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quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Música da Cabeça - Programa #481

 


Hoje o MDC vai explicar para te confundir e te confundir para te esclarecer. Ficou confuso? Ouve o programa, que Tom Zé vai te trazer todas as respostas - e perguntas também. Celebrando os 90 anos do genial baiano de Irará, a edição de hoje está recheada de coisas dele, além das presenças ilustres de Beck, Os Saltimbancos, Fine Young Cannibals, Renato Russo e mais. Como uma fera que berra, o programa de hoje entra na atmosfera da Rádio Elétrica às 21h. Produção e apresentação sem a letra A: D'niel Rodrigues 



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domingo, 11 de outubro de 2026

Tom Zé - "Todos os Olhos" (1973)


"aqui, vão, pois, os meus olhos, que já estão ficando velhos, com um abraço para o novo tomzé por este que é o melhor dos seus discos. a carne viva de brigitte, todos os olhos, a noite de meu bem ou a claridade cortante de o riso e a faca ou a pergunta-sem-resposta de cademar são choques de beleza crua para nós e até para ele, que está mais tomzé e mais novo do que nunca."
Augusto de Campos,
no texto do encarte do disco

O antropólogo belgo-francês Claude Lévi-Strauss conta, em seu célebre livro “Tristes Trópicos”, onde narra sua passagem pelo Brasil profundo de povos originários, comunidades isoladas e organizações sociais da vida brasileira, a experiência vivida enquanto “viajante” na aldeia indígena Nambikwaras, no estado de Mato Grosso. Observando aquela “humanidade completamente desvalida”, “esmagada” e “ingênua”, Lévi-Strauss capta daquela tribo, entretanto, uma profunda “doçura” e “comovente ternura”. Tal observância só pode existir, justamente, pelo olhar “viajante” daquele que não pertence originalmente ao lugar mas que, diante de tamanha empatia e cumplicidade, acaba por, pelo menos naquele instante, pertencer também à terra estrangeira.

Recorrer a uma explicação antropológica talvez seja a única forma de compreender a complexidade da figura de um artista tão incomum Tom Zé, em última análise, um estrangeiro neste mundo deslocado. Natural de Irará, cidade do interior da Bahia localizada no chamado Portal do Sertão, Antônio José Santana Martins nasceu há exatos 90 anos e tornou-se, ao se mudar para São Paulo em plena fase de consolidação desta como centro nervoso do País, o mais moderno músico paulistano de sua geração. Estrangeiro também porque é o primeiro tropicalista, não só por ser mais velho que Caetano Veloso, Gilberto Gil e Mutantes, mas porque, ainda em sua cidade-natal, no final dos anos 50, já escrevia, antes deles todos, músicas totalmente distintas de qualquer tradição local. Estrangeiro, pois, capaz de unir, com intencionalidade monástica, seresta sertaneja, samba rural e música sacra à mais rebuscada dodecafonia da vanguarda europeia.

Este artista tão ímpar, cujos estudos antropológicos ainda hão de dar conta, faz recordar mais uma vez da visão/posição de viajante de Lévi-Strauss quando trata da São Paulo que o abrigou. Tom Zé já havia composto canções que viraram verdadeiros hinos alternativos da capital paulista, como “São São Paulo”, de 1968, mas é em “Todos os Olhos” que ele extravasa essa vivência de “estrangeiro nativo”. Disco de 1973, quando dos anos de chumbo do Governo Militar, é uma obra totalmente madura de Tom Zé musicalmente falando, mas também enquanto ser político e crítico. Auge do chamado pós-tropicalismo, é também um marco do movimento concretista, tanto pela música quanto, principalmente, pelo conceito, uma vez que o poema popcreto "olho por olho", do amigo e parceiro Augusto de Campos, de 1964, inspira o trabalho como um todo. Ainda, a icônica e polêmica capa de “Todos...”, de autoria de outro poeta e artista visual paulistano e concretista, Décio Pignatari, é a da famosa foto em superclose de um ânus com uma bolita. Claro, os censores da Ditadura não identificaram nada de estranho e a aprovaram. Ora, para representar com ironia e fúria “todos os olhos” da vigília, nada melhor que o olho do cu.

“Todos...” é daqueles discos em que o recheio acompanha plenamente o invólucro. Ironia, poesia, tradição, ritmo, crítica social. E autocrítica, a se ver pela brilhante e impactante faixa de abertura “Complexo de Épico”. Em um ritmo desconstruído, algo que talvez formulasse um samba caso estivessem suas partes conjuntadas, a letra, genial, fala dele mesmo, Tom Zé, mas cutuca toda a turma da MPB diante daquele momento político tão problemático. “Todo compositor brasileiro é um complexado/ Por que, então, essa mania danada/ Essa preocupação de parecer tão sério?” Tom Zé indaga seus colegas: para quem vocês estão falando? Há efetividade na mensagem de suas canções? E conclui, sem clemência: “Ah, meu Deus do céu/ Vá ser sério assim no inferno!”.

Se o número de abertura fala aos pares, a segunda faixa evoca uma outra compositora da música brasileira, Dolores Duran, numa versão dissonante do samba-canção "A Noite do meu Bem". Em seguida, uma que fala diretamente à sua amada São Paulo: “Cademar”. Escrita sobre uma poesia de Augusto de Campos, fala em seus poucos versos sobre uma das peculiaridades da capital paulista: a ausência do mar. Ao mesmo tempo, dá a ideia de saudade e também faz uma analogia a um amor que foi embora, ausente daquele território, como que antecipando os versos de Criolo: “Não existe amor em SP”. E Tom Zé faz isso numa pequena obra-prima de música concreta. A letra é construída a partir da fragmentação sonora e visual da pergunta: "Ô, cadê Maria que não vem?", transformando-a em uma estrutura sincopada, repetitiva e não discursiva que lembra o bater de um metrônomo – ou de um coração.

Poema visual popcreto "olho por olho", de Augusto de Campos,
que inspirou o conceito do disco de Tom Zé e presente no encarte

O experimentalismo, então, desdobra-se num ato essencialmente orgânico na faixa-título. Estrategicamente alocada no quarto lugar, quando o disco já transcorria “naturalmente” e distraída a atenção dos censores, chegava a hora de ser mais contundente na denúncia à Ditatura. Do batimento cardíaco, o aceleramento angustiado; do sentimento romântico, o de medo da morte. “Todos os Olhos” diz, numa pouco disfarçada referência às torturas: “De vez em quando/ todos os olhos se voltam pra mim/ de lá de dentro da escuridão/ esperando e querendo que eu seja um herói/ Mas eu sou inocente”. E termina jurando inocência, agonizante, como se realmente estivesse em uma sessão de tortura. Corajosa e mordaz.

"Dodó e Zezé", com cavaquinho do maestro tropicalista Rogério Duprat, vale-se da música interiorana paulista para travar um engraçado e ferino diálogo com Odair Cabeça de Poeta, coautor com Tom Zé, numa espécie de rap-sertanejo. Como que pitando uma palha e sentados à praça, os dois conversam sobre os mais filosóficos temas, redundando sempre em alguma conclusão tão caipira quanto nada simplória. Por exemplo: Dodó pergunta: “E por que é que a gente tem que ser marginal ou cidadão? Diga, Zezé”. Ao que ele responde: “É pra ter a ilusão de que pode escolher, viu, Dodó?”. Sem refrão, num tempo melódico atípico. Traços de uma São Paulo rural a qual, literalmente, se constrói em outro tempo, que não o a velocidade insana da metrópole.

O delicioso xote “Quando Eu Era Sem Ninguém", com participação do grupo Capote, antecipa outra em que a avant garde prevalece, que é "Brigitte Bardot". Sem centro tonal, sem ritmo, sem refrão, constrói-se num texto sobre o inevitável envelhecimento da sex symbol francesa. Quase uma resposta a “Dodó e Zezé” (mas também a “Complexo de Épico”), reflete as consequências da inexorável passagem do tempo. “Os nossos sonhos querem pedir divórcio.” Até os mitos morrem.

O clássico "Augusta, Angélica e Consolação" é outra leitura do “viajante” em terras estrangeiras, que vira imediatamente um segundo hino de São Paulo. Samba-canção sobre casos de amor não retribuídos, faz uma analogia geoafetiva com a cidade, transformando as conhecidas vias urbanas em musas, cada uma com sua personalidade – não à toa, a ver com a própria avenida. Augusta, vaidosa como as lojas de roupas importadas de seu entorno. Já Angélica, focada apenas no trabalho a ponto de cheirar como os consultórios médicos que lhe povoam. Contudo, Consolação - bairro da vida alternativa da cidade - foi-lhe a única a corresponder o amor. Para quem havia composto um ano antes "A Briga do Edifício Itália e do Hilton Hotel", colocando em um contexto anedótico os dois prédios icônicos da arquitetura paulistana, "Augusta..." é um avanço nessa interação poética do artista com a cidade.

Sampa permanece em “Botaram Tanta Fumaça”. Mas agora, ao invés de uma ode, um banho de realidade. Samba com frescor da MPB universitária, tem o inteligente riff de cavaquinho, uma das características da síntese que Tom Zé faz do samba em suas diversas vertentes, ao passo que também aproxima o ritmo brasileiro dos modos minimalistas da vanguarda (algo que se agigantaria no seu trabalho seguinte, o notável “Estudando o Samba”). A letra, por sua vez, é pura crítica e sarcasmo para falar da poluição do ar (e das mentes): “Botaram tanto lixo/ Botaram tanta fumaça (...) por baixo da consciência da cidade/ que a cidade tá (...) com a consciência podre”.

Encaminhando para o final do álbum, a bela e contundente valsa “O Riso e a Faca” (“Eu sou a raiva e a vacina/ Procura de pecado e conselho/ Espaço entre a dor e o consolo/ A briga entre a luz e o espelho”) precisa de pouca instrumentalização para propor sua melodia dissonante e seu canto fragmentado. Esta vem prosseguida de outra quase vinheta, mas de muito conteúdo assim como “Cademar” e “Complexo...”, que é "Um 'Oh' e um 'Ah'". Brincadeira musical com os vocálicos “a” e “o”, tornou-se, anos mais tarde, inspiração para o belo trabalho infantil de Tom Zé em parceria com o artista visual Elifas Andreato em que criam todo um universo léxico sobre esta ideia. Música, aliás, que, sozinha, inspiraria também projetos igualmente paulistas e lúdicos como Premê e Palavra Cantada.

O distanciamento estratégico de Tom Zé, seja para com sua adotiva São Paulo, seja para com todo o universo musical e filosófico que o coloca entre os grandes criadores da música brasileira moderna, deu a ele as condições de compor um dos mais brilhantes discos da MPB dos anos 70. E esse feito não diz pouco. Como um viajante capaz de enxergar o que os nativos nem prestam atenção, o baiano de Irará não apenas identifica a profunda ternura que há na terra alheia como, encantado e absorvido pela própria, também se torna parte do corpo daquele lugar. Nem que seja por um instante equivalente a 90 anos de vida.

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FAIXAS:
1. "Complexo De Épico" - 1:19
2. "A Noite Do Meu Bem" (Dolores Duran) - 3:06
3. "Cademar" (Augusto de Campos, Tom Zé) - 0:45
4. "Todos os Olhos" - 3:31
5. "Dodó e Zezé" (Odair Cabeça de Poeta, Tom Zé) - 3:59
6. "Quando Eu Era Sem Ninguém" - 3:19
7. "Brigitte Bardot" - 2:57
8. "Augusta, Angélica e Consolação" - 3:45
9. "Botaram Tanta Fumaça" - 2:46
10. "O Riso e a Faca" - 2:43
11. "Um 'Oh' e um 'Ah'" - 1:02
12. "Complexo De Épico (reprise)" - 6:47
Todas as composições de autoria de Tom Zé, exceto indicadas

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OUÇA:

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Daniel Rodrigues

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Música da Cabeça - Programa #480


1,87%. Número que se torna um mantra para as próximas semanas. Mas vamos nos ater, pelo menos hoje, a outro número: o das 480 edições do MDC. Para marcar essa data, teremos convidados do calibre de Paulinho da Viola, Steve Reich, Silas de Oliveira, BaianaSystem, Suzanne Vega e mais. Rumo ao infinito, o programa especial entra no segundo turno às 21h na decisiva Rádio Elétrica. Produção, apresentação e mangas arregaçadas: Daniel Rodrigues


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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Música da Cabeça - Programa #477

 

Se você se sentiu num ringue nos últimos dias, não estranhe, pois não foi só você. Com esse clima no STF, afinal, não tem como ser diferente. Pedindo vistas, o MDC de hoje reprisa sua edição nº 107, de maio de 2019, quando já falávamos do Supremo por aqui. Naquela feita, rolou  The Cure, Can, Noel Rosa, Terry Riley, Seu Jorge, Simon & Garfunkel e mais. Sem ligação com Vorcaro, entramos no ar 21h na insuspeita Rádio Elétrica. Produção, apresentação sem medo da PF: Daniel Rodrigues


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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Música da Cabeça - Programa #475

 

Traduzir a vida através de simples formas circulares foi a marca da obra de Yayoi Kusama, a quem a gente reverencia. Sem toda a genialidade dela, também arriscamos pintar no MDC de hoje nossas bolinhas, que carregam dentro de si muita música. Exemplos? The Avalanches, Stevie Wonder, Chico Buarque, Mário Reis, Beto Guetes e mais. No quadro especial, um Cabeça dos Outros. Repetindo padrões, mas sempre diferente, o programa se circunscreve às 21h na esférica Rádio Elétrica. Produção, apresentação e polka dots: Daniel Rodrigues


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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Música da Cabeça - Programa #474

 

Quem disse que super-herói não existe?! Que o Homem-Aranha combatia os criminosos se sabia, mas que ele metia a porrada em supremacista branco é novidade! Enchendo a mão contra esse imbecis, o MDC veste sua fantasia e aciona os superpoderes de Rufus & Chaka Kahn, Nelson Sargento, The Velvet Underground, Marisa Monte e mais. O bloco especial, Cabeção, traz ainda a compositora e pianista mexicana Consuelo Velasquez. Cada vez mais fãs do Spider-Man, temos nosso programa hoje, 21h, na confrontadora Rádio Elétrica. Produção, apresentação e super-força: Daniel Rodrigues



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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Música da Cabeça - Programa #471



Enquanto a nave do Musk vai parar desgovernada na Lua, o MDC mantém seus pés na Terra e sem causar estrago. Na rota certa, o programa de hoje vai te levar às nuvens sem sair do chão com Airto Moreira, Criolo, The Cure, Gil Scott-Heron, Mário Quintana e mais. No quadro especial, Cabeça dos Outro homenageando Ney Matogrosso. Viajando só na boa, o MDC ganha a estratosfera às 21h na lunar Rádio Elétrica. Produção, apresentação e pouso calculado: Daniel Rodrigues


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domingo, 26 de julho de 2026

Moacir Santos - "Ouro Negro" (2001)



"Só mesmo o Destino, com os vários nomes que tem, para transformar um negrinho do interior de Pernambuco, nascido menos de quatro décadas após a abolição da escravatura e órfão aos 3 anos de idade, em um dos músicos brasileiros mais reconhecidos, nacional e internacionalmente, em todos os tempos." 
Nei Lopes, Cantor
compositor, poeta, escritor e pesquisador

"Nanã sabe das coisas e diz que chegou a hora de o Brasil saber de Moacir, reaprender Moacir, merecer Moacir." 
Ruy Castro
jornalista e escritor

É interessante pensar como alguns movimentos na história da música brasileira não são regulares, mas que o tempo os ajuda a se revelar. Já no final do século XVIII, os chamados “grupos de barbeiros”, formados basicamente por negros e mestiços, introduziram na música instrumental de então o que a musicóloga e folclorista Mariza Lira chamaria de ‘ritmo da senzala”, o qual ela explica ser fundamentado no ritmo “afro-negro”. Essa influência na música brasileira pode não ter prosseguido em linha reta, haja visto que tudo que proviera dos negros num país essencialmente escravista e a supervalorização da cultura estrangeira arraigada há muito tempo no Brasil atrapalharam este caminho. Porém, a música negra instrumental não apenas resistiu como, quase milagrosamente, tornara-se um dos maiores legados culturais brasileiros para a arte mundial. 

Neste processo descontínuo de revalorização, surge a figura de Moacir Santos, ele por si só um milagre brasileiro nascido há 100 anos. O pernambucano Moacir José dos Santos, nascido em Serra Talhada, capital do xaxado e terra natal de Lampião, ficou órfão ainda criança, fugiu de casa e peregrinou Nordeste adentro encantado com as orquestras de circo e as bandas militares. Entregue a uma família branca remediada, o jovem que se apaixonou pelo jazz já dominava vários instrumentos ainda adolescente - entre eles, o seu oficial, o saxofone. Já no Rio de Janeiro, após servir o Exército e substituir o famoso maestro Severino Araújo, em Pernambuco, passa a tocar saxofone e, em seguida, reger a orquestra da Rádio Nacional ao lado de colegas do calibre de Radamés Gnattali, Leo Peracchi e Lyrio Panicalli (todos brancos). Dos estudos de música erudita e de vanguarda com professores como Ernest Krenek, Hans-Joachim Koellreuter, Claudio Santoro e Cesar Guerra-Peixe, logo também passa a ensinar, formando nomes como Baden Powell, João Donato, Paulo Moura, Sérgio Mendes, Nara Leão, Eumir Deodato, Carlos Lyra e Roberto Menescal. A partir daí, vieram suas próprias "coisas".

Para uma justa e merecida celebração ao centenário de Moa, cabe falar daquele que talvez seja o disco síntese de uma discografia ao mesmo tempo suscinta (apenas 6 discos em mais de 40 anos), mas tomada de relevância, que é “Ouro Negro”. Espécie de songbook, dirigido por Zé Nogueira e Mario Adnet, o caprichado CD duplo com 28 faixas, que também rendera um DVD com entrevistas e apresentações ao vivo, faz um apanhado muito bem elaborado do “principal” do cancioneiro de Moacir. A homenagem, concebida com o mais alto grau de qualidade, com naipe de orquestra e arranjos e produção de primeira linha, cumpriu ainda um não menos importante papel: reverenciar o mestre em vida. Anos antes, Moacir sofrera um AVC, que o impossibilitara de tocar ou reger as próprias músicas. Porém, ele estava lá, assistindo a outros mestres – e discípulos – celebrarem-no, como Gilberto, Gil, João Bosco, Joyce, Armando Marçal, Djavan, Ed Motta, Cristóvão Bastos e outros.

Ano passado, quando dos 60 anos de “Coisas”, a obra-prima basal de Moacir lançada em 1965, já discorremos bastante sobre os aspectos tanto eruditos quanto populares da música do compositor, bem como, tanto quanto, deu-se especial atenção à sua valorização da cultura negra, perceptível tanto na atenção dispensada pelo compositor à percussão, com a incorporação de instrumentos pouco usuais e na construção harmônica desses elementos, expressos em forma de deslocamentos rítmicos e métricos, hemíolas e polirritmias. Em “Ouro...” apenas uma das 10 “coisas” não integram o repertório. Destaque para “Coisa nº 8” (Navegação)”, cantada pela voz magistral de Milton Nascimento, que ganhou letra em português pelas mãos de outro mestre importante para este projeto: Nei Lopes (“Milhões de milhas naveguei/ Nem sempre ventos a favor/ Mas afinal reencontrei/ O cais da paz interior”). Igual destaque para “Nanã”, que abre o disco, a coisa de nº 5, a qual Moacir registraria em outros três momentos.

De outros álbuns, o indicado ao Grammy “Maestro”, de 1970 – o primeiro gravado nos Estados Unidos, onde viveu até sua morte, em 2006  – ouvem-se cinco temas: a onírica e “Bluishmen”; o jazz maxixado “Mãe Iracema”, inspirada em José de Alencar; a clássica “Lamento Astral” (“Astral Whine”), cantarolada pelo próprio autor; e “April Child”, que ganhou não apenas título em português, “Maracatu, Nação do Amor”, como letra de Nei e vocal de ninguém menos que Gil. “Quem vem lá/ Surgindo lá de trás do mar/ Será Kalunga num vapor/ Trazendo de Luanda o amor?”, diz a letra. Outra desse mesmo álbum e que também reaparece letrada por Nei é “Luanne”, agora com título principal “Sou Eu” e cantada pelo timbre inconfundível de Djavan.

Avançando mais na obra de Moa, “Ouro...” tem também o latin-jazz “Suk Cha”, a charmosa rumba “Amphibious”, a balada afro “Katty” e um duo impagável de Joyce e João Donato para “Happy-Happy” (aqui reintitulada “De Repente, Estou Feliz”), todas de “Saudade”, de 1974. Igualmente deste trabalho é “What's My Name”, agora “Oduduá” e interpretada por outro filho musical: João Bosco.

Da mesma época e gravado pelo célebre selo Blue Note, assim como todos os discos norte-americanos do artista, “Carnival of the Spirits”, de 1975, rearranja outro clássico de sua autoria: “Quiet Carnival” (“Orfeu”). Ora samba-enredo, ora samba de gafieira, tem forte presença dos sopros e na qual Ed Motta assume os vocais, que cantam: “Brilho de purpurinas/ Bolas e serpentinas/ Som vibrando metais/ Luz, foliões, casais/ E eu sem ter você”.

Resgatadas também de “Carnival...” são “Jequié”, balada de uma delicadeza absolutamente tocante, a dissonante “Kamba”, cujo riff em tom grave do clarinete contrasta com a leveza do entorno, e “Anon”, tão africana quanto caribenha inspirada em uma marchinha de carnaval que Moacir ouvira quando criança, em Recife. "Não sosseguei enquanto não fiz alguma coisa com ela, e a capoeira aparece no caminho", revelou à época da gravação. Há também “coisas” de “Opus 3 nº 1”, de 1979, em que a espetacular bossa-nova “Coisa nº 7”, uma "brincadeira pianística" das mais admiradas do cancioneiro de Moa pelos seus colegas, vira “Evocative” sob os melismas do próprio Moacir.

Como se já não bastassem as regravações, há ainda composições inéditas de Moacir. Uma delas é a rumbada “Quermesse”, criação antiga, da época da Rádio Nacional e escrita para trompa, aqui tocada pelo músico Philip Doyle. Também nova, “Maracatucute” impressiona pela atmosfera característica de Moacir: o arranjo sofisticado, a perfeição harmônica e o casamento da África com os ritmos latinos e americanos, seja o jazz, o samba ou o merengue. Zé Nogueira e Mario Adnet encerram esse gigantesco trabalho (em proporções e relevância) com mais uma inédita do homenageado: a pequena valsa “Bodas de Prata Dourada”, feita para Cleonice, esposa de uma vida, só ao piano e a voz de Moacir em conjunto com as de Muiza Adnet e Sheila Smith.

Hoje, quando o compositor, maestro, instrumentista e cantor pernambucano completaria 100 anos se vivo, é possível identificar o quanto, talvez juntamente apenas com Tom Jobim, sua obra configurara-se como uma das pedras fundamentais de toda a música popular brasileira moderna. Se menos evidenciado em termos de influência do que Tom, responsável pelo nascimento de toda uma geração de artistas populares que vão dos bossa-novistas aos pós-tropicalistas, a presença de Moa, no entanto, é largamente consensuada entre o meio dos músicos “de raiz”, aqueles que constroem as bases da MPB e, não raro, dão suporte técnico aos artistas mais pop. Não há quem no universo musical não reconheça a importância da obra de Moacir para a concepção daquilo que se entende como o mais alto nível do que a música brasileira já pode chegar. Moacir é a sublimação do que está na fronteira entre a música popular e a erudita. E mais: com a consciência manifesta do legado histórico-cultural “afro-negro”.

Como diz o poeta haitiano Jacques-Stephen Alexis: "a África não deixa em paz o negro, de qualquer país que seja, o lugar de onde venha e para onde vá". Desfile de sofisticação e esmero técnico, que faz jus à obra magistral de Moacir, "Ouro..." é o testamento dessa milagrosa transposição cultural e antropolófica pelas mãos de um autor que, como ninguém, soube resgatar a semente da verdadeira música instrumental brasileira, aquela que deu origem ao choro, às marchas, ao frevo, ao samba. A raiz africana. A mesma revalorização da história dos “barbeiros”, que ele trouxera em sua obra revolucionária para a música brasileira mais de 100 anos depois, nota-se, hoje, em seu próprio centenário, no reconhecimento ao que ele legara a MPB. Uma música genuinamente brasileira muito graças a ele, o "ouro negro do Brasil".

"Coisa nº 4", do DVD "Ouro Negro"

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FAIXAS:
1. "Coisa N°5 (Nanã)" - 2:51
2. "Suk-cha" - 4:10
3. "Coisa N°6" - 4:02
4. "Coisa N°8 (Navegação)" - participação: Milton Nascimento - 4:11 (Moacir Santos/Nei Lopes/Regina Werneck)
5. "Amphibious" - 3:11
6. "Mãe Iracema" -  4:59
7. "Coisa N°1" - 3:50 
(Santos/Clóvis Mello)
8. "Sou Eu (Luanne)" - participação: Djavan - 2:59 (
Santos/Lopes)
9. "Bluishmen" - 4:19
10. "Kathy" - 3:31
11. "Kamba" - 4:57
12. "Coisa N°9" - 3:28 
(Santos/Werneck)
13. "Orfeu (Quiet Carnival)" - participação: Ed Motta - 5:49 
(Santos/Lopes)
14. "Amalgamation" - 6:23
15. "Coisa N°7" - 4:20 
(Santos/Mário Telles)
16. "Coisa N°2" - 5:13
17. "Lamento Astral (Astral Whine)" - 4:59
18. "Maracatu, Nação Do Amor (April Child)" - participação: Gilberto Gil - 4:05 
(Santos/Lopes)
19. "Coisa N°4" - 4:06
20. "Coisa N°10" - 3:02
21. "Jequié" - 3:17 
 (Santos/Aldir Blanc)
22. "Oduduá (What's My Name)" - participação: João Bosco - 3:11 
(Santos/Lopes)
23. "Coisa N°3" - 3:00
24. "Anon" - 3:59
25. "Quermesse" - 3:18
26. "De Repente, Estou Feliz (Haply Happy)" - participação: Joyce, João Donato - 3:04

27. "Maracatucute" - 6:14
28. "Bodas De Prata Dourada" - participação: Muiza Adnet, Sheila Smith - 4:54
Todas as composições de autoria de Moacir Santos, exceto indicadas

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OUÇA:


Daniel Rodrigues

quinta-feira, 16 de julho de 2026

João Bosco - "Benguelê" (1998)





"Um tanto árabe, um tanto mineiro, outro tanto carioca (pelos anos tantos de Rio de Janeiro) e, infalivelmente, cidadão do mundo, João Bosco tece com fios de múltiplas texturas e procedências sua tapeçaria musical. O negro das Minas é quem chega primeiro em dois calangos de tons roseanos. Como se o dizer mineiro e tão próprio de Guimarães pudesse encontrar um análogo musical."
Angela de Almeida
texto de divulgação da espetáculo do Grupo Corpo
Outubro, 1998

Minas Gerais não tem esse nome por acaso. Além da fartura mineral, que se estende por vastidões do território do Estado, sua posição, quase centralizada no mapa brasileiro, e, principalmente, a capacidade que essa enorme carga de pedras tem de irradiar para direções para além de si própria é imensa. Minas Gerais é mais que um espaço físico: ele está dentro de quem a ela pertence. A música mineira é um exemplo claro. Dos diversos talentos nascidos em suas cercanias, todos carregam em si algo comum a quem a essa terra pedregosa pertence. E não adianta sair de Minas, que ela estará sempre imbricada ao ser mineiro. 

Veja-se João Bosco. Ao contrário de Milton Nascimento, um carioca que se “mineirizou”, Bosco é um mineiro que, embora seja quase um “malandro moderno” do Rio de Janeiro, embora tenha assumido o samba rural do Vale do Café carioca, embora tenha assimilado os ritmos da música soul e rock das ruas fluminenses, embora percorra com naturalidade o jazz universal, nunca deixou Minas Gerais sair do seu íntimo. O compositor e cantor que encantou Elis Regina, que criara patrimônios da MPB com Aldir Blanc e que é uma das pedras basais da música brasileira moderna não tinha, contudo, recebido a oportunidade de expressar sua “mineirice” com a devida dimensão. A oportunidade veio de talvez onde ele menos esperasse: da dança, quando, em 1997, a companhia de balé Grupo Corpo, conterrânea, convidou-o para compor a trilha sonora de sua então nova montagem. Quando composta, em paralelo à criação coreográfica, essa trilha/peça se chamaria “Benguelê”.

Estopim para a criação da trilha, a palavra "Benguelê" é a junção da região de Benguela (Angola) com a nostalgia ("saudade" em quimbundo). O suficiente para despertar no talento raro de Bosco toda uma sinfonia brasileira de altíssima musicalidade. Numa exaltação ao passado africano e às suas marcantes e profundas raízes na cultura brasileira, Bosco vai buscar essas raízes e ancestralidade nos recônditos mais profundos de sua alma. E, assim, retorna a Minas. A Minas indígena, negra, ibérica, árabe. Minas que está no Rio de Janeiro e na Paris de Pixinguinha. A Minas que se preserva no canto sincrético-folclórico de Clementina de Jesus. A Minas de ascendência moura. A Minas do sertão roseano em que o “Calango Rosa”, faixa de abertura, se arrasta em busca da vida debaixo do sol.

São 11 temas que, embora em grande parte instrumentais (tendo como músicos acompanhantes uma turma afiada como Osvaldinho do Acordeom, Jacques Morelenbaum, Nico Assumpção, Armando Marçal e Robertinho Silva), também ganham letras ou melismas cheios de musicalidade. Caso da faixa-título, em que, a capela, Bosco emula a voz de sua ídola Clementina, que gravara este tema em 1965, no grupo Rosa de Ouro. O violão virtuoso de Bosco, misto de classicismo e malandragem, aparece, então, para contrapor a anterior, no alegre choro “Benguelô” – que guarda, contudo, traços de samba-de-roda do Recôncavo. A Rainha Quelé e Pixinguinha revém para a colorida “Tarantá”, onde se juntam as duas coisas: o ágil violão de Bosco e a referência ao samba rural profundamente calcado na ancestralidade afro-indígena, a se ver pela inclusão de “Carreiro Bebe” em “Urubu Malandro”, agora transformada em frevo.

Trecho das cenas de “Carreiro Bebe"/"Urubu Malandro"/"Tarantá”

Nesta narrativa musical, que se entrelaça ao balé dos dançarinos do Corpo, Bosco reduz a marcha e traz o chorinho “Pixinguinha 10x0”, onde recria o clássico “1x0”, “Karawan”, na sequência, uma genial instrumental em tons graves e épicos, faz a ponte entre a Arábia e Brasil, evidenciando o quanto os traços da cultura persa se mantém presentes na cultura brasileira (e, antes, de tudo, na mineira). Com muita sabedoria, o violão de Bosco ainda traça paralelos dessa brasilidade com a música universal do russo Igor Stravinsky, que bebia, em 1922, na cultura da África Oriental para compor sua obra-prima “A Sagração da Primavera”. “O Sanfoneiro do Deserto”, outra divina, dá continuidade a essa travessia, agora mais nordestina, mais melancólica, mais gonzaguiana. O bloco instrumental fecha com a não menos linda (e ainda mais melancólica) “Misteriosamente”, em que o violão ensaia uma dança sinfônica com o cello.

 Gonzaga, Stravinsky, Arábia, romantismo, dança... Minas.

Mencionou-se, em algum momento, o termo “travessia”, né? Pois é exatamente isso que o autor de “O Bêbado e o Equilibrista” percorre não em uma, mas em três impressionantes temas em que conta com a marcante voz baixo cantante de Sandro Assunção. A primeira, em parceria com Wally Salomão e Antônio Cícero, faz remeter ao desterro dos retirantes nordestinos rumo ao Sul do País, bem como a travessia interoceânica dos árabes, que atravessaram o Saara para, séculos depois, caírem no sertão brasileiro. Impossível não lembrar da performance dos dançarinos na peça, cujo movimento contínuo dos corpos em fila sincroniza-se em duas dimensões, na frente e no fundo do palco. Ainda mais arábica, a segunda parte tem o canto do próprio Bosco, que volta às raízes como se se tornasse um sultão. Na terceira, é a vez de as vozes de Bosco e Sandro dialogarem com a cuíca de mestre Marçal. Pois é: foi também dessas misturas de Minas que saiu o samba...

Como Minas faz fronteira não só com o Rio, mas também com a Bahia, reaparece, então, o Nordeste no afoxé “O Mêdo”, onde resgata o tema “João Balaio”, do disco “Cabeça De Nego” (1986). Esta, animada, serve para criar o ambiente ideal para a derradeira faixa do disco e último número coreográfico da peça. E Bosco o faz com a autoridade mulata de um mineiro adaptando um canto afro-cubano do séc. XIX, o “Canto da Wemba”. Misto de spiritual e música de trabalho de negros escravizados, novamente somente com as vozes como no início, na música “Banguelê”, ele junta esses dois universos afrodiaspóricos: América do Sul e América Central, Brasil e Caribe. Mas essas vozes, em determinado momento, dão vez somente a do autor, que puxa novamente seu mágico violão para engendrar um samba hipnótico. Junto dele, a percussão afro-brasileira de Marçal. No canto, melismas que refletem uma exaltação iorubá. Para encerrar, sob o ritmo frenético da dança afro-mineira, juntam-se vozes do próprio Bosco de antes e daquele agora. De sempre.

Zé Miguel Wisnik, contumaz contribuidor de trilhas para o Grupo Corpo, exalta a iniciativa da companhia de convidar a música brasileira a compor peças diferentes daquilo que seus compositores estariam fazendo normalmente. Com Bosco, esse movimento de tirar-lhe do lugar de conforto foi tão exitoso, que surpreendeu ao próprio artista. Talvez, nem ele, esse mestre que acaba de completar 80 anos, soubesse que sua Minas Gerais, que hoje faz aniversário, restava-lhe tão geral no coração. Uma Minas que lhe chamou para dançar os sons do Brasil, os sons do mundo. Bosco diz: “Bebguelê”, mas, como o conterrâneo Guimarães Rosa, quer com isso dizer também: "Minas em mim: Minas comigo. Minas".

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FAIXAS:
1. "Calanga Rosa" - 3:01
2. "Benguelê" (Pixinguinha/ João da Bahiana) - 2:01 
3. "Benguelô" (João Bosco/Francisco Bosco) - 3:14
4. "Tarantá" (Domínio Público)/"Urubu Malandro" (Pixinguinha) - 7:20
5. "Pixinguinha 10x0" - 3:34
6. "Karawan" - 3:43
7. "O Sanfoneiro Do Deserto" - 3:08
8. "Misteriosamente" - 2:59
9. "A Travessia": 
Parte I (João Bosco/ Waly Salomão/Antônio Cícero) - 2:14
Parte II - 3:12
Parte III - 7:49
10. "O Mêdo" (João Bosco/Francisco Bosco) - 3:59
11. "Canto Da Wemba" (Canto Afro-cubano do Séc. XIX)/"Gagabirô" - 5:30
Todas as composições de autoria de Joao Bosco, exceto indicadas

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OUÇA:


Daniel Rodrigues



cotidianas #901 - "De Frente pro Crime"

 


Tá lá o corpo estendido no chão
Em vez de rosto, uma foto de um gol
Em vez de reza, uma praga de alguém
E um silêncio servindo de amém

O bar mais perto depressa lotou
Malandro junto com trabalhador
Um homem subiu na mesa do bar
E fez discurso pra vereador

Veio o camelô vender!
Anel, cordão, perfume barato
Baiana pra fazer
Pastel e um bom churrasco de gato

Quatro horas da manhã
Baixou o santo na porta bandeira
E a moçada resolveu
Parar, e então

Tá lá o corpo estendido no chão
Em vez de rosto uma foto de um gol
Em vez de reza uma praga de alguém
E um silêncio servindo de amém

Sem pressa, foi cada um pro seu lado
Pensando numa mulher ou no time
Olhei o corpo no chão e fechei
Minha janela de frente pro crime

Veio o camelô vender!
Anel, cordão, perfume barato
Baiana pra fazer
Pastel e um bom churrasco de gato

Quatro horas da manhã
Baixou o santo na porta bandeira
E a moçada resolveu
Parar, e então

Tá lá o corpo
Estendido no chão

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"De Frente pro Crime"
João Bosco/Aldir Blanc

Ouça: De Frente pro Crime

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Música da Cabeça - Programa #467

 

Já é reprise o Brasil eliminado da Copa, como tem acontecido nas últimas seis edições do torneio. Mas reprise mesmo será a do nosso programa 296, de dezembro 2022, quando ocorria a Copa em Dubai - e a Seleção se despedia mais uma vez... No clima de futebol, mas sempre com muita música, como Whale, Joy Division, Criolo, Adoniran Barbosa, Arnaud Rodrigues e mais. Só pelos craques agora, o MDC segue prestigiando a Copa na classificada Rádio Elétrica. Produção e apresentação: Daniel Rodrigues


www.radioeletrica.com

domingo, 5 de julho de 2026

A Seleção do Gil

 


Não tem ninguém na música brasileira que seja tão identificado com futebol do que Gilberto Gil. Duvida? Então diz aí alguém que torce para vários times ao mesmo tempo como ele. Além do Bahia, seu time, digamos, "natal", Gil tem como característica ter um clube em cada Estado brasileiro. No Rio de Janeiro, é Fluminense; em São Paulo, Santos; no Rio Grande do Sul, veste a camiseta gremista; em Pernambuco, a do Santa Cruz e assim por diante. 

Quando se trata de Seleção Brasileira, então, aí o velho baiano se delicia. Tanto que essa paixão pelo esporte bretão está em várias músicas do cancioneiro gilbertiano. Desde os primeiros anos de carreira até os dias atuais, Gil traz o futebol entremeado à sua faraônica musicalidade. Por isso, com o Brasil avançando de fase na Copa do Mundo, assim como já fizemos com Jorge Benjor e Chico Buarque rodadas atrás, agora é a vez de escalarmos as 11 músicas de Gil, sejam para sua própria voz ou para a de outros artistas, sejam composições de sua autoria ou de outros. Independentemente de quem cante ou compõe, é a arte maior de Gil subindo neste palco de quatro linhas feito de grama. 

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"No tempo que Lessa era goleiro do Bahia
Um goleiro, uma garantia"







1. "Tradição", do álbum "Realce" (1979): Considerada uma das obras-primas de Gil, admirada por colegas como João Bosco e Caetano Veloso, “Tradição”, de “Realce”, de 1979, é uma verdadeira crônica soteropolitana feita de reminiscências do Gil de sua infância. Numa narrativa que lembra Jorge Amado, são contadas, pelo olhar da observadora criança, diversas situações da cidade, como a discriminação racial, o comportamento social e... o futebol, quando Gil refere-se ao arqueiro Walter Lessa, multicampeão pelo seu Bahia entre 1947 a 1950. Já que estamos falando do camisa 1, nada melhor para começar essa lista com o goleiro.

Ouça: Tradição










2. "O Bom Jogador", do álbum "O Viramundo - Ao Vivo" (1972-1998): Música da entressafra do Gil pós-exílio, “O Bom Jogador” fazia parte do repertório que ele levava para os diversos shows que fazia em pequenos teatros no início dos anos 70 após retornar de Londres. Não entrou em nenhum disco na época, vindo a aparecer apenas na caixa com sobras de 1998 e, posteriormente, no registro de show na USP em 1973, lançado nos anos 2000. Na curta letra, uma máxima futebolística: “O bom jogador não engana a geral”.

Ouça: O Bom Jogador



"Viva Pelé do pé preto
Viva Zagallo da cabeça branca"






3. "Abre o Olho", do álbum "Gilberto Gil Ao Vivo" ou "Ao Vivo no Tuca" (1974): Não se trata de uma música necessariamente sobre futebol. Aliás, está mais para uma viagem lisérgica e filosófica de um homem frente a frente consigo mesmo diante do espelho. Mas o refrão não pode ser mais futebolístico - e nem tão emblemático: combinação de talento e "consumição" que deram ao Brasil os títulos mundiais de 1958 e 1970, representadas em Pelé e Zagallo, os quais, segundo Gil, "dão o sentido de contradição e complementaridade yin-yang; um é África, o outro, Europa”.

Ouça: Abre o Olho











4. "Samba Rubro-Negro (O Mais Querido)", com Germano Mathias, do álbum "Antologia do Samba-Choro" (1979)
: Prova de que Gil gosta mesmo é de futebol e não dá bola para rivalidades clubísticas é que ele também exalta seus adversários, caso de “Corintiá”, que ele grava, em 2010, mesmo sendo, em São Paulo, santista. A mesma coisa acontece com o rival de seu Fluminense no Rio, o Flamengo, para o qual ele grava, no seu desconhecido e raro disco “Antologia do Samba-Choro”, feito em parceria com o cantor e compositor paulistano Germano Mathias em 1978, “Samba Rubro-negro (O Mais Querido)”, de autoria de Wilson Batista e Jorge de Castro.

Ouça: Samba Rubro-Negro



"Magos da bola na Cidade Luz
Fazem milagres, transmutações
Dores e horrores que a vida produz
São transformados no balé da bola
Suor e sangue no balé da bola
Crime e castigo no balé da bola"




5. "Balé da Bola (Copa 98)", do single "Balé da Bola - Copa 98" (1998): Quando Gil inventa de compor sambas-enredo sempre sai coisa muito boa. Foi assim com “De Bob Marley a Bob Dylan, Um Samba-Provocação” e “Quilombo, O Eldorado Negro”. Para a Copa do Mundo de 1998, na França, o jornal O Globo contratou-o para compor um tema, que se tornaria na prática o tema daquela fatídica Copa em que o Brasil foi vice-campeão. Mas a música é uma maravilha, de alto poder poético e embalada ao ritmo de uma escola de samba. Só o olhar dele para ter tamanha arguição de ver que “Quando a seleção marcar um gol” serão séculos e mais séculos de nossa história, e que o mesmo vem desde os tupis e passa pela China, Grécia ou na França medieval. É muito craque!

Ouça: Balé da Bola










6. "Trinca de Ases", com Nando Reis e Gal Costa, do álbum "Gil, Nando & Gal - Trinca de Ases - Multishow Ao Vivo" (2018): Composta por Gil especialmente para o projeto deste nome em que ele divide "as quatro linhas" com Gal Costa e Nando Reis, a música faz analogias com o “estilo de jogo” de cada um. Ele, mais maduro, faz um jogo seguro e paciente. Nando, mais jovem, é “impetuoso e viril”. Já a “moça”, por sua vez, “corre livre”. Afinal, quem tem Gal no time tem que passar mesmo a bola pra ela e deixá-la fazer o gol. 

Ouça: Trinca de Ases



"Moleque saci
Saci-pererê
Um gol de Pelé
Que é pra gente ver"





7. "Saci Pererê", com Banda Black Rio, do álbum "Saci Pererê" (1980)
: Assim como "Meio de Campo", é dessas pérolas escritas por Gil para outros artistas, e que casualmente também trata de futebol. Neste caso, a música foi encomendada para a Banda Black Rio, grupo que Gil homenageara em “Refavela” (1977). Para o terceiro e último disco da Black Rio com a formação clássica, o baiano compõe esse reggae, que se tornaria nada menos que a faixa-título e no qual faz referência a um talentoso e intrépido moleque negro brasileiro que, embora perneta, joga muito melhor do que vários “pernas-de-pau” com os dois membros inferiores. Dê-se a camisa 7 pra esse atrevido atacante.

Ouça: Saci Pererê











8. "Meio de Campo", com Elis Regina, do álbum "Elis" (1973)
: Impossível haver combinação melhor: a maestria da composição de um dos maiores compositores da MPB feita para a voz da maior cantora do Brasil. Elis Regina eterniza este samba cheio de suingue, que desafia a Ditadura ao falar em forma de carta endereçada ao polêmico Afonsinho, um dos mais politizados e engajados jogadores do futebol brasileiro dos anos 70. Gil admite na letra que não é “Pelé nem nada”, e que, se muito for, é “um Tostão”. Se Chico Buarque é nosso Pelé na música, não é nenhum demérito a Gil ser um Tostão, não!

Ouça: Meio de Campo









9. "Balé de Berlim", do single "Balé de Berlim" (2006): O Brasil pode não ter ganhado em 1998, mas que a ideia de Gil compor tema da Copa deu certo, ah! Isso deu. Tanto que o baiano foi chamado novamente para a mesma empreitada, só que então para a Copa do Mundo de 2006, na Alemanha. “Balé de Berlim” repete melodia e o clima de samba com letra atualizada para a ocasião e, desta vez, Gil convoca para fazer tabelinha com ele Zeca Pagodinho. Se, assim como na França, a música de Gil não deu a sorte que a Seleção precisava, ficou para a eternidade, ao menos, mais um belo tema dele sobre futebol.

Ouça: Balé de Berlim


"Alô, torcida do Flamengo
Aquele abraço!"






10. "Aquele Abraço", do álbum "Gilberto Gil" (1969): Gil estava com um pé no aeroporto rumo ao exílio forçado na Inglaterra por causa do Governo Militar, mas não sem antes deixar seu manifesto. E, claro, um manifesto com a sua cara: poético, resistente e em forma de samba de breque. O clássico "Aquele Abraço", além de tudo, põe o futebol no contexto político-social do País, chamando para sua celebração de resistência a "torcida do Flamengo", o que significa, como a própria expressão se popularizou, convocar o "todo o povo brasileiro". Música nota 10, merece a camisa 10!

Ouça: Aquele Abraço









11. "Campeão dos Campeões", com Os Doces Bárbaros, do álbum "Doces Bárbaros Bahia" (2000): A partir de um projeto encabeçado por J. Veloso, um dos irmãos de Caetano e Maria Bethânia, os Doces Bárbaros (que inclui, obviamente, ainda Gal e Gil) se reuniram para gravar um disco com versões de hinos e música em homenagem ao Sport Club Bahia. A Gil coube esse reggae de autoria de Zé Pretinho, Raquel e Bezerra da Silva – que, embora super ligado à malandragem carioca, era, na verdade, baiano. Quanto a Gil, este sim, não há dúvidas: por mais que vista a camiseta de outros clubes, na verdade, ele é mesmo "Baêah"!

Ouça: Campeão dos Campeões


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Daniel Rodrigues