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quinta-feira, 12 de março de 2026

Clyblood #8 - "Pecadores", de Ryan Coogler (2025)


INDICADO A:
MELHOR FILME
DIREÇÃO
ATOR
ATRIZ COADJUVANTE
ATOR COADJUVANTE
ROTEIRO ORIGINAL
SELEÇÃO DE ELENCO
DIREÇÃO DE ARTE
FOTOGRAFIA
FIGURINO
MONTAGEM
MAQUIAGEM E CABELO
SOM
EFEITOS VISUAIS
TRILHA SONORA ORIGINAL
CANÇÃO ORIGINAL


O blues é a música do Diabo
por Cly Reis

As impressões que me passavam a respeito de "Pecadores" na época do lançamento eram simplistas, genéricas e um tanto depreciativas. Havia uma opinião corrente que se tratava de nada mais que um novo "Um Drink no Inferno" em outro contexto. Aí que fui para ele com a expectativa de assistir a mais um filme de vampiros qualquer sem maiores qualidades. Foi até bom esperá-lo desta maneira pois aos poucos foi, cada vez mais, revelando valor, qualidades, mostrando que, absolutamente, não se resumia a uma aventura banal, um terror barato com tema batido, uma imitação oportunista.

"Pecadores" é um filme sobre a identidade do negro, a alma do negro e a tentativa de intimidar suas manifestações e, não sendo possível isso, roubá-la.

No longa, dois gêmeos retornam à sua cidade depois de muito tempo, com a intenção de abrir uma casa de blues só para negros. Na noite de abertura, um pequeno grupo de brancos aparece no local e insistem em serem convidados a entrar na festa. Os três misteriosos brancos virão a se revelar, na verdade, vampiros que, não conseguindo entrar, tentam então contaminar outros negros de modo a atingir os demais lá dentro.

Uma metáfora sobre a apropriação da cultura negra, da interferência, da vigilância sobre os hábitos e tradições dos afrodescendentes na América. Algo como, "Se não pudermos fazer parte, tomamos para nós e ainda destruímos a imagem de vocês".

Muito mais do que apenas um filme de vampiro, muito mais do que meramente um filme sobre blues, "Pecadores" se utiliza da linguagem do horror para expor o verdadeiro terror de uma realidade de perseguições, violência, covardia e humilhação, mas muito hábil funde essa treva, esse mal, à beleza do blues, à riqueza da cultura negra criando uma obra única na filmografia recente do cinema.
A cena da festa, em que o jovem bluesman toca e evoca toda a cultura negra, ancestral e futura, para o salão é algo mágico e absolutamente emocionante. De arrepiar!!!

Grandes atuações, especialmente de Michael B. Jordan (que eu nem gosto muito) fazendo os gêmeos protagonistas, grande trilha sonora, ótima maquiagem, direção competentíssima! "Pecadores" justifica seu grande número de indicações ao Oscar pelo grande número de virtudes que tem em diversos âmbitos. Se vai ganhar em muitas é outra história, mas as nomeações por si só valorizam suas qualidades.

"Pecadores" é terror, é musica, é drama. É sangue, é pele, é ritmo. É vermelho, é negro, é blue! E se o blues é a música do diabo, como muitas lendas falam a respeito de pactos, maldições, almas perdidas, nada mais apropriado que essa tenha sido o tema dessa obra que já nasce como um novo clássico do terror, do cinema de vampiros e do cinema negro. Deixem tocar o blues!

O blues invocando espíritos do passado e do futuro.




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Sangue sem pecado
por Daniel Rodrigues


Ryan Coogler
, assim como outros cineastas negros norte-americanos da nova geração, como Steve McQueenJordan PeeleKasi Lemmons e Anthony Fuqua, são comprometidos com a causa negra. Todos sabem que, diante do nível que alcançaram dentro na indústria cinematográfica depois de décadas de apagamento da voz negra, não podem perder oportunidades de dizerem aquilo que ficou por tanto tempo silenciado. Em “Pecadores”, filme premiado de Coogler recordista em indicações ao Oscar na história, com 16 - batendo  "A Malvada" (1950), "Titanic' (1997) e "La La Land" (2016), todos com 14 -, essa máxima prevalece. E de uma forma bem original.

Com figurinos, atuações, direção de arte e, principalmente, uma trilha sonora acachapante, “Pecadores” traz a história dos irmãos gêmeos Smoke e Stack (ambos interpretados por Michael B. Jordan), que voltam à sua cidade natal com o objetivo de reconstruir a vida e apagar um passado conturbado. Endinheirados, eles querem montar um juke joint, casa noturna com música ao vivo para a comunidade negra. Porém, uma força maligna passa a persegui-los e busca tomar conta da cidade e de todos os cidadãos, obrigando-os a lutar para sobreviver e a lidar com lendas e mitos ameaçadores à suas existências. É a luta dos vampiros brancos contra os mocinhos pretos.

Celebrado por gente como Spike LeeChristopher Nolan e Tom Cruise, Coogler não só realiza um filme diferenciado como exercita sua já provada versatilidade, uma vez que é diretor de dois blockbusters dos tempos atuais, o revolucionário MCU “Pantera Negra” e a exitosa franquia “Creed”, spin-off de “Rocky”, dois projetos totalmente distintos, mas ambos construídos com muita habilidade por ele. Ao colocar a questão do preconceito racial no cerne de um thriller de terror, o cineasta reafirma o inteligente caminho aberto por Peele em “Corra!” e “Nós”, marcos do que se pode chamar de neo black horror, porém adicionando uma problemática há muito aventada, mas pouco discutida: a apropriação cultural.

O caminho é o que se conhece: a sociedade brancocêntrica primeiro nega a existência do negro, relegando-o ao “não-ser”, apaga sua história, descredibiliza sua produção intelectual e o oprime moral, material e fisicamente para, feito isso, roubar-lhe suas riquezas. Uma delas, e talvez a de maior evidência nesse histórico roubo simbólico, é a música. Em “Pecadores”, essa questão é o centro da disputa: por inveja dos caipiras brancos dessa cultura preta verdadeira e elevada, eles tornam-se vampiros. De sangue, literalmente, o mesmo que mentem ser desprovido de nobreza, mas que tanto se mordem (opa, no pescoço?!) por não tê-los correndo em suas veias.

Sangue não à toa tão valorizado. Uma das cenas de “Pecadores”, que vale o filme, mostra o personagem Sammie "Preacher Boy" Moore (Miles Caton) cantando e tocando um blues no bar e fazendo emergir do além diversas almas negras em camadas simbólicas e tempos que se misturam. Dos primórdios do blues, nascido das mentes e corações amargurados dos escravos, até os rappers da atualidade, passando pelo rock, o soul, o funk, o gospel e toda contribuição do negro dos Estados Unidos para a cultura pop. Simplesmente genial.

Antológica cena de "Pecadores" em que a magia da música negra faz o tempo se diluir

As resoluções para a trama sobrenatural que o filme vai ganhando, principalmente a partir de sua segunda metade, são boas, mas não empolgantes. O stinger, a cena pós-créditos, este sim (sem dar spoiler) é surpreendente, mas não suficiente para elevar um filme a uma classificação maior do que “bom”. Já Michael B. Jordan é um capítulo à parte. Ele passou a ser mais valorizado enquanto indicado como Melhor Ator ao Oscar depois do triste e revoltante episódio de racismo em plena cerimônia do Bafta, na Inglaterra, em fevereiro - onde, aliás, levou o prêmio. Embora agora com mais atenções para si, o astro não está tão bem quanto nos dois outros filmes que fez com Coogler, exatamente “Pantera...” e “Creed” – este último, no qual é protagonista. Agora, ele concorre com Wagner Moura e Timothée Chalamet, os dois fortes candidatos entre os indicados, mas pode ser que surja como uma terceira via por conta de um falso moralismo da Academia. Não será mal dado, mas menos justo e, se acontecer como prêmio de consolação por causa desse mal-estar, hipócrita.

Independentemente de qualquer coisa, Coogler faz história e, mais uma vez, acerta em sustentar o discurso antirracista ao qual é um importante porta-voz na indústria cultural. Ele sabe disso e mantém-se fiel ao compromisso de evidenciar as barbaridades promovidas pelo racismo na sociedade, mas também toda a riqueza da cultura afro-americana em suas infinitas frentes. Neste sentido, “Pecadores” cumpre muito bem sua proposição. Sem cometer nenhum pecado.

trailer de "Pecadores"





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"Pecadores" 
título original: "Sinners"
direção: Ryan Coogler
elenco: Michael B. Jordan, Delroy Lindo, Hailee Steinfeld
gênero: terror, ação, musical
duração: 138 min.
país: Estados Unidos
ano: 2025
onde assistir: HBO Max e Prime Video (pago)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Leadbelly - "Easy Rider" (2018) - gravações entre 1939 e 1947

 



"Essa música foi escrita
 pelo meu artista favorito."
Kurt Cobain antes de cantar
"Where Did You Sleep Last Night?", 
no MTV Unplugged in New York



Conheci Leadbelly no Acústico do Nirvana. Lembro que meu irmão Daniel, o parceiro deste blog, que ouvira antes, me antecipou, "tu vai adorar a última música". A última, o encerramento daquele célebre especial da MTV, era nada menos que "Where Did You Sleep Last Night?", uma canção dolorida de amor e de ciúme, que depois vim a saber que era de um bluezeiro das antigas que eu até então, nunca tinha ouvido falar.
Hoje em dia sou fã de blues, colecionador, mas mesmo assim demorei pra ter algo do cantor. Depois de conseguir, muito barato, numa feira de praça, um exemplar da coleção Mestres do Blues, que me deu a iniciação à obra do bluesman, em busca de uma que tivesse o clássico imortalizado na voz sofrida de Kurt Cobain, adquiri também a excelente compilação "Easy Rider".
Existem muitas coletâneas de Leadbelly mas essa tem algo de especial: tem, possivelmente, as três melhores canções desse excepcional artista, combinação que curiosamente, não é muito comum nas edições que reúnem seus grandes trabalhos. A tradicional "Midnight Special" interpretada por inúmeros outros artistas do blues mas que na voz de Leadbelly ganha uma aura quase canônica, uma atmosfera de oração; a eletrizante "The Gallis Pole", e, é claro, "Where Did You Sleep Last Night?".
É claro que a qualidade e os destaques da obra de Leadbelly não se resumem a essa trinca. "Roberta", de interpretação inimitável; o clássico também já ouvido em diversas vozes "Rock Island Line"; a genial "Black Betty" marcada na palma da mão; a ótima "John Hardy" intensa e elétrica, e "Easy Rider" que dá nome à coletânea, são algumas das outras que merecem especial menção.
Ouvindo bem Leadbelly a gente percebe que não à toa Kurt Cobin gostava tanto do cantor e fez de uma música dele seu último canto. Leadbelly é muito rock'n roll e hoje eu vejo que, de um modo geral, não só pelo réquiem televisionado pela MTV, o Nirvana tinha muito de Leadbelly, Difícil é decidir qual a melhor versão de "Where Did You Sleep Last Night?".

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FAIXAS:
1. Easy Rider
2. Midnight Special
3. John Hardy
4. Pretty Flowers In My Back Yard
5. The Gallis Pole
6. The Boll Weevil
7. Leaving Blues
8. Where Did You Sleep Last Night?
9. Black Betty
10. C.C. Rider
11. In New Orleans (House Of The Rising Sun)
12. Fannin Street
13. Roberta
14. Whoa Back, Buk
15. Rock Island Line
16. Goodnight Irene

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Ouça Leadbelly:
Lead Belly - The Authorized Leadbelly Collection



Cly Reis

sábado, 13 de julho de 2024

"As Raízes do Rock", de Florent Mazzoleni - Companhia Editora Nacional (2012)


 


Nesse Dia do Rock, aproveitamos pra destacar aqui um livro bem bacana que conta como esse velho senhor chamado rock'n roll surgiu, focando especificamente nos primórdios do gênero, lá no início da coisa quando sequer tinha esse nome e agregava diversos ritmos para formar sua identidade.

"As Raízes do Rock", do jornalista e fotógrafo francês Florent Mazzoleni repassa as etapas de formação do rock, indo lá no blues raiz dos anos 20 e 30, nos cantores gospel das igrejas, nos primeiros grupos vocais, na aproximação com o jazz, na eletrificação daquele ritmo incipiente, na incorporação de elementos country, na explosão dos grandes nomes, chegando até o início dos anos 60, quando o autor considera que se encerra o primeiro grande ciclo do rock'n roll, que a partir dali daria espaço para outras variações que o próprio gênero possibilitava.

O grande barato do livro na minha opinião é a grande ênfase e reconhecimento da importância dos artistas negros no processo de construção do rock. Mazzoleni não esquece Eddie Cochram, Buddy Holly, Gene VincentHank Williams e, é claro, Elvis, mas destaca com veemência o valor fundamental de um Floyd Smith, um Chubby Checker, de Fats Domino, Sister Rosetta Tharpe, tida por muitos como uma das criadoras do estilo, e Ike Turner com sua "Rocket 88", considerada uma das músicas definidoras do rock'n roll.

Ele anda meio doente, meio capenga, muitos dos grandes nomes que o fizeram chegar até aqui estão indo embora, mas nós amamos esse cara chamado rock'n roll e mesmo que o grande público praticamente o ignore ou não o compreenda bem com sua missão revolucionária e contestadora, ele viverá eternamente para aqueles que o tem nas nas veias, no coração. Hoje e sempre, viva o rock'n roll!

Aqui, alguns detalhes do interior do livro.
Pesquisa séria e dedicada do autor.



por Cly Reis



quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

Lonnie Johnson - "Me and My Crazy Self" (1991) *gravações de 1947 a 1953

 




"Tive a sorte de conhecer Lonnie Johnson 
no mesmo clube em que trabalhava 
e devo dizer que ele me influenciou muito. 
Eu costumava observá-lo sempre que podia 
e às vezes ele me deixava tocar com ele. 
Acho que seu estilo de tocar guitarra é o meu favorito."
Bob Dylan


Adoro o blues de Lonnie Johnson!

Acho uma das guitarras mais elegantes do blues. Ela tem uma pegada jazz, também soa meio havaiana às vezes e, de certa forma, já prenuncia um pouco a sonoridade das guitarras da surf music. E tem aquela voz... Ah,  uma voz suave mas empostada, sabe? Intensidade com delicadeza. Isso tudo sem falar no pioneirismo do músico que, nos anos '20, já inovava sendo o primeiro a utilizar um violino amplificado eletricamente.

O bluesman da Louisiana teve altos e baixos na carreira: foi reverenciado, logo depois esquecido, tentou outros rumos, fez escolhas infelizes, chegou a abandonar a carreira, foi redescoberto por um DJ nos anos 60, voltou a brilhar brevemente, voltou a afundar, nunca teve o sucesso merecido, mas no fim das contas, hoje, o que persiste é sua importância como um dos nomes mais influentes do blues.

Seus primeiros álbuns, efetivamente gravados, datam do final dos anos 50, mas a coletânea, lançada nos anos '90, "Me and My Crazy Self", recupera coisas lá de seus primórdios musicais. 

Destaques para "What a Real Woman", a doce "Old Fashioned Love", cara de filme gostoso de comédia romântica, a instrumental "Playing Around", quase uma jam com cada músico detonando no seu instrumento, a charmosíssima "It was all in vain", e a faixa que dá título à coletânea, "Me and My Crazy Self", com sua guitarra requintada, o vocal aveludado de Johnson e uma retaguarda de sax de tirar o fôlego.

Mais um mestre do blues que entra para a seleta galeria dos nossos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS.


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FAIXAS:
1. It Was All In Vain
2. Nothing But Trouble
3. Me And My Crazy Self
4. What A Woman
5. Falling Rain Blues
6. Playing Around
7. It's Too Late Too Cry
8. Seven Long Days
9. Why Should I Cry
10. Friendless Blues
11. Happy New Year Darling
12. Old Fashioned Love
13. My My Baby
14. What A Real Woman

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Ouça:

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

"Robert Johnson - Pacto de Amor à Música", de J.M. Dupont e Mezzo - ed. Darkside / selo Macabra (2022)

 



"Se você é alucinado por blues,
vai adorar este livro.
Mas não é necessário amar o estilo
para apreciar este retrato do bluesman
mais famoso de todos os tempos.
Verdadeira obra-prima,
tanto pela qualidade das ilustrações
quanto pela narrativa,
esta história é mais do que 
uma simples graphic-novel
graças à poética de seu texto e 
à grandeza de seus quadros,
que são, por si só, verdadeiras obras de arte."
Lawrence Cohen, produtor musical do álbum


Algumas biografias, às vezes, podem ser melhores nos quadrinhos do que escritas. Embora tenha assistido a alguns documentários, nunca li, efetivamente, nenhuma biografia de Robert Johnson, mas o que posso afirmar é que a graphic-novel "Robert Johnson - Pacto de Amor à Música", cumpre muito bem seu papel em contar a trajetória do nome, possivelmente, mais importante da história do blues e, certamente, um dos mais importantes da história da música em todos os tempos. 

Nome sempre cercado por lendas, polêmicas e histórias mal contadas, Robert Johnson figura que mudou a forma de fazer, de tocar o blues e influenciou diversos nomes de expressão como Bob DylanRolling Stones, Led Zeppelin, Eric Clapton e outros, teve uma vida conturbada desde a infância, como era comum aos negros norte-americanos sulistas no pós-escravidão. Dotado, na juventude, de um "misterioso" talento, conquistou respeito e até uma certa inveja dentro do meio musical, ao mesmo tempo que causava a ira de produtores musicais por sua irresponsabilidade e tendência à bebida, e provocava o ódio de maridos por conta de sua reputação de mulherengo. Mas é claro, que o principal elemento que envolve o nome de Johnson é o suposto pacto com o Diabo, que teria proporcionado a ele todo aquele absurdo talento. 

Arte que remete ao impressionismo de Van Gogh
com a tradição dos negros sulistas das garrafas nas árvores
 para capturar os maus espíritos

O livro roteirizado pelo jornalista e escritor J.M. Dupont e pelo quadrinista Mezzo, como não podia deixar de ser, explora a lenda na própria narrativa, proporcionado uma condução interessante e constantemente instigante. Com as devidas liberdades artísticas e criativas diante da falta de informações precisas, com uma arte robusta e com um traço marcante, os autores nos entregam uma biografia gráfica convincente ao mesmo tempo poética e documental.

Mais uma biografia em quadrinhos que não fica devendo nada a outras em outros formatos e que comprova, mais uma vez, o valor das HQ's. Documento indispensável para amantes da música, aficcionados pelo blues, fãs de Robert Johnson e, até mesmo... adoradores do Diabo.

Arte maravilhosa de Mezzo!
O blues embalando a loucura durante a grande depressão norte-americana dos anos '30



por Cly Reis


quinta-feira, 15 de junho de 2023

"O Som dos Negros no Brasil - Cantos, Danças, Folguedos: Origens", de José Ramos Tinhorão - ed. 34 (2008)

 



Estudo sobre as origens e influências dos ritmos de origem africana no Brasil

"Tendo caminhado naquele dia até quase as quatro da tarde,
ouvi perto da estrada, por onde se descia a um vale,
a música pastoril dos pretos, que parecia
se estavam suavizando do jugo do trabalho."
Nuno Marques Pereira, peregrino português,
em relato do final do séc. XVII


"A música tem, em elevado grau,
a faculdade de espairecer o espírito dos negros e,
naturalmente que ninguém lhes pretendia negar o direito
de suavizar sua dura sorte caras quão
desagradáveis aos ouvidos dos outros.
Consta que certa vez se pretendeu proibir que os negros cantassem
[enquanto trabalhavam] para não perturbar o sossego público.
Diminuiu, porém, de tal forma a sua capacidade de trabalho
que a medida logo foi suspensa."
Reverendo Kidder, missionário metodista, 
em relato de 1837


Numa dessas, conversando com minha mãe sobre blues, sobre meu gosto pelo gênero, o efeito que aquele ritmo produz em mim, comentei com ela sobre sua origem, um canto oprimido, simulado, trabalhando, na escravidão, nos campos de algodão do sul dos Estados Unidos. Foi então que ocorreu a ela me apresentar o livro "O Som dos Negros no Brasil", no qual se dava uma situação  semelhante, de escravos negros cantando mesmo durante a mais pesada e forçada labuta. Efetivamente, o livro do jornalista e pesquisador José Ramos Tinhorão dedica uma parte de seu estudo a esse curioso pormenor, contudo, em absoluto, se limita a isso. É um abrangente e muito bem documentado estudo que retorna desde antes da própria colonização em terras brasileiras, já relatando os hábitos e manifestações dos cativos africanos em seu próprio território, em terras portuguesas e, capturados, já submetidos, a bordo das embarcações dos exploradores.

Tinhorão examina a fundo cada passo da manifestação musical dos negros escravizados no Brasil, desde as senzalas, as manifestações religiosas de seus deuses e entidades, as limitações, as proibições, as pequenas concessões dos brancos, avançando para uma tímida 'entrada' na Casa-Grande, a uma gradual aceitação da sociedade, e chegando a apropriação por parte do branco, dos sons dos negros, originais de rituais e folguedos, adaptados a ritmos menos 'selvagens'. Cada detalhe é comprovado por cartas, anúncios de vendas de escravos, matérias jornalísticas da época, documentos oficiais, relatos de viajantes e pesquisadores, e documentos oficiais, não deixando margem de dúvida quanto a datas, locais ou envolvidos em determinado episódio que marque o desenvolvimento dos ritmos negros no nosso país.

À parte as curiosidades, a maneira inferior como eram tratados os hábitos musicais africanos, o desprezo e a resistência da sociedade em relação à introdução desses ritmos na cultura 'civilizada', me chamou atenção, particularmente, a dimensão da influência que esses sons, que essa cultura negra teve na própria música portuguesa, em especial no fado. Dada a leveza e a melancolia do gênero musical tipicamente lusitano, nunca imaginaria ter sofrido tamanha influência da umbigada e do lundu dos negros, afro-brasileiros ("A julgar pela descrição das danças do lundu e do fado feitas por viajantes (...) os pontos coincidentes entre as duas danças são tantos que quase se poderia no fado como um segundo nome para o mesmo lundu.").

Enfim, uma bela recomendação de leitura. Muito melhor do que imaginava. Estudo, pesquisa, trabalho documental, mas nada maçante. Muito pelo contrário! Leitura extremamente prazerosa e estimulante.


Cly Reis 

domingo, 18 de setembro de 2022

AC/DCover e Blues Etílicos - Expo Rio Cervejeiro - Praça Paris - Rio de Janeiro /RJ (17/09/22)



Nem a lama, da chuva do dia anterior, atrapalhou
os fãs de rock e amantes da cerveja.
Estive, ontem, na Expo Rio Cervejeiro, festival de expositores, cervejaria, gastronomia e cultura, realizado na Praça Paris, no Rio de Janeiro, onde tive o prazer de assistir a dois ótimos shows: da AC/DCover, grupo de músicos-fãs, obviamente, inspirados nos australianos da AC/DC, que não decepcionam na homenagem e na interpretação, satisfazendo o público com uma falsa, mas agradável sensação, de quase aquilo é quase tão bom quanto o original. Muita energia, músicos competentes, entrosados, bem ensaiados, lição de casa bem feita e um Angus (Flávio) Young que sola, rola no chão, faz o passinho característico e ainda paga um strip-tease exibindo uma cueca com o logo da banda (Impagável!). Baita show! Muito valeu! Destaque para"Thunderstuck", em que puxaram o coro naquele clássico "Thunder!!!", e "Highway to Hell", cantado junto pela galera no refrão.


AC/DCover - "Back in Black"


O outro foi da excelente Bles Etílicos, meio desfalcada, é verdade, do vocalista Greg Wilson , com problemas de saúde, do baterista titular, licenciado em ano sabático na Europa, mas não menos competente e impressionante pelas ausências. Aquele blues cheio de tradição norte-americana mas com um pé nas raízes do Brasil e, é claro, sempre muito inspirada no álcool, nos drinks e nos "birinaites", com duas grandes odes à cerveja, a grande homenageada do evento, uma, parceria da banda com Fauto Fawcett, é outra, com o saudoso Celso Blues Boy.
Enfim, rock roll, blues e cerveja... O que é que alguém pode querer mais?
Noite de sábado perfeita.
Fique, aí, com algumas imagens do evento:


O AC/DCover no palco


O cover de Angus Young foi um show à parte.

Aqui, a Blues Etílicos quebrando tudo no blues.


O lendário Flávio Guimarães mandando ver na harmônica





Cly Reis

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Stephen Stills - "Stephen Stills" (1970)

Como fazer um disco clássico em 10 lições


“Sou uma das pessoas mais preguiçosas que conheço, mas quando eu pego fogo, fico obsessivo.”
Stephen Stills

Quem acessa as páginas do livro “1001 Discos para Ouvir Antes de Morrer” talvez nem se aperceba de um dado interessante: há mais álbuns do combo Crosby-Stills-Nash-Young do que dos Beatles. Enquanto os ingleses somam 12 discos seja da banda quanto dos trabalhos solo de seus ilustres integrantes, os americanos mandam ver em nada menos que 16 registros considerando-se os dos quatro juntos, em trio, em duo, seus respectivos solo, um da Buffalo Springfield e os três da The Byrds com David Crosby na formação. Mais do que curiosa, essa comparação diz muito principalmente quando se refere ao rock do início dos 70. Enquanto os Beatles separavam-se e dispersavam suas produções, a turma da Costa Oeste mantinha-se firme e forte. E unida. Somente nos primeiros três anos daquela década, são 6 memoráveis discos em que todos se visitam, entre estes o primeiro solo de Stephen Stills

Acontece que, mesmo sendo um ativo integrante da Buffalo e autor do maior hit da banda, a clássica "For What It's Worth", de 1966, que colocara a banda no rol das vendedoras de 1 milhão de cópias, pairava uma inexplicável desconfiança sobre a verdadeira capacidade de Stills. Claramente, o jovem cantor e compositor texano, de apenas 25 anos à época, talvez pela personalidade mais acanhada ou preguiçosa, não gozava da mesma idolatria que seus companheiros, principalmente em relação a Crosby, já considerado uma lenda do rock, e, claro, ao carismático e talentoso Neil Young, consagrado em carreira solo havia dois anos. 

Se não lhe faltava igual talento, então, o que precisava? Vencer a própria indolência e agir. Stills disse a si mesmo: "Querem que eu prove que sei fazer sozinho? Então, vou ser bem didático". Munido de todo seu amplo conhecimento musical, Stills compõe, então, um disco como quem prepara uma aula. São 10 lições... quer dizer: 10 canções, que percorrem o rock em todas as suas vertentes originárias faixa a faixa e de maneira não apenas pedagógica como, principalmente, com rara inspiração. Casando ousadia e melancolia, o doutrinamento começa com “Love the One You're With”, sucesso do disco. Rock com levada latina, seu marcante refrão, a voz rasgada de Stills e os acachapantes coros são de tirar o fôlego. Até os reconhecíveis melismas “tchu ru ru”, ouvido em temas como a suíte “Judy Blue Eyes", da Crosby, Stills & Nash, de um ano antes, estão presentes. Aliás, os colegas estão reunidos fazendo-lhe o coral juntamente com John Sebastian, Priscilla Jones e Rita Coolidge, praticando a mensagem central da canção: “Ame quem está com você”. Com esse cartão de visitas impactante, é como se Stills entrasse pela porta da classe e dissesse à turma: “cheguei!”

Agora que os alunos estão estaqueados nas carteiras, é hora de vir com a segunda lição: “como compor um rock melódico”. A resposta é "Do for the Others", em que o próprio autor faz praticamente tudo sozinho: toca baixo, guitarra, percussão e, claro, canta. Aliás, canta lindamente. Ouvindo-a, fica muito claro de onde vem parte das harmonias da Buffalo e da CSN&Y - e também de onde Ben Harper tirou a melodia de "Diamonds on the Inside". Parte do ensinamento é o de saber variar e aproveitar suas próprias capacidades compositivas. Por isso, a próxima, o rhythm and blues gospel "Church (Part of Someone)", seja talvez ainda tão mais impressionante e marcante. Esplendorosa, pode-se dizer, com direito ao vozeirão de Stills a la Joe Cocker e um coro simplesmente arrebatador.

Tema de casa nº 4: “se forem tentar fazer um hard rock psicodélico em plena fase áurea de Led Zeppelin, Steppenwolf, The Who e Queen, façam-no por completo”. Com a companhia de Calvin "Fuzzy" Samuels no baixo, Jeff Whittaker na percussão e Conrad Isidore na bateria, Stills ataca o Hammond e o microfone e deixa a guitarra para ninguém menos que o maior de todos do instrumento: o amigo Jimi Hendrix, em uma de suas últimas gravações antes de morrer prematuramente um mês depois de “Stephen Stills” ser lançado e a quem, por isso, o disco é dedicado. É visível a proeminência de Hendrix ao lançar suas frases de guitarra, sendo que a música o ajuda muito a desenvolver sua técnica insuperável: embalada, de refrão pegajoso, performances empolgadas e arranjo na medida.

Momento importante da aula, quando o professor Stills excede o ensinamento da disciplina em si e contribui filosoficamente com seus aprendizes: “se você já foi ao Céu, então, não perca a oportunidade de estar com Deus”. Stills faz exatamente isso. Se na faixa anterior ele conta com as palhetadas do gênio da guitarra, em "Go Back Home" é o Deus do instrumento, Eric Clapton, que é convocado. Comandando os pedais de distorção, o autor de “Layla” escreve um blues eletrificado abençoado pelos anjos. Um show nas nuvens.

É a vez de aliviar novamente o andamento e trazer o delicioso pop-rock "Sit Yourself Down", em que conta mais uma vez com um poderoso coro dos amigos, agora ainda ajudados por Cass Elliot e Claudia Lanier. Mais uma melodiosa, a balada triste “To a Flame”, além de emocionar, tem a primeira aparição de orquestra, claro, estrategicamente reservada para surpreender os ouvintes no sétimo número, já se encaminhando para o final do disco. Com arranjo e condução do maestro Arif Mardin, as cordas e metais entram na segunda metade da faixa e acompanham o piano e a voz agora suave e afinadíssima de Stills. Que perfeição!

O conteúdo até aqui teve R&B, hard-rock, blues, gospel, balada, country e tudo mais, certo? Pois Stills guarda ainda três joias diferentes entre si para completar seu compêndio musical. O músico traz, agora, a acústica “Black Queen”, limite entre o folk e o blues: ao estilo Muddy Waters em "Folk Singer", conta com violão de corda de aço e voz. Aliás, o vozeirão rouco e inebriado de Stills! Com esta nova batelada de conhecimento, Stills encaminha-se para o encerramento de seu tutorial.  "Cherokee", a nona preleção, é o intermeio entre tudo o que veio antes e o aguardado final. O que não significa que o mestre desperdice esse momento. Aliás, faz num rock soul com rico arranjo de metais e madeiras e outra participação ilustre, a do multi-instrumentista Booker T, líder da Booker T & The MG's, esmerilhando no órgão.

Ufa! Quanta variedade! Mas ao mesmo tempo, quanta coesão do disco até aqui. Porém, antes da sirene tocar, Stills guarda o melhor para a última página do polígrafo. Com versos de esperança a uma América livre e afetiva (“Todos são estranhos, todos são amigos/ Todos são irmãos”), "We Are Not Helpless" é o gran finale que qualquer disco de rock gostaria de ter – e que poucos, muito poucos conseguem. Balada rascante e melodiosa, que resume todas as vertentes trazidas anteriormente, com a voz possante de Stills sobrando em intensidade. A música, no entanto, vai além disso. Se o começo remonta à melancolia do folk-rock de origem, a melodia avança para um crescente emocional, principalmente quando voltam, triunfantes, as cordas, os metais e o coral. Mas ainda tem mais! Para arrebentar o coração de quem acompanhou o álbum até então, "We...” transforma-se, como “You Can't Always Get What You Want” dos Rolling Stones, de um ano antes, num rock gospel embalado. O final, apoteótico, junta tudo: banda, voz, cordas e o órgão, o qual tem a primazia de pronunciar o último acorde. Como disse o policial Malone a Elliot Ness em “Os Intocáveis”: “aqui termina a lição”.

Mais do que um apanhado de temas que exercitam o arsenal estilístico da música pop dos anos 60/70, o álbum de estreia de Stills é uma aula também de como fazer um grande disco, com ritmo narrativo envolvente e, principalmente, construído com músicas de qualidade inquestionável. Depois de “Stephen Stills”, nunca mais ninguém se meteu a besta em colocar a capacidade do músico à prova. Como um professor que avalia uma prova, ele foi passando a régua nas desconfianças uma a uma e cravando pontuação máxima em todas. A recompensa, por fim, não poderia ser outra: nota 10 pra ele.

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FAIXAS:
1. "Love the One You're With" - 3:04
2. "Do for the Others" - 2:52
3. "Church (Part of Someone)" - 4:05
4. "Old Times Good Times" - 3:39
5. "Go Back Home" - 5:54
6. "Sit Yourself Down" - 3:05
7. "To a Flame" - 3:08
8. "Black Queen" - 5:26
9. "Cherokee" - 3:23
10. "We Are Not Helpless" - 4:20
Todas as composições de autoria de Stephen Stills

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OUÇA O DISCO:
Stephen Stills - "Stephen Stills"

Daniel Rodrigues

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Bob Dylan - "Blood on the Tracks" (1975)

Dylan, o salvador

 

"Como se estivesse escrito em minha alma de mim para você." 
Verso da letra de "Tangled Up in Blue"


A intenção deste texto não é falar sobre “Blood on the Tracks”. Assim como outros vários discos de Bob Dylan, esta obra-prima merece estar entre os fundamentais de qualquer discoteca rock como “Desire”, “Besament Tapes”, “Planet Waves”, “The Freewheelin' Bob Dylan” ou os aqui já resenhados “Blonde on Blonde”, "Bringing It All Back Home" e "Highway 61 Revisited"

Na verdade, é quase irrelevante comentar que “Blood...” é considerado por muitos o seu melhor trabalho; que, confessional, foi escrito sob a dor dilacerante de um casamento desfeito; que a "cozinha" que lhe acompanha é a clássica The Band; ou que traz algumas das melhores letras e arranjos da carreira de Dylan, da lindeza de sua faixa de abertura, "Tangled Up in Blue"; da emocionante balada arrependida “If You See Her, Say Hello”, uma das mais belas do cancioneiro rock; do blues infalível "Meet Me in the Morning"; do desfecho primordial de “Buckets of Tears”. Não, este texto não se propõe a falar sobre o óbvio. Pelo menos, não a esta obviedade. Quero falar, sim, sobre quando Bob Dylan me salvou. O que não é nenhuma novidade, visto que o Nobel de Literatura 2016 faz isso a uma geração inteira. Voz da cultura beatnik, foi vital para o ativismo social na década de 60 por causas mundiais como os Direitos Civis, o armamento nuclear e a Guerra do Vietnã. Também, o artista que mais do que ninguém, mais que Jean Cocteau, Jim Morrison ou Bertold Brecht, aproximou a literatura e a poesia da música. 

Mas, para chegar a Dylan, tenho que falar antes sobre outro grande músico do século XX a quem também atribuo minha salvação: Henri Mancini. Impossível desvincular essa história, entretanto, de outra figura aparentemente nada a ver com esses dois, pois homem da política e longe de minha consideração: Alceu Collares. Todos a seu modo me levaram a mim mesmo e a “Blood...”. Mas voltemos à metade dos anos 90, quando eu era um jovem recém saído do 1º Grau do Ensino Fundamental. Como para muitos estudantes brasileiros diante desta etapa, tinha eu que escolher o que fazer da vida. Ano de 1994. Governador do Rio Grande do Sul àquela época, Collares, havia nomeado a igualmente incompetente esposa Neusa Canabarro para o comando da Secretaria de Educação do Estado. Ela, por sua vez, instituíra um sistema indigno e desumano de seleção e ingresso de alunos egressos para o 2º Grau que obrigava as famílias de alunos a formarem constrangedoras e quilométricas filas à porta de escolas estaduais semanas antes para, depois de noites e dias de chuva, frio, sol e perigos de violência, mendigar uma vaga. 

Embora já tivesse certa noção de que a Comunicação era meu caminho, a curto prazo não via como algo a seguir. Filho de uma família de classe média pobre e da periferia, queria fazer o 2º Grau e, assim que possível, começar a trabalhar concomitantemente. Para isso, então, melhor era ver um curso técnico, que dava melhores perspectivas para esse plano. Havia uma escola pública que oferecia curso técnico de Publicidade, algo na área que me interessava, mas a procura a este curso, sabia-se, era extremamente disputada e as vagas eram poucas. Fora que, morando longe dessa escola, localizada noutro extremo da cidade, a logística imposta pela política estadual dificultava-nos ainda mais. Outra alternativa era a chamada Informática, algo hoje tão embrenhado na vida social mas que recém começava a surgir no Brasil naqueles idos. Revoltado com a condição desrespeitosa à sempre desfavorecida classe média daquele sistema educacional vigente, e diante da obrigação da escolha para que escola ir, neguei-me a colocar a mim e a minha família naquela situação de infinitas, insalubres, perigosas e aflitivas filas. Não podendo optar por algo mais a fim comigo, e nem mais tendo ao alcance vaga sequer em Informática, o jeito foi deslocar-me para mais longe e pegar o que viesse. Foi então que, por essas coisas que adolescentes não sabem medir, ingressei num curso de Eletrônica como se isso tivesse algum fio de relação com Informática – a qual, por si, já era uma segunda alternativa.

Óbvio que, no transcorrer do curso, as diferenças entre um ser das humanas como eu e um curso essencialmente das exatas como o de Eletrônica apareceram e ficaram cada vez mais evidentes. Afora os discos em casa, estava muito, muito longe de Dylan. Não via a hora de finalizar os três anos exigidos e partir para um cursinho pré-vestibular. 

Consegui, em parte, no entanto, o que me propunha: trabalhar enquanto estudava, o que se deu dentro da própria escola, pois assumi, no contraturno, um estágio no almoxarifado do laboratório. Foi ali, numa noite fortuita, que um dos meus salvadores surgiu. Acompanhava o trabalho de dois alunos, que desenvolviam seu trabalho de conclusão conjunto, fornecendo-lhes os materiais necessários. Já cansados de tanto raciocinarem sobre diodos e transistores, lá pelas tantas começaram a falar sobre assuntos diversos para desanuviar. Em determinado momento, um deles, que gostava de música, quis fazer uma referência ao autor do tema da Pantera Cor-de-Rosa, que ele sabia, mas não se recordava do nome. Foi, então, que eu, de forma extremamente natural, pois era uma informação comum para mim, despretensiosamente ajudei-lhe: "Henri Mancini". A conversa terminou ali, pois o espanto do rapaz foi tamanho que chocou não somente a ele quanto a mim mesmo. Era-lhe tão improvável que o estagiário de almoxarifado soubesse com tanta facilidade quem era o autor de clássicos como "Blue Moon" e "Peter Gunn", que aquela informação não poderia ser descartada por mim. Eu estava gritantemente no lugar errado e meu primeiro salvador, Henri Mancini, me ajudava a tomar o rumo que a vida escolhera.

Corrigida a rota, fiz o pré-vestibular e entrei na faculdade de Jornalismo da PUCRS em 1999, onde pude confirmar categoricamente a assertividade da minha escolha profissional. Entre muitas lembranças, amigos e momentos inesquecíveis daquele tempo, um me marcou. E é aí que entra meu outro salvador. Se naquele episódio do laboratório de Eletrônica o ocorrido com Mancini transcorreu num dia qualquer do qual não guardo com exatidão, neste caso, a lembrança tem dia e ano certos: 24 de maio de 2001. Aniversário de 60 anos de Dylan.

Sem nenhuma combinação prévia, aquela data foi comemorada da maneira mais natural e devota que se possa imaginar. Foi absolutamente bonito e emocionante. Era uma celebração calma e solene: pelos corredores e salas de aula, as pessoas se cumprimentavam, como que celebrando um acontecimento familiar. Era como se um ente querido, um Deus, um salvador, estivesse completando mais um ciclo ao redor do sol e todos ali sabiam do tamanho simbólico disso. Não teve show, “parabéns pra você”, algazarra, nada diferente. Simplesmente, mestre Dylan fazia seis décadas e nós, cientes de que presenciávamos um momento especial, sabíamos que estávamos no lugar certo para compartilhar aquela felicidade. Para mim, assim como Mancini, Dylan não fez nenhuma força para isso: bastou-lhe a sua representativa existência.

Passadas exatas duas décadas daquela célebre noite na faculdade de Jornalismo, Dylan faz, hoje, 80. Muito trilhei depois daquele episódio, que serviu para me dar a certeza de que autoconhecer-se e ser coerente consigo é o melhor caminho. E que vale a pena correr atrás disso. Curiosamente, “Blood...”, considerado a salvação da alma do artista após o choque da separação, a mim represente também isso, porém noutros termos. Como outros álbuns dele, carregam essa força incomensurável de um artista que cumpre aquilo que os grandes são capazes: são fundamentais para o desenvolvimento da civilização, pois decifram o mistério do que somos, estabelecendo pontes entre nossas mentes e corações através de suas obras. Privilégio ter sido um dia, como milhares de outras pessoas, salvo por esse oitentão.

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FAIXAS:
1. "Tangled Up in Blue" – 5:42
2. "Simple Twist of Fate" – 4:19
3. "You're a Big Girl Now" – 4:36
4. "Idiot Wind" – 7:48
5. "You're Gonna Make Me Lonesome When You Go" – 2:55
6. "Meet Me in the Morning" – 4:22
7. "Lily, Rosemary and the Jack of Hearts" – 8:51
8. "If You See Her, Say Hello" – 4:49
9. "Shelter from the Storm" – 5:02
10. "Buckets of Rain" – 3:22
Todas as composições de autoria de Bob Dylan

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OUÇA O DISCO:

Daniel Rodrigues

segunda-feira, 8 de março de 2021

Sister Rosetta Tharpe - "Gospel Train" (1956)

 




"Com uma voz capaz de
 dar vida às estátuas,
ela eletrizava a multidão
cantando pérolas de seu vasto repertório.
Tharpe ilustrava um verdadeiro
jogo de perguntas e respostas
 entre a candura e a autenticidade 
rurais do sul e a sofisticação
 e os novos sons das grandes cidades,
em especial, a guitarra elétrica."
Florent Mazolenni, 
autor do livro "As Raízes do Rock"



Aquela história de "quem inventou" tal coisa nem sempre é tão objetiva e direta quanto pode parecer, ainda mais quando se trata de alguma forma de arte. A produção artística não é assim como uma criação de um bruxo ou cientista maluco que pega um ingrediente daqui, um elemento dali e "pum!", de repente, faz surgir alguma coisa do nada. Na maioria das vezes as coisas são um processo, uma série de contribuições, influências, experiências e ousadias que culminam em determinado resultado que, naturalmente, por seu caráter original em relação ao que se conhecia até então, passa a ser olhado de outra maneira e, normalmente, recebe outro nome, que o diferencia do que o antecedeu.
O rock'n roll, em especial, tem muito dessa coisa de reivindicação de paternidade. "Esse é o pai", "Aquele é o Rei", "Aquele outro é o inventor", são sentenças que costumeiramente ouve-se por aí, atribuídas a uma série de artistas que, abem da verdade, cada um à sua maneira, tiveram sua contribuição no processo de formação do gênero. A verdade é que o estilo foi se moldando, nascido, evidentemente, do blues, mas agregando uma pegada mais acelerada de determinada região, um jeito de tocar diferente de determinado instrumentista, uma nova possibilidade musical de outro estilo, até ser definitivamente batizado de rock'n roll, ali pelos anos '50. No entanto, uma das personagens que deu uma contribuição fundamental nesse processo, não costuma ter um reconhecimento proporcional à importância que tem para a construção da linguagem. Sister Rosetta Tharpe, cantora religiosa desde a infância, agregou, em suas viagens com a mãe, pelas paróquias ao longo dos Estados Unidos, estilos e tendências que ouvia em diversas partes do país e, assim que começou a ter sua própria carreira, colocou esses elementos em sua música, dando a ela um toque absolutamente singular. Embora algumas pessoas lembrem de seu nome, de sua atuação, de sua influência, é raro ver-se expressa a dimensão que Rosetta teve na consolidação dos traços características do rock. A mistura do gospel com o blues, a inserção de elementos do country, a postura de palco, o jeito de pegar a guitarra, de tocar o instrumento e o som que tirava dele, tudo isso no final dos anos 30, são itens, simplesmente, fundamentais para formar aquilo que viria a ser chamado de rock.
Recentemente redescoberta por parte do público, até pela facilidade de acesso da internet, no que diz respeito a pesquisa, garimpo e curiosidade, vem sendo reivindicado a Sister Rosetta o título de "inventora" do rock. Como comecei salientando, lá no início do texto, na minha opinião, essas construções são um crescente, um processo e, não tenho certeza de que seria justo com artistas contemporâneos a ela, que, à sua maneira também colaboraram para o resultado final que conhecemos, dar exclusivamente a ela uma coroa que tem muitos donos, tão legítimos quanto ela.
Irmã Rosetta começou a se destacar e ganhar visibilidade no final dos anos '40 cantando canções de louvação na Igreja de Deus em Cristo, mas, com seu estilo tão singular, suas inovações e por ser uma mulher tocando guitarra daquele jeito, dividia opiniões até mesmo dentro de sua comunidade religiosa. Como na época não se costumava gravar álbuns, Rosetta registrou alguns singles nos anos '40, apresentou-se em várias partes do país, e só foi lançar um álbum, mesmo, em 1956, "Gospel Train", que, embora muito "limpo", muito lapidado para soar mais acessível, e um tanto influenciado pelo blues de uma forma mais direta do que costumavam ser suas canções originalmente, não deixa dívida de quem era aquela mulher e do que ele era capaz.
O disco abre com a maravilhosa "Jericho", canção tradicional americana que ganha um arranjo pulsante no qual a guitarra de Rosetta se destaca de maneira inconfundível. "Up Above My Head" é bem blues, bem dentro daquela domesticação do som mais visceral da cantora, "Can't No Grave Hold My Body Down" é um blues também mas já faz menos concessões, mas é "Fly Away" que consegue trabalhar melhor os etpremos e mostra-se como um dos melhores exemplares da química blues+country que Sister Rosetta conseguia explorar com tanta propriedade e que seria crucial para ao desenvolvimento do rock. "All Alone", por sua vez não fica para trás, com uma estrutura muito moderna e sofisticada, além de um solo absurdo, "rasgado" da guitarrista. 
Ainda que todas as canções sejam de devoção, "When They Ring The Gold Bell" e "How About You" destacam-se na forma como típicos exemplares do gospel, canções bem características de igrejas negras norte-americanas, inclusive com uma certa ênfase no órgão.
Destaque também para a bela "I Shall Know Him" com sua atmosfera dramática e para "Precious Memories" um blues charmoso com uma interpretação impressionante, de arrepiar.
O disco fecha em grande estilo com "99½ Won't Do" numa interpretação verso/resposta que antecipa uma série de tendências e possibilidades e que aquela personagem incrível já explorava de maneira tão fluída e natural.
Se aquela mulher inventou o rock eu não sei, mas que ela teve uma contribuição fundamental é algo que não tem como negar. Mas, vá lá, que tenha criado o rock. Nada mais natural que uma mulher tenha dado a vida a algo, não? Mas independente do título, da coroa, do carimbo, Sister Rosetta Tharpe, pelo pioneirismo, coragem, ousadia, qualidade, pela contribuição, pelo legado, deve estar incluída naquele nobre panteão de grandes mulheres da história. 

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FAIXAS:
  1. "Jericho" – 2:00 (Traditional)
  2. "When they Ring the Golden Bell" – 2:27
  3. "Two Little Fishes, Five Loaves of Bread" – 2:31 (Bernie Hanighen)
  4. "Beams of Heaven" – 3:20
  5. "Can't No Grave Hold my Body Down" – 2:40
  6. "All Alone" – 2:35
  7. "Up Above my Head there's Music in the Air" – 2:21
  8. "I Shall Know Him" – 2:22
  9. "Fly Away" – 2:25
  10. "How about You" – 2:25
  11. "Precious Memories" – 2:36
  12. "99½ Won't Do" – 2:02

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Ouça:
*não conseguimos o álbum na íntegra, como sempre fazemos,
mas, no link acima, você pode conhecer grande parte da obra da cantora, 
com várias das canções que fazem parte deste álbum.


por Cly Reis