Tem encontros artísticos que a gente para pra pensar e se
admira: “como que isso não aconteceu antes?!”. No caso de André Abujamra e
Marcos Suzano, dois craques da música brasileira, até já havia ocorrido, mas
não com a intensidade e inteireza que o novíssimo projeto Torakutan
apresentou-nos em um inspiradíssimo (e inédito!) show em Porto Alegre, durante
a programação do Porto Verão Alegre 2026. Perfeitamente sintonizados em seus
estilos, referências e, principalmente, liberdade artística, Abu e Suzano
fizeram do palco do Simões Lopes Neto um altar de criatividade e musicalidade,
improvisando e inventando, ali mesmo na hora, vários números, mesmo quando
havia algum “roteiro”.
Sempre bem-humorado, o “Mulher Negra”, o “Homem Bruxa”, o
Karnak ou seja lá o que se queira creditar a esse artista especial, Abu - a quem conheci anos atrás em Gramado e que virou um amigo desde lá - conversou e interagiu com a plateia o tempo todo, entre os números e, às vezes,
durante os mesmos. Suzano, menos falante mas muito simpático, largou observações que também tiraram risos da galera. Usando programadores digitais (que conseguem gravar na hora
e sequenciar os acordes tocados, mantendo a base das músicas) e poucos
instrumentos (Abu: guitarra, piano e flauta chinesa, e Suzano: uma diversidade
de instrumentos percussivos, tanto físicos quanto eletrônicos), eles começaram
executando o que se pode chamar de “Intro Torakutan”, um show de improvisação
que já deu a noção do que viria.
Vieram, na sequência,
a delicada “Pangea”, do repertório de Abujamra, com sua tradicional poesia
humanista-universalista (“Antigamente o continente era colado/ A África ficava
aqui do lado/ Angola, Senegal/ Coladinho no Candeal”). No primeiro “improviso
maluco” da noite, conforme Abu anunciou, ouviu-se de ritmos nordestinos e
africanos a trance music! Outra linda de Abu, sobre a perda de sua mãe, “O Mar”
(presente no álbum “Omindá”, de 2018), foi tocada com alto grau de emoção,
visto que ela, no passado, conheceu seu pai, o ator e diretor de teatro Antônio
Abujamra, justo em Porto Alegre, de onde vem parte de sua família – na plateia
estavam presentes diversos parentes de Abu, inclusive o diretor e idealizador
do festival, o ator Zé Victor Castiel, seu primo. Mas tinha ainda mais: Abu
contou que, quando apresentou a letra da música para seu pai, este, sincero e
mordaz como era, não gostou do que leu. Porém, dias depois, foi ele quem
faleceu. A música, onírica e profunda: diz assim em seus versos: “O
mar é como a vida, o mar/ Que tá calmo e no outro não”.
Na sequência, foi a vez de Suzano trazer uma de seu
repertório, a malemolente “Desentope Batucada”, do seu disco solo “Sambatown”,
de 1996. Nesta foi uma das vezes em que pudemos ouvir o pandeiro de Suzano, que
vale por uma escola de samba inteira. Mais um “improviso maluco”, agora com a
participação efetiva do público. Abu pediu para que três pessoas da plateia
dissessem cada uma alguma palavra. Saíram: “lucidez”, “panela” e “amor”, que,
juntas, viraram o título do xote criado na hora, inclusive a própria letra,
feita por outra pessoa da plateia a pedido do artista via IA no celular. A
música resultante, embora um pouco errática em algumas horas, saiu legal, além
de engraçada, sonora e filosófica, visto que coloca todos diante da dicotomia analogia
x digital.
Com maravilhas de improvisos desses dois feras entre as
músicas (como no duelo de baião entre guitarra e pandeiro, um dos momentos mais
aplaudidos), rolou ainda uma música-tema da “terceira maior big band do mundo”
(afinal, Os Mulheres Negras é conhecido por ser a segunda), “Torakutan”, uma
versão diferente de “Porquá Mecê”, também do repertório dos tempos d’Os Mulheres,
e a crítica “Mendigo”, que Suzano disse ter ficado impressionado quando ouviu
pela primeira vez, em 2015, no disco “Homem Bruxa”, de Abu.
Para encerrar, mais improvisação e a brilhante “Espelho do Tempo”, noutro momento carregado de emoção, pois é uma peça que fala da ancestralidade e escrita por Abu para seu pai. “O presente é o reflexo do passado/ E o futuro é o reflexo do presente”. Versos bastante simbólicos estes para finalizar um show em que se vê dois artistas à frente de seu tempo. Entre a brincadeira e a poesia, Abu diz que a palavra “Torakutan”, quer dizer, em algum dos vários idiomas nos quais brinca de traduzir, “farol de luz”. Vimos dois deles no palco.
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| A dupla começa o show no Simões Lopes Neto! |
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| Abu: uma cabeça rara |
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| Suzano: craque da percussão |
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| Torakutan em ação |
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| Aplausos e mais aplausos ao final |
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| Nós no camarim com o amigo Abu |
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