

Os remédios já não faziam mais efeito. Estava certo, minha hora havia chegado. Nada de tristeza ou despedidas, então. Mas claro que algo precisaria ser feito. No meu caso, obviamente, a escolha foi fundar um continente. Mas não pensem que foi fácil. Fazer submergir a antiga Atlântida do fundo do mar usando apenas uma enxada e as mãos exigiu força, as últimas as quais pude oferecer da vida que me resta. Mas, pronto: fundei! Está lá agora, para todos pisarem. E ok, ok, sei que não é necessariamente um continente e nem uma novidade a Atlântida - aliás, em termos geológicos, muito menos novidade que os outros continentes que aí estão. Talvez seja inadequado dizer "fundei". Mas, ora, me permitam esse crédito! O que resta a um homem em fim de trajeto, cujo pulsar, em contagem regressiva, anuncia findar a não muito dali e que mira, com olhos marejados e enevoados, a miragem de um corpo a, pouco a pouco, se desmaterializar? Permitam-me. Até porque, nesse planeta que eu quase deixo, muito pouco há de ineditismo nos descobrimentos, convenhamos. Além do mais, nem Colombo, Marco Polo, Comer, He, Da Conti, Tavernier, Fernão, Cook, Alvarado alcançaram esse feito: mais do que fundar, ressuscitar um continente. É uma ilha, eu sei, mas uma ilha grande. Então, classifico como continente. Vou para a tumba sabendo que aquela terra, submersa em um único dia e noite por cataclismos, venceu, reverteu a arrogância dos antigos atlantes corruptos. A mim, arrogância não é o caso. É apenas merecimento. Ao menos um merecimento. Ao menos uma realização. Ao menos uma glória. Ao menos um continente.
Daniel Rodrigues
Nenhum comentário:
Postar um comentário