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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Música da Cabeça - Programa #480


1,87%. Número que se torna um mantra para as próximas semanas. Mas vamos nos ater, pelo menos hoje, a outro número: o das 480 edições do MDC. Para marcar essa data, teremos convidados do calibre de Paulinho da Viola, Steve Reich, Silas de Oliveira, BaianaSystem, Suzanne Vega e mais. Rumo ao infinito, o programa especial entra no segundo turno às 21h na decisiva Rádio Elétrica. Produção, apresentação e mangas arregaçadas: Daniel Rodrigues


www.radioeletrica.com

domingo, 4 de outubro de 2026

cotidianas #909 - Dia da Eleição

 




Um visual meio selvagem para o dia
Olhos se abrindo disparam centelhas de neon
Ela zomba, ela rejeita
A cidade é sua escrava, ele está traindo sua amante
Ela é instável e obscura
Ela é má e ela é incansável
Tão incansável, incansável mesmo

Tudo sobre você, como dizem por aí
Boatos ou rivais gritam para a força de ataque
E aí caras, a propósito
Vocês estão cientes que estão sendo ilegais?
Isso faz com que o comportamento do seu salvador pareça maligno
Desculpe se não é o momento, mas me digam
Como vocês se encaixam nesta trapaça?

Máxima surpresa
Seu sorriso é algo novo
Eu tiro minha camisa e rezo
Nós estamos jurados e fadados a sofrer a onda de calor
Retire minha camisa e reze
Estamos chegando no dia da reeleição

Esticando meu amor pelo caminho
Ao seu convite, esticando meu corpo
Use sua jogada intuitiva
Porque talvez nós tenhamos mais tempo de jogo do que dinheiro

Surpresa máxima
Ela sabe de alguma novidade
Eu tiro minha camisa e rezo
Estou me poupando para sofrer a onda de calor
Tire minha camisa e reze
Estamos chegando no dia da reeleição

Por estradas e vielas
A chance de um amante na direção do vento
Abafa murmúrios e sons
Que sejam calmas as mãos sobre a pele
Vá mais longe
Cordas entrelaçadas todas cantam
Ganhando algum tempo para escapar
Nós poderíamos dançar!

Não deveria estar perguntando
Louco e intrigante
Podia ser meu dia da eleição

Nem tente me induzir
Em toda a minha restrição não há hesitação
Todos os sinais estão à solta
Por que a sanidade é rara no fim deste dia difícil
Sombras estão rastejando para fora do metrô
Qualquer caminho que você escolhe
Em todas as direções apenas para me confundir

Surpresa máxima
Você sabe de alguma novidade
Eu tiro minha camisa e rezo
Nós estamos jurados e fadados a sofrer essa onda de calor
Tire minha camisa e reze
Estamos chegando no dia da reeleição
Dia da reeleição

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tradução da letra da música "Election Day"
da banda Arcadia

Ouça:

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Miles Davis - "Tutu" (1986)




"Em ‘Tutu’, cada faixa foi criada pensando na voz dele. Miles nunca era algo incidental na faixa, tentando encaixar o trompete. O som de Miles guiou tudo."
Marcus Miller

Tornar-se um artista icônico e produzir obras-primas tem seus preços. Um desses fardos é a auto-comparação, que pode levar, em alguns casos, a obscurecer outras obras não menos apreciáveis do mesmo artista. No cinema, um exemplo clássico é a trilogia “O Poderoso Chefão”, de Francis Ford Coppola. Lado a lado com os dois primeiros da série, marcos da história do cinema, o terceiro filme, embora obviamente menor que seus antecessores, é excessivamente desqualificado pela crítica. Copolla até hoje paga por essa injustiça, pois “Chefão 3” é, se não tão revolucionário, bastante apreciável.

Na música, não são poucos os casos em que um artista paga pela própria qualidade. Miles Davis, gênio do jazz e da música mundial, que completa 100 anos de seu nascimento em 2026, sofreu com isso. Não é para menos. Em cerca de quatro décadas, ele foi protagonista de algumas das principais revoluções do jazz, do be-bop ao cool, do hard-bop ao modal, do fusion ao jazz-rock, do funk ao hip-hop. Talvez por isso, “Tutu”, álbum lançado por Miles em 1986, não seja listado junto de outros discos célebres do artista como “Kind of Blue”, “Birth of The Cool”, “In a Silent Way” e “Miles Ahead”. Porém, “Tutu” (que também está de aniversário, 40 anos) é, inegavelmente, um dos melhores trabalhos da longa discografia do mestre, com uma sonoridade que une, com a sofisticação que lhe era característica, o jazz-funk, o fusion e o electro-pop.

Uma das características mais apreciáveis em toda a carreira de Miles, além de sua inteligência, liderança e qualidade musical, era sua capacidade de se reinventar. Em “Tutu”, com a devida ajuda de Marcus Miller e outros músicos tarimbados – entre eles, o craque da soul-jazz George Duke –, ele age como um verdadeiro veterano sábio: deixa que os outros trabalhem pra ele e entra só na hora certa. Só quando é imprescindível: com o toque inconfundível e hipnotizante de seu trompete, a cereja do bolo. Totalmente instrumental e com praticamente todas as composições de autoria de Miller – que também toca baixo, arranja e produz o disco a quatro mãos com o experiente Tommy LiPuma –, “Tutu” traz a sonoridade pop ao jazz com uma qualidade ímpar. Algo que, aliás, nem o próprio Miller havia atingido, basta ouvir o seu álbum solo imediatamente anterior, de 1984, e perceber que a química com Miles foi, realmente, essencial para o resultado. A composição é dele, mas a alma é de Miles.

A faixa-título e de abertura entra mostrando os predicados desse projeto: ataques soltos de teclados, bateria eletrônica e as primeiras frases de trompete, dando ao ouvinte uma amostra das texturas e sonoridades que permearão o restante da audição. Até que os sons se organizam e se forma um funk cadenciado, sincopado, e um riff dissonante muito, mas muito charmoso. O baixo de Miller segura a linha melódica – aliás, como em todo o disco – e na “cozinha” está ninguém menos do que o grande percussionista brasileiro Paulinho da Costa. 

“Tomaas”, na sequência, única que Miles coassina a autoria, é outro funk sem pressa e não menos elegante. Não só pelo arranjo e pela sonoridade sensual mas, claro, principalmente, pelo sopro de Miles. O "refrão", jazz fusion, e que se repete de tempo em tempo, é de pura musicalidade. O tema ainda conta com as participações do percussionista norte-americano Omar Hakim e os sintetizadores do jamaicano Bernard Wright. Certamente, das melhores composições de Miles em toda a década de 80.

“Portia”, outra belíssima, é ainda mais melodiosa e sensual. O estilo sonoro do baixo e das programações rítmicas, que se tornaram modelo a produtores de toda a música mundial à época, estão aqui em perfeito exemplo. E o trompete de Miles arremata, soltando suas frases econômicas, que desenham a faixa de cabo a rabo. Quebrando essa introspecção, as animadas “Splash” e “Perfect Way” são duas em que o funk prevalece, mas nem por isso são menos melodiosas.

Entre estas duas está uma outra joia: “Backyard Ritual”, em que Duke, seu autor, é quem comanda. Fora o baixo, a cargo de Miller, e o trompete do artista principal, é ele quem toca todos os instrumentos, além de arranjar e produzir a faixa. O autor do hit AOR “Sweet Baby” e dono de uma invejável discografia em que passeia pelos mais variados ritmos da black music tem, aqui, o privilégio de contar com a lenda Miles a seu serviço. Para tanto, compõe para o ídolo um electro-funk de batida marcante, com seus teclados groove, os slaps do baixo de Miller e a magia dos solfejos de Miles. 

O ótimo reggae dub “Don't Lose Your Mind” e o funkão “Full Nelson”, homenagem ao líder sul-africano anti-apartheid Nelson Mandela, à época preso, encerram o disco cujo título também faz referência à vida sociopolítica daquele 1986: o arcebispo sul-africano Desmond Tutu. “Full Nelson”, aliás, cheia de suingue e sagacidade, daria inveja a Prince por não tê-la escrito não fosse ele o exímio compositor que era. 

Mesmo com o Grammy de Melhor Performance Instrumental de Jazz, em 1987, “Tutu” ainda é relegado pela crítica dentro da discografia de Miles Davis. Os fãs, no entanto, adoram. Tanto que se tornou sinônimo de jazz-pop dos anos 80, influenciando músicos como Prince, Madonna, Sade, Incognito, Everything But the Girl e toda a turma do smooth-jazz e do jazz-rap dos anos 90, como Guru, US3 e Easy Mo Bee – que faria o disco imediatamente póstumo de Miles, em 1992, “Doo-Bop”, fundindo jazz com hip-hop e pegando muitas referências de “Tutu”. Mais do que isso, este disco tirou Miles de certo ostracismo ao qual vivia desde meados dos anos 70, trazendo-o para os holofotes novamente e, principalmente, restituindo-lhe o protagonismo. Como em vários outros momentos na história do jazz, Miles demarcava um novo começo para o gênero. E ele sabia que devia esse ressurgimento a Miller, tanto que o velho músico não deixou de agradecer quando lhe disse certa vez: "Valeu, cara. Você me trouxe de volta." 

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FAIXAS:
1. “Tutu” - 5:15
2. “Tomaas” – (Marcus Miller, Miles Davis) - 5:32
3. “Portia” - 6:18
4. “Splatch” - 4:45
5. “Backyard Ritual” (George Duke) - 4:49
6. “Perfect Way” (David Gamson, Green Gartside) - 4:32
7. “Don't Lose Your Mind” - 5:49
8. “Full Nelson” - 5:05
Todas as composições de autoria de Marcus Miller, exceto indicadas

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OUÇA:
Miles Davis - "Tutu" 

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Daniel Rodrigues

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Música da Cabeça - Programa #479


Ô, santinha, bem que podia dar uma ajudinha e matar essa eleição no primeiro turno, né? A base de reza, o MDC desta semana também tem, claro, música. The Modern Lovers, Guinga, Parliament, Richard Strauss, Luis Fernando Verissimo e Madonna lançam seus cantos de fé. Botando fé na urna, o programa vai ao ar hoje, 21h, na consagrada Rádio Elétrica. Produção, apresentação e "faz o L": Daniel Rodrigues


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quarta-feira, 23 de setembro de 2026

John Coltrane - "Olé Coltrane" (1961)


"Que grão toureiro na praça!
Que bom serrano na serra!
Que brando era com as espigas!
Que duro com as esporas!
Que terno com o orvalho!
Que deslumbrante na feira!
Que tremendo com as últimas
bandarilhas todas treva!"
Trecho do poema "Pranto por Ignacio Sánchez Mejías", do poeta espanhol Federico Garcia Lorca

Não há precisão nas datas, mas estima-se que o jazz tenha surgido em finais do século 19. Ou seja: trata-se de uma linguagem de pouco menos de um século em meio, ainda mais considerando que, comercialmente, estabeleceu-se na indústria fonográfica há menos que isso. O florescimento do jazz foi como a abertura de um portal de onde pode-se ver emergir alguns dos maiores gênios da música moderna reconhecidos por todo o mundo. Estes praticamente 100 anos do jazz coincidem com os exatos 100 de nascimento daquele que é, talvez, não apenas o maior talento da história do jazz, como um ser ainda mais prodigioso na história da música. Como Beethoven, Mozart, Bach, Debussy. Um gênio superior, movido por um amor supremo e que tocou, com seu sopro de saxofone, a mão de Deus: John Coltrane.

Em sua vasta obra, produzida em apenas 9 anos de carreira, entre diversos álbuns solo, parcerias ou participação em conjuntos, não são poucos os discos que se destacam, sendo comum se lembrar da fase com seu famoso quarteto do início dos anos 60, formado por Elvin Jones, na bateria, McCoy Tyner, piano, e Paul Chambers, baixo. Porém, em meio a tanta variedade e qualidade, um outro trabalho merece especial realce: “Olé Coltrane”, de 1961.

Além de integrar com muita propriedade e originalidade formas jazzísticas distintas, como o hard bop e o jazz modal ao pós-bop e o avant-garde, e diferentemente de outros trabalhos do próprio Coltrane da mesma época em que o hard-bop prevalecia (“Giant Steps”, “Lush Life”, “Bags & Trane”, “Coltrane Jazz”), “Olé” é exuberante também na formação do grupo que o acompanha. Mesmo com o sucesso de seu então recém formado quarteto mágico, Coltrane ousa experimentar uma banda maior e com outras sonoridades, texturas e estilos. Para executar os três números de “Olé”, chama para a gravação, ocorrida em maio daquele ano para a gravadora Atlantic, um time grande, que incluía, além do piano (Tyner), bateria (Jones) e baixo (Art Davis e Reggie Workman intercalando-se), flauta (Eric Dolphy), trompete (Freddie Hubbard) e um sax alto para conjugar com os seus tenor e soprano. 

Com esta conformação diferente e expandida em relação a uma banda mais enxuta, Coltrane cria uma atmosfera densa e onírica para traduzir a sua visão da cultura hispânica, algo muito em voga no jazz daquele início de anos 60. Na faixa-título, “Olé”, entretanto, Coltrane faz mais do que apenas dar sua versão, mas, sim, de moldar sua alma àquela sonoridade. Jazz modal de mais de 18 minutos (o que compreende todo o lado A do formato LP original), tem na influência espanhola um “leitmotiv”, que dá base para que ele e seus parceiros de estúdio desaguem suas melhores intenções e impressões. Dolphy, com uma flauta estonteante tal o capote vermelho do toureiro tremulando diante do touro; Hubbard, contagiado pela emoção da arena, mas sempre com um olhar no que virá adiante, no próximo passo do bailado mortal; Davis com um baixo ora trastejado, ora tangido, que remete às variações de posição entre o furioso animal e o destemido artista; Tyner com o piano garantidor do espectro modal em suas variações circulares, assim como o formato da arena da tourada; a bateria de Jones pulsando num compasso flamenco; e o sax soprano de Coltrane, claro, representando o toureiro: elegante, esguio, altivo, sensual. Mas, sobretudo, fatal, matador. 18 min de puro deleite.

Jazz bluesy, "Dahomey Dance" convida o ouvinte a outro tipo de dança, que não o bailado dramático da tourada imortalizado nos versos de Federico Garcia Lorca. Voltando-se à celebração da sua Mãe-África, Coltrane e banda transformam em sons toda a grandeza do icônico Reino de Daomé, na África Ocidental e onde hoje fica localizado o Benim, o qual prevaleceu por três séculos através de sua arte, comércio, exércitos e religiosidade. Fechando, “Aisha”, de autoria de Tyner, uma homenagem à sua então esposa e cujo nome, não coincidentemente, tem, como ela, origem árabe (Tyner foi um devoto da religião islâmica) e ainda por cima significa "aquela cheia de vida". Assim como ela, a música é, sim, tomada de vida e pelo calor da paixão. Para quem já era, àquela época, um dos mais exímios baladistas do jazz como Coltrane, essa composição do amigo dedicada à sua amada foi um presente. Quanta delicadeza, e não somente de front man, mas de Hubbard, Dolphy, Jones e Workman, de quem se escuta, ao fundo, o vibrar das cordas do contrabaixo. De Tyner, então, nem se fala.

Há 100 anos nascia John Coltrane. Há mais ou menos o mesmo tempo, o jazz se estabelecia como cultura. Hoje, é impossível conceber um sem o outro: Coltrane sem que o jazz tenha sido antes inventado e, tanto quando, o jazz sem o capítulo Coltrane em sua história. Um século de Coltrane é como celebrar um século de jazz. Ou vice-versa. Não importa de que lado ou de onde venham os aplausos para sua música universal. Pode ser de qualquer lugar do mundo. Italianos diriam "Bravo!", franceses diriam "Hourra!", latinos diriam "Viva!" e os espanhóis, sabiamente dramáticos, dizem: "Olé, Coltrane!".

🎷🎷🎷🎷🎷🎷🎷🎷🎷

FAIXAS:
1. "Olé" (John Coltrane) - 18:05
2. "Dahomey Dance" (Coltrane) - 10:50
3. "Aisha" - (McCoy Tyner) - 7:32

Faixa bônus da edição em CD:
4. Original Untitled Ballad (To Her Ladyship) (Billy Frazier) - 9:00

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OUÇA:

🎷🎷🎷🎷🎷🎷🎷🎷🎷


Daniel Rodrigues


Música da Cabeça - Programa #478

 

Vamos ser bem sinceros com vocês: no MDC de hoje não vai rolar John Coltrane. Mas nem precisa, pois já serve a homenagem que a gente faz pelos 100 anos de seu nascimento. E sob a sua egrégora, teremos, isso sim, Jackson do Pandeiro, Filó Machado, The Smashing Pumpkins, Secos & Molhados e George Benson. No Cabeção, Arrigo Barnabé. Emitindo os sons de Deus, o programa vai ao ar às 21h na jazzística Rádio Elétrica. Produção, apresentação e um amor supremo: Daniel Rodrigues 


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sábado, 19 de setembro de 2026

cotidianas #908 - Ferir





"Wound", by Russel Mills
Hoje eu me feri
Para ver se eu ainda sinto
Eu foquei na dor
A única coisa que é real
A agulha faz um buraco
A velha e familiar picada
Tenta matar isto para longe
Mas eu me lembro de tudo

Em que foi que eu me tornei?
Meu mais doce amigo
Todo mundo que eu conheço vai embora
Quando chega o fim
E você poderia ter ficado com tudo
Meu império de sujeira
E eu vou te decepcionar
E eu vou fazer você se machucar

Eu uso essa coroa de espinhos
Sentado na minha cadeira de mentiroso
Cheio de pensamentos quebrados
Que eu não posso reparar
Debaixo das manchas do tempo
Os sentimentos desaparecem
Você é uma outra pessoa
E eu continuo exatamente aqui

Em que foi que eu me tornei?
Meu mais doce amigo
Todo mundo que eu conheço vai embora
Quando chega o fim
E você poderia ter ficado com tudo
Meu império de sujeira
E eu vou te decepcionar
E eu vou fazer você se machucar

E se eu pudesse começar de novo
Um milhão de milhas distante
Eu ainda seria eu mesmo
Eu acharia uma forma

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tradução da letra da canção "Hurt"
de Trent Raznor, do Nine Inch Nails
reinterpretada por Johnny Cash

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Ouça:

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Popol Vuh - “Letzte Tage - Letzte Nächte” (1976)

 

"Uma visão do Popol Vuh.
Uma visão das coisas claras veio do lado mar,
A descrição das nossas sombras.
Uma visão da vida clara, como é chamada."
Trecho do "Popol Vuh", o livro sagrado dos Maias (século XVI)

O movimento krautrock alemão foi marcado pela diversidade e pelo avanço tecnológico. Embora todos os grupos e artistas se aproximem de um mesmo motivador inicial, o cenário da Alemanha pós-guerra e os efeitos da reindustrialização do país, as diferenças entre as bandas e artistas se tornariam marcantes à medida que os trabalhos desses músicos iam se desenvolvendo. E a tecnologia, princípio fundamental a toda geração da nova música alemã de meados dos anos 60, desdobrou-se de formas distintas na musicalidade de cada um. Kraftwerk, Klaus Schulze e Neu!, por exemplo, optaram pelo uso sistemático dos sintetizadores e sequenciadores, tornando-se seguidores naturais da linha de Darmstadt de Stockhausen e Boulez. Can, Gong e Faust, no entanto, foram aos poucos assumindo sonoridades mais psicodélicas e progressivas, dando aos sons das máquinas um papel complementar aos arranjos.

No caso da Popol Vuh, banda de Munique idealizada pelo viajandão Florian Fricke, estudante de piano de cauda e composição na Universidade de Freiburg – e crítico de cinema em tempo parcial, além de amigo do cineasta Werner Herzog – essa dicotomia entre eletrônico e analógico se dá noutra dimensão: no convívio quase dual entre o clássico e o moderno. Isso porque, depois do primeiro disco, “Affenstunde”, de 1970, a Popol Vuh tornou-se deliberadamente anacrônica, abandonando paulatinamente moogs, sintetizadores e afins. O negócio era manejar instrumentos acústicos como tanpura, oboé, cítara e percussões africanas das mais diversas. De sonoridades que vão do folk ao hindu, marcando álbuns como “In Den Gärten Pharaos” (1971), “Hosiana Mantra” (1972) e “Das Hohelied Salomos” (1975), eles chegam, em 1976, a seu melhor resultado:  o enigmático e deslumbrante “Letzte Tage - Letzte Nächte”, que completa 50 anos de lançamento em 2026.

Entre os muitos músicos alemães que, na década de 1970, olharam para a Índia e o Extremo Oriente na busca de absorverem a espiritualidade oriental, Fricke é o maior exemplo. Seu trabalho é uma exploração constante do mesmo tema: como expressar a espiritualidade mais pessoal, profunda e austera por meio da música clássica ocidental, da música sacra e do rock profano. O nome da banda diz tudo: uma homenagem direta ao livro sagrado dos Maias, redigido na Mesoamérica no século XVI. Por isso, a Popol Vuh pode estar na Baviera do século XVIII, na Amazônia do Século XVI, na Índia védica de 1500 a.C., na Jerusalém do período bíblico ou num futuro distópico imaginado. Mas nunca no tempo presente. “Letzte...”, certamente o disco mais rock da banda, é permeado por todas essas referências.

Fricke e Daniel Fichelscher (responsáveis pela maioria dos instrumentos das gravações), travam um duelo musical, que expõe com inédita clareza a natureza dialética da Popol Vuh, a qual se equilibra entre sagrado e profano, classicismo e modernidade, teutonismo e psicodelia. “A dialética entre os dois é um espetáculo por si só: a guitarra é o demônio que salta em cada passagem, enquanto o piano é o anjo que tenta manter o calor e a tranquilidade. A guitarra é puro caos hedonista, enquanto o piano é ordens ascéticas e clássicas”, descreve o historiador cultural ítalo-americano Piero Scaruffi. Por falar em guitarras, as de “Der Grosse Krieger”, faixa de abertura, não só chamam para si o protagonismo como em muito lembram a sonoridade da The Cure e, especialmente, o estilo de tocar de Robert Smith. 

Essa parecença não é infundada, visto que, dark, o som da Popol Vuh é quase gothic-punk, o que se nota também em instrumentais como “Oh Wie Nah Ist Der Weg Hinab”. Música-irmã desta, “Oh Wie Weit Ist Der Weg Hinauf" vem em seguida como numa resposta. Ritualística, traz nas vozes das cantoras Djong Yun e Renate Knaup vocalises, que fazem lembrar o mantra hinduísta ao deus Krishna (“Haram Dei Raram Dei Haram Dei Ra”), mas sem deixar de dialogar com o rock progressivo.

Depois da folk “In Deine Hände”, “Kirye” comprova aquilo que Scaruffi salienta, que é a contribuição lírico-sacra de Fricke. A despeito da carga de rock prog engendrado por Fichelscher, não é na guitarra, mas no piano que esta canção é forjada. Melódica e suplicante, a se ver pelo significado da palavra originária do grego antigo ("Senhor, tende piedade de nós"), “Kyrie” também vai ganhando intensidade no entoar das vozes femininas e da guitarra. Na sequência, “Haram Dei Raram Dei Haram Dei Ra” repete a melodia de “Oh Wie Weit Ist Der Weg Hinauf", só que agora trazendo como título as palavras de chamamento à energia divina Bhakti Yoga presente na letra. 

Talvez as duas mais bonitas faixas do álbum são também as que o encerram em um clima elevado. A primeira é “Dort Ist Der Weg”, um rock experimental que antevê a sonoridade de bandas do pós-punk europeu como a já mencionada The Cure. Um rock com influências das culturas indianas, germânicas, britânicas, célticas e romani, algo que também se poderia já chamar de world music (e que se exacerbaria no som da Popol Vuh em “City Raga”, de 1995). 

Já a faixa-título é ainda melhor. Ela antecipa a sonoridade de outros ilustres britânicos da cena alternativa: a Cocteau Twins. E não a Twins tristonha da primeira fase, mas a sua versão dream pop, como uma música feita para (e por) os anjos. Afora a guitarra etérea, que em muito lembra a de Robin Guthrie, as vozes de Djong e Renate cantando juntas aumentam ainda mais a semelhança com os escoceses, que usavam o vocal de Liz Frazer em overdub, produzindo um efeito de vozes paralelas e complementares muito parecido. Além disso, a própria melodia climática faz remeter aquilo que a Cocteau Twins faria anos mais tarde em discos célebres como “Heaven or Las Vegas”. 

Fricke continuaria comandando a Popol Vuh por mais vários anos até sua morte, em 2001, produzindo invariavelmente bons discos, entre eles trilhas sonoras para filmes do amigo Werner Herzog, como as de “Aguirre: A Cólera dos Deuses”, “Coração de Cristal”, “Fitzcarraldo” e “Cobra Verde”. Mas embora a abismal musicalidade da Fricke e seus ascetas, eles nunca fizeram um trabalho tão emblemático como “Letzte...”, onde conseguiram dar outras (e inéditas) cores à tecnológica krautrock e provar que, independente das maquinarias, sejam as do presente ou as do passado, a centralidade na alma continua sendo o que move a arte.

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FAIXAS:
1. "Der Große Krieger" - 3:15 (Daniel Fichelscher)
2. "Oh Wie Nah Ist Der Weg Hinab" - 4:36
3. "Oh Wie Weit Ist Der Weg Hinauf" - 4:30
4. "In Deine Hände" - 3:00
5. "Kyrie" - 4:38
6. "Haram Dei Raram Dei Haram Dei Ra" - 1:30
7. "Dort Ist Der Weg" - 4:30 (Fichelscher/Fricke)
8. "Letzte Tage - Letzte Nächte" - 4:20 (Fichelscher/Fricke)
Todas as composições de autoria de Florian Fricke, exceto indicadas

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OUÇA:
“Letzte Tage - Letzte Nächte” 

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Daniel Rodrigues


quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Música da Cabeça - Programa #476

 

Já que tá todo mundo entrando nessa de trend de anos 80, pensamos: por que não entrar também? Afinal, o MDC nunca deixou de rodar a música da "década perdida", que em termos de música não tem nada de perdida. Hoje mesmo, só pra ter ideia, vai ter Michael Jackson, Legião Urbana, Bauhaus, Nei Lisboa e Sonic Youth. Mas tem também a galera nova (Thundercat), dos 90 (Black Grape, Aimée Mann) e os eternos (Gilberto Gil, Elton John, Milton Nascimento). Caracterizando-se em todas as épocas, o programa vai ao ar às 21h na oitentista Rádio Elétrica. Produção, apresentação e visual espalhafatoso: Daniel Rodrigues



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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

The Seeds - “The Seeds” (1966)


"Sky Saxton era um guerreiro espiritual que me dizia que os músicos eram os profetas vivos do mundo."
Billy Corgan


Os deuses do rock talvez não sejam tão generosos com as garage bands. Enquanto as grandes bandas do mainstream faziam sucesso, vendiam milhões de discos e conquistavam todas as menininhas, as bandas de garagem, muitas vezes tão inventivas e revolucionárias quanto, ficavam à margem como patinhos feios. Uma dessas joias subvalorizadas é a The Seeds. Surgida na efervescente Los Angeles dos anos 60, a banda liderada pelo intrépido Sky Saxton tinha suas raízes no melhor do blues de Chicago e fazia, tal outras garage bands da época, como The Sonics, The Chocolate Watch Band, Monks, The Electric Prunes e The Troggs, um som altamente psicodélico e arrojado, união da onda hippie e do punk, que começava a se formar.

Com a devida má produção do próprio Saxton (afinal, garage band que se preze tem som cru em estúdio e no palco), “The Seeds”, primeiro e homônimo disco da banda, completa 60 anos com o mesmo vigor adolescente e rebelde de quando foi gravado. Se a trajetória da banda começa com a suave “Can't Seem To Make You Mine”, faixa de abertura do disco, na sequência engatam quatro pedradas: “No Escape”, “Lose Your Mind”, "Evil Hoodoo" e “Girl I Want You”. Cartão de visitas devidamente apresentado.

A sonoridade da Seeds era formada, primeiramente, pela presença e pelo vocal marcante de Saxton, cujo timbre é algo entre o anasalado de Van Morrison jovem e rasgado de Mick Jagger. Como os recursos de efeitos de guitarra eram parcos, criavam jeitos para que sua música soasse mais ruidosa. Sem o saxofone áspero da Sonics ou condições de estúdio um pouco melhores, Saxton e cia. distorciam a saída do alto-falante, metiam um moog a la The Doors ou, simplesmente... tocavam mais alto! Mas o principal, a qualidade do que compunham, era prioridade. Em cima dos acordes clássicos inspirados em Little Richards e nos gêneros negros da música pop, esmeravam-se em inventar riffs, texturas, ritmos, atmosferas. Tudo que provocasse sujeira e psicodelia. Se havia menos recurso, sobrava criatividade. 

A embalada “Pushin' Too Hard”, das melhores deles, é o melhor exemplo. Música que podia tranquilamente fazer parte do repertório da The Stranglers (até por causa do moog frenético), é a de maior sucesso do grupo e tão emblemática quanto outros hinos da garage band, como "Louie Louie", “Witch” e “Wild Thing”. A letra, reflexo das aspirações daquela geração, diz: “Bem, tudo que eu quero é apenas ser livre/ Viver minha vida do jeito que eu quero ser/ Tudo que eu quero é apenas me divertir/ Viver minha vida como se ela apenas tivesse começado”. Já “Try To Understand”, muito The Kinks, é também das melhores.

Outras em que o blues prevalece, porém com a pegada suja da Seeds, são “Nobody Spoil My Fun”, “It's A Hard Life” e “You Can't Be Trusted”, quase uma segunda “Pushing...”. Fechando essa pequena joia do Psychedelic Rock sessentista, “Excuse Excuse”, sonzeira com um riff simples e supercriativo, o princípio do punk. Um blues tradicional, ao estilo dos mestres Howlin’ Wolf e Muddy Waters, é o que encerra o álbum de estreia da banda com a faixa “Fallin' In Love”, tão mal produzida que nem a voz do vocalista se escuta direito sem que isso seja proposital. Mas tudo bem: é pra ser assim mesmo! Crueza, sangue, rebeldia, psicodelia. Rock.

A Seeds lançaria naquele mesmo ano seu segundo disco, “A Web of Sound” e, logo em seguida, o terceiro e último álbum da banda, “Future”. Meses depois, irrequieto e espiritualista, Sax se juntava à comuna Source Family, liderada pelo Padre Yod, iniciando uma intensa jornada espiritual e com quem gravou vários álbuns experimentais da banda Ya Ho Wha. A Seeds seria retomada por Saxon nos anos 2000 com formações diferentes e com relativo sucesso nas turnês que fez pela Europa e Estados Unidos. Pouco antes de morrer, em 2008, Saxton foi reverenciado pelo amigo Billy Corgan, gravando com a The Smashing Pumpkins e aparecendo no videoclipe da canção não coincidentemente intitulada “Superchrist”. Pioneiros do movimento "Flower Power/Punk", Saxton e sua The Seeds mereciam, só por conta disso, mais consideração dos deuses do rock.

🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸

FAIXAS:
1. "Can't Seem To Make You Mine" - 2:56
2. 'No Escape" (Jan Savage/Jimmy Lawrence) - 2:08 
3. "Lose Your Mind" - 2:11
4. "Evil Hoodoo" - 5:00
5. "Girl I Want You" - 2:15
6. "Pushin' Too Hard" - 3:03
7. "Try To Understand" - 2:45
8. "Nobody Spoil My Fun" - 3:50
9. "It's A Hard Life" - 2:38
10. "You Can't Be Trusted" - 2:05
11. "Excuse, Excuse" - 2:20
12. "Fallin' In Love"- 2:47
Todas as composições de autoria de Sky Saxton, exceto indicada

🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸


Daniel Rodrigues

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Música da Cabeça - Programa #475

 

Traduzir a vida através de simples formas circulares foi a marca da obra de Yayoi Kusama, a quem a gente reverencia. Sem toda a genialidade dela, também arriscamos pintar no MDC de hoje nossas bolinhas, que carregam dentro de si muita música. Exemplos? The Avalanches, Stevie Wonder, Chico Buarque, Mário Reis, Beto Guetes e mais. No quadro especial, um Cabeça dos Outros. Repetindo padrões, mas sempre diferente, o programa se circunscreve às 21h na esférica Rádio Elétrica. Produção, apresentação e polka dots: Daniel Rodrigues


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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Música da Cabeça - Programa #474

 

Quem disse que super-herói não existe?! Que o Homem-Aranha combatia os criminosos se sabia, mas que ele metia a porrada em supremacista branco é novidade! Enchendo a mão contra esse imbecis, o MDC veste sua fantasia e aciona os superpoderes de Rufus & Chaka Kahn, Nelson Sargento, The Velvet Underground, Marisa Monte e mais. O bloco especial, Cabeção, traz ainda a compositora e pianista mexicana Consuelo Velasquez. Cada vez mais fãs do Spider-Man, temos nosso programa hoje, 21h, na confrontadora Rádio Elétrica. Produção, apresentação e super-força: Daniel Rodrigues



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sábado, 22 de agosto de 2026

ÁLBUNS FUNDAMENTAIS Especial Clyblog 18 anos - The Cure - "Wish" (1992)

 



“Wish”, A Prova Final de Quem Não Precisava Provar Mais Nada Pra Ninguém




“...eu amo The Cure. 
Não parece porque todo fã do The Cure 
se parece com o Robert Smith”
Noel Galagher, do Oasis





Se tem uma coisa que me estressa bastante é ter que esperar. Esperar em fila de mercado, nem se fala. Por isso, costumo sempre andar com meu telefone musical. Sim, aquele cachorro que não vai te abandonar quando você mais precisa. E eu só o uso para isso: ouvir música.
Outro dia eu estava no mercado, com meu inseparável amigo telefone. Daí, no decorrer da música, eu entrei no modo máximo do transe, como se tivesse baixado uma entidade sobrenatural em mim. Quando eu voltei do transe, praticamente desorientado, me dei conta de que uma garota que trabalha nesse mercado estava com os olhos fixos em mim, como se quisesse entender o que estava acontecendo. Foram dois flagras: ela comigo, e eu com ela. E é justamente disso que vou falar por aqui: que música eu estava ouvindo? De onde ela veio? Calma! Já vou falar. 
Ah! O que falei não é uma “estória”, mas uma “história”, ok?
Rolou mesmo!
Quem gosta de música sabe que, por mais que uma banda ou artista solo seja grande e longeva(o) ele pertence a um tempo, uma época. A banda The Cure é assim. Pensando em anos 80, não tem como pensar em música pop ou rock sem mencionar essa banda. Sobretudo na Inglaterra. Mas a grande questão é que se trata de uma banda que está em atividade até hoje, ainda bem. Mas, talvez pelo fato do rock ter tido um ponto de inflexão fortíssimo no  início dos anos 90 com a chegada do grunge, e tudo o que ele influenciou, esse disco do The Cure seja tão pouco citado quando o assunto é a banda, e muito menos quando o assunto é anos 90. Estou falando do álbum “Wish”. Na minha opinião, um dos melhores álbuns da banda, infelizmente, bastante ofuscado.
A banda é muito associada ao Gótico, sobretudo pelo visual do Robert Smith, como brincou Noel Gallagher (“...eu amo The Cure. Não parece porque todo fã do The Cure se parece com o Robert Smith”). Claro que tem razões para isso. A banda lançou uma trilogia consagrada (trilogia sombria: "Seventeen Seconds" (1980), "Faith" (1981) e "Pornography" (1982),
fora "Disintegration"
 (1989) que segue essa linha e é considerado por muita gente o melhor trabalho da banda. Acontece que até aquele momento, o Robert Smith, principal compositor da banda, já havia provado que sua qualidade e capacidade artística era bem mais ampla e diversificada.
Não à toa, o álbum "The Head on The Door" (1985) também é considerado um dos melhores álbuns da banda, com uma diversificação musical bastante evidente. Aí, em 1992, quando a banda já completara 15 anos de vida, “Wish” se apresentou como um trabalho que mostra quais pedras compõem as possíveis imagens do caleidoscópio musical The Cure.
Sendo honesto, conheci parte do repertório do álbum pelo “Show”, um ótimo registro ao vivo, gravado áudio, em 1993 (tenho minha fita VHS até hoje, toda esfolada de tanto que eu assisti e emprestei. Trabalho Ótimo!). Tanto que demorei assimilar as algumas desse álbum na versão de estúdio. Mas quando ouvi o trabalho todo, amei o resultado.
Uma das coisas que me fascinam nesse álbum é a sua mixagem. Ele tem o som ótimo. Até hoje acho um álbum super agradável de ouvir, sem soar datado ou cacofônico. Outra coisa bacana é que o repertório do álbum que fica muito bom ao vivo também.
Mais do que falar do álbum, faixa por faixa, acho importante destacar justamente isso: a banda The Cure tem sua identidade musical. Uma delas é que a banda que teve a sorte de ter um vocalista com uma voz tão marcante, e que continua ótima, apesar do corpo sempre demonstrar algum desgaste ao longo do tempo. A voz do Robert continua viva e juvenil, marca registrada do cantor. Mas ela não é uma banda gótica, não é uma banda post punk, não é uma banda new-wave, não é uma banda alternativa, nem mais o que for. The Cure é uma banda que, como poucas, sabe misturar essas características, e até outras (Jazz, Música Cubana) e ser a banda que é. Nesse sentido, “ Wish” é um trabalho que mostra o que é essencial para entender musicalmente a banda. Uma coisa bacana do disco é a distribuição dos vários
estados dentro álbum. É como se fossem “quantas” (pacotes de energia), bem distribuídas ao
longo do álbum. Eu diria que esses blocos seriam “Apart”, “Trust”, “A Letter To Elise” e “To Wish Impossible Things”; “Open”, “Cut”, “End” e “Front The Edge Of The Deep Green Sea”; “High”, “Wendy Time”; “Doing The Unstuck” e “Friday I’m Love”, quebrados, claro. Como hoje é bem mais fácil fazer uma playlist, talvez algumas pessoas até prefiram ouvir o álbum assim, por que
não?
Beleza então, vamos de bloco 2. “Open”, uma canção que parece ter nascida para abrir shows da banda. Na versão ao vivo, ela tem uma introdução linda chamada “Tape” que abre caminho para a versão de estúdio. Apesar de ser uma canção atípica para as características da banda, ela soa com um grito de aviso: Chegamos! Estamos aqui! Somos a cura! Baixo pra cima, marcado, o meio, aquele que conduz a canção, uma das características marcantes da banda. “Cut”; eu simplesmente amo essa canção. Sem gracinha, direta, com andamento rápido e bastante pegada. Simplesmente a cocaína do álbum. Bem, se a cocaína não te bateu bem, que tal um LSD? Sim, pois “Front The Edge Of The Deep Green Sea” é uma viagem de entorpecedora. Como uma areia movediça, ela vai te neutralizando até te tomar completamente. Os segundos finais, com aquelas guitarras prolongando as notas, levando o solo ao ecstasy são arrebatadores. Me arrisco dizer que ela (ou o álbum), de alguma forma, está em “Mellon Collie and the Infinite Sadness” do 
Smashing Pumpkins. Depois que eu ouço essa canção, fico leve e pronto para outra. Se ela não for um LSD, ela é a maconha cultivada em laboratório, como no file “Beleza Americana”. Bem, falta fechar esse bloco, né?: “End”. Para mim, uma das melhores, das mais tensas e afetadas canções do Cure. É o Cure no modo máximo. Para mim, esse é bloco mais post punk do álbum, e essa canção é uma dos melhores encerramentos de álbum que já ouvi.
Convidei para a minha casa alguém nunca ouviu The Cure. Ou talvez tenha ouvido e nem sabe. Bloco 4, a carta na manga. Jogando Sueca, puxei a carta 7: “Doing The Unstuck”. Como eu amo a versão ao vivo (amo de paixão), demorei assimilar a versão de estúdio. Mas, sendo honesto, tirando o andamento, a briga fica pau a pau. Claro que a versão de estúdio é mais bem acabada, evidentemente. Além de ser uma super feliz, é um tapa na nossa cara, pois nos desafia a acreditar na vida, ter esperança, poder de reação e nunca se deixar abater pelas circunstâncias. Parece um dialogo entre o “Lippy” (o leão) e o “hardy” (hiena), no clássico desenho da 
Hanna-Barbera. Claro que deu leão na cabeça! 
E se o jogo ainda não está ganho, coloque o às na mesa. Sim! “Friday I’m Love” é uma canção imbatível. Até meu primo pagodeiro gosta dessa canção. Não pode faltar em nenhuma festa que se preze, e todos que a ouvem costumam se apaixonar perdidamente. Brincadeiras a parte, é uma canção perfeita. Melodia, harmonia, arranjo e canto. Tudo funciona nessa canção. Pensei que o Robert Smith não conseguiria fazer outra canção a altura de “Just Like Heaven”. Ok, Robert Smith. Você ganhou o jogo. Estava com o às na mão o tempo todo.


the cure - "friday i'm in love


Você acordou cedo no feriado, por incrível que pareça. Você não está tão feliz, pois sabe que vai ter que voltar a rotina no dia seguinte, mas também não está triste já que está em casa. O bloco 3 está na mesa. Feliz por poder mastigar o seu sanduíche sem ter a sensação de estar atrasada(o), “High” te deixa super bem, relaxada(o) e feliz ao ponto de você deixar algum pedaço de sanduíche para o cachorro, por mais delicioso que ele esteja. Depois rola “Wendy Time”. Fofa até o osso, ela pode te deixar com uma sensação tão boa que é capaz de você deixar de sentar no sofá e pensar na vida, só para cumprir a promessa de levar seu cachorrinho para passear durante o dia, sem ser final de semana ou domingo.
Mas, claro, deixei a parte triste para o final. Tem alguma coisa de alegre em estar numa fila de mercado em pleno domingo? Então, se é para sofrer, bora sofrer com dignidade. Uma das características mais aclamadas pelos fãs e críticos. 
Cadê o bloco 1? Bora de melancolia e tristeza. “Trust”. Só existe uma combinação perfeita para essa canção: o silêncio. Imersiva, hipnótica. Ela é super ‘Desintegration” e simplesmente apaixonante. Saindo dela, a coisa fica ainda mais barra pesada. “Trust” é tristíssima. Daquelas canções que nem é bom ouvir quando se está com uma sensação de ausência ou perda de alguém. É uma das canções em que o Robert Smith dá uma aula sobre como comover usando uma canção. E para finalizar, “A Letter To Elise”. Não tão triste como as outras desse bloco, mas igualmente down, porém como uma pitada de doçura como se uma cicatriz ainda doesse mas estivesse no caminho de ser curada. Ela me liberta de qualquer lugar insuportável, inclusive uma fila de mercado. Esse é o bloco mais “Disintegration”. Certamente com canções amadas pelos fãs. Bem, talvez olhando por essa perspectiva dê para ficar mais claro as características desse trabalho que, na minha opinião, é um dos melhores trabalhos da banda. Certamente está no meu Top 5, sem sombra de dúvidas. Se eu tivesse que apresentar a banda The Cure para alguém, bateria um bom papo com a pessoa, e pediria para ela ouvir esse trabalho com atenção, pois ele é bem gravado, o que ajuda a assimilar melhor as canções, e porque é um mapa para entender as características mais marcantes e fantásticas da banda: doçura, melancolia, tristeza e alegria (e um pouco mais, claro). The Cure tem todos esses anticorpos para te curar de qualquer mal sintoma. É uma vacina em forma de boa música. The Cure!



por  J A I R O   A L LO N E




🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵

f a i x a s:
1. open
2. high
3. apart
4. from the edge of the deep green sea
5. wendy time
6. doing the unstuck
7. friday i'm in love
8. trust
9. a letter to elise
10. cut
11. to wish impossible things
12, end


🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶

ouça:
The Cure - Wish (1992):





JAIRO ALLONE
é um morador da cidade do Rio de Janeiro. E como o próprio nome sugere, é
uma pessoa que, “de escolha própria, escolheu a solidão”. Mestre em nada e doutor em coisa
nenhuma, teve que se graduar em Engenharia Mecânica para trabalhar na indústria, muito
distante do sonho de trabalhar com música, para desespero da mãe, quando ainda era
adolescente. Foi guitarrista, letrista e colaborador de blog. Nunca deixou de ser um
apaixonado por música (a mais reativa das artes) e toda a contribuição que a arte dá para
tentar tornar o mundo mais humano, ou pelo menos mais suportável. Vive num universo 
ool

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Música da Cabeça - Programa #472


Olhe para o céu! Que beleza, né? Ah, você pensou que estávamos falando do eclipse? Que nada, pois bonito mesmo está o MDC desta semana. Como um corpo em  passagem pela frente do sol, o programa se ilumina com a música de Nirvana, Tim Maia, Elza Soares, The Who e Dorival Caymmi, além de um Sete-List a ver, justamente, com o eclipse. Promovendo o encontro dos astros, o MDC pode ser observado a olhos nu hoje, 21h, na astronômica Rádio Elétrica. Produção, apresentação e fenômeno raro: Daniel Rodrigues


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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Peter Tosh - "Bush Doctor" (1978)



por Zeca Azevedo

"Em 'Don't Look Back' eu faço mais um dueto com Peter Tosh do que somente backing vocal. Eu me esforcei ao máximo."
Mick Jagger


Quem se fia somente nas infames listas de "melhores álbuns" perde MUITA coisa, pois o que não nos falta, a essa altura do jogo do tempo, são álbuns musicais lindos. Eles existem em número maior do que podemos contar. Lançado em 1978 pelo selo dos Rolling Stones, "Bush Doctor", de Peter Tosh, é um álbum perfeito, que registra o lado mais melódico e acessível do reggae sem deixar de mandar vários recados importantes pelas letras. 

A figura e o legado de Tosh foram eclipsados pelos de Bob Marley, mesmo que aquele seja, assim como este, um dos Wailers originais. Tosh morreu cedo, mas depois de Marley: este partiu em 1981, aquele foi assassinado por canalhas que invadiram a casa dele atrás de dinheiro em 1987. Antes de morrer, Tosh foi torturado pelos criminosos para revelar onde escondia seu dinheiro. Tosh disse aos assaltantes que não tinha nenhuma grana à mão naquele momento. Impiedosos, os criminosos deram dois tiros na cabeça de Tosh e mataram também alguns amigos dele. 

Tosh deixou discografia pequena como artista solo: sete LPs de estúdio e um ao vivo foram editados enquanto ele estava vivo. Todos são excelentes e merecem audições repetidas, especialmente no calor do verão, que parece pedir o ritmo doce e dolente do reggae "roots". O destaque de "Bush Doctor" é a versão de "Don't Look Back", clássico dos Temptations, que conta com a participação de Mick Jagger, que rodou bastante em rádio no Brasil à época.

*************

A reedição de "Bush Doctor" em CD, de 2002, traz 6 faixas extras: "Lesson In My Life (Outtake)", "Soon Come (Long Version)", "I'm The Toughest (Long Version)"Bush Doctor (Long Version)", "(You Gotta Walk) Don't Look Back (Version)" e "Tough Rock Soft Stones (Previously Unreleased)".

🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵

FAIXAS:
1. "(You Gotta Walk) Don't Look Back" (Ronald White/Smokey Robinson) - 5:20
2. "Pick Myself Up" - 4:02
3. "I'm The Toughest" - 3:57
4 "Soon Come" - 3:59
5 "'Moses' - The Prophet" - 3:39
6. "Bush Doctor" - 4:08
7. "Stand Firm" - 6:12
8. "Dem Ha Fe Get A Beatin'" - 4:15
9. "Creation" - 6:35
Todas as composições de autoria de Peter Tosh, exceto indicada

🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵

OUÇA:
Peter Tosh - "Bush Doctor"

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Música da Cabeça - Programa #471



Enquanto a nave do Musk vai parar desgovernada na Lua, o MDC mantém seus pés na Terra e sem causar estrago. Na rota certa, o programa de hoje vai te levar às nuvens sem sair do chão com Airto Moreira, Criolo, The Cure, Gil Scott-Heron, Mário Quintana e mais. No quadro especial, Cabeça dos Outro homenageando Ney Matogrosso. Viajando só na boa, o MDC ganha a estratosfera às 21h na lunar Rádio Elétrica. Produção, apresentação e pouso calculado: Daniel Rodrigues


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quarta-feira, 29 de julho de 2026

Música da Cabeça - Programa #470


O MDC especial de nº 470 merece coisa também especial, né? Então, que tal um superquadro Cabeção celebrando o centenário do mestre Moacir Santos? É isso que terá hoje, 21h, trazendo e reverenciando a obra do Ouro Negro da música brasileira. Além disso, têm, claro, as músicas da nossa mente e os quadros fixos de sempre. Essencial como Moa, a edição de data fechada do Música da Cabeça escreve sua partitura no pentagrama da Rádio Elétrica. Produção, apresentação e batuta: Daniel Rodrigues 


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domingo, 26 de julho de 2026

Moacir Santos - "Ouro Negro" (2001)



"Só mesmo o Destino, com os vários nomes que tem, para transformar um negrinho do interior de Pernambuco, nascido menos de quatro décadas após a abolição da escravatura e órfão aos 3 anos de idade, em um dos músicos brasileiros mais reconhecidos, nacional e internacionalmente, em todos os tempos." 
Nei Lopes, Cantor
compositor, poeta, escritor e pesquisador

"Nanã sabe das coisas e diz que chegou a hora de o Brasil saber de Moacir, reaprender Moacir, merecer Moacir." 
Ruy Castro
jornalista e escritor

É interessante pensar como alguns movimentos na história da música brasileira não são regulares, mas que o tempo os ajuda a se revelar. Já no final do século XVIII, os chamados “grupos de barbeiros”, formados basicamente por negros e mestiços, introduziram na música instrumental de então o que a musicóloga e folclorista Mariza Lira chamaria de ‘ritmo da senzala”, o qual ela explica ser fundamentado no ritmo “afro-negro”. Essa influência na música brasileira pode não ter prosseguido em linha reta, haja visto que tudo que proviera dos negros num país essencialmente escravista e a supervalorização da cultura estrangeira arraigada há muito tempo no Brasil atrapalharam este caminho. Porém, a música negra instrumental não apenas resistiu como, quase milagrosamente, tornara-se um dos maiores legados culturais brasileiros para a arte mundial. 

Neste processo descontínuo de revalorização, surge a figura de Moacir Santos, ele por si só um milagre brasileiro nascido há 100 anos. O pernambucano Moacir José dos Santos, nascido em Serra Talhada, capital do xaxado e terra natal de Lampião, ficou órfão ainda criança, fugiu de casa e peregrinou Nordeste adentro encantado com as orquestras de circo e as bandas militares. Entregue a uma família branca remediada, o jovem que se apaixonou pelo jazz já dominava vários instrumentos ainda adolescente - entre eles, o seu oficial, o saxofone. Já no Rio de Janeiro, após servir o Exército e substituir o famoso maestro Severino Araújo, em Pernambuco, passa a tocar saxofone e, em seguida, reger a orquestra da Rádio Nacional ao lado de colegas do calibre de Radamés Gnattali, Leo Peracchi e Lyrio Panicalli (todos brancos). Dos estudos de música erudita e de vanguarda com professores como Ernest Krenek, Hans-Joachim Koellreuter, Claudio Santoro e Cesar Guerra-Peixe, logo também passa a ensinar, formando nomes como Baden Powell, João Donato, Paulo Moura, Sérgio Mendes, Nara Leão, Eumir Deodato, Carlos Lyra e Roberto Menescal. A partir daí, vieram suas próprias "coisas".

Para uma justa e merecida celebração ao centenário de Moa, cabe falar daquele que talvez seja o disco síntese de uma discografia ao mesmo tempo suscinta (apenas 6 discos em mais de 40 anos), mas tomada de relevância, que é “Ouro Negro”. Espécie de songbook, dirigido por Zé Nogueira e Mario Adnet, o caprichado CD duplo com 28 faixas, que também rendera um DVD com entrevistas e apresentações ao vivo, faz um apanhado muito bem elaborado do “principal” do cancioneiro de Moacir. A homenagem, concebida com o mais alto grau de qualidade, com naipe de orquestra e arranjos e produção de primeira linha, cumpriu ainda um não menos importante papel: reverenciar o mestre em vida. Anos antes, Moacir sofrera um AVC, que o impossibilitara de tocar ou reger as próprias músicas. Porém, ele estava lá, assistindo a outros mestres – e discípulos – celebrarem-no, como Gilberto, Gil, João Bosco, Joyce, Armando Marçal, Djavan, Ed Motta, Cristóvão Bastos e outros.

Ano passado, quando dos 60 anos de “Coisas”, a obra-prima basal de Moacir lançada em 1965, já discorremos bastante sobre os aspectos tanto eruditos quanto populares da música do compositor, bem como, tanto quanto, deu-se especial atenção à sua valorização da cultura negra, perceptível tanto na atenção dispensada pelo compositor à percussão, com a incorporação de instrumentos pouco usuais e na construção harmônica desses elementos, expressos em forma de deslocamentos rítmicos e métricos, hemíolas e polirritmias. Em “Ouro...” apenas uma das 10 “coisas” não integram o repertório. Destaque para “Coisa nº 8” (Navegação)”, cantada pela voz magistral de Milton Nascimento, que ganhou letra em português pelas mãos de outro mestre importante para este projeto: Nei Lopes (“Milhões de milhas naveguei/ Nem sempre ventos a favor/ Mas afinal reencontrei/ O cais da paz interior”). Igual destaque para “Nanã”, que abre o disco, a coisa de nº 5, a qual Moacir registraria em outros três momentos.

De outros álbuns, o indicado ao Grammy “Maestro”, de 1970 – o primeiro gravado nos Estados Unidos, onde viveu até sua morte, em 2006  – ouvem-se cinco temas: a onírica e “Bluishmen”; o jazz maxixado “Mãe Iracema”, inspirada em José de Alencar; a clássica “Lamento Astral” (“Astral Whine”), cantarolada pelo próprio autor; e “April Child”, que ganhou não apenas título em português, “Maracatu, Nação do Amor”, como letra de Nei e vocal de ninguém menos que Gil. “Quem vem lá/ Surgindo lá de trás do mar/ Será Kalunga num vapor/ Trazendo de Luanda o amor?”, diz a letra. Outra desse mesmo álbum e que também reaparece letrada por Nei é “Luanne”, agora com título principal “Sou Eu” e cantada pelo timbre inconfundível de Djavan.

Avançando mais na obra de Moa, “Ouro...” tem também o latin-jazz “Suk Cha”, a charmosa rumba “Amphibious”, a balada afro “Katty” e um duo impagável de Joyce e João Donato para “Happy-Happy” (aqui reintitulada “De Repente, Estou Feliz”), todas de “Saudade”, de 1974. Igualmente deste trabalho é “What's My Name”, agora “Oduduá” e interpretada por outro filho musical: João Bosco.

Da mesma época e gravado pelo célebre selo Blue Note, assim como todos os discos norte-americanos do artista, “Carnival of the Spirits”, de 1975, rearranja outro clássico de sua autoria: “Quiet Carnival” (“Orfeu”). Ora samba-enredo, ora samba de gafieira, tem forte presença dos sopros e na qual Ed Motta assume os vocais, que cantam: “Brilho de purpurinas/ Bolas e serpentinas/ Som vibrando metais/ Luz, foliões, casais/ E eu sem ter você”.

Resgatadas também de “Carnival...” são “Jequié”, balada de uma delicadeza absolutamente tocante, a dissonante “Kamba”, cujo riff em tom grave do clarinete contrasta com a leveza do entorno, e “Anon”, tão africana quanto caribenha inspirada em uma marchinha de carnaval que Moacir ouvira quando criança, em Recife. "Não sosseguei enquanto não fiz alguma coisa com ela, e a capoeira aparece no caminho", revelou à época da gravação. Há também “coisas” de “Opus 3 nº 1”, de 1979, em que a espetacular bossa-nova “Coisa nº 7”, uma "brincadeira pianística" das mais admiradas do cancioneiro de Moa pelos seus colegas, vira “Evocative” sob os melismas do próprio Moacir.

Como se já não bastassem as regravações, há ainda composições inéditas de Moacir. Uma delas é a rumbada “Quermesse”, criação antiga, da época da Rádio Nacional e escrita para trompa, aqui tocada pelo músico Philip Doyle. Também nova, “Maracatucute” impressiona pela atmosfera característica de Moacir: o arranjo sofisticado, a perfeição harmônica e o casamento da África com os ritmos latinos e americanos, seja o jazz, o samba ou o merengue. Zé Nogueira e Mario Adnet encerram esse gigantesco trabalho (em proporções e relevância) com mais uma inédita do homenageado: a pequena valsa “Bodas de Prata Dourada”, feita para Cleonice, esposa de uma vida, só ao piano e a voz de Moacir em conjunto com as de Muiza Adnet e Sheila Smith.

Hoje, quando o compositor, maestro, instrumentista e cantor pernambucano completaria 100 anos se vivo, é possível identificar o quanto, talvez juntamente apenas com Tom Jobim, sua obra configurara-se como uma das pedras fundamentais de toda a música popular brasileira moderna. Se menos evidenciado em termos de influência do que Tom, responsável pelo nascimento de toda uma geração de artistas populares que vão dos bossa-novistas aos pós-tropicalistas, a presença de Moa, no entanto, é largamente consensuada entre o meio dos músicos “de raiz”, aqueles que constroem as bases da MPB e, não raro, dão suporte técnico aos artistas mais pop. Não há quem no universo musical não reconheça a importância da obra de Moacir para a concepção daquilo que se entende como o mais alto nível do que a música brasileira já pode chegar. Moacir é a sublimação do que está na fronteira entre a música popular e a erudita. E mais: com a consciência manifesta do legado histórico-cultural “afro-negro”.

Como diz o poeta haitiano Jacques-Stephen Alexis: "a África não deixa em paz o negro, de qualquer país que seja, o lugar de onde venha e para onde vá". Desfile de sofisticação e esmero técnico, que faz jus à obra magistral de Moacir, "Ouro..." é o testamento dessa milagrosa transposição cultural e antropolófica pelas mãos de um autor que, como ninguém, soube resgatar a semente da verdadeira música instrumental brasileira, aquela que deu origem ao choro, às marchas, ao frevo, ao samba. A raiz africana. A mesma revalorização da história dos “barbeiros”, que ele trouxera em sua obra revolucionária para a música brasileira mais de 100 anos depois, nota-se, hoje, em seu próprio centenário, no reconhecimento ao que ele legara a MPB. Uma música genuinamente brasileira muito graças a ele, o "ouro negro do Brasil".

"Coisa nº 4", do DVD "Ouro Negro"

🎼🎼🎼🎼🎼🎼🎼🎼🎼

FAIXAS:
1. "Coisa N°5 (Nanã)" - 2:51
2. "Suk-cha" - 4:10
3. "Coisa N°6" - 4:02
4. "Coisa N°8 (Navegação)" - participação: Milton Nascimento - 4:11 (Moacir Santos/Nei Lopes/Regina Werneck)
5. "Amphibious" - 3:11
6. "Mãe Iracema" -  4:59
7. "Coisa N°1" - 3:50 
(Santos/Clóvis Mello)
8. "Sou Eu (Luanne)" - participação: Djavan - 2:59 (
Santos/Lopes)
9. "Bluishmen" - 4:19
10. "Kathy" - 3:31
11. "Kamba" - 4:57
12. "Coisa N°9" - 3:28 
(Santos/Werneck)
13. "Orfeu (Quiet Carnival)" - participação: Ed Motta - 5:49 
(Santos/Lopes)
14. "Amalgamation" - 6:23
15. "Coisa N°7" - 4:20 
(Santos/Mário Telles)
16. "Coisa N°2" - 5:13
17. "Lamento Astral (Astral Whine)" - 4:59
18. "Maracatu, Nação Do Amor (April Child)" - participação: Gilberto Gil - 4:05 
(Santos/Lopes)
19. "Coisa N°4" - 4:06
20. "Coisa N°10" - 3:02
21. "Jequié" - 3:17 
 (Santos/Aldir Blanc)
22. "Oduduá (What's My Name)" - participação: João Bosco - 3:11 
(Santos/Lopes)
23. "Coisa N°3" - 3:00
24. "Anon" - 3:59
25. "Quermesse" - 3:18
26. "De Repente, Estou Feliz (Haply Happy)" - participação: Joyce, João Donato - 3:04

27. "Maracatucute" - 6:14
28. "Bodas De Prata Dourada" - participação: Muiza Adnet, Sheila Smith - 4:54
Todas as composições de autoria de Moacir Santos, exceto indicadas

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OUÇA:


Daniel Rodrigues