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terça-feira, 1 de setembro de 2026

54º Festival de Cinema de Gramado - Os Premiados

 

Em tempo, trazemos os vencedores do Festival de Cinema de Gramado deste ano. Afora a Mostra Assembleia Legislativa de Curtas-Metragens Gaúchos, a qual acompanhei de cabo a rabo como nos outros anos por conta da participação da Accirs com o Prêmio da Associação (Crítica), as outras mostras todas, por conta de compromissos que me fizeram deixar Gramado com o evento rolando, não foi possível acompanhar em suas totalidades. Algum longa nacional aqui, um documentário ali, um curta nacional acolá, mas ainda por assistir muita coisa.

O que não quer dizer que não devamos destacar aqui os premiados. E olha que tem coisa bem interessante, como o grande vencedor da noite, o mineiro “Nosso Segredo”, de Grace Passô, que além de Melhor Filme ainda levou outros dois Kikitos (Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte). Quem também se destacou foi “Feito Pipa”, do cearense Allan Deberton, diretor cujo longa de estreia, “Pacarrete”, de 2020, abocanhou os principais prêmios daquele ano em Gramado e foi literalmente ovacionado. Desta vez, seu bonito filme ficou com o que merecia: Melhor Longa-Metragem Brasileiro pelo Júri Popular, Diretor, Atriz (Teca Pereira) e Ator Coadjuvante (Lázaro Ramos), além de uma Menção Honrosa ao ator mirim para Yuri Gomes. O prêmio de Melhor Longa-Metragem Brasileiro pelo Júri da Crítica ficou com “Leite em Pó” (MG/SP/RN), de Carlos Segundo, que também venceu em Melhor Roteiro (Carlos Segundo e Rafael Copel) e Melhor Desenho de Som (Waldir Xavier).

Ainda em nível nacional (onde há anos não concorre nenhum filme gaúcho, há de se saber por que), o documentário premiado foi “Gonzaguinha, da Maior Liberdade”, da competente diretora Susanna Lira. A se ver por outros trabalhos dela (“Torre das Donzelas”, “Mussum, um Filme do Cacildis”, “Fernanda Young: Foge-me ao Controle”) é de se imaginar que, tratando justamente da efervescente vida e militância política do talentoso compositor carioca, tenha-se aí um filme realmente apreciável. Tanto que bateu um considerado nos corredores de Gramado como favorito: “O Projeto”, de Sabrina Fidalgo e Yvan Rodic, que abriu a Mostra dedicada aos documentários e impressionou quem assistiu por seu roteiro, montagem e, principalmente, contundência na mensagem, que avalia e critica o colonialismo pelo mundo.

Vindo para o Rio Grande do Sul, além dos destaques entre os curtas-metragens, que tratei aqui em postagem anterior ao falar de “Grão” e “Banho Maria” (sem falar de "O Véu", "Coisa Ruim" e "Estátuas Também Morrem?" outros bons títulos da safra), teve também a Mostra Sedac/Iecine de Longas. Nesta, quem saiu com vários prêmios foi “A História mais Triste do Mundo”, de Hique Montanari, uma das duas ficções entre os cinco concorrentes, sendo os outros três documentários. E foi justamente um dos docs que se sagrou o principal agraciado do festival desse ano: “Filhas da Lua”, de Tatiana Sager, o qual ainda foi o escolhido do Júri Popular e da categoria de Melhor Montagem. Semelhante ao que comentei sobre Susanna, os antecedentes de Tatiana e seu parceiro Renato Dornelles ("Central", "Olha pra Elas") dão bons indicativos que se trata de uma obra, sim, merecedora dos reconhecimentos que levou.

Foi uma passagem rápida por Gramado, mas sempre satisfatória. Ano que vem tem mais e, quem sabe, para acompanhar do início ao fim como fiz em 2025. Fiquem, então, com a listagem dos premiados de Gramado em cada Mostra:  

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LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS

Melhor Filme: “Nosso Segredo”, de Grace Passô

Melhor Filme pelo Júri Popular: “Feito Pipa”, de Allan Deberton

Melhor Filme pelo Júri da Crítica: “Leite em Pó”, de Carlos Segundo

Melhor Direção: Allan Deberton por “Feito Pipa”

Melhor Atriz: Teca Pereira por “Feito Pipa”

Melhor Ator: José Loreto por “Chorão: Só os Loucos Sabem” e Christian Malheiros por “Justino: Nos Bastidores do Reino”

Menção Honrosa: Yuri Gomes por “Feito Pipa”

Menção Honrosa: Onna Silva por “Justino: Nos Bastidores do Reino”

Melhor Roteiro: Carlos Segundo e Rafael Copel por “Leite em Pó”

Melhor Fotografia: Wilssa Esser por “Nosso Segredo”

Melhor Ator Coadjuvante: Lázaro Ramos por “Feito Pipa”

Melhor Atriz Coadjuvante: Naruna Costa por “Pele de Rinoceronte”

Melhor Desenho de Som: Waldir Xavier por “Leite em Pó”

Melhor Trilha Musical: Otávio de Moraes por “Chorão: Só os Loucos Sabem”

Melhor Direção de Arte: Lucas Osório por “Nosso Segredo”

Melhor Montagem: André Finotti e José Eduardo Belmonte por “Justino: Nos Bastidores do Reino”

"Nosso Segredo", grande vencedor da edição 2026 do festival




CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS

Melhor Filme: “씨발 (Shibal)”

Melhor Direção: Wesley Gabriel Silva Santos por “Pão Doce”

Melhor Ator: Francisco Gaspar por “Pão Doce”

Melhor Atriz: Chris Couto por “Um Passeio”

Melhor Roteiro: Camila Tarifa por “Mulher Papaya”

Melhor Fotografia: Felipe Ovelha por “Pique-Pega”

Melhor Montagem: Gilson Costa e Thamires Coelho por “Divino: sua alma, sua lente”

Melhor Trilha Musical: Ângelo de Souza por “Graxa e o Zepelin”

Melhor Direção de Arte: Jackson Abacatu por “A menina que queria ser pedra”

Melhor Desenho de Som: Marcos Lopes por “Fúrias”

Melhor Filme pelo Júri da Crítica: “Mulher Papaya”, de Camila Tarifa

Prêmio Especial do Júri: “Revelação”, de Gabriela I. Gaia

Prêmio Canal Brasil de Curtas: “Revelação”, de Gabriela I. Gaia

Júri Popular: “Divino: sua alma, sua lente”, de Clea Torres e Gilson Costa, com codireção de Divino Tserewahú

O curta paulista "Shibal" sagrou-se o vencedor



LONGAS-METRAGENS DOCUMENTAIS

Melhor Longa-metragem Documentário: “Gonzaguinha, da Maior Liberdade”, de Susanna Lira

Menção Honrosa Documentário: “Empeleitada”

Documentário de Susanna Lira sobre Gonzaguinha:
destaque da mostra competitiva




LONGAS-METRAGENS GAÚCHOS (MOSTRA SEDAC/IECINE)

Melhor Longa-metragem Gaúcho: “Filhas da Lua”, de Tatiana Sager

Melhor Montagem: Gabriel Sager Rodrigues por “Filhas da Lua”

Melhor Direção: Hique Montanari por “A História Mais Triste do Mundo”

Melhor Roteiro: Hique Montanari por “A História Mais Triste do Mundo”

Melhor Ator: Arthur Seidel por “A História Mais Triste do Mundo”

Melhor Trilha Musical: João Vitor Costa Dias por “A História Mais Triste do Mundo”

Melhor Desenho de Som: Gabriela Bervian por “A História Mais Triste do Mundo”

Melhor Fotografia: Juarez Pavelak por “A História Mais Triste do Mundo”

Melhor Atriz: Áurea Baptista por “Remanente - Voltagem”

Melhor Direção de Arte: Tiago Retamal por “Remanente - Voltagem”

Júri Popular: “Filhas da Lua”, de Tatiana Sager


MOSTRA GAÚCHA DE CURTAS (PRÊMIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA)

Melhor Filme: “Grão”, de Gianluca Cozza e Leonardo Rosa

Melhor Ator: Leandro Gomes, por “Grão”

Melhor Atriz: Gaby Buffon, por “Elisete tem que casar!”

Melhor Direção: Gabriel Motta, por “O Véu”

Melhor Roteiro: Thais Fernandes, por “Estátuas também morrem?”

Melhor Fotografia: Lívia Pasqual, por “Drunken Car”

Melhor Montagem: Gabriela Kopp, por “Claudete”

Melhor Direção de Arte: Marco Arruda, por “Raidinalha”

Melhor Trilha Sonora/Melhor Música: Otávio Vassão, por “Grão”

Melhor Edição/Edição de Som: Fernando Efron, por “Raidinalha”

Melhor Produção Executiva: Allan Riggs e Guilherme Suman, por “Terra Bruta”

Melhor Figurino: Beatriz Pieratti, por “Drunken Car”

Menção Honrosa: “O Acumulador de Memórias”

Prêmio Accirs - Júri da Crítica: “Grão”

"Filhas da Lua", de Tatiana, doc sobre a vida de mulheres
que sobreviveram ao sistema prisional


HOMENAGENS ESPECIAIS

 Troféu Oscarito - Andréa Beltrão

Troféu Eduardo Abelin - Renata Almeida Magalhães

Kikito de Cristal - Selton Mello e Maria Fernanda Cândido

Troféu Cidade de Gramado - Marcos Caruso

Troféu Sirmar Antunes (Assembleia Legislativa) - Jorge Henrique Boca

Prêmio Iecine Destaque - Renato Dornelles e Tatiana Sager

Prêmio Iecine Inovação - Filipe Matzembacher e Marcio Reolon 

Prêmio Iecine Legado - Gisele Hiltl

Prêmio Leonardo Machado - Silvia Duarte


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Daniel Rodrigues

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Música da Cabeça - Programa #472


Olhe para o céu! Que beleza, né? Ah, você pensou que estávamos falando do eclipse? Que nada, pois bonito mesmo está o MDC desta semana. Como um corpo em  passagem pela frente do sol, o programa se ilumina com a música de Nirvana, Tim Maia, Elza Soares, The Who e Dorival Caymmi, além de um Sete-List a ver, justamente, com o eclipse. Promovendo o encontro dos astros, o MDC pode ser observado a olhos nu hoje, 21h, na astronômica Rádio Elétrica. Produção, apresentação e fenômeno raro: Daniel Rodrigues


www.radioeletrica.com


quarta-feira, 22 de julho de 2026

Música da Cabeça - Programa #469

Tá certo que o Gavi já tinha se sagrado campeão com sua Espanha, mas que a situação dele não tá totalmente fácil aí, não tá. Assim é o MDC também: vencedor, mas matando um leão por dia. Agora que a Copa acabou, a gente segue nossa vida com o perrengue nosso de cada dia, mas sempre com música e, desta vez, na companhia de Stereolab, Jorge Benjor, Rolling Stones, Arthur Verocai, Prince e mais. No quatro, especial, um rescaldo da Copa em um Sete-List. Sem dedo na cara, o programa vai ao ar hoje às 21h na pacífica Rádio Elétrica. Produção, apresentação e esquece Copa, que agora tudo é Eleições: Daniel Rodrigues


www.radioeletrica.com

domingo, 5 de julho de 2026

A Seleção do Gil

 


Não tem ninguém na música brasileira que seja tão identificado com futebol do que Gilberto Gil. Duvida? Então diz aí alguém que torce para vários times ao mesmo tempo como ele. Além do Bahia, seu time, digamos, "natal", Gil tem como característica ter um clube em cada Estado brasileiro. No Rio de Janeiro, é Fluminense; em São Paulo, Santos; no Rio Grande do Sul, veste a camiseta gremista; em Pernambuco, a do Santa Cruz e assim por diante. 

Quando se trata de Seleção Brasileira, então, aí o velho baiano se delicia. Tanto que essa paixão pelo esporte bretão está em várias músicas do cancioneiro gilbertiano. Desde os primeiros anos de carreira até os dias atuais, Gil traz o futebol entremeado à sua faraônica musicalidade. Por isso, com o Brasil avançando de fase na Copa do Mundo, assim como já fizemos com Jorge Benjor e Chico Buarque rodadas atrás, agora é a vez de escalarmos as 11 músicas de Gil, sejam para sua própria voz ou para a de outros artistas, sejam composições de sua autoria ou de outros. Independentemente de quem cante ou compõe, é a arte maior de Gil subindo neste palco de quatro linhas feito de grama. 

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"No tempo que Lessa era goleiro do Bahia
Um goleiro, uma garantia"







1. "Tradição", do álbum "Realce" (1979): Considerada uma das obras-primas de Gil, admirada por colegas como João Bosco e Caetano Veloso, “Tradição”, de “Realce”, de 1979, é uma verdadeira crônica soteropolitana feita de reminiscências do Gil de sua infância. Numa narrativa que lembra Jorge Amado, são contadas, pelo olhar da observadora criança, diversas situações da cidade, como a discriminação racial, o comportamento social e... o futebol, quando Gil refere-se ao arqueiro Walter Lessa, multicampeão pelo seu Bahia entre 1947 a 1950. Já que estamos falando do camisa 1, nada melhor para começar essa lista com o goleiro.

Ouça: Tradição










2. "O Bom Jogador", do álbum "O Viramundo - Ao Vivo" (1972-1998): Música da entressafra do Gil pós-exílio, “O Bom Jogador” fazia parte do repertório que ele levava para os diversos shows que fazia em pequenos teatros no início dos anos 70 após retornar de Londres. Não entrou em nenhum disco na época, vindo a aparecer apenas na caixa com sobras de 1998 e, posteriormente, no registro de show na USP em 1973, lançado nos anos 2000. Na curta letra, uma máxima futebolística: “O bom jogador não engana a geral”.

Ouça: O Bom Jogador



"Viva Pelé do pé preto
Viva Zagallo da cabeça branca"






3. "Abre o Olho", do álbum "Gilberto Gil Ao Vivo" ou "Ao Vivo no Tuca" (1974): Não se trata de uma música necessariamente sobre futebol. Aliás, está mais para uma viagem lisérgica e filosófica de um homem frente a frente consigo mesmo diante do espelho. Mas o refrão não pode ser mais futebolístico - e nem tão emblemático: combinação de talento e "consumição" que deram ao Brasil os títulos mundiais de 1958 e 1970, representadas em Pelé e Zagallo, os quais, segundo Gil, "dão o sentido de contradição e complementaridade yin-yang; um é África, o outro, Europa”.

Ouça: Abre o Olho











4. "Samba Rubro-Negro (O Mais Querido)", com Germano Mathias, do álbum "Antologia do Samba-Choro" (1979)
: Prova de que Gil gosta mesmo é de futebol e não dá bola para rivalidades clubísticas é que ele também exalta seus adversários, caso de “Corintiá”, que ele grava, em 2010, mesmo sendo, em São Paulo, santista. A mesma coisa acontece com o rival de seu Fluminense no Rio, o Flamengo, para o qual ele grava, no seu desconhecido e raro disco “Antologia do Samba-Choro”, feito em parceria com o cantor e compositor paulistano Germano Mathias em 1978, “Samba Rubro-negro (O Mais Querido)”, de autoria de Wilson Batista e Jorge de Castro.

Ouça: Samba Rubro-Negro



"Magos da bola na Cidade Luz
Fazem milagres, transmutações
Dores e horrores que a vida produz
São transformados no balé da bola
Suor e sangue no balé da bola
Crime e castigo no balé da bola"




5. "Balé da Bola (Copa 98)", do single "Balé da Bola - Copa 98" (1998): Quando Gil inventa de compor sambas-enredo sempre sai coisa muito boa. Foi assim com “De Bob Marley a Bob Dylan, Um Samba-Provocação” e “Quilombo, O Eldorado Negro”. Para a Copa do Mundo de 1998, na França, o jornal O Globo contratou-o para compor um tema, que se tornaria na prática o tema daquela fatídica Copa em que o Brasil foi vice-campeão. Mas a música é uma maravilha, de alto poder poético e embalada ao ritmo de uma escola de samba. Só o olhar dele para ter tamanha arguição de ver que “Quando a seleção marcar um gol” serão séculos e mais séculos de nossa história, e que o mesmo vem desde os tupis e passa pela China, Grécia ou na França medieval. É muito craque!

Ouça: Balé da Bola










6. "Trinca de Ases", com Nando Reis e Gal Costa, do álbum "Gil, Nando & Gal - Trinca de Ases - Multishow Ao Vivo" (2018): Composta por Gil especialmente para o projeto deste nome em que ele divide "as quatro linhas" com Gal Costa e Nando Reis, a música faz analogias com o “estilo de jogo” de cada um. Ele, mais maduro, faz um jogo seguro e paciente. Nando, mais jovem, é “impetuoso e viril”. Já a “moça”, por sua vez, “corre livre”. Afinal, quem tem Gal no time tem que passar mesmo a bola pra ela e deixá-la fazer o gol. 

Ouça: Trinca de Ases



"Moleque saci
Saci-pererê
Um gol de Pelé
Que é pra gente ver"





7. "Saci Pererê", com Banda Black Rio, do álbum "Saci Pererê" (1980)
: Assim como "Meio de Campo", é dessas pérolas escritas por Gil para outros artistas, e que casualmente também trata de futebol. Neste caso, a música foi encomendada para a Banda Black Rio, grupo que Gil homenageara em “Refavela” (1977). Para o terceiro e último disco da Black Rio com a formação clássica, o baiano compõe esse reggae, que se tornaria nada menos que a faixa-título e no qual faz referência a um talentoso e intrépido moleque negro brasileiro que, embora perneta, joga muito melhor do que vários “pernas-de-pau” com os dois membros inferiores. Dê-se a camisa 7 pra esse atrevido atacante.

Ouça: Saci Pererê











8. "Meio de Campo", com Elis Regina, do álbum "Elis" (1973)
: Impossível haver combinação melhor: a maestria da composição de um dos maiores compositores da MPB feita para a voz da maior cantora do Brasil. Elis Regina eterniza este samba cheio de suingue, que desafia a Ditadura ao falar em forma de carta endereçada ao polêmico Afonsinho, um dos mais politizados e engajados jogadores do futebol brasileiro dos anos 70. Gil admite na letra que não é “Pelé nem nada”, e que, se muito for, é “um Tostão”. Se Chico Buarque é nosso Pelé na música, não é nenhum demérito a Gil ser um Tostão, não!

Ouça: Meio de Campo









9. "Balé de Berlim", do single "Balé de Berlim" (2006): O Brasil pode não ter ganhado em 1998, mas que a ideia de Gil compor tema da Copa deu certo, ah! Isso deu. Tanto que o baiano foi chamado novamente para a mesma empreitada, só que então para a Copa do Mundo de 2006, na Alemanha. “Balé de Berlim” repete melodia e o clima de samba com letra atualizada para a ocasião e, desta vez, Gil convoca para fazer tabelinha com ele Zeca Pagodinho. Se, assim como na França, a música de Gil não deu a sorte que a Seleção precisava, ficou para a eternidade, ao menos, mais um belo tema dele sobre futebol.

Ouça: Balé de Berlim


"Alô, torcida do Flamengo
Aquele abraço!"






10. "Aquele Abraço", do álbum "Gilberto Gil" (1969): Gil estava com um pé no aeroporto rumo ao exílio forçado na Inglaterra por causa do Governo Militar, mas não sem antes deixar seu manifesto. E, claro, um manifesto com a sua cara: poético, resistente e em forma de samba de breque. O clássico "Aquele Abraço", além de tudo, põe o futebol no contexto político-social do País, chamando para sua celebração de resistência a "torcida do Flamengo", o que significa, como a própria expressão se popularizou, convocar o "todo o povo brasileiro". Música nota 10, merece a camisa 10!

Ouça: Aquele Abraço









11. "Campeão dos Campeões", com Os Doces Bárbaros, do álbum "Doces Bárbaros Bahia" (2000): A partir de um projeto encabeçado por J. Veloso, um dos irmãos de Caetano e Maria Bethânia, os Doces Bárbaros (que inclui, obviamente, ainda Gal e Gil) se reuniram para gravar um disco com versões de hinos e música em homenagem ao Sport Club Bahia. A Gil coube esse reggae de autoria de Zé Pretinho, Raquel e Bezerra da Silva – que, embora super ligado à malandragem carioca, era, na verdade, baiano. Quanto a Gil, este sim, não há dúvidas: por mais que vista a camiseta de outros clubes, na verdade, ele é mesmo "Baêah"!

Ouça: Campeão dos Campeões


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Daniel Rodrigues

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Música da Cabeça - Programa #466


O jogador alemão aí não está frustrado com a eliminação, não! É que a música não sai da sua cabeça por nada. Isso vai "melhorar", porque tem um MDC cheio de chicletes de ouvido (ou "ohrwurm", como chamam os alemães). Trolando a Alemanha enquanto ainda estamos na Copa, a gente traz, sem brincadeira, uma seleção talentosa formada por The Beatles, Stevie Wonder, Woody Guthrie, Zezé Motta e mais. Ainda, um Sete-List que junta futebol com Gilberto Gil. Vingando-se um pouquinho do 7x1, o programa tira onda com hora marcada: 21h, na sarcástica Rádio Elétrica. Produção, apresentação e olhos agora para a Noruega: Daniel Rodrigues 


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quarta-feira, 24 de junho de 2026

A Seleção do Chico


Existem muitos Chico Buarque. O malandro, a mulher, o político, o literato, a criança, o amante, o cronista. Todos eles, de alguma maneira, podem ser vistos em outros compositores da música brasileira. Mas um desses Chico que poucos conseguem reproduzir é o boleiro. Fluminense roxo, além de meia-armador e cartola do seu próprio time, o Politheama, Chico, do alto de seus 82 anos, viu muitas Copas do Mundo e muitos jogadores da Seleção Brasileira, entre estes, suas principais admirações dentro de campo: Pelé e Mané Garrincha. Nada melhor, portanto, que recorrer à obra de Chico neste momento de Copa.

Além do maior de todos os tempos e o gênio das pernas tortas, o futebol aparece no cancioneiro buarqueano recorrentemente. Assim, nós reunimos – tal qual fizemos para com Jorge Benjor na primeira rodada da Copa do Mundo EUA/México/Canadá – 11 delas neste dia da terceira partida da Seleção Canarinho. As referências ao futebol são as mais diversas, de uma zoação a um amigo flamenguista à simples menção ao jogo de bola.

Independentemente de como se aborda, o certo é que, na obra magistral de Chico Buarque, estamos falando sempre de grandes músicas. Dia de partida da Seleção na Copa? Eis, então, a Seleção do Chico! 

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"Para estufar esse filó
Como eu sonhei
Se eu fosse o Rei"



1. "O Futebol", do álbum "Chico Buarque" (1989)Já que o tema é o esporte mais popular do mundo, nada melhor do que começar uma lista de 11 músicas de Chico sobre o tema com uma que se chama, justamente, “O Futebol”. Poucas vezes – ou talvez nenhuma – um compositor conseguiu traduzir com tamanha poética a dinâmica e a alma do futebol. A música faz curva como a própria bola, e a letra se integra a uma partida imaginária e onírica. Futebol-arte é isso aqui.

Ouça: O Futebol









2. "Barafunda", do álbum "Chico" (2011): Sabe quando a memória falha, mas aquilo que se quer lembrar está na ponta da língua? Aquele nome, aquela palavra, aquela memória que quase vêm à mente, mas em seguida escapa de novo, e a cabeça fica naquele ciclo interminável. No delicioso samba “Barafunda”, além de trazer essa letologia, Chico ainda integra-a ao universo do futebol de forma brilhante. Afinal, quem nunca se esqueceu exatamente como foi aquele lance? Será que aquele gol foi do Pelé... ou foi do Mané...?

Ouça: Barafunda



"Zanza na sarjeta
Fatura uma besteira
E tem as pernas tortas
E se chama Mané"


3. "Pivete", do álbum "Chico Buarque" ou "Disco da Samambaia" (1978)Essa é daquelas em que mais de um Chico aparece. Embora prevaleçam o cronista e o crítico social, o boleiro não deixa de marcar presença. A música, parceria com Francis Hime de 1978 e regravada em 1992, em "Paratodos", relata a vida marginal de trombadinhas nas ruas do Rio de Janeiro. Entre um assalto, um subemprego e uma esmola, as crianças desprezadas pela sociedade vivem para sobreviver sem nenhuma perspectiva de futuro. Quem sabe, se não tivessem oportunidade, não teríamos ali um Pelé ou um Garrincha?

Ouça: Pivete





4. "Pelas Tabelas", do álbum "Chico Buarque" (1984)O cara deve ter aprontado uma boa pra mulher dele, hein! Tanto que, em todo lugar que vai, ele a enxerga lá, pronta para pegá-lo e decapitá-lo (ou coisa pior...). E mais: só ele que sabe dessa situação. “Claro que ninguém se toca com minha aflição”, confessa o desgraçado. Seja da favela, nas janelas ou nas ruas, ele sabe que sua hora vai chegar. Já está até vendo sua “cabeça rolando no Maracanã” feito bola depois de ser degolado pela esposa.

Ouça: Pelas Tabelas



“Quem que te mandou tomar conhaque
Com o tíquete que te dei pro leite
Quieta, que eu quero ouvir Flamengo e River Plate”


5. "Biscate", do álbum "Paratodos" (1993)Outra que relata de forma divertida a relação marido/mulher e, claro, tendo o futebol no meio, é “Biscate”. Duo dele com a saudosa Gal Costa, é feita justamente para duas vozes, uma masculina e outra feminina, reproduzindo 0 conflituoso mas ao mesmo tempo apaixonado relacionamento deste casal típico de classe média carioca. Ciumentos, marrentos, vaidosos, inseguros, implicantes mas, no fundo, amantes. E ele, Chico, que nem flamenguista é, larga uma rima preciosa que combina "leite" com "River Plate".

Ouça: Biscate





6. "Feijoada Completa", do álbum "Chico Buarque" ou "Disco da Samambaia" (1978): Obviamente que é uma cena fictícia, mas chega a dar para vê-la: Chico com a galera da MPB-4, João Nogueira, Paulo César Caju, Bob Marley e outros amigos chegando suados em casa depois de uma pelada do Politheama e pondo a então esposa Marieta Severo pra cozinhar praquele batalhão todo. Caipirinha, cerveja estupidamente gelada, aperitivo, tudo rolando ali mesmo, no chão, e uma feijoada com tudo que se tem direito no fogo. 

Ouça: Feijoada Completa



"Pintei de branco o teu preto
Ficando completo
O jogo de cor
Virei-lhe o listrado do peito
E nasceu desse jeito
Uma outra tricolor”


7. "Ilmo. sr. Cyro Monteiro ou Receita pra Virar Casaca de Neném", do álbum "Chico Buarque de Hollanda nº 4" (1970)O sambista Cyro Monteiro era flamenguista fanático, Tanto que, quando nasceu a primeira filha de Chico e Marieta Severo, Sílvia, ele teve a cara de pau de enviar de presente para o bebê uma camisa rubro-negra para Roma, na Itália, onde a menina nasceu durante o exílio de Chico, só pra zoar com o amigo tricolor. Chico, bem humorado e irônico, respondeu à altura compondo este samba. Cyro foi "tirar uma" e deu nisso: levou uma bola no contrapé.








8. "Jogo de Bola
", do álbum "Caravanas" (2017)De novo, vários Chico fazendo tabelinha. O romântico e o sambista criam uma analogia direta com o jogo nas quatro linhas. Composição do último disco do artista, “Caravanas”, de 2017, em que ele capricha na qualidade letrística para falar de um amor perdido. “Outrora, quando em priscas eras/ Um puskás eras/ A fera das feras da esfera, mas agora/ Há que aplaudir o toque/ O tique-taque, o pique, o breque, o lance.” Olha o que ele fez!

Ouça: Jogo de Bola




“Ai, que saudades que eu tenho
Duma travessura
Um futebol de rua"

9. "Doze Anos", do álbum "Ópera do Malandro" (1978)Essa é bem de boleiro, que cresceu jogando bola na rua e nos campinhos na Zona Sul do Rio. Escrita para o mega-musical “Ópera do Malandro”, de 1978, foi interpretada no palco pelos atores Otávio Augusto (Max Overseas) e Tony Ferreira (Chaves), mas, no disco, tem nada menos que o próprio Chico em duo com Moreira da Silva. O intrépido Kid Moringueira, malandro à moda antiga, arranca gargalhadas de Chico neste samba-de-breque saboroso.

Ouça: Doze Anos






10. "Hino do Politheama", do DVD "Chico Buarque - O Futebol" (2006)No seu documentário sobre futebol, Chico fala da lenda de seu time, o Politheama, nunca ter perdido uma partida. Essa fama foi parar no hino do clube, escrito, claro, pelo próprio atleta, presidente e principal símbolo: “Politheama, Politheama/ O povo clama por você/ Politheama, Politheama/ Cultiva a fama de não perder”. Segundo Chico, em 2006, eram 2600 jogos oficiais disputados - principalmente, no Centro Recreativo Vinicius de Moraes - e nenhuma derrota. Apenas alguns empates.






“Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock 'n' roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol"

11. "Meu Caro Amigo", do álbum "Meus Caros Amigos" (1976)Reza a lenda que “Meu Caro Amigo” foi escrita, como se diz na gíria do futebol, aos 45 do segundo tempo, quando as gravações já estavam chegando ao fim e faltava ainda uma música para fechar o disco. No improviso, como um craque que tem muito recurso, Chico puxou uma caneta, que em poucos minutos trouxe a letra deste chorinho de parceria com Francis. A história era fictícia, mas muito pertinente: uma carta a um amigo exilado – tal como ele, Chico, e família estiveram anos antes por causa da Ditadura – querendo saber notícias do Brasil. Neste contexto, o futebol aparece com certa tristeza, mas também como resistência. O cronista e o boleiro jogando no mesmo time. 



Daniel Rodrigues