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quarta-feira, 21 de outubro de 2026

João Bosco - Turnê "João Bosco 80 Anos" - Teatro Bourbon Country - Porto Alegre/RS (15/10/2026)



Obrigado, João!

Não me recordo com precisão que show foi, mas lembro que o clima era parecido em 2022, vésperas das eleições para Presidente. À época, Lula disputava contra Jair Bolsonaro o segundo turno e, embora confiantes, estávamos apreensivos, pois no primeiro turno a votação havia sido apertada. Eis, então, que a história nos põe numa situação ainda mais difícil no segundo turno das atuais eleições, em que o mesmo Lula enfrenta agora o filho de Jair, Flávio Bolsonaro, e o placar está ainda mais justo. Nessa atmosfera foi que assistimos Leocádia e eu ao show de João Bosco. E não poderia haver show mais apropriado. Passando por diversos trabalhos ao longo de sua carreira e com um repertório que conta com diversos hinos à liberdade do povo brasileiro nos últimos 50 anos, o espetáculo, além de brilhante, caiu como uma luva em épocas de tensão e necessidade de esperança.

Celebrando seus 80 anos, completos em julho, Bosco - com voz perfeita e violão cada vez mais afiado - faz um apanhado muito bem recortado de sua longa carreira, iniciada no final dos anos 60, em plena Ditadura Militar, e construída com muita integridade. Seja nas célebres parcerias com Aldir Blanc, seja com outros parceiros ou nas composições solo (haja vista que é um grande compositor, mas também ótimo letrista), o cancioneiro de Bosco é talvez o mais incisivo em termos de posicionamento político e ativismo da música brasileira. E foi em boa parte isso que assistimos no Teatro Bourbon Country praticamente lotado: a resistência da MPB.

O recado é dado de início: Bosco e sua excelente banda (Ricardo Silveira, guitarra; Guto Wirtti, baixo; Kiko Freitas, bateria; e Armando Marçal, percussão) abrem com o samba-enredo “Plataforma”, que ele e Aldir compuseram em 1977 para a voz de ninguém menos que Elis Regina. Ele lembra que, à época, cantou-a com Elis nos eventos em prol das greves do ABC lideradas por um líder sindical chamado Luiz Inácio da Silva. Não precisa dizer mais nada. Na sequência, outro samba-enredo e outra mensagem de resistência (inclusive novamente à Ditadura Militar, que proibiu a música à época de seu lançamento): “O Mestre-Sala dos Mares”, que fez Bosco referir-se a “outro gaúcho” assim como Elis: João Cândido Felisberto, o Almirante Negro, o homem que liderou a Revolta da Chibata em 1910.

Cantando "O Mestre-Sala dos Mares" com a imagem
guerreira de São Miguel Arcanjo ao fundo

E se seguiram somente joias da música brasileira as quais Bosco é protagonista. Seguiram-se, igualmente, as homenagens a pessoas importantes nessa trajetória do cantor e compositor mineiro, como Chico Buarque, Vinícius de Moraes e Nara Leão. Uma das principais, claro, foi a Aldir, com quem Bosco compôs a maioria das canções tocadas no show. São deles dois, aliás, as que vêm na sequência: “De Frente Pro Crime” (“Tá lá um corpo estendido no chão...”) e “Nação” (“Dorival Caymmi falou pra Oxum...”). No fundo, projeções de vídeos, artes, fotos animadas e bastidores de estúdio. A arte que acompanha a majestosa “Tiro De Misericórdia”, um HQ sobre a cinematográfica história do “reizinho nagô” do morro protegido pelos orixás abatido numa emboscada, enriquece ainda mais essa, que é uma das mais tocantes músicas de Bosco/Aldir. O arranjo jazzístico vai além da versão original e até da feita por Chico Batera, em seu disco “Ritmo”, de 1980.

De tonalidades jazz também foi “Escadarias da Penha” e a bela balada “Quando o Amor Acontece”. Teve, igualmente, os deliciosos partidos-altos “Incompatibilidade de Gênios” (“Doutor, jogava o Flamengo, eu queria escutar/ Chegou, mudou de estação, começou a cantar”), do não menos notável disco “Galos de Briga”, de 1976, e “Boca de Sapo” (“Costurou/ Na boca do sapo e resto do angu/ A sobra do prato que o pato deixou”), do álbum “Linha de Passe”, de 1979, e escrita originalmente para a interpretação de outra referência de Bosco e homenageada do show: Clementina de Jesus.

Mais sambas espetaculares do cancioneiro bosqueano: o hilário “Siri Recheado e o Cacete”, do álbum “Bandalhismo” (1980), e o combativo “Casa de Marimbondo”, em que Bosco relembra a participação do amigo César Camargo Mariano no disco “Caça à Raposa”, nos idos de 1975. Lindas também as interpretações da sensual “Jade” e da tocante “Amigos Novos e Antigos”, outra dele e de Aldir e que dá título ao novo disco de Bosco, o qual revisita sua obra em diálogo com grandes nomes da música brasileira.

Mas tiraram mesmo do chão a plateia a sequência “Odilê Odilá”, dele e de Martinho da Vila, um soul-jazz de primeira qualidade, e “O Ronco da Cuíca”, esta, emendada à anterior, mas que fez a atmosfera se elevar num samba intenso, ágil e de letra denunciativa: “Roncou, roncou/ Roncou de raiva a cuíca, roncou de fome/ Alguém mandou/ Mandou parar a cuíca/ É coisa dos hôme”. Bosco no violão e seus músicos botaram abaixo o teatro. A emoção foi às alturas também com um clássico imediato da MPB: "Sinhá", dele e de Chico. Escolhida como a melhor música brasileira de 2011, quando foi lançada no disco de Chico, "Sinhá" é tão densa e emocional, que merecia uma tese, tamanha a capacidade de encerrar História com Sociologia e arte. E tudo num lamento triste, tristíssimo, cujo refrão não precisa nem de letra para descrever a dor a e crueldade do sinhozinho com o velho escravo de quem tinha ciúme e ódio. Apenas: "Eie ê/ Eie ê/ Eie ê/ Eie êê", que fala mais do que qualquer palavra. Obra-prima.

trecho de "Sinhá", a obra-prima de Bosco e Chico

Já encerrando, claro, mais clássicos. Uma emocionante “Corsário”, a qual abre com o poema do poeta russo Maiakovski e que, por isso, contou com uma linda arte inspirada no estilo construtivista soviético na projeção do palco. Depois, “Papel Machê” (“Cores do mar/ Festa do sol/ Vida é fazer todo sonho brilhar”), que foi da trilha sonora da novela da Globo nos anos 80 (quando as novelas ditavam as músicas que fariam sucesso nas rádios) e que o público cantou mais do que o próprio Bosco, que deixou para a plateia essa parte. Para arrematar, Boscão recorre, claro, novamente a Elis e Aldir com o hino da resistência à Ditadura “O Bêbado e a Equilibrista”. Não precisa dizer que foi uma emoção só, ainda mais no atual cenário político em que, novamente, como naquela época em que a música foi composta, a liberdade do povo e a democracia estão em risco.

O bis, ali mesmo no palco, sem o ritual de sair do palco e voltar segundos depois, foi com outro clássico: o irreverente samba “Kid Cavaquinho”. Outra que o público cantou em uníssono: “Ói que foi só pegar no cavaquinho/ Pra nego bater/ Mas se eu contar o que é que pode um cavaquinho/ Os hôme' não vai crer”. 

Olha: às vezes é mesmo difícil de crer o tamanho dos talentos que se têm na música brasileira e o quanto eles são essenciais na nossa formação como pessoas, como cidadãos. João Bosco é um desses monumentos da MPB e que está em perfeita forma chagado a oito décadas de vida. Encerrado o show, uma moça, com uma camisa com a estrela do PT a quem vimos na entrada, nos encontrou de novo na saída e, feliz, mostrou-nos sua peça autografada por Bosco. Esse gesto dela, que para alguns pode parecer trivial, deu-nos um sopro de esperança, principalmente depois de um show em que se exaltou Lula e em que o repertório passa por marcos da resistência do lado certo do Brasil contra a ameaça do autoritarismo. Se vamos “virar”, só dia 25 para saber. Mas que João Bosco nos ensina a ter esperança, isso é inegável. Por isso, parafraseando ele mesmo, dizemos: "Obrigado, João!"

Confira como foi em algumas fotos e vídeos:

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O mestre canta "Nação"


Este feliz espectador esbaldando-se com o show



Bosco e Aldir: dupla sempre presente


Boscão e seu violão cada dia mais afiado


De tirar o fôlego, "Tiro de Misericórdia"


trecho da cinematográfica "Tiro de Misericórdia"



A parceria Bosco & Aldir exaltada nos 80 anos


O palco se transforma para a clássica "Corsário"


o hino "O Bêbado e o Equilibrista" 
entoado no Bourbon Country


Esses dois admiradores agradecidos pela
obra e existência de João Bosco


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sábado, 29 de agosto de 2026

CLY LIVE Especial Clyblog 18 Anos - Madonna - "The Girlie Show World Tour" - Estádio Maracanã - Rio de Janeiro/RJ (1993)



Eu sempre fui uma criança cercada de música. Meu pai, músico de profissão, me deu o caminho numa casa sempre cheia de gente e saraus que varavam a madrugada em jam sessions com os amigos. Eu ouvia de tudo, de João Gilberto, paixão da minha mãe, até os progressivos, que meu pai amava.

Nesse meio-tempo, fui desenvolvendo meus gostos de criança. Muito Balão Mágico, os musicais infantis da Globo, "Arca de Noé", "Plunct Plact Zum"…

E veio o Michael Jackson! Que loucura, me apaixonei por "Thriller".

Alguns anos depois, com 8 anos, tudo mudou. Eu ganhei da minha vó o "Like a Virgin", da Madonna. Ali comecei a entender o que nem tinha nome: o que era ser uma menina. "What It Feels Like for a Girl". Foi a estrutura de tudo que veio depois, de entender que a gente tinha lutas diferentes, que não seria fácil, mas que era bom, era possível, verdadeiro. Que eu também queria ser livre para ser o que eu quisesse.

Depois, aos 17, vi o primeiro show que ela fez no Brasil, no Maracanã. Meu pai me levou junto com um bonde de amigas adolescentes e, até hoje, é o show mais impactante da minha vida.

Quando começou a tocar "Erotica", e uma dançarina escorregava num pole dance gigante de peito de fora, e Madonna surgia com o cabelo curtíssimo e loiríssimo, com o chicote na mão, as coisas nunca mais foram as mesmas. Foi meu primeiro contato mais direto com um público majoritariamente LGBT. Pensei: “Acho que encontrei a minha galera”. E até hoje é assim: sou grata à Madonna por ter me ensinado o que era ser mulher e a ter orgulho de fazer parte de uma comunidade diversa, incrível, corajosa e abençoada. E sim, encontrei minha galera.


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Madonna apresentando "Erotica", 
na turnê "Girlie Show", em 1993

por  J O A N A   L E S S A


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MARIA JOANA LESSA 
é carioca, 
Flamenguista, 
Mangueirense 
e diretora de audiovisual

terça-feira, 9 de junho de 2026

Seminário “14 de Maio - O Dia Seguinte. E agora?” - Teatro Roberto Atayde Cardona - Montenegro/RS (14/05/2026)


Por essas coisas da vida, no ano passado estive na cidade de Montenegro dando meu curso sobre Cinema Negro na Fundarte, através do Sesc Montenegro, Naquela ocasião, meu irmão Tiago Ritter, montenegrense, sabendo que estava na sua cidade-natal, me manda um áudio de whats dizendo: “Ah, tu tá em Montenegro?! Então, vou avisar uma pessoa que eu conheço, que gostaria muito que vocês se conhecessem, pois admiro vocês dois”. Gol. A pessoa a quem Tiago se referia era Rogério dos Santos, presidente da Central Única das Favelas - Cufa RS Montenegro e a quem ele conhecia não só a pessoa como o trabalho que desenvolvia há bastante tempo.

Pois, passado quase um ano após o curso, sou convidado a participar, integrando um seleto grupo de painelistas, do seminário pertinentemente intitulado: “14 de Maio - O Dia Seguinte. E agora?”, ocorrido nesta data no Teatro Roberto Atayde Cardona, e com a companhia de Leocádia.. 

Digo “pertinentemente intitulado” porque o seminário, realizado pela Cufa RS Montenegro através do projeto Resgate Negro do Vale do Caí, propõe uma reflexão sobre o que veio depois do 13 de maio de 1888, data da assinatura da Lei Áurea, que aboliu formalmente a escravidão no Brasil. O 14 de maio simboliza justamente o dia seguinte, quando a população negra foi deixada sem reparação, sem políticas de inclusão e sem acesso real à cidadania. Algo que eu exploro em meu curso e que considero o principal ponto de inflexão sócio-histórico da população negra no Brasil.

Para minha satisfação e orgulho, subi no mesmo palco que pessoas de renome nacional e regional, algumas as quais muito admiro, como Celso Athayde, presidente da Cufa Global; o escritor Itamar Vieira Junior; a líder comunitária Rozeli da Silva; e a deusa negra Zezé Motta, com quem, por rápido momento estive e pude entregar-lhe um exemplar do livro da Accirs e registrar uma foto.

A mesa de debate a qual compus foi para tratar do tema: “Raízes Negras da Cultura Brasileira” e que tive a felicidade de dividir com a mãe-de-santo e líder comunitária Cláudia Chu, o professor de música Renato Batista, o músico senegalês radicado no RS Kanhanga e mediação do querido jornalista Marck B. Dentre as preciosas falas do debate, a minha foi na linha da valorização e contextualização do cinema negro no Brasil, considerando os dois pontos de partida: a famigerada Abolição da Escravatura, em 1988, e a criação do cinema, poucos anos depois, em 1895. Isso explica em parte porque, somente nos anos 40 algum eco de cinema sobre as questões do povo negro começaram a ser tratadas na tela grande.

Também teve aquelas que tive o prazer de conhecer e assistir, como a empreendedora Gabi Valente, a advogada Danielle Araújo, a líder comunitária Maira Azevedo e a educadora e filósofa Bárbara Carine, vencedora do Prêmio Jabuti Educação pelo livro "Como Ser um Educador Antirracista" e criadora da louvável escola Afro-Brasileira, na Bahia. Que fala potente e descolonizadora a sua! Daquelas que mexeu com a emoção de todos na plateia. Quem também deu um show – e arrancou ao mesmo tempo gargalhadas e consternação da plateia com sua fala consciente e combativa sobre as mães pretas na sociedade brasileira, foi a comunicadora Tia Ma. Discussões que só um evento deste calibre e força simbólica este pode oportunizar.

Pela manhã, abertura oficial do seminário


Zezé Motta e Rozeli da Silva mediadas por Rogério dos Santos


Nos bastidores com a deusa Zezé Motta, a quem presenteei com um livro da Accirs


Também prestigiei Celso Athayde e seu filho, Vinicius, com quem troquei autógrafos


Itamar Viera Jr. falado sobre sua escrita negra


Nós no debate sobre Raízes da Cultura Negra Brasileira


Trecho de minha participação no seminário


Ao final com os companheiros de debate Marck, Cláudia, Renato e Kanhanga


Foto só sorrisos com Marck B e o idealizador do evento, Rogério dos Santos




texto: Daniel Rodrigues
fotos e vídeo: Daniel Rodrigues e Leocádia Costa

quinta-feira, 28 de maio de 2026

T.N.T. - Show "T.N.T. I - Ponto Zero" - Auditório Araújo Vianna - Porto Alegre (24/04/2026)


A T.N.T. pode não ser necessariamente a melhor banda gaúcha de todos os tempos, haja vista que tem Os Replicantes, De Falla, Engenheiros do Hawaii, Liverpool, Cascavelletes, Saracura... Mas uma coisa não se tem dúvida: eles são a banda mais icônica do rock ‘n’ roll no Rio Grande do Sul. Criado há 40 anos, esse histórico grupo tanto para o rock da terra da bombacha quanto para o Brasil celebrou as quatro décadas de lançamento do seu memorável primeiro e homônimo disco num disputado show no Auditório Araújo Vianna, que lotou de fãs para ouvi-los e cantar seus clássicos.

Por falar em clássico, foi assim que iniciaram a apresentação: emendando nada menos que três de seus maiores sucessos: “Entra Nessa”, “Ana Banana” e “Identidade Zero”. Ufa! Um começo arrasador.. Porém, de certa forma parece que Charles Master, Márcio Petracco, Tchê Gomes, João Maldonado, Fábio Ly, Paulo Arcari e Felipe Jotz gastaram metade da pólvora antes do primeiro quarto de batalha. Não que depois tenha necessariamente decaído ao tocaram músicas menos conhecidas ou tão aclamadas, mas o som mal equalizado (que embolava os sons e dificultava que se entendesse aquilo que já não se sabe de cor), somado à longa duração do show inteiro, deu um certo cansaço.

Mas tudo bem, afinal, show de rock de verdade passa por cima de som ruim ou algum equívoco de repertório, e o  público compareceu mesmo para vê-los tocar as músicas que uma geração inteira de gaúchos cresceu ouvindo nas rádios. Caso de “Irmã do Dr. Robert” e “Oh Deby”, esta última, assim como as três citadas do começo do show, composições de autoria de Flávio Basso (ou Júpiter Maçã ou Jupiter Apple). Aliás, ou eu não entendi pelo som embolado das falas entre as músicas ou ninguém mencionou Flávio, que, convenhamos, é o arquiteto da T.N.T., a cabeça mais criativa não só da banda, mas de todo o rock gaúcho em todos os tempos. Estranho...

Além do disco de estreia, teve também coisas das outras fases, como os hits “Não Sei” (“Não sei se eu tô certo ou se eu tô errado/ Mas faço tudo o que eu digo e digo tudo que eu faço”), “Não Vai Mais Sorrir (Pra Mim)” (ambas de “TNT nº 2”, de 1988 e já sem Flávio na formação), “Noite Vem, Noite Vai” e “Quem Procura Acha”, duas do terceiro álbum de estúdio da T.N.T., de 1991. O público gostou.

O hit "Não Sei" com sua melodia a la "Sweet Jane"


Rolou ainda uma participação da Orquestra Rosariense, que não acrescentou muito, na verdade. Tanto que a banda tocou, no bis, exatamente as músicas que haviam rearranjado para as cordas, “Muito Cuidado” e “Nunca Mais Voltar”. Mais para o final, teve outra consagrada, “Cachorro Louco”, desses rocks imbatíveis, dos melhores do BRock anos 80. Para encerrar, “O Mundo É Maior Que o Teu Quarto”, da Cowboys Espirituais, uma das corruptelas da T.N.T. assim como a Tenente Cascavel e a Cascavelletes. Baita música, regravada por gente como Barão Vermelho, mas que, por não terem dosado melhor a narrativa do show e gastado as melhores lá no início, talvez não fosse a mais indicada para encerrar.

Mas, de novo, tudo bem! A noite foi para celebrar o bom e velho rock ‘h’ roll, o que a T.N.T. representa no mais alto grau. Deixa pra lá a acústica ruim, o andamento do repertório. O negócio foi “entrar nessa” e “dançar um rock ‘n’ roll”. Foi o que fizemos - e foi legal.

🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸

Começa o show da lendária T.N.T.


Acompanhando a letra no telão de "Entra Nessa",clássico do rock gaúcho


Entrando nessa com "Entra Nessa"

"Ana Banana" no começo do show pondo 
todo mundo pra cantar


Repertório do primeiro e dos outros discos da
banda compuseram o show

A T..N.T. canta outra clássica: 
"A Irmã do dr. Robert"


Mais clássicos


Tocando "Nunca Mais Voltar", das preferidas da galera


Estes dois roqueiros felizes por ver a T.N.T.
celebrando os 40 anos de sua estreia


🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸


texto: Daniel Rodrigues
fotos e vídeos: Daniel Rodrigues e Leocádia Costa

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Eurovision: quando a música se transforma em propaganda


Final da competição evidencia a leniência da EBU em relação a Israel

por João Pedro Gomes Bernardes

Pelo terceiro ano consecutivo, a maior competição musical do mundo ficou a um passo de sua maior desafinada. Até o último segundo, as dez mil pessoas presentes no Wiener Stadthalle, em Viena, no último sábado, e as cerca de 160 milhões assistindo pela televisão ficaram apreensivas, esperando para saber se a septuagésima edição do Eurovision Song Contest terminaria com uma vitória de Israel, um país responsável pelo genocídio de mais de setenta mil palestinos e que tem usado do festival como instrumento para simular um apoio da população europeia a suas ações. No final, o título ficou com a Bulgária, mas o sinal de alerta, que já estava aceso, ficou ainda mais evidente.

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O que é o Eurovision? Por que Israel pode participar? 

O Eurovision Song Contest é uma competição musical organizada pela União Europeia de Radiodifusão (EBU, sigla em inglês para European Broadcasting Union) desde 1956. Anualmente, cerca de 38 emissoras públicas europeias escolhem um artista e uma canção para representar seus países no festival, que já revelou nomes como ABBA, Céline Dion e Måneskin. 

Após uma maratona de três shows – duas semifinais e a grande final –, o vencedor do festival é determinado por uma combinação de pontos dos júris e do público, que se equivalem. Cada país possui um júri composto por sete profissionais da música, que distribuem pontos para as suas dez canções preferidas: doze pontos para a primeira colocada, dez para a segunda, oito para a terceira e, de forma decrescente, de sete a um ponto para as demais. Os telespectadores, por sua vez, votam através de diferentes meios, dependendo do país onde estão – telefone, SMS, site ou aplicativo –, e os pontos são atribuídos da mesma forma. É importante mencionar que, por uma questão de justiça, o júri e o público não podem votar no país em que fazem parte. Em caso de empate na soma final, o televoto é soberano.

 Dara comemora o título do Eurovision 2026 | Crédito: Corinne Cumming/EBU

Podem participar do Eurovision emissoras públicas associadas à EBU, cuja área de atuação abrange quase toda a Europa (excluindo partes da Rússia), o norte da África, a região do Cáucaso (ao sul da Rússia, entre os mares Negro e Cáspio) e parte do Oriente Médio. Essa determinação, conhecida como Área Europeia de Radiodifusão, foi definida pela União Internacional de Telecomunicações em 1961 e revisada com o passar dos anos, o que permite a participação de países não-europeus no concurso, caso de Israel.


A participação de Israel ao longo dos anos

A primeira participação de Israel no festival ocorreu em 1973, na Cidade de Luxemburgo. A representante do país na ocasião foi Ilanit, que terminou na quarta posição. Para Ricardo Rios, professor de comunicação da Universidade Federal de Lavras, em Minas Gerais, e pesquisador da relação entre Eurovision, política e relações internacionais, a entrada de Israel no festival contribuiu para a expansão do senso nacionalista entre a população israelense: “Quando Israel decide se associar à EBU e entrar no Eurovision, havia um movimento para definição do que seria o estado israelense porque, até então, o Estado de Israel era visto como uma extensão da religião judaica. Com base nisso, Israel começou a investir muito na escrita das músicas e nas apresentações até que conseguiu vencer. Vários autores dizem que o que criou a noção cultural e nacional do Estado de Israel foi a participação no Eurovision”. 

Até 2026, Israel tem quatro títulos do festival. O primeiro veio em 1978, com Izhar Cohen e o grupo Alphabeta, seguido pelo grupo Milk and Honey logo em 1979, em uma edição realizada em Jerusalém. Dana International, primeira pessoa trans a competir no Eurovision, deu ao país seu terceiro título em 1998, enquanto Netta Barzilai levou o troféu para o país mais recentemente, em 2018. 

A participação de Israel, no entanto, nunca foi tópico de consenso entre os participantes do festival. Em 1979, a Turquia desistiu de enviar um participante a Jerusalém devido à pressão imposta por países árabes; no ano seguinte, quando Israel optou por não competir devido à data do concurso coincidir com um feriado religioso, o Marrocos participou do festival pela 

primeira (e até agora, única) vez; já em 2005, o Líbano faria sua estreia na competição, mas se viu forçado a desistir após a EBU impedir que o país interrompesse a transmissão no momento em que Israel entrasse no palco. Mais recentemente, na edição de 2019, em Tel Aviv, integrantes do grupo islandês Hatari mostraram faixas com a bandeira palestina, para vaias do público presente na arena.

Hatari mostra faixas com a bandeira Palestina | Reprodução: EBU


Política no Eurovision: o negacionismo da EBU 

Segundo as regras do festival, o Eurovision é “um evento internacional de entretenimento e deve permanecer estritamente apolítico. Para proteger sua integridade artística e cultural, o ESC não deve ser usado como plataforma ou fórum para expressão política, ativismo, controvérsia ou promoção de causas ou agendas externas”. Esta afirmação foi colocada em prática várias vezes com a finalidade de desclassificar canções com subtexto político, como nos casos da Geórgia em 2009, que havia selecionado uma canção com referências ao então primeiro-ministro russo Vladimir Putin (a edição daquele ano foi realizada exatamente em Moscou), e de Belarus em 2021, cuja canção escolhida dava a entender um apoio do grupo Galasy ZMesta às medidas opressivas do governo de Aleksandr Lukashenko.

Esta regra, segundo a EBU, está em vigor para evitar que o concurso entre em descrédito. No entanto, são vários os exemplos ao longo da história de canções que, de uma forma ou de outra, foram utilizadas para reforçar mensagens políticas. Este movimento se dá desde a primeira edição do festival, em 1956: um dos representantes da Alemanha, Walter Andreas Schwarz, era um sobrevivente do Holocausto e cantava sobre a perspectiva de um futuro melhor e reconhecimento dos erros cometidos no passado.

 Outro caso emblemático se dá poucas semanas após a edição de 1974. O concurso daquele ano, vencido pelo icônico ABBA teve, empatada na última posição, a representante de Portugal, “E depois do adeus”, interpretada por Paulo de Carvalho. Apesar do impacto quase nulo que teve no palco de Brighton, a canção foi utilizada como um sinal para dar início à Revolução dos Cravos, que pôs fim a quase cinquenta anos de ditadura no país.

O jornalista Matheus Rodrigues, do portal Kolibli, defende que o Eurovision nunca foi apolítico, como insiste a EBU: “Esconder [o aspecto político], fingir que isso não acontece, talvez piore a situação. Para eles, como autoridades que coordenam o concurso, é legal que o festival não seja político, que seja sobre a música. Mas não é bem assim”. Para Rodrigues, o atual momento de politização do Eurovision tem início em meados da década de 2010, com o aumento do sentimento anti-Rússia na sociedade ocidental: “A partir dali, houve uma cisão que perdura até hoje”, afirma. 

Em 2016, a representante ucraniana em Estocolmo foi a cantora Jamala, com o tema “1944”. A canção trata, em sua letra, da deportação do povo Tártaro da região da Crimeia pelo governo soviético, à época chefiado por Josef Stalin. Apesar de protestos da delegação russa, que vincularam a canção à disputa em andamento pelo território da Crimeia entre Rússia e Ucrânia, a canção foi liberada pela EBU e, em 14 de maio, deu à Ucrânia seu segundo título do festival.

Em 2022, após a invasão ao território ucraniano, a Rússia foi excluída do Eurovision em um movimento sem precedentes. Já a Ucrânia, mesmo com uma canção que, por si só, não carregava mensagens políticas, foi aclamada pela comunidade eurovisiva, que deu ao país sua terceira vitória. Seus representantes, o grupo Kalush Orchestra, receberam 192 pontos do júri e 439 do público, resultando em 631 pontos – a segunda maior pontuação total e maior televoto da história do festival.


A invasão russa à Ucrânia e o precedente aberto, mas não utilizado 

Na madrugada de 24 de fevereiro de 2022, após semanas de tensões políticas entre os dois países, tropas da Rússia invadiram o território ucraniano, dando início a um período de quatro anos de uma guerra que parece não ter fim. A resposta da comunidade internacional foi imediata: uma série de sanções econômicas à Rússia foi anunciada por uma ampla coalizão internacional comandada por Estados Unidos, União Europeia e Reino Unido, como a exclusão do país do sistema Swift, o mais usado para transações bancárias internacionais, e o rompimento de contratos de fornecimento de energia. No âmbito esportivo, a FIFA excluiu a Rússia das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2022, enquanto os Comitês Olímpico e Paralímpico Internacional baniram o país de seus eventos – ambas as sanções seguem em vigor.

A primeira manifestação da EBU em relação a uma participação russa no Eurovision daquele ano se deu no mesmo dia da invasão, através de um e-mail enviado à emissora sueca SVT, indo na contramão das demais entidades internacionais: “as emissoras-membro da Rússia e da Ucrânia se comprometeram a participar no evento deste ano em Turim, e planejamos receber os artistas dos dois países em maio”. O comentário da entidade foi recebido de forma negativa pelas emissoras participantes do festival, que ameaçaram boicotar a edição daquele ano caso a EBU mantivesse sua posição. No dia seguinte, a decisão foi revertida: “a inclusão de um participante russo no festival [daquele] ano levaria a competição ao descrédito”. Além disso, a entidade suspendeu as três emissoras russas associadas – RTR, Channel One e RDO. Em resposta, as três emissoras anunciaram sua saída da EBU. 

A decisão da EBU de remover a Rússia do festival costuma ser considerada por muitos um precedente válido que justifica uma eventual exclusão de Israel. Entretanto, há uma série de fatores que diferenciam as duas situações, como explica o jornalista holandês GJ Kooijman: “a discussão sobre a expulsão da Rússia da EBU se referia à adesão das emissoras à entidade. O que nós vemos com a Kan e a decisão que foi tomada no ano passado [de mantê-los no concurso], foi que a direção decidiu não tomar nenhuma decisão, segundo rumores, porque a Alemanha e a Áustria, que fazem parte da direção, se recusaram a serem acusadas de participar da decisão e, assim, levaram o assunto a uma votação entre todos os membros”.


O festival como propaganda: a participação israelense em meio ao genocídio

O dia 7 de outubro de 2023 entrou para a história devido a um dos mais significativos ataques terroristas dos tempos atuais. No começo da manhã, hora local, cerca de 5 mil projéteis lançados pelo grupo Hamas atingiram uma série de alvos em território israelense, como kibutz, bases militares e um festival de música. Segundo estimativas, 1.195 pessoas foram vítimas do massacre, outras 251 foram sequestradas e mais de 3,4 mil ficaram feridas. 

O que se seguiu ao ataque foi o que inúmeros organismos internacionais classificaram como genocídio: nos dois anos e meio desde aquele fatídico 7 de outubro, mais de setenta mil palestinos foram assassinados pelas Forças de Defesa de Israel, sendo mais de vinte mil delas crianças. Segundo relatório da Comissão de Inquérito Independente do Conselho de Direitos Humanos da ONU, chefiada pela jurista sul-africana Navi Pillay, as autoridades israelenses cometeram quatro atos que caracterizam um genocídio: “assassinato, danos físicos e mentais graves, provocar deliberadamente condições de vida calculadas para causar a destruição de um povo e impor medidas para impedir nascimentos”. 

A partir de então, o governo israelense tem tentado, de várias maneiras, construir uma narrativa que legitime suas ações na Faixa de Gaza, alegando buscar a neutralização do Hamas. Uma das formas utilizadas tem sido simular um apoio massivo da comunidade internacional a Israel através do Eurovision Song Contest. Segundo reportagem do jornal The New York Times, apenas em 2024, primeira edição do festival desde o ataque, o governo israelense investiu cerca de 710 mil euros (quase quatro milhões de reais, na cotação da época) em marketing voltado não apenas aos fãs do festival, mas àqueles que apoiam ideologicamente o regime de Benjamin Netanyahu. Entre as táticas mais utilizadas está a criação de vídeos em vários idiomas, sempre reforçando a mesma informação: era possível votar até vinte vezes por meio de pagamento.

Para a primeira edição do Eurovision desde o começo do conflito, em 2024, a artista escolhida para representar o país foi Eden Golan, então com 20 anos de idade. A canção escolhida foi “October Rain”, escrita por Avi Ohayon, Keren Peles e Stav Beger, e que referenciava de forma direta o ataque de 7 de outubro. A primeira versão do tema não foi aprovada pela EBU, que constatou a presença de mensagens políticas na letra. Após um processo de reescrita, incentivado pelo presidente Isaac Herzog, a canção transformou-se em “Hurricane”, uma música romântica, mas que ainda carregava um subtexto político. Na final do concurso, em 11 de maio, Israel terminou em segundo lugar no televoto e quinto na classificação final. O país recebeu a pontuação máxima de catorze outros países, além do chamado “Resto do Mundo”, mostrando que a campanha de incentivo à votação em massa funcionou. O título daquela edição ficou com a Suíça, de Nemo.

Já em 2025, a representante de Israel na Suíça foi Yuval Raphael, sobrevivente do ataque ao Festival Nova, em 7 de outubro de 2023. A canção, “New Day Will Rise”, também foi criticada por membros da comunidade eurovisiva por seu subtexto político, mas nenhuma atitude foi tomada pela EBU. A campanha organizada pela emissora Kan em favor da votação em massa em favor de Israel, apoiada pelo governo do país, surtiu um efeito ainda maior do que na edição anterior: vitória no televoto e segunda posição na classificação final. O troféu, desta vez, ficou nas mãos do austríaco JJ.

O resultado de 2025 colocou ainda mais pressão nas costas da EBU. Preocupadas com o rumo tomado pelo concurso após as crescentes alegações de manipulação de resultados a favor de Israel, emissoras como a espanhola RTVE e a holandesa AVROTROS solicitaram à entidade a realização de uma consulta às demais participantes sobre a participação israelense no festival. O pedido foi inicialmente atendido e uma votação foi marcada para novembro, mas com a assinatura de um acordo de cessar-fogo, em outubro, a EBU optou por transferir a decisão para a reunião de sua Assembleia Geral, em dezembro. Na reunião, apesar da pressão imposta por algumas emissoras, a EBU decidiu condicionar a votação sobre a participação de Israel ao resultado de outra, sobre a satisfação dos membros em relação às novas regras anunciadas no mês anterior, como a redução do número máximo de votos por meio de pagamento de vinte para dez. 65% dos votantes aprovaram as mudanças e, consequentemente, a permanência de Israel no festival. Em resposta, cinco países anunciaram boicote à edição de 2026: Eslovênia, Espanha, Holanda, Irlanda e Islândia. Outras emissoras, como a portuguesa RTP, foram alvo de protestos de sua própria força de trabalho, que demandava um apoio ao boicote.

Para representar o país em Viena, a emissora israelense Kan selecionou o cantor Noam Bettan e sua “Michelle”, música romântica e, ao contrário de suas antecessoras, sem apelo político. Durante a apresentação do país na primeira semifinal, foi possível ouvir na transmissão oficial do concurso o protesto de alguns membros da plateia, que gritavam: “parem o genocídio”. Ainda assim, Bettan repetiu o vice-campeonato do ano anterior graças a um surpreendente apoio dos júris, que o deixaram na oitava colocação. A campanha em prol da votação em massa, no entanto, teve um resultado abaixo do esperado: Israel ficou apenas na terceira posição entre os telespectadores, atrás da campeã, Bulgária, e da Romênia.


Existe um futuro para o Eurovision?

O momento atual do Eurovision Song Contest pede cautela. Nos últimos três anos, aqueles que acompanham fielmente o festival passaram grande parte do tempo preocupados com o que poderia vir a acontecer em caso de uma eventual vitória de Israel: o concurso seria realizado em Tel Aviv, mesmo com a guerra? Quantos países permaneceriam no festival? Qual seria o impacto em termos de audiência?

Para Rodrigues, a permanência de Israel no concurso pode levar a efeitos práticos, como o aumento constante das discussões políticas – algo que, apesar da negação da EBU, ocorre de forma recorrente –, e simbólicos, como uma “fuga dos cérebros”: “Muitos artistas que participaram do Eurovision 2024 falaram mal da experiência, que tinham medo de algo acontecer, ou da delegação de Israel, que era completamente inadequada. E os artistas falam uns com os outros. Eu não consigo imaginar pessoas mais engajadas politicamente, como a Konstrakta, voltando para um Eurovision assim”.

Na última quinta-feira, dia da segunda semifinal do concurso, a EBU lançou uma pesquisa entre seus fãs a fim de conhecer melhor seu público e entender o que eles acreditam que pode ser melhorado nas edições seguintes. Kooijman acredita que a pesquisa não serve apenas para melhorar a experiência dos fãs, mas também para buscar formas de manter a viabilidade financeira do festival: “O que a EBU percebeu é que [o Eurovision] é uma grande marca, tão grande quanto o Grammy ou o Oscar. Essa pesquisa serve a um propósito de entender quem é o público principal do festival e, como pesquisa de marketing, definir esse público a fim de atrair mais patrocinadores, porque o concurso precisa de mais dinheiro. Por quê? Não é porque países estão deixando de participar, mas porque tudo está mais caro, incluindo os avanços tecnológicos”.

Rios, por sua vez, acredita que o próximo passo para a definição do futuro do Eurovision precisa vir de uma reflexão interna da própria EBU: “A EBU precisa se sentar com o Grupo de Referência do Eurovision, que é quem faz as regras do concurso, e com a produção do evento para entender o seguinte: ‘o que a gente quer para o futuro?’. Porque a própria Europa está questionando muito isso. Você tem a Anistia Internacional condenando, você tem a ONU condenando, você tem o público condenando, as emissoras associadas condenando, questionando: ‘por que com a Rússia foi de um jeito e com Israel não está sendo feito o mesmo?’”.

O futuro da maior competição musical do mundo está por um fio. E enquanto a EBU não toma uma posição coerente com a realidade dos fatos, é muito difícil voltar a sonhar com o dia em que o Eurovision seja, acima de tudo, uma ferramenta de união entre os povos através da música.


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