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domingo, 22 de fevereiro de 2026

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

“Valor Sentimental”, de Joachim Trier (2025)

INDICAÇÕES
Melhor Filme
Melhor Filme Internacional
Melhor Direção (Joachim Trier)
Melhor Atriz (Renate Reinsve)
Melhor Ator Coadjuvante (Stellan Skarsgård)
Melhor Atriz Coadjuvante (Elle  Fanning)
Melhor Atriz Coadjuvante (Inga Ibsdotter Lilleaas)
Melhor Roteiro Original (Eskil Vogt e Joachim Trier)
Melhor Montagem (Olivier Bugge Coutté)


A pior pessoa do mundo

Nos últimos anos, acompanhando a discussão e o repensar dos papeis de gênero na sociedade através de vários campos do conhecimento como a Psicologia e a Sociologia, o cinema tem trazido a figura masculina com um forte teor crítico. Nunca antes a masculinidade havia sido tão observada e, principalmente, criticada e exposta. Somente entre os filmes concorrentes ao Oscar nas principais categorias, ao menos três deles – “Bugonia”, “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet” e “Se eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria” – têm protagonistas mulheres e, mais do que isso, colocam a figura do homem numa posição, se não secundária, fragilizada. Outro filme também do Oscar, no entanto, vai ainda mais fundo nesse desnudamento masculino com suas fragilidades e fraquezas: o norueguês “Valor Sentimental”, do cineasta Joachim Trier.

Hábil questionador das relações humanas, Trier volta seu olhar desta vez para a família. Se no seu filme anterior, o exitoso “A Pior Pessoa do Mundo”, ele trazia uma personagem feminina em busca interna pelo seu lugar no mundo, em “Valor...” o diretor não deixa de mirar a câmera também na mulher, não à toa com a mesma atriz de “A Pior...”, Renate Reinsve. É Nora, uma consagrada atriz de teatro, que desencadeia os conflitos de toda uma rede de laços familiares e ancestrais motivada pela conturbada relação com o pai, o cineasta Gustav Borg, vivido pelo excelente Stellan Skarsgård – ator de papeis inesquecíveis no cinema (como o doutor de “Dançando no Escuro”, Jack de “Melancolia”, e Bootstrap Bill Turner de “Piratas do Caribe”).

O brilhante roteiro original (de Trier e Eskil Vogt) consegue contemplar todo o ecossistema dos Borg – com os ótimos flashbacks, que recontam a história familiar e seus traumas, na medida certa para elucidar esfinges do presente – sem, contudo, desviar-se do protagonismo feminino. Soma-se a esse enfoque, para o qual Trier demonstra ter grande sensibilidade, as personagens Agnes, irmã de Nora, e a atriz Rachel Kemp (Elle Fanning), que, por conta do filme que Gustav pretende rodar sobre a sua própria história, vai ficando, por influência nociva dele, cada vez mais parecida física e emocionalmente com Nora.

“Valor...” é um filme sofrido. Há poucos respiros de “não-sofrimentos”, pois tudo dói. Tudo retorna àqueles pontos mal resolvidos, num círculo vicioso em que a figura masculina/paterna se mostra bastante despreparada. Gustav, que cometeu abandono no passado afetivo, é incapaz de conviver com as filhas sem um punhado de microagressões nas mãos, sem recorrer à sua falta de inteligência emocional. Quem é mesmo o sexo frágil? Existe sexo frágil? A dureza do longa, nesse sentido, é perfeitamente plausível, uma vez que, na vida real, problemas de relacionamento tão basais como os de laços familiares, quando não resolvidos, passam a ficar latentes. Ora aqui, ora ali, aparecem, até que sejam identificados e, quiçá, amenizados ou sanados. Por isso, “Valor...” é por vezes cruel, mas muito coerente, e é importante que o cinema trate temas importantes dessa forma séria a comprometida.

E se a mulher é vista como alguém consciente de suas fragilidades, mas suficientemente forte para buscar acolher o que lhe faz mal, o homem, na figura de um pai de família da classe alta, nórdico e de uma geração pós-Guerra, tem grande dificuldade de expressar emoções e resolver seus traumas. E pior: é alguém pouco disposto a mudar. É em personagens como Gustav que se vê o declínio do homem como se construiu culturalmente ao longo dos séculos. Antes, o dono do mundo; hoje, a pior pessoa do mundo. Nada diferente do que se observa na sociedade – e nem precisa ser nórdica para isso. Trier opta por expor esse despreparo emocional do homem, ao contrário de "ocultá-lo" como em outros recentes filmes críticos da masculinidade, cuja figura do macho, tão aberrante quanto patética (como um monstro em forma de gente), mal aparece, a se ver por “Se Eu Tivesse Pernas...”. Fato é que urge repensar a psique masculina e a falida cultura que sustenta o machismo e o patriarcado na sociedade. Os filmes estão gritando esse alerta.

Concorrente a nove estatuetas do Oscar, “Valor...”, que se mostrava um forte adversário do brasileiro “O Agente Secreto” na categoria Longa Internacional quando o Oscar chegasse, parece ter perdido musculatura desde o Globo de Ouro, quando levou apenas Ator Coadjuvante para Skarsgård, quase um prêmio de consolação. Em Longa Internacional, além do filme de Kleber Mendonça Filho, “A Voz de Hind Rajab” ganhou mais força nas últimas semanas e começa a ver o norueguês pelo retrovisor. Mas embora os melhores filmes da temporada sejam de fato “O Agente...” e “Foi Apenas um Acidente” (o outro filme concorrente nesta categoria junto com "Sïrat"), não seria nada estranho se “Valor...” ganhasse. Qualidade para isso tem.

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trailer de "Valor Sentimental"


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"Valor Sentimental"
título original: "Affeksjonsverdi/ Sentimental Value"
direção: Joachim Trier
gênero: drama
duração: 2h13min.
país: Noruega/ Alemanha
ano: 2025
onde assistir: Mubi e cinemas



Daniel Rodrigues

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Música da Cabeça - Programa #447

 

Tá vendo aquele folião ali no meio da galera? Pois é, a gente deu uma estendida no Carnaval e, por isso, vamos trazer um MDC de reprise. Mas uma reprise do tamanho que o programa e o Carnaval merecem, repetindo o programa da quarta-feira de cinzas do ano passado, quando, além da ressaca dos festejos, ainda sentíamos pela primeira vez o peso da estatueta do Oscar (quem sabe não é auspicioso, né?). Quase recolhendo a fantasia, o programa vai ao ar hoje, às 21h, na foliã Rádio Elétrica. Produção, apresentação e ponto facultativo: Daniel Rodrigues


www.radioeletrica.com


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Gal Costa - “Gal Canta Caymmi” (1976)


"Gal é uma coisa gostosa. Ela é cantada em prosa e verso e se eu falar alguma coisa mais, vão dizer que eu estou copiando. É das cabeludas mais bonitas que conheço".
Dorival Caymmi


Caetano Veloso observou certa vez que a obra de Dorival Caymmi, embora pequena em volume de canções em relação a de outros compositores contemporâneos a ele (tal Ary Barroso ou Lamartine Babo) ou mesmo dos baianos como o próprio Caetano, é proporcionalmente a mais revisitada. Caymmi é pedra-fundamental da música brasileira, um cancionista e poeta capaz de inventar uma nova tradição, a qual encerra o folclore, o samba rural e a vida cotidiana da Bahia de Todos os Santos. Muito fizeram em versá-lo, mas nem sempre com assertividade, visto que sua música leva a uma encruzilhada: de tão original que é, dificulta quem a acessa. De todos, quem melhor resolveu essa equação foi Gal Costa em “Gal Canta Caymmi”, de 1976, disco que completa 50 anos com o mesmo frescor de quando foi lançado, além do show homônimo, um sucesso de público, que estreava exatamente no dia 11 de fevereiro, no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro.

Rainha das dunas de Ipanema que levavam seu nome, o ponto de encontro da contracultura carioca em tempos de ditadura, Gal exercia um papel central em meados dos anos 70. Era, ao mesmo tempo, a devota de João Gilberto e a roqueira janisjopliana, que havia irrompido no festival de 1968 e abraçado a psicodelia tropicalista, influenciando comportamentos e tornando-se um símbolo feminino libertário e contestador. Os parceiros Caetano e Gilberto Gil já haviam voltado do exílio, é bem verdade. Mas Gal, a diva resistente que segurou a barra do Tropicalismo sozinha na hora da linha-dura, conquistou seu espaço inconteste e ali reinava. Assim, tinha carta branca para empreitar o projeto que desejasse, como este, sugerido por Roberto Menescal, diretor artístico da sua gravadora, a Phillips, e prontamente aceito por ela. Por ideia dele, Gal havia gravado, um ano antes, “Modinha para Gabriela” para a novela da TV Globo, canção de Caymmi. Assim, não foi difícil identificar o próximo passo. Após o sucesso dos revolucionários “FA-TAL”, de 1971, e “Índia”, de 1973, era a vez da aguerrida Gal desafiar os padrões novamente, agora, modernizando o cancioneiro do autor de "Maracangalha" e outros eternos clássicos da MPB.

Mexer no que é sagrado não é para qualquer um, no entanto. E, claro, houve críticas. A imprensa inculta da época classificou "GCC" como "um crime à obra musical de Dorival Caymmi", "avacalhação" e "boçalidade". Porém, a cantora sabia o que estava fazendo e que não estava sozinha. Aliás, via-se muito bem acompanhada e amparada. Na trincheira com ela dois sólidos parceiros: Perinho Albuquerque e João Donato. Eles repetiam a química que definira o clássico “Cantar”, de 1974, marco da maturidade musical e artística de Gal. E se naquele álbum havia a batuta de Caetano orquestrando reportório e atmosfera, neste o papel ficava a cargo exclusivamente desses dois exímios arranjadores. A solução perfeita para versar Caymmi. Ora um, ora outro, produtor e diretor musical, respectivamente, eles assinam os arranjos de todas as faixas, equilibrando a pegada rock de um com o clima latin-jazz de outro sem deixar de soar com impressionante unidade. E, principal: ambos trabalham para dar o suporte necessário às formidáveis voz e interpretação de Gal, “a melhor cantora do Brasil” segundo João Gilberto.

Caymmi participando do show de Gal, em 1976,
no Teatro João Caetano (RJ)
Esse equilíbrio fica evidente nas duas faixas que abrem o álbum: os sambas “Vatapá”, um símbolo do cancioneiro caymmiano transformado em um soul jazz, e "Festa de Rua" (“Meu Senhor dos Navegantes, venha me valer”), numa pegada bastante pop. A primeira, a cargo do mestre Donato, com seus característicos arranjos de metais em tom médio. Já a seguinte, arranjada por Perinho, é colorida dos mesmos sopros e embalada num ritmo de samba soul. O samba-canção “Nem Eu”, da fase carioca de Caymmi, ganha a suavidade da voz de Gal em sua simplicidade composicional, a qual é traduzida em bossa-nova novamente pela mão de Donato, um dos precursores do gênero.

Aí, o negócio fica sério em duas em sequência: “Pescaria (Canoeiro)” e “O Vento”. O que Perinho faz com essas duas peças da célebre fase das “canções praieiras” de Caymmi é simplesmente deslumbrante. As músicas soam vigorosas, arrojadas, dando a medida da modernidade aplicada por Gal à obra do mestre. “Pescaria” conta com a sanfona de Dominguinhos, baixo de Novelli e violão de Menescal. Já em “O Vento”, piano de Antonio Adolfo e bateria de Paulinho Braga. Porém, deslumbrante mesmo é Gal cantando essas duas, certamente músicas que povoaram seu imaginário sonoro desde pequena em Salvador. O que é ela atingindo os agudos quando sobe um tom nos versos: “Ô canoeiro/ bota a rede no mar”?! Ou quando entoa, num ritmo funkeado: “Curimã ê, Curimã lambaio”?! É de arrepiar. A música está nela, capacidade que somente as grandes cantoras, como Sarah Vaughan, Elis Regina, Amy Winehouse ou Aretha Franklin, conseguem. Gal é uma delas.

O lado B, no formato original do LP, abre com mais um clássico inconteste da cidade de Salvador e do folclore baiano, que é "Rainha do Mar", dedicada à Iemanjá. Filha de Omulu, Gal era devota do candomblé, tendo se iniciado no referencial terreiro Ilê Iaomim Axé Iamassê com Mãe Menininha do Gantois. Ao ouvi-la cantar: “Minha sereia é rainha do mar/ Minha sereia é rainha do mar/ O canto dela faz admirar” tem-se a impressão de que está cantando sobre si mesma, tamanha a comunhão corpo/espírito que a música (e sua voz) consegue provocar.

Em seguida, noutra concatenada com Donato, mais um dos sambas cariocas, e outro show de interpretação de Gal. É "Só Louco", cuja melodia e letra têm visível influência de Lupicínio Rodrigues, com quem Caymmi convivera nos boêmios anos 30 no Rio de Janeiro. Animando o clima dor-de-cotovelo deixado pela anterior, "São Salvador" é daqueles temas solares feitos para o vocal de Gal brilhar. Igual a "Peguei Um 'Ita' No Norte", em que Donato novamente capricha no arranjo e onde Gal põe com delicadeza ímpar sua cristalina voz. Fechando num clima de festa, Perinho a ajuda a transformar o samba urbano "Dois de Fevereiro" em um samba-funk suingado.

Com “GCC”, Gal rompera uma barreira na indústria fonográfica brasileira ao produzir um álbum celebrando apenas um compositor, formato que ganharia o nome songbook mais tarde e se tornaria extremamente comum. Dois anos depois dele, foi a vez de Nara Leão gravar somente Roberto Carlos e Erasmo Carlos no disco “...E Que Tudo Mais Vá Pro Inferno”, um de seus maiores sucessos na carreira, favorecendo-se do caminho aberto pela colega baiana. Sinal de que Gal, mais uma vez, estava à frente das coisas. Ao homenagear Caymmi, ela mostrou que era permitido ousar mantendo o respeito à tradição. Gal nasceu assim, cresceu assim, era mesmo assim e foi sempre assim: uma baiana à frente do seu tempo.

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FAIXAS:
1. "Vatapá" - 3:31
2. "Festa de Rua" - 2:10
3. "Nem Eu" - 3:48
4. "Pescaria (Canoeiro)" - 2:53
5. "O Vento" - 4:52
6. "Rainha do Mar" - 3:00
7. "Só Louco" - 3:12
8. "São Salvador" - 2:44
9. "Peguei um 'Ita' no Norte" - 3:28
10. "Dois de Fevereiro" - 3:45
Todas as composições de autoria de Dorival Caymmi

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Daniel Rodrigues

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Música da Cabeça - Programa #447

 

Tanto esforço desses praticantes do curling nas Olimpíadas de Inverno pra deslizar aquela pedra! Pra que tudo isso, gente?! O alvo é mais fácil que vocês imaginam, pois nem precisa esfregar a vassourinha pra acertar no MDC, que terá Living Colour, Beatles, Bauhaus, Robson Jorge, Marina e mais. Tem também quadro especial aludindo ao samba e ao Carnaval, que tá se aproximando rapidinho igual à pedra do curling. Deslizando em seus ouvidos o programa entra na pista hoje às 21h na esportiva Rádio Elétrica. Produção, apresentação e vassourinha na mão (mas a de frevo, afinal, o Carnaval tá aí): Daniel Rodrigues


www.radioeletrica.com

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A arte do MDC em 2025

E lá se foi mais um ano de Música da Cabeça! O oitavo, mais precisamente, sempre com estreia na Rádio Elétrica, às quartas, 21h, e cuja programação é divulgada semanalmente aqui no blog. Programação esta, aliás, invariavelmente associada a artes que, toda semana, haja programa inédito ou não, pintam aqui e nas redes sociais. 

Por isso, como viemos fazendo nos últimos anos e a exemplo da retrospectiva da sessão Clyart, separamos as artes feitas para o MDC que rolaram durante 2026. Já com atraso, inclusive, visto que já estão rolando os programas deste ano. Mas a retrospectiva segue valendo para mostrar as linhas criativas que seguimos nos últimos meses, com temas geralmente do momento, aqueles que motivaram as nossas criações, quase como uma crônica visual. 

São temas da política, da sociedade, dos acontecimentos internacionais ou até mesmo aquele fato curioso que estava pegando durante a semana: muitos deles se transformaram em chamadas para as nossas edições do MDC. 

E dessa vez não teve desculpa de enchente, como a de 2024, que interrompeu o nosso programa por mais de um mês. Com um ano cheio, pudemos deitar e rolar em nossas chamadas. Ou seja: o que não ficou legal foi única e exclusivamente por conta de alguma inabilidade com as ferramentas de criação das artes. Contudo, o avançar dos anos, somado à constante prática de todas as semanas buscar levantar algo criativo visual e tematicamente, vem fazendo com que alguma evolução técnica apareça, mesmo que isso fique somente na menor dificuldade de executar. Pelo menos isso. 

Mas saiu coisa legal, inegavelmente. E com muita variedade, seja em peças ou vídeos. De gozações com a febre nacional “Vale Tudo” à lenga-lenga da contratação de Carlo Ancellotti para técnico da Seleção Brasileira de Futebol Masculino, passando pelo conclave do novo Papa e a morte de ilustres como Sebastião Salgado e Sly Stone, teve de um tudo. Claro: os gritos de guerra “Sem Anistia” e o processo que levou pra cadeia a corja de golpistas, incluindo o execrável ex-presidente, foi acompanhado e registrado no programa, seja através das notícias, seja por meio de suas artes de divulgação.

Enfim, mais um ano cheio de acontecimentos e motivações pra que o programa existisse e, com ele, as artes do MDC, que a gente recupera aqui o que de melhor rolou em 2025. 



Começamos o ano desejando tudo de bom para os ouvintes em 2025


E já na posse de Trump as coisa já não iam bem. Hillary Clinton que o diga 


Mas 2025 começava também com alegria e orgulho pelo filme "Ainda Estou Aqui", naquele janeiro vencedor do Globo de Ouro e concorrente ao Oscar, bem como de Fernanda Torres, que dava show por onde passava - até quando ela falava do MDC


Olha as sandices do Trump de novo! Na ed. de 19 de fevereiro, ele estava querendo mudar o nome do Golfo do México para Golfo... do MDC, claro!


E foi assim que a gente chegou à Quarta-Feira de Cinzas: sorrindo com o Oscar de
"Ainda Estou Aqui", para a ed. de 5 de março


O programa encerrou o segundo mês do ano com edição especial de nº 400, que teve a honra de entrevistar o músico, produtor e jornalista Thomas Pappon, direto de Londres, onde ele reside. Fizemos um vídeo-teaser bem legal, para este que foi um dos melhores programas MDC em 8 anos


Esta arte para a ed. 403, de 19 de março, em comemoração aos 80 anos de Elis Regina, foi das mais bonitas. A Pimentinha merece


Esta também, do programa 406, ficou interessante e visualmente instigante


Primeira vez que houve um díptico para chamar um programa, e foi na ed. 404, em março. Como foi bom ver essa gente sendo presa...


Mais uma bem legal de 2025, esta para a reprise da ed. 240, em abril, com o olhar característico do Carletto


E quando numa mesma semana se perde Nana Caymmi e Cristina Buarque? A gente uniu as duas em uma homenagem no MDC do começo de maio


E teve mais perdas entre maio e juno que viraram arte do MDC: Sebastião Salgado, Pepe Mujica e Sly Stone


Claro que a gente tinha que tirar um sarro da coqueluche do Brasil, "Vale Tudo", novela com a qual o MDC rivalizou tête-à-tête a audiência no horário nobre toda quarta-feira (#SQN)


E quando tivemos a felicidade de interromper a programação para dar a notícia do Plantão MDC, que o Bozo estava preso?! Começávamos a lavar a alma neste programa 422


O MDC 420 também teve atração especial, que foi a entrevista do músico e produtor Xuxa Levy, para o qual montamos esse pequeno vídeo em 23 de julho



E não é que em semanas subsequentes de final de agosto e início de setembro perdemos Jaguar e Verissimo? Só mesmo Sig e as Cobras para nos consolar


O soco que o Wanderlei Silva tomou não podia deixar de ilustrar a arte daquela semana de começo de outubro, né?


Pelo menos o MDC matou Odete Roitman, o que o fez com muita frieza e sem deixar vestígios
em 8 de outubro, para o programa especial 430


Aí o "imbrochável" vai lá e enfia um ferro de solda na tornozeleira eletrônica. Não tem como não virar arte do MDC! 


Outros dois grandes que partiram: Hermeto Pascoal, em setembro, e Lô Borges já em novembro. Foram tema dos nossos MDC 427 e 434 respectivamente


Na semana da Consciência Negra, repetimos o programa de nº 200 com a entrevista com Jards Macalé, outro grande que a gente perdia repentinamente naquele mês, e por isso recuperamos o belo vídeo-teaser que montamos quando de sua exibição em 2011. Salve Macao!



Pra encerrar o ano com mais um prêmio, ninguém melhor que ela, Fernandinha, dando uma chinelada na cara da extrema-direita para nosso MDC de Natal



Daniel Rodrigues

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Música da Cabeça - Programa #446

 

A nevasca no Hemisfério Norte tá tão forte, que quase não dá pra ver o que tem na frente. Por isso, o MDC desta semana vai desembaçar. Bem diante dos olhos estão Kraftwerk, João Nogueira, James Brown, Renato Russo, Caetano Veloso, Elisa Lucinda e mais. Também, Cabeça dos Outros, Palavra, Lê, Música de Fato, tudo aquilo! Garantindo boa visibilidade, o programa vai ao ar às 21h na flocada Rádio Elétrica. Produção, apresentação e visão turva: Daniel Rodrigues


www.radioeletrica.com

sábado, 31 de janeiro de 2026

“A Vizinha Perfeita”, de Geeta Gandbhir (2025)

 
INDICAÇÃO
MELHOR DOCUMENTÁRIO LONGA-METRAGEM

É impressionante como o gênero documentário é capaz de, no decorrer da história do cinema, seguidamente surpreender. Os diversos estilos narrativos possíveis desta forma de se fazer cinema (observacional, expositivo, participativo, poético, docudrama, performático, entre outros) parecem inesgotáveis. Ao ver o impactante “A Vizinha Perfeita”, de Geeta Gandbhir, depara-se não necessariamente com um novo modelo de documentação audiovisual, visto que se trata, sem dúvida, de um filme observacional montado a partir de materiais de arquivo, o que é bastante comum. O que impressiona, no entanto, não é só a câmera como testemunha, típico dos docs feitos a partir da observação, mas a fonte desse material constituidor da obra: as câmeras corporais da polícia do Condado de Marion, na cidade de Ocala, Flórida, Estados Unidos, onde um crime acontece.

Prêmio de Melhor Direção de Documentário Norte-Americano no Festival de Sundance 2025, a “Vizinha...” reconta a história do homicídio de Ajike Owens, morta pela vizinha Susan Lorincz após uma disputa por crianças que brincavam perto de sua propriedade. O filme utiliza praticamente 100% de imagens de câmaras corporais da polícia e entrevistas para investigar como uma pequena discórdia se transformou num trágico evento, explorando o impacto da controversa lei de autodefesa conhecida como "Stand Your Ground" e o racismo sistêmico nos EUA.

Alguns elementos fílmicos chamam muito a atenção. A começar, a montagem. A cargo de Viridiana Lieberman, a edição reconstrói a tragédia pela perspectiva temporal cronológica, sem deixar de se valer da estratégia “in medias hes”, aquela muito usada nos filmes de ficção em que uma cena-chave do meio da história é posta estrategicamente na abertura da fita para “enganchar” o espectador. No caso de “A Vizinha...”, sabe-se que alguém foi baleado, pois isso é contado a partir de chamados telefônicos à polícia, que se dirige até o local e, ao chegar, encontra todo o caos armado. A partir disso, volta-se no tempo para detalhar cronologicamente e sempre do ponto de vista “físico” dos policiais os vários e reiterados chamados realizados por Susan, uma idosa branca que reclamava dos vizinhos, a maioria crianças pretas. Assim, a diretora dá a quem assiste a oportunidade de entender por si a genealogia dos acontecimentos, que envolve intolerância, incivilidade e, acima de tudo, preconceito racial.

Tudo culmina num final avassalador, deixando somente para a última cena, já nos créditos finais, a resolução do caso, e essa opção narrativa transmite entendimentos importantes. Primeiro, o de que a travessia importa tanto quanto a chegada. O racismo estrutural é um problema social tão sério e impregnado socialmente, que reduzi-lo somente à punição a quem o comete seria omitir sua complexidade. É necessário que as sociedades democráticas exponham os fatos da maneira mais fiel possível como o filme faz para que todos os pontos sejam observados, refletidos e transformados. Igualmente, a forma de contar a história prende o espectador até o final, o qual quer saber se, de fato, tudo aquilo que foi revelado tão visceralmente resultará em justiça. Uma aula de narrativa.

Uma das cenas do filme: imagem gerada pela câmara corporal de um dos policiais 

Outro aspecto também chama bastante atenção em “A Vizinha...”, que tem a ver com a “atuação” dos “personagens”, mas que implica diretamente no conteúdo de maneira ontológica. Qual seja: a postura dos policiais diante das situações que se apresentam, literalmente, diante deles. Em épocas de barbaridades cometidas pela polícia de imigração dos Estados Unidos ou de governos fascistas como o do Estado de São Paulo - que chegam a pensar retirar as câmeras corporais de seus agentes -, o departamento policial deste pequeno condado norte-americano ensina como prepará-los técnica e humanisticamente. É visível que todos são muito bem treinados para lidar com ocasiões diversas, inclusive a que envolvia este caso, bastante delicada em vários momentos. Eles demonstram empatia, distanciamento, firmeza ou compreensão conforme a situação exija. Não deixam de serem humanos mesmo sendo “homens/mulheres da lei”.

Esse aspecto ético da atuação dos policiais se configura num elemento metalinguístico, pois simbólico da obra enquanto cinema, uma vez que, ao transmitir o “olhar” do policial e, mais do que isso, como ele atua (com seus acertos e possíveis erros), está pondo em questionamento também os limites do fazer cinematográfico, dado que aquelas imagens não foram, originalmente, produzidas para terem como fim um filme. Entra-se, assim, num questionamento: será que se a postura da polícia não fosse, neste caso, ilibada - como eles próprios gostam de dizer, muitas vezes cinicamente - a Justiça liberaria as gravações dos vídeos? E se liberasse, que abordagem a diretora daria ao projeto? Talvez, conforme o transcorrer dos fatos, nem fosse a vizinha o principal tema do filme, mas - e não é difícil supor, visto que estamos acostumados a ver atrocidades sendo cometidas pela polícia - o acobertamento ou incentivo de suas ações. Não é salutar falar daquilo que um filme não contém, até injusto. Mas nesse caso, suscitar o que não está na tela é um elogio.

Afora isso, o filme de Geeta é arrebatador em vários pontos, como quando as câmeras captam o momento em que os filhos da vítima descobrem que a mãe está morta sob o silêncio comovido dos policiais, que apenas "veem" mas não ousam falar nada. O que dizer, de fato? Absolutamente comovente, pois é o registro cru de uma realidade muito triste e resultante de problemas sociais muito maiores..

“A Vizinha...” é um dos fortes candidatos ao Oscar na categoria Longa de Documentário, uma vez que, diante dos últimos acontecimentos de violência policial nos EUA, o tema voltou a ser motivo de debate. E, convenhamos: premiar um soco no estômago como é “A Vizinha...”, que critica o racismo, o armamentismo civil e a violência na sociedade norte-americana, seria bastante propício em tempos de governo Trump.


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trailer de "A Vizinha Perfeita"


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"A Vizinha Perfeita"
título original: The Perfect Neighbor
direção: Geeta Gandbhir
gênero: documentário
duração: 1h36min.
país: Estados Unidos
ano: 2025
onde assistir: Netflix



Daniel Rodrigues