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quarta-feira, 29 de julho de 2026

Música da Cabeça - Programa #470


O MDC especial de nº 470 merece coisa também especial, né? Então, que tal um superquadro Cabeção celebrando o centenário do mestre Moacir Santos? É isso que terá hoje, 21h, trazendo e reverenciando a obra do Ouro Negro da música brasileira. Além disso, têm, claro, as músicas da nossa mente e os quadros fixos de sempre. Essencial como Moa, a edição de data fechada do Música da Cabeça escreve sua partitura no pentagrama da Rádio Elétrica. Produção, apresentação e batuta: Daniel Rodrigues 


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domingo, 26 de julho de 2026

Moacir Santos - "Ouro Negro" (2001)



"Só mesmo o Destino, com os vários nomes que tem, para transformar um negrinho do interior de Pernambuco, nascido menos de quatro décadas após a abolição da escravatura e órfão aos 3 anos de idade, em um dos músicos brasileiros mais reconhecidos, nacional e internacionalmente, em todos os tempos." 
Nei Lopes, Cantor
compositor, poeta, escritor e pesquisador

"Nanã sabe das coisas e diz que chegou a hora de o Brasil saber de Moacir, reaprender Moacir, merecer Moacir." 
Ruy Castro
jornalista e escritor

É interessante pensar como alguns movimentos na história da música brasileira não são regulares, mas que o tempo os ajuda a se revelar. Já no final do século XVIII, os chamados “grupos de barbeiros”, formados basicamente por negros e mestiços, introduziram na música instrumental de então o que a musicóloga e folclorista Mariza Lira chamaria de ‘ritmo da senzala”, o qual ela explica ser fundamentado no ritmo “afro-negro”. Essa influência na música brasileira pode não ter prosseguido em linha reta, haja visto que tudo que proviera dos negros num país essencialmente escravista e a supervalorização da cultura estrangeira arraigada há muito tempo no Brasil atrapalharam este caminho. Porém, a música negra instrumental não apenas resistiu como, quase milagrosamente, tornara-se um dos maiores legados culturais brasileiros para a arte mundial. 

Neste processo descontínuo de revalorização, surge a figura de Moacir Santos, ele por si só um milagre brasileiro nascido há 100 anos. O pernambucano Moacir José dos Santos, nascido em Serra Talhada, capital do xaxado e terra natal de Lampião, ficou órfão ainda criança, fugiu de casa e peregrinou Nordeste adentro encantado com as orquestras de circo e as bandas militares. Entregue a uma família branca remediada, o jovem que se apaixonou pelo jazz já dominava vários instrumentos ainda adolescente - entre eles, o seu oficial, o saxofone. Já no Rio de Janeiro, após servir o Exército e substituir o famoso maestro Severino Araújo, em Pernambuco, passa a tocar saxofone e, em seguida, reger a orquestra da Rádio Nacional ao lado de colegas do calibre de Radamés Gnattali, Leo Peracchi e Lyrio Panicalli (todos brancos). Dos estudos de música erudita e de vanguarda com professores como Ernest Krenek, Hans-Joachim Koellreuter, Claudio Santoro e Cesar Guerra-Peixe, logo também passa a ensinar, formando nomes como Baden Powell, João Donato, Paulo Moura, Sérgio Mendes, Nara Leão, Eumir Deodato, Carlos Lyra e Roberto Menescal. A partir daí, vieram suas próprias "coisas".

Para uma justa e merecida celebração ao centenário de Moa, cabe falar daquele que talvez seja o disco síntese de uma discografia ao mesmo tempo suscinta (apenas 6 discos em mais de 40 anos), mas tomada de relevância, que é “Ouro Negro”. Espécie de songbook, dirigido por Zé Nogueira e Mario Adnet, o caprichado CD duplo com 28 faixas, que também rendera um DVD com entrevistas e apresentações ao vivo, faz um apanhado muito bem elaborado do “principal” do cancioneiro de Moacir. A homenagem, concebida com o mais alto grau de qualidade, com naipe de orquestra e arranjos e produção de primeira linha, cumpriu ainda um não menos importante papel: reverenciar o mestre em vida. Anos antes, Moacir sofrera um AVC, que o impossibilitara de tocar ou reger as próprias músicas. Porém, ele estava lá, assistindo a outros mestres – e discípulos – celebrarem-no, como Gilberto, Gil, João Bosco, Joyce, Armando Marçal, Djavan, Ed Motta, Cristóvão Bastos e outros.

Ano passado, quando dos 60 anos de “Coisas”, a obra-prima basal de Moacir lançada em 1965, já discorremos bastante sobre os aspectos tanto eruditos quanto populares da música do compositor, bem como, tanto quanto, deu-se especial atenção à sua valorização da cultura negra, perceptível tanto na atenção dispensada pelo compositor à percussão, com a incorporação de instrumentos pouco usuais e na construção harmônica desses elementos, expressos em forma de deslocamentos rítmicos e métricos, hemíolas e polirritmias. Em “Ouro...” apenas uma das 10 “coisas” não integram o repertório. Destaque para “Coisa nº 8” (Navegação)”, cantada pela voz magistral de Milton Nascimento, que ganhou letra em português pelas mãos de outro mestre importante para este projeto: Nei Lopes (“Milhões de milhas naveguei/ Nem sempre ventos a favor/ Mas afinal reencontrei/ O cais da paz interior”). Igual destaque para “Nanã”, que abre o disco, a coisa de nº 5, a qual Moacir registraria em outros três momentos.

De outros álbuns, o indicado ao Grammy “Maestro”, de 1970 – o primeiro gravado nos Estados Unidos, onde viveu até sua morte, em 2006  – ouvem-se cinco temas: a onírica e “Bluishmen”; o jazz maxixado “Mãe Iracema”, inspirada em José de Alencar; a clássica “Lamento Astral” (“Astral Whine”), cantarolada pelo próprio autor; e “April Child”, que ganhou não apenas título em português, “Maracatu, Nação do Amor”, como letra de Nei e vocal de ninguém menos que Gil. “Quem vem lá/ Surgindo lá de trás do mar/ Será Kalunga num vapor/ Trazendo de Luanda o amor?”, diz a letra. Outra desse mesmo álbum e que também reaparece letrada por Nei é “Luanne”, agora com título principal “Sou Eu” e cantada pelo timbre inconfundível de Djavan.

Avançando mais na obra de Moa, “Ouro...” tem também o latin-jazz “Suk Cha”, a charmosa rumba “Amphibious”, a balada afro “Katty” e um duo impagável de Joyce e João Donato para “Happy-Happy” (aqui reintitulada “De Repente, Estou Feliz”), todas de “Saudade”, de 1974. Igualmente deste trabalho é “What's My Name”, agora “Oduduá” e interpretada por outro filho musical: João Bosco.

Da mesma época e gravado pelo célebre selo Blue Note, assim como todos os discos norte-americanos do artista, “Carnival of the Spirits”, de 1975, rearranja outro clássico de sua autoria: “Quiet Carnival” (“Orfeu”). Ora samba-enredo, ora samba de gafieira, tem forte presença dos sopros e na qual Ed Motta assume os vocais, que cantam: “Brilho de purpurinas/ Bolas e serpentinas/ Som vibrando metais/ Luz, foliões, casais/ E eu sem ter você”.

Resgatadas também de “Carnival...” são “Jequié”, balada de uma delicadeza absolutamente tocante, a dissonante “Kamba”, cujo riff em tom grave do clarinete contrasta com a leveza do entorno, e “Anon”, tão africana quanto caribenha inspirada em uma marchinha de carnaval que Moacir ouvira quando criança, em Recife. "Não sosseguei enquanto não fiz alguma coisa com ela, e a capoeira aparece no caminho", revelou à época da gravação. Há também “coisas” de “Opus 3 nº 1”, de 1979, em que a espetacular bossa-nova “Coisa nº 7”, uma "brincadeira pianística" das mais admiradas do cancioneiro de Moa pelos seus colegas, vira “Evocative” sob os melismas do próprio Moacir.

Como se já não bastassem as regravações, há ainda composições inéditas de Moacir. Uma delas é a rumbada “Quermesse”, criação antiga, da época da Rádio Nacional e escrita para trompa, aqui tocada pelo músico Philip Doyle. Também nova, “Maracatucute” impressiona pela atmosfera característica de Moacir: o arranjo sofisticado, a perfeição harmônica e o casamento da África com os ritmos latinos e americanos, seja o jazz, o samba ou o merengue. Zé Nogueira e Mario Adnet encerram esse gigantesco trabalho (em proporções e relevância) com mais uma inédita do homenageado: a pequena valsa “Bodas de Prata Dourada”, feita para Cleonice, esposa de uma vida, só ao piano e a voz de Moacir em conjunto com as de Muiza Adnet e Sheila Smith.

Hoje, quando o compositor, maestro, instrumentista e cantor pernambucano completaria 100 anos se vivo, é possível identificar o quanto, talvez juntamente apenas com Tom Jobim, sua obra configurara-se como uma das pedras fundamentais de toda a música popular brasileira moderna. Se menos evidenciado em termos de influência do que Tom, responsável pelo nascimento de toda uma geração de artistas populares que vão dos bossa-novistas aos pós-tropicalistas, a presença de Moa, no entanto, é largamente consensuada entre o meio dos músicos “de raiz”, aqueles que constroem as bases da MPB e, não raro, dão suporte técnico aos artistas mais pop. Não há quem no universo musical não reconheça a importância da obra de Moacir para a concepção daquilo que se entende como o mais alto nível do que a música brasileira já pode chegar. Moacir é a sublimação do que está na fronteira entre a música popular e a erudita. E mais: com a consciência manifesta do legado histórico-cultural “afro-negro”.

Como diz o poeta haitiano Jacques-Stephen Alexis: "a África não deixa em paz o negro, de qualquer país que seja, o lugar de onde venha e para onde vá". Desfile de sofisticação e esmero técnico, que faz jus à obra magistral de Moacir, "Ouro..." é o testamento dessa milagrosa transposição cultural e antropolófica pelas mãos de um autor que, como ninguém, soube resgatar a semente da verdadeira música instrumental brasileira, aquela que deu origem ao choro, às marchas, ao frevo, ao samba. A raiz africana. A mesma revalorização da história dos “barbeiros”, que ele trouxera em sua obra revolucionária para a música brasileira mais de 100 anos depois, nota-se, hoje, em seu próprio centenário, no reconhecimento ao que ele legara a MPB. Uma música genuinamente brasileira muito graças a ele, o "ouro negro do Brasil".

"Coisa nº 4", do DVD "Ouro Negro"

🎼🎼🎼🎼🎼🎼🎼🎼🎼

FAIXAS:
1. "Coisa N°5 (Nanã)" - 2:51
2. "Suk-cha" - 4:10
3. "Coisa N°6" - 4:02
4. "Coisa N°8 (Navegação)" - participação: Milton Nascimento - 4:11 (Moacir Santos/Nei Lopes/Regina Werneck)
5. "Amphibious" - 3:11
6. "Mãe Iracema" -  4:59
7. "Coisa N°1" - 3:50 
(Santos/Clóvis Mello)
8. "Sou Eu (Luanne)" - participação: Djavan - 2:59 (
Santos/Lopes)
9. "Bluishmen" - 4:19
10. "Kathy" - 3:31
11. "Kamba" - 4:57
12. "Coisa N°9" - 3:28 
(Santos/Werneck)
13. "Orfeu (Quiet Carnival)" - participação: Ed Motta - 5:49 
(Santos/Lopes)
14. "Amalgamation" - 6:23
15. "Coisa N°7" - 4:20 
(Santos/Mário Telles)
16. "Coisa N°2" - 5:13
17. "Lamento Astral (Astral Whine)" - 4:59
18. "Maracatu, Nação Do Amor (April Child)" - participação: Gilberto Gil - 4:05 
(Santos/Lopes)
19. "Coisa N°4" - 4:06
20. "Coisa N°10" - 3:02
21. "Jequié" - 3:17 
 (Santos/Aldir Blanc)
22. "Oduduá (What's My Name)" - participação: João Bosco - 3:11 
(Santos/Lopes)
23. "Coisa N°3" - 3:00
24. "Anon" - 3:59
25. "Quermesse" - 3:18
26. "De Repente, Estou Feliz (Haply Happy)" - participação: Joyce, João Donato - 3:04

27. "Maracatucute" - 6:14
28. "Bodas De Prata Dourada" - participação: Muiza Adnet, Sheila Smith - 4:54
Todas as composições de autoria de Moacir Santos, exceto indicadas

🎼🎼🎼🎼🎼🎼🎼🎼🎼

OUÇA:


Daniel Rodrigues

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Música da Cabeça - Programa #469

Tá certo que o Gavi já tinha se sagrado campeão com sua Espanha, mas que a situação dele não tá totalmente fácil aí, não tá. Assim é o MDC também: vencedor, mas matando um leão por dia. Agora que a Copa acabou, a gente segue nossa vida com o perrengue nosso de cada dia, mas sempre com música e, desta vez, na companhia de Stereolab, Jorge Benjor, Rolling Stones, Arthur Verocai, Prince e mais. No quatro, especial, um rescaldo da Copa em um Sete-List. Sem dedo na cara, o programa vai ao ar hoje às 21h na pacífica Rádio Elétrica. Produção, apresentação e esquece Copa, que agora tudo é Eleições: Daniel Rodrigues


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quarta-feira, 27 de maio de 2026

Música da Cabeça - PROGRAMA ESPECIAL Nº 461


Hoje tem MDC especial! Direto da Flórida, nos Estados Unidos, o programa desta semana traz uma edição especial com entrevista do música Phill Fest, guitarrista de jazz e música brasileira filho do célebre Manfredo Fest. Pianista e compositor gaúcho, um dos precursores da bossa nova e do jazz brasileiro no exterior, Manfredo completaria 90 anos se vivo. Na bate-papo com Phill, falamos sobre sua obra, seu trabalho e seu legado. Ainda, quadros, música e muito mais. É hoje, 21h, na Rádio Elétrica. Produção e apresentação: Daniel Rodrigues.



quarta-feira, 20 de maio de 2026

Música da Cabeça - Programa #460

 

Ok, Neymar, não é só porque tu tá cheio de razão porque vai pra Copa, que precisa escancarar desse jeito sobre o MDC. Afinal, não é engano, pois a gente vai, sim, substituir a edição de hoje pela reprise do programa 295, quando houve a última Copa do Mundo. Daquela feita, teve Grant Green, Erasmo Carlos, Morcheeba, Marina e muito mais. Levantamos a plaquinha correta às 21h na convocada Rádio Elétrica. Produção e apresentação vinda do banco de reservas: Daniel Rodrigues. 


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sexta-feira, 8 de maio de 2026

The Dave Brubeck Quartet - "Time Out" (1959)

 



"As músicas fugindo da
 métrica habitual me encantam.
Parece que a "perfeição" busca sempre
a imperfeição pra fazer mais sentido."
Alexandre Vianna,
skatista, artista visual, fotógrafo e ativista cultural, no livro "Discoteca Básica"


Não sou nenhum grande entendedor de música ainda que seja um entusiasta admirador. Embora conheça alguns conceitos básicos de tempo, tom, andamento, compasso, não me arrisco muito a fazer grandes explanações nesse sentido a respeito de músicas incríveis que conheço e que reconhecidamente têm méritos técnicos ou estruturais diferenciados. Me limito a senti-las e, quando tenho a necessidade de falar sobre elas com alguém de modo a ressaltar essas qualidades, exprimo da melhor forma possível dentro do que a mina limitação permite e onde aminha emoção consegue alcançar.

Não consigo explicar tecnicamente o que é o álbum "Time Out" do Quarteto de Dave Brubeck, mas aquilo é uma das coisas mais incríveis que já ouvi. 

Talvez o próprio nome da obra já seja suficientemente autoexplicativa, sei lá... Só sei que aquelas estruturas improváveis, incomuns, subvertem os tempos de uma forma tão desconcertante que dão um nó gostoso no cérebro. Tempos saem, voltam, passeiam pelo "normal" e tornam a nos surpreender de novo.

"Blue Rondo à La Turk" e "Take Five", é claro, são as mais notáveis com suas harmonias inquietas e inusitadas, mas mesmo as mais "comuns", como "Strange Meadows Lark" ou "Kathy's Waltz", além da beleza natural que já carregam consigo, tem suas pequenas sutilezas que as fazem tão especiais quanto as mais badaladas.

O que eles fizeram, como fizeram, um tom acima, um tempo abaixo... Não saberia dizer. E na verdade, nem sei se gostaria de saber. Prefiro apreciar. 

Ouça, ouça... 

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FAIXAS:

1. "Blue Rondo à la Turk" 6:44
2. "Strange Meadow Lark" 7:22
3. "Take Five" 5:24
4. "Three to Get Ready" 5:24
5. "Kathy's Waltz" 4:48
6. "Everybody's Jumpin'" 4:23
7. "Pick Up Sticks" 4:16


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Ouça:
The Dave Brubeck Quartet - Time Out


Cly Reis

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Música da Cabeça - Programa #458

Ei, olha onde voce esta pisando! Nao precisa nem enxergar, pois tudo vai dar no MDC desta semana. Da pra confiar de olhos fechados, porque a programacao de hoje tem Steely Dan, Paralamas do Sucesso, Joao Gilberto, Peter Gabriel, Fátima Guedes e mais. Ainda, um quadro Sete-List homenageando o jazz. De peito aberto, o programa dá um passo no ar 21h na vendada Radio Eletrica. Producao, apresentacao e direcao certa: Daniel Rodrigues


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quarta-feira, 29 de abril de 2026

Música da Cabeça - Programa #457

 

Hoje o MDC tá nessa vibe: o mundo acabando em nossa volta e a gente assim: tranquilão. Sem medo de um tiroteiozinho qualquer, queremos saber só de música, o que está garantido com Wayne Shorter, Joy Division, Os Replicantes, Vinícius Cantuária, Gonzaguinha e outros. Quem também está muito aí pra esses estraga-festa é o nosso quadro Cabeça dos Outros. Saboreando cada garfada enquanto todo mundo corre, o programa segue o baile às 21h na serena Rádio Elétrica. Produção e apresentação: Daniel Rodrigues (e garçom: pode servir um whiskyzinho, por favor?)


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quinta-feira, 16 de abril de 2026

Gato Barbieri - "The Last Tango in Paris - Original Motion Picture Soundtrack" (1973)



por Márcio Pinheiro
 

- Jeanne: Ei, eu tenho uma surpresa para você.
- Paul: Isso é bom, eu gosto de surpresas. O que é?
- Jeanne: Música, só não sei como fazer isso funcionar.
Diálogo entre Jeanne (Maria Schneider) e Paul (Marlon Brando) do filme "O Último Tango em Paris"

"O Último Tango em Paris", trilha sonora que Gato Barbieri compôs em tempo recorde seguindo as orientações de Bernardo Bertolucci, é uma imensa suíte em que se destaca o sax áspero e quente de Gato, envolto pelos arranjos de Oliver Nelson à frente de uma orquestra de 32 músicos. Sobra espaço ainda para dois percussionistas brasileiros, Afonso Vieira e Ivanir do Nascimento, o Mandrake, músico há muito radicado na Itália, primo de Pelé.

A trilha foi um fenômeno. Recorde de vendas para um disco instrumental e presença nas programações das rádios. Colocaria a carreira de Gato no seu mais alto patamar. Depois disso, ele nunca faria nada tão relevante.

A morte de Bernardo Bertolucci finalizou um capítulo que se manteve para sempre incompleto e obscuro na história da música e do cinema, envolvendo disputas, ciúmes, invejas, traições e acusações de plágio. O próprio cineasta nunca fez questão de explicar o que houve, tampouco Gato Barbieri, que enveredaria por novos caminhos em sua música, mantendo-se ativo até morrer, em abril de 2016, aos 83 anos.

Rejeitado para a trilha, Astor Piazzolla, morto em 1992, repassaria as duas composições que havia feito para o filme para que fossem usadas noutro longa-metragem, "Cadáveres Ilustres", de Francesco Rosi. Quando "O Último Tango em Paris" foi lançado, chegou a dizer que poderia ter composto uma trilha superior. Para amigos, admitia que gostava muito da gravação de Gato Barbieri.

🎷🎷🎷🎷🎷🎷🎷🎷🎷🎷

FAIXAS:
1. "Last Tango In Paris" (Tango) - 3:32
2. "Jeanne" - 2:34
3. "Girl In Black (Para Mi Negra)" - 2:06
4. "Last Tango In Paris" (Ballad) - 3:43
5. "Fake Ophelia" - 2:57
6. "Picture In The Rain" - 1:51
7. "Return (La Vuelta)" - 3:04
8. "It's Over" - 3:15
9. "Goodbye (Un Largo Adios)" - 2:32
10. "Why Did She Choose You?" - 3:00
11. "Last Tango In Paris" (Jazz Walzer) - 5:44
Todas as composições de autoria de Gato Barbieri

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OUÇA:

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Música da Cabeça - Programa #454

 

Os tripulantes da Artemis II estão sobrevoando a Lua e observam o pôr-do-sol...  mas o que é esse planeta no horizonte?! É o planeta Música, gente! Para quem matou essa aula, a gente explica: esse distinto astro, cientificamente chamado de MDC 454 d, é cheio de vida e emite sinais sonoros ao ritmo de Marina, The Kinks, Louis Armstrong, Banda Black Rio e Barão Vermelho. Ela também se compõe de melodias e arranjos de Luiz Eça, cuja estrela continua irradiando seu brilho pelo espaço mesmo após sua morte. A nave está programada para entrar na rotação da Terra às 21h na estelar Rádio Elétrica. Produção, apresentação e um satélite na cabeça: Daniel Rodrigues


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quinta-feira, 19 de março de 2026

Living Colour - Best of 40 Years Tour - Bar Opinião - Porto Alegre/RS (26/02/2026)


Lobão é um chato de galocha, que fala muita bobagem boca afora, mas que, convenhamos, às vezes tem bons lampejos. Em uma entrevista recente dele na qual falava sobre heavy metal, justificando porque não gosta de Iron Maiden, o velho roqueiro brasileiro argumentou que bandas como esta e várias outras nessa linha perderam, da metade dos anos 70 em diante, a veia negra do rock, presente em Deep Purple, Black Sabbath e Led Zeppelin, e passaram a investir numa injustificável (e branca) atmosfera nórdica. No alvo, sr. Lobão. Assistindo a Living Colour, a banda norte-americana formada integralmente por músicos negros há 40 anos, fica fácil entender onde o rock pesado desviou a rota. Verdadeiros herdeiros de Little Richard, Chuck Berry, Sister Rosetta Tharpe e Jimi Hendrix, mas também de James Brown, Sly Stone, Aretha Franklin, George Clinton, Chaka Khan, Death, Prince e Bad Brains, a LC, que fez um show arrasador em Porto Alegre na turnê que comemora suas quatro décadas, foi quem, no final dos anos 80, reivindicou a autoria negra e resgatou a verdadeira semente do rock das guitarras distorcidas.

Com um repertório muito bem montado, que inicia com sucessos, passa por momentos de surpresas, homenagens, sessões livres e termina com as "mais mais" e direito a bis, Corey Glover (vocais, e que vocais!), Vernon Reid (guitarra, gênio!), Doug Wimbish (tocando baixo como se não estivesse fazendo nada difícil) e Will Calhoun (bateria, certamente dos melhores do instrumento) não apenas executam os números: eles brincam de tocar. A construção harmônica e o arranjo das competições favorece a que eles, exímios instrumentistas, improvisem o tempo todo, transformando também as músicas constantemente.

A entrada dos quatro no palco foi triunfal ao som do tema do filme "O Império Contra-ataca", de John Williams, uma sacada bastante sarcástica vindo de um grupo que "contra-atacou" o "império" branco da indústria pop. A abertura, então, foi com "Leave it Alone", do disco “Stain”, de 1993. Prejudicados nos primeiros números em razão da qualidade do som, quando mal se ouvia a voz potente de Glover e a guitarra de Reid era um zunido só, eles fizeram na sequência "Middle Man" e uma magnífica versão, mesmo mal equalizada, de "Memories Can't Wait", da Talking Heads, gravada por eles, assim como a anterior, em "Vivid", de 1988. Até em reggae eles transformaram a música num trecho! Mas o que manda mesmo é a guitarra intensa e melodiosa de Reid, assim como ele faria em muitas outras a seguir.

Living Colour tocando Talking Heads:
nem o som ruim atrapalhou

"Ignorant is Bliss", em que parece que Mr. Dinamite sujou de guitarras pesadas seu groove, e o heavy-metal possante de "Go Away" vieram antes da ótima "Bi", suingada e com toda aquela atmosfera jazzística em cima de um rock vibrante. A altamente variante "Funny Vibe", cuja bateria de Calhoun é que dita o ritmo, indo do hardcore ao funk e ao jazz em poucos compassos, ainda é incrementada com "Fight The Power", dos seus ídolos Public Enemy.

A essas alturas, já com o som ajeitado na mesa de áudio, um dos momentos especiais do show: quando tocam "Hallelujah", de John Cale, só no vocal de Glover e a guitarra de Reid, fazendo suscitar os cânticos de louvor da tradição gospel que está na veia dos rapazes da LC. Lembrei muito de Mahalia Jackson emocionando a multidão quando cantava “Precious Lord, Take My Hand”, para se ter ideia da potência do que seu viu/ouviu no Opinião. Depois, colada, a clássica "Open Letter (to a Landlord)", ao mesmo tempo uma música de protesto e denúncia do racismo e uma oração. A cara da banda. Olha: isso é que é saber compor um setlist

Mas tinha mais! A pedrada "Pride", um de seus maiores sucessos, levantou ainda mais a galera, composta basicamente de fãs da banda e do Metal. E as improvisações, mesmo em músicas consagradas, impressionantemente nunca param de acontecer. Está no jeito de eles tocarem, de sentirem a própria música. Mas essa liberdade de inventar na hora não quer dizer faça com que o quarteto se perca ou que desvirtuem os próprios temas. Experientes, sabem quando "criar" mais e quando dar apenas "cores livres". Afinal, estamos falando de música preta, de descendentes do improviso do jazz e do blues. Dava para ouvir, em certos momentos, a influência direta do free jazz spiritual de John Coltrane, principalmente em se tratado de Reid. Verdade é que a LC é talvez a única power band em atividade, aquela classificação de grupo em que todos, sem exceção, são grandes músicos.

Pois até a "cozinha" brilhou. Calhoun fez todos ficarem embasbacados com seu solo de bateria e na conjugação com a música “Baianá”, do conjunto brasileiro Barbatuques. Empunhando aquelas baquetas junto com Calhoun, estavam, certamente, Elvin Jones com sua africanidade, John Bonham com sua intensidade, Steve Gadd com sua habilidade, Art Blakey com sua capacidade de criar ritmo. Pouco depois, foi a vez de Wimbish, chamando o público pra cantar e dançar, comandar o palco cantando um medley de três clássicos do hip-hop da Grandmaster Flash & The Furious Five, "White Lines", "Apache" e um dos maiores hits da era break, "The Massage". Demais!

Trecho de "Bi", um dos sucessos da LC

O final do show foi uma sequência de tirar o fôlego, começando com "Glamour Boys", cuja guitarra suingada do riff explode em distorção no refrão cantado pela plateia toda ("I ain't no glamour boy (I'm fierce!)/ I ain't no glamour boy (wow!)"); o blues matador "Love Rears It's Ugly Head", o maior sucesso da LC e cujo clipe gastou de tanto rodar na MTV no início dos anos 90; e a paulada "Type", outro clássico absoluto deles e do rock pesado de todos os tempos. Refrãozasso: "We are the children of concrete and steel/ This is the place where the truth is concealed/ This is the time when the lie is revealed/ Everything is possible, but nothing is real". E Reid, hein?! O que é Vernon Reid tocando?! Ele é por si um show. Definitivamente um dos deuses da guitarra. Contemporâneo de Steve Vai e Joe Satriani, de quem guarda semelhanças no jeito de tocar, Reid é um guitar hero em atividade e que exercita seu estilo não só em solos inventivos (e que não são cansativamente extensos como fazem a maioria dos virtuoses), mas também na maneira de compor. Tanto quanto seus companheiros, vê-lo ao vivo no palco é algo realmente memorável.

Mas, gente: ainda tinha mais, acreditem. O hardcore "Time's Up", que dá nome ao celebrado segundo disco da LC, de 1990, emendou-se com outra de "Vivid", "What's Your Favorite Color?". E, para "encerrar", nada mais nada menos que "Cult of Personality", seguramente um dos 10 maiores riffs do rock dos últimos 40 anos, que foi entoada por todo o pessoal em êxtase que lotava o Opinião. É muito heavy, mas também é muito jazz, principalmente por suas quebras de ritmo, variações de escala e andamento e, claro, a habilidade dos rapazes de improvisar. 

Digo "encerrar" assim, entre aspas, porque ainda rolou, como disse no início, bis. E foi primeiro com a calmaria da gostosa "Solace of You" - que em muito lembra a mistura de reggae e ritmos do Caribe de "Alagados", da Paralamas do Sucesso, de alguns anos antes - para, enfim, terminarem com outra de suas covers emblemáticas: a punk "Should I Stay or Should I Go", da The Clash.

Foram só pedradas, só clássicos, que fez lembrar a primeira apresentação da banda no Brasil, no Hollywood Rock de 1992, quando ainda muito jovens, e que não só assisti ao vivo pela TV na época como gravei em K7 e por anos meu irmão e eu escutamos aquele memorável show. Agora, mais maduros, Glover, Reid, Wimbish e Calhoun continuam a tocar o que talvez à época nem tenha me dado conta com tamanha clareza: a de que se trata do mais alto nível de rock que se possa imaginar. O rock melodioso, tocado com alma e, por que não, também barulhento. Um rock negro, tal qual foi criado, há quase 80 anos. Como diz aquela canção, "Lobão tem razão". Às vezes, tem.

🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸

Quarteto norte-americano no palco do Opinião


Reid, Glover com seus deads e Wimbish com Calhoun ao fundo 


A clássica "Pride" pra exaltar a galera


O grande sucesso "Love Rears it's Ugly Head", 
que pôs o Opinião para suingar


Músicos da mais alta qualidade em uma apresentação histórica


Momento emocionante - e pulsante - com "Open Letter
(to a Landlord)". Louvação e protesto


Quase terminando o show, "Cult of Personality", 
um dos maiores riffs já escritos


Clima de festa dos "metaleiros" com as mãos chifradas pra cima


Cover de The Clash para encerrar 
o show com punk rock



🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸
texto: Daniel Rodrigues
fotos e vídeos: Leocádia Costa e Daniel Rodrigues


quarta-feira, 18 de março de 2026

Música da Cabeça - Programa #451

Como se já não bastasse a guerra, agora um manda animação Lego pra cá, videogame pra lá... Sem brincar com coisa séria, o MDC solta seus mísseis também, mas só os musicais. Hoje, Johnny Rivers, Kraftwerk, Jorge Bem Jor, Nirvana e Chico Science miram seus alvos. No Cabeção, igualmente, uma explosão de talento com os 80 anos da deusa Liza Minelli. Divertida-mente cultural, o programa vai ao ar às 21h na "gamificada" Rádio Elétrica. Produção, apresentação e meme pela paz: Daniel Rodrigues


www.radioeletreica.com

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

André Abujamra & Marcos Suzano - Torakutan - Porto Verão Alegre 2026 - Teatro Simões Lopes Neto - Multipalco Theatro São Pedro - Porto Alegre/RS (13/01/2026)

 

Torakutan Arado da Nova Era
No motor do peito, o som desperta,
Não é apenas barulho, é a trilha certa.
Torakutan chega com o peso do aço,
Abrindo caminho, rompendo o cansaço.
Como o trator que curva o horizonte,
Buscamos a pureza direto na fonte.
Não viemos para derrubar o que é bom,
Mas para limpar o terreno com o nosso tom.
Trecho do semimanifesto “Torakutan”

Tem encontros artísticos que a gente para pra pensar e se admira: “como que isso não aconteceu antes?!”. No caso de André Abujamra e Marcos Suzano, dois craques da música brasileira, até já havia ocorrido, mas não com a intensidade e inteireza que o novíssimo projeto Torakutan apresentou-nos em um inspiradíssimo (e inédito!) show em Porto Alegre, durante a programação do Porto Verão Alegre 2026. Perfeitamente sintonizados em seus estilos, referências e, principalmente, liberdade artística, Abu e Suzano fizeram do palco do Simões Lopes Neto um altar de criatividade e musicalidade, improvisando e inventando, ali mesmo na hora, vários números, mesmo quando havia algum “roteiro”.

Sempre bem-humorado, o “Mulher Negra”, o “Homem Bruxa”, o Karnak ou seja lá o que se queira creditar a esse artista especial, Abu - a quem conheci anos atrás em Gramado e que virou um amigo desde lá - conversou e interagiu com a plateia o tempo todo, entre os números e, às vezes, durante os mesmos. Suzano, menos falante mas muito simpático, largou observações que também tiraram risos da galera. Usando programadores digitais (que conseguem gravar na hora e sequenciar os acordes tocados, mantendo a base das músicas) e poucos instrumentos (Abu: guitarra, piano e flauta chinesa, e Suzano: uma diversidade de instrumentos percussivos, tanto físicos quanto eletrônicos), eles começaram executando o que se pode chamar de “Intro Torakutan”, um show de improvisação que já deu a noção do que viria.

 Vieram, na sequência, a delicada “Pangea”, do repertório de Abujamra, com sua tradicional poesia humanista-universalista (“Antigamente o continente era colado/ A África ficava aqui do lado/ Angola, Senegal/ Coladinho no Candeal”). No primeiro “improviso maluco” da noite, conforme Abu anunciou, ouviu-se de ritmos nordestinos e africanos a trance music! Outra linda de Abu, sobre a perda de sua mãe, “O Mar” (presente no álbum “Omindá”, de 2018), foi tocada com alto grau de emoção, visto que ela, no passado, conheceu seu pai, o ator e diretor de teatro Antônio Abujamra, justo em Porto Alegre, de onde vem parte de sua família – na plateia estavam presentes diversos parentes de Abu, inclusive o diretor e idealizador do festival, o ator Zé Victor Castiel, seu primo. Mas tinha ainda mais: Abu contou que, quando apresentou a letra da música para seu pai, este, sincero e mordaz como era, não gostou do que leu. Porém, dias depois, foi ele quem faleceu. A música, onírica e profunda: diz assim em seus versos: “O mar é como a vida, o mar/ Que tá calmo e no outro não”.

Um trecho da emocionante "O Mar"

Na sequência, foi a vez de Suzano trazer uma de seu repertório, a malemolente “Desentope Batucada”, do seu disco solo “Sambatown”, de 1996. Nesta foi uma das vezes em que pudemos ouvir o pandeiro de Suzano, que vale por uma escola de samba inteira. Mais um “improviso maluco”, agora com a participação efetiva do público. Abu pediu para que três pessoas da plateia dissessem cada uma alguma palavra. Saíram: “lucidez”, “panela” e “amor”, que, juntas, viraram o título do xote criado na hora, inclusive a própria letra, feita por outra pessoa da plateia a pedido do artista via IA no celular. A música resultante, embora um pouco errática em algumas horas, saiu legal, além de engraçada, sonora e filosófica, visto que coloca todos diante da dicotomia analogia x digital.

Com maravilhas de improvisos desses dois feras entre as músicas (como no duelo de baião entre guitarra e pandeiro, um dos momentos mais aplaudidos), rolou ainda uma música-tema da “terceira maior big band do mundo” (afinal, Os Mulheres Negras é conhecido por ser a segunda), “Torakutan”, uma versão diferente de “Porquá Mecê”, também do repertório dos tempos d’Os Mulheres, e a crítica “Mendigo”, que Suzano disse ter ficado impressionado quando ouviu pela primeira vez, em 2015, no disco “Homem Bruxa”, de Abu.

Para encerrar, mais improvisação e a brilhante “Espelho do Tempo”, noutro momento carregado de emoção, pois é uma peça que fala da ancestralidade e escrita por Abu para seu pai. “O presente é o reflexo do passado/ E o futuro é o reflexo do presente”. Versos bastante simbólicos estes para finalizar um show em que se vê dois artistas à frente de seu tempo. Entre a brincadeira e a poesia, Abu diz que a palavra “Torakutan”, quer dizer, em algum dos vários idiomas nos quais brinca de traduzir, “farol de luz”. Vimos dois deles no palco.

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A dupla começa o show no Simões Lopes Neto!


Abu: uma cabeça rara


Suzano: craque da percussão


Abu cantando trecho de "Candelara", do repertório da Karnak, 
acompanhando o pandeiro de Suzano


Torakutan em ação


Aplausos e mais aplausos ao final


Nós no camarim com o amigo Abu


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texto: Daniel Rodrigues
fotos e vídeos: Daniel Rodrigues e Leocádia Costa

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Wayne Shorter Featuring Milton Nascimento - "Native Dancer" (1975)

 

“Wayne Shorter foi – e sempre será – mais do que um parceiro musical. Desde que nos conhecemos, nunca nos separamos. Em 1975, ele me convidou para gravar o ‘Native Dancer’, e mudou a minha vida e carreira pra sempre”.
Milton Nascimento

“Graças a um gênio chamado Wayne Shorter, eu conheci o grande Milton Nascimento em 1975, pelo álbum 'Native Dancer'. Não sabíamos tanto sobre Milton como, talvez, devêssemos saber, mas amávamos Shorter, então, o que ele fizesse, nós escutaríamos." 
Steve Jordan

Humildade é uma qualidade dos grandes músicos. Mesmo sabendo de seus próprios tamanhos e importância, artistas da música dotados dessa integridade entendem que nunca é tarde para aprender e celebrar seus pares. Por exemplo, o Earth, Wind & Fire já era um grupo de sucesso em meados dos anos 70 e que vendia, há pelo menos três álbuns, mais de 1 milhão de cópias. Nem por isso Maurice White, principal líder da banda, deixou de manifestar sua admiração pelo brasileiro Milton Nascimento quando o encontrou por acaso num hotel em Los Angeles. Além da reverência, White admitia que a EW&F, já conhecida por seus arranjos vocais sofisticados, havia aprendido, por causa de um disco lançado por Milton em 1975, a usar os falsetes tal como o mestre de Três Pontas, o que deixou ele – que também admirava os colegas norte-americanos – bastante envaidecido e feliz.

O trabalho responsável por essa ponte de inspiração e gratidão, que completa 50 anos de lançamento, é fruto, aliás, do mesmo sentimento de admiração recíproca. A amizade de Milton com o saxofonista e compositor norte-americano Wayne Shorter, um dos deuses do jazz, já vinha de alguns anos, quando este, em passagem pelo Brasil com sua banda Weather Report, assistiu a um show do disco “Clube da Esquina”, de Milton e Lô Borges, no Rio de Janeiro. Shorter ficou fascinado por Milton e quis conhecê-lo. Dali, surgiu mais do que um encontro de almas e, sim, um convite: o de gravarem um disco juntos. Nascia o influente álbum “Native Dancer”.

Com a participação de músicos brasileiros, como os percussionistas Airto Moreira e Robertinho Silva e o pianista e maestro Wagner Tiso, e de norte-americanos, como o icônico pianista Herbie Hancock e os guitarristas Dave Amaro e Jay Graydon, “Native...” é um disco memorável em vários sentidos. Primeiro, por inserir de vez a latinidade no jazz fusion que Shorter já vinha desempenhando em carreira solo e com a Weather Report. Segundo, por abrir as portas daquilo que, tempo depois, passaria a se chamar de world music, quebrando as barreiras (e os preconceitos) de gêneros musicais. “O Wayne acertou na mosca”, disse Milton em entrevista ao Jornal do Brasil em 2008. “Naquela época, o pessoal de rock não gostava do pessoal de pop que não gostava de jazz, não gostava disso, não gostava daquilo... Ele acabou com isso”, salienta. Por fim, "Native..." é um marco pelo feito de reunir duas forças da natureza: Shorter e Milton, por si só um momento grandioso.

Equilibrado, “Native...”, mesmo sendo um disco de Shorter com Milton como convidado, intercala os protagonismos entre os dois, numa clara reverência do primeiro para com o amigo. Das nove faixas, mais da metade são de Bituca. O começo, inclusive, é dado a ele – que arrasa. “Ponta de Areia”, até então gravada apenas por Elis Regina e Marlene, ganha pela primeira vez a interpretação pela voz penetrante e divinal do seu autor. Milton viria a regravar a canção outras duas vezes ainda naquele ano: uma em duo com Nana Caymmi (num arranjo de ninguém menos que Tom Jobim) e outra no seu disco “Minas”. Nada, no entanto, se compara a essa versão: o impressionante falsete de Milton, que canta num tom acima da sua própria gravação, e o sax soprano de Shorter se entrelaçam e se congraçam. Pode-se dizer, tranquilamente, que essa música é o momento mais intenso da obra de Shorter em toda a década de 70. Algo divino.

A ritmada instrumental “Beauty and the Beast”, de Shorter, na sequência, mostra o quanto ele estava empenhado em saudar a música brasileira. Já a tristonha “Tarde”, depois, traz Milton de volta, agora com o elegante piano acústico de Hancock em pleno casamento com o piano elétrico de Tiso. Não fosse o solo de sax de Shorter, na segunda parte, poderia se dizer tranquilamente que a música foi gravada pela turma do Clube da Esquina em terras tupiniquins, tamanha o respeito que o norte-americano teve em manter à sonoridade dos mineiros.

É Milton quem dá as cartas novamente, agora para uma espetacular “Miracle of the Fishes”, cujo título em inglês não desbanca a letra em português original, a qual dá título ao célebre disco dele de 1973, “Milagre dos Peixes”. Que show de vocais, da bateria de Robertinho, do piano elétrico de Tiso, do violão indígena e ibérico de Bituca! Mas o mais espetacular mesmo é o duo voz/sax que os cabeças entregam da segunda metade em diante. Milton criando harmonias vocais impensáveis, improvisando vocalises, cantando versos; Shorter, com a sensibilidade de tocar no mesmo registro da voz e solando com a habilidade de um verdadeiro Jazz Massanger ou de um integrante do Second Great Quintet de Miles Davis. Uma sintonia excelsa entre os dois.

Os amigos Shorter e Milton, nos anos 2000, relembrando
os tempos de "Native Dancer"

Em “Diana” é a vez de aparecer a sintonia com Hancock, amigo comum de ambos. Hancock havia tocado com Milton em seu “Courage”, de 1968, na primeira incursão internacional do músico brasileiro, e seguiria colaborando com ele em muitos outros trabalhos a partir de então. Com Shorter, entretanto, a troca vinha de ainda antes, fosse nos revolucionários discos da Blue Note do início dos anos 60, fosse na formação da famosa banda de Miles. Toda essa intimidade lhe dá condições de criar a atmosfera perfeita para o sax tenor desfilar nesta balada jazz, especialidade de Shorter e dele. 

Não menos incrível é “From the Lonely Afternoons”, cujos vocalises de Milton iriam influenciar, assim como Maurice White, outro grande jazzista como Shorter e Hancock: Pat Metheny. Basta ver temas como “Estupenda Graça” (de “As Falls Wichita, So Falls Wichita Falls”, 1981) ou “(It's Just) Talk” (“Still Life (Talking)”, 1987). Samba-jazz instrumental - assim como “Me Deixa em Paz” e “Cais”, do repertório de “Clube da Esquina”, de 1972, que tanto impressionou Shorter - é “Ana Maria”, dedicada à então esposa de Shorter, a portuguesa Ana Maria Patrício. O sax desenha a melodia em tom alto, de difícil registro. Detalhe importante: a autoria desta bossa-nova, que bem podia ser de Milton ou de algum compositor da MPB, é do próprio Shorter.

Continuando a sessão de dedicatórias iniciada na faixa anterior, é a vez de Milton reverenciar a mãe “Lilia” noutro instrumental cheio de musicalidade e sofisticação. Originalmente gravada no famigerado álbum “Clube da Esquina”, agora a música recebe uma nova carga expressiva adicionada pelo sex soprano de Shorter, que extravasa e eleva a música ao ápice emocional do disco. Milton, obviamente, não fica para trás, usando seu canto carregado de beleza e mistério a serviço desta emotividade.

Outro número dedicado é “Joanna's Theme”, que encerra “Native...”. Autoria de Hancock, foi composta um ano antes para a trilha sonora do filme “Desejo de Matar” como tema de uma das personagens. A percussão atmosférica de Airto ajuda a dar clima para esse jazz sombrio em que, novamente, a parceria Hancock/Shorter funciona, literalmente, como música.

Como o próprio Milton evidencia, “Native...” foi um divisor-de-águas na sua carreira, tornando-o um artista global a partir de então. O posterior contato com os mais diversos músicos do planeta como Paul Simon, James Taylor, Quincy Jones, Sarah Vaughan, Jon Anderson e Annie Lennox só se deu em razão deste encontro de almas com Shorter. Os dois, aliás, se encontrariam diversas outras vezes ao longo das carreiras, como em “Milton/Raça”, de 1977, “A Barca dos Amantes”, de 1986, “Yauaretê”, de 1987, e “Angelus”, de 1993, todos discos de Milton. Shorter, por sua vez, nunca deixou de reverenciar o amigo, tocando com ele em apresentações, incluindo músicas suas no repertório próprio ou, simplesmente, apontando-o como um dos maiores gênios da música mundial. Para ele, assim como só existe um Miles Davis, também só existe um Milton.

Maurice White estava certo: deve-se eternamente agradecer e reverenciar Milton Nascimento. Metheny, Criolo, Esperanza Spalding, Steve Jordan, Peter Gabriel e Björk, outros renomados influenciados por Bituca, engrossam esse coro. Ainda mais Wayne Shorter, que, com a generosidade e a humildade dos grandes, abriu espaço para que Milton pudesse levar ao mundo sua musicalidade única em perfeita harmonia com a sua musicalidade. Simbiose que vai além de uma simples compreensão, pois resultante de uma conexão que se dá noutro plano, no astral. A “voz de Deus” e o “sopro divino”, juntos, só podia dar nessa comunhão, que dialoga através de música. Milton diz que ele e Shorter sempre se entendiam sem precisar dizer nada um para o outro, pois, segundo ele, já estava tudo "lá em cima”, onde somente os Deuses acessam.

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FAIXAS:
1. “Ponta De Areia” (Milton Nascimento/Fernando Brant) - 5:17
2. “Beauty And The Beast” (Wayne Shorter) - 5:07
3. “Tarde” (Nascimento) - 5:51
4. “Miracle of the Fishes” (Nascimento/ Brant) - 4:46
5. “Diana” (Shorter) - 2:59
6. “From The Lonely Afternoons” (Nascimento/ Brant) - 3:13
7. “Ana Maria” (Shorter) - 5:10
8. “Lilia” (Nascimento) - 7:01
9. “Joanna's Theme” (Herbie Hancock) - 4:19


OUÇA:

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Daniel Rodrigues