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quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

“Hamnet: A Vida Antes de Hamlet", de Chloé Zhao (2025)

INDICAÇÕES
MELHOR FILME
MELHOR DIREÇÃO
MELHOR ATRIZ 
MELHOR ATOR COADJUVANTE
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
MELHOR FIGURINO
MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

É interessante perceber como o cinema, mesmo com seu alto grau de imaginação e artificialidade, consegue trazer para o mundo dos mortais aqueles que, no imaginário popular, são tidos como seres sobre-humanos, mitológica, perfeitos. Não raro, há, inclusive, um sentimento de decepção por parte do espectador quando cai uma máscara revestida de endeusamento. Os filmes já trouxeram à realidade terrena figuras públicas intocadas como Elvis Presley, Michelangelo, Steve Jobs e Nelson Mandela, para citar alguns, mostrando-os, quando transpostos para a tela de forma dramatizada, que eles, sim, são imperfeitos e sofrem tal qual todos os seres que pisam a Terra.

Em seu quarto longa-metragem, a talentosa cineasta chinesa Chloé Zhao atinge esse propósito, porém de uma maneira particular. Considerada uma das principais diretoras do cinema da atualidade, a vencedora do Oscar de Melhor Direção e Filme por "Nomadland", em 2021, em “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet" ela extrai da imagem mítica do dramaturgo inglês William Shakespeare esse grau de humanismo, só que a partir de um olhar diferenciado, que passa necessariamente pelo feminino.

A história se passa na Inglaterra rural do século 16, quando o então jovem professor de latim William (Paul Mescal) encontra aquela que se tornaria seu grande amor e mãe de seus filhos, a “feiticeira” (leia-se: feminina) Agnés, vivida por Jessie Buckley, grande candidata ao Oscar de Atriz. A partir da experiência do luto pela perda de um filho do casal, o filme explora a capacidade interior de superação e ressignificação individual, ao mesmo tempo em que revela o pano de fundo para a criação da tragédia “Hamlet”, a obra mais famosa do autor britânico.

O filme trata sobre questões humanas muito profundas e conflitantes, como as escolhas entre vida profissional e familiar e os sacrifícios necessários para que se chegue a algum propósito na vida. No caso, sacrifícios pautados principalmente pelos esforços que a mulher é obrigada a fazer em nome de uma causa maior. Não se exclui a manifesta dor do pai em relação à perda do filho quando ele, trabalhando longe do pequeno vilarejo de Stratford-upon-Avon, estava ausente. Tanto é que, numa forma de sublimar essa perda, genialmente ele transpõe essa dor para a peça, a qual se transformaria num epiteto da arte universal por tantos séculos.

Porém, a abordagem dada por Zhao e a roteirista Maggie O’Farrell – esta, autora do livro que dá origem ao enredo – pretende privilegiar o olhar feminino e seu poder de realização do mundo. É ela que gera, que pare e que sofre, in loco, com a morte. Por mais compartilhada que possa ser o sofrimento da perda (bem como os perrengues diários de uma vida provinciana, a qual ele havia praticamente deixado para trás para correr atrás do seu sonho no teatro), é Agnés, a figura da mulher, quem está de corpo presente. Tão essencial é seu papel para a história da família – e, por consequência, para a história inglesa e da arte ocidental – que, não fosse sua sensibilidade e senso de desapego, o marido padeceria com seu imenso talento em um pequeno povoado retrógrado e pobre.

Jessie Buckley como a forte e sofrida Agnés: possível candidata a Oscar

Há um aspecto de condução narrativa também a se observar. A diretora propositalmente desloca não somente o foco do protagonista, que não é o célebre escritor, mas, sim, sua esposa Agnés, bem como, epistemologicamente, o próprio título do filme, que funciona como uma licença poética. Hamnet, o filho do casal morto quando criança, tem participação pontual no decorrer da trama, porém suficiente para justificar o destaque a seu nome, mesmo que o título o falseie como principal.

Afora isso, o roteiro em forma de diálogos e texto é bem escrito, mas não surpreende. Além de algumas repetições um tanto desnecessárias, artifício para facilitar a apreensão por parte do espectador, a dualidade “morte versus existência”, centro tensor e filosófico de “Hamlet”, é trazida para dentro do filme até com certa banalidade. É como se a famosa peça se reduzisse à importante - mas batida – frase: “Ser ou não ser: eis a questão”, semelhante a resumir Nietsche somente ao pensamento “o que não me mata me fortalece” ou Descartes a “penso, logo, existo”. Até mesmo o Soneto 12 (muito mais criativamente utilizado por Jorge Furtado em “O Homem que Copiava”, de 2003), que igualmente trata da questão de morte (envelhecimento) e existência (continuidade da prole), é evocado. Nada muito rebuscado diante de uma obra rica e complexa como a de Shakespeare.

A bela fotografia (Łukasz Żal), a trilha (Max Richter) e a direção sensível da Zhao certamente credenciam “Hamnet” a concorrer ao Oscar pelo menos nestas duas categorias, afora as de Filme e Atriz, como já mencionado. Igualmente, está entre os principais indicadas ao Globo e Ouro e ao Critics Choice Awards, cujos premiados serão revelados em janeiro próximo. Entretanto, trata-se de apenas um bom filme, que está longe, aliás, do essencial e original "Nomadland". É salutar, contudo, o olhar feminino sobre questões até então vistas massivamente pelos olhos masculinos, brancocentrados e europeizados. Neste começo de segundo quarto do século 21, se é para se quebrar arquétipos de endeusamento, que seja, então, pela visão das mulheres.

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 trailer de "“Hamnet: A Vida Antes de Hamlet"

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"Hamnet: A Vida Antes de Hamlet"
direção: Chloé Zhao
título original: "Hamnet"
elenco: Jessie Buckley, Paul Mescal, Emily Watson
gênero: drama, biografia
duração: 2h05min.
país: Reino Unido, Estados Unidos
ano: 2025
onde assistir: Nos cinemas (a partir de 29 de janeiro de 2026)



Daniel Rodrigues

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