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quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

cotidianas #883 - "Feliz Homem Novo"

 

O ano novo se aproximava.

Em casa, cada vez que a esposa falava de sua cada vez mais crescente barriga, Roberto prometia, "Ano que vem eu perco essa barriga. Tu vai ver um novo homem."

No ponto de ônibus, para cada vez que ficava horas esperando o transporte, entrava no coletivo atrolhado e sentia-se apertado como uma sardinha, tinha que sair se espremendo e empurrando todo mundo para chegar na porta para saltar na sua parada, prometia a si mesmo, "Vocês todos vão ver um novo homem no ano que vem. Com carro novo, um carrão, um cara que não vai precisar mais ficar se sujeitando a isso tudo. Vocês vão ver!".

No trabalho, sempre que chegava atrasado e o supervisor o repreendia, Roberto se comprometia, "A partir do ano que vem vou melhorar. Vocês vão conhecer um novo homem".

Deu ano novo...

Na meia-noite, entre fogos, abraços e champanhas, a campainha toca. Roberto, estatelado no sofá nem se prestou a levantar para abrir. A mulher, perguntando aos demais se estavam esperando alguém, vai até a porta e abre. "Beto, você nunca me falou que tinha um irmão!". Roberto meio que abriu os olhos e confirmou, "...não tenho". Quando voltou a cabeça para o hall de entrada, viu a esposa acompanhada de um homem absolutamente igual a ele mas muito mais bem cuidado, bem vestido, tratado e... sem barriga. Ia dizer alguma coisa mas, antes que pudesse completar uma frase, apagou.

Ao despertar, não encontrou ninguém na casa. Teriam ido à praia, viajado para Cabo Frio. Nunca teriam ido sem ele mas, por outro lado, ele nunca teria ido. Nunca queria ir quando a mulher propunha. Talvez por isso agora tivessem tomado uma atitude e o deixado dormindo no sofá. Qual não fora sua surpresa quando ao ligar a TV, pelo noticiário, percebera que já não era a manhã seguinte, o dia primeiro. Havia ficado fora de órbita por três dias! Já era a segunda-feira depois do feriadão, tinha que ir trabalhar.

Vestiu-se, correu, embarcou no ônibus já não tão cheio pelo atraso no horário e meia-hora depois chegava ao escritório. Felizmente não muito atrasado. Na frente do prédio, uma Ferrari reluzente era conduzida à garagem no subsolo por um manobrista. Ficou curioso a respeito de quem teria um carrão daqueles.

Subiu. O ascensorista o olhava de cima abaixo com um olhar de desprezo e desaprovação. Ia se instalar na sua estação de trabalho quando ouviu a voz do supervisor. "Atrasado de novo...". Ia começar a se desculpar quando o superior o interrompeu. "Na verdade, não precisamos mais dos seus serviços". Não abriu a boca. Apenas olhou para o chefe estupefato e intrigado. "Contratamos aquele cara ali", disse apontando para um homem charmoso, alinhado, elegante, na sala envidraçada da chefia. Parecia muito com ele mas... "Por sinal, lembra muito você logo quando chegou aqui; dinâmico, interessado, cheio de vida", reforçou o supervisor. "E tem um currículo muito bom, muito parecido com o seu na verdade, mas a diferença é que na recomendação dele diz que... nunca chegou atrasado", completou sorrindo.

Pegou suas coisas, desceu, pegou o ônibus, chegou em casa, sentou no sofá. Percebeu então algo que não havia notado antes quando saíra de casa correndo: em um porta-retrato, com uma foto dele e da esposa ainda jovens, estava fixado um bilhete. A mensagem era bastante breve e objetiva: "Fui embora, Roberto. Encontrei um homem de verdade".

Um novo ano começara e era tudo novo, exceto ele, Roberto, que era o mesmo antigo sujeito.

cly


quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

ClyBlood#6 - Especial de Natal - "A Invasora", de Alexandre Bustillo e Julien Maury (2007)



Noite de Natal. Há quem prefira a confraternização com parentes e amigos na comemoração do nascimento de Cristo, e os que preferem fugir de toda a agitação , uma espécie de isolamento introspectivo. Sarah até tinha o que comemorar, o filho que estava prestes a chegar, mas por outro lado também tinha motivos para lamentar e refletir. Um acidente de carro levara seu marido mas poupara a ela e ao bebê que levava no ventre. Agora, meses depois, na véspera de Natal, sua opção foi pedir a casa de um amigo, se afastar do resto do mundo, se isolar de tudo, refletir, lamentar uma vida que se fora e esperar pela nova vida que virá. No entanto, uma indesejada visitante viria a lhe perturbar a paz. Uma misteriosa mulher insiste em entrar na casa e, depois de ardilosamente conseguir, faz do retiro natalino de luto de Sarah, uma verdadeira noite infeliz. A todo custo, sem limites, sem piedade, a invasora tenta, com todos os recursos possíveis, matar aquela mulher grávida. O resultado dessa caçada dentro de uma casa suburbana francesa é um banho de sangue e brutalidade num nível quase insuportável.

Representante do chamado Novo Cinema Extremo Francês, "A Invasora", não se preocupa em poupar o espectador de cenas chocantes, desconfortáveis e perturbadoras. O ataque a uma mulher grávida, indefesa, leva inevitavelmente o espectador à questão do por quê alguém agiria daquela maneira selvagem, incontrolável, irascível contra uma pessoa tão vulnerável? E sem levar minimamente em consideração o fato de sua vítima estar carregando em seu ventre um inocente! E o pior ainda: ter esse ser indefeso que nem nasceu também como alvo.

O motivo? Seria spoiler contar se existe um motivo ou não e qual seria ele. Não cometerei essa canalhice com meu leitor. O que posso dizer é que independente da razão, se existe, se é justificável ou não, essa invasora proporciona ao fã do terror uma das caçadas mais cruéis que já se viu no cinema, indo até o limite total de suas forças, possibilidades, armas, condição física, para atingir seu objetivo.

Uma das minhas vilãs preferidas do cinema. Béatrice Dalle, a eterna Betty Blue, aqui determinada, impiedosa, implacável, imparável! Se é pra ser má, se é pra cumprir o que se propôs, não é pra ter mimimi. E com essa invasora anônima de Natal, não tem mesmo. 

Ela, a misteriosa assassina, não vai desistir até dar um fim na pobre grávida
que só queria um pouco de paz interior na véspera de Natal.


Cly Reis

🔪🔪🔪🔪🔪🔪🔪🔪🔪🔪🔪

"A Invasora"
título original: "À l'intérieur"
direção: Alexandre Bustillo e Julien Maury
elenco: Alysson Paradis, Béatrice Dalle
gênero: horror, terror psicológico, gore
duração: 78min.
país: França
ano: 2007
onde assistir: MUBI, TV Macabra e YouTube

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

cotidianas #881 - O Final da Escada Rolante

 


Um, dois, três, quatro... Os degraus iam se aproximando da borda da escada rolante e um a um sendo engolidos naquela mínima fresta final. Quando pequeno tinha medo de permanecer no degrau até o último instante e ser puxado para dentro da escada rolante. Por outro lado, tinha a curiosidade sobre o que aconteceria: eu seria esmagado e um chafariz de sangue espirraria nos passageiros que viessem atrás de mim? Seria prensado como nos desenhos animados e sairia achatado como uma panqueca pelo outro lado ? Ou haveria lá embaixo, do outro lado, um mundo inverso onde tudo seria o contrário do plano onde vivemos?

Nunca quis tirar a prova. Ficava na expectativa da chegada dos degraus à borda; um, dois, três, quatro degraus... e dois antes do meu, eu já pulava para a beirada na parte firme.

Só agora, depois de adulto, homem feito, é que consegui racionalizar o suficiente a situação para encarar o final de uma escada rolante.

Decidi superar meus medos e ir até o final. Permanecer no degrau até o último instante, até a borda segura, até  que o degrau metálico se encolha e escorregue suavemente por baixo daquela abertura dentada desencontrada.

Preferi enfrentar algo tão traumático com o máximo de discrição possível. Fui à noite a um shopping center, desses com longas e lentas escadas rolantes. Permaneci até o horário de fechamento, esperei saírem os espectadores das últimas sessões de cinema, me escondi no banheiro de onde ouvi os avisos finais para que todos deixassem o estabelecimento, confundi a atenção dos vigias e, com o shopping deserto, me postei diante da borda fixa de um daqueles aterrorizantes monstros mecânicos. Não sei bem porquê, escolhi a descida. Talvez para poder visualizar meu destino final.

Respirei fundo, me concentrei. Hoje eu vou até o final, até o último degrau. Sem tirar o pé. Nada pode acontecer.

Minha determinação, no entanto, foi interrompida por uma voz vindo lá do fundo do shopping. Um dos seguranças da noite me vira. "Ô, aí. Que que você faz aqui dentro ainda? Não pode ficar ninguém!", gritou.

Era agora ou nunca. Tinha que aproveitar minha decisão, minha coragem. Não poderia deixar para outro dia. Do local onde ele estava, a alguns corredores de distância, mesmo que corresse, provavelmente, daria tempo para minha descida toda antes que chegasse até mim. Dei um passo à frente e botei o pé no degrau que surgia por baixo do chão firme. Comecei a ser levado pela escada para baixo, para baixo, para baixo... Lá no final os degraus iam sumindo um a um por baixo do chão. Faltam quatro, três, dois, um...

*******************

Estalos repicavam pelo piso, do contato apressado da sola do sapato do vigia no reluzente granito cinza do shopping center. A esforçada corrida do obeso vigia não fora rápida o suficiente para impedir que o homem à beira da escada embarcasse nela. Era tarde. Estava a uns dez passos ainda e a cabeça do intruso já sumia no horizonte do segundo piso.

Sacou o rádio. "O Corrêa, tem um cara descendo pro primeiro de rolante. Pega ele aí embaixo que ele ficou aqui dentro depois de fechar. Copiou?". "

Quando finalmente chegou, ofegante, na beira da escada, no andar de cima, não encontrou nem rastro do último cliente. Nada.

Não demora nada e chega o Corrêa de braços abertos com cara de quem não entendeu nada. "Não passou ninguém por aqui", disse.

Deram de ombros e voltaram para suas respectivas rondas. "Fica de olho", disse o de cima. Se estivesse lá dentro, iriam encontrá-lo até o amanhecer.

Tudo estava quieto novamente. Apenas o rangido mecânico abafado das escadas rolantes quebrava o silêncio da madrugada. Algo parecido com um doloroso gemido.


Cly Reis

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Zumbi - Senhor das Guerras, Senhor das Demandas



Zumbi - Senhor das Guerras, Senhor das Demandas - REIS, Cly
arte estilo HQ inspirada na canção "África Brasil (Zumbi)", de Jorge Ben


Ouça: África Brasil (Zumbi) - Jorge Ben

Zumbi,
Senhor das Guerras,
Senhor das Demandas
arte: Cly Reis

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Clyblood #4 - "Terrifier", de Damien Leone (2016)



Voltando de uma festa de Halloween, duas garotas já um tanto 'altinhas' no álcool, resolvem comer alguma coisa antes de pegar o carro para voltar para casa na madruga. Numa pizzaria topam com um tipo bizarro fantasiado de palhaço carregando um saco plástico de lixo. Mas, ora, é noite de Halloween e o que não falta são tipos esquisitos e fantasias assustadoras, não é mesmo? Uma delas mais bêbada brinca com o esquisitão, zomba dele, tira selfie e tudo mais, enquanto a outra, amedrontada, desconfia que haja alguma coisa de errado com aquela figura.

Intuição correta, baby! Aquele palhaço monocromático estará dali a alguns instantes naquela pizzaria dando início à sua noite de terror, sangue e brutalidade. E elas, as duas, serão suas principais vítimas.
"Terrifier" (2016) marca o início oficial da saga de um dos novos ícones do terror, o brutal e sádico slasher Art, O Palhaço, possivelmente o mais selvagem, violento, cruel, desumano, bárbaro, perverso personagem do cinema de horror já visto nos últimos tempos. Art não tem limites, não tem remorso, não tem pena, brinca, se diverte com a dor, com o sofrimento da vítima, debocha e gargalha silenciosamente ao melhor estilo de um mímico enquanto pratica suas maiores atrocidades.
É sinistramente criativo, é original em suas execuções, tem uma ampla coleção de instrumentos em seu saco de lixo e os usa com liberdade e variação conforme a necessidade, a conveniência ou a intensidade da maldade pretendida.
"Terrifier" tem algumas das cenas mais chocantes que já vi na vida e, mesmo depois, já tendo assistido às outras duas sequências da franquia cujo autodesafio desafio do diretor era exatamente o de superar a violência de sua primeira obra, ele continua sendo o mais impressionante nesse sentido. A parte em que o palhaço simplesmente corta uma das garotas que está dependurada nua de cabeça para baixo e de pernas abertas, da vagina até cabeça, é ainda hoje, para mim uma das coisas mais terríveis que um filme de terror já me apresentou.
As sequências "Terrifier 2" e "Terrifier 3" têm, sem dúvida, coisas absurdas, cenas de fechar os olhos, de virar o rosto, mas, na prática, embora até tenham roteiros mais elaborados, mais elementos,  mais personagens, são meros exercícios de superação daquilo que foi tão impressionante a ponto de ser sempre lembrado quando o assunto é violência extrema e tornar-se uma referência de algo a ser batido. Podem até superar por condições técnicas, orçamento, novas ideias, mas o que fez brotar esse anseio dos fãs do splatter em ter sempre mais e mais e mais, mais sangue, mais tripas, mais brutalidade, foi o primeiro longa do perverso palhaço mímico preto e branco. É mais limitado, mais curto, tem pouca história, pouco desenvolvimento... pode ser. Mas, queira ou não, a 'semente do mal' foi semeada por Terrifier.

Que bonitinho o palhacinho, né, moça? Só que não! 
E esse será o início de uma noite aterrorizante...



Cly Reis

🎃🎃🎃🎃🎃🎃🎃🎃🎃🎃🎃

"Terrifier" (ou "Aterrorizante")
título original: "Terrifier"
direção: Damien Leone
elenco: Jenny Kennel, Catherine Corcoran, Samantha Scaffidi e David Howard Thornton
gênero: gore, splatter, slasher
duração: 85min.
país: Estados Unidos
ano: 2016
onde assistir: Prime Video e YouTube
assistir: "Terrifier"







sábado, 25 de outubro de 2025

cotidianas #877 - A Casa em Movimento

 



Pé ante pé
Desceu as escadas
Olhou na cozinha
Nada

Foi colocar o pé no corredor
que a voz sumiu

Um passo
uma batida pesada
Os dois olhos na porta da entrada

Curioso

Botou a cabeça pra fora da janela.
Ficou sem ela.



Cly Reis

sábado, 18 de outubro de 2025

Museu da República - Rio de Janeiro/RJ

 

Visitar o Rio de Janeiro, o que fazemos geralmente uma vez ao ano, sempre rende bons passeios. Mas desta vez dá pra dizer que os passeios foram menos in do que outdoor. Afinal, foram as feiras de rua que nos mobilizaram bem mais do que as exposições ou atividades e lugares fechados.

Além das feiras do Beco do Pinheiro, no bairro das Laranjeiras, e a da Glória, que se agigantou em tamanho do ano passado para cá, estivemos duas vezes em feirinhas no Museu da República, que abriga o Palácio do Catete, o famigerado e histórico prédio onde Getúlio Vargas tirou a vida nos idos de 1954.

Mas os passeios por lá nada tem a ver com episódios trágicos e remotos. Pelo contrário. Foram agradáveis momentos em que pudemos conferir quiosques de roupas, acessórios, souvenires, bijus, comidinhas, cerveja artesanal, mas principalmente, estar na natureza e ver gente. Famílias, amigos, casais, crianças, idosos, jovens. De tudo, e sempre com muita gente, essa coisa admirável do Rio, que é de as pessoas aproveitarem a rua.

Show gostoso de MPB
com Fhernanda Fernandes
Numa dessas duas idas ao Museu da República, Leocádia e eu tivemos a companhia de minha mãe, Iara, e de meu irmão e coeditor desse blog, Cly Reis, quando foi possível conferirmos a feira Brasilidades. Além de tudo isso que já descrevi e do belo paisagismo do enorme pátio deste antigo palácio, tinha ainda música ao vivo. E boa música, diga-se de passagem! Com um repertório de bom gosto, a veterana cantora e violonista Fhernanda Fernandes desfilou clássicos da MPB juntamente com um baterista. Teve de Zeca Pagodinho ("Deixa a Vida me Levar") a Beth Carvalho ("Andança"), de Elis Regina ("Vou Deitar e Rolar") a Isolda ("Outra Vez"), de Paulinho da Viola ("Pecado Capital") a Dona Ivone Lara ("Alguém me Avisou") e maus um monte de boas músicas.

Confiram aí então, um pouco do que registamos desses dois domingos de passeio pelas feiras do Museu da República:


🌴🌴🌴🌴🌴🌴🌴🌴🌴🌴🌴


Feira entre as palmeiras imperiais do Museu da República


Muita gente curtindo a feira a céu aberto


Os patinhos no lago do chafariz


Mais famílias aproveitando...


...e mais feirinha


Click das clicks


Uma panorâmica da feira 
do Museu da República


Admirando o belo paisagismo do local


Nós curtindo a feira num dos finais de semana
...


...e no seguinte, com a faamily



Daniel Rodrigues

sábado, 11 de outubro de 2025

cotidianas #875 - Crianças

 



- Mãe, mãe, vem ver o bicho estranho que a gente achou lá na grama. - veio uma das crianças anunciando num misto de pavor e entusiasmo.

- Nem é bicho, - corrigiu a loirinha de rabo de cavalo que o seguia correndo. - É uma flor, idiota!

- Não fala assim com o amiguinho, Valentina.

- Não é nada! É tipo, uma coisa, um 'enseto'. Vem ver, mãe, vem. - insistiu o garoto tentando levantar a mãe pela mão.

- Ai, Rique, não me incomoda! Deixa a mamãe, deixa. A gente tá aqui conversando. Vai lá com a Valentina ver o bichinho. Deve ser só um insetinho, filho. Vai lá, vai.

- Mas mãe, é uma coisa estranha. É  diferente, é grande, tem umas antenas parece uns galhos, meio que brilha... - insistiu agora agarrando a mãe pela manga do casaco.

- Rique, para! Que coisa chata! - dessa vez dando um breve safanão no braço do menino.

O garoto, conformado e chateado, desistiu e saiu emburrado fazendo beiço e convocando a amiga a segui-lo.

- Ai, essas crianças. Às vezes a gente acaba meio que perdendo a paciência... - suspirou, justificando a reação mais brusca.

- Ah, às vezes nos enlouquecem. - concordou a outra.

As duas continuaram ali no banco do parquinho com sua habitual conversa trivial sobre comidas, roupas, novelas, seguro do carro e outras coisas corriqueiras.

Naquela noite, seus filhos e todas as outras crianças da vizinhança que estiveram na pracinha do bairro, estáticas, em pé, ao lado de suas camas, fitavam seus pais com olhar vazio e sem vida. Pareciam apenas aguardar alguma espécie de ordem.


Cly Reis 

domingo, 5 de outubro de 2025

Trem das Onze







"Trem das Onze" - REIS, Cly
ilustração digital, estilo poster de cinema,
inspirada na canção "Trem das Onze"
de Adoniran Barbosa





'Trem das Onze'
Cly Reis


quarta-feira, 24 de setembro de 2025

sábado, 20 de setembro de 2025

Dia do Baterista: os melhores na opinião dos bateristas (e não-bateristas também)

Tem uma história envolvendo bateristas, que traduz a magia desse instrumento. Antes do histórico show da Rolling Stones em Porto Alegre, em 2016, os integrantes da banda Cachorro Grande, minutos antes de terem a honra de abrir a apresentação para os ídolos, interagiam no camarim com Mick Jaeger, Keith Richards, Ron Wood, banda e, claro, também com o saudoso baterista Charlie Watts. 

Conversa vem, conversa vai, até que Charlie é apresentado a Gabriel Azambuja, baterista da Cachorro Grande. Imediatamente identificado com o colega brasileiro, o lendário baterista disse-lhe de forma deferente e do alto de sua experiência com seu elegante inglês: "Nunca se esqueça que você é o coração da banda".

É esse coração sonoro que se celebra hoje, dia 20 de setembro. O Dia do Baterista, data escolhida para homenagear os donos das baquetas, seja no rock, no jazz, no blues ou na música brasileira. Porque, sim, junto a grandes mestres do instrumento, temos também brasileiros, reconhecidos internacionalmente desde os anos 60. E tem elas também, as bateristas, menos lembradas, mas igualmente importantes, como Viola Smith, a mais rápida do mundo, Moe Tucker, a mais moderna, Cindy Santana, virtuosa e versátil, ou Karen Carpenter, fera também com as baquetas. 

Como sabiamente sugeriu Charlie Watts, bateria não é apenas uma mera “cozinha” ou acompanhamento da guitarra. Nossos convidados – alguns bateristas, outros não, mas todos apreciadores da boa música e da contribuição dos donos do ritmo – foram convocados para listarem seus bateristas preferidos. Mas numa coisa todos são unânimes: eles sabem que bateria é mais do que bumbo, caixa, surdo, tom-tom e pratos. 

Alguns nomes escolhidos são diretamente ligados a bandas/artistas, como Stewart Copeland e Jorginho Gomes; outros, ícones ou “free lancers”, o nome fala por si, como Steve Gadd e Max Roach. Mas todos craques na sua arte. E é por eles que a música pulsa.

Os editores

🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶

Cláudio Mércio
Jornalista e baterista

Glenn Kotche (Wilco) 
Ian Paice (Deep Purple) 
Ginger Baker (Cream) 
Stewart Copeland (The Police) 
Budgie (Siouxsie & the Banshees)




Márcio Pinheiro
Jornalista e escritor

Max Roach
Roy Haynes
Elvin Jones
Dannie Richmond
Steve Gadd





Carlos Gerbase
Jornalista, cineasta e baterista

Clem Burke (Blondie)
Charlie Watts (Rolling Stones)
Biba Meira (Defalla)
Hugo Burnham (Gang of Four)
Cleber Andrade (Os Replicantes)




Rodrigo Coiro
Publicitário e baterista

Neil Smith (Alice Cooper Group)
Robert Erikson (The Hellacopters)
Buddy Rich 
Dennis Thompson (MC5)
Marky Ramone (Ramones)





Eduardo Wolff
Jornalista e baterista

Ringo Starr (The Beatles)
Keith Moon (The Who)
Don Brewer (Grand Funk Railroad)
Jo Jones
Ginger Baker




César Castro
Baterista

John Morello
John Bonhan
Billy Cobham
Airto Moreira
Jorginho Gomes (Novos Baianos)





André Abujamra
Músico multi-instrumentista

Kuki Stolerski
Carneiro Sandalo
James Muller
Claudio Tchernev
Jonh Bohan





Daniel Rodrigues
Jornalista, escritor, radialista e blogueiro

John Bonham
Tony Williams
Budgie
Elvin Jones
Martin Atkins (P.I.L.)
(extra: Jaki Liebezeit - Can)




Cly Reis
Arquiteto, cartunista, artista visual e blogueiro

John Bonham
Keith Moon
Stewart Copeland
Ginger Baker
Budgie
(extra: Martin Atkins)




Paulo Moreira
Jornalista e radialista (in memoriam)

Steve Gadd
Art Blakey
Edison Machado
Tony Williams
Elvin Jones





sábado, 13 de setembro de 2025

cotidianas #873 - O Condenado




A grade corrediça arrastou para o lado e o corredor se abriu à sua frente.
Era um longo caminho até sua cela. 
Com as mãos algemadas às costas, escoltado pelo carcereiro, o verme pulha canalha pusilânime percorreu aqueles não mais que 40 ou 50 metros sob vaias, piadas, xingamentos e ameaças das celas nas galerias laterais. Aquela distância parecia de quilômetros, aquele minuto, uma eternidade. A cabeça baixa não conseguia esconder os olhos vermelhos.
Ele, sempre tão valente, agora chorava como uma criança.
Finalmente pararam. 
A grade corrediça arrastou para o lado e a cela se abriu à sua frente.
O carcereiro retirou as algemas e, levando a mão às costas do patife safado escroto covarde, o empurrou para dentro do cubículo de mais ou menos 9, talvez 12 metros quadrados. Dos beliches,  dois outros presos, futuros parceiros de quarto, o encaravam com olhar de ódio, desejo, malícia, sede, ameaça.
Aquilo tudo parecia um pesadelo mas o pesadelo parecia muito real. Os olhos do condenado não conseguiam esconder o pavor.
Ele, antes tão machão, agora gritava como uma 'mulherzinha', como ele mesmo teria definido.
De repente acordou.
Tinha sido só um sonho mesmo!
Um sonho ruim.
Mas... aquela não era sua casa...
Ainda despertando, sem se situar bem, percebeu que era enlaçado por um braço.
Não era o de sua esposa.
Era um braço negro, cheio de pelos que o puxava suavemente de encontro a um corpo suado que repousava deitado às suas costas.
Quis gritar mas só emitiu uma espécie de grunhido abafado.
Sentiu um respiração quente no pescoço, ouviu um ronronar pertinho do ouvido e, do beliche de cima, recebeu uma bronca acompanhada de um palavrão reclamando do barulho àquela hora atrapalhando o sono dos outros.
Quis chorar mas engoliu o choro e, encolhido, apenas soluçou baixinho.
Aquela era apenas a primeira noite.
A noite parecia interminável, aqueles anos ali dentro seriam uma eternidade.


Cly Reis

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

terça-feira, 12 de agosto de 2025

cotidianas #871 - A Varredeira

 





Todos os olhos em cima dele. Foi exatamente o que Tino percebeu assim que entrou na modesta mercearia do lugarejo. A indelicadeza não chegou mesmo a incomodá-lo uma vez que tinha para si ser aquilo apenas a reação inicial dos locais em relação ao morador novo na cidade. Era a novidade, afinal.

Deu um bom dia geral, não respondido por ninguém e seguiu para os corredores do estabelecimento, na verdade apenas dois, e começou a colocar coisas em seu cesto de compras. Pegou alguns itens que precisaria pelo menos para os primeiros dias na nova casa e dirigiu-se ao caixa. Uma velhota com cara de desconfiada, com muito má vontade, foi tirando os produtos da cesta de vime e os empacotado nos sacos de papel. Finalizou, anunciou o preço, recebeu o pagamento e antes que o cliente saísse, perguntou:

- O senhor é o novo morador da casa da estrada, não  é?

- Sim, sou eu mesmo, confirmou Tino   com um sorriso, não correspondido por sinal.

Os demais, um homem magro grisalho com um chapéu de palha, uma senhora de meia idade num surrado vestido azul, e um velho esquisito mascando fumo, se entreolharam de modo enigmático.

Sem saber como reagir ao silêncio cúmplice dos moradores, Tino comentou como complemento:

- É uma boa casa, uma bela casa... Pena é aquele monte folhas que caem da árvore da frente. Fica sempre daquele jeito? Ontem quando chegamos estava assim de altura ali na frente. A propósito, eu e minha esposa queríamos agradecer pela limpeza. Agradecer a quem tirou tudo aquilo de lá. Vocês saberiam me dizer quem foi? Pra eu dar, tipo, uma recompensa, uma diária, algo assim...

As pessoas se olharam novamente, agora de maneira ainda mais tensa.

- Saia daqui, saia... Vá, vá embora. - ordenou a velha do caixa um bastante alterada.

Embaraçado e não entendendo bem o que se passava, Tino simplesmente deixou a loja carregando suas mercadorias.


*************


"Varredeira?", quis confirmar Tino sem certeza de ter entendido bem a história e a alcunha da personagem.

- Exatamente. - confirmou o padre a quem encontrara na praça, por acaso, no dia seguinte à bizarra visita à quitanda local.

- Era a empregada de um casal que morou naquela casa, na sua casa. - continuou o pároco - Sempre que a frente da casa ficava cheia de folhas, ela varria e deixava tudo limpinho, perfeito, como se nenhuma folha tivesse caído. E quando a natureza insistia em cumprir seu ciclo de queda, de troca, ia lá ela de novo, pacientemente varrer tudo novamente e deixar a entrada da casa impecável. Não importava quantas vezes tivesse que fazer naquela estação.

- Então foi ela quem limpou? - precipitou-se o novo dono da casa - Eu teria o maior prazer em pagar a ela o serviço...

- Não, não. Impossível. - retrucou o padre.

- Por que? Ela não aceita dinheiro? Como poderia...?

- Não, não é nada disso. - interrompeu o sacerdote - Ela está morta. Enforcou-se exatamente naquele árvore. No carvalho da frente da casa.

Vendo a expressão de incredulidade do morador, padre João tratou de completar a história.

- Ao que se sabe ela tivera um... relacionamento, um caso com o patrão. Quando a esposa descobriu, ameaçou deixá-lo, e para evitar isso ele não só acabou o caso com a moça como, e  claro, a despediu. Não suportando a decepção, o desgosto, a perda do emprego, o término com o amante, tudo, na manhã seguinte à dispensa ela... bem... foi encontrada dependurada num galho de fronte à casa.

Tino estava estupefato. Ninguém havia comentado nada daquilo quando comprara o imóvel.

- Então foi por isso que aquelas pessoas estavam agindo daquela maneira comigo no mercado?

- São supersticiosos, entenda.

- Mas eu não tenho nada a ver com isso e, de todo modo, não fui eu que tirei as folhas. Por sinal, ainda não sei quem foi. Foi alguma 'brincadeira' de boas-vindas?

- Não, o caso é exatamente esse... Como eu disse, são supersticiosos...

- Mas o que então?

- Há uma lenda, uma crença, histórias... Dizem que, desde que morreu a Varredeira volta para limpar a frente do terreno quando há alguém morando lá. Que ela não permite que qualquer casal viva lá por causa do que aconteceu com ela. O que dizem é que atormenta os casais até que decidam ir embora E se não vão... ela...

- Mas isso é uma grandiosa bobagem!

- Eu também acho. - confirmou o padre constrangido - São coisas que o povo acredita. Coisas que falam por aí.

- De qualquer forma, vivo muito bem com a minha esposa e não tenho a menor intenção de sair de lá por causa de uma crendice absurda.


*****************


Diana estava estranha ultimamente. Às vezes a flagrava catatônica com o olhar parado fixando o nada. Dizia que andava distraída ultimamente. Outro dia, ao acordar, surpreendeu-se com a esposa parada com uma faca, em pé, ao lado da cama. Perguntada sobre o que fazia ali com aquilo na mão, limitou-se a responder que fora até o quarto para saber o que o marido ia querer para o almoço. Suas atitudes começaram a assustá-lo. Agora tinha acessos de fúria por coisas banais mas que passavam rapidamente, logo voltando a ser a doce esposa de antes. Certo dia, não a encontrou dentro da casa. A procurou no quarto, no pequeno ateliê, no porão, vasculhou toda a casa até que, ao passar pela sala de jantar, a avistou na rua, em frente à casa, sob a árvore. Varrendo folhas.


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Os arquivos municipais eram bastante pobres. De um modo geral seu conteúdo se resumia a documentos de posse, transferência, certidões, mapas, coisas de prefeitura. Havia alguma coisa que outra sobre eventos acontecidos na cidade como registros de antigas de inaugurações, bailes, quermesses, e ainda menos notícias sobre moradores. "Família Mello faz doação significativa para a paróquia", noticiava um jornal de quase 100 anos atrás, "Incêndio destrói galpão do Depósito Sul", contava outra edição mais recente, "Resgatada criança caída no poço da mina", dizia outra manchete. Mas dentre aquelas parcas trivialidades de cidade pequena eis que, "Tragédia: mulher é encontrada enforcada em frente à própria casa". E o corpo da notícia ainda completava, "esposa de engenheiro recém chegado à cidade...", ou seja, era outra, não se tratava da serviçal. E três anos depois: "Morte na casa da Estrada Velha", a notícia prosseguia, "Mary Gomez, esposa do médico Andres Gomez, foi encontrada enforcada, dependurada em uma corda na árvore localizado em frente à casa do casal. Indícios iniciais parecem sugerir suicídio mas as investigações devem ser aprofundadas nos próximos dias". E oito anos depois, "O Mistério da casa da árvore: nova morte por enforcamento no carvalho dianteiro à propriedade da Estrada Velha mexe com a imaginação da população e traz à tona crendices e antigas histórias". "A Lenda da Varredeira - a história da empregada desprezada que teria tirado a própria vida e que estaria assombrando a casa abandonada da Estrada Velha", relembrava de forma jocosa um colunista numa seção de curiosidades de uma edição mais recente, de dois anos antes da compra da propriedade pelo atual casal.

Tino não acreditava nessas coisas mas tinha que admitir que a sucessão de acontecimentos semelhantes, a coincidência, começava a mexer com sua cabeça.


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Era final de outono, as árvores quase nuas não deixavam dúvidas do período da estação. Era hora de trocar a cobertura da copas e as folhas que dariam lugar às novas se acumulavam no chão entre as ruas, na praça e em frente às casas. Exceto em frente à velha casa da estrada onde a calçada permanecia límpida, imaculada, perfeita. Em um largo galho do carvalho imponente que se projetava diante do casarão, o corpo de uma mulher jazia suspenso, balançando com o vento que antecipava o inverno.




Cly Reis