Toda noite era a mesma coisa, os cinco comprimidos ali na cabeceira, a cozinha, a água, engolir cada um e dormir.
Aquela noite algo acontecera de diferente. Ao voltar da cozinha havia um comprimido a menos. Pensou que devesse ter deixado cair no chão, procurou rapidamente mas não quis perder tempo com aquilo e pegou o do dia seguinte na caixinha organizadora. Na manhã seguinte varreria o chão, encontraria o remédio e reporia o dia reorganizando a sequência.
No entanto, antes de levar a primeira drágea à boca, percebeu que o copo estava vazio. Não havia enchido? Voltara da cozinha com ele vazio? Que distração a sua.
Bem, à cozinha de novo encher o copo. Abre o filtro, cuidado para não transbordar, ok...
De volta ao quarto. Era tomar os remédios e dormir.
Porém, definitivamente algo estranho acontecia: agora havia um a mais.
Perguntava-se agora se aquele que julgava ter perdido estivera ali o tempo inteiro e não notara.
Devia ser o sono.
Tratou de guardar o excedente e recolocá-lo na caixinha para o dia seguinte, contudo não pode fazê-lo.
O compartimento para o próximo dia já estava ocupado.
Ficou com o comprimido fechado na palma da mão por um instante enquanto olhava para o nada procurando por alguma explicação lógica. Resignado com uma possível confusão, despertou de uma breve recapitulação dos últimos acontecimentos e, de relance, passou os olhos pela mesinha ao lado da cama.
Nada. Não havia mais nenhum comprimido sobre a mesinha.
Bom, em último caso, pelo menos tinha um na mão.
Já sem muita certeza disso, abriu lentamente os dedos e confirmou o que imaginava: não estava ali.
Alguém brincava com ele, alguma coisa brincava com ele, sua memória brincava com ele.
E se não tivesse separado para tomar? E se já tivesse tomado os remédios e não estivesse lembrando?
Já não importava! Pegaria novamente cinco pílulas no estojo, tomaria as respectivas doses da noite e voltaria a se organizar a partir do dia seguinte.
Mas e se já tivesse tomado e não estivesse lembrando? Uma superdose poderia causar confusão mental, alucinações, vômitos, perda de consciência...
Que fosse! Precisava dos remédios. O médico recomendara que não deixasse de tomar.
Abriu a gaveta do criado-mudo a fim de pegar o porta-comprimidos, mas para sua surpresa - ou nem tanto àquelas alturas - o estojo não estava lá.
Tomado por um certo desespero, correu para o banheiro onde sabia que tinha embalagens fechadas dos medicamentos na farmacinha do espelho.
Não pôde deixar de olhar para o próprio rosto desfigurado antes de abrir a portinhola do armarinho. Destravou. Como se o armário do espelho vomitasse sobre ele, uma avalanche de comprimidos brancos o soterrou e inundou o pequeno banheiro. Mal teve forças para colocar a mão para fora da montanha de pílulas que o cobriam antes de perder o sentidos.
Era dia claro e pássaros já cantavam quando voltou a si. Olhou em volta e surpreendentemente o banheiro estava limpo, sem nada pelo chão. Apenas ele.
Abriu a mão, tinha nela um comprimido pressionado com os dedos contra a palma.
Levantou, caminhou até o quarto. No criado-mudo estavam posicionados quatro comprimidos ao lado de um copo d'água pela metade.
Cly Reis

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