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terça-feira, 1 de setembro de 2026

54º Festival de Cinema de Gramado - Os Premiados

 

Em tempo, trazemos os vencedores do Festival de Cinema de Gramado deste ano. Afora a Mostra Assembleia Legislativa de Curtas-Metragens Gaúchos, a qual acompanhei de cabo a rabo como nos outros anos por conta da participação da Accirs com o Prêmio da Associação (Crítica), as outras mostras todas, por conta de compromissos que me fizeram deixar Gramado com o evento rolando, não foi possível acompanhar em suas totalidades. Algum longa nacional aqui, um documentário ali, um curta nacional acolá, mas ainda por assistir muita coisa.

O que não quer dizer que não devamos destacar aqui os premiados. E olha que tem coisa bem interessante, como o grande vencedor da noite, o mineiro “Nosso Segredo”, de Grace Passô, que além de Melhor Filme ainda levou outros dois Kikitos (Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte). Quem também se destacou foi “Feito Pipa”, do cearense Allan Deberton, diretor cujo longa de estreia, “Pacarrete”, de 2020, abocanhou os principais prêmios daquele ano em Gramado e foi literalmente ovacionado. Desta vez, seu bonito filme ficou com o que merecia: Melhor Longa-Metragem Brasileiro pelo Júri Popular, Diretor, Atriz (Teca Pereira) e Ator Coadjuvante (Lázaro Ramos), além de uma Menção Honrosa ao ator mirim para Yuri Gomes. O prêmio de Melhor Longa-Metragem Brasileiro pelo Júri da Crítica ficou com “Leite em Pó” (MG/SP/RN), de Carlos Segundo, que também venceu em Melhor Roteiro (Carlos Segundo e Rafael Copel) e Melhor Desenho de Som (Waldir Xavier).

Ainda em nível nacional (onde há anos não concorre nenhum filme gaúcho, há de se saber por que), o documentário premiado foi “Gonzaguinha, da Maior Liberdade”, da competente diretora Susanna Lira. A se ver por outros trabalhos dela (“Torre das Donzelas”, “Mussum, um Filme do Cacildis”, “Fernanda Young: Foge-me ao Controle”) é de se imaginar que, tratando justamente da efervescente vida e militância política do talentoso compositor carioca, tenha-se aí um filme realmente apreciável. Tanto que bateu um considerado nos corredores de Gramado como favorito: “O Projeto”, de Sabrina Fidalgo e Yvan Rodic, que abriu a Mostra dedicada aos documentários e impressionou quem assistiu por seu roteiro, montagem e, principalmente, contundência na mensagem, que avalia e critica o colonialismo pelo mundo.

Vindo para o Rio Grande do Sul, além dos destaques entre os curtas-metragens, que tratei aqui em postagem anterior ao falar de “Grão” e “Banho Maria” (sem falar de "O Véu", "Coisa Ruim" e "Estátuas Também Morrem?" outros bons títulos da safra), teve também a Mostra Sedac/Iecine de Longas. Nesta, quem saiu com vários prêmios foi “A História mais Triste do Mundo”, de Hique Montanari, uma das duas ficções entre os cinco concorrentes, sendo os outros três documentários. E foi justamente um dos docs que se sagrou o principal agraciado do festival desse ano: “Filhas da Lua”, de Tatiana Sager, o qual ainda foi o escolhido do Júri Popular e da categoria de Melhor Montagem. Semelhante ao que comentei sobre Susanna, os antecedentes de Tatiana e seu parceiro Renato Dornelles ("Central", "Olha pra Elas") dão bons indicativos que se trata de uma obra, sim, merecedora dos reconhecimentos que levou.

Foi uma passagem rápida por Gramado, mas sempre satisfatória. Ano que vem tem mais e, quem sabe, para acompanhar do início ao fim como fiz em 2025. Fiquem, então, com a listagem dos premiados de Gramado em cada Mostra:  

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LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS

Melhor Filme: “Nosso Segredo”, de Grace Passô

Melhor Filme pelo Júri Popular: “Feito Pipa”, de Allan Deberton

Melhor Filme pelo Júri da Crítica: “Leite em Pó”, de Carlos Segundo

Melhor Direção: Allan Deberton por “Feito Pipa”

Melhor Atriz: Teca Pereira por “Feito Pipa”

Melhor Ator: José Loreto por “Chorão: Só os Loucos Sabem” e Christian Malheiros por “Justino: Nos Bastidores do Reino”

Menção Honrosa: Yuri Gomes por “Feito Pipa”

Menção Honrosa: Onna Silva por “Justino: Nos Bastidores do Reino”

Melhor Roteiro: Carlos Segundo e Rafael Copel por “Leite em Pó”

Melhor Fotografia: Wilssa Esser por “Nosso Segredo”

Melhor Ator Coadjuvante: Lázaro Ramos por “Feito Pipa”

Melhor Atriz Coadjuvante: Naruna Costa por “Pele de Rinoceronte”

Melhor Desenho de Som: Waldir Xavier por “Leite em Pó”

Melhor Trilha Musical: Otávio de Moraes por “Chorão: Só os Loucos Sabem”

Melhor Direção de Arte: Lucas Osório por “Nosso Segredo”

Melhor Montagem: André Finotti e José Eduardo Belmonte por “Justino: Nos Bastidores do Reino”

"Nosso Segredo", grande vencedor da edição 2026 do festival




CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS

Melhor Filme: “씨발 (Shibal)”

Melhor Direção: Wesley Gabriel Silva Santos por “Pão Doce”

Melhor Ator: Francisco Gaspar por “Pão Doce”

Melhor Atriz: Chris Couto por “Um Passeio”

Melhor Roteiro: Camila Tarifa por “Mulher Papaya”

Melhor Fotografia: Felipe Ovelha por “Pique-Pega”

Melhor Montagem: Gilson Costa e Thamires Coelho por “Divino: sua alma, sua lente”

Melhor Trilha Musical: Ângelo de Souza por “Graxa e o Zepelin”

Melhor Direção de Arte: Jackson Abacatu por “A menina que queria ser pedra”

Melhor Desenho de Som: Marcos Lopes por “Fúrias”

Melhor Filme pelo Júri da Crítica: “Mulher Papaya”, de Camila Tarifa

Prêmio Especial do Júri: “Revelação”, de Gabriela I. Gaia

Prêmio Canal Brasil de Curtas: “Revelação”, de Gabriela I. Gaia

Júri Popular: “Divino: sua alma, sua lente”, de Clea Torres e Gilson Costa, com codireção de Divino Tserewahú

O curta paulista "Shibal" sagrou-se o vencedor



LONGAS-METRAGENS DOCUMENTAIS

Melhor Longa-metragem Documentário: “Gonzaguinha, da Maior Liberdade”, de Susanna Lira

Menção Honrosa Documentário: “Empeleitada”

Documentário de Susanna Lira sobre Gonzaguinha:
destaque da mostra competitiva




LONGAS-METRAGENS GAÚCHOS (MOSTRA SEDAC/IECINE)

Melhor Longa-metragem Gaúcho: “Filhas da Lua”, de Tatiana Sager

Melhor Montagem: Gabriel Sager Rodrigues por “Filhas da Lua”

Melhor Direção: Hique Montanari por “A História Mais Triste do Mundo”

Melhor Roteiro: Hique Montanari por “A História Mais Triste do Mundo”

Melhor Ator: Arthur Seidel por “A História Mais Triste do Mundo”

Melhor Trilha Musical: João Vitor Costa Dias por “A História Mais Triste do Mundo”

Melhor Desenho de Som: Gabriela Bervian por “A História Mais Triste do Mundo”

Melhor Fotografia: Juarez Pavelak por “A História Mais Triste do Mundo”

Melhor Atriz: Áurea Baptista por “Remanente - Voltagem”

Melhor Direção de Arte: Tiago Retamal por “Remanente - Voltagem”

Júri Popular: “Filhas da Lua”, de Tatiana Sager


MOSTRA GAÚCHA DE CURTAS (PRÊMIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA)

Melhor Filme: “Grão”, de Gianluca Cozza e Leonardo Rosa

Melhor Ator: Leandro Gomes, por “Grão”

Melhor Atriz: Gaby Buffon, por “Elisete tem que casar!”

Melhor Direção: Gabriel Motta, por “O Véu”

Melhor Roteiro: Thais Fernandes, por “Estátuas também morrem?”

Melhor Fotografia: Lívia Pasqual, por “Drunken Car”

Melhor Montagem: Gabriela Kopp, por “Claudete”

Melhor Direção de Arte: Marco Arruda, por “Raidinalha”

Melhor Trilha Sonora/Melhor Música: Otávio Vassão, por “Grão”

Melhor Edição/Edição de Som: Fernando Efron, por “Raidinalha”

Melhor Produção Executiva: Allan Riggs e Guilherme Suman, por “Terra Bruta”

Melhor Figurino: Beatriz Pieratti, por “Drunken Car”

Menção Honrosa: “O Acumulador de Memórias”

Prêmio Accirs - Júri da Crítica: “Grão”

"Filhas da Lua", de Tatiana, doc sobre a vida de mulheres
que sobreviveram ao sistema prisional


HOMENAGENS ESPECIAIS

 Troféu Oscarito - Andréa Beltrão

Troféu Eduardo Abelin - Renata Almeida Magalhães

Kikito de Cristal - Selton Mello e Maria Fernanda Cândido

Troféu Cidade de Gramado - Marcos Caruso

Troféu Sirmar Antunes (Assembleia Legislativa) - Jorge Henrique Boca

Prêmio Iecine Destaque - Renato Dornelles e Tatiana Sager

Prêmio Iecine Inovação - Filipe Matzembacher e Marcio Reolon 

Prêmio Iecine Legado - Gisele Hiltl

Prêmio Leonardo Machado - Silvia Duarte


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Daniel Rodrigues

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

CLAQUETE Especial Clyblog 18 Anos - "Uma Mulher sob Influência". de John Cassavetes (1974)


 

Um grupo de trabalhadores dentro da água ao entardecer, equipados com capacetes de obra e uniformes de borracha. Uma voz masculina grave ecoa, lírica, e é substituída por um piano melancólico que irá atravessar todo o filme, composição de Bo Harwood. A imagem quase documental serve de fundo para as letras que surgem, gigantes e azuis: "A Woman Under the Influence", que se traduz, literalmente, no título adotado no Brasil, "Uma Mulher sob Influência".

Chamou-me a atenção que um filme com esse título começasse em um cenário repleto de personagens masculinos, em um espaço de trabalho braçal. Entre os diversos fatores que fazem da obra de John Cassavetes algo genial está justamente esse deslocamento: o filme é sobre uma mulher, mas também é sobre o seu marido, sobre a vida cotidiana, sobre uma crise. Fala do universo feminino, mas tem a direção de um homem. Não se propõe a ser nada além do que é, dentro dos recursos limitados pelo baixo orçamento, com uma estética crua que lembra o cinema documental e uma história que poderia acontecer com uma familiar ou vizinha nossa.

Gena Rowlands, estrela do filme e esposa de Cassavetes, declarou que, após ler o roteiro pela primeira vez, “não conseguia acreditar que John tivesse escrito aquilo. Não quero parecer sexista, porque realmente não acredito que mulheres não possam escrever sobre homens e vice-versa. Mas eu realmente não conseguia acreditar que um homem pudesse compreender esse problema específico”. Gena via o marido distraído, aparentemente desatento ao que acontecia à sua volta em eventos sociais, a ponto de se surpreender com seu nível de atenção e sensibilidade aos conflitos humanos.

O ponto de partida do roteiro foi um pedido da própria Gena, que, depois de passar um tempo trabalhando no cinema e na televisão, sentia falta do palco. Queria interpretar uma personagem complexa, que dialogasse tanto com as dificuldades da mulher contemporânea quanto com as experiências das gerações anteriores. A peça escrita por Cassavetes, no entanto, era longa e exigente: Gena ponderou que não teria condições físicas e emocionais de interpretar Mabel noite após noite. Ainda que ele tenha trabalhado em outras possibilidades, como dividir a personagem de Mabel entre diversas atrizes, acabou transformando a peça de teatro em roteiro cinematográfico.

Mas quem teria interesse em financiar um filme sobre uma mulher de meia-idade enlouquecendo? Aliás, fontes da época revelam que os grandes estúdios recusaram o projeto porque “ninguém está interessado nos problemas das mulheres”. Diante das dificuldades de financiamento, Cassavetes e Rowlands colocaram sua segurança econômica em risco: hipotecaram a casa e recorreram a amigos e familiares. Peter Falk, ator que interpreta Nick, marido de Mabel no filme, foi decisivo. Gostou tanto do roteiro que investiu cerca de 500 mil dólares na produção, metade do orçamento estimado. Gena resumiria depois a experiência dizendo que eles não tinham dinheiro, mas tinham muitos amigos atores interessados no projeto, e todos ajudaram como puderam.

É interessante pensar que uma das grandes conclusões a que chegamos ao assistir a "Uma Mulher sob Influência" é que a família é realmente o berço de todas as neuroses. No entanto, o filme contou com grande apoio das famílias no elenco, na equipe, na garantia financeira e até mesmo como fonte de inspiração: Katherine Cassavetes, mãe de John, interpreta a mãe de Nick; Lady Rowlands, mãe de Gena, interpreta a mãe de Mabel.

Adentrando o filme, Nick é chefe de uma equipe de serviços públicos. Quando um cano de água estoura na cidade, ele telefona preocupado para sua esposa, Mabel. Eles têm três filhos pequenos — Tony, Angelo e Maria —, que ela já havia deixado aos cuidados da avó para que os dois pudessem passar a noite juntos e sozinhos. Quando Nick liga, já sabemos que a reação de Mabel pode ser ruim, e essa sensação de que algo terrível pode acontecer a qualquer momento permeia todo o filme. Momentos antes, Nick havia comentado com um colega de trabalho que Mabel “não é louca, é incomum”.

Sozinha, bêbada e entediada, Mabel caminha pela noite e chega a um bar, onde conhece o desajeitado Garson Cross. A interação é confusa: ela o trata como se já se conhecessem, em alguns momentos reclama do marido e, em outros, parece confundi-lo com Nick. Cross a leva para casa e a força a manter relações sexuais enquanto ela tenta, em vão, resistir. Na manhã seguinte, Mabel, desorientada, discute brevemente com Garson e o manda ir embora. A montagem nos confunde, pois, na sequência, Nick chega em casa com uma equipe inteira depois da noite de trabalho. Em um primeiro momento, temos a impressão de que marido e agressor se encontrarão, o que não ocorre.

Mabel prepara espaguete para todos, buscando ser uma boa anfitriã, e pergunta o nome de cada um, ainda que diversos deles já a conhecessem. A refeição é superficialmente agradável até Nick se irritar com Mabel, causando constrangimento em todos. Ela é calorosa com os convidados e parece não perceber quando está sendo inconveniente. Os amigos de Nick usam um telefonema como desculpa para sair às pressas dali.

O casal Cassavetes e Gena: roteiro escrito por ele para ela

O filme é muito hábil ao nos apresentar a vida cotidiana, o relacionamento de Nick e Mabel e a forma como ela cuida das crianças, criando uma imensa conexão entre os personagens e quem assiste. Mabel organiza um encontro entre seus filhos e outras crianças, mas o pai delas se incomoda com seu comportamento. A sequência em que Mabel dança ao som de "O Lago dos Cisnes" é uma das mais sensíveis do filme. Nela, nota-se a linha tênue entre sua tentativa de se relacionar com as crianças e uma espécie de alienação da realidade. Ela parece habitar um universo próprio e estar alheia ao que ocorre ao seu redor. Isso é resultado da construção harmoniosa de John Cassavetes, que filma em closes, movimentos fluídos de câmera na mão, dando a impressão de que tudo ali é real, e a incrível atuação de Gena Rowlands, que parece se transformar em outra pessoa.

Nick chega em casa com sua mãe, Margaret, e encontra todas as crianças seminuas, correndo descontroladamente, enquanto o pai das outras crianças, Jensen, tenta vesti-las. Nick dá um tapa em Mabel e começa uma briga com Jensen, furioso, mas Margaret os separa, e o homem vai embora com os filhos. Desesperado, Nick liga para o médico de Mabel, Dr. Zepp, para avaliar a saúde mental da esposa. Mabel fica agitada, principalmente com a presença da sogra, que a chama de má esposa e mãe inadequada enquanto Nick tenta acalmá-la. Ela se distancia cada vez mais da realidade e resiste violentamente quando o Dr. Zepp tenta aplicar uma injeção de sedativo. Convencido de que ela se tornou uma ameaça para si mesma e para os outros, o médico determina sua internação involuntária.

Abalado e incapaz de lidar com a ausência da esposa, Nick desconta sua raiva nos colegas de trabalho e leva os filhos à praia, tentando criar com eles um momento de conexão. Aqui estão alguns dos momentos mais marcantes do filme: na ausência de Mabel, Nick demonstra ser incapaz de cuidar das crianças, levando-as a uma praia fria e dando-lhes cerveja para “experimentarem”. Contudo, seu comportamento e sua sanidade não são questionados como os de Mabel.

Seis meses após a internação, Mabel retorna para casa. Nick prepara uma festa de boas-vindas e enche a casa de pessoas, mas logo todos percebem que aquele não é o momento para estarem ali e que a família precisa de privacidade. Toda a recepção de Mabel se torna constrangedora: insegura após o período de internação, ela não sabe como se comportar, enquanto o marido insiste para que todos ajam “normalmente”. Mabel parece estar pisando em ovos, cuidando de cada ação para poder rever os filhos. Todos parecem julgá-la e temem o que pode acontecer, mesmo quando seu pedido é razoável: quer que os convidados saiam para que possa ficar sozinha com a família. Memorável a cena em que Mabel pergunta ao seu pai se ele irá lhe dar suporte, e ele se levanta, como se compreendesse a frase de maneira literal. É como se fosse impossível para os outros entenderem Mabel.

Sozinha com Nick, a crise mental e a tensão aumentam. Mabel tenta se ferir e Nick reage com violência. As crianças procuram protegê-la e reafirmam seu amor pela mãe. Depois da crise, Mabel e Nick cuidam dos filhos, tratam o ferimento dela e arrumam silenciosamente a casa, retomando a rotina familiar.

O final é emblemático e possibilita diversas interpretações. Pode representar uma reconciliação, na qual os dois dão uma trégua aos conflitos, ocultam os vestígios da crise e tentam retornar à rotina. Mabel não está necessariamente recuperada, mas volta a desempenhar os papéis de dona de casa, mãe e esposa, dentro de uma realidade que lhe é imposta. Ao mesmo tempo, ela e Nick arrumam a casa juntos como quem deseja restabelecer a ordem das coisas, porque se amam e querem que tudo dê certo. Minha interpretação reúne um pouco de cada uma dessas possibilidades, mas parte, principalmente, da ideia de que a normalidade também é uma performance: os dois se esforçam para desempenhar os papéis que lhes foram impostos e manter a família funcionando. A influência a que o título se refere manifesta-se justamente nessas expectativas que determinam como Mabel deve agir, sentir e amar. Também aprisionam Nick em sua necessidade de controlar e preservar uma ideia de felicidade familiar.

No período em que começaram a pensar o filme, Cassavetes e Rowlands já viviam havia mais de uma década as pressões da parentalidade. Naquele momento, tinham em casa um adolescente, uma menina em idade escolar e uma criança de apenas dois anos. Permaneceram casados até a morte de Cassavetes, em 1989, totalizando cerca de 35 anos juntos. O filme, portanto, não nasceu no começo de uma paixão ou de uma colaboração recente. Foi feito por um casal que já atravessara quase duas décadas de vida em comum, três filhos, períodos de dificuldades financeiras e várias experiências cinematográficas compartilhadas.

Em determinados períodos do casamento, Cassavetes permaneceu em casa cuidando das crianças enquanto a esposa trabalhava como atriz. Penso que, ainda que tenha sido uma experiência temporária, a percepção da solidão, da repetição e do que significa doar seu tempo e sua vida a alguém também tenha ajudado a construir o roteiro.

Em uma entrevista, Cassavetes definiu a obra como um filme sobre pessoas lutando, vivendo, passando por dificuldades e humilhações. Sua ideia era discutir o quanto é preciso pagar pelo amor: “Eu sabia que o amor criava, ao mesmo tempo, um grande momento de beleza e, por outro lado, tornava você um prisioneiro”.


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trailer de "Uma Mulher sob Influência"




por
  K E L L Y   D E M O   C H R I S T


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KELLY DEMO CHRIST é crítica de cinema vinculada à ACCIRS – Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul e Diretora de Comunicação do Clube de Cinema de Porto Alegre. É formada em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atua também nas áreas de fotografia e montagem audiovisual, com experiência em televisão, plataformas educacionais, redes sociais, publicidade e mídias digitais. Publica esporadicamente suas críticas no site Cinema de Porão.




terça-feira, 25 de agosto de 2026

"Grão", de Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa, e "Banho Maria", de Gabriel Faccini (2026)


O mundo está acabando

Nei Lisboa diz em uma de suas reflexivas canções: “Alguns edifícios por dia/ Desabam dentro da avenida/ E salva-se a filosofia”. Entendidas metaforicamente, estas “edificações” podem muito bem representar aquilo que erguemos como padrões temporais para o ser humano em sociedade. E que está desabando, acabando-se. Antes sólidos, inabaláveis; hoje, contestados, ressignificados. Em crise. Isso serve tanto para os arquétipos filosóficos de jovens tanto homens quanto de mulheres, algo muito bem percebido por curtas-metragens da nova safra do cinema gaúcho exibidos na Mostra Assembleia Legislativa de Curtas-Metragens Gaúchos durante o 54º Festival de Cinema de Gramado, ocorrido entre 12 e 22 de agosto.

Mais propriamente, os filmes com esse olhar imersivo são “Grão”, da dupla rio-grandina Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa, o principal premiado da mostra competitiva, e o não menos instigante “Banho Maria”, de Gabriel Faccini. O primeiro, uma crítica mordaz da masculinidade tóxica. O segundo, uma reflexão existencial do lugar da mulher na sociedade capitalista – e essencialmente machista. Cada um a sua forma, ambos os filmes põem em questionamento estes padrões arraigados – e caducos – do que é (ou deve ser) homem ou mulher, como se, para ser um ou outro, tenha-se que seguir uma cartilha que já não existe mais. Ambos, mesmo em situações distintas, em determinado momento trazem dita a mesmíssima frase: “O mundo está acabando”.  

“Grão”, em especial, pode-se considerar o melhor curta-metragem da temporada (quiçá, o melhor filme gaúcho entre todos do ano). É o aprimoramento do trabalho de Cozza e da Rosa e da produtora Saturno, coletivo que vem realizando produções na mesma linha há alguns anos com grande contundência e assinatura estilística. No primeiros deles, o belo documentário “Construção”, de 2020, sobre uma mãe de família despejada de sua casa e reconstruindo a vida, já se percebia um olhar distinto sobre questões sociais e existenciais por meio de um hibridismo entre documentário e ficção. Porém, foi em “Madrugada”, de 2022, e, logo após, mais transversalmente, “Cassino” (2024), que a dupla adentra no (sub)mundo da sua Rio Grande, cidade portuária com oportunidades mas geradora de um “cinturão” de subempregos ocupados por jovens desqualificados para o que o sistema exige.

trailer de "Grão"

Metais, fumaça, máquinas opressivas e ensurdecedores ruídos industriais imperam sobre um ambiente escuro, de luzes funcionais e impessoais em que os braços fortes não têm capacidade de controlar os sentimentos da vida. Numa fotografia metalingusticamente granulada, edição fragmentada e uma câmera ora atenta a um fato, ora meramente observadora, os personagens masculinos, representados na figura de Leandro, magistralmente interpretado por Leandro Gomes, iludem-se com seus carros possantes, suas músicas altamente insinuantes, seus músculos fabricados e com meia dúzia de notas em dinheiro para aplacar os desejos sexuais. Nada disso mais é suficiente. A transa com a garota desejada, a venda da “caranga”, a curtição com os “bróder”: tudo termina descartado, encalhado, abandonado. Como o antigo barco na praia do Cassino, como os grãos de soja sobrados na beira do mar, como o carro atolado na areia da praia. Como ele mesmo, depois de uma noite de porre e solidão, afundado na terra. Um grão de volta a seu ciclo para poder voltar a existir.

Não apenas o júri principal da Mostra Assembleia Legislativa, que lhe deu três premiações, entre estas, a de Melhor Filme, a Associação de Críticos de Cinema do RS (Accirs) também concedeu o Prêmio da Crítica. Em sua justificativa, a Accirs escreveu: "Por tratar da masculinidade sob uma ótica crítica, com humor e densidade; por tornar um território em crise um personagem central do filme; por deixar transbordar solidão, melancolia e desejo com domínio de recursos visuais e sonoros; a ACCIRS reconhece mais um passo na trajetória investigativa do grupo de realizadores neste universo e premia o curta-metragem 'Grão'". Antes, o filme já havia sido escolhido para a 9ª Mostra Sesc de Cinema – Circuito RS e ganhado o Festival de Tiradentes, em Minas Gerais, o que o tornou apto a concorrer pelo Brasil ao Oscar de 2027, mostrando que a turma da Saturno está madura para, agora, encarar o primeiro longa-metragem. Que venha, pois deverá ser coisa boa.

Construído a partir de outras premissas e escolhas narrativas, “Banho Maria”, embora não tenha levado nenhum prêmio em Gramado – é, igualmente a “Grão”, um dos 14 selecionados da Mostra Sesc desse ano –, é de uma contundência mais sensível, mas não menos branda. Em uma manhã de calor escaldante, uma mulher, Maria (Silvana Rodrigues), decide faltar ao trabalho e aproveitar o dia num parque aquático para refletir sobre si, quando encontra um menino, que está de aniversário, o qual, indiretamente, ajuda-lhe e sua busca interna.

Ao transformar o ambiente do parque aquático em um cenário quase surreal a partir de seus enquadramentos, temperatura de foto e até de efeitos especiais (pequenos, mas muito bem feitos), o filme de Faccini compartilha com o espectador o autoquestionamento da vida de uma jovem preta e trabalhadora de classe média, um dos principais alvos da estrutura misógina e machista da sociedade brasileira, ainda mais por ser uma mulher fora dos padrões estéticos.

teaser de "Banho Maria"

De roteiro eficiente e diálogos idem (são impagáveis as conversas entre a protagonista e o pequeno Alisson, vivido por Lukas Rodrigues), “Banho Maria” reflete esse lugar do feminino preto em um Estado que nega a existência e a contribuição de sua população negra. O espectador é informado parcialmente das inquietudes existenciais de Maria, praticamente apenas a questão da contrariedade dela quanto aos próprias rumos profissionais. Porém, ficam subentendidos propositais “três pontos”, como se, ao mexer nessa estrutura sufocante de sua vida, outros aspectos também haveriam de ser desencadeados.

Estes dois curtas gaúchos convidam o espectador a um movimento de submersão interior simbólico da figura materna, seja um mergulho na água (útero) ou na terra (vida). Se em “Grão” a estranheza se revela pela surpresa da solidão masculina, em “Banho Maria” é a reação (sub)consciente feminina diante de sua realidade opressiva que permite um imergir diferente, mesmo que em “banho maria”, ou seja, ainda em processo de elaboração. Uma tentativa de mergulho em si mesma, nas verdades da personagem mulher e não um enterrar-se na areia como um bicho acuado (Leandro, de "Grão"). Seja pela crítica ou pela revelação, ambas as obras mostram que os valores desgastados daquilo que se entende por ser humano, seja homem ou mulher, já não se sustentam mais. O mundo está acabando, edifícios desabam dentro da avenida. É preciso rever suas bases para chegar a verdades interiores pouco acessadas, mas essenciais para um renascimento. E salva-se a filosofia.

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Daniel Rodrigues

domingo, 2 de agosto de 2026

"Mártires", de Pascal Laugier (2008) vs. "Martírio", de Kevin Goetz e Michael Goetz (2016)

 




Ainda no rastro de Copa do Mundo, mais um confronto internacional no nosso Clássico é Clássico ( vice-versa). O cultuado "Mártires", exemplar básico do cinema extremo francês, consagrado pelos fãs do terror, contra a tentativa norte-americana de refilmagem, mesmo tendo que contrariar as próprias características de cinema comercial.

É tipo aquele jogo que o juiz esqueceu o cartão em casa. Pancada o jogo inteiro, violência comendo solta e nem advertência.
"Mártires", de 2008, do diretor Pascal Laugier, e seu remake "Martírio", de oito anos depois, dos irmãos Goetz, não aliviam, os dois são brutais, a diferença é que o norte-americano parece aquele time que não tem a coragem de entrar na área, e a área, aqui, neste caso, é um nível de violência além do tolerável. 
Com algumas diferenças,  a premissa é basicamente a mesma: uma jovem que fora sequestrada e torturada na infância, anos depois supõe ter encontrado seus torturadores e vai atrás deles com sede de vingança, ainda que a melhor amiga, companheira de internato na infância órfã e de recuperação do trauma, ponha em dúvida se aquela família identificada pela nossa vingadora teria inquestionavelmente relação com as atrocidades cometidas contra a amiga anos atrás. O próprio espectador põe em dúvida se aquele núcleo familiar tão bonitinho e normal seria capaz de coisas tão cruéis a ponto de traumatizar uma pessoa.  
Sim? Não?
Melhor não revelar.
Vou procurar não dar muitos spoilers, mas o fato é que a partir daí, se desencadeiam uma série de situações que deixam o espectador sem respirar e sem acreditar no acontecimento seguinte. E não é uma questão de reviravolta, plot-twist, é porque é tão inesperado que a gente fica cada vez mais tenso, embasbacado, impressionado e incrédulo.

"Mártires" (2008)

Assista ao filme completo: Mártires (2008) Filme Completo DUBLADO 

"Martírio" (2016)


Assista ao filme completo: "Martírio" (2016) - completo dublado


Em ambos essa sucessão de acontecimentos surpreendentes acontece, mas a impressão que dá é que a produção norte-americano de 2016 toma o cuidado de não passar dos limites, de se manter na medida do possível, dentro de um padrão minimamente comercial, enquanto o original francês vai até as últimas consequências. Talvez somente no primeiro contato com a família feliz a refilmagem consiga ter tanto impacto quanto. Fora isso, não chega nem perto, repleto de americanices e suavizações, como no caso da outra garota encontrada em cárcere, uma garotinha sofrida, desesperada, mas inteirinha e saudável; do esfolamento nos porões, bem mais leve e superficial que o do filme francês; do destino da amiga, preparado e heroico como todo americano gosta; e da sequência final, muito mais 'poética' e apoteótica. (E podem fiar tranquilos, pois estou sendo bem genérico para não correr o risco de revelar muito).
Enfim, "Mártires" bate impiedosamente em "Martírio", espanca, tortura e ainda tira o couro do time yankee.
Uma goleada fácil, um 5x0 com requintes de crueldade. 

Ambas as cenas do "êxtase" final.
À esquerda o original, que parece um Hellraiser de tão horrendo, 
e à direita, o remake que está mais para mais o Auto da Compadecida,
só arranca uma tira de couro.


E o time norte-americano apanha resignado, conformado, 
sofrendo por que sabe que tem que sofrer pois
Não há outra coisa a fazer diante do fortíssimo time francês.





Cly Reis

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Sessão Comentada filme "Quilombo" - Centro de Debates Democracia & Cultura (CDDC) - EEEM Campos Verdes - Alvorada/RS (19/05/2026)


Dentre os trabalhos que desenvolvo com cinema e crítica, como curadorias, júris e espaços de debate, um me deu especial alegria, que foi a sessão comentada do filme “Quilombo” na Escola Estadual de Ensino Médio Campos Verdes, na cidade de Alvorada, na região Metropolitana de Porto Alegre, alusiva ao 13 de maio, dia da Abolição da Escravidão, ocorrido dias antes. O convite veio pelo agitador Lincon Fonseca, coordenador do Centro de Debates Democracia & Cultura (CDDC), militante do Congresso Nacional Afro-Brasileiro (CNAB) e ex-aluno de meu curso sobre Cinema Negro ano passado e que, percebendo minha paixão pelo mesmo filme, que comento no curso, teve a ideia de exibi-lo para os alunos do colégio e promover um debate após a sessão.

E eu não estava só. Juntamente comigo e Lincon, estiveram: Carl Marx (sim, eu debati com Carl Marx!), estudante de filosofia na UFRGS e militante do CNAB; Danusa Alhandra, militante da União Brasileira de Mulheres (UBM-RS) e da União Nacional de Negros e Negras (UNEGRO-RS); Eduardo Fortes, professor, quilombista, presidente da ONG UmBUNTU e vereador suplente em Alvorada; e Nicolas Marques, presidente da União Gaúcha dos Estudantes (UGES) e militante da Juventude Pátria Livre.

Todos falaram sobre o filme a partir de suas percepções e vivências, o que certamente gerou um conteúdo rico para a gurizada que participou. De minha parte, comentei brevemente sobre a realização de “Quilombo” e seu contexto dentro da cinematografia negra do cinema brasileiro e a de seu realizador, o cineasta alagoano Cacá Diegues (1940-2025). Também expus minha admiração sobre a obra, talvez o grande épico do cinema nacional, e a importância de trazer à tela heróis negros até muito pouco tempo desvalorizados e invisibilizados na História oficial do país.

No filme, que se passa no Nordeste brasileiro do século 17, diversos escravos fogem e se unem para formar o Quilombo dos Palmares, no interior de Alagoas, aproveitando-se da fraqueza do governo colonial, que enfrenta a invasão holandesa. Sob o comando de Ganga Zumba - e depois de Zumbi -, o quilombo prospera e os ex-escravos tornam-se uma força militar e comercial poderosa, ameaçando o domínio dos colonizadores e a autoridade real. Logo, as forças da ordem se mobilizam para liquidar com os afro-brasileiros rebeldes numa guerra sangrenta que se estenderá por muitos anos. Quilombo dos Palmares existiu/resistiu por cerca de 1 século.

Cena de "Quilombo", com trilha sonora de Gilberto Gil

Mais sobre “Quilombo” teria para falar, assim como na ocasião para os alunos da Campos Verdes, a quem expus apenas parte do possível e o mínimo para uma fala que interessante, uma vez que outras vozes trariam a eles outras contribuições. Não coube, por exemplo, mencionar a maravilhosa trilha sonora do filme, feita especialmente por Gilberto Gil em parceria com Wally Salomão. Ao final, já saindo da escola, um dos alunos passou por mim e agradeceu pela oportunidade. Considerei um ótimo retorno, tendo em vista que, se já é cada vez mais difícil as pessoas dizerem alguma coisa, quanto mais adolescentes, que são mais fechados, tímidos ou absorvidos pelos seus próprios mundos. Ademais, nunca se sabe de fato o que as pessoas acharam, mesmo com os protocolares aplausos ao final... Independentemente disso, a oportunidade em si foi única e a iniciativa do CDDC louvável. Por mais atividades culturais e cinematográficas assim para os jovens das nossas periferias.

Confira nas fotos um pouquinho de como foi:

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Lincon fazendo a abertura


Eu falando um pouco sobre o filme e a obra de Cacá Diegues


Quilombo ao fundo corroborando comigo


A vez de Danusa Alhandra conversar com a galera


O quilombista Eduardo Fortes atraindo as atenções


A numerosa turma do Campos Velho presente


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texto: Daniel Rodrigues
fotos: Cini

domingo, 19 de julho de 2026

"Todos Já Sabem", de Asghar Farhadi (2018)


Talvez nem todos saibam, mas o filme “Todos Já Sabem” já foi motivo de resenha no Clyblog, em 2019, pelas mãos do nosso colaborador Vagner Rodrigues. Na ocasião, Vagner apontou as qualidades desse trhiller misterioso, cuja composição é distinta e certeira: o talento do elenco (os espanhóis Penélope Cruz e Javier Bardem mais o argentino Ricardo Darín), a competência do diretor (o iraniano Asghar Farhadi) e a história envolvente. Mas é exatamente essa junção exitosa que nos motiva a, novamente, falarmos do filme no blog. Afinal, hoje tem final da Copa do Mundo inédita entre Espanha e Argentina, e um filme que reúne “em campo” justamente esses dois países – e de forma tão certeira – merece, sim, ser revisitado diante da atual ocasião.

O roteiro do filme, se não todos, muitos já sabem, haja vista que a produção é de 8 anos atrás. Por isso, relembremos: “Todos...” conta a história de Laura (Penélope), que retorna à Espanha natal para acompanhar a cerimônia de casamento de sua irmã. Por motivos de trabalho, o marido argentino (Darín) não pode ir com ela. Chegando no local, Laura reencontra o ex-namorado, Paco (Bardem), que não via há muitos anos. Durante a festa, uma tragédia acontece. Toda a família precisa se unir diante de um possível crime de grandes proporções, enquanto se questionam se o culpado não está entre eles. Na busca por uma solução, segredos e mentiras são revelados sobre o passado de cada um.

Afora trazer na mesma produção Argentina e Espanha, “Todos...” nos apresenta semelhanças cinematográficas que também unem esses dois países. A história faz bem lembrar a ótima fase recente do cinema argentino, que produziu vários thrillers empolgantes como “O Segredo dos Seus Olhos”, “Vermelho Sol” e "Kóblic", além de jogar luzes sobre Darín, um dos melhores atores deste século. Igualmente, o filme faz remontar o clássico cinema espanhol, como o fantástico de Victor Erice e as tramas de suspense psicológico de obras como “Dispara!” e “O Sétimo Dia”, estes dois últimos do saudoso Carlos Saura - que, aliás, já havia feito a ponte entre seu país natal e o sul-americano nos documentários "Tango", de 1998, e "Argentina", de 2015. Colabora para este resultado a direção de Farhadi, representante de uma escola cinematográfica tão importante do novo cinema mundial como a do Irã. 

Espanha e Argentina em campo, só que no cinema, por meio dos astros
Penélope Cruz, Ricardo Darín e Javier Bardem

Igualmente, “Todos...” também aproxima os países finalistas da Copa por um motivo até então inédito na competição: será apenas a segunda vez em quase 100 anos que os dois principais times falam o mesmo idioma! Já teve de tudo em termos idiomáticos em Copas: português com italiano, espanhol com holandês, francês com croata, alemão com húngaro, italiano com checo... mas espanhol com espanhol só lá na primeira edição, em 1930, quando Argentina e Uruguai se enfrentaram. Geopoliticamente falando, é a primeira vez que, a rigor, um país colonizador enfrenta um colonizado por ele mesmo, relação esta que remonta a mais de 500 anos!

História à parte, será um grande jogo e que reescreverá, sim, um novo capítulo histórico, Em campo, o próprio estilo de jogo de cada equipe é parecido, valorizando a bola e contando com a força do coletivo. No cinema, arte essencialmente coletiva, essa química entre espanhóis e argentinos já deu muito certo, a se ver por outros títulos hispano-argentinos como o já citado "O Segredo...", "Um Conto Chinês" e “Truman”, todos, aliás, também com Darín. O suspense de Farhadi mostra bem isso, pois cada um dos países, Espanha e Argentina, são escolas craques nas quatro linhas que formam a câmera. Isso “todos los saben”, Agora, falta saber qual escola, mas a do futebol, se saíra melhor nas quatro linhas do gramado.

trailer de "Todos Já Sabem"


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"Todos Já Sabem"
Título Original: "Todos lo Saben"
Direção: Asghar Farhadi
Gênero: Thriller, Suspense
Elenco: Penélope Cruz, Javier Bardem, Ricardo Darín
Duração: 2h13min
Ano: 2018
País: Espanha, França, Itália, Argentina
Onde assistir: Prime Vídeo, Apple TV, Google Play Filmes

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Daniel Rodrigues

sábado, 11 de julho de 2026

"4x4", de Mariano Cohn (2019) vs. "A Jaula", de João Wainer (2022)

 



Quem é  melhor no futebol, Brasil ou Argentina? O Brasil tem mais Copas do Mundo, mas a Argentina é a atual campeã mundial. O maior jogador de todos os tempos é brasileiro, Pelé, mas muitos contestam e afirmam que seria o argentino Diego Maradona ou até  mesmo Lionel Messi. A Argentina ganhou mais vezes a Copa América, mas só o Brasil foi a todas as Copas do Mundo... E no cinema? A Argentina tem dois Oscar de melhor filme estrangeiro, o Brasil tem um, mas é o mais recente do continente. Enquanto a Argentina só tem a Palma de Ouro de curta-metragem, o brasileiro "O Pagador de Promessas" já teve a glória de ser escolhido o melhor filme em Cannes... Pois hoje a disputa cinefutebolística vai entrar definitivamente em campo. Não com duas equipes brilhantes, é verdade como recomendaria a tradição das duas escolas, mas times bons o suficiente para proporcionar um bom jogo.

O cinema argentino produziu o tenso suspense psicológico "4x4" em que um ladrão de carros, ao arrombar uma luxuosa SUV fica preso dentro dela, controlada remotamente pelo sádico proprietário do veículo que sujeita o criminoso a um terror físico e psicológico constante. O cinema brasileiro então resolveu refilmar o drama do meliante enclausurado no carro de luxo no longa "A Jaula", praticamente sem nenhuma mudança significativa. Mas apesar de não  mexer em quase nada em relação ao original, o filme brasileiro não consegue atingir a mesma intensidade do rival sul-americano.

Embora a Argentina também tenha lá seus problemas sociais sérios, o filme brasileiro tinha tudo para levar uma grande vantagem nesse ponto, mas não consegue fazer disso seu trunfo. Em parte pela escolha do protagonista, Chay Suede, um ladrão com cara de mauricinho que não convence ninguém. Talvez na ânsia de não estereotipar um delinquente, tenham optado por não colocar um negro, um nordestino, ou um ator com mais cara de povão, o que geraria um certo alvoroço, sim, mas retrataria de forma mais realista a situação social do país. O argentino, numa sociedade predominante branca, tem cara de bandido e fica bem caracterizado com um jeito chulé e uma camiseta do Boca Júniors. "A Jaula" até tenta compensar esse eufemismo poético que comete com o linchamento de um outro ladrão que tenta arrombar a pick-up na qual nosso protagonista já está dentro mas é visto pela vizinhança. Tem impacto? Tem, sem dúvida. Mas a presença  dentro do carro de um representante das faixas desfavorecidas e discriminadas da sociedade, seria um constante e pesado soco no estômago.


"4x4" (2019) - trailer



"A Jaula" (2022) - trailer


Não só por isso, é  claro, mas "4x4" se sobressai de maneira evidente em relação a "A Jaula", os detalhes, as escolhas, a fotografia limitada praticamente ao interior de um veículo mas tratada de forma mais intencional no original, garantem a ele vantagem eu relação ao remake.

O proprietário do carro quando aparece, um médico com síndromes, traumas, complexos de insegurança, é mais convincente que o pouco expressivo brasileiro (Alexandre Nero), o filme argentino constrói melhor o cerco policial e confere maior tensão à toda a cena do que a segunda versão, a intervenção do negociador tem elementos mais bem pensados, bem tratados, mais envolventes que na refilmagem, enfim, o longa argentino não deixa saída para o brasileiro. A favor de "A Jaula" tem as incursões no início e no fim do filme de um desses telejornais sensacionalistas, típicos desse tipo de situação, formadores de opinião pública, com a participação da grande Astrid Fontenelle como âncora, fazendo uma espécie de Datena.

Assim como vem acontecendo no futebol nos últimos anos, os Hermanos não dão a menor chance para a nossa Seleção. 4x1 para a Albiceleste.

À esquerda, Peter Lanzani em "4x4", e à direita, o pouco convincente Chay Suede, em "A Jaula".
Aqui pode-se dizer que o adversário, tanto do argentino quanto do brasileiro,
jogou fechadinho.


A 4x4 argentina acelera o jogo,
marca a saída,
e atropela o time brasileiro.




Cly Reis

terça-feira, 30 de junho de 2026

"Pânico em Alto Mar", de Hans Horn (2006) vs. "Medo Profundo" ou "Perdidos", de Sergio Graciano (2017)

 


Ao contrário das seleções que representam esses dois países na Copa do Mundo, nenhum dos dois é um grande time aqui. Sei, sei que Portugal não está lá essas coisas, cheio de biquinhos e crises internas, e a Alemanha acaba de dar adeus à competição, mas ambos têm inegavelmente grandes jogadores e são respeitados no mundo do futebol. 

Nossos concorrentes cinematográficos aqui, estão mais para aquelas seleções medianas que já se dão por muito satisfeitas por estarem em uma Copa e se conseguirem aprontar contra um grande ou passar de fase, é o bastante para ser decretado feriado nacional no país.

Tanto o original, "Pânico em Alto Mar", produção alemã, quanto sua refilmagem portuguesa, "Medo Profundo", também conhecida como "Perdidos", não tem credenciais para transitar em qualquer rol de grandes filmes, embora o primeiro seja frequentemente mencionado como um bom suspense, no mínimo tenso e envolvente.

Rigorosamente com o mesmo enredo, em ambos um grupo de amigos que não se vê há algum tempo, é convidado por um deles para um passeio em seu iate particular, sendo que uma das convidadas, Amy no  original e Ana, na refilmagem, está casada e leva seu pequeno bebê (Sarah, no primeiro e Henrique na mais nova versão). O problema é que, lá pelas tantas, um resolve dar um mergulho no mar, outro o segue, e o babaca e inconveniente dono do iate, mesmo sabendo do problema que a protagonista tem com água, a força a entrar com ele. Só que estúpido como é, esquece de descer a escada antes de se jogar no mar e deste modo, não há  ninguém dentro da embarcação para lhes ajudar a voltar a bordo, a não ser um bebê de colo que por enquanto dorme, mas que com o passar das horas vai ficar impaciente, desidratado e faminto. Aí começa o drama da tripulação, toda na água, entre conflitos, desavenças, cansaço, cãibras, fome, sede e o desespero crescente.

"Pânico em Alto Mar" (2006) - trailer


"Medo Profundo"/ "Perdidos" (2017) - trailer


Bem feito, caprichado, com cuidados evidentes de luz e fotografia, atuações convincentes, a produção alemã falada em inglês tem bons predicados e alguns bons diferenciais que o sustentam.

Já o mesmo não se pode dizer da versão lusitana. Superficial, desleixado, apressado, ele suprime, por exemplo, a origem da fobia da protagonista por água, fazendo parecer um mero medinho. O filme alemão, por sua vez, usa flashbacks da infância de Amy para chegar na origem daquele pavor por água, o que é reforçado constantemente de alguma forma, de modo que o espectador entenda que não se trate de um mero capricho. E tem a presença mais constante do bebê que fica abandonado na embarcação, sua menção, seu choro, a preocupação dos pais impotentes na água; a relação do casal harmoniosa e afetuosa no original e conflituosa no remake, o que não representa nenhum ganho; temos uma construção mais completa e coerente da relação dos amigos no barco; além de um fotografia cuidadosa que faz questão de reforçar visualmente a infinidade do mar e a impossibilidade de chegar a algum lugar sem ajuda, e que cuida para não cair no apelativo ou sensual quando todos tem que ficar nus, com tomadas e luz precisas que não revelam qualquer parte intima em momento algum. Detalhes, detalhes que fazem o filme de 2011 nadar de braçada no confronto.

O resultado é vitória fácil de Pânico. Não é ameaçado em momento algum, mas como também não é um grande time, faz só aquele  2x0  clássico. 

À esquerda, no original, o grupo tentando algum recurso para voltar à embarcação.
à direita, no remake, os amigos ainda desfrutando do passeio de iate.


Pânico em Alto Mar não é nenhuma grande time mas fez uma partida correta e 
fez naufragar qualquer pretensão de Medo Profundo.


Cly Reis