As impressões que me passavam a respeito de "Pecadores" na época do lançamento eram simplistas, genéricas e um tanto depreciativas. Havia uma opinião corrente que se tratava de nada mais que um novo "Um Drink no Inferno" em outro contexto. Aí que fui para ele com a expectativa de assistir a mais um filme de vampiros qualquer sem maiores qualidades. Foi até bom esperá-lo desta maneira pois aos poucos foi, cada vez mais, revelando valor, qualidades, mostrando que, absolutamente, não se resumia a uma aventura banal, um terror barato com tema batido, uma imitação oportunista.
"Pecadores" é um filme sobre a identidade do negro, a alma do negro e a tentativa de intimidar suas manifestações e, não sendo possível isso, roubá-la.
No longa, dois gêmeos retornam à sua cidade depois de muito tempo, com a intenção de abrir uma casa de blues só para negros. Na noite de abertura, um pequeno grupo de brancos aparece no local e insistem em serem convidados a entrar na festa. Os três misteriosos brancos virão a se revelar, na verdade, vampiros que, não conseguindo entrar, tentam então contaminar outros negros de modo a atingir os demais lá dentro.
Uma metáfora sobre a apropriação da cultura negra, da interferência, da vigilância sobre os hábitos e tradições dos afrodescendentes na América. Algo como, "Se não pudermos fazer parte, tomamos para nós e ainda destruímos a imagem de vocês".
Muito mais do que apenas um filme de vampiro, muito mais do que meramente um filme sobre blues, "Pecadores" se utiliza da linguagem do horror para expor o verdadeiro terror de uma realidade de perseguições, violência, covardia e humilhação, mas muito hábil funde essa treva, esse mal, à beleza do blues, à riqueza da cultura negra criando uma obra única na filmografia recente do cinema. A cena da festa, em que o jovem bluesman toca e evoca toda a cultura negra, ancestral e futura, para o salão é algo mágico e absolutamente emocionante. De arrepiar!!!
Grandes atuações, especialmente de Michael B. Jordan (que eu nem gosto muito) fazendo os gêmeos protagonistas, grande trilha sonora, ótima maquiagem, direção competentíssima! "Pecadores" justifica seu grande número de indicações ao Oscar pelo grande número de virtudes que tem em diversos âmbitos. Se vai ganhar em muitas é outra história, mas as nomeações por si só valorizam suas qualidades.
"Pecadores" é terror, é musica, é drama. É sangue, é pele, é ritmo. É vermelho, é negro, é blue! E se o blues é a música do diabo, como muitas lendas falam a respeito de pactos, maldições, almas perdidas, nada mais apropriado que essa tenha sido o tema dessa obra que já nasce como um novo clássico do terror, do cinema de vampiros e do cinema negro. Deixem tocar o blues!
O blues invocando espíritos do passado e do futuro.
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Sangue sem pecado
por Daniel Rodrigues
Ryan Coogler, assim como outros cineastas negros norte-americanos da nova geração, como Steve McQueen, Jordan Peele, Kasi Lemmons e Anthony Fuqua, são comprometidos com a causa negra. Todos sabem que, diante do nível que alcançaram dentro na indústria cinematográfica depois de décadas de apagamento da voz negra, não podem perder oportunidades de dizerem aquilo que ficou por tanto tempo silenciado. Em “Pecadores”, filme premiado de Coogler recordista em indicações ao Oscar na história, com 16 - batendo "A Malvada" (1950), "Titanic' (1997) e "La La Land" (2016), todos com 14 -, essa máxima prevalece. E de uma forma bem original.
Com figurinos, atuações, direção de arte e, principalmente, uma trilha sonora acachapante, “Pecadores” traz a história dos irmãos gêmeos Smoke e Stack (ambos interpretados por Michael B. Jordan), que voltam à sua cidade natal com o objetivo de reconstruir a vida e apagar um passado conturbado. Endinheirados, eles querem montar um juke joint, casa noturna com música ao vivo para a comunidade negra. Porém, uma força maligna passa a persegui-los e busca tomar conta da cidade e de todos os cidadãos, obrigando-os a lutar para sobreviver e a lidar com lendas e mitos ameaçadores à suas existências. É a luta dos vampiros brancos contra os mocinhos pretos.
Celebrado por gente como Spike Lee, Christopher Nolan e Tom Cruise, Coogler não só realiza um filme diferenciado como exercita sua já provada versatilidade, uma vez que é diretor de dois blockbusters dos tempos atuais, o revolucionário MCU “Pantera Negra” e a exitosa franquia “Creed”, spin-off de “Rocky”, dois projetos totalmente distintos, mas ambos construídos com muita habilidade por ele. Ao colocar a questão do preconceito racial no cerne de um thriller de terror, o cineasta reafirma o inteligente caminho aberto por Peele em “Corra!” e “Nós”, marcos do que se pode chamar de neo black horror, porém adicionando uma problemática há muito aventada, mas pouco discutida: a apropriação cultural.
O caminho é o que se conhece: a sociedade brancocêntrica primeiro nega a existência do negro, relegando-o ao “não-ser”, apaga sua história, descredibiliza sua produção intelectual e o oprime moral, material e fisicamente para, feito isso, roubar-lhe suas riquezas. Uma delas, e talvez a de maior evidência nesse histórico roubo simbólico, é a música. Em “Pecadores”, essa questão é o centro da disputa: por inveja dos caipiras brancos dessa cultura preta verdadeira e elevada, eles tornam-se vampiros. De sangue, literalmente, o mesmo que mentem ser desprovido de nobreza, mas que tanto se mordem (opa, no pescoço?!) por não tê-los correndo em suas veias.
Sangue não à toa tão valorizado. Uma das cenas de “Pecadores”, que vale o filme, mostra o personagem Sammie "Preacher Boy" Moore (Miles Caton) cantando e tocando um blues no bar e fazendo emergir do além diversas almas negras em camadas simbólicas e tempos que se misturam. Dos primórdios do blues, nascido das mentes e corações amargurados dos escravos, até os rappers da atualidade, passando pelo rock, o soul, o funk, o gospel e toda contribuição do negro dos Estados Unidos para a cultura pop. Simplesmente genial.
Antológica cena de "Pecadores" em que a magia da música negra faz o tempo se diluir
As resoluções para a trama sobrenatural que o filme vai ganhando, principalmente a partir de sua segunda metade, são boas, mas não empolgantes. O stinger, a cena pós-créditos, este sim (sem dar spoiler) é surpreendente, mas não suficiente para elevar um filme a uma classificação maior do que “bom”. Já Michael B. Jordan é um capítulo à parte. Ele passou a ser mais valorizado enquanto indicado como Melhor Ator ao Oscar depois do triste e revoltante episódio de racismo em plena cerimônia do Bafta, na Inglaterra, em fevereiro - onde, aliás, levou o prêmio. Embora agora com mais atenções para si, o astro não está tão bem quanto nos dois outros filmes que fez com Coogler, exatamente “Pantera...” e “Creed” – este último, no qual é protagonista. Agora, ele concorre com Wagner Moura e Timothée Chalamet, os dois fortes candidatos entre os indicados, mas pode ser que surja como uma terceira via por conta de um falso moralismo da Academia. Não será mal dado, mas menos justo e, se acontecer como prêmio de consolação por causa desse mal-estar, hipócrita.
Independentemente de qualquer coisa, Coogler faz história e, mais uma vez, acerta em sustentar o discurso antirracista ao qual é um importante porta-voz na indústria cultural. Ele sabe disso e mantém-se fiel ao compromisso de evidenciar as barbaridades promovidas pelo racismo na sociedade, mas também toda a riqueza da cultura afro-americana em suas infinitas frentes. Neste sentido, “Pecadores” cumpre muito bem sua proposição. Sem cometer nenhum pecado.
trailer de "Pecadores"
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"Pecadores"
título original: "Sinners"
direção: Ryan Coogler
elenco: Michael B. Jordan, Delroy Lindo, Hailee Steinfeld
É sempre assim todo ano: o Carnaval se encerra e a melhor coisa que tem para curar a ressaca é o MDC da quarta-feira de cinzas. Com um sorriso no rosto e ainda em clima de Oscar, o programa hoje recorre a Led Zeppelin, Pat Metheny, Madonna, Tom Zé e Jards Macalé para enterrar os ossos. No quadro especial, Sete-List, não esquecemos também de prestar uma homenagem a Gene Hackman. Totalmente oscarizado e carnavalizado, o MDC vai ao ar às 21h na premiada Rádio Elétrica e com produção e apresentação de Daniel Rodrigues. Porque, sim: nós vamos ouvir. Ouçam!
Walter Salles com o NOSSO inédito Oscar: que vitória!
Não poderia deixar de começar qualquer comentário sobre a edição de 2025 do Oscar falando não sobre o principal premiado, mas da premiação inédita conquistada pelo filme brasileiro "Ainda Estou Aqui". Sim: o Brasil pode dizer que tem um Oscar para chamar de seu! O longa de Walter Salles, que ainda concorria a Filme, ganhou a tão sonhada estatueta de Filme Internacional, alcançando aquilo que outros filmaços brasileiros anteriores, como "O Pagador de Promessas" e "Central do Brasil", não conseguiram. Um feito histórico e de gigantesca simbologia para o cinema nacional.
Em compensação, o Oscar de Fernanda Torres, aquele para o qual se criou uma enorme celeuma e expectativa Brasil inteiro, não veio. E não veio de uma forma um tanto frustrante, o que tem a ver, agora sim, com o destaque desta edição: a supremacia de "Anora". O drama/comédia de Sean Baker foi o principal vencedor da noite, conquistando 5 das 6 estatuetas as quais foi nomeado: Filme, Roteiro Original, Edição, Direção e aquele que, surpreendente, tirou o prêmio de Fernanda, o de Atriz para Mikey Madison.
O gosto amargo fica porque, se fosse para Fernanda perder, que fosse para Demi Moore por seu papel em "A Substância". Por tudo que representa o papel de Demi, toda a carga anti-etarismo e anti-sexismo que carrega e também por toda a falada retratação com a artista, nunca indicada a nada. Mas não foi o que houve. Teria sido mais justo com Demi, a favorita, e com Fernanda, que, tête-à-tête com Mikey, desempenha melhor num papel dramático. Não que seja um prêmio descabido, pois a protagonista de "Anora" está muito bem no filme. Mas papel por papel, Fernanda como Eunice Paiva é, sim, um nível acima em expressividade e consistência como atuação. Mas é premiação, e isso faz parte.
Tanto faz parte que o superindicado "Emilia Pérez", depois das polêmicas sobre sua realização e roteiro e de uma desastrosa campanha que o desidratou diante dos jurados, tinha 13 chances e amargou apenas 2: Atriz Coadjuvante (para Zoe Saldaña, ótima) e Canção Original. Até mesmo "O Brutalista", outro favorito (inclusive a Filme), das 10 nomeações teve de se contentar com somente 3: Ator (Adrian Brody), Fotografia e Melhor Trilha Original.
O fator político, que se imaginava talvez mais exacerbado, falou menos, mas bem. Corajosa, a atriz Daryl Hannah, que apresentou a categoria de melhor Edição, fez a saudação nacionalista ucraniana com os dedos e "V" e disse a frase: "Glória a Ucrânia", lema das forças armadas e nacionalistas do país invadido pela Rússia. Aplaudida. Outro momento anti-belicismo foi quando da vitória do documentário "No Other Land", dirigido por Basel Adra, Hamdan Ballal, Yuval Abraham e Rachel Szor, ou seja, cineastas palestinos e judeus juntos pela mesma causa: a paz e o olhar humanista para os povos. No discurso, críticas à forma como o governo dos Estados Unidos atua na Guerra em Gaza, colaborando com a manutenção do ódio entre os povos. A gafe, no entanto, ficou por conta da não menção a Cacá Diegues no momento In Memorian. Esses norte-americanos jecas...
Quem também recebeu justos aplausos foi Paul Tazewell, que fez história ao se tornar o primeiro homem negro a ganhar o Oscar de Melhor Figurino pelo seu trabalho no musical "Wicked", filme que ainda levou o prêmio de Design de Produção. Fora isso, "A Substância" pegou o merecido de Maquiagem e Cabelo, "Conclave" o plausível de Roteiro Adaptado e "Duna - parte 2" levou os dois técnicos: Som e Efeitos Visuais.
Para além da felicidade de ver "Ainda Estou Aqui" no mais alto posto da maior premiação do cinema mundial, é legal ver também um cult"pequeno" vencer. Em contraposição ao cinemão de "O Brutalista" e a alegoria musical de "Emilia Pérez", ambos estilos por muito tempo consagrados pela Academia, ficaram pra trás em detrimento de "Anora", um filme profundo sem precisar de grandiloquência e que deixa um recado: nunca duvidem de um Palma de Ouro de Cannes.
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE (ZOE SALDAÑA)
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL (“EL MAL”)
Ao contrário da maioria dos brasileiros que foi assistir "Emilia Pérez" já com a faca nos dentes, prontos para desqualificar o rival de "Ainda Estou Aqui", fui com toda a boa vontade e a recomendação de um filme de sucesso em diversos festivais e que conta com a admiração de personalidades relevantes do mundo do cinema.
No entanto, nem tudo isso seria suficiente para me convencer que trata-se de um grande filme digno das incríveis 13 indicações ao Oscar.
Sem entrar no mérito das polêmicas de representatividade, lugar de fala, estereotipação, que tem cercado o longa desde que se instaurou uma verdadeira guerra nas trincheiras das redes sociais, o produto final "Emilia "Pérez" me parece uma obra sem brilho. Um filme comum cujo grande diferencial é ser um musical dentro de uma trama de máfias e cartéis, mas cuja proposta é tão mal aplicada que deixa de ser virtude.
Os números musicais, além de maçantes, inoportunos, são utilizados em momentos pouco propícios, mais atrapalhando o desenvolvimento do enredo do que ajudando. Um diálogo bem elaborado seria mais produtivo do que quatro minutos de música com coreografia.
Sem falar que as canções não são nada cativantes. Nada que a gente venha a lembrar daqui a vinte anos, quando escutar de novo, e dizer, "Olha, aquela música do filme 'Emilia Pérez'!".
Gosto muito do filme enquanto um 'policial' de gangues com uma reviravolta inesperada do tipo "mafioso coisa ruim que quer mudar de cara, de vida, desaparecer mas cujo passado não permite essa nova chance", mas até isso a gente encontra em qualquer filmezinho de ação hollywoodiano do John Woo. E quanto à parte dramática, do remorso, dos desaparecidos, dentro do quadro todo, parece mais uma colagem mal aplicada, e quanto ao tema, o assunto em si, a denúncia, bom...aí o diretor que se entenda com os mexicanos que, pelo jeito, não gostaram nada de um francês metendo o nariz no que não lhe diz respeito.
Não achei um lixo, uma porcaria como muitos compatriotas torcedores consideram. Mas na minha visão, é MUUUITO menor do que parece ser, da ideia que venderam do filme e do tamanho que alcançou. Treze indicações?! Convenhamos, mesmo com todos os méritos que possa ter, é um exagero.
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trailer de"Emília Pérez"
"Emilia Pérez"
Título Original: "Emilia Pérez"
Direção: Jaques Audiard
Gênero: Musical/ Comédia /Drama/ Crime
Elenco: Zoë Saldaña, Karla Sofía Gascón, Selena Gomez
Arte para VHS doméstico sobre os filmes de Oliver Stone: "Platoon", vencedor dos Oscar de melhor filme, melhor diretor, melhor som e melhor montagem, e "Salvador" , indicado os Oscar de melhor ator e melhor roteiro original, ambos de 1986
Vou um pouco na contramão da unanimidade em torno de "Flow", filme letão sensação do momento, não somente indicado na categoria de animação, como também para melhor filme internacional. Não que não tenha gostado, gostei, mas para mim é apenas um filme "gracinha". Parece que o diretor fez uma animação legal, criou uma situação, foi colocando alguns personagens e foi resolvendo o que fazer ao longo do trabalho. Não resolveu muitas delas, o resultado não ficou tão bem acabado visualmente mas até que ficou satisfatório, então vamos com isso mesmo... O produto final traz elementos reflexivos, comoventes, cativantes, emocionantes, suas imperfeições técnicas pela utilização de um software limitado soam como um charme, e nisso tudo "Flow", a história de um gatinho preto (ou cinzento, pois o software não nos dá a percepção correta) que tem que lutar pela sobrevivência depois de uma inundação apocalíptica, dentro de um barco, junto com animais de outras espécies, ganhou a simpatia da melosa Academia e capturou o coração do público em geral.
Inegavelmente tem méritos, tem os elementos emotivos de solidariedade, esperança, as lições de sabermos conviver com os diferentes de nós e coisa e tal, mas ao mesmo tempo apresenta muitas inconsistências e sobretudo uma ausência de contextualização de tempo e espaço que para muitos pode ser secundária mas que, para mim, seria sim válido situar o espectador. Em que momento se passa o filme? Não existe mais humanidade? Se não existe, como a casa onde o gato vivia (com humanos) parece tão recentemente arrumada? E por que das esculturas gigantescas? Gatos eram tidos como divindades? (Afinal há enormes esculturas de felinos). Que civilizações viviam ali? Em um momento parece algo Maia, em outro algo hindu ou parecido, em outro algo mais ocidental... Onde eles estão no planeta Terra, em que continente? O homem teria causado a inundação? Mas como se não existem mais humanos? ... Mas... não existem? Muitas questões em aberto m que, em nome de todos os elementos emotivos, das mensagens, dos valores, são jogadas para baixo do tapete e preferimos adorar a fofura do gatinho preto-cinzento.
É lógico que o gato é um amor, os movimentos e os sons dos bichos são adoráveis mas, na minha opinião, não é o suficiente para fazer um grande filme. "Flow" me desapontou muito mais pela expectativa criada, pelo alvoroço, do que pelo que efetivamente é. E o que é? É um bom filme, só isso.
Podemos dizer que 23 de janeiro de 2025 foi um dia de glória
para o cinema brasileiro. Afinal, nunca antes na história deste país um filme
nacional havia recebido a indicação ao Oscar de Melhor Filme. “Ainda
Estou Aqui”, o excelente filme de Walter Salles sobre a família Paiva durante o
período da Ditadura Militar no Brasil, foi anunciado hoje ao Oscar 2025 junto com mais uma centena
de outros títulos a esta e outras várias categorias do maior prêmio do cinema
mundial.
Mas não só isso: além da inédita indicação, o filme de Waltinho
concorre também a Melhor Filme Internacional – no qual tem boas chances de
ganhar – e na de Melhor Atriz para Fernanda Torres, que interpreta Eunice Paiva
no filme. A vencedora do Globo de Ouro de Melhor Atriz em Drama e que desbancou daquela premiação para esta ninguém menos que Kate Winslet, Angelina Jolie,
Tilda Swinton e Nicole Kidman, tem agora à frente, no Oscar, outras quatro candidatas.
Porém, também passa a encarar de frente Demi Moore, destacada em seu papel em “A
Substância” e que carrega em si e em sua personagem um discurso de feminismo e
etarismo que pode convencer Hollywood a reconhecê-la depois de tantos anos.
Porém, Fernanda está melhor. Que se faça justiça.
Nas outras categorias, sem grandes surpresas: várias
indicações ao franco-mexicano “Emilia Perez” (13, o de mais nominações), “Wicked”
e “O Brutalista” (10 cada), além de “Um Completo Desconhecido”, “Conclave” (8
cada), “Anora” (6), “Duna: Parte 2” e “A Substância” (5 cada). Destes, parece
sair na frente em Filme “O Brutalista”, mas “Anora”, Palma de Ouro em Cannes,
pode surpreender nesta categoria na qual “Ainda...” tem certamente menos chances.
Mas em Filme Internacional, o brasileiro tem outro rival: “Emilia Perez”. O
confuso filme de Jacques Audiard, embora campeão em indicações, tem recebido
críticas das comunidades mexicana e latina e LGBTQIAPN+ por sua narrativa
superficial e sem “lugar de fala”, o que pode influenciar os jurados em favor
de “Ainda...”. Tomara.
De resto, aquelas coisas de sempre do Oscar: falta de algo
aqui, excesso de algo ali, ausência de um outro acolá. Críticos dizem que “Sing
Sing”, que retrata uma história verídica do sistema prisional norte-americano,
merecia mais reconhecimento além das apenas duas indicações que teve (Melhor
Roteiro Adaptado e Melhor Canção Original). Sobrando, o bruxesco “Wicked”, que
aparece em vários dos prêmios técnicos, mas desnecessariamente em Filme, Atriz
e Edição. E Clint Eastwood, com seu genial “Jurado nº 2”, quem viu? A Academia
não dá nem as horas pro velho cowboy, e justo em sua obra de despedida... Fazer
o quê? Só torcer por “Ainda...“ e conferir a lista completa dos indicados, que
a gente traz aqui abaixo e segue acompanhando os filmes até a premiação em 2
de março. E viva o cinema brasileiro!
De tempos em tempos, a Pixar acerta a mão. Acontece de intercalarem boas produções e outras irregulares, mas talvez nunca tenham ficado tanto tempo sem emplacar algo realmente significativo. Desde "Soul", de 2020 (ou seja, há 4 anos), que o estúdio mais vanguarda da Disney não conciliava uma história interessante e bem desenvolvida como "Viva! - A Vida é uma Festa" ou "Ratatouille" com, claro, entretenimento - afinal, é disso que o cinema de massa vive. Mas "Divertida-Mente 2" devolve a Pixar o protagonismo da animação em cinema conquistado há pouco menos de 30 anos. Um dos motivos disso é que a excelente continuação do filme original de 2015, acerta, assim como ocorreu na pioneira franquia "Toy Story", em trazer à luz os conflitos existenciais humanos comuns e, por isso, universais.
O filme de Kelsey Mann prossegue a história da garota Riley, que está mais velha em relação ao primeiro filme, quando ainda era uma criança. Junto com o amadurecimento da temida adolescência, a tresloucada sala de controle da mente dela também está passando por uma adaptação para dar lugar a algo totalmente inesperado: a presença de novas emoções. Somam-se à Alegria, a Tristeza, a Raiva, o Medo e a Nojinho, então gestores do QG cerebral de Riley até então, a Inveja, o Tédio e a Vergonha. No linguajar chulo: fudeu!
O grande acerto do filme reside, antes de mais nada, no roteiro. "Divertida-Mente 2", noutra feliz comparação com "Toy Story", trata do "rito de passagem". Por contar o desenvolvimento emocional da personagem, que deixa a infância para entrar na fase adulta, o bem amarrado roteiro utiliza uma história pequena (basicamente, a ida dela para a colônia de férias e a sua tentativa de entrar na seleção de rugby da escola) para desdobrar os diversos elementos psíquicos e emocionais que emergem de dentro dela.
De maneira hilária, as emoções de Riley, como no primeiro filme, ganham personalidade estereotipadas, o que funciona muito bem para a recepção da informação ao espectador e, claro, para render muitas risadas. As novas emoções do inconsciente de Riley são, como as já manifestas no primeiro filme, bem caracterizadas: a Inveja, uma garotinha verde ativa mas insegura; a Vergonha, um tímido menino gorducho com baixa autoestima; o Tédio, um típico jovem da Geração Z, e a esquisitona Ansiedade, que muda totalmente o andamento das ações (e da história, e da cabeça de Riley) quando entra em conflito com as emoções "antigas". Afinal, qual adolescente não é ansioso com todos os conflitos psicológicos e as mudanças fisiológicas que essa etapa da vida traz?
"Divertida-Mente 2" tem a grande qualidade de saber ser engraçado, mas não histriônico. Os momentos de diálogos são muito bem equilibrados com os lances de piada, assim como (e principalmente) as cenas de aventura, que não se excedem como em outros filmes da Pixar ou de animações em geral. Até mesmo os ótimos "Up - Altas Aventuras" e "Os Incríveis", às vezes, se perdem um pouco no percentual de movimentos, luzes e explosões, o que, ao contrário do que o cinema norte-americano acha, não raro cansam ao invés de animar.
A adolescente Riley: personagem principal, mas não protagonista
Essa coerência se revela também na relação entre as personagens/emoções, fruto de um visível aprofundamento dos roteiristas, assessorados pela competente dupla de psicólogos consultores Dacher Keltner e Lisa Damour. A reação moderada da invariavelmente explosiva Raiva quando percebe o desânimo da sempre positiva Alegria - até então, a principal responsável pelo emocional da menina até a chegada da Ansiedade - é um desses momentos muito bem (com o perdão da redundância) pensados. Igualmente, a união da melancólica Tristeza com a Vergonha, identificados na situação em que tentam salvar o ameaçado “sistema de valores” da pequena "patroa". E no momento em que a Ansiedade perde o controle, a que emoção o inconsciente de Riley recorre? A Alegria, claro. Na aparente descontração de uma animação pop, cabe, sim, muita pesquisa técnica, uma qualidade processual às vezes esquecida em Hollywood, como se não precisasse haver esse tipo de cuidado para um produto de grande público.
Porém, mais do que apenas desenvolver bem a trama, a própria estrutura é sui generis. Embora a personagem Riley seja a principal, ela não é necessariamente a protagonista, o que é mais cabível de se imputar à Alegria. Novamente referindo "Toy Story", essa é exatamente a mesma forma, principalmente a do terceiro da série, de 2010, em que a história dos bonecos, de função narrativa semelhante a que as emoções desempenham em "Divertida-Mente 2", se entremeia a do "personagem humano": Riley, neste filme, e o garoto Andy, de "Toy Story". Em ambos, é como se houvesse um espelho, que refletisse ora o interno, ora o externo.
Num plano filosófico, "Divertida-Mente 2" também aprofunda. A mensagem que o filme deixa, embora aparentemente inofensiva (pois positiva como o cinema norte-americano geralmente intenta), diz muito sobre a visão do sistema em que se vive: é a da aceitação. Um entendimento de que o ser humano é, sim, complexo e contraditório. Um avanço em se tratando de cinema norte-americano, contumaz disseminador da visão cartesiana do povo dos Estados Unidos, a qual é convertida numa cultura altamente individualista. "Divertida-Mente 2", num concepção mais holística, mesmo que seja estrategicamente proferida, quebra este pensamento dualista e pragmático.
Coerência em roteiro, animação do melhor nível, técnica perfeita. Resultado? Um sucesso de critica e publico. Para o Oscar de 2025, certamente o filme já se coloca como um forte candidato. O fato de ser maior sucesso de bilheteria da história da Disney/Pixar até então só denota o quanto o público aguardava por uma produção com a qualidade que o estúdio tem poderio para oferecer, mas que fazia anos que isso não acontecia. Que não se demore muito mais novamente.
A noite deste domingo, dia 10 de março, marcou a cerimônia da 96ª edição do Oscar, na qual "Oppenheimer", filme do diretor Christopher Nolan, foi o grande vencedor, com sete estatuetas, mas com grande destaque para "Pobres Criaturas", de Yorgos Lanthimos, que levou quatro.
Apresentada pelo comediante Jimmy Kimmel, a festa não teve grandes novidades nem surpresas. A presença de cinco apresentadores, todos já vencedores, para apresentar os prêmios de atuação foi algo interessante, John cena apresentando "pelado" o prêmio de figurino foi engraçado, Slash, do Guns'n' Roses, dando uma canja na performance de "I'm Just Ken" foi muito show, e o momento mais emocionante, sem dúvida, ficou com o diretor do documentário "20 dias em Mariupol", sobre a guerra da Ucrânia, Mstyslav Chernov, emocionado, declarando que gostaria de nunca precisar ter feito um filme sobre algo assim.
A meu ver, nenhuma grande injustiça. "Anatomia de Uma Queda", de enredo brilhante, justamente agraciado com o prêmio de roteiro original, "Zona de Interesse", o mais complexo e artístico dos estrangeiros ganhando o prêmio de filme internacional, "Godzila Minjus One" desbancando os gigantes e vencendo a categoria de efeitos visuais... Até dá pra discutir um Downey Jr. ao invés de um DeNiro, uma Emma Stone e não Lily Gladstone, mas, de um modo geral, nenhum absurdo gritante, a meu ver.
Bom, quer saber como foram todos os prêmios? Dá uma olhada aí abaixo e conheça, então, todos os vencedores da noite:
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MELHOR FILME
• Oppenheimer
MELHOR DIREÇÃO
• Christopher Nolan, por Oppenheimer
MELHOR ATOR
• Cillian Murphy, por Oppenheimer
MELHOR ATRIZ
• Emma Stone, por Pobres Criaturas
MELHOR ATOR COADJUVANTE
• Robert Downey Jr., por Oppenheimer
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
• Da'Vine Joy Randolph, por Os Rejeitados
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
• Justine Triet & Arthur Harari, por Anatomia de uma Queda
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
• Cord Jefferson, por American Fiction
MELHOR ANIMAÇÃO
• O Menino e a Garça
MELHOR FILME INTERNACIONAL
• A Zona de Interesse (Reino Unido)
MELHOR DOCUMENTÁRIO
• 20 Days in Mariupol
MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
• The ABCs of Book Banning
MELHOR CURTA-METRAGEM
• The Wonderful Story of Henry Sugar
MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
• War is Over (inspired by the music of John & Yoko)
MELHOR TRILHA SONORA
• Ludwig Göransson, por Oppenheimer
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
• "What Was I Made For?" (Barbie)
MELHOR SOM • A Zona de Interesse
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO • Shona Heath, por Pobres Criaturas
MELHOR FOTOGRAFIA
• Hoyte van Hoytema, por Oppenheimer
MELHOR CABELO E MAQUIAGEM
• Pobres Criaturas
MELHOR FIGURINO • Holly Waddington, por Pobres Criaturas