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| "Passagem" |
domingo, 22 de fevereiro de 2026
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026
Gal Costa - “Gal Canta Caymmi” (1976)
Caetano Veloso observou certa vez que a obra de Dorival Caymmi, embora pequena em volume de canções em relação a de outros compositores contemporâneos a ele (tal Ary Barroso ou Lamartine Babo) ou mesmo dos baianos como o próprio Caetano, é proporcionalmente a mais revisitada. Caymmi é pedra-fundamental da música brasileira, um cancionista e poeta capaz de inventar uma nova tradição, a qual encerra o folclore, o samba rural e a vida cotidiana da Bahia de Todos os Santos. Muito fizeram em versá-lo, mas nem sempre com assertividade, visto que sua música leva a uma encruzilhada: de tão original que é, dificulta quem a acessa. De todos, quem melhor resolveu essa equação foi Gal Costa em “Gal Canta Caymmi”, de 1976, disco que completa 50 anos com o mesmo frescor de quando foi lançado, além do show homônimo, um sucesso de público, que estreava exatamente no dia 11 de fevereiro, no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro.
Rainha das dunas de Ipanema que levavam seu nome, o ponto de encontro da contracultura carioca em tempos de ditadura, Gal exercia um papel central em meados dos anos 70. Era, ao mesmo tempo, a devota de João Gilberto e a roqueira janisjopliana, que havia irrompido no festival de 1968 e abraçado a psicodelia tropicalista, influenciando comportamentos e tornando-se um símbolo feminino libertário e contestador. Os parceiros Caetano e Gilberto Gil já haviam voltado do exílio, é bem verdade. Mas Gal, a diva resistente que segurou a barra do Tropicalismo sozinha na hora da linha-dura, conquistou seu espaço inconteste e ali reinava. Assim, tinha carta branca para empreitar o projeto que desejasse, como este, sugerido por Roberto Menescal, diretor artístico da sua gravadora, a Phillips, e prontamente aceito por ela. Por ideia dele, Gal havia gravado, um ano antes, “Modinha para Gabriela” para a novela da TV Globo, canção de Caymmi. Assim, não foi difícil identificar o próximo passo. Após o sucesso dos revolucionários “FA-TAL”, de 1971, e “Índia”, de 1973, era a vez da aguerrida Gal desafiar os padrões novamente, agora, modernizando o cancioneiro do autor de "Maracangalha" e outros eternos clássicos da MPB.
Mexer no que é sagrado não é para qualquer um, no entanto. E, claro, houve críticas. A imprensa inculta da época classificou "GCC" como "um crime à obra musical de Dorival Caymmi", "avacalhação" e "boçalidade". Porém, a cantora sabia o que estava fazendo e que não estava sozinha. Aliás, via-se muito bem acompanhada e amparada. Na trincheira com ela dois sólidos parceiros: Perinho Albuquerque e João Donato. Eles repetiam a química que definira o clássico “Cantar”, de 1974, marco da maturidade musical e artística de Gal. E se naquele álbum havia a batuta de Caetano orquestrando reportório e atmosfera, neste o papel ficava a cargo exclusivamente desses dois exímios arranjadores. A solução perfeita para versar Caymmi. Ora um, ora outro, produtor e diretor musical, respectivamente, eles assinam os arranjos de todas as faixas, equilibrando a pegada rock de um com o clima latin-jazz de outro sem deixar de soar com impressionante unidade. E, principal: ambos trabalham para dar o suporte necessário às formidáveis voz e interpretação de Gal, “a melhor cantora do Brasil” segundo João Gilberto.
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| Caymmi participando do show de Gal, em 1976, no Teatro João Caetano (RJ) |
Aí, o negócio fica sério em duas em sequência: “Pescaria (Canoeiro)” e “O Vento”. O que Perinho faz com essas duas peças da célebre fase das “canções praieiras” de Caymmi é simplesmente deslumbrante. As músicas soam vigorosas, arrojadas, dando a medida da modernidade aplicada por Gal à obra do mestre. “Pescaria” conta com a sanfona de Dominguinhos, baixo de Novelli e violão de Menescal. Já em “O Vento”, piano de Antonio Adolfo e bateria de Paulinho Braga. Porém, deslumbrante mesmo é Gal cantando essas duas, certamente músicas que povoaram seu imaginário sonoro desde pequena em Salvador. O que é ela atingindo os agudos quando sobe um tom nos versos: “Ô canoeiro/ bota a rede no mar”?! Ou quando entoa, num ritmo funkeado: “Curimã ê, Curimã lambaio”?! É de arrepiar. A música está nela, capacidade que somente as grandes cantoras, como Sarah Vaughan, Elis Regina, Amy Winehouse ou Aretha Franklin, conseguem. Gal é uma delas.
O lado B, no formato original do LP, abre com mais um clássico inconteste da cidade de Salvador e do folclore baiano, que é "Rainha do Mar", dedicada à Iemanjá. Filha de Omulu, Gal era devota do candomblé, tendo se iniciado no referencial terreiro Ilê Iaomim Axé Iamassê com Mãe Menininha do Gantois. Ao ouvi-la cantar: “Minha sereia é rainha do mar/ Minha sereia é rainha do mar/ O canto dela faz admirar” tem-se a impressão de que está cantando sobre si mesma, tamanha a comunhão corpo/espírito que a música (e sua voz) consegue provocar.
Em seguida, noutra concatenada com Donato, mais um dos sambas cariocas, e outro show de interpretação de Gal. É "Só Louco", cuja melodia e letra têm visível influência de Lupicínio Rodrigues, com quem Caymmi convivera nos boêmios anos 30 no Rio de Janeiro. Animando o clima dor-de-cotovelo deixado pela anterior, "São Salvador" é daqueles temas solares feitos para o vocal de Gal brilhar. Igual a "Peguei Um 'Ita' No Norte", em que Donato novamente capricha no arranjo e onde Gal põe com delicadeza ímpar sua cristalina voz. Fechando num clima de festa, Perinho a ajuda a transformar o samba urbano "Dois de Fevereiro" em um samba-funk suingado.
Com “GCC”, Gal rompera uma barreira na indústria fonográfica brasileira ao produzir um álbum celebrando apenas um compositor, formato que ganharia o nome songbook mais tarde e se tornaria extremamente comum. Dois anos depois dele, foi a vez de Nara Leão gravar somente Roberto Carlos e Erasmo Carlos no disco “...E Que Tudo Mais Vá Pro Inferno”, um de seus maiores sucessos na carreira, favorecendo-se do caminho aberto pela colega baiana. Sinal de que Gal, mais uma vez, estava à frente das coisas. Ao homenagear Caymmi, ela mostrou que era permitido ousar mantendo o respeito à tradição. Gal nasceu assim, cresceu assim, era mesmo assim e foi sempre assim: uma baiana à frente do seu tempo.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
quinta-feira, 22 de janeiro de 2026
André Abujamra & Marcos Suzano - Torakutan - Porto Verão Alegre 2026 - Teatro Simões Lopes Neto - Multipalco Theatro São Pedro - Porto Alegre/RS (13/01/2026)
Tem encontros artísticos que a gente para pra pensar e se
admira: “como que isso não aconteceu antes?!”. No caso de André Abujamra e
Marcos Suzano, dois craques da música brasileira, até já havia ocorrido, mas
não com a intensidade e inteireza que o novíssimo projeto Torakutan
apresentou-nos em um inspiradíssimo (e inédito!) show em Porto Alegre, durante
a programação do Porto Verão Alegre 2026. Perfeitamente sintonizados em seus
estilos, referências e, principalmente, liberdade artística, Abu e Suzano
fizeram do palco do Simões Lopes Neto um altar de criatividade e musicalidade,
improvisando e inventando, ali mesmo na hora, vários números, mesmo quando
havia algum “roteiro”.
Sempre bem-humorado, o “Mulher Negra”, o “Homem Bruxa”, o
Karnak ou seja lá o que se queira creditar a esse artista especial, Abu - a quem conheci anos atrás em Gramado e que virou um amigo desde lá - conversou e interagiu com a plateia o tempo todo, entre os números e, às vezes,
durante os mesmos. Suzano, menos falante mas muito simpático, largou observações que também tiraram risos da galera. Usando programadores digitais (que conseguem gravar na hora
e sequenciar os acordes tocados, mantendo a base das músicas) e poucos
instrumentos (Abu: guitarra, piano e flauta chinesa, e Suzano: uma diversidade
de instrumentos percussivos, tanto físicos quanto eletrônicos), eles começaram
executando o que se pode chamar de “Intro Torakutan”, um show de improvisação
que já deu a noção do que viria.
Vieram, na sequência,
a delicada “Pangea”, do repertório de Abujamra, com sua tradicional poesia
humanista-universalista (“Antigamente o continente era colado/ A África ficava
aqui do lado/ Angola, Senegal/ Coladinho no Candeal”). No primeiro “improviso
maluco” da noite, conforme Abu anunciou, ouviu-se de ritmos nordestinos e
africanos a trance music! Outra linda de Abu, sobre a perda de sua mãe, “O Mar”
(presente no álbum “Omindá”, de 2018), foi tocada com alto grau de emoção,
visto que ela, no passado, conheceu seu pai, o ator e diretor de teatro Antônio
Abujamra, justo em Porto Alegre, de onde vem parte de sua família – na plateia
estavam presentes diversos parentes de Abu, inclusive o diretor e idealizador
do festival, o ator Zé Victor Castiel, seu primo. Mas tinha ainda mais: Abu
contou que, quando apresentou a letra da música para seu pai, este, sincero e
mordaz como era, não gostou do que leu. Porém, dias depois, foi ele quem
faleceu. A música, onírica e profunda: diz assim em seus versos: “O
mar é como a vida, o mar/ Que tá calmo e no outro não”.
Na sequência, foi a vez de Suzano trazer uma de seu
repertório, a malemolente “Desentope Batucada”, do seu disco solo “Sambatown”,
de 1996. Nesta foi uma das vezes em que pudemos ouvir o pandeiro de Suzano, que
vale por uma escola de samba inteira. Mais um “improviso maluco”, agora com a
participação efetiva do público. Abu pediu para que três pessoas da plateia
dissessem cada uma alguma palavra. Saíram: “lucidez”, “panela” e “amor”, que,
juntas, viraram o título do xote criado na hora, inclusive a própria letra,
feita por outra pessoa da plateia a pedido do artista via IA no celular. A
música resultante, embora um pouco errática em algumas horas, saiu legal, além
de engraçada, sonora e filosófica, visto que coloca todos diante da dicotomia analogia
x digital.
Com maravilhas de improvisos desses dois feras entre as
músicas (como no duelo de baião entre guitarra e pandeiro, um dos momentos mais
aplaudidos), rolou ainda uma música-tema da “terceira maior big band do mundo”
(afinal, Os Mulheres Negras é conhecido por ser a segunda), “Torakutan”, uma
versão diferente de “Porquá Mecê”, também do repertório dos tempos d’Os Mulheres,
e a crítica “Mendigo”, que Suzano disse ter ficado impressionado quando ouviu
pela primeira vez, em 2015, no disco “Homem Bruxa”, de Abu.
Para encerrar, mais improvisação e a brilhante “Espelho do Tempo”, noutro momento carregado de emoção, pois é uma peça que fala da ancestralidade e escrita por Abu para seu pai. “O presente é o reflexo do passado/ E o futuro é o reflexo do presente”. Versos bastante simbólicos estes para finalizar um show em que se vê dois artistas à frente de seu tempo. Entre a brincadeira e a poesia, Abu diz que a palavra “Torakutan”, quer dizer, em algum dos vários idiomas nos quais brinca de traduzir, “farol de luz”. Vimos dois deles no palco.
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| A dupla começa o show no Simões Lopes Neto! |
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| Abu: uma cabeça rara |
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| Suzano: craque da percussão |
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| Torakutan em ação |
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| Aplausos e mais aplausos ao final |
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| Nós no camarim com o amigo Abu |
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segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
sábado, 13 de dezembro de 2025
67º Prêmio ARI Banrisul de Jornalismo - Melhor Reportagem Cultural a Daniel Rodrigues - Auditório da Farsul - Porto Alegre/RS (12/12/2025)
Essa premiação representa a mim uma série de conquistas. Primeiro, pela qualidade dos finalistas com quem concorri, alguns deles, como o amigão Marcello Campos, e Juarez Fonseca, uma referência do Jornalismo Cultural no Brasil, caras de quem tenho os livros em casa e aprendo diariamente. Afora eles, também Ana Stobbe, do Jornal do Comércio, e Camila Bengo, de GZH, jovens jornalistas que merecem todo respeito.
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| Página inicial da matéria do JC publicada em abril |
A ARI, aliás, também merece um aparte: são 90 anos de instituição, criada, lá nos indos de 1935, por ninguém menos que Erico Verissimo, este totem da literatura e da cultura gaúcha e brasileira que, em 2025, completa 120 anos de nascimento e 50 de morte. Tudo muito simbólico, ainda mais num ano em que perdemos, justamente, seu ilustre filho, o genial Luis Fernando Verissimo. Fora isso, o Prêmio ARI em si, em sua 67ª edição, soube ser o mais longevo do Brasil - e não só no seguimento do Jornalismo, mas em todas as áreas!
Por fim, a conquista de alguém que se sente no seu lugar e premiado por seus pares: os jornalistas. A militância do repórter, reduzida por muitos anos, foi retomada por mim este ano a todo vapor pelas páginas do JC e... taí o resultado!
Fiquem, então, com alguns momentos desse feliz momento e a listagem de todos os premiados.
🏆🏆🏆🏆🏆🏆🏆🏆🏆🏆
| Com o mestre Renato Dornelles celebrando o prêmio e nossa ancestralidade |
| Dividindo a felicidade preta com o atual presidente da ARI, José Maria Nunes |
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| Selfie com a amiga - e também vencedora na categoria Reportagem em TV - Isabel Ferrari |
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| Presença preta no Prêmio ARI: colega de profissão e de ACCIRS Chico Izidro com Renatinho e eu |
domingo, 30 de novembro de 2025
quinta-feira, 27 de novembro de 2025
Vila Belga - Santa Maria/RS (Nov. 2025)
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| Uma das belas casas em estilo eclético do inicio do século 20 do complexo arquitetônico Vila Belga |
Mas a sorte não me desamparou. O hotel onde fiquei hospedado, na região Central da cidade, era bem próximo de um verdadeiro patrimônio histórico, arquitetônico, urbanístico e cultural do Rio Grande do Sul, que é a Vila Belga, uma das primeiras experiências de conjunto residencial operário do Brasil. Série de edificações em estilo eclético construídas pela empresa belga Compagnie Auxiliaire des Chemins de Fer au Brésil, entre 1905 e1907, destinavam-se à moradia dos funcionários de menor escalão da companhia, responsável pela Viação Férrea do Rio Grande do Sul (VFRGS) e que tinha em Santa Maria sua sede e ponto estratégico.
O conjunto conta com 84 unidades residenciais, as quais somam-se ainda a sede da Cooperativa dos Empregados da Viação Férrea, seu clube e cinco armazéns, que foram projetados pelo engenheiro belga Gustave Vauthier, à época, o próprio diretor da Auxiliaire.
Com parte conservada, outra não (mesmo que tombada pelo Iphae); parte ocupada, outra não; parte reformada, outra não, o passeio pelas ruas que acessam a Vila Belga é daqueles lances em que se entra num túnel do tempo. Além de materializar um momento histórico (e pujante) de uma cidade que um dia foi polo do transporte ferroviário brasileiro naquele início de século XX. Com o forte investimento na indústria e no transporte automotivo a partir dos anos 50, junto com a paulatina desaceleração (com o perdão da palavra) e sucateamento da linha férrea, hoje a Vila Belga representa algo que, no fundo, não precisaria ser associada somente ao passado. Quanto o país economizaria se tivesse ampliado ou simplesmente mantido suas ferrovias... Enfim, a sorte age para os dois lados sempre.
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| Entrando numa das ruas da Vila Belga |
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| Efeitos da ação do tempo |
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| Um dos postes de luz preservados da arquitetura original |
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| Outra rua da Vila Belga, que se estende até o passado |
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| Uma das casas bem preservadas... |
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| ... e, do outro lado, uma mal conservadas |
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| As casas dando vista para um dos vários morros que rodeiam Santa Maria |
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| Sem teto e sem vida |
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| Mais um conjunto de casas da Vila Belga |
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| Metal on metal |
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| Um gatinho preto atrás das folhagens |
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| Escada verde |
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| A rosa branca levando paz para a antiga vila operária |








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