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domingo, 13 de setembro de 2026

cotidianas #907 - Eu não mordo

 


Não era possível que aquela mulher estivesse olhando pra mim. Ainda olhei pra trás pra ver se tinha um bonitão, um cara sarado, boa pinta atrás de mim, mas às minhas costas só tinha o balcão do bar e o barman que, além de estar distraído limpando uns copos, convenhamos, não era muito melhor que eu. Tão gordo quanto eu e com menos cabelo ainda.
Era comigo mesmo.
Ela me olhava de um jeito provocante, lascivo, pervertido, como se quisesse me comer. Percebendo a minha dúvida, tratou de eliminá-la completamente. Sem tirar aqueles olhos penetrantes de mim, me chamou com um gesto de mão. Seu indicador se movia como uma serpente inquieta me fazendo sinal para que fosse até ela.
Não restava dúvidas.
Fui.
- Oi, senta. Pode chegar perto. Eu não mordo - disse ela, provocante.
- Não, claro. Eu sei, é só que... sei lá. Achei que não fosse comigo. Tantos caras mais interessantes e você me chama. Sei lá...
- Você se subestima. Você tem muito mais coisas que atraem uma mulher do que poderia imaginar.
Enchi meu ego!
- E então, vamos? - perguntou ela com a naturalidade de quem pede as horas.
Não acreditei. Me fiz de desentendido pra ter certeza de que era o que eu estava pensando, e ela confirmou.
- Pro meu apartamento, bobinho!
Fui.
Entrei, olhei em volta. Um ambiente um tanto curioso. Quase nu. Apenas um sofá velho sobre um tapete estampado empoeirado e cortinas vinho pesadas cobrindo as janelas.
A respiração dela perto do meu pescoço fez eu sair de minha hipnose intrigado por aquele ambiente inusitado.
- Lembra quando eu disse que não mordia? - sussurrou pertinho da minha orelha.
Só tive tempo de arregalar os olhos...
- Eu menti.
 

**************************
"Eu não mordo"
Cly Reis

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

COTIDIANAS nº905 Especial 18 anos do ClyBlog - O Conto Nunca Escrito *




Era um escritor que não conseguia escrever.
Não conseguia.
Uma crônica, um conto, uma página, um capítulo, um livro. Nada.
Inspiração, tema, criatividade, bloqueio? Vá lá saber. Não conseguia. E o pior é que seu editor, seu agente, a editora, todos estavam na sua cola. Não paravam de cobrar.
Sentia-se pressionado, angustiado, tenso. Resolveu sair para tomar um ar, respirar ar fresco. Talvez algo
o inspirasse. 
Saiu. Entrou em bares, conversou com bêbados, paquerou umas vadias, bebeu, jogou, brigou, rolou pelas sarjetas, vomitou e quando acordou pela manhã, sabe-se lá como, estava em casa, em sua cama.
Levantou-se, foi ao banheiro, deu uma boa mijada, pegou do criado-mudo uma garrafa de uísque quase vazia, sentou-se na beira da cama e, naquele momento, como que tocado por alguma coisa que não conseguia explicar, de repente sabia exatamente o que fazer. Foi para a frente da máquina de escrever e começou:
Era um escritor que não conseguia produzir nada. Não
conseguia escrever. Simplesmente não conseguia. Uma crônica, um conto, uma página, que fosse. Nada. Falta de inspiração, bloqueio? Sei lá. Não conseguia. E o pior é que seu editor estava na sua cola. Não parava de ligar. O tempo todo.
Sentia-se pressionado.
Mas não adiantava ficar ali parado diante da máquina de escrever. Tinha que fazer alguma coisa.
Resolveu que precisava tomar um ar, respirar ar fresco. Talvez algo o inspirasse, ainda que não acreditasse nessa frescura de “inspiração”.
Saiu. Era uma noite como outra qualquer, daquelas que não têm nada de especial. Nem muito vento, nem muito calor, nem muita gente na rua, nem muitas putas, nem muitos mendigos, nem muitas sirenes, nem nada. Entrou em alguns bares, conversou com um monte de gente, bebeu, deu em cima da mulher de um cara, brigou, bateu, apanhou, bebeu mais, foi jogado pra fora de um boteco, apagou, rolou pelas sarjetas e quando acordou pela manhã, sabe-se lá como, estava em casa, em sua cama todo sujo de vômito.
Levantou-se, foi ao banheiro, tirou a roupa imunda e tomou uma ducha. Depois de uma boa cagada, foi à cozinha e pegou uma cerveja. Sentou-se então na velha poltrona carcomida e esfarrapada e, como que
tocado por algo divino, teve certeza do que deveria fazer naquele instante. Sentou-se então em frente ao computador, mas quando ia começar a escrever, o telefone tocou. Diabos! Por certo devia ser ele. Aquele desgraçado. O editor.
Atendeu.
Não era.
Era Pam.
- Ei, gatão!
- Ei, baby.
- Liguei pra saber se você quer que eu vá até aí. A gente podia fazer um amorzinho gostoso.
- Bom, Pam, na verdade, eu ia começar a escrever agora.
- Mas você mesmo disse que não consegue escrever, tá com bloqueio, falta inspiração ou alguma frescura dessas.
- É, mas exatamente agora, quando parecia que eu ia conseguir, você ligou e me interrompeu.
- Quer dizer que eu só te atrapalho? - perguntou claramente irritada.
- Eu não falei isso...
- É, não falou mas quis dizer isso. Eu sei. - agora já aos gritos - É assim, eu sou um estorvo, uma pedra no seu caminho, um...
- Não é nada disso, baby. Na verdade você me faz muito bem.
Acho até que eu vou escrever melhor ainda depois de ver você.
- Você está falando sério? – quis confirmar, acalmando-se.
- Tô sim, tô.
- Eu posso ir aí, então?
- Claro, vem. Tô te esperando.
- Chego aí em quinze minutos – e desligou.
Droga! As coisas que um cara tem que fazer para não magoar as mulheres.
Não era apaixonado por Pam. Era uma garota legal. Tinha dessas paranoias de vez em quando de estar atrapalhando, de ser um problema para os outros e tal, mas tirando isso era boa gente. Gostava de sua companhia. Isso sem falar nos peitões. Que tetas! Grandes, fartas...
Mas era melhor parar de pensar nos peitos da Pam e retomar o trabalho. Aproveitaria que ela só deveria chegar dali a uns quinze, vinte minutos e, pelo menos, lançaria alguma coisa inicial, um esboço.
Mas e alguma ideia agora? Parecia que aquele momento de criatividade havia sido uma breve iluminação, uma espécie de brincadeira de Deus, se é que Deus existe.
Estava travado de novo. Odiava ser interrompido quando escrevia. Era como se as coisas, assim, puf!, se desvanecessem no ar. E aquela puta da Pam... Tinha que estragar tudo.
Bom, era reorganizar a mente e tentar recomeçar.
Tinha que produzir alguma coisa. Não era possível! O que o impedia? Vamos lá, é uma letra depois da outra, uma palavra depois da outra, uma frase, um parágrafo, uma página, vamos, vamos. Mas o quê?
Podia escrever sobre um escritor que não conseguia escrever, que saíra à noite pra respirar e conseguir inspiração mas acabara entrando em bares, enchendo a cara, se metendo em brigas e, quando se dava conta, acordava em casa pela manhã todo vomitado em sua cama. Aí o cara tomava um banho, dava uma cagada e de repente tinha aquele brilho pra escrever. Sentava então em frente ao papel em branco e quando ia começar o telefone tocava. Era sua namorada ou noiva ou amiga ou amante querendo saber se ele estava a fim de uma trepadinha. Ele até estava, mas a hora era imprópria. Argumentava para a garota que estava tentando escrever, que seu editor até já lhe ameaçara caso não entregasse alguma coisa e que a ligação quebrara sua concentração. Ela se sentiria desprezada, ofendida, discutiriam rapidamente e no fim das contas, para não magoá-la, ele aceitava que ela fosse ao seu encontro. Ela demoraria um pouco para chegar, o que seria tempo suficiente para o cara dar uma partida no trabalho, a não ser pelo fato de que a ligação e toda aquela interrupção o haviam feito perder a linha de raciocínio e voltar à estaca zero. O cara então tentava reorganizar as ideias, botar os pensamentos em ordem. Aí a campainha da porta tocava. Devia ser ela.
- Ei, seu safado! - foi o que escutou assim que abriu a porta sem ver quem era.
Era o editor.
- Oi, Tom.
- “Oi”? É tudo o que você tem pra me dizer? Você tá a fim de foder comigo? Sabe há quanto tempo eu estou esperando aquele seu material novo, sabe?
- É, um bocado de tempo, eu sei.
- E então?
- Eu estava meio... bloqueado, sem inspiração, sei lá.
- Inspiração? Inspiração? - aos gritos - Você deve estar de sacanagem comigo, só pode. Frescura, pura frescura é isso que essa palhaçada de inspiração é. Frescura.
- Tá bom, Tom, tá bom. Mas eu já tô fazendo alguma coisa.
Comecei alguma coisa hoje.
- Hoje? Só hoje que você foi começar? Você deve estar de brincadeira.
- Não, hoje é modo de dizer, faz alguns dias – argumentou, tentando acalmar o editor.
- E o que é? É coisa boa? - perguntou interessado.
- Acho que é bom, escuta só: era um escritor que não conseguia escrever nada. Tava com bloqueio, falta de inspiração ou alguma frescura dessas. O cara resolve sair pra tomar umas, ver gente, conversar, arranjar algum assunto pra escrever o livro dele. O cara vai de bar em bar, bebe pra caramba, arranja umas confusões, briga, apanha, apaga e acorda só no dia seguinte, em casa...
- Como é que ele vai para em casa? - interrompe o editor.
- Isso não interessa agora, Tom. Escuta. O cara acorda em casa na própria cama, todo vomitado e com o olho roxo. Ele vai ao banheiro, dá uma cagada, toma um banho, cuida do olho e de repente parece que toda aquela situação tinha despertado uma coisa nele.
- A porra da inspiração – interrompeu o editor novamente.
- É alguma coisa assim, mas não me interrompe, Tom. Eu perco a linha de raciocínio.
- Tá bom. Segue. Vamos ver onde essa coisa vai chegar.
- Bom,... onde é que eu estava mesmo?
- Na inspiração.
- Ah, é. A inspiração. Bom, aí quando o cara achava que ia conseguir escrever, botar as coisas no papel, o telefone tocava. Era a ex-mulher dele querendo saber se podia ir lá, na casa do cara, conversar.
- Conversar? Conversar? Conversar não vende. Faz a namorada, amiga, amante, sei lá, uma vadia qualquer ir na casa do cara foder com ele ou algo do tipo. Uma com tetas grandes. Os leitores adoram tetas grandes.
- Tá bom, pode ser – concordou o autor só para poder continuar a contar sua história – Então a tal mulher, essa peituda, queria dar uma passadinha lá pra dar uma trepada, uma chupada, que fosse, mas o
cara alegava que não era um bom momento, que estava tentando escrever e que pela primeira vez em muito tempo algo lhe vinha à mente.
- Esse escritor do teu livro era bicha?
- Não, ele só não queria perder o momento, o brilho, mas você vai me deixar contar ou não?
- Continua, continua. Vai.
- Ela ficava chateada achando que na verdade o cara nunca gostara dela mesmo e aquele drama que toda a mulher faz, aí o cara amolecia, pedia meia dúzia de desculpas da boca pra fora e concordava que
ela o visitasse. Como ela combinara chegar em quinze, vinte minutos, aproveitaria aquele tempo vazio pra dar uma adiantada no trabalho. Mas aí...
- Aí o que? - perguntou verdadeiramente curioso o editor.
- Puf! A ideia desaparecera. O telefonema, a discussão, os peitos, a interrupção o tinham feito perder o fio da meada. Perdera tudo.
- Não, não. Agora sim, você só pode estar querendo tirar sarro da minha cara. Você me faz ficar aqui te escutando, perdendo meu precioso tempo, fica horas nesse bla bla bla todo pra no fim o cara não ter ideia nenhuma?
- Calma, Tom, eu ainda estou desenvolvendo. Senta aí, senta – disse apontando para uma poltrona velha e desfiada – Quando você chegou eu estava exatamente na parte que o cara tenta botar a cachola em ordem de novo, tenta recuperar a ideia. Mas aí batem na porta.
- Quem é?
Ninguém responde.
Batem novamente. Mais forte. Com mais insistência. Não devia ser a Pat ainda, não havia se passado nem dez minutos desde que ligara. Devia ser o editor. Puta merda. O cara cobraria de novo aquele material e tudo o que tinha era uma ideia inicial, um esboço.
Supondo ser quem imaginara que fosse, com confiança, foi abrindo a porta, sem espiar quem era, e já dizendo:
- Ei, Theo, desculpe mas...
Não era o editor.
Parado no lado de fora, à soleira, estava um cara. Um cara enorme, um armário, um gorila de terno preto e óculos escuros. Um cara grande mesmo, de verdade.
- Posso ajudar? -perguntou o escritor com um misto de
curiosidade e desconfiança.
- Com certeza pode. – respondeu o grandalhão com um sorriso ameaçador no canto da boca.
- Você é...? - deixou a interrogação aberta para que fosse completada, no fundo, temendo pela resposta.
- Eu diria que sou seu anjo-da-guarda. - sorriu novamente e complementou - Fui enviado pra lhe trazer um pouco de inspiração.
E foi entrando empurrando o escritor para dentro de sua própria casa.
- Ei, calma aí! O que você acha que está fazendo?
- Só vim dar uma refrescadinha na sua memória pra você lembrar que tem um compromisso de entregar um livro. – disse o gorila erguendo o escritor pela camisa.
- Ei, ei...
- Mas não se preocupe, – como se sua frase seguinte pudesse tranquilizasse alguém – não vou machucar muito nem sua cabeça pra você poder pensar em alguma história, nem seus dedos pra você poder
datilografar.
E a última coisa que ouviu antes do soco foi:
- Com os cumprimentos de Theo D'Angelo.
Apagou.
Só acordou no dia seguinte em sua cama com o corpo todo dolorido e com um olho roxo.
Levantou-se com dificuldade, foi ao banheiro, jogou uma água na cara, olhou o próprio rosto no espelho e sorriu para o homem com olho roxo que o encarava. 
Pela primeira vez em meses sabia o que tinha que fazer. 
Foi à cozinha, pegou uma garrafa já aberta de vinho, um copo e tomou posto em frente à sua máquina datilográfica. O telefone tocou, tirou do gancho e deixou o fone sobre a mesa sem atender. Tocaram a campainha da porta, respondeu num grito, “Não estou”.
Colocou um papel em branco na sua Clark-Nova, deu um gole do vinho e, sem titubear, como se tudo tivesse estado o tempo inteiro dentro de sua cabeça, começou:
Era um escritor que não conseguia escrever...


🕮🕮🕮🕮🕮🕮🕮🕮🕮🕮🕮🕮🕮🕮

O Conto Nunca Escrito
Cly Reis
* conto inédito no ClyBlog, até então publicado apenas 
na antologia "Big Buka - Para Charles Bukowski", 
por conta de direitos de publicação

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

cotidianas #904 - Meu Pequeno Mundo

 



Acordou assustado de um sonho estranho. Não lembrava muito bem. Mas, enfim, não tinha tempo pra ficar pensando nisso mesmo. Já estava em cima da hora pro trabalho. Preparou-se apressadamente, esquentou o café de ontem, nem teria tempo pra comer nada. Já ia abrindo a porta de casa para sair quando viu aquele bolinho em cima da mesa com um bilhetinho assentado sobre ele, escrito, "Coma-me". Pensou quem teria deixado aquilo ali, a namorada, a vizinha, a faxineira... Mas, com fome e sem tempo para nada, não pensou duas vezes. Apanhou o bolo e meteu na boca. Depois questionaria a origem do doce.

Correu para o ponto de ônibus. Teve uma certa dificuldade para embarcar. Parecia que o degrau da entrada estava mais alto que de costume. "Esses novos ônibus que estão  circulando...", pensou, desapontado. Sem assentos disponíveis, teve que esticar bem o braço para segurar-se na barra horizontal. Definitivamente, a nova frota não fora pensada para conforto do passageiro!

Para descer, teve que literalmente saltar do ônibus. No curto trajeto que percorreu entre o ponto de ônibus e o prédio da empresa, tudo pareceu estranho à sua volta mas não sabia identificar exatamente o quê. 

No prédio, no elevador, foi ajudado por um gentil senhor para apertar o botão do décimo sexto andar. Percorreu os corredores do escritório como se ninguém o visse. Era impressão sua ou as divisórias estavam mais altas? Chegou à sua estação de trabalho e para sua surpresa não alcançava a cadeira. Ficou na ponta dos pés, deu um impulso, não adiantou. Teve que derrubar a lixeira e subir nela, deitada, para alcançar a área do assento. 

Ouviu de um colega que passava na entrada da sua baia, "O nosso colega aqui não vem hoje, não?".

Estava ali, mas ninguém o via. Ele pelo contrário, via os demais esticados como que intermináveis na direção do teto. Só então entendera o que estava se passando, por mais inverossímil que aquilo lhe parecesse. Olhou em volta como se procurasse alguma solução. Talvez tivesse encontrado: em cima da sua mesa do escritório repousava um pequeno frasco com um líquido amarelo fluorescente dentro, com um rótulo escrito, "Beba-me". Supondo que o bolo tivesse causado tudo aquilo, imaginou que a bebida o fizesse voltar ao normal.

Tomou distância até o final da cadeira, correu, deu um pulo, segurou na borda da mesa e conseguiu subir. Com muito esforço escalou a pequena garrafa, tirou a rolha e a empurrou, derramando o líquido na mesa, à qual pôs-se a lamber sofregamente como um se fosse um gatinho.


*******


Um estrondo acompanhado de um tremor assustou a todos. E outro, e outro... Se repetiam como passos. 

No escritório, todos correram para a janela para ver o que se passava. 

Um olho enorme cobriu toda a superfície da janela espiando para dentro.



Cly Reis

sábado, 18 de julho de 2026

cotidianas #902 - "Uma Partida de Football"

 



Brasilx Argentina
Campeonato Sul-Americano (1919)
Das coisas elegantes que as elegâncias cariocas podem fornecer ao observador imparcial, não há nenhuma tão interessante como uma partida de football.

É um espetáculo da maior delicadeza em que a alta e a baixa sociedade cariocas revelam a sua cultura e educação.


Num círculo romano, com imperadores, retiários, vestais e outros sacerdotes e sacerdotisas, não se poderiam presenciar aspectos tão interessantes, cousas tão inéditas como nas nossas arenas de jogo dos pontapés na bola.

Os gladiadores eram raramente homens de grande beleza física e muito menos intelectual; os nossos jogadores de football, porém, são excelentes modelos, em que o crânio alongado e pontiagudo dá um remate de beleza aos seus membros inferiores que muito lembram certos ancestrais do homem.

O senhor Coelho Neto, a quem muito admiro, já fez a apologia desses Apolos, com a força de sua erudição em cousas gregas.

Não há, portanto, nos nossos hábitos, fato mais agradável do que assistir uma partida de bolapé.

As senhoras que assistem merecem então todo o nosso respeito. Elas se entusiasmam de tal modo que esquecem todas as conveniências. São as chamadas “torcedoras” e o que é mais apreciável nelas é o vocabulário. Rico no calão, veemente e colorido, o seu fraseado só pede meças ao dos humildes carroceiros do cais do porto.

Poderia dar alguns exemplos, mas tinha que os dar em sânscrito. Em português ou mesmo em latim, eles desafiariam a honestidade: e é, por um, que me abstenho de toda e qualquer citação elucidativa.

O que há, porém, de mais interessante nessas festanças esportivas, é o final. Sendo um divertimento ou passatempo, elas acabam sempre em rolo e barulho.

Por tal preço, não vale a pena a gente divertir-se.

É o que me parece.

⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽


"Uma Partida de Football"
Lima Barreto
(1919)

quinta-feira, 16 de julho de 2026

cotidianas #901 - "De Frente pro Crime"

 


Tá lá o corpo estendido no chão
Em vez de rosto, uma foto de um gol
Em vez de reza, uma praga de alguém
E um silêncio servindo de amém

O bar mais perto depressa lotou
Malandro junto com trabalhador
Um homem subiu na mesa do bar
E fez discurso pra vereador

Veio o camelô vender!
Anel, cordão, perfume barato
Baiana pra fazer
Pastel e um bom churrasco de gato

Quatro horas da manhã
Baixou o santo na porta bandeira
E a moçada resolveu
Parar, e então

Tá lá o corpo estendido no chão
Em vez de rosto uma foto de um gol
Em vez de reza uma praga de alguém
E um silêncio servindo de amém

Sem pressa, foi cada um pro seu lado
Pensando numa mulher ou no time
Olhei o corpo no chão e fechei
Minha janela de frente pro crime

Veio o camelô vender!
Anel, cordão, perfume barato
Baiana pra fazer
Pastel e um bom churrasco de gato

Quatro horas da manhã
Baixou o santo na porta bandeira
E a moçada resolveu
Parar, e então

Tá lá o corpo
Estendido no chão

⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽

"De Frente pro Crime"
João Bosco/Aldir Blanc

Ouça: De Frente pro Crime

segunda-feira, 13 de julho de 2026

COTIDIANAS Especial nº900 - O Tio Adão

 



Desde pequeno ouvia minha mãe contar que nossa família tivera um grande jogador de futebol que havia jogado inclusive pela Seleção Brasileira e participado de uma Copa do Mundo.

Por mais que sempre gostasse muito de futebol, quando garoto, a informação não se fazia totalmente relevante para mim, até porque, meio desencontrada e incompleta, parecia carente de precisão e confirmação. Não que minha mãe, minhas tias e outros parentes estivessem inventando, mentindo, mas talvez aquilo não fosse tão grande quanto colocavam. Minha mãe contava das aventuras dele em países nórdicos, suas fotos com as louras, com delegações de jogadores, mas ninguém sabia ao certo se havia jogado na Copa da Suécia, da Suíça, ou se havia realmente chegado a jogar uma Copa do Mundo. Já era motivo de orgulho por ter jogado na Seleção, e isso era fato, mas talvez tivesse sido um torneio de juniores, uma excursão avulsa ou algo  do tipo. Mas de todo modo, o Tio Adão sempre habitava nossa memória afetiva coletiva como o craque da família.

A era da informação e da Internet trouxe dados mais precisos que eliminaram aquelas imprecisões e só fizeram crescer minha admiração e colocá-lo no lugar de destaque que sempre mereceu.

Tio Adão para nós, ou Adãozinho, como era conhecido no mundo do futebol, fora um atacante de alto nível que atuara no meu time do coração, o Sport Club Internacional, e que entre diversas participações com a seleção nacional, integrou o grupo que participou da fatídica Copa do Mundo de 1950, no Brasil. Jogara mesmo uma Copa, como se contava! Mas fora por aqui mesmo, no próprio país.

Integrante da segunda formação da lendária equipe do Internacional chamada de Rolo Compressor, Adãozinho, imparável, veloz e artilheiro, tamanha era sua volúpia e indomabilidade fora alcunhado de Atacante Satânico. Seu prestígio permanece intacto, atravessa gerações tanto que, hoje, minha filha, colorada, admira e também se orgulha de ter um parente, mesmo que distante, representante das cores do nosso time da lendária camiseta brasileira.

As histórias com louras europeias deviam ser de algum torneio, amistoso ou uma convocação eventual, mas o fato é que a própria participação em um Mundial já atesta não se tratar de um jogador qualquer. Se hoje em dia qualquer jogador mediano, sem coração, veste a camisa da seleção, Tio Adão jogara em uma época repleta de craques na qual a concorrência era grande, além de ser um tempo em que o amor à camiseta que se vestia representava tudo.

Nada pode mudar isso: um dos nossos, do nosso sangue, fora um craque de Seleção Brasileira e jogara uma Copa do Mundo!


⚽⚽⚽⚽⚽


Cly Reis


segunda-feira, 29 de junho de 2026

cotidianas #899 - "Samba Japonês"

 


Aqui pela primeira vez
Eu canto pra vocês
Um samba e um batuque feito para japonês

E vem aqui dançar comigo
Sem levar um tombo
E só se para quando ouvir o som daquele gongo

Tóquio é a cidade que
Quase vive em paz
Porque a polícia lá estuda até arranjos florais

Bruce Lee, Kung-fu, Shaolin chegou
E veio sambando e cantando em nagô

O sol então nos encontrará
Pela madrugada
De mãos dadas como num conto de fadas
Cor de jade e de marfim, nos invade
Amor sem fim, felicidade é uma coisa assim

O sol então nos encontrará
Pela madrugada
De mãos dadas como num conto de fadas
Cor de jade e de marfim, nos invade
Amor sem fim, felicidade é uma coisa assim


⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽

"Samba Japonês"
Jorge Mautner

Ouça: Jorge Mautner - Samba Japonês

quinta-feira, 18 de junho de 2026

COTIDIANAS #898 - Especial Maria Bethânia 80 Anos - "Pássaro Proibido"



Solto está o pássaro proibido

Perigo, cuidado, sinal nas ruas

Plumagem clara e brilhante

Ao sol e a lua transparente

Ao corisco e a maré

Ao corisco e a maré

Eu canto o sonho na cama

Do jeito doce e moreno

Eu canto


Pássaro proibido de sonhar

O canto macio, olhos molhados

Sem medo do erro maldito

De ser um pássaro proibido

Mas com o poder de voar

Mas com o poder de voar

Eu canto o sonho na cama

Do jeito doce e moreno

Eu canto


Voar até a mais alta árvore

Sem medo, tranquilo, iluminado

Cantando o que quer dizer

Perguntando o que quer dizer

Que quer dizer meu cantar

Que quer dizer meu cantar

Eu canto o sonho na cama

Do jeito doce e moreno

Eu canto


Eu canto


🐦🐦🐦🐦🐦🐦🐦🐦🐦🐦🐦



letra de "Pássaro Proibido"
autoria: Maria Bethânia e Caetano Veloso



Maria Bethânia - "Pássaro Proibido"
Voz: Caetano Veloso 

segunda-feira, 15 de junho de 2026

cotidianas #897 - "Esquadrão do Samba"

 



Meu pandeiro rebate no gol
E na defesa bate o tamborim
O reco-reco, o agogô, a frigideira
Entregando de primeira quem disser
Passe pra mim
No meio campo vem a formação
Um cavaquinho e um bom violão
O surdo joga na frente de rompendor
O ganzá de goleador, o repinique a repicar
Pela direita tocando com a cuíca
A torcida se agita pra ver o samba jogar

Gol, mais um gol esse time não pode perder.
A seleção do meu samba ninguém consegue vencer
Olha o Gol, mais um gol esse time não pode perder.
A seleção do meu samba ninguém consegue vencer

Meu pandeiro rebate no gol
E na defesa bate o tamborim
O reco-reco, o agogô, a frigideira
Entregando de primeira quem disser
Passe pra mim
No meio campo vem a formação
Um cavaquinho e um bom violão
E pode vim a seleção do estrangeiro
Bem quente que o brasileiro
Já montou seu esquadrão
Sei que lá fora o meu samba não tem nome
Compete, mas passa fome, se gritar leva carão.
Em nossa área apareceu o rock and roll
Tá por ai fazendo gol
Mas no bom samba não faz não

Gol, mais um gol esse time não pode perder.
A seleção do meu samba ninguém consegue vencer
Olha o Gol, mais um gol esse time não pode perder.
A seleção do meu samba ninguém consegue vencer


⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽

"Esquadrão do Samba"
Chico da Silva

Ouça: Chico da Silva - 'Esquadrão Do Samba'




quinta-feira, 4 de junho de 2026

cotidianas #896 - "Once"

 





Liam Gallagher - "Once" (feat. Eric Cantona)



"Once", canção de Liam Gallagher, do Oasis,
vídeoclipe com a participação do ex-jogador francês,
do Manchester United e da seleção francesa, Eric Cantona

sábado, 30 de maio de 2026

cotidianas #895 - Gol Chorado

 



O pé por baixo da bola. Aquela leve cavada, desequilibrado, o suficiente para evitar o joelho do goleiro. E lá foi ela, a bola, mansa, lenta, quase morrendo, quicando, quicando, quase perdendo a força antes de chegar no gol. Será que tinha direção certa? E se batesse na trave? E se tirasse tinta e saísse?
Eu, acompanhando a trajetória, era o espectador privilegiado ao mesmo tempo que era candidato a herói do título. Era só encostar de leve e garantir o destino certo: rede!
Naquele 14 de junho era aniversário do famoso Gol Chorado. O gol do título. Só se falava nisso em todas os jornais, emissoras, mesas redondas. Era especial com o Pinha, entrevista com o Pinha, reprise do gol do Pinha, "conheça a mansão do ex-atacante Pinha"... Estava cansado daquilo. Desliguei a TV, levantei da cama e acendi um cigarro no fogão. Se tivesse metido o pé naquela bola, hoje não estaria morando num buraco daquele em que o quarto já é praticamente a cozinha.
Ainda sonhava com aquele lance...
Em seu sonho, ele acompanhava a jogada, ela quicava, quicava, ia morrendo, ele percebia que ela não teria o destino do gol, talvez batesse na trave... Pra garantir, completava de chapa pra rede. O jogo acabava, ele era carregado como um herói, caía nos braço da torcida, dava autógrafos, ia a programas esportivos. Comerciais, carros, mulheres... Anos depois, no aniversário daquele gol decisivo, se fariam programas sobre ele, com ele, iriam à sua mansão entrevistá-lo e fazer um especial para a TV.
Acordava invariavelmente suado e angustiado, com lágrimas nos olhos. Não conseguia deixar de pensar como tudo seria se tivesse metido o pé naquela bola.



Cly Reis

segunda-feira, 18 de maio de 2026

cotidianas #894 - "Ronaldo Foi Pra Guerra"




Andava pela rua
Toda noite, todo dia
Ouvindo notícias
Dos heróis que voltaram
Da guerra do Bananal

Daí pintou a convocação
Da seleção
Jair pra Tostão
Valendo dólar
Pelé pegou na bola
E invadiu como quis

Invadiram o país
O que é que você me diz

Ronaldo era um cara
Que tinha a maior tara
Por futebol

Ronaldo não tem time
Ele mesmo se define
Franco-atirador
Eu só quero ver gol

Ronaldo é meio punk
Já foi hippie, já foi junkie
Pirou e foi pra aviação
Entrou em crise
Saiu do ar
Foi ser piloto
Sem brevê, sem radar

Invadiram a Terra
Ronaldo foi pra guerra

Ronaldo é futurista
É sensível, é artista
É videogame

Voava pelo mundo
Um piloto vagabundo
Caçando no ar disco voador

Passaram 2 mil anos
Pros humanos não entenderem
Qual a razão, ainda não
Da sua própria existência e o valor
Do seu planeta

Invadiram a Terra
Ronaldo foi pra guerra
Ronaldo foi pra...

⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽

"Ronaldo Foi Pra Guerra"
Lobão e os Ronaldos

(Lobão, Guto Barros, Hélcio)


Ouça:
Lobão e os Ronaldos - Ronaldo foi pra guerra


segunda-feira, 6 de abril de 2026

cotidianas #892 - LMNT 4VR

 



Fotos com a galera na praia, fotos com as meninas na festa da Gabi, foto com as miga no Pop Festival... A Lari devia estar quase chegando pra irem juntas pra festa na casa do Edu. Enquanto isso, aproveitava pra baixar as fotos pro computador e selecionar as melhores.

Ai, essa não com a chata da Aline! Deletar! Own..., a Juli é um amor! Adoro essa foto junto com ela. Haha, o cachorro da Gabi. Essa eu tenho que guardar. Ah, não! O Marcelo... Pior que essa foto tá ótima. O que estraga é ele.

Havia terminado com o Marcelo havia poucas semanas e, naquele momento, a imagem dele era algo pouco agradável, era alguém que preferia não ver. E pensar que teria que encontrá-lo na festa...  Mas não tinha jeito: ele também era amigo do Edu e estaria lá de qualquer forma. Preferia não deletar uma foto tão legal, no sítio do pai da Lara, com as meninas, com o Jefinho que é um cara massa, com o Rafa que é gatinho... Bem que podia eliminar só o Celo!

Procurou no Google algum aplicativo que removesse imagens indesejáveis. Remove-It, Photo X-clude, Edit 4U... 'LMNT 4VR, elimine para sempre aquela figura indesejável'. Nunca tinha visto esse, nunca tinha ouvido falar. Adorou a chamada! Era exatamente isso que queria: remover o Marcelo para sempre de qualquer lembrança.

Entrou. Arraste sua foto para cá. Colocou lá a fotinho. Use o pincel para apagar. Passou o cursor em forma de número 4 apenas sobre a imagem do ex. Você realmente deseja eliminar este elemento? Pensou um pouco... Confirmou. SIM.

Nesse momento a mãe entrou no quarto e avisou que a Lari estava lá  embaixo e que era para ela descer. Baixou a tampa do laptop, apagou a luz do quarto e saiu para a festa. 

Selfies, poses, drinks, baseados, paqueras! A galera tava toda lá. Quer dizer, todo mundo menos o Marcelo. Estranho! O Gui veio com a piadinha, "Tem alguém que não apareceu por aqui hoje... Será que é dor de corno?". Não enche, Gui! A Gabi encostou nela e, de forma bem mais conveniente questionou: "Sabe do Celo?". Não sei e não quero saber, respondeu. De fato não queria saber, mas que era estranho não ter ido à festa, era. Além de não costumar se abalar com qualquer rompimento, finais de namoro, era amigo de infância do Edu e além disso todos os rapazes, os amigos estavam lá, o pessoal do time, do clube, do inglês...

Marcelo não apareceu aquela noite e não apareceu mais.

Não fora mais visto.

Polícia, noticiários, família desesperada... Como se tivesse evaporado.

Nada a ver, mas começou a pensar naquele aplicativo... Desde a noite em que resolveu apagar o Marcelo, ele não apareceu mais. E era um app estranho pra falar a verdade. Nunca tinha visto nem ouvido falar daquela coisa. 

Será???

E se testasse? Pra conferir se era isso mesmo. Se o tal aplicativo teria alguma coisa a ver...

lmnt4vr.com

Entrou.

(Com quem faria o teste?)

A Aline era uma chata, mesmo...

Arraste sua foto para cá. Colocou lá a foto. A Aline toda sorridente no churrasco na piscina.

Use o pincel para apagar.

Passou o cursor apenas sobre a imagem do desafeto.

Você realmente deseja eliminar este elemento?



Cly Reis


domingo, 15 de março de 2026

cotidianas #890 - "Fred Astaire"

 



Deu pra escutar
A canção que tocou pra gente
E o meu coração que
De repente
Inventou de sapatear

Ou eu fui louca
E tudo foi um grande engano
E eu faço o plano
E o contraplano
De um filme prestes a acabar

Só pra saber
Nesse tal filme de romance
Antes que o público se canse
Você me beija no final?

Um sim cai bem
Mas não se sinta pressionado
Porque um beijo obrigado
Na tela
Imprime meio mal

Sem problema
Ser figurante da sua história
E, olha, nem força sua memória
Nem nome eu preciso ter

Mas, cuidado
Me deixa no canto da sala
Que se eu tiver alguma fala
Eu mudo pra: Eu amo você


🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬

"Fred Astaire"
Clarice Falcão



Ouça:

domingo, 8 de março de 2026

COTIDIANAS nº889 Especial Dia Internacional da Mulher - "Aviso da Lua Que Menstrua"


 


Moço, cuidado com ela!
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
Cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, moço
Às vezes parece erva, parece hera
Cuidado com essa gente que gera
Essa gente que se metamorfoseia
Metade legível, metade sereia.
Barriga cresce, explode humanidades
E ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
Mas é outro lugar, aí é que está:
Cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita..
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
Que vai cair no mesmo planeta panela.
Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
Transforma fato em elemento
A tudo refoga, ferve, frita
Ainda sangra tudo no próximo mês.
Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
É que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
É que tô falando na "vera"
Conheço cada uma, além de ser uma delas.
Você que saiu da fresta dela
Delicada força quando voltar a ela.
Não vá sem ser convidado
Ou sem os devidos cortejos..
Às vezes pela ponte de um beijo
Já se alcança a "cidade secreta"
A atlântida perdida.
Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
Cai na condição de ser displicente
Diante da própria serpente
Ela é uma cobra de avental
Não despreze a meditação doméstica
É da poeira do cotidiano
Que a mulher extrai filosofando
Cozinhando, costurando e você chega com mão no bolso
Julgando a arte do almoço: eca!...
Você que não sabe onde está sua cueca?
Ah, meu cão desejado
Tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
Então esquece de morder devagar
Esquece de saber curtir, dividir.
E aí quando quer agredir
Chama de vaca e galinha.
São duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
Vaca é sua mãe. de leite.
Vaca e galinha...
Ora, não ofende. enaltece, elogia:
Comparando rainha com rainha
Óvulo, ovo e leite
Pensando que está agredindo
Que tá falando palavrão imundo.
Tá, não, homem.
Tá citando o princípio do mundo!

"Aviso da Lua Que Menstrua"
Elisa Lucinda


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"Aviso da Lua Que Menstrua"
poema-música




sábado, 7 de março de 2026

cotidianas #888 - Pílula Surrealista #62


Os remédios já não faziam mais efeito. Estava certo, minha hora havia chegado. Nada de tristeza ou despedidas, então. Mas claro que algo precisaria ser feito. No meu caso, obviamente, a escolha foi fundar um continente. Mas não pensem que foi fácil. Fazer submergir a antiga Atlântida do fundo do mar usando apenas uma enxada e as mãos exigiu força, as últimas as quais pude oferecer da vida que me resta. Mas, pronto: fundei! Está lá agora, para todos pisarem. E ok, ok, sei que não é necessariamente um continente e nem uma novidade a Atlântida - aliás, em termos geológicos, muito menos novidade que os outros continentes que aí estão. Talvez seja inadequado dizer "fundei". Mas, ora, me permitam esse crédito! O que resta a um homem em fim de trajeto, cujo pulsar, em contagem regressiva, anuncia findar a não muito dali e que mira, com olhos marejados e enevoados, a miragem de um corpo a, pouco a pouco, se desmaterializar? Permitam-me. Até porque, nesse planeta que eu quase deixo, muito pouco há de ineditismo nos descobrimentos, convenhamos. Além do mais, nem Colombo, Marco Polo, Comer, He, Da Conti, Tavernier, Fernão, Cook, Alvarado alcançaram esse feito: mais do que fundar, ressuscitar um continente. É uma ilha, eu sei, mas uma ilha grande. Então, classifico como continente. Vou para a tumba sabendo que aquela terra, submersa em um único dia e noite por cataclismos, venceu, reverteu a arrogância dos antigos atlantes corruptos. A mim, arrogância não é o caso. É apenas merecimento. Ao menos um merecimento. Ao menos uma realização. Ao menos uma glória. Ao menos um continente.


Daniel Rodrigues