Virar Casaca de Neném", do álbum "Chico Buarque de Hollanda nº 4" (1970)O sambista Cyro Monteiro era flamenguista fanático, Tanto que, quando nasceu a primeira filha de Chico e Marieta Severo, Sílvia, ele teve a cara de pau de enviar de presente para o bebê uma camisa rubro-negra para Roma, na Itália, onde a menina nasceu durante o exílio de Chico, só pra zoar com o amigo tricolor. Chico, bem humorado e irônico, respondeu à altura compondo este samba. Cyro foi "tirar uma" e deu nisso: levou uma bola no contrapé.








8. "Jogo de Bola
", do álbum "Caravanas" (2017)De novo, vários Chico fazendo tabelinha. O romântico e o sambista criam uma analogia direta com o jogo nas quatro linhas. Composição do último disco do artista, “Caravanas”, de 2017, em que ele capricha na qualidade letrística para falar de um amor perdido. “Outrora, quando em priscas eras/ Um puskás eras/ A fera das feras da esfera, mas agora/ Há que aplaudir o toque/ O tique-taque, o pique, o breque, o lance.” Olha o que ele fez!

Ouça: Jogo de Bola




“Ai, que saudades que eu tenho
Duma travessura
Um futebol de rua"

9. "Doze Anos", do álbum "Ópera do Malandro" (1978)Essa é bem de boleiro, que cresceu jogando bola na rua e nos campinhos na Zona Sul do Rio. Escrita para o mega-musical “Ópera do Malandro”, de 1978, foi interpretada no palco pelos atores Otávio Augusto (Max Overseas) e Tony Ferreira (Chaves), mas, no disco, tem nada menos que o próprio Chico em duo com Moreira da Silva. O intrépido Kid Moringueira, malandro à moda antiga, arranca gargalhadas de Chico neste samba-de-breque saboroso.

Ouça: Doze Anos






10. "Hino do Politheama", do DVD "Chico Buarque - O Futebol" (2006)No seu documentário sobre futebol, Chico fala da lenda de seu time, o Politheama, nunca ter perdido uma partida. Essa fama foi parar no hino do clube, escrito, claro, pelo próprio atleta, presidente e principal símbolo: “Politheama, Politheama/ O povo clama por você/ Politheama, Politheama/ Cultiva a fama de não perder”. Segundo Chico, em 2006, eram 2600 jogos oficiais disputados - principalmente, no Centro Recreativo Vinicius de Moraes - e nenhuma derrota. Apenas alguns empates.






“Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock 'n' roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol"

11. "Meu Caro Amigo", do álbum "Meus Caros Amigos" (1976)Reza a lenda que “Meu Caro Amigo” foi escrita, como se diz na gíria do futebol, aos 45 do segundo tempo, quando as gravações já estavam chegando ao fim e faltava ainda uma música para fechar o disco. No improviso, como um craque que tem muito recurso, Chico puxou uma caneta, que em poucos minutos trouxe a letra deste chorinho de parceria com Francis. A história era fictícia, mas muito pertinente: uma carta a um amigo exilado – tal como ele, Chico, e família estiveram anos antes por causa da Ditadura – querendo saber notícias do Brasil. Neste contexto, o futebol aparece com certa tristeza, mas também como resistência. O cronista e o boleiro jogando no mesmo time. 



Daniel Rodrigues

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Música da Cabeça - Programa #456

 

Tá uma encheção de saco esse abre e fecha do Estreito de Ormuz, esse sobe e desce do preço do petróleo. O que permanece estável é o MDC, por onde, igual a toda semana, trafega o que há de melhor em música. The Smashing Pumpkins, Tom Jobim, The Sonics, Lupicínio Rodrigues e Roberto Carlos, por exemplo, têm acesso livre ao nosso canal. Igualmente, um Sete-List embarcado de muita História. Desbloqueado, o programa cruza pela marítima Rádio Elétrica exatamente às 21h. Produção, apresentação e fluxo normalizado: Daniel Rodrigues


www.radioeletrica.com

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Música da Cabeça - Programa #455

 

Essa cara de espanto do quadro não é por causa do estilo cubista e nem em razão da pechincha que foi o leilão desse Picasso. O que realmente causa assombro é o MDC de hoje, só com verdadeiras pinturas em forma de música. The Beatles, Cartola, Bent, Neil Young e Elis Regina revelam seus traços. Igualmente, a gente repete o quadro Cabeção de março de 2021 para celebrar os 90 anos da compositora de vanguarda brasileira Jocy de Oliveira. Com uma paleta muito viva, o programa "pinta" por aqui às 21h na artística Rádio Elétrica. Produção, apresentação e tintas próprias: Daniel Rodrigues


www.radioeletrica.com


quarta-feira, 8 de abril de 2026

Música da Cabeça - Programa #454

 

Os tripulantes da Artemis II estão sobrevoando a Lua e observam o pôr-do-sol...  mas o que é esse planeta no horizonte?! É o planeta Música, gente! Para quem matou essa aula, a gente explica: esse distinto astro, cientificamente chamado de MDC 454 d, é cheio de vida e emite sinais sonoros ao ritmo de Marina, The Kinks, Louis Armstrong, Banda Black Rio e Barão Vermelho. Ela também se compõe de melodias e arranjos de Luiz Eça, cuja estrela continua irradiando seu brilho pelo espaço mesmo após sua morte. A nave está programada para entrar na rotação da Terra às 21h na estelar Rádio Elétrica. Produção, apresentação e um satélite na cabeça: Daniel Rodrigues


www.radioeletrica.com


quarta-feira, 25 de março de 2026

Música da Cabeça - Programa #452

 

Bomba! Revelado o verdadeiro Power Point que liga o MDC a suas conexões! Mas aqui não tem mau jornalismo e nem intenções lavajatistas! Afinal, Sly & Family Stone, Neguinho da Beija-Flor, Cláudia, The Smiths e Jackson Browne sabem muito bem do que estão falando. Ainda, Eliane Elias ilustra nosso Cabeça dos Outros desta semana. Com distorção só de guitarras, o programa entra no modo apresentação às 21h na imparcial Rádio Elétrica. Produção e apresentação sem erro: Daniel Rodrigues 


www.radioeletrica.com

quarta-feira, 18 de março de 2026

Música da Cabeça - Programa #451

Como se já não bastasse a guerra, agora um manda animação Lego pra cá, videogame pra lá... Sem brincar com coisa séria, o MDC solta seus mísseis também, mas só os musicais. Hoje, Johnny Rivers, Kraftwerk, Jorge Bem Jor, Nirvana e Chico Science miram seus alvos. No Cabeção, igualmente, uma explosão de talento com os 80 anos da deusa Liza Minelli. Divertida-mente cultural, o programa vai ao ar às 21h na "gamificada" Rádio Elétrica. Produção, apresentação e meme pela paz: Daniel Rodrigues


www.radioeletreica.com

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

COTIDIANAS nº887 Especial de Carnaval - "O samba é um desconforto potente"



As ruas são mães do samba ainda que muitas vezes tentem trancar a criança em casa. Percebo que tem uma turma acreditando em uma dicotomia perigosa: a que o samba é um retrato da nossa cordialidade como povo e o funk é o retrato de um Brasil violento, misógino e cruel. Um amigo acaba de me perguntar se eu concordo que o samba retrata um Brasil mais gentil, festeiro, carnavalesco.
Acho que a carnavalização do samba - aquele processo de vinculá-lo apenas ao perfil de música que borda a nossa suposta simpatia - foi e continua sendo em larga medida uma tentativa de domá-lo (seja por parte do Estado, da indústria fonográfica, da mídia, do mercado publicitário, de alguns sambistas etc.), exatamente porque o samba é muito mais complexo e problemático - no sentido de não se domar a análises superficiais - do que isso.
Muito mais do que gênero musical ou bailado coreográfico, o samba é elemento de referência de um amplo e complexo cultural que dele sai e a ele retorna, dinamicamente. Nos sambas vivem saberes que circulam; formas de apropriação do mundo; construção de identidades comunitárias dos que tiveram seus laços associativos quebrados pela escravidão; hábitos cotidianos; jeitos de comer, beber, vestir enterrar os mortos, amar, matar, celebrar os deuses e louvar os ancestrais. Reduzir o samba ao terreno imaginário onde mora a alegria brasileira do carnaval é um reducionismo completo.
Não custa recordar que o discurso do samba, e de toda a múltipla musicalidade oriunda da diáspora africana, também está no fundamento do tambor, que fala daquilo que nossas gramáticas não nos preparam para ler. O tambor - e são tantos! - vai buscar quem mora longe, e isso é muito sério.
O samba – de cara podemos lembrar – até a complexidade de experiências que o definem – é testemunho e fonte documental para contratar as nossas contradições poderosas, o nosso horror e as nossas escapadelas pelas frestas da festa: o beijo na cabrocha, O assassinato de Malvadeza Durão, a alvorada no morro, a prisão do Chico Brito que fuma erva do norte, a ilusão de um olhar, o mulato calado que já matou um e se garante na inexistência do X-9 em Mangueira, os poderes do jongueiro cumba, o batizado do neguinho vestido de anjo em Pirapora, o preconceito racial no casamento do neguinho e da senhorita, as porradas que o delegado Chico Palha enfiava em macumbeiro nos tempos da vadiagem, a navalha no bolso, o revólver como maneira nossa de entrar no século do progresso, a mulher vitimada pela violência, submissa como Amélia, rebelde e altaneira como Gilda; o tiro de misericórdia no menino que cresceu correndo nos becos que nem ratazana e morreu como um cachorro, gemendo como um porco... Tá tudo no samba.
Foi exatamente o samba, sobre o qual reflito sistematicamente, que me fez perceber e encarar um Brasil de complexidades que não comportam dicotomias reducionistas. O samba é um desconforto potente para que o Brasil se reconheça como produtor constante de horror e beleza. É o filho mais duradouro dos tumbeiros, em tudo que isso significa de tragédia, redenção, subversão, negociação, resistência, harmonia, violência, afeto, afirmação de vida e pulsão de morte na nossa história. O samba é a entidade mais poderosa das falanges da rua.

**********************************

"O samba é um desconforto potente"
Luiz Antonio Simas

domingo, 15 de fevereiro de 2026

"O Corpo Encantado das Ruas", de Luiz Antonio Simas" - ed. Civilização Brasileira (2020)




"Nos últimos anos comecei a amadurecer dois princípios que hoje são a base do que escrevo. O primeiro é o de que os temas que me interessam são vinculados aos processos de invenção e reconstrução de laços de sociabilidade no campo das sapiências das ruas: sambas, escolas de samba, carnavais, terreiros, pequenos comércios, quermesses de igrejas, saberes da trívia e os modos de criação da vida de crianças, mulheres e homens comuns: aquilo que podemos definir como cultura."

"Temos cada vez mais necessidade de ousar olhares originais contra a tendência de normatização, unificação e planificação dos modos de ser das mulheres e dos homens no mundo."
trechos do livro "O Corpo Encantado das Ruas"



"O Corpo Encantado das Ruas" é a exaltação daqueles hábitos urbanos que foram escasseando, sumindo, sendo aos poucos extintas, por conta das modernizações, da tecnologia, das pressões socais, do politicamente correto que sufocam a cidade e seus cidadãos roubando, a cada dia, um pouco do prazer de viver nas coisas simples.

Práticas, pessoas, lugares, comidas, são lembradas pelo sempre aprazível Luiz Antonio Simas, professor e historiador, mestre em história social, botafoguense apaixonado e especialista em carnaval, com a nostalgia de quem viveu coisas tão gostosas, puras, curiosas, ímpares do cotidiano carioca, mas que agora lamenta o impositivo sepultamento desses costumes que nos faziam um pouco mais humanos. 

Simas nos apresenta personagens lendários das ruas do Rio, recupera os antigos blocos de bairro, festejos, fala com saudade das brincadeiras de rua como pipas e carrinhos de lomba, reverencia acepipes clássicos de boteco, cita remédios naturais da sabedoria do povo, lamenta a arenização do futebol e a elitização da torcida, e sobretudo exalta a cultura negra dentro do contexto da identidade do Rio de Janeiro, seja nos terreiros de umbanda, nas esquinas, nas comidas, na sabedoria popular ou no carnaval.

Livro gostoso em cada capítulo, cujos episódios e passagens são expostos de forma, às vezes, melancólica, é verdade, mas não por isso menos suave e, não raro, divertida e engraçada. Faz a gente ficar com uma certa saudade do tempo em que as coisas eram mais simples.



Cly Reis


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Música da Cabeça - Programa #447

 

Tanto esforço desses praticantes do curling nas Olimpíadas de Inverno pra deslizar aquela pedra! Pra que tudo isso, gente?! O alvo é mais fácil que vocês imaginam, pois nem precisa esfregar a vassourinha pra acertar no MDC, que terá Living Colour, Beatles, Bauhaus, Robson Jorge, Marina e mais. Tem também quadro especial aludindo ao samba e ao Carnaval, que tá se aproximando rapidinho igual à pedra do curling. Deslizando em seus ouvidos o programa entra na pista hoje às 21h na esportiva Rádio Elétrica. Produção, apresentação e vassourinha na mão (mas a de frevo, afinal, o Carnaval tá aí): Daniel Rodrigues


www.radioeletrica.com

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

"Araca: Arquiduquesa do Encantado - Um perfil de Aracy de Almeida", de Hermínio Bello de Carvalho - Ed. Folha Seca - Edição Ampliada (2025)



por Márcio Pinheiro

 "Todos podem desafinar ao cantar. Aracy, nunca.”
Paulinho da Viola


Com a nobreza que reveste algumas figuras míticas dos subúrbios do Rio, Hermínio Bello de Carvalho desenha o perfil de Aracy de Almeida em "Araca – Arquiduquesa do Encantado" (Folha Seca). Não espere um retrato convencional, rico em detalhes, linear na estrutura e repleto de informações. Hermínio nem sequer informa direito onde e quando Aracy nasceu. Conclui-se que, se em 1986 ela tinha 72 anos, é sinal que morreu com 74 em 1988, vítima de um derrame.

O que Hermínio oferece em Araca é, sim, um olhar único e peculiar sobre uma das artistas mais originais que o Brasil já teve. Uma visão impressionista de quem aproxima a homenageada do leitor, sem ranço ou reverência, ressaltando as pequenas histórias – como o fato de Aracy não usar calcinhas, preferindo as cuecas samba-canção brancas (com monograma bordado, detalhe importante) – e as tiradas espirituosas que caracterizavam a personagem.

Intérprete de timbre marcante, com voz anasalada e os "erres" arrastados, que deslumbrou Mário de Andrade e Noel Rosa (para citar apenas dois), Aracy surge em Araca como a doidivanas que beira o folclore, mas também como a artista sensível, capaz de apreciar Bach, Louis Armstrong, Ella Fitzgerald e os tangos de Gardel. Até ópera entrava no repertório afetivo-musical de Aracy "Ih, adoro aquele berreiro", costumava dizer entre o jocoso e o respeitoso.

Personagem que foi maior do que a sua obra, Aracy foi existencialista antes do existencialismo e hippie antes de Woodstock. Era uma boêmia que gostava de ficar em casa cozinhando para os amigos, que bebia muito uísque escocês só com gelo e que, apesar de não gostar de crianças, dava festas de Natal inesquecíveis. Não gostava de dar canjas musicais e, quando convocada, respondia rispidamente com uma de suas frases preferidas: "Quem canta de graça é galo". Era irreverente, às vezes até inconveniente, como quando perguntou a Sérgio Cabral, que estava com a namorada: "Tens copulado muito?", ou quando, abordada por uma jovem fã que queria saber como estava passando, saiu-se com essa: "Ah, minha filha, eu ando muito fodida". Para Hermínio, Aracy elevou o palavrão à condição de cantata de Bach.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Música da Cabeça - Programa #443

 

A gente tá igualzinho ao Wagner Moura: rindo à toa! E não só por causa do sucesso de O Agente Secreto, mas porque vamos ter o primeiro MDC inédito de 2026! Alegrando nossos ouvidos, The Cure, Paulinho da Viola, Stephen Stills, Manoel Carlos e muito mais. Ainda, pra começar o ano com um sorrisão estampado, um Sete-List no quadro especial. Só alegria, o programa vai ao ar na risonha Rádio Elétrica às 21h. Produção, apresentação e motivos de felicidade: Daniel Rodrigues 



www.radioeletrica.com

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Wayne Shorter Featuring Milton Nascimento - "Native Dancer" (1975)

 

“Wayne Shorter foi – e sempre será – mais do que um parceiro musical. Desde que nos conhecemos, nunca nos separamos. Em 1975, ele me convidou para gravar o ‘Native Dancer’, e mudou a minha vida e carreira pra sempre”.
Milton Nascimento

“Graças a um gênio chamado Wayne Shorter, eu conheci o grande Milton Nascimento em 1975, pelo álbum 'Native Dancer'. Não sabíamos tanto sobre Milton como, talvez, devêssemos saber, mas amávamos Shorter, então, o que ele fizesse, nós escutaríamos." 
Steve Jordan

Humildade é uma qualidade dos grandes músicos. Mesmo sabendo de seus próprios tamanhos e importância, artistas da música dotados dessa integridade entendem que nunca é tarde para aprender e celebrar seus pares. Por exemplo, o Earth, Wind & Fire já era um grupo de sucesso em meados dos anos 70 e que vendia, há pelo menos três álbuns, mais de 1 milhão de cópias. Nem por isso Maurice White, principal líder da banda, deixou de manifestar sua admiração pelo brasileiro Milton Nascimento quando o encontrou por acaso num hotel em Los Angeles. Além da reverência, White admitia que a EW&F, já conhecida por seus arranjos vocais sofisticados, havia aprendido, por causa de um disco lançado por Milton em 1975, a usar os falsetes tal como o mestre de Três Pontas, o que deixou ele – que também admirava os colegas norte-americanos – bastante envaidecido e feliz.

O trabalho responsável por essa ponte de inspiração e gratidão, que completa 50 anos de lançamento, é fruto, aliás, do mesmo sentimento de admiração recíproca. A amizade de Milton com o saxofonista e compositor norte-americano Wayne Shorter, um dos deuses do jazz, já vinha de alguns anos, quando este, em passagem pelo Brasil com sua banda Weather Report, assistiu a um show do disco “Clube da Esquina”, de Milton e Lô Borges, no Rio de Janeiro. Shorter ficou fascinado por Milton e quis conhecê-lo. Dali, surgiu mais do que um encontro de almas e, sim, um convite: o de gravarem um disco juntos. Nascia o influente álbum “Native Dancer”.

Com a participação de músicos brasileiros, como os percussionistas Airto Moreira e Robertinho Silva e o pianista e maestro Wagner Tiso, e de norte-americanos, como o icônico pianista Herbie Hancock e os guitarristas Dave Amaro e Jay Graydon, “Native...” é um disco memorável em vários sentidos. Primeiro, por inserir de vez a latinidade no jazz fusion que Shorter já vinha desempenhando em carreira solo e com a Weather Report. Segundo, por abrir as portas daquilo que, tempo depois, passaria a se chamar de world music, quebrando as barreiras (e os preconceitos) de gêneros musicais. “O Wayne acertou na mosca”, disse Milton em entrevista ao Jornal do Brasil em 2008. “Naquela época, o pessoal de rock não gostava do pessoal de pop que não gostava de jazz, não gostava disso, não gostava daquilo... Ele acabou com isso”, salienta. Por fim, "Native..." é um marco pelo feito de reunir duas forças da natureza: Shorter e Milton, por si só um momento grandioso.

Equilibrado, “Native...”, mesmo sendo um disco de Shorter com Milton como convidado, intercala os protagonismos entre os dois, numa clara reverência do primeiro para com o amigo. Das nove faixas, mais da metade são de Bituca. O começo, inclusive, é dado a ele – que arrasa. “Ponta de Areia”, até então gravada apenas por Elis Regina e Marlene, ganha pela primeira vez a interpretação pela voz penetrante e divinal do seu autor. Milton viria a regravar a canção outras duas vezes ainda naquele ano: uma em duo com Nana Caymmi (num arranjo de ninguém menos que Tom Jobim) e outra no seu disco “Minas”. Nada, no entanto, se compara a essa versão: o impressionante falsete de Milton, que canta num tom acima da sua própria gravação, e o sax soprano de Shorter se entrelaçam e se congraçam. Pode-se dizer, tranquilamente, que essa música é o momento mais intenso da obra de Shorter em toda a década de 70. Algo divino.

A ritmada instrumental “Beauty and the Beast”, de Shorter, na sequência, mostra o quanto ele estava empenhado em saudar a música brasileira. Já a tristonha “Tarde”, depois, traz Milton de volta, agora com o elegante piano acústico de Hancock em pleno casamento com o piano elétrico de Tiso. Não fosse o solo de sax de Shorter, na segunda parte, poderia se dizer tranquilamente que a música foi gravada pela turma do Clube da Esquina em terras tupiniquins, tamanha o respeito que o norte-americano teve em manter à sonoridade dos mineiros.

É Milton quem dá as cartas novamente, agora para uma espetacular “Miracle of the Fishes”, cujo título em inglês não desbanca a letra em português original, a qual dá título ao célebre disco dele de 1973, “Milagre dos Peixes”. Que show de vocais, da bateria de Robertinho, do piano elétrico de Tiso, do violão indígena e ibérico de Bituca! Mas o mais espetacular mesmo é o duo voz/sax que os cabeças entregam da segunda metade em diante. Milton criando harmonias vocais impensáveis, improvisando vocalises, cantando versos; Shorter, com a sensibilidade de tocar no mesmo registro da voz e solando com a habilidade de um verdadeiro Jazz Massanger ou de um integrante do Second Great Quintet de Miles Davis. Uma sintonia excelsa entre os dois.

Os amigos Shorter e Milton, nos anos 2000, relembrando
os tempos de "Native Dancer"

Em “Diana” é a vez de aparecer a sintonia com Hancock, amigo comum de ambos. Hancock havia tocado com Milton em seu “Courage”, de 1968, na primeira incursão internacional do músico brasileiro, e seguiria colaborando com ele em muitos outros trabalhos a partir de então. Com Shorter, entretanto, a troca vinha de ainda antes, fosse nos revolucionários discos da Blue Note do início dos anos 60, fosse na formação da famosa banda de Miles. Toda essa intimidade lhe dá condições de criar a atmosfera perfeita para o sax tenor desfilar nesta balada jazz, especialidade de Shorter e dele. 

Não menos incrível é “From the Lonely Afternoons”, cujos vocalises de Milton iriam influenciar, assim como Maurice White, outro grande jazzista como Shorter e Hancock: Pat Metheny. Basta ver temas como “Estupenda Graça” (de “As Falls Wichita, So Falls Wichita Falls”, 1981) ou “(It's Just) Talk” (“Still Life (Talking)”, 1987). Samba-jazz instrumental - assim como “Me Deixa em Paz” e “Cais”, do repertório de “Clube da Esquina”, de 1972, que tanto impressionou Shorter - é “Ana Maria”, dedicada à então esposa de Shorter, a portuguesa Ana Maria Patrício. O sax desenha a melodia em tom alto, de difícil registro. Detalhe importante: a autoria desta bossa-nova, que bem podia ser de Milton ou de algum compositor da MPB, é do próprio Shorter.

Continuando a sessão de dedicatórias iniciada na faixa anterior, é a vez de Milton reverenciar a mãe “Lilia” noutro instrumental cheio de musicalidade e sofisticação. Originalmente gravada no famigerado álbum “Clube da Esquina”, agora a música recebe uma nova carga expressiva adicionada pelo sex soprano de Shorter, que extravasa e eleva a música ao ápice emocional do disco. Milton, obviamente, não fica para trás, usando seu canto carregado de beleza e mistério a serviço desta emotividade.

Outro número dedicado é “Joanna's Theme”, que encerra “Native...”. Autoria de Hancock, foi composta um ano antes para a trilha sonora do filme “Desejo de Matar” como tema de uma das personagens. A percussão atmosférica de Airto ajuda a dar clima para esse jazz sombrio em que, novamente, a parceria Hancock/Shorter funciona, literalmente, como música.

Como o próprio Milton evidencia, “Native...” foi um divisor-de-águas na sua carreira, tornando-o um artista global a partir de então. O posterior contato com os mais diversos músicos do planeta como Paul Simon, James Taylor, Quincy Jones, Sarah Vaughan, Jon Anderson e Annie Lennox só se deu em razão deste encontro de almas com Shorter. Os dois, aliás, se encontrariam diversas outras vezes ao longo das carreiras, como em “Milton/Raça”, de 1977, “A Barca dos Amantes”, de 1986, “Yauaretê”, de 1987, e “Angelus”, de 1993, todos discos de Milton. Shorter, por sua vez, nunca deixou de reverenciar o amigo, tocando com ele em apresentações, incluindo músicas suas no repertório próprio ou, simplesmente, apontando-o como um dos maiores gênios da música mundial. Para ele, assim como só existe um Miles Davis, também só existe um Milton.

Maurice White estava certo: deve-se eternamente agradecer e reverenciar Milton Nascimento. Metheny, Criolo, Esperanza Spalding, Steve Jordan, Peter Gabriel e Björk, outros renomados influenciados por Bituca, engrossam esse coro. Ainda mais Wayne Shorter, que, com a generosidade e a humildade dos grandes, abriu espaço para que Milton pudesse levar ao mundo sua musicalidade única em perfeita harmonia com a sua musicalidade. Simbiose que vai além de uma simples compreensão, pois resultante de uma conexão que se dá noutro plano, no astral. A “voz de Deus” e o “sopro divino”, juntos, só podia dar nessa comunhão, que dialoga através de música. Milton diz que ele e Shorter sempre se entendiam sem precisar dizer nada um para o outro, pois, segundo ele, já estava tudo "lá em cima”, onde somente os Deuses acessam.

🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶

FAIXAS:
1. “Ponta De Areia” (Milton Nascimento/Fernando Brant) - 5:17
2. “Beauty And The Beast” (Wayne Shorter) - 5:07
3. “Tarde” (Nascimento) - 5:51
4. “Miracle of the Fishes” (Nascimento/ Brant) - 4:46
5. “Diana” (Shorter) - 2:59
6. “From The Lonely Afternoons” (Nascimento/ Brant) - 3:13
7. “Ana Maria” (Shorter) - 5:10
8. “Lilia” (Nascimento) - 7:01
9. “Joanna's Theme” (Herbie Hancock) - 4:19


OUÇA:

🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶


Daniel Rodrigues

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Ed Motta - “Aystelum” (2005)


"20 anos de 'Aystelum', um dos meus prediletos. Toques de free jazz com samba, Broadway, funk. Que sorte que pude gravar esse disco. 'Aystelum' tem a bênção de um santo protetor na minha vida".
Ed Motta

O cara se contradiz, é desrespeitoso, brigão e, por vezes, arrogante. Ao mesmo tempo, é sincero e fala verdades necessárias que poucos ousam dizer. Controverso, paga o preço por isso, sendo “cancelado” em vários meios. Mas uma coisa não se pode discordar: como o próprio se autodefine sem nenhum constrangimento pela soberba, ele é um dos “gênios da nossa latinoamerica”. Ed Motta, essa figura única, é, definitivamente, um dos músicos mais completos do mundo. Dono de um vocal cheio de técnica e timbre, este carioca nascido em família musical (sobrinho de Tim Maia, conviveu na infância com o tio e seus amigos Lincoln Olivetti, Cassiano, Hyldon entre outros, o suficiente para se encantar com o universo dos músicos) é capaz de, como nenhum outro cantor, compositor e instrumentista vivo, unir com tamanha densidade a soul, o jazz, o samba, o funk e os ritmos latinos. Nisso, há de se concordar com ele sem se contaminar pela insolência do próprio: Ed é o cara.

Prodígio, Ed teve carreira artística iniciada aos 16 anos já com os megassucessos “Manoel” e “Vamos Dançar”, da Ed Motta & Conexão Japeri, de 1988. Sua precocidade, aliada à personalidade contestadora e, por vezes difícil, no entanto, o prejudicaram ao longo dos anos no mainstream. Fez sucesso, rompeu com gravadoras, voltou atrás, fez mais sucesso, vendeu milhões e, a exemplo de seu tio, rompeu de novo com as gravadoras que faltavam até ficar escanteado. Disso tudo, a consequência: o trabalho realmente autoral de um artista que sempre buscou esse objetivo só pode ser realizado por ele mais de uma década depois de sua estreia: em “Aystelum”, de 2005, décimo álbum de Ed, que completa 20 anos de lançamento.

Fruto do encontro de Ed com o selo Trama, de João Marcelo Bôscoli, “Aystelum”, na esteira do excelente “Dwitza”, de três anos antes, e “Poptical”, o primeiro pela Trama, é o resultado da libertação criativa de um músico sem fronteiras de gêneros, estilos e temporalidade. É música pura – e no mais alto nível que o país de Moacir Santos, Tom Jobim, Tânia Maria, Filó Machado, Johnny Alf, Dom Salvador e tantos outros mestres de sua admiração pode produzir. Mas, claro, não somente estes professores musicais. Fã da música negra norte-americana desde criança, Ed usa e abusa nesse disco da sonoridade do afro jazz, do free jazz, do latin jazz e do spiritual jazz, sem deixar de referenciar suas bases da soul, Donny Hathaway, Donald Fagen, Gil Scott-Heron, Patrice Ruschen, entre outros. “Aystelum”, no entanto, ainda adiciona outra paixão de Ed: a música da Broadway de autores como Leonard Bernstein, George Gershwin, Stephen Sodenhein e Irvin Berlin.

Essa sonoridade livre está impressa na faixa de abertura, um afro jazz modal latino e spiritual em que brilham não somente o band leader, nos teclados, como toda a banda: o baixista Alberto Continentino; o baterista Renato Massa; o trompetista Jessé Sadoc Filho; o piano elétrico de Rafael Vernet; o guitarrista Paulinho Guitarra; o craque da percussão Armando Marçal; e o chileno Andrés Perez, “saxofonista tenor com a sonoridade do Coltrane, Joe Henderson, conhecimento alto das escalas e também de efeitos que o sax pode fazer, harmônicos, etc.”, como aponta Ed.

A então recente aproximação de Ed com a música brasileira – uma vez que, infantilmente, até pouco tempo antes a renegava em detrimento da norte-americana – fez com que ganhasse, aqui, dois presentes. Nei Lopes. compositor, cantor, escritor e estudioso das culturas africanas escreve-lhe as letras de “Pharmácias”, um samba-jazz influenciado pela música brasileira tradicional tocado só com instrumentos eletroacústicos, e a obra-prima “Samba Azul”. Nesta última, em especial, Ed encontra uma improvável intersecção entre samba-canção, blues, bossa-nova e bolero, tudo num arranjo primoroso do maestro Jota Moraes, parceiro de longa data. Mas não só isso: a música, além da magnífica letra de Lopes (“Tudo azul/ Beija-flor voa ao leu/ Sobre Vila Isabel/ Elegante/ Vai pousar distante/ Na Portela”), ainda tem um duo com Alcione, uma “força da natureza” cuja voz põe todo mundo no estúdio para “voar”, descreveu Ed.

A faixa-título, composta por uma palavra inventada por Ed sem nenhum sentido, apenas dotada de sonoridade, é outro jazz instrumental em que a turma arrebenta. O tema mais spiritual jazz de todos do repertório, lembrando bastante coisas de John Coltrane e Pharoah Sanders. Esse abstratismo é logo contraposto por “É Muita Gig Véi!!!”, que é puro ritmo. Baseada na ideia de improvisação, cada músico traz para dentro da jam suas experiências e bagagens. Samba e jazz em perfeita comunhão com direito a show de cuíca de Mestre Marçal. Outra espetacular nesta linha é “Partidid”, das melhores do disco, na qual fica evidente a reverência à sonoridade sofisticada e gingada de bandas como Azymuth e Black Rio.

Porém, sem se prender a nenhum formato, Ed traz para dentro desse caldeirão musical algo extremamente próprio e bonito, que é o musical norte-americano. Neste sentido, “Balendoah” é divisional. Mais uma dessas palavras tiradas da mente de Ed (que querem dizer, no fundo, apenas “muita musicalidade”), este número é fundamental para a narrativa do disco. Nele, Ed une os dois polos que o álbum propõe: o jazz de matriz africana e a música da Broadway. “Negros e judeus, o ápice da música que eu amo”, classificou ele próprio. Com a engenhosidade harmônica complexa extraída dos mestres Duke Ellington, Randy West, Moacir Santos e Charles Mingus, Ed amalgama uma melodia de voz que cria essa ponte com o teatro/cinema musical norte-americano. “Balendoah”, assim, além de uma música arrebatadora, abre caminho para a “segunda parte” do disco.

Tal virada em “Aystelum” surpreende, mas não destoa. O trecho de "7 - O Musical”, que Ed escreve para a peça musical de Charles Möeller e Claudio Botelho, é um medley em que constam a graciosa “Abertura”, a atonal “Na Rua”, com vocal de timbres metálicos de Tetê Espíndola, e a bela “Canção Em Torno Dele”. Interessante notar o “libreto” em português e não em inglês, contrariando a própria lógica do tradicional musical, o que denota um Ed desprovido de afetação para com a língua inglesa, a qual teria maior naturalidade.

“A Charada”, parceria com Ronaldo Bastos, retoma a sonoridade soul num AOR romântico, que poderia tranquilamente ser uma música de trabalho não tivesse “Aystelum” feito tão pouco sucesso de público, que estranhou todo aquele experimentalismo. “Guezagui”, então, um funk tomado de groove e musicalidade, fecha a conta deste histórico e sui generis disco da discografia brasileira.

Ed já havia dado seu grito de independência com “Entre e Ouça”, de 1992, então apenas seu terceiro trabalho. Além de ainda muito jovem (só tinha 21 anos), naquela época não tinha a credibilidade e nem a experiência de um trintão amadurecido musicalmente como em “Aystelum”. Foram necessários que os anos lhe dessem tempo para agregar as diversas sonoridades entre as milhares que rondam sua cabeça, as quais absorve e traduz com espantoso poder de síntese e originalidade. Depois de tantos acertos e topadas, paixões e desavenças, fama e infortúnio, de tanto céu e inferno, Ed chegava, enfim, na paz da sua própria obra. Como quem toma a bênção de um santo protetor e pronuncia, em louvor, uma palavra que somente os deuses da música compreendem: “Aystelum”.

🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵


FAIXAS:
1. "Awunism" - 5:37
2. "Pharmácias" (Nei Lopes/ Ed Motta) - 3:17
3. "Aystelum" - 6:48
4. "É Muita Gig Véi!!!" - 3:53
5. "Samba Azul" (Lopes/ Motta) - 4:49
6. "Balendoah" - 4:19
"7 - O Musical (Medley)" (Claudio Botelho/ Motta)
7. "Abertura" - 1:33
8. "Na Rua" - 2:06
9. "Canção Em Torno Dele" - 1:54
10. "A Charada" (Ronaldo Bastos/ Motta) - 4:00
11. "Patidid" - 2:26
12. "Guezagui" - 3:50
Todas as composições de autoria de Ed Motta, exceto indicadas

🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵


OUÇA O DISCO:
Ed Motta - "Aystelum"



Daniel Rodrigues