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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Miles Davis - "Tutu" (1986)




"Em ‘Tutu’, cada faixa foi criada pensando na voz dele. Miles nunca era algo incidental na faixa, tentando encaixar o trompete. O som de Miles guiou tudo."
Marcus Miller

Tornar-se um artista icônico e produzir obras-primas tem seus preços. Um desses fardos é a auto-comparação, que pode levar, em alguns casos, a obscurecer outras obras não menos apreciáveis do mesmo artista. No cinema, um exemplo clássico é a trilogia “O Poderoso Chefão”, de Francis Ford Coppola. Lado a lado com os dois primeiros da série, marcos da história do cinema, o terceiro filme, embora obviamente menor que seus antecessores, é excessivamente desqualificado pela crítica. Copolla até hoje paga por essa injustiça, pois “Chefão 3” é, se não tão revolucionário, bastante apreciável.

Na música, não são poucos os casos em que um artista paga pela própria qualidade. Miles Davis, gênio do jazz e da música mundial, que completa 100 anos de seu nascimento em 2026, sofreu com isso. Não é para menos. Em cerca de quatro décadas, ele foi protagonista de algumas das principais revoluções do jazz, do be-bop ao cool, do hard-bop ao modal, do fusion ao jazz-rock, do funk ao hip-hop. Talvez por isso, “Tutu”, álbum lançado por Miles em 1986, não seja listado junto de outros discos célebres do artista como “Kind of Blue”, “Birth of The Cool”, “In a Silent Way” e “Miles Ahead”. Porém, “Tutu” (que também está de aniversário, 40 anos) é, inegavelmente, um dos melhores trabalhos da longa discografia do mestre, com uma sonoridade que une, com a sofisticação que lhe era característica, o jazz-funk, o fusion e o electro-pop.

Uma das características mais apreciáveis em toda a carreira de Miles, além de sua inteligência, liderança e qualidade musical, era sua capacidade de se reinventar. Em “Tutu”, com a devida ajuda de Marcus Miller e outros músicos tarimbados – entre eles, o craque da soul-jazz George Duke –, ele age como um verdadeiro veterano sábio: deixa que os outros trabalhem pra ele e entra só na hora certa. Só quando é imprescindível: com o toque inconfundível e hipnotizante de seu trompete, a cereja do bolo. Totalmente instrumental e com praticamente todas as composições de autoria de Miller – que também toca baixo, arranja e produz o disco a quatro mãos com o experiente Tommy LiPuma –, “Tutu” traz a sonoridade pop ao jazz com uma qualidade ímpar. Algo que, aliás, nem o próprio Miller havia atingido, basta ouvir o seu álbum solo imediatamente anterior, de 1984, e perceber que a química com Miles foi, realmente, essencial para o resultado. A composição é dele, mas a alma é de Miles.

A faixa-título e de abertura entra mostrando os predicados desse projeto: ataques soltos de teclados, bateria eletrônica e as primeiras frases de trompete, dando ao ouvinte uma amostra das texturas e sonoridades que permearão o restante da audição. Até que os sons se organizam e se forma um funk cadenciado, sincopado, e um riff dissonante muito, mas muito charmoso. O baixo de Miller segura a linha melódica – aliás, como em todo o disco – e na “cozinha” está ninguém menos do que o grande percussionista brasileiro Paulinho da Costa. 

“Tomaas”, na sequência, única que Miles coassina a autoria, é outro funk sem pressa e não menos elegante. Não só pelo arranjo e pela sonoridade sensual mas, claro, principalmente, pelo sopro de Miles. O "refrão", jazz fusion, e que se repete de tempo em tempo, é de pura musicalidade. O tema ainda conta com as participações do percussionista norte-americano Omar Hakim e os sintetizadores do jamaicano Bernard Wright. Certamente, das melhores composições de Miles em toda a década de 80.

“Portia”, outra belíssima, é ainda mais melodiosa e sensual. O estilo sonoro do baixo e das programações rítmicas, que se tornaram modelo a produtores de toda a música mundial à época, estão aqui em perfeito exemplo. E o trompete de Miles arremata, soltando suas frases econômicas, que desenham a faixa de cabo a rabo. Quebrando essa introspecção, as animadas “Splash” e “Perfect Way” são duas em que o funk prevalece, mas nem por isso são menos melodiosas.

Entre estas duas está uma outra joia: “Backyard Ritual”, em que Duke, seu autor, é quem comanda. Fora o baixo, a cargo de Miller, e o trompete do artista principal, é ele quem toca todos os instrumentos, além de arranjar e produzir a faixa. O autor do hit AOR “Sweet Baby” e dono de uma invejável discografia em que passeia pelos mais variados ritmos da black music tem, aqui, o privilégio de contar com a lenda Miles a seu serviço. Para tanto, compõe para o ídolo um electro-funk de batida marcante, com seus teclados groove, os slaps do baixo de Miller e a magia dos solfejos de Miles. 

O ótimo reggae dub “Don't Lose Your Mind” e o funkão “Full Nelson”, homenagem ao líder sul-africano anti-apartheid Nelson Mandela, à época preso, encerram o disco cujo título também faz referência à vida sociopolítica daquele 1986: o arcebispo sul-africano Desmond Tutu. “Full Nelson”, aliás, cheia de suingue e sagacidade, daria inveja a Prince por não tê-la escrito não fosse ele o exímio compositor que era. 

Mesmo com o Grammy de Melhor Performance Instrumental de Jazz, em 1987, “Tutu” ainda é relegado pela crítica dentro da discografia de Miles Davis. Os fãs, no entanto, adoram. Tanto que se tornou sinônimo de jazz-pop dos anos 80, influenciando músicos como Prince, Madonna, Sade, Incognito, Everything But the Girl e toda a turma do smooth-jazz e do jazz-rap dos anos 90, como Guru, US3 e Easy Mo Bee – que faria o disco imediatamente póstumo de Miles, em 1992, “Doo-Bop”, fundindo jazz com hip-hop e pegando muitas referências de “Tutu”. Mais do que isso, este disco tirou Miles de certo ostracismo ao qual vivia desde meados dos anos 70, trazendo-o para os holofotes novamente e, principalmente, restituindo-lhe o protagonismo. Como em vários outros momentos na história do jazz, Miles demarcava um novo começo para o gênero. E ele sabia que devia esse ressurgimento a Miller, tanto que o velho músico não deixou de agradecer quando lhe disse certa vez: "Valeu, cara. Você me trouxe de volta." 

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FAIXAS:
1. “Tutu” - 5:15
2. “Tomaas” – (Marcus Miller, Miles Davis) - 5:32
3. “Portia” - 6:18
4. “Splatch” - 4:45
5. “Backyard Ritual” (George Duke) - 4:49
6. “Perfect Way” (David Gamson, Green Gartside) - 4:32
7. “Don't Lose Your Mind” - 5:49
8. “Full Nelson” - 5:05
Todas as composições de autoria de Marcus Miller, exceto indicadas

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OUÇA:
Miles Davis - "Tutu" 

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Daniel Rodrigues

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Música da Cabeça - Programa #479


Ô, santinha, bem que podia dar uma ajudinha e matar essa eleição no primeiro turno, né? A base de reza, o MDC desta semana também tem, claro, música. The Modern Lovers, Guinga, Parliament, Richard Strauss, Luis Fernando Verissimo e Madonna lançam seus cantos de fé. Botando fé na urna, o programa vai ao ar hoje, 21h, na consagrada Rádio Elétrica. Produção, apresentação e "faz o L": Daniel Rodrigues


www.radioeletrica.com

A nuvem tímida







 

"A nuvem tímida"
Daniel Rodrigues
fotografia digital - set/2026

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Museu do Inter - Porto Alegre/RS (julho/2026)


Aquelas coisas que não se explicam: precisou que minha sobrinha Luna viesse a Porto Alegre para que eu pisasse, pela primeira vez, no Museu do Sport Club Internacional. Mesmo morando há anos perto da casa colorada, o Estádio Beira-Rio, nunca havia me programando para fazer essa visita ao memorial do meu time do coração. Aliás: NOSSO time de coração, visto que Luna, mesmo carioca da gema, é colorada convicta, muito mais que muito gaúcho. Aproveitando um dia ensolarado e agradável de uma semana de tempo instável, então, Luna e eu fomos ao Beira-Rio para fazermos a visita guiada ao estádio, a qual começa e termina no museu.

Parece não ter mudado muito daquilo que meu irmão registrou anos atrás quando fez também sua primeira visita, mas o museu é muito bem montado, com espaços de interatividade e integrando plataformas diferentes, como fotos, vídeos, estátuas, objetos e, claro, fardamentos e os diversos troféus conquistados pelo time ao longo dos anos. Não tinha como ser diferente, aliás, tendo em vista que a história gloriosa de quase 110 anos do Inter tem muito conteúdo para um espaço museológico como este. Poucos clubes no Brasil têm tantas glórias e momentos tão marcantes. Estão lá os registros da antiga Chácara e do Estádio dos Eucaliptos, primeira casa do Inter que viu, além dos nossos primeiros títulos citadinos e estaduais, jogos da Copa do Mundo de 1950.


Fotos da história gloriosa da fase dos Eucaliptos, nossa primeira casa

Por falar na primeira Copa sediada no Brasil, um personagem que estava na competição também faz parte importante da história do Inter: nosso tio-avô Adão, o Adãozinho. Craque do Rolo Compressor, time do Inter que conquistou os ainda inalcançáveis 8 títulos estaduais nos anos 40, Adãozinho foi dos primeiros atletas gaúchos a disputar uma Copa pela Seleção Brasileira. E ele está lá no museu no painel de fotos dos craques históricos do Inter ao lado de outras lendas como Falcão, D'Alessandro, Figueroa, Rafael Sóbis, Taffarel, Carlitos e Fernandão.

São muitas coisas bonitas de se ver no museu, e não só para colorados com nós, mas também para torcedores de outros clubes e de outros estados, haja visto que tinha gente de Minas Gerais, Paraná (e Rio, claro) entre os visitantes. Os troféus das Libertadores e do Mundial; as chuteiras usadas pelo saudoso Fernandão no histórico jogo contra o Barcelona em 2006; a história de comunhão da torcida para construir o Beira-Rio; a lembrança do Tri-Campeonato Brasileiro...

Estátua suspensa de Manga

Luna felizona posando com os troféus da Liberta e de outros
títulos internacionais do Inter

Uma felicidade imensa de ter visitado este espaço na companhia de Luna e um orgulho imenso do time de nosso coração. Pena ser justo numa temporada em que as coisas não vão nada bem pro Inter. Mas, como dizemos em nosso canto: "Inter, nada vai nos separar". Serás sempre motivo de festa em nossos corações.




Falando sobre o nosso templo, o Beira-Rio


Luna bem atenta à história do Inter


Fotos antigas dos primeiros tempos do clube


A vitrine dedicada ao Rolo Compressor


Figueroa e a sua cabeceada iluminada, que nos deu o primeiro Brasileiro, em 1975


Troféus internacionais, dentre eles, Joan Gamper, nosso ensaio de Mundial, em 1982
 

O título da Copa do Brasil de 92. Esse eu vi!


Várias flâmulas de times trocadas pelas do Inter de todo o mundo



A camisa 3 do ídolo Figueroa


Mais troféus


Por falar em troféus, Luna nessa vitrine de grandes conquistas


Esta dupla de colorados terminando a visita ao Beira-Rio




Daniel Rodrigues

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

John Coltrane - "Olé Coltrane" (1961)


"Que grão toureiro na praça!
Que bom serrano na serra!
Que brando era com as espigas!
Que duro com as esporas!
Que terno com o orvalho!
Que deslumbrante na feira!
Que tremendo com as últimas
bandarilhas todas treva!"
Trecho do poema "Pranto por Ignacio Sánchez Mejías", do poeta espanhol Federico Garcia Lorca

Não há precisão nas datas, mas estima-se que o jazz tenha surgido em finais do século 19. Ou seja: trata-se de uma linguagem de pouco menos de um século em meio, ainda mais considerando que, comercialmente, estabeleceu-se na indústria fonográfica há menos que isso. O florescimento do jazz foi como a abertura de um portal de onde pode-se ver emergir alguns dos maiores gênios da música moderna reconhecidos por todo o mundo. Estes praticamente 100 anos do jazz coincidem com os exatos 100 de nascimento daquele que é, talvez, não apenas o maior talento da história do jazz, como um ser ainda mais prodigioso na história da música. Como Beethoven, Mozart, Bach, Debussy. Um gênio superior, movido por um amor supremo e que tocou, com seu sopro de saxofone, a mão de Deus: John Coltrane.

Em sua vasta obra, produzida em apenas 9 anos de carreira, entre diversos álbuns solo, parcerias ou participação em conjuntos, não são poucos os discos que se destacam, sendo comum se lembrar da fase com seu famoso quarteto do início dos anos 60, formado por Elvin Jones, na bateria, McCoy Tyner, piano, e Paul Chambers, baixo. Porém, em meio a tanta variedade e qualidade, um outro trabalho merece especial realce: “Olé Coltrane”, de 1961.

Além de integrar com muita propriedade e originalidade formas jazzísticas distintas, como o hard bop e o jazz modal ao pós-bop e o avant-garde, e diferentemente de outros trabalhos do próprio Coltrane da mesma época em que o hard-bop prevalecia (“Giant Steps”, “Lush Life”, “Bags & Trane”, “Coltrane Jazz”), “Olé” é exuberante também na formação do grupo que o acompanha. Mesmo com o sucesso de seu então recém formado quarteto mágico, Coltrane ousa experimentar uma banda maior e com outras sonoridades, texturas e estilos. Para executar os três números de “Olé”, chama para a gravação, ocorrida em maio daquele ano para a gravadora Atlantic, um time grande, que incluía, além do piano (Tyner), bateria (Jones) e baixo (Art Davis e Reggie Workman intercalando-se), flauta (Eric Dolphy), trompete (Freddie Hubbard) e um sax alto para conjugar com os seus tenor e soprano. 

Com esta conformação diferente e expandida em relação a uma banda mais enxuta, Coltrane cria uma atmosfera densa e onírica para traduzir a sua visão da cultura hispânica, algo muito em voga no jazz daquele início de anos 60. Na faixa-título, “Olé”, entretanto, Coltrane faz mais do que apenas dar sua versão, mas, sim, de moldar sua alma àquela sonoridade. Jazz modal de mais de 18 minutos (o que compreende todo o lado A do formato LP original), tem na influência espanhola um “leitmotiv”, que dá base para que ele e seus parceiros de estúdio desaguem suas melhores intenções e impressões. Dolphy, com uma flauta estonteante tal o capote vermelho do toureiro tremulando diante do touro; Hubbard, contagiado pela emoção da arena, mas sempre com um olhar no que virá adiante, no próximo passo do bailado mortal; Davis com um baixo ora trastejado, ora tangido, que remete às variações de posição entre o furioso animal e o destemido artista; Tyner com o piano garantidor do espectro modal em suas variações circulares, assim como o formato da arena da tourada; a bateria de Jones pulsando num compasso flamenco; e o sax soprano de Coltrane, claro, representando o toureiro: elegante, esguio, altivo, sensual. Mas, sobretudo, fatal, matador. 18 min de puro deleite.

Jazz bluesy, "Dahomey Dance" convida o ouvinte a outro tipo de dança, que não o bailado dramático da tourada imortalizado nos versos de Federico Garcia Lorca. Voltando-se à celebração da sua Mãe-África, Coltrane e banda transformam em sons toda a grandeza do icônico Reino de Daomé, na África Ocidental e onde hoje fica localizado o Benim, o qual prevaleceu por três séculos através de sua arte, comércio, exércitos e religiosidade. Fechando, “Aisha”, de autoria de Tyner, uma homenagem à sua então esposa e cujo nome, não coincidentemente, tem, como ela, origem árabe (Tyner foi um devoto da religião islâmica) e ainda por cima significa "aquela cheia de vida". Assim como ela, a música é, sim, tomada de vida e pelo calor da paixão. Para quem já era, àquela época, um dos mais exímios baladistas do jazz como Coltrane, essa composição do amigo dedicada à sua amada foi um presente. Quanta delicadeza, e não somente de front man, mas de Hubbard, Dolphy, Jones e Workman, de quem se escuta, ao fundo, o vibrar das cordas do contrabaixo. De Tyner, então, nem se fala.

Há 100 anos nascia John Coltrane. Há mais ou menos o mesmo tempo, o jazz se estabelecia como cultura. Hoje, é impossível conceber um sem o outro: Coltrane sem que o jazz tenha sido antes inventado e, tanto quando, o jazz sem o capítulo Coltrane em sua história. Um século de Coltrane é como celebrar um século de jazz. Ou vice-versa. Não importa de que lado ou de onde venham os aplausos para sua música universal. Pode ser de qualquer lugar do mundo. Italianos diriam "Bravo!", franceses diriam "Hourra!", latinos diriam "Viva!" e os espanhóis, sabiamente dramáticos, dizem: "Olé, Coltrane!".

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FAIXAS:
1. "Olé" (John Coltrane) - 18:05
2. "Dahomey Dance" (Coltrane) - 10:50
3. "Aisha" - (McCoy Tyner) - 7:32

Faixa bônus da edição em CD:
4. Original Untitled Ballad (To Her Ladyship) (Billy Frazier) - 9:00

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OUÇA:

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Daniel Rodrigues


Música da Cabeça - Programa #478

 

Vamos ser bem sinceros com vocês: no MDC de hoje não vai rolar John Coltrane. Mas nem precisa, pois já serve a homenagem que a gente faz pelos 100 anos de seu nascimento. E sob a sua egrégora, teremos, isso sim, Jackson do Pandeiro, Filó Machado, The Smashing Pumpkins, Secos & Molhados e George Benson. No Cabeção, Arrigo Barnabé. Emitindo os sons de Deus, o programa vai ao ar às 21h na jazzística Rádio Elétrica. Produção, apresentação e um amor supremo: Daniel Rodrigues 


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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Música da Cabeça - Programa #477

 

Se você se sentiu num ringue nos últimos dias, não estranhe, pois não foi só você. Com esse clima no STF, afinal, não tem como ser diferente. Pedindo vistas, o MDC de hoje reprisa sua edição nº 107, de maio de 2019, quando já falávamos do Supremo por aqui. Naquela feita, rolou  The Cure, Can, Noel Rosa, Terry Riley, Seu Jorge, Simon & Garfunkel e mais. Sem ligação com Vorcaro, entramos no ar 21h na insuspeita Rádio Elétrica. Produção, apresentação sem medo da PF: Daniel Rodrigues


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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Popol Vuh - “Letzte Tage - Letzte Nächte” (1976)

 

"Uma visão do Popol Vuh.
Uma visão das coisas claras veio do lado mar,
A descrição das nossas sombras.
Uma visão da vida clara, como é chamada."
Trecho do "Popol Vuh", o livro sagrado dos Maias (século XVI)

O movimento krautrock alemão foi marcado pela diversidade e pelo avanço tecnológico. Embora todos os grupos e artistas se aproximem de um mesmo motivador inicial, o cenário da Alemanha pós-guerra e os efeitos da reindustrialização do país, as diferenças entre as bandas e artistas se tornariam marcantes à medida que os trabalhos desses músicos iam se desenvolvendo. E a tecnologia, princípio fundamental a toda geração da nova música alemã de meados dos anos 60, desdobrou-se de formas distintas na musicalidade de cada um. Kraftwerk, Klaus Schulze e Neu!, por exemplo, optaram pelo uso sistemático dos sintetizadores e sequenciadores, tornando-se seguidores naturais da linha de Darmstadt de Stockhausen e Boulez. Can, Gong e Faust, no entanto, foram aos poucos assumindo sonoridades mais psicodélicas e progressivas, dando aos sons das máquinas um papel complementar aos arranjos.

No caso da Popol Vuh, banda de Munique idealizada pelo viajandão Florian Fricke, estudante de piano de cauda e composição na Universidade de Freiburg – e crítico de cinema em tempo parcial, além de amigo do cineasta Werner Herzog – essa dicotomia entre eletrônico e analógico se dá noutra dimensão: no convívio quase dual entre o clássico e o moderno. Isso porque, depois do primeiro disco, “Affenstunde”, de 1970, a Popol Vuh tornou-se deliberadamente anacrônica, abandonando paulatinamente moogs, sintetizadores e afins. O negócio era manejar instrumentos acústicos como tanpura, oboé, cítara e percussões africanas das mais diversas. De sonoridades que vão do folk ao hindu, marcando álbuns como “In Den Gärten Pharaos” (1971), “Hosiana Mantra” (1972) e “Das Hohelied Salomos” (1975), eles chegam, em 1976, a seu melhor resultado:  o enigmático e deslumbrante “Letzte Tage - Letzte Nächte”, que completa 50 anos de lançamento em 2026.

Entre os muitos músicos alemães que, na década de 1970, olharam para a Índia e o Extremo Oriente na busca de absorverem a espiritualidade oriental, Fricke é o maior exemplo. Seu trabalho é uma exploração constante do mesmo tema: como expressar a espiritualidade mais pessoal, profunda e austera por meio da música clássica ocidental, da música sacra e do rock profano. O nome da banda diz tudo: uma homenagem direta ao livro sagrado dos Maias, redigido na Mesoamérica no século XVI. Por isso, a Popol Vuh pode estar na Baviera do século XVIII, na Amazônia do Século XVI, na Índia védica de 1500 a.C., na Jerusalém do período bíblico ou num futuro distópico imaginado. Mas nunca no tempo presente. “Letzte...”, certamente o disco mais rock da banda, é permeado por todas essas referências.

Fricke e Daniel Fichelscher (responsáveis pela maioria dos instrumentos das gravações), travam um duelo musical, que expõe com inédita clareza a natureza dialética da Popol Vuh, a qual se equilibra entre sagrado e profano, classicismo e modernidade, teutonismo e psicodelia. “A dialética entre os dois é um espetáculo por si só: a guitarra é o demônio que salta em cada passagem, enquanto o piano é o anjo que tenta manter o calor e a tranquilidade. A guitarra é puro caos hedonista, enquanto o piano é ordens ascéticas e clássicas”, descreve o historiador cultural ítalo-americano Piero Scaruffi. Por falar em guitarras, as de “Der Grosse Krieger”, faixa de abertura, não só chamam para si o protagonismo como em muito lembram a sonoridade da The Cure e, especialmente, o estilo de tocar de Robert Smith. 

Essa parecença não é infundada, visto que, dark, o som da Popol Vuh é quase gothic-punk, o que se nota também em instrumentais como “Oh Wie Nah Ist Der Weg Hinab”. Música-irmã desta, “Oh Wie Weit Ist Der Weg Hinauf" vem em seguida como numa resposta. Ritualística, traz nas vozes das cantoras Djong Yun e Renate Knaup vocalises, que fazem lembrar o mantra hinduísta ao deus Krishna (“Haram Dei Raram Dei Haram Dei Ra”), mas sem deixar de dialogar com o rock progressivo.

Depois da folk “In Deine Hände”, “Kirye” comprova aquilo que Scaruffi salienta, que é a contribuição lírico-sacra de Fricke. A despeito da carga de rock prog engendrado por Fichelscher, não é na guitarra, mas no piano que esta canção é forjada. Melódica e suplicante, a se ver pelo significado da palavra originária do grego antigo ("Senhor, tende piedade de nós"), “Kyrie” também vai ganhando intensidade no entoar das vozes femininas e da guitarra. Na sequência, “Haram Dei Raram Dei Haram Dei Ra” repete a melodia de “Oh Wie Weit Ist Der Weg Hinauf", só que agora trazendo como título as palavras de chamamento à energia divina Bhakti Yoga presente na letra. 

Talvez as duas mais bonitas faixas do álbum são também as que o encerram em um clima elevado. A primeira é “Dort Ist Der Weg”, um rock experimental que antevê a sonoridade de bandas do pós-punk europeu como a já mencionada The Cure. Um rock com influências das culturas indianas, germânicas, britânicas, célticas e romani, algo que também se poderia já chamar de world music (e que se exacerbaria no som da Popol Vuh em “City Raga”, de 1995). 

Já a faixa-título é ainda melhor. Ela antecipa a sonoridade de outros ilustres britânicos da cena alternativa: a Cocteau Twins. E não a Twins tristonha da primeira fase, mas a sua versão dream pop, como uma música feita para (e por) os anjos. Afora a guitarra etérea, que em muito lembra a de Robin Guthrie, as vozes de Djong e Renate cantando juntas aumentam ainda mais a semelhança com os escoceses, que usavam o vocal de Liz Frazer em overdub, produzindo um efeito de vozes paralelas e complementares muito parecido. Além disso, a própria melodia climática faz remeter aquilo que a Cocteau Twins faria anos mais tarde em discos célebres como “Heaven or Las Vegas”. 

Fricke continuaria comandando a Popol Vuh por mais vários anos até sua morte, em 2001, produzindo invariavelmente bons discos, entre eles trilhas sonoras para filmes do amigo Werner Herzog, como as de “Aguirre: A Cólera dos Deuses”, “Coração de Cristal”, “Fitzcarraldo” e “Cobra Verde”. Mas embora a abismal musicalidade da Fricke e seus ascetas, eles nunca fizeram um trabalho tão emblemático como “Letzte...”, onde conseguiram dar outras (e inéditas) cores à tecnológica krautrock e provar que, independente das maquinarias, sejam as do presente ou as do passado, a centralidade na alma continua sendo o que move a arte.

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FAIXAS:
1. "Der Große Krieger" - 3:15 (Daniel Fichelscher)
2. "Oh Wie Nah Ist Der Weg Hinab" - 4:36
3. "Oh Wie Weit Ist Der Weg Hinauf" - 4:30
4. "In Deine Hände" - 3:00
5. "Kyrie" - 4:38
6. "Haram Dei Raram Dei Haram Dei Ra" - 1:30
7. "Dort Ist Der Weg" - 4:30 (Fichelscher/Fricke)
8. "Letzte Tage - Letzte Nächte" - 4:20 (Fichelscher/Fricke)
Todas as composições de autoria de Florian Fricke, exceto indicadas

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OUÇA:
“Letzte Tage - Letzte Nächte” 

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Daniel Rodrigues


quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Exposição “Tramas do Inventário”, de Íris Borges e Letícia de Cássia - Projeto Lãs do RS - Casa de Cultura Mário Quintana - Porto Alegre/RS


Não é de hoje que acompanho os trabalhos fotográficos de minha amiga Íris Borges. Aliás, lembro de quando ela começou nessa trilha da fotografia, há uns bons anos. Porém, como se vão 30 anos de amizade, deu tempo de vê-la aperfeiçoar-se nessa arte e colocar pra fora esse talento, seja em projetos solo, seja nos registros de eventos como a Feira do Livro de Porto Alegre. Em 2014, inclusive, tive a felicidade de visitar e, mais do que isso, escrever o texto de apresentação de sua exposição “Aparício”, no antigo Paris Cinema Café, dedicada ao saudoso gatinho dela e de seu parceiro, meu também amigo “trintão’ Christian Ordoque.

Pois, já sabendo do talento de Íris com as lentes, fomos Leocádia e eu visitar antes que encerrasse a exposição “Tramas do Inventário”, com fotos dela e de Letícia de Cássia, também curadora, no espaço Vitrine Lãs do RS: Fio da Meada, na Casa de Cultura Mário Quintana. A mostra, que busca fazer um inventário dos saberes e fazeres da lã do Rio Grande do Sul, integra o projeto de inovação social e cultural Lãs do RS, que apoia dezenas de artesãs a partir das ações ligadas à cadeia produtiva e artesanal da lã no Estado. 

Tiradas principalmente por Íris e destacando o papel das mulheres neste contexto, há fotos de vários municípios do interior gaúcho onde a cultura da lã é presente, como Caçapava do Sul, Mostardas, Lavras do Sul, Rosário do Sul, Santana do Livramento e São Gabriel. Nelas, nota-se um olhar sensível e detalhista, que trazem cores, vivências e emoções só possíveis de serem captadas por quem, como Íris, estava atenta ao momento (e ao ângulo) certo. Tanto os retratos de pessoas quanto as fotografias de paisagens ou de objetos transmitem esse apuro, que alia instantaneidade e observação. Tudo sem uso de grandes recursos de edição posterior, ou seja, são fotos em que prevalece a luz original e o enquadramento da hora. 

Pena que a exposição se encerrou, mas é bem possível que seja levada a algum outro espaço juntamente com as peças exclusivas das lãs feitas com uso de fibras naturais, couro e resíduos de plantas, através de técnicas tradicionais e de referência cultural. Se pousar noutro pago, possivelmente estaremos lá de novo. Por ora, confiram algumas das belas peças expostas em “Tramas do Inventário”:

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Foto geral da parede com as fotos


A fofa ovelha, geradora da matéria-prima


Retrato diante de um dos principais cartões-postais do RS:
as ruínas das Missões, em São Gabriel


Fotaça mostrando manual a lavagem da lã


Novelos pendurados em diversos tons de cor


Diversidade de ângulos e olhares


Artesã captada pela lente de Letícia


A cadelinha atenta à lida com as ovelhas


Vê se essa nuvem não parece feita de lã?


Linda foto de Letícia do entardecer no campo 


Outro ângulo geral com as peles naturais logo abaixo


Detalhe das tramas da lã que foi parar no pôster da exposição


Leocádia e eu com a amiga e autora Íris


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texto e fotos: Daniel Rodrigues