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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

cotidianas #904 - Meu Pequeno Mundo

 



Acordou assustado de um sonho estranho. Não lembrava muito bem. Mas, enfim, não tinha tempo pra ficar pensando nisso mesmo. Já estava em cima da hora pro trabalho. Preparou-se apressadamente, esquentou o café de ontem, nem teria tempo pra comer nada. Já ia abrindo a porta de casa para sair quando viu aquele bolinho em cima da mesa, com um bilhetinho assentado sobre ele, escrito "Coma-me". Pensou quem teria deixado aquilo ali, a namorada, a vizinha, a faxineira... Mas, com fome e sem tempo para nada, não pensou duas vezes. Apanhou o bolo e meteu na boca. Depois questionário a origem do doce.

Correu para o ponto de ônibus. Teve uma certa dificuldade para embarcar. Parecia que o degrau da entrada estava mais alto que de costume. "Esses novos ônibus que estão  circulando...", pensou, dEsapontado. Sem assentos disponíveis, esticou o braço para segurar-se na barra horizontal. Definitivamente, a nova frota não fora pensada para conforto do passageiro!

Para descer, teve que literalmente saltar do ônibus. No curto trajeto que percorreu entre o ponto e o prédioda empresa, tudo pareceu estranho à sua volta mas não sabia identificar exatamente o quê. 

No prédio, foi ajudado por um gentil senhor para apertar o botão do décimo sexto andar, no elevador. Percorreu os corredores do escritório como se ninguém o visse. Era impressão sua ou as divisórias estavam mais altas? Chegou à sua estação de trabalho e para sua surpresa não alcançava a cadeira. Ficou na ponta dos pés, deu um impulso, não adiantou. Teve que derrubar a lixeira e subir nela, deitada, para alcançar a área do assento. 

Ouviu de um colega passava na entrada da sua baia, "O nosso colega aqui não vem hoje, não?".

Estava ali, mas ninguém o via. Ele pelo contrário, via os demais se esticando como que intermináveis na direção do teto. Só então entendera o que estava se passando, por mais inverossímil que aquilo lhe parecesse. Olhou em volta como se procurasse alguma solução. Talvez tivesse encontrado: em cima da sua mesa do escritório repousava um pequeno frasco com um líquido amarelo fluorescente dentro, com um rótulo  escrito, "Beba-me". Supondo que o bolo tivesse causado tudo aquilo, imaginou que a bebida o fizesse voltar aí normal.

Tomou distância até o final da cadeira, correu, deu um pulo, segurou na borda da mesa e conseguiu subir. Com muito esforço escalou a pequena garrafa, tirou a rolha e a empurrou, derramando o líquido na mesa, à qual pôs-se a lamber sofregamente como um se fosse um gatinho.


*******


Um estrondo acompanhado de um tremor assustou a todos. E outro, e outro... Se repetiam como passos. 

No escritório, todos correram para a janela para ver o que se passava. 

Um olho enorme cobriu toda a superfície da janela espiando para dentro.



Cly Reis

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