O movimento krautrock alemão foi marcado pela diversidade e pelo avanço tecnológico. Embora todos os grupos e artistas se aproximem de um mesmo motivador inicial, o cenário da Alemanha pós-guerra e os efeitos da reindustrialização do país, as diferenças entre as bandas e artistas se tornariam marcantes à medida que os trabalhos desses músicos iam se desenvolvendo. E a tecnologia, princípio fundamental a toda geração da nova música alemã de meados dos anos 60, desdobrou-se de formas distintas na musicalidade de cada um. Kraftwerk, Klaus Schulze e Neu!, por exemplo, optaram pelo uso sistemático dos sintetizadores e sequenciadores, tornando-se seguidores naturais da linha de Darmstadt de Stockhausen e Boulez. Can, Gong e Faust, no entanto, foram aos poucos assumindo sonoridades mais psicodélicas e progressivas, dando aos sons das máquinas um papel complementar aos arranjos.
No caso da Popol Vuh, banda de Munique idealizada pelo viajandão Florian Fricke, estudante de piano de cauda e composição na Universidade de Freiburg – e crítico de cinema em tempo parcial, além de amigo do cineasta Werner Herzog – essa dicotomia entre eletrônico e analógico se dá noutra dimensão: no convívio quase dual entre o clássico e o moderno. Isso porque, depois do primeiro disco, “Affenstunde”, de 1970, a Popol Vuh tornou-se deliberadamente anacrônica, abandonando paulatinamente moogs, sintetizadores e afins. O negócio era manejar instrumentos acústicos como tanpura, oboé, cítara e percussões africanas das mais diversas. De sonoridades que vão do folk ao hindu, marcando álbuns como “In Den Gärten Pharaos” (1971), “Hosiana Mantra” (1972) e “Das Hohelied Salomos” (1975), eles chegam, em 1976, a seu melhor resultado: o enigmático e deslumbrante “Letzte Tage - Letzte Nächte”, que completa 50 anos de lançamento em 2026.
Entre os muitos músicos alemães que, na década de 1970, olharam para a Índia e o Extremo Oriente na busca de absorverem a espiritualidade oriental, Fricke é o maior exemplo. Seu trabalho é uma exploração constante do mesmo tema: como expressar a espiritualidade mais pessoal, profunda e austera por meio da música clássica ocidental, da música sacra e do rock profano. O nome da banda diz tudo: uma homenagem direta ao livro sagrado dos Maias, redigido na Mesoamérica no século XVI. Por isso, a Popol Vuh pode estar na Baviera do século XVIII, na Amazônia do Século XVI, na Índia védica de 1500 a.C., na Jerusalém do período bíblico. ou num futuro distópico imaginado. Mas nunca no tempo presente. “Letzte...”, certamente o disco mais rock da banda, é permeado por todas essas referências.
Fricke e Daniel Fichelscher (responsáveis pela maioria dos instrumentos das gravações), travam um duelo musical, que expõe com inédita clareza a natureza dialética da Popol Vuh, que se equilibra entre sagrado e profano, classicismo e modernidade, teutonismo e psicodelia. “A dialética entre os dois é um espetáculo por si só: a guitarra é o demônio que salta em cada passagem, enquanto o piano é o anjo que tenta manter o calor e a tranquilidade. A guitarra é puro caos hedonista, enquanto o piano é ordens ascéticas e clássicas”, descreve o historiador cultural ítalo-americano Piero Scaruffi. Por falar em guitarras, as de “Der Grosse Krieger”, faixa de abertura, não só chamam para si o protagonismo como em muito lembram a sonoridade da The Cure e, especialmente, o estilo de tocar de Robert Smith.
Essa parecença não é infundada, visto que, dark, o som da Popol Vuh é quase gothic-punk, o que se nota também nas instrumentais “Oh Wie Nah Ist Der Weg Hinab”. Música-irmã, “Oh Wie Weit Ist Der Weg Hinauf “ vem em seguida como numa resposta. Ritualística, traz nas vozes das cantoras Djong Yun e Renate Knaup em vocalises que fazem lembrar o mantra hinduísta ao deus Krishna (“Haram Dei Raram Dei Haram Dei Ra”), mas não deixa de se percorrer pelo universo do rock progressivo.
Depois da folk “In Deine Hände”, “Kirye” comprova aquilo que Scaruffi salienta, que é a contribuição lírico-sacra de Fricke. A despeito da carga de rock prog engendrado por Fichelscher, não é na guitarra, mas no piano que a canção é forjada. Melódica e suplicante, a se ver pelo significado da palavra de origem no grego antigo ("Senhor, tende piedade de nós"), “Kyrie” também vai ganhando intensidade no entoar das vozes femininas e da guitarra. Na sequência, “Haram Dei Raram Dei Haram Dei Ra” repete a melodia de “Oh Wie Weit Ist Der Weg Hinauf “, só que agora trazendo como título as palavras de chamamento à energia divina Bhakti Yoga presente na letra.
Talvez as duas mais bonitas faixas do álbum são também as que o encerram em um clima elevado. A primeira é “Dort Ist Der Weg”, um rock experimental que antevê a sonoridade de banda do pós-punk europeu como a já mencionada The Cure. Rock com influências das culturas indianas, germânicas, britânicas, célticas e romani, algo que também se poderia já chamar de world music (e que ficaria evidente no som da Popol Vuh em “City Raga”, de1995).
Já a faixa-título é ainda melhor. Esta antecipa a sonoridade de outros ilustres britânicos da cena alternativa: a Cocteau Twins. E não a Twins tristonha da primeira fase, mas a sua versão dream pop, como uma música feita para (e por) os anjos. Afora a guitarra etérea, que em muito lembra a de Robin Guthrie, as vozes de Djong e Renate cantando juntas aumentam ainda mais a semelhança com os escoceses, que usavam o vocal de Liz Frazer em overdub, produzindo um efeito de vozes paralelas e complementares muito parecido. Afora isso, a própria melodia climática faz remeter aquilo que a Cocteau Twins faria anos mais tarde em discos como célebres como “Heaven or Las Vegas”.
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FAIXAS:
2. "Oh Wie Nah Ist Der Weg Hinab" - 4:36
3. "Oh Wie Weit Ist Der Weg Hinauf" - 4:30
4. "In Deine Hände" - 3:00
5. "Kyrie" - 4:38
6. "Haram Dei Raram Dei Haram Dei Ra" - 1:30
7. "Dort Ist Der Weg" - 4:30 (Fichelscher/Fricke)
8. "Letzte Tage - Letzte Nächte" - 4:20 (Fichelscher/Fricke)


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