quinta-feira, 30 de julho de 2026
sábado, 18 de julho de 2026
cotidianas #902 - "Uma Partida de Football"
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| Brasilx Argentina Campeonato Sul-Americano (1919) |
É um espetáculo da maior delicadeza em que a alta e a baixa sociedade cariocas revelam a sua cultura e educação.
Num círculo romano, com imperadores, retiários, vestais e outros sacerdotes e sacerdotisas, não se poderiam presenciar aspectos tão interessantes, cousas tão inéditas como nas nossas arenas de jogo dos pontapés na bola.
Os gladiadores eram raramente homens de grande beleza física e muito menos intelectual; os nossos jogadores de football, porém, são excelentes modelos, em que o crânio alongado e pontiagudo dá um remate de beleza aos seus membros inferiores que muito lembram certos ancestrais do homem.
O senhor Coelho Neto, a quem muito admiro, já fez a apologia desses Apolos, com a força de sua erudição em cousas gregas.
Não há, portanto, nos nossos hábitos, fato mais agradável do que assistir uma partida de bolapé.
As senhoras que assistem merecem então todo o nosso respeito. Elas se entusiasmam de tal modo que esquecem todas as conveniências. São as chamadas “torcedoras” e o que é mais apreciável nelas é o vocabulário. Rico no calão, veemente e colorido, o seu fraseado só pede meças ao dos humildes carroceiros do cais do porto.
Poderia dar alguns exemplos, mas tinha que os dar em sânscrito. Em português ou mesmo em latim, eles desafiariam a honestidade: e é, por um, que me abstenho de toda e qualquer citação elucidativa.
O que há, porém, de mais interessante nessas festanças esportivas, é o final. Sendo um divertimento ou passatempo, elas acabam sempre em rolo e barulho.
Por tal preço, não vale a pena a gente divertir-se.
É o que me parece.
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"Uma Partida de Football"
Lima Barreto
(1919)
quinta-feira, 16 de julho de 2026
cotidianas #901 - "De Frente pro Crime"
Tá lá o corpo estendido no chão
Em vez de rosto, uma foto de um gol
Em vez de reza, uma praga de alguém
E um silêncio servindo de amém
Malandro junto com trabalhador
E fez discurso pra vereador
Anel, cordão, perfume barato
Baiana pra fazer
Pastel e um bom churrasco de gato
Tá lá o corpo estendido no chão
Em vez de rosto uma foto de um gol
Em vez de reza uma praga de alguém
E um silêncio servindo de amém
Sem pressa, foi cada um pro seu lado
Pensando numa mulher ou no time
Olhei o corpo no chão e fechei
Minha janela de frente pro crime
Veio o camelô vender!
Anel, cordão, perfume barato
Baiana pra fazer
Pastel e um bom churrasco de gato
Quatro horas da manhã
Baixou o santo na porta bandeira
E a moçada resolveu
Parar, e então
Tá lá o corpo
Estendido no chão
segunda-feira, 13 de julho de 2026
COTIDIANAS Especial nº900 - O Tio Adão
Desde pequeno ouvia minha mãe contar que nossa família tivera um grande jogador de futebol que havia jogado inclusive pela Seleção Brasileira e participado de uma Copa do Mundo.
Por mais que sempre gostasse muito de futebol, quando garoto, a informação não se fazia totalmente relevante para mim, até porque, meio desencontrada e incompleta, parecia carente de precisão e confirmação. Não que minha mãe, minhas tias e outros parentes estivessem inventando, mentindo, mas talvez aquilo não fosse tão grande quanto colocavam. Minha mãe contava das aventuras dele em países nórdicos, suas fotos com as louras, com delegações de jogadores, mas ninguém sabia ao certo se havia jogado na Copa da Suécia, da Suíça, ou se havia realmente chegado a jogar uma Copa do Mundo. Já era motivo de orgulho por ter jogado na Seleção, e isso era fato, mas talvez tivesse sido um torneio de juniores, uma excursão avulsa ou algo do tipo. Mas de todo modo, o Tio Adão sempre habitava nossa memória afetiva coletiva como o craque da família.
A era da informação e da Internet trouxe dados mais precisos que eliminaram aquelas imprecisões e só fizeram crescer minha admiração e colocá-lo no lugar de destaque que sempre mereceu.
Tio Adão para nós, ou Adãozinho, como era conhecido no mundo do futebol, fora um atacante de alto nível que atuara no meu time do coração, o Sport Club Internacional, e que entre diversas participações com a seleção nacional, integrou o grupo que participou da fatídica Copa do Mundo de 1950, no Brasil. Jogara mesmo uma Copa, como se contava! Mas fora por aqui mesmo, no próprio país.
Integrante da segunda formação da lendária equipe do Internacional chamada de Rolo Compressor, Adãozinho, imparável, veloz e artilheiro, tamanha era sua volúpia e indomabilidade fora alcunhado de Atacante Satânico. Seu prestígio permanece intacto, atravessa gerações tanto que, hoje, minha filha, colorada, admira e também se orgulha de ter um parente, mesmo que distante, representante das cores do nosso time da lendária camiseta brasileira.
As histórias com louras europeias deviam ser de algum torneio, amistoso ou uma convocação eventual, mas o fato é que a própria participação em um Mundial já atesta não se tratar de um jogador qualquer. Se hoje em dia qualquer jogador mediano, sem coração, veste a camisa da seleção, Tio Adão jogara em uma época repleta de craques na qual a concorrência era grande, além de ser um tempo em que o amor à camiseta que se vestia representava tudo.
Nada pode mudar isso: um dos nossos, do nosso sangue, fora um craque de Seleção Brasileira e jogara uma Copa do Mundo!
⚽⚽⚽⚽⚽
Cly Reis
segunda-feira, 29 de junho de 2026
cotidianas #899 - "Samba Japonês"
Aqui pela primeira vez
Eu canto pra vocês
Um samba e um batuque feito para japonês
Tóquio é a cidade que
Quase vive em paz
Porque a polícia lá estuda até arranjos florais
Bruce Lee, Kung-fu, Shaolin chegou
E veio sambando e cantando em nagô
O sol então nos encontrará
Pela madrugada
De mãos dadas como num conto de fadas
Cor de jade e de marfim, nos invade
Amor sem fim, felicidade é uma coisa assim
O sol então nos encontrará
Pela madrugada
De mãos dadas como num conto de fadas
Cor de jade e de marfim, nos invade
Amor sem fim, felicidade é uma coisa assim
quinta-feira, 18 de junho de 2026
COTIDIANAS #898 - Especial Maria Bethânia 80 Anos - "Pássaro Proibido"
Solto está o pássaro proibido
Perigo, cuidado, sinal nas ruas
Plumagem clara e brilhante
Ao sol e a lua transparente
Ao corisco e a maré
Ao corisco e a maré
Eu canto o sonho na cama
Do jeito doce e moreno
Eu canto
Pássaro proibido de sonhar
O canto macio, olhos molhados
Sem medo do erro maldito
De ser um pássaro proibido
Mas com o poder de voar
Mas com o poder de voar
Eu canto o sonho na cama
Do jeito doce e moreno
Eu canto
Voar até a mais alta árvore
Sem medo, tranquilo, iluminado
Cantando o que quer dizer
Perguntando o que quer dizer
Que quer dizer meu cantar
Que quer dizer meu cantar
Eu canto o sonho na cama
Do jeito doce e moreno
Eu canto
Eu canto
🐦🐦🐦🐦🐦🐦🐦🐦🐦🐦🐦
autoria: Maria Bethânia e Caetano Veloso
segunda-feira, 15 de junho de 2026
cotidianas #897 - "Esquadrão do Samba"
Meu pandeiro rebate no gol
E na defesa bate o tamborim
O reco-reco, o agogô, a frigideira
Entregando de primeira quem disser
Passe pra mim
No meio campo vem a formação
Um cavaquinho e um bom violão
O surdo joga na frente de rompendor
O ganzá de goleador, o repinique a repicar
Pela direita tocando com a cuíca
A torcida se agita pra ver o samba jogar
Gol, mais um gol esse time não pode perder.
A seleção do meu samba ninguém consegue vencer
Olha o Gol, mais um gol esse time não pode perder.
A seleção do meu samba ninguém consegue vencer
Meu pandeiro rebate no gol
E na defesa bate o tamborim
O reco-reco, o agogô, a frigideira
Entregando de primeira quem disser
Passe pra mim
No meio campo vem a formação
Um cavaquinho e um bom violão
E pode vim a seleção do estrangeiro
Bem quente que o brasileiro
Já montou seu esquadrão
Sei que lá fora o meu samba não tem nome
Compete, mas passa fome, se gritar leva carão.
Em nossa área apareceu o rock and roll
Tá por ai fazendo gol
Mas no bom samba não faz não
Gol, mais um gol esse time não pode perder.
A seleção do meu samba ninguém consegue vencer
Olha o Gol, mais um gol esse time não pode perder.
A seleção do meu samba ninguém consegue vencer
⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽
quinta-feira, 4 de junho de 2026
cotidianas #896 - "Once"
"Once", canção de Liam Gallagher, do Oasis,
vídeoclipe com a participação do ex-jogador francês,
do Manchester United e da seleção francesa, Eric Cantona
sábado, 30 de maio de 2026
cotidianas #895 - Gol Chorado
O pé por baixo da bola. Aquela leve cavada, desequilibrado, o suficiente para evitar o joelho do goleiro. E lá foi ela, a bola, mansa, lenta, quase morrendo, quicando, quicando, quase perdendo a força antes de chegar no gol. Será que tinha direção certa? E se batesse na trave? E se tirasse tinta e saísse?
Naquele 14 de junho era aniversário do famoso Gol Chorado. O gol do título. Só se falava nisso em todas os jornais, emissoras, mesas redondas. Era especial com o Pinha, entrevista com o Pinha, reprise do gol do Pinha, "conheça a mansão do ex-atacante Pinha"... Estava cansado daquilo. Desliguei a TV, levantei da cama e acendi um cigarro no fogão. Se tivesse metido o pé naquela bola, hoje não estaria morando num buraco daquele em que o quarto já é praticamente a cozinha.
Ainda sonhava com aquele lance...
Em seu sonho, ele acompanhava a jogada, ela quicava, quicava, ia morrendo, ele percebia que ela não teria o destino do gol, talvez batesse na trave... Pra garantir, completava de chapa pra rede. O jogo acabava, ele era carregado como um herói, caía nos braço da torcida, dava autógrafos, ia a programas esportivos. Comerciais, carros, mulheres... Anos depois, no aniversário daquele gol decisivo, se fariam programas sobre ele, com ele, iriam à sua mansão entrevistá-lo e fazer um especial para a TV.
Acordava invariavelmente suado e angustiado, com lágrimas nos olhos. Não conseguia deixar de pensar como tudo seria se tivesse metido o pé naquela bola.
segunda-feira, 18 de maio de 2026
cotidianas #894 - "Ronaldo Foi Pra Guerra"
Andava pela rua
Toda noite, todo dia
Ouvindo notícias
Dos heróis que voltaram
Da guerra do Bananal
Daí pintou a convocação
Da seleção
Jair pra Tostão
Valendo dólar
Pelé pegou na bola
E invadiu como quis
Invadiram o país
O que é que você me diz
Ronaldo era um cara
Que tinha a maior tara
Por futebol
Ronaldo não tem time
Ele mesmo se define
Franco-atirador
Eu só quero ver gol
Ronaldo é meio punk
Já foi hippie, já foi junkie
Pirou e foi pra aviação
Saiu do ar
Foi ser piloto
Sem brevê, sem radar
Invadiram a Terra
Ronaldo foi pra guerra
Ronaldo é futurista
É sensível, é artista
É videogame
Voava pelo mundo
Um piloto vagabundo
Caçando no ar disco voador
Passaram 2 mil anos
Pros humanos não entenderem
Qual a razão, ainda não
Da sua própria existência e o valor
Do seu planeta
Invadiram a Terra
Ronaldo foi pra guerra
Ronaldo foi pra...
"Ronaldo Foi Pra Guerra"
Lobão e os Ronaldos
(Lobão, Guto Barros, Hélcio)
Ouça:
Lobão e os Ronaldos - Ronaldo foi pra guerra
quinta-feira, 30 de abril de 2026
segunda-feira, 6 de abril de 2026
cotidianas #892 - LMNT 4VR
Ai, essa não com a chata da Aline! Deletar! Own..., a Juli é um amor! Adoro essa foto junto com ela. Haha, o cachorro da Gabi. Essa eu tenho que guardar. Ah, não! O Marcelo... Pior que essa foto tá ótima. O que estraga é ele.
Havia terminado com o Marcelo havia poucas semanas e, naquele momento, a imagem dele era algo pouco agradável, era alguém que preferia não ver. E pensar que teria que encontrá-lo na festa... Mas não tinha jeito: ele também era amigo do Edu e estaria lá de qualquer forma. Preferia não deletar uma foto tão legal, no sítio do pai da Lara, com as meninas, com o Jefinho que é um cara massa, com o Rafa que é gatinho... Bem que podia eliminar só o Celo!
Procurou no Google algum aplicativo que removesse imagens indesejáveis. Remove-It, Photo X-clude, Edit 4U... 'LMNT 4VR, elimine para sempre aquela figura indesejável'. Nunca tinha visto esse, nunca tinha ouvido falar. Adorou a chamada! Era exatamente isso que queria: remover o Marcelo para sempre de qualquer lembrança.
Entrou. Arraste sua foto para cá. Colocou lá a fotinho. Use o pincel para apagar. Passou o cursor em forma de número 4 apenas sobre a imagem do ex. Você realmente deseja eliminar este elemento? Pensou um pouco... Confirmou. SIM.
Nesse momento a mãe entrou no quarto e avisou que a Lari estava lá embaixo e que era para ela descer. Baixou a tampa do laptop, apagou a luz do quarto e saiu para a festa.
Selfies, poses, drinks, baseados, paqueras! A galera tava toda lá. Quer dizer, todo mundo menos o Marcelo. Estranho! O Gui veio com a piadinha, "Tem alguém que não apareceu por aqui hoje... Será que é dor de corno?". Não enche, Gui! A Gabi encostou nela e, de forma bem mais conveniente questionou: "Sabe do Celo?". Não sei e não quero saber, respondeu. De fato não queria saber, mas que era estranho não ter ido à festa, era. Além de não costumar se abalar com qualquer rompimento, finais de namoro, era amigo de infância do Edu e além disso todos os rapazes, os amigos estavam lá, o pessoal do time, do clube, do inglês...
Marcelo não apareceu aquela noite e não apareceu mais.
Não fora mais visto.
Polícia, noticiários, família desesperada... Como se tivesse evaporado.
Nada a ver, mas começou a pensar naquele aplicativo... Desde a noite em que resolveu apagar o Marcelo, ele não apareceu mais. E era um app estranho pra falar a verdade. Nunca tinha visto nem ouvido falar daquela coisa.
Será???
E se testasse? Pra conferir se era isso mesmo. Se o tal aplicativo teria alguma coisa a ver...
lmnt4vr.com
Entrou.
(Com quem faria o teste?)
A Aline era uma chata, mesmo...
Arraste sua foto para cá. Colocou lá a foto. A Aline toda sorridente no churrasco na piscina.
Use o pincel para apagar.
Passou o cursor apenas sobre a imagem do desafeto.
Você realmente deseja eliminar este elemento?
Cly Reis
quinta-feira, 26 de março de 2026
domingo, 15 de março de 2026
cotidianas #890 - "Fred Astaire"
Deu pra escutar
A canção que tocou pra gente
E o meu coração que
De repente
Inventou de sapatear
Ou eu fui louca
E tudo foi um grande engano
E eu faço o plano
E o contraplano
De um filme prestes a acabar
Só pra saber
Nesse tal filme de romance
Antes que o público se canse
Você me beija no final?
Um sim cai bem
Mas não se sinta pressionado
Porque um beijo obrigado
Na tela
Imprime meio mal
Sem problema
Ser figurante da sua história
E, olha, nem força sua memória
Nem nome eu preciso ter
Mas, cuidado
Me deixa no canto da sala
Que se eu tiver alguma fala
Eu mudo pra: Eu amo você
🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬
"Fred Astaire"
Clarice Falcão
Ouça:
domingo, 8 de março de 2026
COTIDIANAS nº889 Especial Dia Internacional da Mulher - "Aviso da Lua Que Menstrua"
Moço, cuidado com ela!
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
Cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, moço
Às vezes parece erva, parece hera
Cuidado com essa gente que gera
Essa gente que se metamorfoseia
Metade legível, metade sereia.
Barriga cresce, explode humanidades
E ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
Mas é outro lugar, aí é que está:
Cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita..
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
Que vai cair no mesmo planeta panela.
Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
Transforma fato em elemento
A tudo refoga, ferve, frita
Ainda sangra tudo no próximo mês.
Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
É que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
É que tô falando na "vera"
Conheço cada uma, além de ser uma delas.
Você que saiu da fresta dela
Delicada força quando voltar a ela.
Não vá sem ser convidado
Ou sem os devidos cortejos..
Às vezes pela ponte de um beijo
Já se alcança a "cidade secreta"
A atlântida perdida.
Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
Cai na condição de ser displicente
Diante da própria serpente
Ela é uma cobra de avental
Não despreze a meditação doméstica
É da poeira do cotidiano
Que a mulher extrai filosofando
Cozinhando, costurando e você chega com mão no bolso
Julgando a arte do almoço: eca!...
Você que não sabe onde está sua cueca?
Ah, meu cão desejado
Tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
Então esquece de morder devagar
Esquece de saber curtir, dividir.
E aí quando quer agredir
Chama de vaca e galinha.
São duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
Vaca é sua mãe. de leite.
Vaca e galinha...
Ora, não ofende. enaltece, elogia:
Comparando rainha com rainha
Óvulo, ovo e leite
Pensando que está agredindo
Que tá falando palavrão imundo.
Tá, não, homem.
Tá citando o princípio do mundo!
Elisa Lucinda
sábado, 7 de março de 2026
cotidianas #888 - Pílula Surrealista #62
Daniel Rodrigues
terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
COTIDIANAS nº887 Especial de Carnaval - "O samba é um desconforto potente"
Acho que a carnavalização do samba - aquele processo de vinculá-lo apenas ao perfil de música que borda a nossa suposta simpatia - foi e continua sendo em larga medida uma tentativa de domá-lo (seja por parte do Estado, da indústria fonográfica, da mídia, do mercado publicitário, de alguns sambistas etc.), exatamente porque o samba é muito mais complexo e problemático - no sentido de não se domar a análises superficiais - do que isso.
Muito mais do que gênero musical ou bailado coreográfico, o samba é elemento de referência de um amplo e complexo cultural que dele sai e a ele retorna, dinamicamente. Nos sambas vivem saberes que circulam; formas de apropriação do mundo; construção de identidades comunitárias dos que tiveram seus laços associativos quebrados pela escravidão; hábitos cotidianos; jeitos de comer, beber, vestir enterrar os mortos, amar, matar, celebrar os deuses e louvar os ancestrais. Reduzir o samba ao terreno imaginário onde mora a alegria brasileira do carnaval é um reducionismo completo.
Não custa recordar que o discurso do samba, e de toda a múltipla musicalidade oriunda da diáspora africana, também está no fundamento do tambor, que fala daquilo que nossas gramáticas não nos preparam para ler. O tambor - e são tantos! - vai buscar quem mora longe, e isso é muito sério.
O samba – de cara podemos lembrar – até a complexidade de experiências que o definem – é testemunho e fonte documental para contratar as nossas contradições poderosas, o nosso horror e as nossas escapadelas pelas frestas da festa: o beijo na cabrocha, O assassinato de Malvadeza Durão, a alvorada no morro, a prisão do Chico Brito que fuma erva do norte, a ilusão de um olhar, o mulato calado que já matou um e se garante na inexistência do X-9 em Mangueira, os poderes do jongueiro cumba, o batizado do neguinho vestido de anjo em Pirapora, o preconceito racial no casamento do neguinho e da senhorita, as porradas que o delegado Chico Palha enfiava em macumbeiro nos tempos da vadiagem, a navalha no bolso, o revólver como maneira nossa de entrar no século do progresso, a mulher vitimada pela violência, submissa como Amélia, rebelde e altaneira como Gilda; o tiro de misericórdia no menino que cresceu correndo nos becos que nem ratazana e morreu como um cachorro, gemendo como um porco... Tá tudo no samba.
Foi exatamente o samba, sobre o qual reflito sistematicamente, que me fez perceber e encarar um Brasil de complexidades que não comportam dicotomias reducionistas. O samba é um desconforto potente para que o Brasil se reconheça como produtor constante de horror e beleza. É o filho mais duradouro dos tumbeiros, em tudo que isso significa de tragédia, redenção, subversão, negociação, resistência, harmonia, violência, afeto, afirmação de vida e pulsão de morte na nossa história. O samba é a entidade mais poderosa das falanges da rua.
Luiz Antonio Simas
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026
cotidianas #886 - Sexta-Feira 13 de Carnaval: Sangue, suor e folia
Varre, varre, varre, passo a vassoura por baixo do balcão e ela bate em alguma coisa mais dura, mais pesada. Não é só papel, plástico, isopor. Puxo pra frente do balcão com a vassoura e vem uma máscara. Não parece com as outras, não parece fazer parte de nenhuma alegoria. Trabalho no barracão faz meses e não sei de nenhuma ala que use uma coisa daquelas. Parece aquelas máscaras de... futebol americano. Não! Futebol americano não usa máscara, usa, tipo, um capacete. É máscara de rósqui, rock, hóquei, eu acho. Meu filho que gosta de esporte é que entende dessas coisas. Toda amarelada, rachada, podre. O que que aquela porcaria faz ali?
Só recolho e jogo fora como seria o normal a fazer? Ou será que pergunto pra alguém se faz parte de alguma coisa que eu não sei?
Não vou incomodar o carnavalesco. Tá lá concentrado dando instrução numa estátua de orixá.
Ah, vai pro lixo. Ninguém vai dar falta disso.
Antes de me livrar daquilo, só de graça, mesmo toda nojenta, resolvo experimentar. Botar na cara.
Um acampamento, adolescentes, um lago, desespero, afogamento, fundo, fundo, mãe, morte, vingança, máscara, sangue, sangue, coração, pernas, cabeças, sangue, morte, morte, morte. Tudo me vem à cabeça numa sequência alucinante, como um filme todo passando em um segundo.
Encho o peito de ar, respiro fundo. A meu lado uma enorme tesoura de costura repousa sobre uma bancada.
Já não sou eu mesmo quando a apanho e caminho com determinação barracão adentro. Tem pouca gente ali trabalhando a essa hora, mas tem muito mais gente lá fora e terá ainda mais nos próximos dias. Ainda é sexta-feira, o Carnaval está apenas começando.
Cly Reis
segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
sábado, 10 de janeiro de 2026
cotidianas #884 - "Hora do Recreio"
| Jean Cocteau, "Interwoven Faces", de Jean Cocteau (Litogravura, 1954) |
O coração em frangalhos o poeta é
levado a optar entre dois amores.
as duas não pode ser pois ambas não deixariam
uma só é impossível pois há os olhos da outra
e nenhuma é um verso que não é deste poema
Por hoje basta. Amanhã volto a pensar neste
problema.

























