Sempre enxerguei a Blackexpliotation com uma certa desconfiança. É um gênero do cinema muito atrativo, esteticamente sedutor, exaltador da fantástica cultura afro-americana mas, em última análise, uma mera reprodução dos padrões branconcêntricos e imperialistas. Esse cinema é, em grande parte, alimentado pela teoria do filósofo e médico psiquiatra Frantz Fanon de que o negro, para vencer a alienação imposta pela sociedade branca e passar a oferecer a devida“resistência ontológica”, precisava, necessariamente, passar por um processo de afirmação cultural. Pronto: tudo que vinha acumulado por décadas e décadas de opressão, violência e desumanização da figura do negro norte-americano, foi, por volta dos anos 70, momento culminante desse desenvolvimento social-antropológico, posto em obras cinematográficas como uma forma reativa de se combater o racismo. O método: afirmando a existência do negro com sua cultura e beleza.
Acontece que, como qualquer ação meramente reativa, a chance de se incorrer na superficialidade é grande. E foi o que o ocorreu com a Blackexploitation enquanto movimento: combate à “exploração” da imagem do “negro” através de uma resposta imediata em forma de transposição do espaço ocupado pelo branco, só que agora com figuras pretas na tela. Simples assim: branco por preto, preto no branco. Afora a potência de filmes como “Shaft”, “César Negro” ou “Superfly”, e por conter uma série de qualidades, desde as maravilhosas trilhas sonoras assinadas por gênios da música negra norte-americana até a formação de astros como Pam Grier e Richard Roundtree, há de se dizer que não deu tão certo assim enquanto ação afirmativa.
Era o momento do movimento Black Power, de um país a poucos anos da conquista dos Direitos Civis, dos Panteras Negras, de conflitos raciais e, ao mesmo tempo, de ascendência de ídolos pretos como James Brown, Sly Stone, Sidney Potier e Angela Davis, Ou seja: muita coisa para se elaborar em muito pouco tempo, e o resultado foi a utilização das ferramentas inadequadas. Para ocupar seu espaço, meramente o inverteu. É o que o próprio Fanon chama de “mímica da representação dos senhores”. Tanto que, após o boom da Blackexploitation, precisou que se caminhasse pelo menos mais 40 anos para que, carregados pela mão firme de Spike Lee até então, o cinema norte-americano, enfim, passasse a contar sua história com a consistência merecida através de nomes como Jordan Peele, Steve McQueen, Ryan Coogler, entre outros.
Tudo isso para dizer que “Os Gritos de Blácula”, de Bob Kelljan, filme da
Blackexploitatiion de 1973, é uma boa exceção àquele discurso autoenganado dos
negros norte-americanos com esse cinema. Tive a felicidade de apresentá-lo, no dia
4 de dezembro do ano passado, durante a 12ª edição do festival A Vingança dos Filmes
B, coordenado pelo amigo, colega de Associação de Críticos do Rio Grande do Sul
(ACCIRS) e colaborador deste blog, Cristian Verardi. Continuação de “Blácula – O
Vampiro Negro”, de 1972, “Os Gritos...” se sai melhor do que seu original,
visto que consegue avançar não apenas para com sua obra-matriz mas em relação a
praticamente todos os outros Blackexploitation na discussão
da negritude.
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| William Marshall no papel de Blácula: patologia e conflito |
Grande qualidade de “Os Gritos...” está, justamente, nessa apropriação da lenda de Drácula, tão branca quanto europeia, trazendo seu conflito para o cerne da questão racial. Príncipe Mamuwalde é, ao mesmo tempo, uma figura essencialmente ligada à ancestralidade africana, como ele mesmo expõe na cena em que presencia o leilão de objetos africanos. Contraditoriamente, entretanto, é amaldiçoado justamente por isso. O que lhe constitui é algo que ele considera impuro, doentio, psicopatológico, mas... é o que lhe constitui. Então, para ser ele mesmo, tem que deixar de ser ele mesmo. Alto grau de conflito existencial – e racial.
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| Eu na sessão do festival A Vingança dos Filmes B |
Cena bastante simbólica desse dilema é a que Blácula dialoga
com seu “pupilo” Willis, logo no começo da fita. Ainda sem entender a extensão da
maldição que se abateu sobre ele, Willis arruma-se para sair de casa e ir ao uma
festa. Além da proibição por parte do carrasco, chama atenção a reação de Willis
em relação à famosa característica dos vampiros: não se enxergar no espelho. Incrédulo
de que a partir dali nunca mais poderá ver seu reflexo, chega a pedir a
Blácula que avalie seu visual, tamanha importância que ele como um negro
norte-americano daquela época de “black is beautiful” dava a este aspecto. Não
é apenas uma mera afetação ou vaidade: é o “reflexo” de uma comunidade
precisando se ver representada, precisando cumprir a sina fanoniana de derrubar
as máscaras brancas. Sem ver-se no espelho, isso é impossível.


























