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| Ambas as cenas do "êxtase" final. À esquerda o original, que parece um Hellraiser de tão horrendo, e à direita, o remake que está mais para mais o Auto da Compadecida, só arranca uma tira de couro. |
Cly Reis
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| Ambas as cenas do "êxtase" final. À esquerda o original, que parece um Hellraiser de tão horrendo, e à direita, o remake que está mais para mais o Auto da Compadecida, só arranca uma tira de couro. |
Cly Reis
E eu não estava só. Juntamente comigo e Lincon, estiveram: Carl Marx (sim, eu debati com Carl Marx!), estudante de filosofia na UFRGS e militante do CNAB; Danusa Alhandra, militante da União Brasileira de Mulheres (UBM-RS) e da União Nacional de Negros e Negras (UNEGRO-RS); Eduardo Fortes, professor, quilombista, presidente da ONG UmBUNTU e vereador suplente em Alvorada; e Nicolas Marques, presidente da União Gaúcha dos Estudantes (UGES) e militante da Juventude Pátria Livre.
Todos falaram sobre o filme a partir de suas percepções e vivências, o que certamente gerou um conteúdo rico para a gurizada que participou. De minha parte, comentei brevemente sobre a realização de “Quilombo” e seu contexto dentro da cinematografia negra do cinema brasileiro e a de seu realizador, o cineasta alagoano Cacá Diegues (1940-2025). Também expus minha admiração sobre a obra, talvez o grande épico do cinema nacional, e a importância de trazer à tela heróis negros até muito pouco tempo desvalorizados e invisibilizados na História oficial do país.
No filme, que se passa no Nordeste brasileiro do século 17, diversos escravos fogem e se unem para formar o Quilombo dos Palmares, no interior de Alagoas, aproveitando-se da fraqueza do governo colonial, que enfrenta a invasão holandesa. Sob o comando de Ganga Zumba - e depois de Zumbi -, o quilombo prospera e os ex-escravos tornam-se uma força militar e comercial poderosa, ameaçando o domínio dos colonizadores e a autoridade real. Logo, as forças da ordem se mobilizam para liquidar com os afro-brasileiros rebeldes numa guerra sangrenta que se estenderá por muitos anos. Quilombo dos Palmares existiu/resistiu por cerca de 1 século.
Mais sobre “Quilombo” teria para falar, assim como na ocasião para os alunos da Campos Verdes, a quem expus apenas parte do possível e o mínimo para uma fala que interessante, uma vez que outras vozes trariam a eles outras contribuições. Não coube, por exemplo, mencionar a maravilhosa trilha sonora do filme, feita especialmente por Gilberto Gil em parceria com Wally Salomão. Ao final, já saindo da escola, um dos alunos passou por mim e agradeceu pela oportunidade. Considerei um ótimo retorno, tendo em vista que, se já é cada vez mais difícil as pessoas dizerem alguma coisa, quanto mais adolescentes, que são mais fechados, tímidos ou absorvidos pelos seus próprios mundos. Ademais, nunca se sabe de fato o que as pessoas acharam, mesmo com os protocolares aplausos ao final... Independentemente disso, a oportunidade em si foi única e a iniciativa do CDDC louvável. Por mais atividades culturais e cinematográficas assim para os jovens das nossas periferias.
Confira nas fotos um pouquinho de como foi:
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| Lincon fazendo a abertura |
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| Eu falando um pouco sobre o filme e a obra de Cacá Diegues |
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| Quilombo ao fundo corroborando comigo |
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| A vez de Danusa Alhandra conversar com a galera |
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| O quilombista Eduardo Fortes atraindo as atenções |
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| A numerosa turma do Campos Velho presente |
O roteiro do filme, se não todos, muitos já sabem, haja vista que a produção é de 8 anos atrás. Por isso, relembremos: “Todos...” conta a história de Laura (Penélope), que retorna à Espanha natal para acompanhar a cerimônia de casamento de sua irmã. Por motivos de trabalho, o marido argentino (Darín) não pode ir com ela. Chegando no local, Laura reencontra o ex-namorado, Paco (Bardem), que não via há muitos anos. Durante a festa, uma tragédia acontece. Toda a família precisa se unir diante de um possível crime de grandes proporções, enquanto se questionam se o culpado não está entre eles. Na busca por uma solução, segredos e mentiras são revelados sobre o passado de cada um.
Afora trazer na mesma produção Argentina e Espanha, “Todos...” nos apresenta semelhanças cinematográficas que também unem esses dois países. A história faz bem lembrar a ótima fase recente do cinema argentino, que produziu vários thrillers empolgantes como “O Segredo dos Seus Olhos”, “Vermelho Sol” e "Kóblic", além de jogar luzes sobre Darín, um dos melhores atores deste século. Igualmente, o filme faz remontar o clássico cinema espanhol, como o fantástico de Victor Erice e as tramas de suspense psicológico de obras como “Dispara!” e “O Sétimo Dia”, estes dois últimos do saudoso Carlos Saura - que, aliás, já havia feito a ponte entre seu país natal e o sul-americano nos documentários "Tango", de 1998, e "Argentina", de 2015. Colabora para este resultado a direção de Farhadi, representante de uma escola cinematográfica tão importante do novo cinema mundial como a do Irã.
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| Espanha e Argentina em campo, só que no cinema, por meio dos astros Penélope Cruz, Ricardo Darín e Javier Bardem |
Igualmente, “Todos...” também aproxima os países finalistas da Copa por um motivo até então inédito na competição: será apenas a segunda vez em quase 100 anos que os dois principais times falam o mesmo idioma! Já teve de tudo em termos idiomáticos em Copas: português com italiano, espanhol com holandês, francês com croata, alemão com húngaro, italiano com checo... mas espanhol com espanhol só lá na primeira edição, em 1930, quando Argentina e Uruguai se enfrentaram. Geopoliticamente falando, é a primeira vez que, a rigor, um país colonizador enfrenta um colonizado por ele mesmo, relação esta que remonta a mais de 500 anos!
História à parte, será um grande jogo e que reescreverá, sim, um novo capítulo histórico, Em campo, o próprio estilo de jogo de cada equipe é parecido, valorizando a bola e contando com a força do coletivo. No cinema, arte essencialmente coletiva, essa química entre espanhóis e argentinos já deu muito certo, a se ver por outros títulos hispano-argentinos como o já citado "O Segredo...", "Um Conto Chinês" e “Truman”, todos, aliás, também com Darín. O suspense de Farhadi mostra bem isso, pois cada um dos países, Espanha e Argentina, são escolas craques nas quatro linhas que formam a câmera. Isso “todos los saben”, Agora, falta saber qual escola, mas a do futebol, se saíra melhor nas quatro linhas do gramado.
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Nossos concorrentes cinematográficos aqui, estão mais para aquelas seleções medianas que já se dão por muito satisfeitas por estarem em uma Copa e se conseguirem aprontar contra um grande ou passar de fase, é o bastante para ser decretado feriado nacional no país.
Tanto o original, "Pânico em Alto Mar", produção alemã, quanto sua refilmagem portuguesa, "Medo Profundo", também conhecida como "Perdidos", não tem credenciais para transitar em qualquer rol de grandes filmes, embora o primeiro seja frequentemente mencionado como um bom suspense, no mínimo tenso e envolvente.
Rigorosamente com o mesmo enredo, em ambos um grupo de amigos que não se vê há algum tempo, é convidado por um deles para um passeio em seu iate particular, sendo que uma das convidadas, Amy no original e Ana, na refilmagem, está casada e leva seu pequeno bebê (Sarah, no primeiro e Henrique na mais nova versão). O problema é que, lá pelas tantas, um resolve dar um mergulho no mar, outro o segue, e o babaca e inconveniente dono do iate, mesmo sabendo do problema que a protagonista tem com água, a força a entrar com ele. Só que estúpido como é, esquece de descer a escada antes de se jogar no mar e deste modo, não há ninguém dentro da embarcação para lhes ajudar a voltar a bordo, a não ser um bebê de colo que por enquanto dorme, mas que com o passar das horas vai ficar impaciente, desidratado e faminto. Aí começa o drama da tripulação, toda na água, entre conflitos, desavenças, cansaço, cãibras, fome, sede e o desespero crescente.
"Pânico em Alto Mar" (2006) - trailer
"Medo Profundo"/ "Perdidos" (2017) - trailer
Bem feito, caprichado, com cuidados evidentes de luz e fotografia, atuações convincentes, a produção alemã falada em inglês tem bons predicados e alguns bons diferenciais que o sustentam.
Já o mesmo não se pode dizer da versão lusitana. Superficial, desleixado, apressado, ele suprime, por exemplo, a origem da fobia da protagonista por água, fazendo parecer um mero medinho. O filme alemão, por sua vez, usa flashbacks da infância de Amy para chegar na origem daquele pavor por água, o que é reforçado constantemente de alguma forma, de modo que o espectador entenda que não se trate de um mero capricho. E tem a presença mais constante do bebê que fica abandonado na embarcação, sua menção, seu choro, a preocupação dos pais impotentes na água; a relação do casal harmoniosa e afetuosa no original e conflituosa no remake, o que não representa nenhum ganho; temos uma construção mais completa e coerente da relação dos amigos no barco; além de um fotografia cuidadosa que faz questão de reforçar visualmente a infinidade do mar e a impossibilidade de chegar a algum lugar sem ajuda, e que cuida para não cair no apelativo ou sensual quando todos tem que ficar nus, com tomadas e luz precisas que não revelam qualquer parte intima em momento algum. Detalhes, detalhes que fazem o filme de 2011 nadar de braçada no confronto.
O resultado é vitória fácil de Pânico. Não é ameaçado em momento algum, mas como também não é um grande time, faz só aquele 2x0 clássico.
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| À esquerda, no original, o grupo tentando algum recurso para voltar à embarcação. à direita, no remake, os amigos ainda desfrutando do passeio de iate. |
Cly Reis
"Penalidade Máxima" é a versão da bola redonda do clássico da bola oval "Golpe Baixo", sem conseguir no entanto conquistar o espectador como o original. Embora até tenha uma boa montagem, uma edição ágil, alguns elementos de trama mais elaborados, o longa britânico soa duro e sem alma. Vinnie Jones que fora jogador de futebol profissional, não tem o mesmo charme nem o carisma do grande Burt Reynolds e isso faz uma certa diferença em se tratando do protagonista para o prestígio do filme.
Em "Penalidade Máxima", Danny Meehan, um ex-jogador de futebol banido da Liga de Futebol depois de um escândalo de armação de resultados, já aposentado e muito vida-loka, é preso e condenado por desordem, baderna, mau comportamento, desacato e outros excessos, e vai parar num presídio onde o diretor é fã de futebol e quer que seu time de guardas vença uma liga amadora. Para tal objetivo, convida o ex-craque que se recusa inicialmente mas que, ameaçado, chantageado, propõe então uma partida entre os guardas e um time de presos treinado por ele.
Há algumas diferenças em relação ao clássico do futebol americano, uma delas é que o administrador da penitenciária, cheio de dívidas com agiotas, pressionado só aceita a ideia de Meehan de uma partida contra os detentos contando com as apostas no jogo para pagar os devedores. Outra pequena diferença é que em "Penalidade Máxima", o melhor amigo de Danny na cadeia não morre no atentado ao craque na cela. Outra é que na versão do soccer, o ex-craque recorre a um 'mafioso' influente dentro da penitenciária para ter os melhores presos para reforçar seu time que em princípio relutam em se juntar a ele e não ao grupo dos negros da cadeia. Tudo isso sem falar no final verdadeiramente explosivo da nova.
De resto tudo muito parecido: o guarda antipático e implicante, a secretária bonitinha, o grandalhão burro e violento que será o trunfo de força do time, e aqueles clichês de sempre.
A propósito do brutamontes do time, aquele personagem quase gutural dos filmes anteriores, mantido separado em uma ala à parte por sua periculosidade, em "Penalidade Máxima" o personagem é interpretado por Jason Statham, por quem particularmente não tenho nenhuma grande admiração como ator, mas que considero ter sido mal aproveitado considerando sua projeção é representatividade dentro de seu segmento do cara durão, fodão e tal, utilizado no filme como goleiro, distante da áreas de conflito do campo onde renderia mais encontrões e bordoadas.
Pela plasticidade do jogo de futebol, com seus voleios, bicicletas, pontes e mãos trocadas, peixinhos, lambretas, etc., "Penalidade Máxima" tinha potencial para ser uma boa versão em relação ao esporte norte-americano, mas infelizmente não acrescenta nada. ;ainda mais por ter sido muito bem assessorado sobre o esporte e ter contado com vários ex-jogadores. Atores ruins, personagens mal escritos, desperdício de deixas prontas do outro filme, e ,no fim das contas, um produto que não empolga e não é bom o suficiente para ser lembrado.
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| Apesar de já ter jogado bola, Vinnie Jones não funciona como astro do filme de futebol, e o futebol (da bola redonda) não funciona como remake do clássico de futebol americano |
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Ditadura militar argentina. O governo do General Videla usa a Copa do Mundo como propaganda política, como cortina de fumaça para todos os problemas sociais, como pão-e-circo, e a seleção nacional, se campeã será o símbolo de um país no caminho certo.
Um grupo de agentes do governo, no dia da final da Copa do Mundo de 1978, entre um lance e outro do jogo, um jogo de cartas, uma conferida no placar, a ansiedade pelo resultado, pelo título inédito da Albieleste, tortura jovens rebeldes ao regime em uma instalação afastada de Buenos Aires. Buscam informações a respeito de um suposto grupo revolucionário e não economizam nos métodos cruéis e sádicos para arrancar dos presos a informação sobre a sede do tal movimento rebelde. Eles conseguem o endereço, vão ao tal local, invadem e prendem um grupo nada peculiar em atividades um tanto estranhas para um núcleo subversivo. Pois é... e não era mesmo uma organização insurgente. Informação errada! Tratava-se de um grupo satanista que realizava um ritual que, para azar dos agentes, se completaria, lá, dentro dos muros da ditadura.
Possuídos, os membros do culto, ficam incontroláveis, sedentos de sangue e famintos por carne humana promovendo uma terrível carnificina dentro da cadeia, não fazendo diferenciação entre torturadores e torturados.
Uma figura sobre o verdadeiro mal. O homem e suas ideologias políticas ou o que tememos como demoníaco ou sobrenatural. O que é pior?
Ambas as violências são terríveis e chocantes, mas, em nome do terror, o massacre dos demônios tem mais sangue, tripas e é bem mais impressionante para a telona. A cena em que devotas de satã arrancam o pênis de um dos torturadores é absolutamente brutal e repugnante, só para ficar em um momento desses horripilantes do filme.
No geral, "1978" não é um grande filme, se perde entre a mensagem política e o terror, e a amarração das duas coisas na trama é muito frágil, inconsistente, pouco trabalhada. Vale minimamente pela reflexão que levanta sobre qual é verdadeiro terror, e, para os fãs do gore, do splatter, é claro, vale especialmente pelo horror gráfico e pelo banho de sangue.
Queriam encontrar os 'vermelhos'? Tá aí o vermelho pra vocês.
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| "...E a rebelde endemoniada tira as bolas do torturador! Que beleza!" Isso sim é que é futebol arte. |
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Ótimo oponente, por sinal. Somente um especialista em faroestes como Leone para ousar desafiar as sagas de samurais errantes de Kurosawa.
Nos dois filmes, um forasteiro sem origem e sem destino chega a um vilarejo dominado por duas famílias rivais que impõe autoridade, pavor e submissão aos habitantes. O aventureiro percebe a oportunidade de ganhar alguns trocados por ali mas logo, desmandos, crueldades e injustiças fazem com que seu senso de moral fale mais alto que o dinheiro e ele passe a agir em prol dos oprimidos da pequena aldeia, especialmente um casal que é arbitrária e cruelmente afastado de seu filho pequeno.
Com algumas diferenças de andamento e de ação a trama das duas versões é praticamente a mesma. O herói, ardiloso e sagaz, se infiltra nas famílias e as corrói por dentro causando-lhes danos e prejuízos, fazendo com que cada vez mais uma se volte contra a outra.
"Yojimbo, O Guarda-Costas" (1961) vs. "Por Um Punhado de Dólares (1964) - lado a lado
Kurosawa dá um pouco mais de contextualização social, Leone imprime um pouco mais de dinâmica, o preto e branco do primeiro é elegante e salienta os contrastes, o colorido do outro reforça a aridez do ambiente, enquanto o italiano desde cedo sugere que exista alguma questão envolvendo uma família, o japonês só nos apresenta mesmo a situação da criança bem adiante, se o faroeste spaghetti de Leone tem a excitação das balas e dos tiros, a ação samurai tem o balé das espadas. Difícil estabelecer algo melhor...
E o que falar dos craques dos craques de cada time? Toshiro é o equilíbrio na medida certa entre a sobriedade e a intensidade, Clint, aquele personagem incógnito, indecifrável, inabalável.
O time italiano conta com outro craque no time, o maestro Ennio Morricone na batuta, com mais uma trilha marcante, porém o menos conhecido no mundo ocidental, mas não menos competente Masuro Satō não deixa por menos e entrega uma trilha pontual e precisa.
Impossível dar a vitória para um dos dois. Esse é daqueles jogos históricos de Copa, tipo, 5x5. Daqueles duelos que ficam pra sempre na memória do torcedor.
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| O charme imponente de Toshiro e a tranquilidade impenetrável de Clint. Dois times com matadores como esses só podia resultar num jogo de muitos mortos... digo, quero dizer...muitos gols. |
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| O diretor romeno Christian Mungiu recebendo o prêmio principal do festival |
Não que filmes não possam ser assim. Muitos o são. Mas séries, enquanto produto audiovisual, estão muito mais propensas e têm muito menos chance de escapar desse buraco negro da indústria cultural. Se não há problema na continuidade, há nas atuações. Se não peca por estender demais a história, erra na abordagem dos fatos. Se não abre muitos leques narrativos, tem dificuldade de sustentar arcos dramáticos em mais de um episódio. Filmes de longa-metragem (aliás, cada vez mais longos, num movimento reativo de serialização pelo qual o ameaçado cinema comercial atual passa) não estão salvos desses descaminhos, mas, na comparação filme X série, inegavelmente a obrigatória condensação de conteúdo do primeiro sai em vantagem pelo simples fato de impor formalmente aos realizadores de cinema "tradicional" resolverem essas irregularidades em menos tempo.
De vez em quando, no entanto, claro que arrisco alguma série. Dante do entusiasmo em torno da série brasileira da Netflix “Emergência Radioativa”, bem como por causa de meu interesse no tema do acidente radiológico de Goiás, peguei-a para assistir. A minissérie é baseada na história real ocorrida em Goiânia, em 1987, quando catadores de sucata encontram uma substância brilhante num hospital abandonado. O material altamente radioativo, césio-127, que emitia uma luz azul no escuro, passa de mão em mão até ser descoberto. Então, inicia-se uma corrida contra o tempo para evitar uma tragédia de proporções devastadoras.
“Emergência...”, entretanto, mais uma vez comprova minhas percepções sobre série - as ruins. Estrelado por Johnny Massaro, esse sucesso de audiência perde-se justamente naquilo que mais se exige de qualquer produto audiovisual: a narrativa. Os primeiro e segundo episódios até começam bem. Aliás, muito bem. No inicial, onde se estabelece o perfil narrativo da história, recuperando cronologicamente cada dia que antecedeu e a partir da crise deflagrada, os fatos vão sendo contados de uma maneira bastante instigante. Já o segundo episódio é especialmente interessante, porque espelha as ações levantadas no primeiro, explicitando o tamanho do estrago que causaram. Se na parte 1 aparecia a menina Celeste sendo detectada com radiação, por exemplo, na continuação é quando se vê que ela não só teve muito mais contato com o pó de césio-137 do que se imaginava.
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| A pequena Mari Langaro como Celeste no colo da mãe |
Porém, o formato série paga seu preço, e na terceira parte a consistência narrativa cai drasticamente. E pior: as inconsistências até então relevadas começam a saltar da tela. Ritmo, repetições, atuações deficientes. Uma dessas inconsistências, para pegar a mesma personagem exemplificada anteriormente, é a pequena Celeste. A lindinha atriz mirim Mari Lauredo não sustenta as cenas minimamente mais exigentes por conta de sua fraca atuação e/ou direção. Artificial e sem expressividade. E não só ela. Há momentos importantes da narrativa que perdem muito por causa de más interpretações como estas.
Massaro, senhor de papéis intensos e trágicos (os filmes “Os Primeiros Soldados” e “O Filho de Mil Homens” e a série “Máscaras de Oxigênio não Cairão Automaticamente”), se sai bem, pois conduz a história. Porém, Leandra Leal, ótima atriz, diz mais a que veio na novela caipira da Globo do que na série dramática. Um desperdício. Fora isso, a tecnicamente cuidada produção (a reconstituição daquela Goiás anos 80 é bem crível) não se atenta àquilo que a faria crescer: a história verídica em si. Pela intenção de dramatizar, deixa de perceber que o melhor negócio para atingir esse drama é uma pitada maior de documentário. Sobreviventes da tragédia vem tecendo críticas bem fundamentadas por conta disso.
Demonstrando que sentiu o golpe, nem o desfecho se salva, com uma pretensa comunhão dos afetados, sem, contudo, mencionar a formação da Associação das Vítimas do Césio-137 (AVCésio), criada nos anos 1990. Uma longa luta vem se travando pelos contaminados por seus direitos, que reclamam informações confiáveis sobre seus estados de saúde e sobre os reais riscos aos quais foram expostos, além do direito à assistência social e médica e direito básico de reconhecimento pelo Estado da gravidade de sua condição clínica. Nada disso foi contextualizado, num quase desserviço. Ah, séries: me ajudem a te ajudar...
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trailer da minissérie brasileira "Emergência Radioativa"
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Somente este contexto já é suficiente para me aproximar tanto do filme, que reduz minha chance de não gostar. Afinal, o aguardado longa de Fuqua, sucesso de bilheteria, é, sim, apreciável, mas abertamente comercial. Com a direção tecnicamente perfeita e a abordagem pop, como lhe é característico, o cineasta, um dos eminentes negros do cinema norte-americano atual, conta a história do maior astro pop de todos os tempos (interpretado por seu sobrinho Jaafar Jackson) de forma cronológica, porém com um recorte acertado, haja visto que não vai até a sua morte. Pegando do começo da vida artística, ainda criança com os irmãos companheiros de Jackson 5, passando pela ascensão da carreira solo, vai até o fatídico momento em que Michael se desenvencilha do opressor pai, Joe - vivido por Colman Domingo, num papel digno de indicação a Oscar. As belas cenas musicais e o realismo de diálogos ajudam a cumprir bem esse recorte narrativo, que nada mais é do que a escolha central da trama: a conturbada relação de Michael com o pai.
No que se refere a Joe Jackson, cabe uma reflexão sociológica. Afinal, como o histórico de racismo, intolerância e perseguição aos negros nos Estados Unidos gerou pais de família afro-americanos rancorosos, mesquinhos, infelizes e invejosos! E pior: dada a baixa autoestima deles, revoltados com uma sociedade que lhes esmagou e não lhes deu oportunidade de brilharem com seus talentos individuais, usam esses sentimentos somenos, justamente, contra aqueles que deviam amar. É o caso de Joe e o caçula Michael, mas também com outros artistas negros do século 20, como Ike Turner para com a esposa Tina Turner e o pastor C. L. Franklin com sua filha Aretha. Todos psicologicamente doentes e tiranos domésticos. Incapazes de admitir que seus próximos são, sim, astros com mais brilho que eles, entram em rota de colisão e numa cruzada para obscurecê-los. É triste de se ver tamanha perversidade, mas explicável em um contexto maior.
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| Domingo na pele do perverso Joe Jackson: digno de Oscar |
Para quem acompanhou Michael Jackson desde criança até a fase adulta sabe que muito do que é mostrado faz sentido, mas também que há um cuidado em tratar de temas delicados. Porém, essa é a hora de trazer à tona essas delicadezas, se não, fica estranho.
E é aí que a proximidade de fã com a obra do artista faz com que seja impossível não se notar as lacunas. Quanto mais fã, aliás (e nem sou o maior conhecedor de MJ, repleto de ardorosos apaixonados pelo mundo todo), mais se sabe dos fatos verídicos. E me refiro a lacunas importantes, basais. Em "Michael", um dos assuntos faltantes foi criticado antes mesmo do filme ser lançado: o nebuloso (mas possivelmente verdadeiro) caso de abuso sexual sofrido por ele na infância. Nem uma menção, mesmo que sutil para não escancarar algo tão traumático? Pesa negativamente, uma pena.
Outro ponto faltante: onde está Diana Ross? E Stevie Wonder? Ambos admirações de Michael e com quem ele conviveu, tocou, filmou e gravou. Não foi possível incluí-los no roteiro? Foi uma opção? Há questões contratuais que impeçam? Verba para pagar direitos de imagem duvido que os produtores não tivessem.
O que me pesou também foi a ausência de referência ao filme "O Pequeno Príncipe", de 1974. Falou-se acertadamente de Gene Kelly, James Brown, Charles Chaplin e Fred Astaire, inspirações mais óbvias de Michael. Mas seria importante informar a quem não sabe de onde vieram várias de suas referências coreográficas: da dança da serpente no deserto, brilhantemente coreografada pelo ator e dançarino Bob Fosse. Há gestuais idênticos aos eternizados por Michael, dentre os quais o famoso passo Moonwalk, marca registrada de MJ. Tiveram medo de expor Michael e ferir sua imagem? Embora a clara semelhança da dança de um e de outro, não parece uma mera imitação e, sim, uma forte inspiração, por isso não faria nenhum mal em se revelar isso ao grande público. Ao contrário: traria mais uma das referências pop que a genial cabeça de Michael conseguia reunir e devolver em forma de arte.
A semelhança das danças de Michael Jackson e Bob Fosse
De tudo que não está em "Michael", no entanto, o que mais me ressenti foi não se mostrar com mais detalhe o processo criativo do Rei do Pop ao compor. Há vídeos de matérias jornalísticas que registram esse processo, algo absolutamente fascinante de se ver, ainda mais considerando que ele, dono de ouvido absoluto, não precisava (assim como Elis Regina e Lupicínio Rodrigues) tocar nenhum instrumento para saber exatamente o que queria em sua música. Fuqua opta por evidenciar mais o processo de criação coreográfica - o que faz com perfeição nas cenas de "Beat It" e "Thriller" -, mas dá menor relevância para a invenção musical. No máximo, situa o conceito impulsionador de determinadas canções, como coisas que ele via na TV. Como fã, saí frustrado por isso, pois esperava por mais.
Cinebiografias não são necessariamente completas, é certo. Mas quem vê, por exemplo, "O Tempo não Para", sobre Cazuza, sente falta de se mencionar ou representar Ney Matogrosso, pessoa sabidamente fundamental na vida íntima e artística do autor de "Ideologia". Contudo, não dá para alguém que conhece o objeto do filme fechar os olhos para o que (não) está vendo. Ainda mais, quando se tratam de informações importantes.
Há representatividade e "lugar de fala" na direção de Fuqua, uma vez que somente os tempos atuais deram condições a uma produção dessas ser realizada por um cineasta negro. Para ele, pessoalmente, deve ser uma realização abordar um ídolo formativo. Entendo isso. No entanto, fica por aí a reserva autoral. O final de "Michael", que deixa reticências para uma sequência, fecha a tampa dessa abordagem excessivamente comercial da obra: recorta-a até um ponto bem estipulado, mas, fatalmente, não a desfecha com o impacto que merecia. Como geralmente ocorre, o lado business compromentendo o artístico. Mas para um cineasta que esticou até a inanição uma franquia que começou legal como "O Protetor", não é de se estranhar que ainda produza tantas sequências de "Michael" quanto as de "Velozes & Furiosos". E o público do entretenimento, sem maiores distinções, vai adorar.
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Trailer de "Michael", de Antoine Fuqua
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