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domingo, 25 de janeiro de 2026

Dossiê ÁLBUNS FUNDAMENTAIS 2025

 


Gil comemorando
a liderança nacional nos AF
A gente avisou que o véio tava chegando... Deixou chegar agora já era! Wayne Shorter põe mais um disco entre os ÁLBUNS FUNDAMENTAIS em 2025 e agora divide a liderança com os Rapazes de Liverpool com mais obras destacadas na nossa seção entre os artistas internacionais. Já entre os brasileiros, com a inclusão de "Dia Dorim, Noite Neon", entre os nossos Fundamentais, Gilberto Gil empata com o mano Caetano e os baianos agora dividem a liderança nacional. Mas é bom ficarem espertos porque, comendo pelas beiradas como um bom mineiro, Milton Nascimento aproveita a parceria com o agora líder Shorter e se aproxima da ponta também.
Entre os anos que mais entregaram grandes álbuns, não tivemos mudanças no ano que passou e, ainda que a década de 70 tenha mais representantes, o ano de 1986 segue na frente.
2025 nos trouxe alguns estreantes na nossa seção de grandes discos, como os alemães do Trio, os ingleses do Sleaford Mods, o prodígio Father John Misty, o sambista Argemiro Patrocínio e regionalismo do Quinteto Armorial, mas marcou também os 80 anos do grande Ivan Lins e a entrada da Estônia na galeria de países integrantes da nossa lista, com o genial "Tabula Rasa", de Arvo Pärt.

Confere aí, então, como ficaram as posições nos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS:

*************


PLACAR POR ARTISTA (INTERNACIONAL)

  • The Beatles e Wayne Shorter***: 7 álbuns
  • Kraftwerk e John Coltrane: 6 álbuns
  • David Bowie, Rolling Sones, Pink Floyd, Miles Davis, Talking Heads e John Cale*  **: 5 álbuns cada
  • The Who, The Smiths, Led Zeppelin, Bob Dylan, Philip Glass e Lee Morgan: 4 álbuns cada
  • Stevie Wonder, Cure, Van Morrison, R.E.M., Sonic Youth, Kinks, Madonna, Iron Maiden , U2, Lou Reed**, e Herbie Hancock***: 3 álbuns cada
  • Björk, Beach Boys, Cocteau Twins, Cream, Chemical Brothers, Sean Lennon, Deep Purple, The Doors, Echo and The Bunnymen, Elvis Presley, Elton John, Queen, Creedence Clarwater Revival, Janis Joplin, Johnny Cash, Joy Division, Massive Attack, Morrissey, Muddy Waters, Neil Young and The Crazy Horse, New Order, Nivana, Nine Inch Nails, PIL, Prince, Prodigy, Public Enemy, Ramones, Siouxsie and The Banshees, The Stooges, Pixies, Dead Kennedy's, Velvet Underground, Metallica, Dexter Gordon, PJ Harvey, Rage Against Machine, Body Count, Suzanne Vega, Beastie Boys, Ride, Faith No More, McCoy Tyner, Vince Guaraldi, Grant Green, Santana, Ryuichi Sakamoto, Chick Corea, Sinéad O'Connor, Marvin Gaye e Brian Eno* : todos com 2 álbuns

*contando com o álbum  Brian Eno e John Cale , ¨Wrong Way Out"

**contando com o álbum Lou Reed e John Cale,  "Songs for Drella"

*** contando o álbum "Five Star', do V.S.O.P.



PLACAR POR ARTISTA (NACIONAL)

  • Caetano Veloso e Gilberto Gil* **: 8 álbuns*#
  • Chico Buarque ++ #:  7 álbuns
  • Jorge Ben ** João Gilberto*  **** e Milton Nascimento ***** º >: 5 álbuns
  • Tim Maia, Rita Lee e Legião Urbana: 4 álbuns
  • Gal Costa, Titãs, Paulinho da Viola, João Donato, Engenheiros do Hawaii, Criolo º  e Tom Jobim +: 3 álbuns cada
  • João Bosco, Lobão, Emílio Santiago, Jards Macalé, Elis Regina, Edu Lobo+, Novos Baianos, Paralamas do Sucesso, Ratos de Porão, Roberto Carlos, Sepultura, Cartola e Baden Powell*** : todos com 2 álbuns 


*contando com o álbum "Brasil", com João Gilberto, Maria Bethânia e Gilberto Gil

**contando o álbum Gilberto Gil e Jorge Ben, "Gil e Jorge"

*** contando o álbum Baden Powell e Vinícius de Moraes, "Afro-sambas"

**** contando o álbum Stan Getz e João Gilberto, "Getz/Gilberto"

***** contando com o álbum Milton Nascimento e Lô Borges, "Clube da Esquina"

+ contando com o álbum "Edu & Tom/ Tom & Edu"

++ contando com o álbum "O Grande Circo Místico"

# contando com o álbum "Caetano & Chico Juntos e Ao Vivo" 

º contando com o álbum Milton Nascimento e  Criolo "Existe Amor"

>contando com o álbuns "Native Dancer", com Wayne Shorter


PLACAR POR DÉCADA

  • anos 20: 2
  • anos 30: 3
  • anos 40: 1
  • anos 50: 121
  • anos 60: 103
  • anos 70: 171
  • anos 80: 146
  • anos 90: 111
  • anos 2000: 22
  • anos 2010: 19
  • anos 2020: 3


*séc. XIX: 2
*séc. XVIII: 1


PLACAR POR ANO

  • 1986: 24 álbuns
  • 1977: 22 álbuns
  • 1972: 21 álbuns
  • 1969 e 1985: 20 álbuns
  • 1976: 19 álbuns
  • 1970, 1971 e 1992: 18 álbuns
  • 1968, 1973, 1975 e 1979 17 álbuns
  • 1967 e 1980: 16 álbuns cada
  • 1983, 1965 e 1991: 15 álbuns cada
  • 1988, 1989, 1990 e 1994: 14 álbuns
  • 1987: 13 álbuns



PLACAR POR NACIONALIDADE*

  • Estados Unidos: 224 obras de artistas*
  • Brasil: 174 obras
  • Inglaterra: 131 obras
  • Alemanha: 12 obras
  • Irlanda: 8 obras
  • Canadá: 5 obras
  • Escócia: 4 obras
  • Islândia, País de Gales, Jamaica, México: 3 obras
  • Austrália, França e Japão: 2 cada
  • Itália, Hungria, Suíça, Bélgica, Rússia, Angola, Nigéria, Argentina, Estônia e São Cristóvão e Névis: 1 cada

*artista oriundo daquele país
(em caso de parcerias de artistas de países diferentes, conta um para cada)


sexta-feira, 26 de junho de 2015

Sleaford Mods - Manchester Academy – Manchester / Inglaterra (14/05/2015)


Antiperformance
por Fabrício Silveira
direto de Manchester (UK)




Andrew Fearn e Jason Williamson da
retroporjeção punk da Sleaford Mods
Não há quase nada em cima do palco. Não há equipamento algum, além de um pedestal de microfone e uma mesa de bar, lado a lado. É até um pouco estranho encontrar ali aquele móvel rústico, com pernas dobráveis, trabalhado em madeira nobre. Sobre ele, há um laptop fechado, discreto, quase invisível, que se confunde aos desenhos e aos padrões cromáticos da toalha de mesa. Ao fundo, espessas cortinas de veludo escuro. Em contraste, há uma forte luz branca, opressiva e desconfortável. Este é o cenário. Não há mais nada em cima do palco.

Dois sujeitos, ambos na faixa dos quarenta anos de idade, surgem repentinamente. Com orgulho, cumprimentam os presentes, gesticulando. Sorriem. Entre abanos, exibem os copos de cerveja que trazem às mãos. São centenas de pessoas na plateia – cinco, talvez seis centenas. É um público muito diverso e animado. Num primeiro momento, é difícil especificar alguma faixa etária, reconhecer algum padrão sócio-demográfico. Trocam, enfim, efusivas saudações. O espetáculo está para começar.

Sleaford Mods é o nome da dupla – hoje, um dos mais representativos e interessantes grupos musicais de toda a Inglaterra. As luzes atenuam-se. Num passo para trás, curvando-se, levemente, Andrew Fearn abre o computador pessoal, que se mostra então coberto de stickers e adesivos. Faz um sinal afirmativo para Jason Williamson, alertando-o, à frente do microfone. Aperta o play.

Imediatamente, ouvimos as bases pré-gravadas. São lo-fi beats. São batidas cíclicas, duras e repetitivas. Há uma sonoridade orgânica nas linhas de baixo. Há uma pulsação grave, que sentimos na espinha, severa, que nos pressiona o peito. Máximo minimalismo.

Ao entrar em ação, Williamson apresenta um inacreditável repertório de tiques e trejeitos engraçados. Agitado, coça a nuca, fazendo as gotas de suor jorrarem da cabeça, soltas no ar, desprendidas e visíveis, voando contra a luz. Ao cantar, lembra Johnny Rotten, pela impostação punk, o tom irritado, os olhos arregalados, como se falasse contra a iminente ameaça de uma interdição, como o produto de uma urgência absoluta. Gotas de saliva saltam-lhe da boca. As palavras vão juntas, cuspidas, expulsas da garganta, quase à força. Parece tratar-se de uma discussão, um agressivo bate-bocas.

Porém, as aparências contrastam. São duas posturas, duas atitudes opostas à nossa frente. Ocorre um "choque performático", um embate, uma anulação entre performances. De um lado, um cantor nervoso, gesticulando sem parar, cuja fúria se manifesta no modo como fala, na pronúncia que dá a cada frase, cada palavra, muitas vezes produzindo sons extravagantes, risos forçados, interjeições, failed human beat boxes. De outro lado, a encarnação da tranquilidade: o colega que aperta o play, entre uma música e outra, enquanto bebe uma cerveja e balança o corpo junto às marcações rítmicas, despreocupado como um adolescente em férias.

Andrew Fearn é um anti-DJ, um "DJ-três acordes": aquele que carrega o computador até o palco, ligando-o e nada mais. Apenas isto. Depois, basta certificar-se de que tudo está em ordem, que os arquivos de áudio estão abrindo no momento certo, na sequência imaginada. É a melhor profissão do mundo, poderíamos pensar. E ele, de fato, está absolutamente relaxado. Descansa as mãos nos bolsos da calça. Volta a beber. Tira fotos do público enquanto o show se desenrola. Fala ao celular. Fuma. Checa mensagens e posts no Facebook. Poderia ser qualquer um, um cidadão ordinário, apanhado ali por acaso ou distração. Ao seu lado, o amigo irado, cantando, fazendo rimas e explodindo de raiva.

Os Sleaford Mods lembram muita coisa, apesar de toda originalidade: Sex PistolsProdigy, gangsta rap, música eletrônica e garage rock desconstruídos, uma longa tradição inglesa de canções de protesto e apego à rua. Em síntese, é uma nova variação retroprojetiva do punk. Há um pronunciado acento político nas composições. Slang em demasia. Para um estrangeiro, é quase impossível compreendê-los. Mesmo assim, é agradável ver o auditório cantar junto, como se entoassem hinos locais, cânticos de celebração. Conforme me disseram, as letras falam de regiões e bairros específicos, no norte da Inglaterra, especialmente em Nottingham, de onde eles vêm. Falam de políticos e autoridades locais. Citam o dia-a-dia banal, o preço abusivo dos produtos no supermercado, as piadas internas, as gírias de esquina. Debocham da Família Real e dos hábitos londrinos. É uma apropriação do rap, feita por trabalhadores pobres e politizados do norte inglês.

Ao final, o tom não é festivo nem amistoso. Ao escutá-los, produz-se um sentimento estranho: de que uma canção pop deve instruir à revolta, despertar a consciência revolucionária, suscitar a vontade cívica de gritar ("– Fuck off!") e ir atrás do primeiro político que aparecer, para cobrar-lhe satisfações, com o dedo em riste, apontando-lhe o rosto.

Para eles – por hipótese –, não há distância entre performance e vida cotidiana. Se houver, trata-se de encurtá-la. A música deve ser o veículo de uma frustração, de repercussão e alcance coletivos. Sleaford Mods é uma caricatura performativa da classe trabalhadora, a manifestação de um descontentamento incontrolável, profundamente enraizado. Antiperformance.


vídeo de "Tied Up the Nottz" - Sleaford Mods




Fabrício Silveira é jornalista (UFSM), mestre em Comunicação (UFRGS), Doutor em Comunicação (Unisinos). Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos, em São Leopoldo/RS. É autor dos livros “Grafite Expandido” (Porto Alegre: Modelo de Nuvem, 2012) e “Rupturas Instáveis. Entrar e sair da música pop” (Porto Alegre: Libretos, 2013). É bolsista CAPES de Pós-Doutorado Sênior no Exterior (processo n. 5939-14-3), realizado junto à University of Salford, em Manchester, na Inglaterra (UK), entre fevereiro e julho de 2015.