Por essas coisas da vida, no ano passado estive na cidade de Montenegro dando meu curso sobre Cinema Negro na Fundarte, através do Sesc Montenegro, Naquela ocasião, meu irmão Tiago Ritter, montenegrense, sabendo que estava na sua cidade-natal, me manda um áudio de whats dizendo: “Ah, tu tá em Montenegro?! Então, vou avisar uma pessoa que eu conheço, que gostaria muito que vocês se conhecessem, pois admiro vocês dois”. Gol. A pessoa a quem Tiago se referia era Rogério dos Santos, presidente da Central Única das Favelas - Cufa RS Montenegro e a quem ele conhecia não só a pessoa como o trabalho que desenvolvia há bastante tempo.
Pois, passado quase um ano após o curso, sou convidado a participar, integrando um seleto grupo de painelistas, do seminário pertinentemente intitulado: “14 de Maio - O Dia Seguinte. E agora?”, ocorrido nesta data no Teatro Roberto Atayde Cardona, e com a companhia de Leocádia..
Digo “pertinentemente intitulado” porque o seminário, realizado pela Cufa RS Montenegro através do projeto Resgate Negro do Vale do Caí, propõe uma reflexão sobre o que veio depois do 13 de maio de 1888, data da assinatura da Lei Áurea, que aboliu formalmente a escravidão no Brasil. O 14 de maio simboliza justamente o dia seguinte, quando a população negra foi deixada sem reparação, sem políticas de inclusão e sem acesso real à cidadania. Algo que eu exploro em meu curso e que considero o principal ponto de inflexão sócio-histórico da população negra no Brasil.
Para minha satisfação e orgulho, subi no mesmo palco que pessoas de renome nacional e regional, algumas as quais muito admiro, como Celso Athayde, presidente da Cufa Global; o escritor Itamar Vieira Junior; a líder comunitária Rozeli da Silva; e a deusa negra Zezé Motta, com quem, por rápido momento estive e pude entregar-lhe um exemplar do livro da Accirs e registrar uma foto.
A mesa de debate a qual compus foi para tratar do tema: “Raízes Negras da Cultura Brasileira” e que tive a felicidade de dividir com a mãe-de-santo e líder comunitária Cláudia Chu, o professor de música Renato Batista, o músico senegalês radicado no RS Kanhanga e mediação do querido jornalista Marck B. Dentre as preciosas falas do debate, a minha foi na linha da valorização e contextualização do cinema negro no Brasil, considerando os dois pontos de partida: a famigerada Abolição da Escravatura, em 1988, e a criação do cinema, poucos anos depois, em 1895. Isso explica em parte porque, somente nos anos 40 algum eco de cinema sobre as questões do povo negro começaram a ser tratadas na tela grande.
Também teve aquelas que tive o prazer de conhecer e assistir, como a empreendedora Gabi Valente, a advogada Danielle Araújo, a líder comunitária Maira Azevedo e a educadora e filósofa Bárbara Carine, vencedora do Prêmio Jabuti Educação pelo livro "Como Ser um Educador Antirracista" e criadora da louvável escola Afro-Brasileira, na Bahia. Que fala potente e descolonizadora a sua! Daquelas que mexeu com a emoção de todos na plateia. Quem também deu um show – e arrancou ao mesmo tempo gargalhadas e consternação da plateia com sua fala consciente e combativa sobre as mães pretas na sociedade brasileira, foi a comunicadora Tia Ma. Discussões que só um evento deste calibre e força simbólica este pode oportunizar.
Pela manhã, abertura oficial do seminário
Zezé Motta e Rozeli da Silva mediadas por Rogério dos Santos
Nos bastidores com a deusa Zezé Motta, a quem presenteei com um livro da Accirs
Também prestigiei Celso Athayde e seu filho, Vinicius, com quem troquei autógrafos
Itamar Viera Jr. falado sobre sua escrita negra
Nós no debate sobre Raízes da Cultura Negra Brasileira
Trecho de minha participação no seminário
Ao final com os companheiros de debate Marck, Cláudia, Renato e Kanhanga
Foto só sorrisos com Marck B e o idealizador do evento, Rogério dos Santos
O diretor romeno Christian Mungiu recebendo o prêmio principal do festival
Foram conhecidos no último sábado, 23/05, os vencedores da 79° edição do Festival de Cannes. O prêmio principal, a cobiçada Palma de Ouro foi para a produção romena "Fjord", do diretor, Christian Mungiu, um drama moral sobre uma abalada relação entre duas famílias nos fiordes da Noruega. Já o Grande Prêmio foi para "Minoutaur", do russo Andrey Zvyagintsev, e o Prêmio do Júri para "The Dreamed Adventure”, da alemã Valeska Grisebach A edição do festival foi marcada por uma série de empates, inclusive na categoria de melhor direção. Pawel Pawlikowski, por “A terra de meu pai”, e Javier Calvo e Javier Ambrosio, por “La bola negra”, dividiram este reconhecimento, e nas categorias de interpretação, tanto masculina quanto feminina, atores dos filmes "Coward" e "All os a Sweeden", também tiveram igualdade na avaliação do júri.
Confira abaixo, mais detalhadamente, todos os ganhadores:
🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬 Palma de Ouro: “Fjord", de Cristian Mungiu (Romênia)
Grand Prix: “Minotaur”, de Andrey Zvyagintsev (Rússia)
Prêmio do júri: "The Dreamed Adventure", de Valeska Grisebach (Alemanha)
Melhor direção: Javier Calvo e Javier Ambrossi, de “The Black Ball” (Espanha); e Pawel Pawlikowski, de “A terra de meu pai" (Polônia)
Melhor ator: Valentin Campagne e o Emmanuel Macchia, de “Coward”
Melhor atriz: Virginie Efira e Tao Okamoto, de “All of a Sudden”
Melhor roteiro: Emmanuel Marre, de "A Man of His Time"
Camera d’Or: "Benimana", de Marie-Clementine Dusabejambo (Ruanda)
Palma de Ouro de Curta-Metragem: “For the Opponents,” de Federico Luis (Argentina)
Não sou muito de assistir séries ficcionais. Embora todo o sucesso delas nas últimas décadas, tornando-se febre entre os milhões de espectadores cada vez mais caseiros e menos cinematográficos (até mesmo eu, como muitos, tornei-me mais “streameiro” depois da pandemia), confesso que tenho grandes restrições quanto à qualidade desse formato audiovisual. Principalmente da maneira como a indústria do entretenimento convencionou suas regras, claro, muitas a favor da audiência (dinheiro) e, no mais das vezes, inversamente proporcional à proposta conceitual (arte).
Não que filmes não possam ser assim. Muitos o são. Mas séries, enquanto produto audiovisual, estão muito mais propensas e têm muito menos chance de escapar desse buraco negro da indústria cultural. Se não há problema na continuidade, há nas atuações. Se não peca por estender demais a história, erra na abordagem dos fatos. Se não abre muitos leques narrativos, tem dificuldade de sustentar arcos dramáticos em mais de um episódio. Filmes de longa-metragem (aliás, cada vez mais longos, num movimento reativo de serializaçãopelo qual o ameaçado cinema comercial atual passa) não estão salvos desses descaminhos, mas, na comparação filme X série, inegavelmente a obrigatória condensação de conteúdo do primeiro sai em vantagem pelo simples fato de impor formalmente aos realizadores de cinema "tradicional" resolverem essas irregularidades em menos tempo.
De vez em quando, no entanto, claro que arrisco alguma série. Dante do entusiasmo em torno da série brasileira da Netflix “Emergência Radioativa”, bem como por causa de meu interesse no tema do acidente radiológico de Goiás, peguei-a para assistir. A minissérie é baseada na história real ocorrida em Goiânia, em 1987, quando catadores de sucata encontram uma substância brilhante num hospital abandonado. O material altamente radioativo, césio-127, que emitia uma luz azul no escuro, passa de mão em mão até ser descoberto. Então, inicia-se uma corrida contra o tempo para evitar uma tragédia de proporções devastadoras.
“Emergência...”, entretanto, mais uma vez comprova minhas percepções sobre série - as ruins. Estrelado por Johnny Massaro, esse sucesso de audiência perde-se justamente naquilo que mais se exige de qualquer produto audiovisual: a narrativa. Os primeiro e segundo episódios até começam bem. Aliás, muito bem. No inicial, onde se estabelece o perfil narrativo da história, recuperando cronologicamente cada dia que antecedeu e a partir da crise deflagrada, os fatos vão sendo contados de uma maneira bastante instigante. Já o segundo episódio é especialmente interessante, porque espelha as ações levantadas no primeiro, explicitando o tamanho do estrago que causaram. Se na parte 1 aparecia a menina Celeste sendo detectada com radiação, por exemplo, na continuação é quando se vê que ela não só teve muito mais contato com o pó de césio-137 do que se imaginava.
A pequena Mari Langaro como Celeste no colo da mãe
Porém, o formato série paga seu preço, e na terceira parte a consistência narrativa cai drasticamente. E pior: as inconsistências até então relevadas começam a saltar da tela. Ritmo, repetições, atuações deficientes. Uma dessas inconsistências, para pegar a mesma personagem exemplificada anteriormente, é a pequena Celeste. A lindinha atriz mirim Mari Lauredo não sustenta as cenas minimamente mais exigentes por conta de sua fraca atuação e/ou direção. Artificial e sem expressividade. E não só ela. Há momentos importantes da narrativa que perdem muito por causa de más interpretações como estas.
Massaro, senhor de papéis intensos e trágicos (os filmes “Os Primeiros Soldados” e “O Filho de Mil Homens” e a série “Máscaras de Oxigênio não Cairão Automaticamente”), se sai bem, pois conduz a história. Porém, Leandra Leal, ótima atriz, diz mais a que veio na novela caipira da Globo do que na série dramática. Um desperdício. Fora isso, a tecnicamente cuidada produção (a reconstituição daquela Goiás anos 80 é bem crível) não se atenta àquilo que a faria crescer: a história verídica em si. Pela intenção de dramatizar, deixa de perceber que o melhor negócio para atingir esse drama é uma pitada maior de documentário. Sobreviventes da tragédia vem tecendo críticas bem fundamentadas por conta disso.
Demonstrando que sentiu o golpe, nem o desfecho se salva, com uma pretensa comunhão dos afetados, sem, contudo, mencionar a formação da Associação das Vítimas do Césio-137 (AVCésio), criada nos anos 1990. Uma longa luta vem se travando pelos contaminados por seus direitos, que reclamam informações confiáveis sobre seus estados de saúde e sobre os reais riscos aos quais foram expostos, além do direito à assistência social e médica e direito básico de reconhecimento pelo Estado da gravidade de sua condição clínica. Nada disso foi contextualizado, num quase desserviço. Ah, séries: me ajudem a te ajudar...
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trailer da minissérie brasileira "Emergência Radioativa"
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minissérie"Emergência Radioativa"
direção: Fernando Coimbra e Iberê Carvalho
elenco: Johnny Massaro, Paulo Gorgulho, Tuca Andrada, Bukassa Kabengele, Ana Costa
Antonio Saboia, Leandra Leal
gênero: drama, minissérie
episódios:
1: "Um desastre como o Brasil nunca viu" -62 min.
2: "Quando a gente vai voltar pra casa?" - 65 min.
3: "A gente tá bebendo água contaminada?" - 61 min.
É impossível assistir à cinebiografia de algum artista que se admira sem relacionar com a própria vida. Ainda mais aqueles que fizeram parte da SUA biografia. Foi o que me aconteceu vendo "Michael", do cineasta Antoine Fuqua. As lembranças da infância, quando eu, com 4 para 5 anos de idade, ia pra frente da TV dançar igual a Michael Jackson em "Thriller", nos idos de 1982/3, vieram à mente. O icônico videoclipe, que impressionara o mundo inteiro com sua abordagem e qualidade cinematográficas, foi um de impacto gigante para mim à época, um dos primeiros contatos com cultura de massa que aquele pequeno menino negro do Sul do Brasil teve juntamente com os desenhos animados da TV aberta.
Somente este contexto já é suficiente para me aproximar tanto do filme, que reduz minha chance de não gostar. Afinal, o aguardado longa de Fuqua, sucesso de bilheteria, é, sim, apreciável, mas abertamente comercial. Com a direção tecnicamente perfeita e a abordagem pop, como lhe é característico, o cineasta, um dos eminentes negros do cinema norte-americano atual, conta a história do maior astro pop de todos os tempos (interpretado por seu sobrinho Jaafar Jackson) de forma cronológica, porém com um recorte acertado, haja visto que não vai até a sua morte. Pegando do começo da vida artística, ainda criança com os irmãos companheiros de Jackson 5, passando pela ascensão da carreira solo, vai até o fatídico momento em que Michael se desenvencilha do opressor pai, Joe - vivido por Colman Domingo, num papel digno de indicação a Oscar. As belas cenas musicais e o realismo de diálogos ajudam a cumprir bem esse recorte narrativo, que nada mais é do que a escolha central da trama: a conturbada relação de Michael com o pai.
No que se refere a Joe Jackson, cabe uma reflexão sociológica. Afinal, como o histórico de racismo, intolerância e perseguição aos negros nos Estados Unidos gerou pais de família afro-americanos rancorosos, mesquinhos, infelizes e invejosos! E pior: dada a baixa autoestima deles, revoltados com uma sociedade que lhes esmagou e não lhes deu oportunidade de brilharem com seus talentos individuais, usam esses sentimentos somenos, justamente, contra aqueles que deviam amar. É o caso de Joe e o caçula Michael, mas também com outros artistas negros do século 20, como Ike Turner para com a esposa Tina Turner e o pastor C. L. Franklin com sua filha Aretha. Todos psicologicamente doentes e tiranos domésticos. Incapazes de admitir que seus próximos são, sim, astros com mais brilho que eles, entram em rota de colisão e numa cruzada para obscurecê-los. É triste de se ver tamanha perversidade, mas explicável em um contexto maior.
Domingo na pele do perverso Joe Jackson: digno de Oscar
Afora isso, o filme também é incisivo ao apresentar um Michael dono de si e não um artista apenas talentoso levado pela mão por responsáveis como muito se propagou. O empresário John Branca e o produtor Quincy Jones, a quem ele respeitava e admirava, não comandavam, mas, sim, o próprio Michael. Sua consciência de homem preto, inclusive - algo pelo qual também sempre foi duramente criticado em razão do branqueamento da pele e das cirurgias plásticas descaracterizantes - é consistentemente rechaçada na cena em que ele, em 1983, bate pé diante do diretor da sua gravadora para que seu clipe fosse o primeiro de um artista negro a rodar na MTV. E foi.
Para quem acompanhou Michael Jackson desde criança até a fase adulta sabe que muito do que é mostrado faz sentido, mas também que há um cuidado em tratar de temas delicados. Porém, essa é a hora de trazer à tona essas delicadezas, se não, fica estranho.
E é aí que a proximidade de fã com a obra do artista faz com que seja impossível não se notar as lacunas. Quanto mais fã, aliás (e nem sou o maior conhecedor de MJ, repleto de ardorosos apaixonados pelo mundo todo), mais se sabe dos fatos verídicos. E me refiro a lacunas importantes, basais. Em "Michael", um dos assuntos faltantes foi criticado antes mesmo do filme ser lançado: o nebuloso (mas possivelmente verdadeiro) caso de abuso sexual sofrido por ele na infância. Nem uma menção, mesmo que sutil para não escancarar algo tão traumático? Pesa negativamente, uma pena.
Outro ponto faltante: onde está Diana Ross? E Stevie Wonder? Ambos admirações de Michael e com quem ele conviveu, tocou, filmou e gravou. Não foi possível incluí-los no roteiro? Foi uma opção? Há questões contratuais que impeçam? Verba para pagar direitos de imagem duvido que os produtores não tivessem.
O que me pesou também foi a ausência de referência ao filme "O Pequeno Príncipe", de 1974. Falou-se acertadamente de Gene Kelly, James Brown, Charles Chaplin e Fred Astaire, inspirações mais óbvias de Michael. Mas seria importante informar a quem não sabe de onde vieram várias de suas referências coreográficas: da dança da serpente no deserto, brilhantemente coreografada pelo ator e dançarino Bob Fosse. Há gestuais idênticos aos eternizados por Michael, dentre os quais o famoso passo Moonwalk, marca registrada de MJ. Tiveram medo de expor Michael e ferir sua imagem? Embora a clara semelhança da dança de um e de outro, não parece uma mera imitação e, sim, uma forte inspiração, por isso não faria nenhum mal em se revelar isso ao grande público. Ao contrário: traria mais uma das referências pop que a genial cabeça de Michael conseguia reunir e devolver em forma de arte.
A semelhança das danças de Michael Jackson e Bob Fosse
De tudo que não está em "Michael", no entanto, o que mais me ressenti foi não se mostrar com mais detalhe o processo criativo do Rei do Pop ao compor. Há vídeos de matérias jornalísticas que registram esse processo, algo absolutamente fascinante de se ver, ainda mais considerando que ele, dono de ouvido absoluto, não precisava (assim como Elis Regina e Lupicínio Rodrigues) tocar nenhum instrumento para saber exatamente o que queria em sua música. Fuqua opta por evidenciar mais o processo de criação coreográfica - o que faz com perfeição nas cenas de "Beat It" e "Thriller" -, mas dá menor relevância para a invenção musical. No máximo, situa o conceito impulsionador de determinadas canções, como coisas que ele via na TV. Como fã, saí frustrado por isso, pois esperava por mais.
Cinebiografias não são necessariamente completas, é certo. Mas quem vê, por exemplo, "O Tempo não Para", sobre Cazuza, sente falta de se mencionar ou representar Ney Matogrosso, pessoa sabidamente fundamental na vida íntima e artística do autor de "Ideologia". Contudo, não dá para alguém que conhece o objeto do filme fechar os olhos para o que (não) está vendo. Ainda mais, quando se tratam de informações importantes.
Há representatividade e "lugar de fala" na direção de Fuqua, uma vez que somente os tempos atuais deram condições a uma produção dessas ser realizada por um cineasta negro. Para ele, pessoalmente, deve ser uma realização abordar um ídolo formativo. Entendo isso. No entanto, fica por aí a reserva autoral. O final de "Michael", que deixa reticências para uma sequência, fecha a tampa dessa abordagem excessivamente comercial da obra: recorta-a até um ponto bem estipulado, mas, fatalmente, não a desfecha com o impacto que merecia. Como geralmente ocorre, o lado business compromentendo o artístico. Mas para um cineasta que esticou até a inanição uma franquia que começou legal como "O Protetor", não é de se estranhar que ainda produza tantas sequências de "Michael" quanto as de "Velozes & Furiosos". E o público do entretenimento, sem maiores distinções, vai adorar.
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Trailer de "Michael", de Antoine Fuqua
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"Michael"
Direção: Antoine Fuqua
Gênero: Drama/Biografia/Musical
Elenco: Jaafar Jackson, Nia Long, Laura Harrier, Juliano Krue Valdi, Miles Teller, Colman Domingo
A angústia do luto, a não aceitação de uma perda, sempre forneceram tramas intrigantes para o cinema, não sendo incomum histórias dolorosas de pesar andando de mãos dadas com o puro horror. David Cronenberg explorou o tema em seu recente "O Senhor da Morte" (The Shrouds) e "Faça Ela Voltar" (Bring Her Back), novo filme dos irmãos Phillipou, também se enquadra nesse perfil. Aqui, então, 10 exemplos de filmes que mesclam luto e horror.
1 - "Inverno de Sangue em Veneza", Nicolas Roeg (ING, 1973)
2 - "A Troca" ou "O Intermediário do Diabo", Peter Medak (CAN, 1980)
3 - "Dr. Morte" , Errol Morris (EUA, 1999)
4 - "Cemitério Maldito", Mary Lambert (EUA, 1989)
5 - "Os Outros", Alejandro Amenábar (EUA, 2001)
6 - "O Orfanato", Juan Antonio Bayona (ESP/MEX, 2001)
7 - "O Segredo do Lago Mungo", Joel Anderson (AUS, 2008)
- Paul: Isso é bom, eu gosto de surpresas. O que é?
- Jeanne: Música, só não sei como fazer isso funcionar.
Diálogo entre Jeanne (Maria Schneider) e Paul (Marlon Brando) do filme "O Último Tango em Paris"
"O Último Tango em Paris", trilha sonora que Gato Barbieri compôs em tempo recorde seguindo as orientações de Bernardo Bertolucci, é uma imensa suíte em que se destaca o sax áspero e quente de Gato, envolto pelos arranjos de Oliver Nelson à frente de uma orquestra de 32 músicos. Sobra espaço ainda para dois percussionistas brasileiros, Afonso Vieira e Ivanir do Nascimento, o Mandrake, músico há muito radicado na Itália, primo de Pelé.
A trilha foi um fenômeno. Recorde de vendas para um disco instrumental e presença nas programações das rádios. Colocaria a carreira de Gato no seu mais alto patamar. Depois disso, ele nunca faria nada tão relevante.
A morte de Bernardo Bertolucci finalizou um capítulo que se manteve para sempre incompleto e obscuro na história da música e do cinema, envolvendo disputas, ciúmes, invejas, traições e acusações de plágio. O próprio cineasta nunca fez questão de explicar o que houve, tampouco Gato Barbieri, que enveredaria por novos caminhos em sua música, mantendo-se ativo até morrer, em abril de 2016, aos 83 anos.
Rejeitado para a trilha, Astor Piazzolla, morto em 1992, repassaria as duas composições que havia feito para o filme para que fossem usadas noutro longa-metragem, "Cadáveres Ilustres", de Francesco Rosi. Quando "O Último Tango em Paris" foi lançado, chegou a dizer que poderia ter composto uma trilha superior. Para amigos, admitia que gostava muito da gravação de Gato Barbieri.
Num ano em que O Agente Secreto brasileiro tem brilhado mundo afora, tendo estado pertinho de ganhar um Oscar, nosso Clássico é Clássico (e vice-versa) abre o ano cinefutebolístico com um confronto que traz ninguém menos que o maior agente secreto do cinema. Sim, senhoras e senhores, Bond, James Bond, o 007, em duas versões que usarão de todas as suas armas e recursos para derrotar o oponente e mostrar quem é o verdadeiro clássico do cinema.
Pouca gente sabe mas, antes de ser o ponto de retomada da franquia 007, apresentado Daniel Craig, "Cassino Royale" já tivera uma versão ousada e estrelada nos anos '60. Esse original, embora já contemporâneo da conhecida franquia de ação e aventura com os galãs invencíveis e sedutores vividos por Sean Connery e Roger Moore, entre outros, não fazia parte oficialmente daquela série e, por sua vez, ao mesmo tempo que prestava uma homenagem ao personagem, também o satirizava. O conhecido poder de sedução e a fraqueza por mulheres do agente britânico são elementos importantes na confusa e estapafúrdia trama da primeira versão que é composta por cinco segmentos amarrados entre si pela eliminação de outros agentes zero-zero por uma organização chamada SMERSH. James Bond, então, aposentado, é convencido a voltar à ativa para investigar e deter o grupo criminoso que usa exatamente de armas de sedução para sequestrar os agentes e pensa em atingir o mulherengo Bond desta mesma forma. Mas a coisa fica completamente sem pé nem cabeça! Bond tem a ideia de infiltrar falsos 007 entre suspeitos da tal organização. O mais relevante na trama e o melhor deles é Peter Sellers que, especialista em cartas, no jogo de bacará, que virá a enfrentar o especialista em baralho, Le Chiffre, desesperado para recuperar suas finanças num jogo decisivo para sanar suas dívidas e salvar a própria vida de seus credores.
"Cassino Royale" (1967) - trailer
"Cassino Royale" (2006) - trailer
Nesse ponto as histórias se cruzam, no novo "Cassino Royale", a MI6 tem a informação que um financiador terrorista, Le Chiffre, endividado por um negócio frustrado pretende recuperar seus fundos numa mesa de jogo num torneio particular em Montenegro num local chamado Cassino Royale.
Bond então se prontifica a ser incluído na mesa, como um milionário apostador qualquer, a fim de evitar que Le Chiffre vença e levante o dinheiro. Aí entra outro ponto de convergência entre as duas versões: Vesper Lind. Na última versão ela é a representante do Tesouro Nacional que vai financiar, sob risco, a aposta de Bond na mesa de pôquer, já na primeira, é uma milionária que conduz o falso Bond, Evelyn Tremble ao cassino para enfrentar Le Chiffre.
Os dois Bond vencem os Le Chiffre de cada uma das histórias, ambos são torturados, cada uma à sua maneira, para entregar o dinheiro ao vilão, e em ambas as situações Le Chiffre é morto por seus credores. Enquanto o antigo conduz tudo isso com um humor estranho e psicodélico, o novo o faz com dramaticidade e uma intensidade até então poucas vezes vistas num filme da franquia. A tortura do então estreante Daniel Craig no papel de 007 é das mais brutais e dolorosas que se possa imaginar para um homem, mas que, curiosamente, tem lá também, em meio à dor, seu toque de humor.
Enquanto a refilmagem segue a trilha dos financiadores terroristas, do dinheiro perdido na primeira operação frustrada, perseguido por Le Chiffre, barrado por Bond, perdido por ele mesmo depois, até que vá atrás de quem o traiu e permitiu que fosse parar nas mãos dos bandidos, o original é uma salada de situações cuja conexão entre si é tão frágil que chega a ser quase inexistente. Tem a filha de Bond com a espiã Mata Hari, Mata Bond, que é sequestrada por um disco voador gigante, tem o sobrinho Jimmy Bond (Woody Allen) que se revela o grande vilão por trás de toda a trama, o Dr. Noah, cujo grande objetivo é tornar-se alto e mais atraente para as mulheres, tem uma grotesca invasão de soldados, coubóis e índios ao cassino para enfrentar os criminosos, tem uma explosão atômica de soluços, enfim... uma miscelânea caótica!
O filme de 1967 tinha um timaço! Além de um dos episódios ter sido dirigido e estrelado por John Huston, a seleção contava ainda com David Nível, Deborah Kerr, Peter Sellers, Woody Allen, Orson Welles, Ursula Andress e Jean-Paul Belmondo. Infelizmente, de um modo geral, muito mal aproveitados num filme sem pé nem cabeça. Peter Sellers, como Tremble, Ursula Andress, como Vesper, e Welles, como Le Chiffre, ainda conseguem se salvar, mas de resto, é só talento e qualidade desperdiçados. Parece aquele time cheio de craques mas com jogadores escalados fora de posição ou em funções que não rendem o seu melhor.
Já o time de 2006 é aquele elenco equilibrado com os jogadores no lugar certo. Tem a craque Judy Dench, no papel da chefona M, o ótimo jogador Mads Michelsen fazendo um bom Le Chiffre, a competente Eva Green como Vesper Lind, e o limitado Daniel Craig no papel principal dando conta do que é esperado dele. É tipo aquele centroavante que até é ruim tecnicamente, mas que, se cair na frente dele, ele mata. É artilheiro!
"Cassino Royale" (1967) - créditos de abertura
"Cassino Royale" (2006) -
Sequência da perseguição em Veneza
Cassino Royale '67 leva poucas vantagens. A abertura com uma animação colorida e psicodélica é mais interessante que aquela tradicional de silhuetas e balas voando em câmera lenta da franquia oficial. O original faz 1x0 no início pela abertura, mas não sustenta. O jogo de Cassino Royale '06 é bem melhor e mais desenvolvido. Não é nada brilhante, nada espetacular, mas tem andamento, tem sua lógica, tem coerência, e por isso não demora a empatar: 1x1.
Embora interpretado por grandes nomes do cinema na primeira versão, como David Niven e Peter Sellers, o estreante Daniel Craig é melhor na função do que os craques do outro time e vira o jogo para o remake. 1x2.
A propósito, Orson Welles é um gênio do cinema, uma dos maiores de todos os tempos, não faz mal o que o ténico lhe pede, mas o Le Chiffre de Mads Michelsen é muito melhor. Aquela cara cínica, aquela expressão implacável e o interessante detalhe do olho lacrimando sangue conferem a ele um lugar únioco e de destaque entre os vilões de James Bond. 1x3 para CR'06
Agora unido os dois, o jogo de cartas no cassino, bacará na primeira versão e pôquer na segunda, além do fato de ser ridículo e risível no confronto entre Peter Sellers e Orson Welles, é muito mais tenso e relevante no confronto de Craig com Mads Michelsen, com direito a reviravolta, envenenamento e ressurreição. 1x4. Já virou goleada!
O time de '67 esboça uma reação com a interessante sequência da missão de Mata Bond, a filha de James Bond, em Berlim, num episódio que, apesar dos absurdos como a viagem de táxi de Londres até a capital alemã, contém mais ação, mais espionagem e uma estética muito legal que mistura psicodelia com expressionismo alemão, com cenários coloridos, geométricos e distorcidos. 2x4. Gol de Mata Bond.
Mas se vamos falar de sequências, a cena em Veneza põe por água abaixo qualquer ambição do filme antigo. A descoberta de Bond, a perseguição, os incríveis desmoronamentos da cidade, o final dramático com a amada Vesper Lind, tudo, toda a jogada, todo o envolvimento garante mais um gol para Casino 2006. 2x5.
Cassino '67, repleto de craques, até faz mais um na tabelinha de Burt Bacharach com Dusty Springfield. O maestro cria toda a jogada para a loura, com sua belíssima voz, completar com classe para o fundo das redes com "The Look of Love", canção indicada na época ao Oscar que não faz feio diante de nenhuma outra da franquia consagrada. Mas não é o suficiente para mudar a história do jogo. 3x5 e até que saiu barato.
Cassino Royale de 1967 apostou todas suas fichas num elenco estelar mas não contava com um jogo mais equilibrado do adversário que soube distribuir bem suas apostas entre a trama, a ação, o suspense e a dramaticidade. Cassino Royale 2006 limpou a mesa!
O jogo entre James Bond e Le Chiffre nas duas versões. À esquerda, Peter Sellers contra Orson Welles; à direita, Daniel Craig contra Mads Michelsen.