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sábado, 18 de julho de 2026

"A Pátria de Chuteiras", de Nelson Rodrigues - ed. Nova Fronteira (2013)

 


"É muito difícil elogiar
o Brasil no Brasil, 
é muito difícil elogiar
o brasileiro entre brasileiros."
Nelson Rodrigues


Época de Copa do Mundo e, mesmo quem não tem ligação forte com o futebol, tem ranço com o Neymar ou está cansado da desorganização da CBF, se pega torcendo para a Seleção Canarinho. É quando aqueles caras, em gramados estrangeiros, representam mais que jogadores de futebol, mais que estrelinhas mimadas interessadas prioritariamente em dinheiro, é quando, de certa forma, representam a Pátria.

Coletânea de crônicas organizadas pelo ex-Ministro do Esporte, Aldo Rebelo, reunidas do período entre 1956 a 1977, "A Pátria de Chuteiras", de Nelson Rodrigues, traz toda o característico ufanismo entusiasta do escritor, logicamente acompanhado de muito talento, verborragia, e uma capacidade singular de adjetivações criativas e hiperbólicas.

Composto na maior parte por textos relacionados às Copas do Mundo que o cronista acompanhou, o livro também conta com textos a respeito de outros momentos marcantes do futebol brasileiro, como a vaia histórica de Julinho Botelho, uma atuação assombrosa do crucificado goleiro Barbosa contra o Santos de Pelé, na Taça Brasil de 1959, e o jogo de despedida de Garrincha no Maracanã, tudo sublinhado pelas expressões únicas que consagraram o texto rodriguiano, como complexo de vira-lata, João sem medo e o próprio título do livro, cunhado por ele, a pátria de chuteiras.

Exagerado, patriota a um extremo que chega a beirar o irritante, Nelson Rodrigues insistia para que o brasileiro se valorizasse, melhorasse sua autoestima e abandonasse o que chamava de complexo de vira-lata, diante dos europeus.

Nelson tinha razão em parte. Embora o brasileiro carregue, sim, uma autocrítica muitas vezes excessivamente pesada sobre si mesmo, e mereça um olhar um pouco mais condescendente e generoso, a verdade é que hoje em dia, especificamente no futebol, aquele discurso de que somos os melhores do mundo e ninguém tem talento como nós, já não serve mais. Podemos discutir os motivos: a evasão de jogadores jovens para o exterior, a adoção de sistemas de jogo europeus, a globalização e o ingresso de imigrantes e ex-colonizados em escolas de futebol antes muito rígidas e sistemáticas, enfim...  Mas fico me perguntando se Nelson Rodrigues manteria essa opinião sobre o monopólio do talento brasileiro vendo hoje um Musiala na Alemanha, um Saka na Inglaterra, um Olise, na França, um Yamal na Espanha, driblando e entortando a espinha dos adversários como um bom atacante brasileiro faria.

Acho que hoje em dia Nelson Rodrigues não se orgulharia muito da Seleção nacional e dos jogadores sem sangue e sem coração que vestem a amarelinha.



Cly Reis 

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