Espaço dedicado à música, cinema, artes, cultura pop e uma ampla variedade de conteúdos. Tudo o que é mais legal e interessante na internet está ao seu alcance no ClyBlog.
O ótimo documentário "Santiago, Itália" revela um aspecto pouco conhecido do já tão abordado golpe de 11 de Setembro no Chile. Nanni Moretti recupera uma história de solidariedade num painel, grosso modo, dividido em quatro partes: a euforia com a vitória de Allende, os difíceis anos e os boicotes durante este governo, a ação dos militares e as cruéis perseguições e, por fim, o olhar para trás sobre estes acontecimentos. Ninguém sai indiferente - aí incluídos os cineastas Patricio Guzmán, autor de "Nostalgia da Luz" e falecido no último dia 15 de setembro, e Miguel Littín ("Actas de Marusia"), cujas filmografias estão ligadas à história política do país e também personagens conhecidos e anônimos (diplomatas, jornalistas, empresários). Em comum, além dos horrores da ditadura, o acolhimento que receberam da Embaixada da Itália, que em determinado momento chegou a abrigar 250 pessoas nos quatro andares da mansão oficial, protegendo-os e, logo depois, enviando-os para Itália, onde muitos - por escolha própria - jamais retornariam.
Intercalando os depoimentos com imagens documentais, "Santiago, Itália" também dá voz aos vencedores de 1973 - ainda que estes não pareçam ter o que comemorar. O primeiro é um militar sóbrio, quase burocrático, que trata o golpe como uma simples intervenção - amparada na Constituição - e que teria a função de evitar o comunismo que se avizinhava. Outro,(embora não seja claramente identificado, fui pesquisar e descobri ter sido o segundo na hierarquia do Dina), é Iturriaga. Falante e agressivo, ele fez todo o percurso da barbárie: aluno da Escola das Américas, próximo a Pinochet, envolvido nos assassinatos de Carlos Prats e Orlando Lettelier e comandante das torturas em Villa Grimaldi.
Desde 2007, Iturriaga cumpre pena em Punta Peuco. Na entrevista, nega ter sido sequestrador, torturador e assassino - acusações que pesam contra si - e se mostra revoltado com as perguntas feitas por Moretti. Exige que seja perdoado - afinal, ele já perdoou os que lhe acusaram - e se recusa a continuar falando, justificando ter sido convocado para uma entrevista imparcial. Ao que Moretti, na única vez em que aparece no filme, responde: "Eu não sou imparcial".
Até ontem, o clássico da sátira política e social "Uma Modesta Proposta - Para impedir que os filhos das pessoas pobres da Irlanda sejam um fardo para os seus pais ou para o país e para torná-los úteis ao interesse público" era apenas uma referência cultural indireta para mim, isto é, eu sabia da existência dele e sabia do que se tratava, mas ainda não o tinha lido. Encontrei o texto em um livro que tenho em casa e o devorei.
Trata-se de uma provocação demolidora do escritor irlandês Jonathan Swift escrita no século XVIII, na qual ele, com o humor afiado como os instrumentos de corte dos açougueiros, sugere que crianças pobres do país dele virem comida para outras pessoas. Os infantes seriam abatidos ao completarem um ano de idade para consumo humano, tal como os leitões.
"Um sábio americano que conheci em Londres assegurou-me que uma criancinha jovem, saudável e bem alimentada é, com um ano de idade, o alimento mais delicioso, nutritivo e completo – seja estufada, grelhada, assada, ou cozida. E não tenho qualquer dúvida de que sirva também para um fricassê ou um ragú."
Apresentada racionalmente, apoiada em estatísticas, a proposta de Swift tem o patriótico objetivo de diminuir a população pobre da Irlanda. Os casais pobres venderiam seus filhos de um ano de idade e, assim, teriam uma fonte de renda, além de livrarem-se dos custos de manter viva uma ou mais crianças. A carne de crianças seria uma iguaria apreciada pelos ricos que, como Swift observa com mordacidade, já consomem os pais delas, ainda que de um jeito um pouco menos evidente.
Se considerarmos as declarações aporofóbicas que ouvimos todos os dias, a proposta de Swift seria defendida e posta em prática por integrantes de todas as classes sociais do Brasil, nação há muito dedicada à produção em massa de gente pobre. Alguns diriam que seria um meio eficaz de favorecer o processo de seleção natural da espécie. Imagino que aqui no Rio Grande do Sul os churrascos teriam muitas criancinhas empaladas em espetos e temperadas com sal grosso. A sátira voraz de Swift tem alcance universal porque compreende à perfeição a tal natureza humana. "Uma Modesta Proposta" jamais perderá a atualidade.
Eu sempre fui uma criança cercada de música. Meu pai, músico de profissão, me deu o caminho numa casa sempre cheia de gente e saraus que varavam a madrugada em jam sessions com os amigos. Eu ouvia de tudo, de João Gilberto, paixão da minha mãe, até os progressivos, que meu pai amava.
Nesse meio-tempo, fui desenvolvendo meus gostos de criança. Muito Balão Mágico, os musicais infantis da Globo, "Arca de Noé", "Plunct Plact Zum"…
Alguns anos depois, com 8 anos, tudo mudou. Eu ganhei da minha vó o "Like a Virgin", da Madonna. Ali comecei a entender o que nem tinha nome: o que era ser uma menina. "What It Feels Like for a Girl". Foi a estrutura de tudo que veio depois, de entender que a gente tinha lutas diferentes, que não seria fácil, mas que era bom, era possível, verdadeiro. Que eu também queria ser livre para ser o que eu quisesse.
Depois, aos 17, vi o primeiro show que ela fez no Brasil, no Maracanã. Meu pai me levou junto com um bonde de amigas adolescentes e, até hoje, é o show mais impactante da minha vida.
Quando começou a tocar "Erotica", e uma dançarina escorregava num pole dance gigante de peito de fora, e Madonna surgia com o cabelo curtíssimo e loiríssimo, com o chicote na mão, as coisas nunca mais foram as mesmas. Foi meu primeiro contato mais direto com um público majoritariamente LGBT. Pensei: “Acho que encontrei a minha galera”. E até hoje é assim: sou grata à Madonna por ter me ensinado o que era ser mulher e a ter orgulho de fazer parte de uma comunidade diversa, incrível, corajosa e abençoada. E sim, encontrei minha galera.
Um grupo de trabalhadores dentro da água ao entardecer, equipados com capacetes de obra e uniformes de borracha. Uma voz masculina grave ecoa, lírica, e é substituída por um piano melancólico que irá atravessar todo o filme, composição de Bo Harwood. A imagem quase documental serve de fundo para as letras que surgem, gigantes e azuis: "A Woman Under the Influence", que se traduz, literalmente, no título adotado no Brasil, "Uma Mulher sob Influência".
Chamou-me a atenção que um filme com esse título começasse em um cenário repleto de personagens masculinos, em um espaço de trabalho braçal. Entre os diversos fatores que fazem da obra de John Cassavetes algo genial está justamente esse deslocamento: o filme é sobre uma mulher, mas também é sobre o seu marido, sobre a vida cotidiana, sobre uma crise. Fala do universo feminino, mas tem a direção de um homem. Não se propõe a ser nada além do que é, dentro dos recursos limitados pelo baixo orçamento, com uma estética crua que lembra o cinema documental e uma história que poderia acontecer com uma familiar ou vizinha nossa.
Gena Rowlands, estrela do filme e esposa de Cassavetes, declarou que, após ler o roteiro pela primeira vez, “não conseguia acreditar que John tivesse escrito aquilo. Não quero parecer sexista, porque realmente não acredito que mulheres não possam escrever sobre homens e vice-versa. Mas eu realmente não conseguia acreditar que um homem pudesse compreender esse problema específico”. Gena via o marido distraído, aparentemente desatento ao que acontecia à sua volta em eventos sociais, a ponto de se surpreender com seu nível de atenção e sensibilidade aos conflitos humanos.
O ponto de partida do roteiro foi um pedido da própria Gena, que, depois de passar um tempo trabalhando no cinema e na televisão, sentia falta do palco. Queria interpretar uma personagem complexa, que dialogasse tanto com as dificuldades da mulher contemporânea quanto com as experiências das gerações anteriores. A peça escrita por Cassavetes, no entanto, era longa e exigente: Gena ponderou que não teria condições físicas e emocionais de interpretar Mabel noite após noite. Ainda que ele tenha trabalhado em outras possibilidades, como dividir a personagem de Mabel entre diversas atrizes, acabou transformando a peça de teatro em roteiro cinematográfico.
Mas quem teria interesse em financiar um filme sobre uma mulher de meia-idade enlouquecendo? Aliás, fontes da época revelam que os grandes estúdios recusaram o projeto porque “ninguém está interessado nos problemas das mulheres”. Diante das dificuldades de financiamento, Cassavetes e Rowlands colocaram sua segurança econômica em risco: hipotecaram a casa e recorreram a amigos e familiares. Peter Falk, ator que interpreta Nick, marido de Mabel no filme, foi decisivo. Gostou tanto do roteiro que investiu cerca de 500 mil dólares na produção, metade do orçamento estimado. Gena resumiria depois a experiência dizendo que eles não tinham dinheiro, mas tinham muitos amigos atores interessados no projeto, e todos ajudaram como puderam.
É interessante pensar que uma das grandes conclusões a que chegamos ao assistir a "Uma Mulher sob Influência" é que a família é realmente o berço de todas as neuroses. No entanto, o filme contou com grande apoio das famílias no elenco, na equipe, na garantia financeira e até mesmo como fonte de inspiração: Katherine Cassavetes, mãe de John, interpreta a mãe de Nick; Lady Rowlands, mãe de Gena, interpreta a mãe de Mabel.
Adentrando o filme, Nick é chefe de uma equipe de serviços públicos. Quando um cano de água estoura na cidade, ele telefona preocupado para sua esposa, Mabel. Eles têm três filhos pequenos — Tony, Angelo e Maria —, que ela já havia deixado aos cuidados da avó para que os dois pudessem passar a noite juntos e sozinhos. Quando Nick liga, já sabemos que a reação de Mabel pode ser ruim, e essa sensação de que algo terrível pode acontecer a qualquer momento permeia todo o filme. Momentos antes, Nick havia comentado com um colega de trabalho que Mabel “não é louca, é incomum”.
Sozinha, bêbada e entediada, Mabel caminha pela noite e chega a um bar, onde conhece o desajeitado Garson Cross. A interação é confusa: ela o trata como se já se conhecessem, em alguns momentos reclama do marido e, em outros, parece confundi-lo com Nick. Cross a leva para casa e a força a manter relações sexuais enquanto ela tenta, em vão, resistir. Na manhã seguinte, Mabel, desorientada, discute brevemente com Garson e o manda ir embora. A montagem nos confunde, pois, na sequência, Nick chega em casa com uma equipe inteira depois da noite de trabalho. Em um primeiro momento, temos a impressão de que marido e agressor se encontrarão, o que não ocorre.
Mabel prepara espaguete para todos, buscando ser uma boa anfitriã, e pergunta o nome de cada um, ainda que diversos deles já a conhecessem. A refeição é superficialmente agradável até Nick se irritar com Mabel, causando constrangimento em todos. Ela é calorosa com os convidados e parece não perceber quando está sendo inconveniente. Os amigos de Nick usam um telefonema como desculpa para sair às pressas dali.
O casal Cassavetes e Gena: roteiro escrito por ele para ela
O filme é muito hábil ao nos apresentar a vida cotidiana, o relacionamento de Nick e Mabel e a forma como ela cuida das crianças, criando uma imensa conexão entre os personagens e quem assiste. Mabel organiza um encontro entre seus filhos e outras crianças, mas o pai delas se incomoda com seu comportamento. A sequência em que Mabel dança ao som de "O Lago dos Cisnes" é uma das mais sensíveis do filme. Nela, nota-se a linha tênue entre sua tentativa de se relacionar com as crianças e uma espécie de alienação da realidade. Ela parece habitar um universo próprio e estar alheia ao que ocorre ao seu redor. Isso é resultado da construção harmoniosa de John Cassavetes, que filma em closes, movimentos fluídos de câmera na mão, dando a impressão de que tudo ali é real, e a incrível atuação de Gena Rowlands, que parece se transformar em outra pessoa.
Nick chega em casa com sua mãe, Margaret, e encontra todas as crianças seminuas, correndo descontroladamente, enquanto o pai das outras crianças, Jensen, tenta vesti-las. Nick dá um tapa em Mabel e começa uma briga com Jensen, furioso, mas Margaret os separa, e o homem vai embora com os filhos. Desesperado, Nick liga para o médico de Mabel, Dr. Zepp, para avaliar a saúde mental da esposa. Mabel fica agitada, principalmente com a presença da sogra, que a chama de má esposa e mãe inadequada enquanto Nick tenta acalmá-la. Ela se distancia cada vez mais da realidade e resiste violentamente quando o Dr. Zepp tenta aplicar uma injeção de sedativo. Convencido de que ela se tornou uma ameaça para si mesma e para os outros, o médico determina sua internação involuntária.
Abalado e incapaz de lidar com a ausência da esposa, Nick desconta sua raiva nos colegas de trabalho e leva os filhos à praia, tentando criar com eles um momento de conexão. Aqui estão alguns dos momentos mais marcantes do filme: na ausência de Mabel, Nick demonstra ser incapaz de cuidar das crianças, levando-as a uma praia fria e dando-lhes cerveja para “experimentarem”. Contudo, seu comportamento e sua sanidade não são questionados como os de Mabel.
Seis meses após a internação, Mabel retorna para casa. Nick prepara uma festa de boas-vindas e enche a casa de pessoas, mas logo todos percebem que aquele não é o momento para estarem ali e que a família precisa de privacidade. Toda a recepção de Mabel se torna constrangedora: insegura após o período de internação, ela não sabe como se comportar, enquanto o marido insiste para que todos ajam “normalmente”. Mabel parece estar pisando em ovos, cuidando de cada ação para poder rever os filhos. Todos parecem julgá-la e temem o que pode acontecer, mesmo quando seu pedido é razoável: quer que os convidados saiam para que possa ficar sozinha com a família. Memorável a cena em que Mabel pergunta ao seu pai se ele irá lhe dar suporte, e ele se levanta, como se compreendesse a frase de maneira literal. É como se fosse impossível para os outros entenderem Mabel.
Sozinha com Nick, a crise mental e a tensão aumentam. Mabel tenta se ferir e Nick reage com violência. As crianças procuram protegê-la e reafirmam seu amor pela mãe. Depois da crise, Mabel e Nick cuidam dos filhos, tratam o ferimento dela e arrumam silenciosamente a casa, retomando a rotina familiar.
O final é emblemático e possibilita diversas interpretações. Pode representar uma reconciliação, na qual os dois dão uma trégua aos conflitos, ocultam os vestígios da crise e tentam retornar à rotina. Mabel não está necessariamente recuperada, mas volta a desempenhar os papéis de dona de casa, mãe e esposa, dentro de uma realidade que lhe é imposta. Ao mesmo tempo, ela e Nick arrumam a casa juntos como quem deseja restabelecer a ordem das coisas, porque se amam e querem que tudo dê certo. Minha interpretação reúne um pouco de cada uma dessas possibilidades, mas parte, principalmente, da ideia de que a normalidade também é uma performance: os dois se esforçam para desempenhar os papéis que lhes foram impostos e manter a família funcionando. A influência a que o título se refere manifesta-se justamente nessas expectativas que determinam como Mabel deve agir, sentir e amar. Também aprisionam Nick em sua necessidade de controlar e preservar uma ideia de felicidade familiar.
No período em que começaram a pensar o filme, Cassavetes e Rowlands já viviam havia mais de uma década as pressões da parentalidade. Naquele momento, tinham em casa um adolescente, uma menina em idade escolar e uma criança de apenas dois anos. Permaneceram casados até a morte de Cassavetes, em 1989, totalizando cerca de 35 anos juntos. O filme, portanto, não nasceu no começo de uma paixão ou de uma colaboração recente. Foi feito por um casal que já atravessara quase duas décadas de vida em comum, três filhos, períodos de dificuldades financeiras e várias experiências cinematográficas compartilhadas.
Em determinados períodos do casamento, Cassavetes permaneceu em casa cuidando das crianças enquanto a esposa trabalhava como atriz. Penso que, ainda que tenha sido uma experiência temporária, a percepção da solidão, da repetição e do que significa doar seu tempo e sua vida a alguém também tenha ajudado a construir o roteiro.
Em uma entrevista, Cassavetes definiu a obra como um filme sobre pessoas lutando, vivendo, passando por dificuldades e humilhações. Sua ideia era discutir o quanto é preciso pagar pelo amor: “Eu sabia que o amor criava, ao mesmo tempo, um grande momento de beleza e, por outro lado, tornava você um prisioneiro”.
🎥🎥🎥🎥🎥🎥🎥🎥🎥🎥🎥🎥🎥
trailer de "Uma Mulher sob Influência"
porK E L L Y D E M O C H R I S T
🎥🎥🎥🎥🎥🎥🎥🎥🎥🎥🎥🎥🎥
KELLY DEMO CHRIST é crítica de cinema vinculada à ACCIRS – Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul e Diretora de Comunicação do Clube de Cinema de Porto Alegre. É formada em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atua também nas áreas de fotografia e montagem audiovisual, com experiência em televisão, plataformas educacionais, redes sociais, publicidade e mídias digitais. Publica esporadicamente suas críticas no site Cinema de Porão.
“Wish”, A Prova Final de Quem Não Precisava Provar Mais Nada Pra Ninguém
“...eu amo The Cure.
Não parece porque todo fã do The Cure
se parece com o Robert Smith”
Noel Galagher, do Oasis
Se tem uma coisa que me estressa bastante é ter que esperar. Esperar em fila de mercado, nem se fala. Por isso, costumo sempre andar com meu telefone musical. Sim, aquele cachorro que não vai te abandonar quando você mais precisa. E eu só o uso para isso: ouvir música. Outro dia eu estava no mercado, com meu inseparável amigo telefone. Daí, no decorrer da música, eu entrei no modo máximo do transe, como se tivesse baixado uma entidade sobrenatural em mim. Quando eu voltei do transe, praticamente desorientado, me dei conta de que uma garota que trabalha nesse mercado estava com os olhos fixos em mim, como se quisesse entender o que estava acontecendo. Foram dois flagras: ela comigo, e eu com ela. E é justamente disso que vou falar por aqui: que música eu estava ouvindo? De onde ela veio? Calma! Já vou falar.
Ah! O que falei não é uma “estória”, mas uma “história”, ok? Rolou mesmo! Quem gosta de música sabe que, por mais que uma banda ou artista solo seja grande e longeva(o) ele pertence a um tempo, uma época. A banda The Cure é assim. Pensando em anos 80, não tem como pensar em música pop ou rock sem mencionar essa banda. Sobretudo na Inglaterra. Mas a grande questão é que se trata de uma banda que está em atividade até hoje, ainda bem. Mas, talvez pelo fato do rock ter tido um ponto de inflexão fortíssimo no início dos anos 90 com a chegada do grunge, e tudo o que ele influenciou, esse disco do The Cure seja tão pouco citado quando o assunto é a banda, e muito menos quando o assunto é anos 90. Estou falando do álbum “Wish”. Na minha opinião, um dos melhores álbuns da banda, infelizmente, bastante ofuscado. A banda é muito associada ao Gótico, sobretudo pelo visual do Robert Smith, como brincou Noel Gallagher (“...eu amo The Cure. Não parece porque todo fã do The Cure se parece com o Robert Smith”). Claro que tem razões para isso. A banda lançou uma trilogia consagrada (trilogia sombria: "Seventeen Seconds" (1980), "Faith" (1981) e "Pornography" (1982), fora "Disintegration" (1989) que segue essa linha e é considerado por muita gente o melhor trabalho da banda. Acontece que até aquele momento, o Robert Smith, principal compositor da banda, já havia provado que sua qualidade e capacidade artística era bem mais ampla e diversificada.
Não à toa, o álbum "The Head on The Door" (1985) também é considerado um dos melhores álbuns da banda, com uma diversificação musical bastante evidente. Aí, em 1992, quando a banda já completara 15 anos de vida, “Wish” se apresentou como um trabalho que mostra quais pedras compõem as possíveis imagens do caleidoscópio musical The Cure. Sendo honesto, conheci parte do repertório do álbum pelo “Show”, um ótimo registro ao vivo, gravado áudio, em 1993 (tenho minha fita VHS até hoje, toda esfolada de tanto que eu assisti e emprestei. Trabalho Ótimo!). Tanto que demorei assimilar as algumas desse álbum na versão de estúdio. Mas quando ouvi o trabalho todo, amei o resultado. Uma das coisas que me fascinam nesse álbum é a sua mixagem. Ele tem o som ótimo. Até hoje acho um álbum super agradável de ouvir, sem soar datado ou cacofônico. Outra coisa bacana é que o repertório do álbum que fica muito bom ao vivo também. Mais do que falar do álbum, faixa por faixa, acho importante destacar justamente isso: a banda The Cure tem sua identidade musical. Uma delas é que a banda que teve a sorte de ter um vocalista com uma voz tão marcante, e que continua ótima, apesar do corpo sempre demonstrar algum desgaste ao longo do tempo. A voz do Robert continua viva e juvenil, marca registrada do cantor. Mas ela não é uma banda gótica, não é uma banda post punk, não é uma banda new-wave, não é uma banda alternativa, nem mais o que for. The Cure é uma banda que, como poucas, sabe misturar essas características, e até outras (Jazz, Música Cubana) e ser a banda que é. Nesse sentido, “ Wish” é um trabalho que mostra o que é essencial para entender musicalmente a banda. Uma coisa bacana do disco é a distribuição dos vários estados dentro álbum. É como se fossem “quantas” (pacotes de energia), bem distribuídas ao longo do álbum. Eu diria que esses blocos seriam “Apart”, “Trust”, “A Letter To Elise” e “To Wish Impossible Things”; “Open”, “Cut”, “End” e “Front The Edge Of The Deep Green Sea”; “High”, “Wendy Time”; “Doing The Unstuck” e “Friday I’m Love”, quebrados, claro. Como hoje é bem mais fácil fazer uma playlist, talvez algumas pessoas até prefiram ouvir o álbum assim, por que não? Beleza então, vamos de bloco 2. “Open”, uma canção que parece ter nascida para abrir shows da banda. Na versão ao vivo, ela tem uma introdução linda chamada “Tape” que abre caminho para a versão de estúdio. Apesar de ser uma canção atípica para as características da banda, ela soa com um grito de aviso: Chegamos! Estamos aqui! Somos a cura! Baixo pra cima, marcado, o meio, aquele que conduz a canção, uma das características marcantes da banda. “Cut”; eu simplesmente amo essa canção. Sem gracinha, direta, com andamento rápido e bastante pegada. Simplesmente a cocaína do álbum. Bem, se a cocaína não te bateu bem, que tal um LSD? Sim, pois “Front The Edge Of The Deep Green Sea” é uma viagem de entorpecedora. Como uma areia movediça, ela vai te neutralizando até te tomar completamente. Os segundos finais, com aquelas guitarras prolongando as notas, levando o solo ao ecstasy são arrebatadores. Me arrisco dizer que ela (ou o álbum), de alguma forma, está em “Mellon Collie and the Infinite Sadness” do Smashing Pumpkins. Depois que eu ouço essa canção, fico leve e pronto para outra. Se ela não for um LSD, ela é a maconha cultivada em laboratório, como no file “Beleza Americana”. Bem, falta fechar esse bloco, né?: “End”. Para mim, uma das melhores, das mais tensas e afetadas canções do Cure. É o Cure no modo máximo. Para mim, esse é bloco mais post punk do álbum, e essa canção é uma dos melhores encerramentos de álbum que já ouvi. Convidei para a minha casa alguém nunca ouviu The Cure. Ou talvez tenha ouvido e nem sabe. Bloco 4, a carta na manga. Jogando Sueca, puxei a carta 7: “Doing The Unstuck”. Como eu amo a versão ao vivo (amo de paixão), demorei assimilar a versão de estúdio. Mas, sendo honesto, tirando o andamento, a briga fica pau a pau. Claro que a versão de estúdio é mais bem acabada, evidentemente. Além de ser uma super feliz, é um tapa na nossa cara, pois nos desafia a acreditar na vida, ter esperança, poder de reação e nunca se deixar abater pelas circunstâncias. Parece um dialogo entre o “Lippy” (o leão) e o “hardy” (hiena), no clássico desenho da Hanna-Barbera. Claro que deu leão na cabeça!
E se o jogo ainda não está ganho, coloque o às na mesa. Sim! “Friday I’m Love” é uma canção imbatível. Até meu primo pagodeiro gosta dessa canção. Não pode faltar em nenhuma festa que se preze, e todos que a ouvem costumam se apaixonar perdidamente. Brincadeiras a parte, é uma canção perfeita. Melodia, harmonia, arranjo e canto. Tudo funciona nessa canção. Pensei que o Robert Smith não conseguiria fazer outra canção a altura de “Just Like Heaven”. Ok, Robert Smith. Você ganhou o jogo. Estava com o às na mão o tempo todo.
the cure - "friday i'm in love
Você acordou cedo no feriado, por incrível que pareça. Você não está tão feliz, pois sabe que vai ter que voltar a rotina no dia seguinte, mas também não está triste já que está em casa. O bloco 3 está na mesa. Feliz por poder mastigar o seu sanduíche sem ter a sensação de estar atrasada(o), “High” te deixa super bem, relaxada(o) e feliz ao ponto de você deixar algum pedaço de sanduíche para o cachorro, por mais delicioso que ele esteja. Depois rola “Wendy Time”. Fofa até o osso, ela pode te deixar com uma sensação tão boa que é capaz de você deixar de sentar no sofá e pensar na vida, só para cumprir a promessa de levar seu cachorrinho para passear durante o dia, sem ser final de semana ou domingo. Mas, claro, deixei a parte triste para o final. Tem alguma coisa de alegre em estar numa fila de mercado em pleno domingo? Então, se é para sofrer, bora sofrer com dignidade. Uma das características mais aclamadas pelos fãs e críticos.
Cadê o bloco 1? Bora de melancolia e tristeza. “Trust”. Só existe uma combinação perfeita para essa canção: o silêncio. Imersiva, hipnótica. Ela é super ‘Desintegration” e simplesmente apaixonante. Saindo dela, a coisa fica ainda mais barra pesada. “Trust” é tristíssima. Daquelas canções que nem é bom ouvir quando se está com uma sensação de ausência ou perda de alguém. É uma das canções em que o Robert Smith dá uma aula sobre como comover usando uma canção. E para finalizar, “A Letter To Elise”. Não tão triste como as outras desse bloco, mas igualmente down, porém como uma pitada de doçura como se uma cicatriz ainda doesse mas estivesse no caminho de ser curada. Ela me liberta de qualquer lugar insuportável, inclusive uma fila de mercado. Esse é o bloco mais “Disintegration”. Certamente com canções amadas pelos fãs. Bem, talvez olhando por essa perspectiva dê para ficar mais claro as características desse trabalho que, na minha opinião, é um dos melhores trabalhos da banda. Certamente está no meu Top 5, sem sombra de dúvidas. Se eu tivesse que apresentar a banda The Cure para alguém, bateria um bom papo com a pessoa, e pediria para ela ouvir esse trabalho com atenção, pois ele é bem gravado, o que ajuda a assimilar melhor as canções, e porque é um mapa para entender as características mais marcantes e fantásticas da banda: doçura, melancolia, tristeza e alegria (e um pouco mais, claro). The Cure tem todos esses anticorpos para te curar de qualquer mal sintoma. É uma vacina em forma de boa música. The Cure!
A Terra do Sol Nascente. Lugar fascinante de paisagens naturais incríveis que chegam a parecer cenários e arquitetura impressionante seja pela imponência da modernidade, seja pela beleza da tradição.
Kaká Reis, a irmã dos blogueiros aqui, Cly e Daniel, esteve no Japão com sua companheira Joana Lessa, e divide conosco um pouco dessa experiência incrível para esseArquivo de ViagemEspecial de 18 anos do ClyBlog.
Com vocês algumas imagens de Tokyo, Takayama, Shirakawa-Go, Kanazawa e Kyoto.
✈ ✈ ✈ ✈ ✈ ✈ ✈ ✈ ✈ ✈ ✈ ✈ ✈ ✈ ✈ ✈ ✈ ✈ ✈
fotosKaká Reis
e Joana Lessa
✈ ✈ ✈ ✈ ✈ ✈ ✈ ✈ ✈ ✈ ✈ ✈ ✈
Kaká Reis, gaúcha de nascimento mas carioca por adoção e coração,
é apaixonada por música e movida pela arte.
Acredita que a ARTE movimenta e merece RESPEITO! Atua em gerenciamento artístico, desenvolvimento de projetos
e na potencialização de sons e talentos da música independente brasileira, trabalhando há mais de 15 anos no mercado de shows e eventos,
conectando pessoas, ideias e experiências através da cultura.