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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

CLAQUETE Especial Clyblog 18 Anos - "Uma Mulher sob Influência". de John Cassavetes (1974)


 

Um grupo de trabalhadores dentro da água ao entardecer, equipados com capacetes de obra e uniformes de borracha. Uma voz masculina grave ecoa, lírica, e é substituída por um piano melancólico que irá atravessar todo o filme, composição de Bo Harwood. A imagem quase documental serve de fundo para as letras que surgem, gigantes e azuis: "A Woman Under the Influence", que se traduz, literalmente, no título adotado no Brasil, "Uma Mulher sob Influência".

Chamou-me a atenção que um filme com esse título começasse em um cenário repleto de personagens masculinos, em um espaço de trabalho braçal. Entre os diversos fatores que fazem da obra de John Cassavetes algo genial está justamente esse deslocamento: o filme é sobre uma mulher, mas também é sobre o seu marido, sobre a vida cotidiana, sobre uma crise. Fala do universo feminino, mas tem a direção de um homem. Não se propõe a ser nada além do que é, dentro dos recursos limitados pelo baixo orçamento, com uma estética crua que lembra o cinema documental e uma história que poderia acontecer com uma familiar ou vizinha nossa.

Gena Rowlands, estrela do filme e esposa de Cassavetes, declarou que, após ler o roteiro pela primeira vez, “não conseguia acreditar que John tivesse escrito aquilo. Não quero parecer sexista, porque realmente não acredito que mulheres não possam escrever sobre homens e vice-versa. Mas eu realmente não conseguia acreditar que um homem pudesse compreender esse problema específico”. Gena via o marido distraído, aparentemente desatento ao que acontecia à sua volta em eventos sociais, a ponto de se surpreender com seu nível de atenção e sensibilidade aos conflitos humanos.

O ponto de partida do roteiro foi um pedido da própria Gena, que, depois de passar um tempo trabalhando no cinema e na televisão, sentia falta do palco. Queria interpretar uma personagem complexa, que dialogasse tanto com as dificuldades da mulher contemporânea quanto com as experiências das gerações anteriores. A peça escrita por Cassavetes, no entanto, era longa e exigente: Gena ponderou que não teria condições físicas e emocionais de interpretar Mabel noite após noite. Ainda que ele tenha trabalhado em outras possibilidades, como dividir a personagem de Mabel entre diversas atrizes, acabou transformando a peça de teatro em roteiro cinematográfico.

Mas quem teria interesse em financiar um filme sobre uma mulher de meia-idade enlouquecendo? Aliás, fontes da época revelam que os grandes estúdios recusaram o projeto porque “ninguém está interessado nos problemas das mulheres”. Diante das dificuldades de financiamento, Cassavetes e Rowlands colocaram sua segurança econômica em risco: hipotecaram a casa e recorreram a amigos e familiares. Peter Falk, ator que interpreta Nick, marido de Mabel no filme, foi decisivo. Gostou tanto do roteiro que investiu cerca de 500 mil dólares na produção, metade do orçamento estimado. Gena resumiria depois a experiência dizendo que eles não tinham dinheiro, mas tinham muitos amigos atores interessados no projeto, e todos ajudaram como puderam.

É interessante pensar que uma das grandes conclusões a que chegamos ao assistir a "Uma Mulher sob Influência" é que a família é realmente o berço de todas as neuroses. No entanto, o filme contou com grande apoio das famílias no elenco, na equipe, na garantia financeira e até mesmo como fonte de inspiração: Katherine Cassavetes, mãe de John, interpreta a mãe de Nick; Lady Rowlands, mãe de Gena, interpreta a mãe de Mabel.

Adentrando o filme, Nick é chefe de uma equipe de serviços públicos. Quando um cano de água estoura na cidade, ele telefona preocupado para sua esposa, Mabel. Eles têm três filhos pequenos — Tony, Angelo e Maria —, que ela já havia deixado aos cuidados da avó para que os dois pudessem passar a noite juntos e sozinhos. Quando Nick liga, já sabemos que a reação de Mabel pode ser ruim, e essa sensação de que algo terrível pode acontecer a qualquer momento permeia todo o filme. Momentos antes, Nick havia comentado com um colega de trabalho que Mabel “não é louca, é incomum”.

Sozinha, bêbada e entediada, Mabel caminha pela noite e chega a um bar, onde conhece o desajeitado Garson Cross. A interação é confusa: ela o trata como se já se conhecessem, em alguns momentos reclama do marido e, em outros, parece confundi-lo com Nick. Cross a leva para casa e a força a manter relações sexuais enquanto ela tenta, em vão, resistir. Na manhã seguinte, Mabel, desorientada, discute brevemente com Garson e o manda ir embora. A montagem nos confunde, pois, na sequência, Nick chega em casa com uma equipe inteira depois da noite de trabalho. Em um primeiro momento, temos a impressão de que marido e agressor se encontrarão, o que não ocorre.

Mabel prepara espaguete para todos, buscando ser uma boa anfitriã, e pergunta o nome de cada um, ainda que diversos deles já a conhecessem. A refeição é superficialmente agradável até Nick se irritar com Mabel, causando constrangimento em todos. Ela é calorosa com os convidados e parece não perceber quando está sendo inconveniente. Os amigos de Nick usam um telefonema como desculpa para sair às pressas dali.

O casal Cassavetes e Gena: roteiro escrito por ele para ela

O filme é muito hábil ao nos apresentar a vida cotidiana, o relacionamento de Nick e Mabel e a forma como ela cuida das crianças, criando uma imensa conexão entre os personagens e quem assiste. Mabel organiza um encontro entre seus filhos e outras crianças, mas o pai delas se incomoda com seu comportamento. A sequência em que Mabel dança ao som de "O Lago dos Cisnes" é uma das mais sensíveis do filme. Nela, nota-se a linha tênue entre sua tentativa de se relacionar com as crianças e uma espécie de alienação da realidade. Ela parece habitar um universo próprio e estar alheia ao que ocorre ao seu redor. Isso é resultado da construção harmoniosa de John Cassavetes, que filma em closes, movimentos fluídos de câmera na mão, dando a impressão de que tudo ali é real, e a incrível atuação de Gena Rowlands, que parece se transformar em outra pessoa.

Nick chega em casa com sua mãe, Margaret, e encontra todas as crianças seminuas, correndo descontroladamente, enquanto o pai das outras crianças, Jensen, tenta vesti-las. Nick dá um tapa em Mabel e começa uma briga com Jensen, furioso, mas Margaret os separa, e o homem vai embora com os filhos. Desesperado, Nick liga para o médico de Mabel, Dr. Zepp, para avaliar a saúde mental da esposa. Mabel fica agitada, principalmente com a presença da sogra, que a chama de má esposa e mãe inadequada enquanto Nick tenta acalmá-la. Ela se distancia cada vez mais da realidade e resiste violentamente quando o Dr. Zepp tenta aplicar uma injeção de sedativo. Convencido de que ela se tornou uma ameaça para si mesma e para os outros, o médico determina sua internação involuntária.

Abalado e incapaz de lidar com a ausência da esposa, Nick desconta sua raiva nos colegas de trabalho e leva os filhos à praia, tentando criar com eles um momento de conexão. Aqui estão alguns dos momentos mais marcantes do filme: na ausência de Mabel, Nick demonstra ser incapaz de cuidar das crianças, levando-as a uma praia fria e dando-lhes cerveja para “experimentarem”. Contudo, seu comportamento e sua sanidade não são questionados como os de Mabel.

Seis meses após a internação, Mabel retorna para casa. Nick prepara uma festa de boas-vindas e enche a casa de pessoas, mas logo todos percebem que aquele não é o momento para estarem ali e que a família precisa de privacidade. Toda a recepção de Mabel se torna constrangedora: insegura após o período de internação, ela não sabe como se comportar, enquanto o marido insiste para que todos ajam “normalmente”. Mabel parece estar pisando em ovos, cuidando de cada ação para poder rever os filhos. Todos parecem julgá-la e temem o que pode acontecer, mesmo quando seu pedido é razoável: quer que os convidados saiam para que possa ficar sozinha com a família. Memorável a cena em que Mabel pergunta ao seu pai se ele irá lhe dar suporte, e ele se levanta, como se compreendesse a frase de maneira literal. É como se fosse impossível para os outros entenderem Mabel.

Sozinha com Nick, a crise mental e a tensão aumentam. Mabel tenta se ferir e Nick reage com violência. As crianças procuram protegê-la e reafirmam seu amor pela mãe. Depois da crise, Mabel e Nick cuidam dos filhos, tratam o ferimento dela e arrumam silenciosamente a casa, retomando a rotina familiar.

O final é emblemático e possibilita diversas interpretações. Pode representar uma reconciliação, na qual os dois dão uma trégua aos conflitos, ocultam os vestígios da crise e tentam retornar à rotina. Mabel não está necessariamente recuperada, mas volta a desempenhar os papéis de dona de casa, mãe e esposa, dentro de uma realidade que lhe é imposta. Ao mesmo tempo, ela e Nick arrumam a casa juntos como quem deseja restabelecer a ordem das coisas, porque se amam e querem que tudo dê certo. Minha interpretação reúne um pouco de cada uma dessas possibilidades, mas parte, principalmente, da ideia de que a normalidade também é uma performance: os dois se esforçam para desempenhar os papéis que lhes foram impostos e manter a família funcionando. A influência a que o título se refere manifesta-se justamente nessas expectativas que determinam como Mabel deve agir, sentir e amar. Também aprisionam Nick em sua necessidade de controlar e preservar uma ideia de felicidade familiar.

No período em que começaram a pensar o filme, Cassavetes e Rowlands já viviam havia mais de uma década as pressões da parentalidade. Naquele momento, tinham em casa um adolescente, uma menina em idade escolar e uma criança de apenas dois anos. Permaneceram casados até a morte de Cassavetes, em 1989, totalizando cerca de 35 anos juntos. O filme, portanto, não nasceu no começo de uma paixão ou de uma colaboração recente. Foi feito por um casal que já atravessara quase duas décadas de vida em comum, três filhos, períodos de dificuldades financeiras e várias experiências cinematográficas compartilhadas.

Em determinados períodos do casamento, Cassavetes permaneceu em casa cuidando das crianças enquanto a esposa trabalhava como atriz. Penso que, ainda que tenha sido uma experiência temporária, a percepção da solidão, da repetição e do que significa doar seu tempo e sua vida a alguém também tenha ajudado a construir o roteiro.

Em uma entrevista, Cassavetes definiu a obra como um filme sobre pessoas lutando, vivendo, passando por dificuldades e humilhações. Sua ideia era discutir o quanto é preciso pagar pelo amor: “Eu sabia que o amor criava, ao mesmo tempo, um grande momento de beleza e, por outro lado, tornava você um prisioneiro”.


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trailer de "Uma Mulher sob Influência"




por
  K E L L Y   D E M O   C H R I S T


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KELLY DEMO CHRIST é crítica de cinema vinculada à ACCIRS – Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul e Diretora de Comunicação do Clube de Cinema de Porto Alegre. É formada em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atua também nas áreas de fotografia e montagem audiovisual, com experiência em televisão, plataformas educacionais, redes sociais, publicidade e mídias digitais. Publica esporadicamente suas críticas no site Cinema de Porão.




terça-feira, 25 de agosto de 2026

"Grão", de Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa, e "Banho Maria", de Gabriel Faccini (2026)


O mundo está acabando

Nei Lisboa diz em uma de suas reflexivas canções: “Alguns edifícios por dia/ Desabam dentro da avenida/ E salva-se a filosofia”. Entendidas metaforicamente, estas “edificações” podem muito bem representar aquilo que erguemos como padrões temporais para o ser humano em sociedade. E que está desabando, acabando-se. Antes sólidos, inabaláveis; hoje, contestados, ressignificados. Em crise. Isso serve tanto para os arquétipos filosóficos de jovens tanto homens quanto de mulheres, algo muito bem percebido por curtas-metragens da nova safra do cinema gaúcho exibidos na Mostra Assembleia Legislativa de Curtas-Metragens Gaúchos durante o 54º Festival de Cinema de Gramado, ocorrido entre 12 e 22 de agosto.

Mais propriamente, os filmes com esse olhar imersivo são “Grão”, da dupla rio-grandina Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa, o principal premiado da mostra competitiva, e o não menos instigante “Banho Maria”, de Gabriel Faccini. O primeiro, uma crítica mordaz da masculinidade tóxica. O segundo, uma reflexão existencial do lugar da mulher na sociedade capitalista – e essencialmente machista. Cada um a sua forma, ambos os filmes põem em questionamento estes padrões arraigados – e caducos – do que é (ou deve ser) homem ou mulher, como se, para ser um ou outro, tenha-se que seguir uma cartilha que já não existe mais. Ambos, mesmo em situações distintas, em determinado momento trazem dita a mesmíssima frase: “O mundo está acabando”.  

“Grão”, em especial, pode-se considerar o melhor curta-metragem da temporada (quiçá, o melhor filme gaúcho entre todos do ano). É o aprimoramento do trabalho de Cozza e da Rosa e da produtora Saturno, coletivo que vem realizando produções na mesma linha há alguns anos com grande contundência e assinatura estilística. No primeiros deles, o belo documentário “Construção”, de 2020, sobre uma mãe de família despejada de sua casa e reconstruindo a vida, já se percebia um olhar distinto sobre questões sociais e existenciais por meio de um hibridismo entre documentário e ficção. Porém, foi em “Madrugada”, de 2022, e, logo após, mais transversalmente, “Cassino” (2024), que a dupla adentra no (sub)mundo da sua Rio Grande, cidade portuária com oportunidades mas geradora de um “cinturão” de subempregos ocupados por jovens desqualificados para o que o sistema exige.

trailer de "Grão"

Metais, fumaça, máquinas opressivas e ensurdecedores ruídos industriais imperam sobre um ambiente escuro, de luzes funcionais e impessoais em que os braços fortes não têm capacidade de controlar os sentimentos da vida. Numa fotografia metalingusticamente granulada, edição fragmentada e uma câmera ora atenta a um fato, ora meramente observadora, os personagens masculinos, representados na figura de Leandro, magistralmente interpretado por Leandro Gomes, iludem-se com seus carros possantes, suas músicas altamente insinuantes, seus músculos fabricados e com meia dúzia de notas em dinheiro para aplacar os desejos sexuais. Nada disso mais é suficiente. A transa com a garota desejada, a venda da “caranga”, a curtição com os “bróder”: tudo termina descartado, encalhado, abandonado. Como o antigo barco na praia do Cassino, como os grãos de soja sobrados na beira do mar, como o carro atolado na areia da praia. Como ele mesmo, depois de uma noite de porre e solidão, afundado na terra. Um grão de volta a seu ciclo para poder voltar a existir.

Não apenas o júri principal da Mostra Assembleia Legislativa, que lhe deu três premiações, entre estas, a de Melhor Filme, a Associação de Críticos de Cinema do RS (Accirs) também concedeu o Prêmio da Crítica. Em sua justificativa, a Accirs escreveu: "Por tratar da masculinidade sob uma ótica crítica, com humor e densidade; por tornar um território em crise um personagem central do filme; por deixar transbordar solidão, melancolia e desejo com domínio de recursos visuais e sonoros; a ACCIRS reconhece mais um passo na trajetória investigativa do grupo de realizadores neste universo e premia o curta-metragem 'Grão'". Antes, o filme já havia sido escolhido para a 9ª Mostra Sesc de Cinema – Circuito RS e ganhado o Festival de Tiradentes, em Minas Gerais, o que o tornou apto a concorrer pelo Brasil ao Oscar de 2027, mostrando que a turma da Saturno está madura para, agora, encarar o primeiro longa-metragem. Que venha, pois deverá ser coisa boa.

Construído a partir de outras premissas e escolhas narrativas, “Banho Maria”, embora não tenha levado nenhum prêmio em Gramado – é, igualmente a “Grão”, um dos 14 selecionados da Mostra Sesc desse ano –, é de uma contundência mais sensível, mas não menos branda. Em uma manhã de calor escaldante, uma mulher, Maria (Silvana Rodrigues), decide faltar ao trabalho e aproveitar o dia num parque aquático para refletir sobre si, quando encontra um menino, que está de aniversário, o qual, indiretamente, ajuda-lhe e sua busca interna.

Ao transformar o ambiente do parque aquático em um cenário quase surreal a partir de seus enquadramentos, temperatura de foto e até de efeitos especiais (pequenos, mas muito bem feitos), o filme de Faccini compartilha com o espectador o autoquestionamento da vida de uma jovem preta e trabalhadora de classe média, um dos principais alvos da estrutura misógina e machista da sociedade brasileira, ainda mais por ser uma mulher fora dos padrões estéticos.

teaser de "Banho Maria"

De roteiro eficiente e diálogos idem (são impagáveis as conversas entre a protagonista e o pequeno Alisson, vivido por Lukas Rodrigues), “Banho Maria” reflete esse lugar do feminino preto em um Estado que nega a existência e a contribuição de sua população negra. O espectador é informado parcialmente das inquietudes existenciais de Maria, praticamente apenas a questão da contrariedade dela quanto aos próprias rumos profissionais. Porém, ficam subentendidos propositais “três pontos”, como se, ao mexer nessa estrutura sufocante de sua vida, outros aspectos também haveriam de ser desencadeados.

Estes dois curtas gaúchos convidam o espectador a um movimento de submersão interior simbólico da figura materna, seja um mergulho na água (útero) ou na terra (vida). Se em “Grão” a estranheza se revela pela surpresa da solidão masculina, em “Banho Maria” é a reação (sub)consciente feminina diante de sua realidade opressiva que permite um imergir diferente, mesmo que em “banho maria”, ou seja, ainda em processo de elaboração. Uma tentativa de mergulho em si mesma, nas verdades da personagem mulher e não um enterrar-se na areia como um bicho acuado (Leandro, de "Grão"). Seja pela crítica ou pela revelação, ambas as obras mostram que os valores desgastados daquilo que se entende por ser humano, seja homem ou mulher, já não se sustentam mais. O mundo está acabando, edifícios desabam dentro da avenida. É preciso rever suas bases para chegar a verdades interiores pouco acessadas, mas essenciais para um renascimento. E salva-se a filosofia.

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Daniel Rodrigues

domingo, 2 de agosto de 2026

"Mártires", de Pascal Laugier (2008) vs. "Martírio", de Kevin Goetz e Michael Goetz (2016)

 




Ainda no rastro de Copa do Mundo, mais um confronto internacional no nosso Clássico é Clássico ( vice-versa). O cultuado "Mártires", exemplar básico do cinema extremo francês, consagrado pelos fãs do terror, contra a tentativa norte-americana de refilmagem, mesmo tendo que contrariar as próprias características de cinema comercial.

É tipo aquele jogo que o juiz esqueceu o cartão em casa. Pancada o jogo inteiro, violência comendo solta e nem advertência.
"Mártires", de 2008, do diretor Pascal Laugier, e seu remake "Martírio", de oito anos depois, dos irmãos Goetz, não aliviam, os dois são brutais, a diferença é que o norte-americano parece aquele time que não tem a coragem de entrar na área, e a área, aqui, neste caso, é um nível de violência além do tolerável. 
Com algumas diferenças,  a premissa é basicamente a mesma: uma jovem que fora sequestrada e torturada na infância, anos depois supõe ter encontrado seus torturadores e vai atrás deles com sede de vingança, ainda que a melhor amiga, companheira de internato na infância órfã e de recuperação do trauma, ponha em dúvida se aquela família identificada pela nossa vingadora teria inquestionavelmente relação com as atrocidades cometidas contra a amiga anos atrás. O próprio espectador põe em dúvida se aquele núcleo familiar tão bonitinho e normal seria capaz de coisas tão cruéis a ponto de traumatizar uma pessoa.  
Sim? Não?
Melhor não revelar.
Vou procurar não dar muitos spoilers, mas o fato é que a partir daí, se desencadeiam uma série de situações que deixam o espectador sem respirar e sem acreditar no acontecimento seguinte. E não é uma questão de reviravolta, plot-twist, é porque é tão inesperado que a gente fica cada vez mais tenso, embasbacado, impressionado e incrédulo.

"Mártires" (2008)

Assista ao filme completo: Mártires (2008) Filme Completo DUBLADO 

"Martírio" (2016)


Assista ao filme completo: "Martírio" (2016) - completo dublado


Em ambos essa sucessão de acontecimentos surpreendentes acontece, mas a impressão que dá é que a produção norte-americano de 2016 toma o cuidado de não passar dos limites, de se manter na medida do possível, dentro de um padrão minimamente comercial, enquanto o original francês vai até as últimas consequências. Talvez somente no primeiro contato com a família feliz a refilmagem consiga ter tanto impacto quanto. Fora isso, não chega nem perto, repleto de americanices e suavizações, como no caso da outra garota encontrada em cárcere, uma garotinha sofrida, desesperada, mas inteirinha e saudável; do esfolamento nos porões, bem mais leve e superficial que o do filme francês; do destino da amiga, preparado e heroico como todo americano gosta; e da sequência final, muito mais 'poética' e apoteótica. (E podem fiar tranquilos, pois estou sendo bem genérico para não correr o risco de revelar muito).
Enfim, "Mártires" bate impiedosamente em "Martírio", espanca, tortura e ainda tira o couro do time yankee.
Uma goleada fácil, um 5x0 com requintes de crueldade. 

Ambas as cenas do "êxtase" final.
À esquerda o original, que parece um Hellraiser de tão horrendo, 
e à direita, o remake que está mais para mais o Auto da Compadecida,
só arranca uma tira de couro.


E o time norte-americano apanha resignado, conformado, 
sofrendo por que sabe que tem que sofrer pois
Não há outra coisa a fazer diante do fortíssimo time francês.





Cly Reis

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Sessão Comentada filme "Quilombo" - Centro de Debates Democracia & Cultura (CDDC) - EEEM Campos Verdes - Alvorada/RS (19/05/2026)


Dentre os trabalhos que desenvolvo com cinema e crítica, como curadorias, júris e espaços de debate, um me deu especial alegria, que foi a sessão comentada do filme “Quilombo” na Escola Estadual de Ensino Médio Campos Verdes, na cidade de Alvorada, na região Metropolitana de Porto Alegre, alusiva ao 13 de maio, dia da Abolição da Escravidão, ocorrido dias antes. O convite veio pelo agitador Lincon Fonseca, coordenador do Centro de Debates Democracia & Cultura (CDDC), militante do Congresso Nacional Afro-Brasileiro (CNAB) e ex-aluno de meu curso sobre Cinema Negro ano passado e que, percebendo minha paixão pelo mesmo filme, que comento no curso, teve a ideia de exibi-lo para os alunos do colégio e promover um debate após a sessão.

E eu não estava só. Juntamente comigo e Lincon, estiveram: Carl Marx (sim, eu debati com Carl Marx!), estudante de filosofia na UFRGS e militante do CNAB; Danusa Alhandra, militante da União Brasileira de Mulheres (UBM-RS) e da União Nacional de Negros e Negras (UNEGRO-RS); Eduardo Fortes, professor, quilombista, presidente da ONG UmBUNTU e vereador suplente em Alvorada; e Nicolas Marques, presidente da União Gaúcha dos Estudantes (UGES) e militante da Juventude Pátria Livre.

Todos falaram sobre o filme a partir de suas percepções e vivências, o que certamente gerou um conteúdo rico para a gurizada que participou. De minha parte, comentei brevemente sobre a realização de “Quilombo” e seu contexto dentro da cinematografia negra do cinema brasileiro e a de seu realizador, o cineasta alagoano Cacá Diegues (1940-2025). Também expus minha admiração sobre a obra, talvez o grande épico do cinema nacional, e a importância de trazer à tela heróis negros até muito pouco tempo desvalorizados e invisibilizados na História oficial do país.

No filme, que se passa no Nordeste brasileiro do século 17, diversos escravos fogem e se unem para formar o Quilombo dos Palmares, no interior de Alagoas, aproveitando-se da fraqueza do governo colonial, que enfrenta a invasão holandesa. Sob o comando de Ganga Zumba - e depois de Zumbi -, o quilombo prospera e os ex-escravos tornam-se uma força militar e comercial poderosa, ameaçando o domínio dos colonizadores e a autoridade real. Logo, as forças da ordem se mobilizam para liquidar com os afro-brasileiros rebeldes numa guerra sangrenta que se estenderá por muitos anos. Quilombo dos Palmares existiu/resistiu por cerca de 1 século.

Cena de "Quilombo", com trilha sonora de Gilberto Gil

Mais sobre “Quilombo” teria para falar, assim como na ocasião para os alunos da Campos Verdes, a quem expus apenas parte do possível e o mínimo para uma fala que interessante, uma vez que outras vozes trariam a eles outras contribuições. Não coube, por exemplo, mencionar a maravilhosa trilha sonora do filme, feita especialmente por Gilberto Gil em parceria com Wally Salomão. Ao final, já saindo da escola, um dos alunos passou por mim e agradeceu pela oportunidade. Considerei um ótimo retorno, tendo em vista que, se já é cada vez mais difícil as pessoas dizerem alguma coisa, quanto mais adolescentes, que são mais fechados, tímidos ou absorvidos pelos seus próprios mundos. Ademais, nunca se sabe de fato o que as pessoas acharam, mesmo com os protocolares aplausos ao final... Independentemente disso, a oportunidade em si foi única e a iniciativa do CDDC louvável. Por mais atividades culturais e cinematográficas assim para os jovens das nossas periferias.

Confira nas fotos um pouquinho de como foi:

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Lincon fazendo a abertura


Eu falando um pouco sobre o filme e a obra de Cacá Diegues


Quilombo ao fundo corroborando comigo


A vez de Danusa Alhandra conversar com a galera


O quilombista Eduardo Fortes atraindo as atenções


A numerosa turma do Campos Velho presente


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texto: Daniel Rodrigues
fotos: Cini

domingo, 19 de julho de 2026

"Todos Já Sabem", de Asghar Farhadi (2018)


Talvez nem todos saibam, mas o filme “Todos Já Sabem” já foi motivo de resenha no Clyblog, em 2019, pelas mãos do nosso colaborador Vagner Rodrigues. Na ocasião, Vagner apontou as qualidades desse trhiller misterioso, cuja composição é distinta e certeira: o talento do elenco (os espanhóis Penélope Cruz e Javier Bardem mais o argentino Ricardo Darín), a competência do diretor (o iraniano Asghar Farhadi) e a história envolvente. Mas é exatamente essa junção exitosa que nos motiva a, novamente, falarmos do filme no blog. Afinal, hoje tem final da Copa do Mundo inédita entre Espanha e Argentina, e um filme que reúne “em campo” justamente esses dois países – e de forma tão certeira – merece, sim, ser revisitado diante da atual ocasião.

O roteiro do filme, se não todos, muitos já sabem, haja vista que a produção é de 8 anos atrás. Por isso, relembremos: “Todos...” conta a história de Laura (Penélope), que retorna à Espanha natal para acompanhar a cerimônia de casamento de sua irmã. Por motivos de trabalho, o marido argentino (Darín) não pode ir com ela. Chegando no local, Laura reencontra o ex-namorado, Paco (Bardem), que não via há muitos anos. Durante a festa, uma tragédia acontece. Toda a família precisa se unir diante de um possível crime de grandes proporções, enquanto se questionam se o culpado não está entre eles. Na busca por uma solução, segredos e mentiras são revelados sobre o passado de cada um.

Afora trazer na mesma produção Argentina e Espanha, “Todos...” nos apresenta semelhanças cinematográficas que também unem esses dois países. A história faz bem lembrar a ótima fase recente do cinema argentino, que produziu vários thrillers empolgantes como “O Segredo dos Seus Olhos”, “Vermelho Sol” e "Kóblic", além de jogar luzes sobre Darín, um dos melhores atores deste século. Igualmente, o filme faz remontar o clássico cinema espanhol, como o fantástico de Victor Erice e as tramas de suspense psicológico de obras como “Dispara!” e “O Sétimo Dia”, estes dois últimos do saudoso Carlos Saura - que, aliás, já havia feito a ponte entre seu país natal e o sul-americano nos documentários "Tango", de 1998, e "Argentina", de 2015. Colabora para este resultado a direção de Farhadi, representante de uma escola cinematográfica tão importante do novo cinema mundial como a do Irã. 

Espanha e Argentina em campo, só que no cinema, por meio dos astros
Penélope Cruz, Ricardo Darín e Javier Bardem

Igualmente, “Todos...” também aproxima os países finalistas da Copa por um motivo até então inédito na competição: será apenas a segunda vez em quase 100 anos que os dois principais times falam o mesmo idioma! Já teve de tudo em termos idiomáticos em Copas: português com italiano, espanhol com holandês, francês com croata, alemão com húngaro, italiano com checo... mas espanhol com espanhol só lá na primeira edição, em 1930, quando Argentina e Uruguai se enfrentaram. Geopoliticamente falando, é a primeira vez que, a rigor, um país colonizador enfrenta um colonizado por ele mesmo, relação esta que remonta a mais de 500 anos!

História à parte, será um grande jogo e que reescreverá, sim, um novo capítulo histórico, Em campo, o próprio estilo de jogo de cada equipe é parecido, valorizando a bola e contando com a força do coletivo. No cinema, arte essencialmente coletiva, essa química entre espanhóis e argentinos já deu muito certo, a se ver por outros títulos hispano-argentinos como o já citado "O Segredo...", "Um Conto Chinês" e “Truman”, todos, aliás, também com Darín. O suspense de Farhadi mostra bem isso, pois cada um dos países, Espanha e Argentina, são escolas craques nas quatro linhas que formam a câmera. Isso “todos los saben”, Agora, falta saber qual escola, mas a do futebol, se saíra melhor nas quatro linhas do gramado.

trailer de "Todos Já Sabem"


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"Todos Já Sabem"
Título Original: "Todos lo Saben"
Direção: Asghar Farhadi
Gênero: Thriller, Suspense
Elenco: Penélope Cruz, Javier Bardem, Ricardo Darín
Duração: 2h13min
Ano: 2018
País: Espanha, França, Itália, Argentina
Onde assistir: Prime Vídeo, Apple TV, Google Play Filmes

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Daniel Rodrigues

terça-feira, 30 de junho de 2026

"Pânico em Alto Mar", de Hans Horn (2006) vs. "Medo Profundo" ou "Perdidos", de Sergio Graciano (2017)

 


Ao contrário das seleções que representam esses dois países na Copa do Mundo, nenhum dos dois é um grande time aqui. Sei, sei que Portugal não está lá essas coisas, cheio de biquinhos e crises internas, e a Alemanha acaba de dar adeus à competição, mas ambos têm inegavelmente grandes jogadores e são respeitados no mundo do futebol. 

Nossos concorrentes cinematográficos aqui, estão mais para aquelas seleções medianas que já se dão por muito satisfeitas por estarem em uma Copa e se conseguirem aprontar contra um grande ou passar de fase, é o bastante para ser decretado feriado nacional no país.

Tanto o original, "Pânico em Alto Mar", produção alemã, quanto sua refilmagem portuguesa, "Medo Profundo", também conhecida como "Perdidos", não tem credenciais para transitar em qualquer rol de grandes filmes, embora o primeiro seja frequentemente mencionado como um bom suspense, no mínimo tenso e envolvente.

Rigorosamente com o mesmo enredo, em ambos um grupo de amigos que não se vê há algum tempo, é convidado por um deles para um passeio em seu iate particular, sendo que uma das convidadas, Amy no  original e Ana, na refilmagem, está casada e leva seu pequeno bebê (Sarah, no primeiro e Henrique na mais nova versão). O problema é que, lá pelas tantas, um resolve dar um mergulho no mar, outro o segue, e o babaca e inconveniente dono do iate, mesmo sabendo do problema que a protagonista tem com água, a força a entrar com ele. Só que estúpido como é, esquece de descer a escada antes de se jogar no mar e deste modo, não há  ninguém dentro da embarcação para lhes ajudar a voltar a bordo, a não ser um bebê de colo que por enquanto dorme, mas que com o passar das horas vai ficar impaciente, desidratado e faminto. Aí começa o drama da tripulação, toda na água, entre conflitos, desavenças, cansaço, cãibras, fome, sede e o desespero crescente.

"Pânico em Alto Mar" (2006) - trailer


"Medo Profundo"/ "Perdidos" (2017) - trailer


Bem feito, caprichado, com cuidados evidentes de luz e fotografia, atuações convincentes, a produção alemã falada em inglês tem bons predicados e alguns bons diferenciais que o sustentam.

Já o mesmo não se pode dizer da versão lusitana. Superficial, desleixado, apressado, ele suprime, por exemplo, a origem da fobia da protagonista por água, fazendo parecer um mero medinho. O filme alemão, por sua vez, usa flashbacks da infância de Amy para chegar na origem daquele pavor por água, o que é reforçado constantemente de alguma forma, de modo que o espectador entenda que não se trate de um mero capricho. E tem a presença mais constante do bebê que fica abandonado na embarcação, sua menção, seu choro, a preocupação dos pais impotentes na água; a relação do casal harmoniosa e afetuosa no original e conflituosa no remake, o que não representa nenhum ganho; temos uma construção mais completa e coerente da relação dos amigos no barco; além de um fotografia cuidadosa que faz questão de reforçar visualmente a infinidade do mar e a impossibilidade de chegar a algum lugar sem ajuda, e que cuida para não cair no apelativo ou sensual quando todos tem que ficar nus, com tomadas e luz precisas que não revelam qualquer parte intima em momento algum. Detalhes, detalhes que fazem o filme de 2011 nadar de braçada no confronto.

O resultado é vitória fácil de Pânico. Não é ameaçado em momento algum, mas como também não é um grande time, faz só aquele  2x0  clássico. 

À esquerda, no original, o grupo tentando algum recurso para voltar à embarcação.
à direita, no remake, os amigos ainda desfrutando do passeio de iate.


Pânico em Alto Mar não é nenhuma grande time mas fez uma partida correta e 
fez naufragar qualquer pretensão de Medo Profundo.


Cly Reis


domingo, 21 de junho de 2026

"Penalidade Máxima", de Barry Sholnick (2001)

 



"Penalidade Máxima" é a versão da bola redonda do clássico da bola oval "Golpe Baixo", sem conseguir no entanto conquistar o espectador como o original. Embora até tenha uma boa montagem, uma edição ágil, alguns elementos de trama mais elaborados, o longa britânico soa duro e sem alma. Vinnie Jones que fora jogador de futebol profissional, não tem o mesmo charme nem o carisma do grande Burt Reynolds e isso faz uma certa diferença em se tratando do protagonista para o prestígio do filme.

Em "Penalidade Máxima", Danny Meehan, um ex-jogador de futebol banido da Liga de Futebol depois de um escândalo de armação de resultados, já aposentado e muito vida-loka, é preso e condenado por desordem, baderna, mau comportamento, desacato e outros excessos, e vai parar num presídio onde o diretor é fã de futebol e quer que seu time de guardas vença uma liga amadora. Para tal objetivo, convida o ex-craque que se recusa inicialmente mas que, ameaçado, chantageado, propõe então uma partida entre os guardas e um time de presos treinado por ele.

Há algumas diferenças em relação ao clássico do futebol americano, uma delas é que o administrador da penitenciária, cheio de dívidas com agiotas, pressionado só aceita a ideia de Meehan de uma partida contra os detentos contando com as apostas no jogo para pagar os devedores. Outra pequena diferença é que em "Penalidade Máxima", o melhor amigo de Danny na cadeia não morre no atentado ao craque na cela. Outra é que na versão do soccer, o ex-craque recorre a um 'mafioso' influente dentro da penitenciária para ter os melhores presos para reforçar seu time que em princípio relutam em se juntar a ele e não ao grupo dos negros da cadeia. Tudo isso sem falar no final verdadeiramente explosivo da nova. 

De resto tudo muito parecido: o guarda antipático e implicante, a secretária bonitinha, o grandalhão burro e violento que será o trunfo de força do time, e aqueles clichês de sempre.

A propósito do brutamontes do time, aquele personagem quase gutural dos filmes anteriores, mantido separado em uma ala à parte por sua periculosidade, em "Penalidade Máxima" o personagem é interpretado por Jason Statham, por quem particularmente não tenho nenhuma grande admiração como ator, mas que considero ter sido mal aproveitado considerando sua projeção é representatividade dentro de seu segmento do cara durão, fodão e tal, utilizado no filme como goleiro, distante da áreas de conflito do campo onde renderia mais encontrões e bordoadas.

Pela plasticidade do jogo de futebol, com seus voleios, bicicletas, pontes e mãos trocadas, peixinhos, lambretas, etc., "Penalidade Máxima" tinha potencial para ser uma boa versão em relação ao esporte norte-americano, mas infelizmente não acrescenta nada. ;ainda mais por ter sido muito bem assessorado sobre o esporte e ter contado com vários ex-jogadores. Atores ruins, personagens mal escritos, desperdício de deixas prontas do outro filme, e ,no fim das contas, um produto que não empolga e não é bom o suficiente para ser lembrado.

Apesar de já ter jogado bola, Vinnie Jones não funciona como astro do filme de futebol,
e o futebol (da bola redonda) não funciona como remake do clássico de futebol americano

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"Penalidade Máxima"
Título Original: "Mean Machine"
Direção: Barry Sholnick
Gênero: Comédia esportiva
Elenco: Vinnie Jones, David Kelly, Jason Statham
Duração: 99min
Ano: 2001
País: Reino Unido
Onde assistir: Pluto TV

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por Cly Reis

terça-feira, 16 de junho de 2026

Clyblood #10 - "1978", de Nicolás Onetti e Luciano Onetti (2024)

 


Ditadura militar argentina. O governo do General Videla usa a Copa do Mundo como propaganda política, como cortina de fumaça para todos os problemas sociais, como pão-e-circo, e a seleção nacional, se campeã será o símbolo de um país no caminho certo. 

Um grupo de agentes do governo, no dia da final da Copa do Mundo de 1978, entre um lance e outro do jogo, um  jogo de cartas, uma conferida no placar, a ansiedade pelo resultado, pelo título inédito da Albieleste, tortura jovens rebeldes ao regime em uma instalação afastada de Buenos Aires. Buscam informações a respeito de um suposto grupo revolucionário e não economizam nos métodos cruéis e sádicos para arrancar dos presos a informação sobre a sede do tal movimento rebelde. Eles conseguem o endereço, vão ao tal local, invadem e prendem um grupo nada peculiar em atividades um tanto estranhas para um núcleo subversivo. Pois é... e não era mesmo uma organização insurgente. Informação errada! Tratava-se de um grupo satanista que realizava um ritual que, para azar dos agentes, se completaria, lá, dentro dos muros da ditadura. 

Possuídos, os membros do culto, ficam incontroláveis, sedentos de sangue e famintos por carne humana promovendo uma terrível carnificina dentro da cadeia, não fazendo diferenciação entre torturadores e torturados.

Uma figura sobre o verdadeiro mal. O homem e suas ideologias políticas ou o que tememos como demoníaco ou sobrenatural. O que é pior? 

Ambas as violências são terríveis e chocantes, mas, em nome do terror, o massacre dos demônios tem mais sangue, tripas e é bem mais impressionante para a telona. A cena em que devotas de satã arrancam o pênis de um dos torturadores é absolutamente brutal e repugnante, só para ficar em um momento desses horripilantes do filme.

No geral, "1978" não é um grande filme, se perde entre a mensagem política e o terror, e a amarração das duas coisas na trama é muito frágil, inconsistente, pouco trabalhada. Vale minimamente pela reflexão que levanta sobre qual é verdadeiro terror, e, para os fãs do gore, do splatter, é claro, vale especialmente pelo horror gráfico e pelo banho de sangue.

Queriam encontrar os 'vermelhos'? Tá aí o vermelho pra vocês.


"...E a rebelde endemoniada tira as bolas do torturador!
Que beleza!"
Isso sim é que é futebol arte.



por Cly Reis

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"1978" 
título original: "1978"
direção: Nicolás Onetti e Luciano Onetti
elenco: Agustín Olcese, Mario Alarcón, Carlos Portaluppi
gênero: terror, gore, splatter
país: Argentina
ano: 2024
onde assistir: HBO Max

quinta-feira, 11 de junho de 2026

"Yojimbo, O Guarda-Costas", de Akira Kurosawa (1961) vs. "Por Um Punhado de Dólares", de Sergio Leone (1964)

 



Tá, agora parou a brincadeira! Tirem as crianças da sala que aqui é conversa de gente grande. Se Japão vs. Itália não é um grande clássico no futebol, uma vez que os orientais não tem uma seleção tradicional e os italianos vem de fracassos e ausências recentes em Copas do Mundo, no cinema, pelo contrário, representam duas escolas clássicas e premiadas. E aqui o jogo é ainda maior por conta dos donos do espetáculo. De um lado Akira Kurosawa e do outro o italiano Sergio Leone que numa produção conjunta com Alemanha e Espanha, refilma o clássico do mestre japonês e tentar superá-lo.

Ótimo oponente, por sinal. Somente um especialista em faroestes como Leone para ousar desafiar as sagas de samurais errantes de Kurosawa.

Nos dois filmes, um forasteiro sem origem e sem destino chega a um vilarejo dominado por duas famílias rivais que impõe autoridade, pavor e submissão aos habitantes. O aventureiro percebe a oportunidade de ganhar alguns trocados por ali mas logo, desmandos, crueldades e injustiças fazem com que seu senso de moral fale mais alto que o dinheiro e ele passe a agir em prol dos oprimidos da pequena aldeia, especialmente um casal que é arbitrária e cruelmente afastado de seu filho pequeno.

Com algumas diferenças de andamento e de ação a trama das duas versões é  praticamente a mesma. O herói,  ardiloso e sagaz, se infiltra nas famílias e as corrói por dentro causando-lhes danos e prejuízos, fazendo com que cada vez mais uma se volte contra a outra.


"Yojimbo, O Guarda-Costas" (1961) vs. "Por Um Punhado de Dólares (1964) - lado a lado


Kurosawa dá um pouco mais de contextualização social, Leone imprime um pouco mais de dinâmica, o preto e branco do primeiro é elegante e salienta os contrastes, o colorido do outro reforça a aridez do ambiente, enquanto o italiano desde cedo sugere que exista alguma questão envolvendo uma família, o japonês só nos apresenta mesmo a situação da criança bem adiante, se o faroeste spaghetti de Leone tem a excitação das balas e dos tiros, a ação samurai tem o balé das espadas. Difícil estabelecer algo melhor...

E o que falar dos craques dos craques de cada time? Toshiro é o equilíbrio na medida certa entre a sobriedade e a intensidade, Clint, aquele personagem incógnito, indecifrável, inabalável.

O time italiano conta com outro craque no time, o maestro Ennio Morricone na batuta, com mais uma trilha marcante, porém o menos conhecido no mundo ocidental, mas não menos competente Masuro Satō não deixa por menos e entrega uma trilha pontual e precisa.

Impossível dar a vitória para um dos dois. Esse é daqueles jogos históricos de Copa, tipo, 5x5. Daqueles duelos que ficam pra sempre na memória do torcedor. 

O charme imponente de Toshiro e a tranquilidade impenetrável de Clint.
 Dois times com matadores como esses só podia resultar num jogo de muitos mortos... digo,
quero dizer...muitos gols.


No duelo da espada contra a pistola,
ninguém ficou com a vantagem.
Tudo igual num jogo de craques na beira do campo e dentro dele.




Cly Reis

terça-feira, 9 de junho de 2026

Seminário “14 de Maio - O Dia Seguinte. E agora?” - Teatro Roberto Atayde Cardona - Montenegro/RS (14/05/2026)


Por essas coisas da vida, no ano passado estive na cidade de Montenegro dando meu curso sobre Cinema Negro na Fundarte, através do Sesc Montenegro, Naquela ocasião, meu irmão Tiago Ritter, montenegrense, sabendo que estava na sua cidade-natal, me manda um áudio de whats dizendo: “Ah, tu tá em Montenegro?! Então, vou avisar uma pessoa que eu conheço, que gostaria muito que vocês se conhecessem, pois admiro vocês dois”. Gol. A pessoa a quem Tiago se referia era Rogério dos Santos, presidente da Central Única das Favelas - Cufa RS Montenegro e a quem ele conhecia não só a pessoa como o trabalho que desenvolvia há bastante tempo.

Pois, passado quase um ano após o curso, sou convidado a participar, integrando um seleto grupo de painelistas, do seminário pertinentemente intitulado: “14 de Maio - O Dia Seguinte. E agora?”, ocorrido nesta data no Teatro Roberto Atayde Cardona, e com a companhia de Leocádia.. 

Digo “pertinentemente intitulado” porque o seminário, realizado pela Cufa RS Montenegro através do projeto Resgate Negro do Vale do Caí, propõe uma reflexão sobre o que veio depois do 13 de maio de 1888, data da assinatura da Lei Áurea, que aboliu formalmente a escravidão no Brasil. O 14 de maio simboliza justamente o dia seguinte, quando a população negra foi deixada sem reparação, sem políticas de inclusão e sem acesso real à cidadania. Algo que eu exploro em meu curso e que considero o principal ponto de inflexão sócio-histórico da população negra no Brasil.

Para minha satisfação e orgulho, subi no mesmo palco que pessoas de renome nacional e regional, algumas as quais muito admiro, como Celso Athayde, presidente da Cufa Global; o escritor Itamar Vieira Junior; a líder comunitária Rozeli da Silva; e a deusa negra Zezé Motta, com quem, por rápido momento estive e pude entregar-lhe um exemplar do livro da Accirs e registrar uma foto.

A mesa de debate a qual compus foi para tratar do tema: “Raízes Negras da Cultura Brasileira” e que tive a felicidade de dividir com a mãe-de-santo e líder comunitária Cláudia Chu, o professor de música Renato Batista, o músico senegalês radicado no RS Kanhanga e mediação do querido jornalista Marck B. Dentre as preciosas falas do debate, a minha foi na linha da valorização e contextualização do cinema negro no Brasil, considerando os dois pontos de partida: a famigerada Abolição da Escravatura, em 1988, e a criação do cinema, poucos anos depois, em 1895. Isso explica em parte porque, somente nos anos 40 algum eco de cinema sobre as questões do povo negro começaram a ser tratadas na tela grande.

Também teve aquelas que tive o prazer de conhecer e assistir, como a empreendedora Gabi Valente, a advogada Danielle Araújo, a líder comunitária Maira Azevedo e a educadora e filósofa Bárbara Carine, vencedora do Prêmio Jabuti Educação pelo livro "Como Ser um Educador Antirracista" e criadora da louvável escola Afro-Brasileira, na Bahia. Que fala potente e descolonizadora a sua! Daquelas que mexeu com a emoção de todos na plateia. Quem também deu um show – e arrancou ao mesmo tempo gargalhadas e consternação da plateia com sua fala consciente e combativa sobre as mães pretas na sociedade brasileira, foi a comunicadora Tia Ma. Discussões que só um evento deste calibre e força simbólica este pode oportunizar.

Pela manhã, abertura oficial do seminário


Zezé Motta e Rozeli da Silva mediadas por Rogério dos Santos


Nos bastidores com a deusa Zezé Motta, a quem presenteei com um livro da Accirs


Também prestigiei Celso Athayde e seu filho, Vinicius, com quem troquei autógrafos


Itamar Viera Jr. falado sobre sua escrita negra


Nós no debate sobre Raízes da Cultura Negra Brasileira


Trecho de minha participação no seminário


Ao final com os companheiros de debate Marck, Cláudia, Renato e Kanhanga


Foto só sorrisos com Marck B e o idealizador do evento, Rogério dos Santos




texto: Daniel Rodrigues
fotos e vídeo: Daniel Rodrigues e Leocádia Costa