John Cale - "Night Crowling"
| Jean Cocteau, "Interwoven Faces", de Jean Cocteau (Litogravura, 1954) |
levado a optar entre dois amores.
as duas não pode ser pois ambas não deixariam
uma só é impossível pois há os olhos da outra
e nenhuma é um verso que não é deste poema
Por hoje basta. Amanhã volto a pensar neste
problema.
O ano novo se aproximava.
Em casa, cada vez que a esposa falava de sua cada vez mais crescente barriga, Roberto prometia, "Ano que vem eu perco essa barriga. Tu vai ver um novo homem."
No ponto de ônibus, para cada vez que ficava horas esperando o transporte, entrava no coletivo atrolhado e sentia-se apertado como uma sardinha, tinha que sair se espremendo e empurrando todo mundo para chegar na porta para saltar na sua parada, prometia a si mesmo, "Vocês todos vão ver um novo homem no ano que vem. Com carro novo, um carrão, um cara que não vai precisar mais ficar se sujeitando a isso tudo. Vocês vão ver!".
No trabalho, sempre que chegava atrasado e o supervisor o repreendia, Roberto se comprometia, "A partir do ano que vem vou melhorar. Vocês vão conhecer um novo homem".
Deu ano novo...
Na meia-noite, entre fogos, abraços e champanhas, a campainha toca. Roberto, estatelado no sofá nem se prestou a levantar para abrir. A mulher, perguntando aos demais se estavam esperando alguém, vai até a porta e abre. "Beto, você nunca me falou que tinha um irmão!". Roberto meio que abriu os olhos e confirmou, "...não tenho". Quando voltou a cabeça para o hall de entrada, viu a esposa acompanhada de um homem absolutamente igual a ele mas muito mais bem cuidado, bem vestido, tratado e... sem barriga. Ia dizer alguma coisa mas, antes que pudesse completar uma frase, apagou.Ao despertar, não encontrou ninguém na casa. Teriam ido à praia, viajado para Cabo Frio. Nunca teriam ido sem ele mas, por outro lado, ele nunca teria ido. Nunca queria ir quando a mulher propunha. Talvez por isso agora tivessem tomado uma atitude e o deixado dormindo no sofá. Qual não fora sua surpresa quando ao ligar a TV, pelo noticiário, percebera que já não era a manhã seguinte, o dia primeiro. Havia ficado fora de órbita por três dias! Já era a segunda-feira depois do feriadão, tinha que ir trabalhar.
Vestiu-se, correu, embarcou no ônibus já não tão cheio pelo atraso no horário e meia-hora depois chegava ao escritório. Felizmente não muito atrasado. Na frente do prédio, uma Ferrari reluzente era conduzida à garagem no subsolo por um manobrista. Ficou curioso a respeito de quem teria um carrão daqueles.
Subiu. O ascensorista o olhava de cima abaixo com um olhar de desprezo e desaprovação. Ia se instalar na sua estação de trabalho quando ouviu a voz do supervisor. "Atrasado de novo...". Ia começar a se desculpar quando o superior o interrompeu. "Na verdade, não precisamos mais dos seus serviços". Não abriu a boca. Apenas olhou para o chefe estupefato e intrigado. "Contratamos aquele cara ali", disse apontando para um homem charmoso, alinhado, elegante, na sala envidraçada da chefia. Parecia muito com ele mas... "Por sinal, lembra muito você logo quando chegou aqui; dinâmico, interessado, cheio de vida", reforçou o supervisor. "E tem um currículo muito bom, muito parecido com o seu na verdade, mas a diferença é que na recomendação dele diz que... nunca chegou atrasado", completou sorrindo.
Pegou suas coisas, desceu, pegou o ônibus, chegou em casa, sentou no sofá. Percebeu então algo que não havia notado antes quando saíra de casa correndo: em um porta-retrato, com uma foto dele e da esposa ainda jovens, estava fixado um bilhete. A mensagem era bastante breve e objetiva: "Fui embora, Roberto. Encontrei um homem de verdade".
Um novo ano começara e era tudo novo, exceto ele, Roberto, que era o mesmo antigo sujeito.
cly
Nunca quis tirar a prova. Ficava na expectativa da chegada dos degraus à borda; um, dois, três, quatro degraus... e dois antes do meu, eu já pulava para a beirada na parte firme.
Só agora, depois de adulto, homem feito, é que consegui racionalizar o suficiente a situação para encarar o final de uma escada rolante.
Decidi superar meus medos e ir até o final. Permanecer no degrau até o último instante, até a borda segura, até que o degrau metálico se encolha e escorregue suavemente por baixo daquela abertura dentada desencontrada.
Preferi enfrentar algo tão traumático com o máximo de discrição possível. Fui à noite a um shopping center, desses com longas e lentas escadas rolantes. Permaneci até o horário de fechamento, esperei saírem os espectadores das últimas sessões de cinema, me escondi no banheiro de onde ouvi os avisos finais para que todos deixassem o estabelecimento, confundi a atenção dos vigias e, com o shopping deserto, me postei diante da borda fixa de um daqueles aterrorizantes monstros mecânicos. Não sei bem porquê, escolhi a descida. Talvez para poder visualizar meu destino final.
Respirei fundo, me concentrei. Hoje eu vou até o final, até o último degrau. Sem tirar o pé. Nada pode acontecer.
Minha determinação, no entanto, foi interrompida por uma voz vindo lá do fundo do shopping. Um dos seguranças da noite me vira. "Ô, aí. Que que você faz aqui dentro ainda? Não pode ficar ninguém!", gritou.
Era agora ou nunca. Tinha que aproveitar minha decisão, minha coragem. Não poderia deixar para outro dia. Do local onde ele estava, a alguns corredores de distância, mesmo que corresse, provavelmente, daria tempo para minha descida toda antes que chegasse até mim. Dei um passo à frente e botei o pé no degrau que surgia por baixo do chão firme. Comecei a ser levado pela escada para baixo, para baixo, para baixo... Lá no final os degraus iam sumindo um a um por baixo do chão. Faltam quatro, três, dois, um...
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Estalos repicavam pelo piso, do contato apressado da sola do sapato do vigia no reluzente granito cinza do shopping center. A esforçada corrida do obeso vigia não fora rápida o suficiente para impedir que o homem à beira da escada embarcasse nela. Era tarde. Estava a uns dez passos ainda e a cabeça do intruso já sumia no horizonte do segundo piso.
Sacou o rádio. "O Corrêa, tem um cara descendo pro primeiro de rolante. Pega ele aí embaixo que ele ficou aqui dentro depois de fechar. Copiou?". "
Quando finalmente chegou, ofegante, na beira da escada, no andar de cima, não encontrou nem rastro do último cliente. Nada.
Não demora nada e chega o Corrêa de braços abertos com cara de quem não entendeu nada. "Não passou ninguém por aqui", disse.
Deram de ombros e voltaram para suas respectivas rondas. "Fica de olho", disse o de cima. Se estivesse lá dentro, iriam encontrá-lo até o amanhecer.
Tudo estava quieto novamente. Apenas o rangido mecânico abafado das escadas rolantes quebrava o silêncio da madrugada. Algo parecido com um doloroso gemido.
Cly Reis
"Eu não tô nem aí", dizia, irresponsavelmente. Aliás, frase que não pode ser menos irresponsável, pois dita justamente por aqueles que, como João, não faziam questão nenhuma de se comprometer com nada.
E não que estivesse errado, afinal, não é com tudo ou com todos que se mereça o laço da aceitação.
Acontece que João cresceu, e com os anos de vida veio também um maior auto-entendimento daquilo que ele mesmo dizia. Bem verdade que nunca deixou de dizer que não estava nem aí. Era quase como um vício, como um TOC, como um subterfúgio para momentos de escapismo necessários. Era-lhe prazeroso, na real.
A prática de repetir a frase se estendeu por toda a vida, e João, agora um senhor idoso respeitado, avô, aposentado, admirado por seus pares, dizia, mesmo que com a voz já sôfrega pela idade, a desdenhosa e leviana frase: "Eu não tô nem aí".
E sumiu. Nunca mais esteve nem ali e nem lá. Aprendeu, por fim e enfim, da forma mais definitiva, o poder das palavras que saíam da própria boca. As últimas.
Daniel Rodrigues
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| Detalhe de obra sem título de Antonio Poteiro, déc. 60-2000 |
Cly Reis
- Nem é bicho, - corrigiu a loirinha de rabo de cavalo que o seguia correndo. - É uma flor, idiota!
- Não fala assim com o amiguinho, Valentina.
- Não é nada! É tipo, uma coisa, um 'enseto'. Vem ver, mãe, vem. - insistiu o garoto tentando levantar a mãe pela mão.
- Ai, Rique, não me incomoda! Deixa a mamãe, deixa. A gente tá aqui conversando. Vai lá com a Valentina ver o bichinho. Deve ser só um insetinho, filho. Vai lá, vai.
- Mas mãe, é uma coisa estranha. É diferente, é grande, tem umas antenas parece uns galhos, meio que brilha... - insistiu agora agarrando a mãe pela manga do casaco.
- Rique, para! Que coisa chata! - dessa vez dando um breve safanão no braço do menino.
O garoto, conformado e chateado, desistiu e saiu emburrado fazendo beiço e convocando a amiga a segui-lo.
- Ai, essas crianças. Às vezes a gente acaba meio que perdendo a paciência... - suspirou, justificando a reação mais brusca.
- Ah, às vezes nos enlouquecem. - concordou a outra.
As duas continuaram ali no banco do parquinho com sua habitual conversa trivial sobre comidas, roupas, novelas, seguro do carro e outras coisas corriqueiras.
Naquela noite, seus filhos e todas as outras crianças da vizinhança que estiveram na pracinha do bairro, estáticas, em pé, ao lado de suas camas, fitavam seus pais com olhar vazio e sem vida. Pareciam apenas aguardar alguma espécie de ordem.
Cly Reis
Não via a hora de chegar em casa e, enfim, descansar do dia corrido. Havia ainda de dar atenção aos filhos, fazer uma última reunião online, passear com o cachorro no quarteirão, tratar das contas com a esposa, preparar o lanche, comer o lanche, por as crianças para dormir, esperá-las se aquietarem, tomar banho, rezar pra Deus e... até que enfim! Dormir. Era tudo que precisava: dormir, repousar a cabeça no travesseiro.
Era tanto cansaço, que sentia que não era apenas uma cabeça a depositar na cama. Era o peso de muitas. Não deu outra: como ocorria todos os dias, era o último na casa a adormecer. Por isso, ninguém via as outras cabeças, que da sua brotavam como plantas adubadas em acelerado crescimento. Nem mesmo ele próprio, já absorvido pela sonolência. Eram umas sete, oito, além da sua, centralizada, em decúbito dorsal, num sono de boca aberta, ressonando de leve e continuamente. As outras, sobressalentes, menores que a original e de crâneos desproporcionais, como que malformadas, patógenas, purulentas, irrompiam das laterais, coco e testa. Algumas cabeças se mexiam, é bem verdade, virando os olhos avermelhados, num sono mais intranquilo (o que deviam estar sonhando?). Mas a maioria acompanhava-se na tranquilidade daquela merecida noite de repouso.Depois, bem depois, as cabeças se recolhiam longe dos olhos da família e antes que seu dono percebesse. A alvorada surgiria resplandecente, e ele sustentaria, com a ajuda do seu Deus, tudo aquilo dentro de si.
Daniel Rodrigues
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"Tu e Eu"
Deu um bom dia geral, não respondido por ninguém e seguiu para os corredores do estabelecimento, na verdade apenas dois, e começou a colocar coisas em seu cesto de compras. Pegou alguns itens que precisaria pelo menos para os primeiros dias na nova casa e dirigiu-se ao caixa. Uma velhota com cara de desconfiada, com muito má vontade, foi tirando os produtos da cesta de vime e os empacotado nos sacos de papel. Finalizou, anunciou o preço, recebeu o pagamento e antes que o cliente saísse, perguntou:
- O senhor é o novo morador da casa da estrada, não é?
- Sim, sou eu mesmo, confirmou Tino com um sorriso, não correspondido por sinal.
Os demais, um homem magro grisalho com um chapéu de palha, uma senhora de meia idade num surrado vestido azul, e um velho esquisito mascando fumo, se entreolharam de modo enigmático.
Sem saber como reagir ao silêncio cúmplice dos moradores, Tino comentou como complemento:
- É uma boa casa, uma bela casa... Pena é aquele monte folhas que caem da árvore da frente. Fica sempre daquele jeito? Ontem quando chegamos estava assim de altura ali na frente. A propósito, eu e minha esposa queríamos agradecer pela limpeza. Agradecer a quem tirou tudo aquilo de lá. Vocês saberiam me dizer quem foi? Pra eu dar, tipo, uma recompensa, uma diária, algo assim...
As pessoas se olharam novamente, agora de maneira ainda mais tensa.
- Saia daqui, saia... Vá, vá embora. - ordenou a velha do caixa um bastante alterada.
Embaraçado e não entendendo bem o que se passava, Tino simplesmente deixou a loja carregando suas mercadorias.
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"Varredeira?", quis confirmar Tino sem certeza de ter entendido bem a história e a alcunha da personagem.
- Exatamente. - confirmou o padre a quem encontrara na praça, por acaso, no dia seguinte à bizarra visita à quitanda local.
- Era a empregada de um casal que morou naquela casa, na sua casa. - continuou o pároco - Sempre que a frente da casa ficava cheia de folhas, ela varria e deixava tudo limpinho, perfeito, como se nenhuma folha tivesse caído. E quando a natureza insistia em cumprir seu ciclo de queda, de troca, ia lá ela de novo, pacientemente varrer tudo novamente e deixar a entrada da casa impecável. Não importava quantas vezes tivesse que fazer naquela estação.
- Então foi ela quem limpou? - precipitou-se o novo dono da casa - Eu teria o maior prazer em pagar a ela o serviço...
- Não, não. Impossível. - retrucou o padre.
- Por que? Ela não aceita dinheiro? Como poderia...?
- Não, não é nada disso. - interrompeu o sacerdote - Ela está morta. Enforcou-se exatamente naquele árvore. No carvalho da frente da casa.
Vendo a expressão de incredulidade do morador, padre João tratou de completar a história.
- Ao que se sabe ela tivera um... relacionamento, um caso com o patrão. Quando a esposa descobriu, ameaçou deixá-lo, e para evitar isso ele não só acabou o caso com a moça como, e claro, a despediu. Não suportando a decepção, o desgosto, a perda do emprego, o término com o amante, tudo, na manhã seguinte à dispensa ela... bem... foi encontrada dependurada num galho de fronte à casa.
Tino estava estupefato. Ninguém havia comentado nada daquilo quando comprara o imóvel.
- Então foi por isso que aquelas pessoas estavam agindo daquela maneira comigo no mercado?
- São supersticiosos, entenda.
- Mas eu não tenho nada a ver com isso e, de todo modo, não fui eu que tirei as folhas. Por sinal, ainda não sei quem foi. Foi alguma 'brincadeira' de boas-vindas?
- Não, o caso é exatamente esse... Como eu disse, são supersticiosos...
- Mas o que então?
- Há uma lenda, uma crença, histórias... Dizem que, desde que morreu a Varredeira volta para limpar a frente do terreno quando há alguém morando lá. Que ela não permite que qualquer casal viva lá por causa do que aconteceu com ela. O que dizem é que atormenta os casais até que decidam ir embora E se não vão... ela...
- Mas isso é uma grandiosa bobagem!
- Eu também acho. - confirmou o padre constrangido - São coisas que o povo acredita. Coisas que falam por aí.
- De qualquer forma, vivo muito bem com a minha esposa e não tenho a menor intenção de sair de lá por causa de uma crendice absurda.
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Diana estava estranha ultimamente. Às vezes a flagrava catatônica com o olhar parado fixando o nada. Dizia que andava distraída ultimamente. Outro dia, ao acordar, surpreendeu-se com a esposa parada com uma faca, em pé, ao lado da cama. Perguntada sobre o que fazia ali com aquilo na mão, limitou-se a responder que fora até o quarto para saber o que o marido ia querer para o almoço. Suas atitudes começaram a assustá-lo. Agora tinha acessos de fúria por coisas banais mas que passavam rapidamente, logo voltando a ser a doce esposa de antes. Certo dia, não a encontrou dentro da casa. A procurou no quarto, no pequeno ateliê, no porão, vasculhou toda a casa até que, ao passar pela sala de jantar, a avistou na rua, em frente à casa, sob a árvore. Varrendo folhas.
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Os arquivos municipais eram bastante pobres. De um modo geral seu conteúdo se resumia a documentos de posse, transferência, certidões, mapas, coisas de prefeitura. Havia alguma coisa que outra sobre eventos acontecidos na cidade como registros de antigas de inaugurações, bailes, quermesses, e ainda menos notícias sobre moradores. "Família Mello faz doação significativa para a paróquia", noticiava um jornal de quase 100 anos atrás, "Incêndio destrói galpão do Depósito Sul", contava outra edição mais recente, "Resgatada criança caída no poço da mina", dizia outra manchete. Mas dentre aquelas parcas trivialidades de cidade pequena eis que, "Tragédia: mulher é encontrada enforcada em frente à própria casa". E o corpo da notícia ainda completava, "esposa de engenheiro recém chegado à cidade...", ou seja, era outra, não se tratava da serviçal. E três anos depois: "Morte na casa da Estrada Velha", a notícia prosseguia, "Mary Gomez, esposa do médico Andres Gomez, foi encontrada enforcada, dependurada em uma corda na árvore localizado em frente à casa do casal. Indícios iniciais parecem sugerir suicídio mas as investigações devem ser aprofundadas nos próximos dias". E oito anos depois, "O Mistério da casa da árvore: nova morte por enforcamento no carvalho dianteiro à propriedade da Estrada Velha mexe com a imaginação da população e traz à tona crendices e antigas histórias". "A Lenda da Varredeira - a história da empregada desprezada que teria tirado a própria vida e que estaria assombrando a casa abandonada da Estrada Velha", relembrava de forma jocosa um colunista numa seção de curiosidades de uma edição mais recente, de dois anos antes da compra da propriedade pelo atual casal.
Tino não acreditava nessas coisas mas tinha que admitir que a sucessão de acontecimentos semelhantes, a coincidência, começava a mexer com sua cabeça.
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Era final de outono, as árvores quase nuas não deixavam dúvidas do período da estação. Era hora de trocar a cobertura da copas e as folhas que dariam lugar às novas se acumulavam no chão entre as ruas, na praça e em frente às casas. Exceto em frente à velha casa da estrada onde a calçada permanecia límpida, imaculada, perfeita. Em um largo galho do carvalho imponente que se projetava diante do casarão, o corpo de uma mulher jazia suspenso, balançando com o vento que antecipava o inverno.
Cly Reis
por Tiago Ritter
Era início dos anos 90. Tinha o hábito de visitar meu amigo de infância, Sandro, aos finais de semana. Certa feita, ele passou a me mostrar alguns vídeos de bandas, colocava diferentes CDs para tocar. Era um som mais pesado para quem estava entrando na adolescência e não tinha nenhuma referência do universo rock. Lembro de escutar pela primeira vez Offspring, Soundgarden, Pearl Jam, L7, Nirvana, Rush, Metallica, Ramones... Uma miscelânia!Atento ao meu interesse com o passar do tempo, Sandro passou a me presentear com coletâneas gravadas em fitas cassete. Um gesto especial que marcou minha vida, pois abria-se ali um mundo cultural a este que nem imaginava ser jornalista no futuro. E aquele mundo começava a tocar ao play do toca-fitas Toshiba lá de casa. Escutava, escutava, escutava... até que uma faixa passou a me chamar atenção. Encontrei entre as legendas da fita escritas à mão pelo meu amigo: "Perry Mason", de Ozzy Osbourne.
“Sandro, gostei mais do som deste cara. Quem é ele?”, perguntava no auge da minha curiosidade. Dias depois, eu ganharia uma nova fita para “estudar”. Além de músicas da carreira solo do tal roqueiro, havia faixas com uma plástica mais antiga, como gravadas de um disco vinil. A voz era praticamente a mesma, mas os riffs de guitarra surgiam num tom de afinação pesado e sombrio, assim como aquele baixo denso e a batera super precisa. No conjunto da obra, um baita som que arrepiava de dar medo, impossível parar de escutar diante tamanho entusiasmo. Em especial, se anunciava com toques de sinos e barulho de chuva uma faixa homônima à banda e ao álbum. Sim, era Black Sabbath.
Virei fã da banda quase que de imediato, assim como do próprio Ozzy. A vida passava a ganhar trilha sonora a partir de agora. O berro do “Madman” chamando a todos para embarcar num "Crazy Train" respondia a efervescência daquele guri que iniciara o 2° grau na Escola São João Batista, em Montenegro. Encontrava nos colegas a fonte para trocar informações e mais fitas gravadas. A grana era curta e os CDs não eram baratos. E no primeiro que compro, faço uma burrada: peguei o "Cross Purposes", com o Tony Martin no vocal do BS!!! Que ódio!!! Enfim... não escutei o suficiente as dicas dos amigos...
Mais amadurecido como jovem fã e controlando a empolgação, veio a coletânea "The Ozzman Cometh", um mix de músicas solo do Ozzy e do quarteto inglês de Birmingham. Tempinho depois, veio o "Never Say Die!", este comprado no dia em que eu completava meus 16 anos. Lembro de alguns amigos criticarem pra caramba, mas acho esse álbum “ducarai” com sua mistura de hard rock, blues e jazz, principalmente a última faixa cantada pelo baterista Bill Ward, "Swinging The Chain" - só ouçam, por favor! O disco ajuda muito a sair dos clichês e entender a capacidade criativa do Black Sabbath.
Com o passar do tempo, vieram "Technical Ecstasy", "Sabotage", "Sabbath Bloody Sabbath", "Volume 4", "Master of Realty", "Paranoid" e o álbum de estreia Black Sabbath. Sim, montei de trás para frente a coleção das oito capas que compõem a primeira fase de Ozzy na banda, lançadas entre 1970 e 1978. A cronologia pouco importa, uma vez que nessa cruzada chegaram álbuns da fase solo, além de outros artistas que me ajudaram a ampliar o conhecimento musical. Ao longo destes últimos 20 anos, outra miscelânea se formou, com coisas ainda muito mais distintas do que apenas rock, grunge e punk. Do samba de raiz à moda de viola caipira, tem espaço para tudo, graças à minha passagem pelo rádio como profissional da comunicação.
Em 2013, tive a sorte de ver aqui em Porto Alegre o show do Black Sabbath quase que na formação original, faltando apenas o Bill. Foi incrível ouvir de perto aqueles caras – quase faltou voz para acompanhar, ainda mais que na minha companhia estava o mesmo amigo que me presenteou com as tais fitas cassete. Fiz questão de conseguir um ingresso para ele em retribuição ao que fizera por mim. Parecia o jogo da vida a chegar na última casa!
Não sou daqueles fãs que sabem e colecionam tudo dos artistas. Não vi o Ozzy em 2011 no Gigantinho, nem o outro show do Black Sabbath, de 2016, em POA. Mas eu sei o tamanho da admiração que tenho por estes caras. No último dia 5 de julho, a banda realizou a sua última apresentação com toda pompa merecida num megafestival em sua terra de origem – "Back to the Beginning"! Assisti online Bill Ward, Tony Iommi, Geezer Butler e Ozzy dando adeus aos palcos, na altura dos quase 80 anos, arrebentando dentro do que podiam fazer no palco. Queria tanto abraçar cada um deles em agradecimento, não só pelo que fizeram ao cenário musical, mas pelo tanto de grandes histórias e boas amizades que me renderam ao longo da vida. Eles foram demais!
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Provavelmente pegou alguma coisa no armário pois foi possível ouvir o rangido da porta e depois ela se fechando.
Saiu, guardou algo na cintura. Não deu para ver o que. A camiseta cobriu.
Saiu da casa. Nem se preocupou em fechar a porta.
Entrou no carro e deu a partida.
A televisão pode influenciar muito a cabeça de algumas pessoas...
Cly Reis
Talking Heads - "Psycho Killer" (vídeo 2025)
Em comemoração aos 50 anos do primeiro show dos Talking Heads, a banda lançou um vídeoclipe inédito de seu clássico "Psycho Killer", 48 anos após o lançamento da canção. O novo vídeo ficou a cargo do diretor Mike Mills e é estrelado pela consagrada atriz Saoirse Ronan. Confira aí o vídeo.