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terça-feira, 23 de outubro de 2018

cotidianas #596 - Ela



Eu sabia o que doía em Gabriel quando ele saiu daquela festa. O álcool circulando pelo seu corpo, a boca amarga e seca e mole e sussurrante. Eu sentia todas as coisas amassadas em uma bola de vontade de fazer sem conseguir. O buraco negro que eu via na sua alma, se é que vocês acreditam nessas coisas, ainda clamando por preenchimento. Aquela tinha sido sua primeira festa gay. Mas, tinha sido mais do que isso: pela primeira vez ele teve a oportunidade de fundir o seu interno e externo para quem quisesse ver. Tinha sido a chance de respirar fundo, deixar os gestos frouxos, os olhares compatíveis com suas vontades... Aquelas malditas vontades que ele reprimiu por anos tiveram um palco para serem liberadas.
Mas não foram.
Eu via a frustração dessa constatação naquele menino bêbado caminhando pela rua. O rosto estava pálido, os olhos perdidos, o peito pulsando por baixo da camisa molhada de suor. A mente rodopiava numa espiral de culpa e medo. Afinal, ele não tinha conseguido. Não tinha conseguido. Não tinha conseguido... Era um eco sem fim reverberando dentro dele.
 Dias atrás, quando decidiu ir àquela festa sozinho, queria apenas ter um momento para ser ele mesmo. Mas, ao invés disso, fugiu da festa, do barulho e das pessoas como quem foge do escuro. Pensava na ironia de querer a mesma coisa que mais lhe dava medo: ser ele mesmo.  Eu tentei dizer pra ele com a boca que eu não tenho que os humanos fazem muito disso, de fugir exatamente daquilo que mais procuram. Talvez tenham medo de perceber que o no fim das contas o que procuravam estava com eles o tempo inteiro.
Mesmo que Gabriel conseguisse ouvir o que eu queria lhe dizer, não adiantaria nada. A bebida ainda latejava no seu sangue e a única coisa clara que ele sentia era culpa. Foi por isso que não estranhei quando as pernas dele amoleceram e ele sentou no chão. A coluna estava numa curva pra frente fazendo conjunto com a cabeça pendida até o meio das suas pernas.
Ele tinha bebido demais. O primeiro copo foi para se soltar, o segundo para acelerar o processo, o terceiro para não pensar... Quanto mais ele bebia, mais percebia aquele buraco crescer dentro de si. Não tinha encarado ninguém, muito menos tocado. A pele dos outros parecia queimar como castigo divino por permitir-se ser aquilo que não podia. No quarto copo, já sentia que todas aquelas coisas escondidas por anos estavam saindo pelos poros da sua pele. Não era só suor, era vergonha, pecado e nojo pulando do meio dos pêlos da sua epiderme. Uma ânsia de vômito chegou a sua garganta enquanto estava ali sentado no meio do nada. O escuro brincando com sua visão, o silêncio acentuando o barulho da sua mente.
Foi então que aconteceu.
Deixem-me explicar. Vocês podem até achar que eu sou organizada. Mas, na verdade, eu tenho, no máximo, um caderninho de anotações. Eu não controlo tudo. Forneço o que as pessoas precisam, às vezes, o que elas querem (o que nem sempre é a mesma coisa). Mas o que cada um faz com isso não é da minha responsabilidade. Por isso, não me culpem por aqueles três jovens passarem por Gabriel no momento em que ele quase vomitava. Muito menos por perceberam naquele garoto sozinho no meio da rua a oportunidade de extravasar uma raiva sangrenta.
Gabriel levou um soco inesperado naquela noite. A cabeça ficou pesada com o golpe e ele pendeu para o lado. Em meio a um zunido no ouvido, ouvia o chamarem de viado.  Um chute bateu nas suas costelas e ele se encolheu em posição fetal, se protegendo das ofensas, dos golpes e do mundo. Alguém puxou o seu cabelo, outro lhe quebrou o nariz. O gosto quente de ferro líquido escorria pela sua garganta enquanto os gritos de raiva pairavam a sua volta.
Mas, teve aquele segundo. Aquela pequena fração de momento em que Gabriel olhou nos olhos de um dos garotos e viu algo refletido ali. Um buraco cheio de raiva e medo, cheio de nojo e pecado, exatamente como seu olhar também projetava. Então, o ataque parou. E enquanto os três garotos iam embora correndo, Gabriel sorriu.
De alguma forma, algo pulou de dentro dele. Talvez fosse a bebida, a dor, ou o medo. Mas, naquele momento, o jovem havia percebido que ele não tinha culpa de nada. Nem o menino, nem ele, nem ninguém. Humanos são o que são, mesmo quando não querem ser. E, o jovem entendeu que não precisava tirar amarras de si, porque na verdade elas nunca existiram. Ele não tinha se tornado gay, ele era e sempre foi.
Naquela hora, sussurrei baixinho para o menino que os humanos não são vítimas da Vida. Eles são meus sócios.
Dessa vez, acho que Gabriel me ouviu.



Luan Nascimento

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