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sábado, 31 de janeiro de 2026

“A Vizinha Perfeita”, de Geeta Gandbhir (2025)

 
INDICAÇÃO
MELHOR DOCUMENTÁRIO LONGA-METRAGEM

É impressionante como o gênero documentário é capaz de, no decorrer da história do cinema, seguidamente surpreender. Os diversos estilos narrativos possíveis desta forma de se fazer cinema (observacional, expositivo, participativo, poético, docudrama, performático, entre outros) parecem inesgotáveis. Ao ver o impactante “A Vizinha Perfeita”, de Geeta Gandbhir, depara-se não necessariamente com um novo modelo de documentação audiovisual, visto que se trata, sem dúvida, de um filme observacional montado a partir de materiais de arquivo, o que é bastante comum. O que impressiona, no entanto, não é só a câmera como testemunha, típico dos docs feitos a partir da observação, mas a fonte desse material constituidor da obra: as câmeras corporais da polícia do Condado de Marion, na cidade de Ocala, Flórida, Estados Unidos, onde um crime acontece.

Prêmio de Melhor Direção de Documentário Norte-Americano no Festival de Sundance 2025, a “Vizinha...” reconta a história do homicídio de Ajike Owens, morta pela vizinha Susan Lorincz após uma disputa por crianças que brincavam perto de sua propriedade. O filme utiliza praticamente 100% de imagens de câmaras corporais da polícia e entrevistas para investigar como uma pequena discórdia se transformou num trágico evento, explorando o impacto da controversa lei de autodefesa conhecida como "Stand Your Ground" e o racismo sistêmico nos EUA.

Alguns elementos fílmicos chamam muito a atenção. A começar, a montagem. A cargo de Viridiana Lieberman, a edição reconstrói a tragédia pela perspectiva temporal cronológica, sem deixar de se valer da estratégia “in medias hes”, aquela muito usada nos filmes de ficção em que uma cena-chave do meio da história é posta estrategicamente na abertura da fita para “enganchar” o espectador. No caso de “A Vizinha...” sabe-se que alguém foi baleado, pois isso é contado a partir de chamados telefônicos à polícia, que se dirige até o local e, ao chegar, encontra todo o caos armado. A partir disso, volta-se no tempo para detalhar cronologicamente e sempre do ponto de vista “físico” dos policiais, os vários e reiterados chamados realizados por Susan, essa idosa branca que reclamava dos vizinhos, a maioria crianças pretas. Assim, a diretora dá a quem assiste a oportunidade de entender por si a genealogia dos acontecimentos, que envolve intolerância, incivilidade e, acima de tudo, preconceito racial.

Tudo culmina num final avassalador, deixando somente para a última cena, já nos créditos finais, a resolução do caso, e essa opção narrativa transmite entendimentos importantes. Primeiro, o de que a travessia importa tanto quanto a chegada. O racismo estrutural é um problema social tão sério e impregnado socialmente, que reduzi-lo somente à punição a quem o comete seria omitir sua complexidade. É necessário que as sociedades democráticas exponham os fatos da maneira mais fiel possível como o filme faz para que todos os pontos sejam observados, refletidos e transformados. Igualmente, a forma de contar a história prende o espectador até o final, o qual quer saber se, de fato, tudo aquilo que foi revelado tão visceralmente resultará em justiça. Uma aula de narrativa.

Uma das cenas do filme: imagem gerada pela câmara corporal de um dos policiais 

Outro aspecto também chama bastante atenção em “A Vizinha...”, que tem a ver com a “atuação” dos “personagens”, mas que implica diretamente no conteúdo de maneira ontológica. Qual seja: a postura dos policiais diante das situações que se apresentam, literalmente, diante deles. Em épocas de barbaridades cometidas pela polícia de imigração dos Estados Unidos ou de governos fascistas como o do Estado de São Paulo, que chegam a pensar retirar as câmeras corporais de seus agentes, o departamento policial deste pequeno condado norte-americano ensina como prepará-los técnica e humanisticamente. É visível que todos são muito bem treinados para lidar com ocasiões diversas, inclusive a que envolvia este caso, bastante delicada em vários momentos. Eles demonstram empatia, distanciamento, firmeza ou compreensão conforme a situação exija. Não deixam de serem humanos mesmo sendo “homens/mulheres da lei”.

Esse aspecto ético da atuação dos policiais se configura num elemento metalinguístico, pois simbólico da obra enquanto cinema, uma vez que, ao transmitir o “olhar” do policial e, mais do que isso, como ele atua (com seus acertos e possíveis erros), está pondo em questionamento também o fazer cinematográfico, dado que aquelas imagens não foram, originalmente, produzidas para terem como fim um filme. Entra-se, assim, num questionamento: será que se a postura da polícia não fosse, neste caso, ilibada - como eles próprios gostam de dizer, muitas vezes cinicamente - a justiça liberaria as gravações dos vídeos? E se liberasse, que abordagem a diretora daria ao projeto? Talvez, conforme o transcorrer dos fatos, nem fosse a vizinha o principal tema do filme, mas - e não é difícil supor, visto que estamos acostumados a ver barbaridades sendo cometidas pela polícia - o acobertamento de suas ações. Não é salutar falar daquilo que um filme não contém, até injusto. Mas nesse caso, suscitar o que não está na tela é um elogio.

Afora isso, o filme de Geeta é arrebatador em vários pontos, como quando as câmeras captam o momento em que os filhos da vítima descobrem que a mãe está morta sob do silêncio comovido dos policiais, que apenas "veem" mas não ousam falar nada. O que dizer, de fato? Absolutamente comovente, pois é o registro cru de uma realidade muito triste e resultante de problemas sociais muito maiores..

“A Vizinha...” é um dos fortes candidatos ao Oscar na categoria Longa de Documentário, uma vez que os últimos acontecimentos a violência policial nos EUA voltou motivo de debate. E, convenhamos: premiar um soco no estômago como é “A Vizinha...”, que critica o racismo, o armamentismo civil e a violência na sociedade norte-americana, seria bastante propício em tempos de governo Trump.


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trailer de "A Vizinha Perfeita"


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"A Vizinha Perfeita"
título original: The Perfect Neighbor
direção: Geeta Gandbhir
gênero: documentário
duração: 1h36min.
país: Estados Unidos
ano: 2025
onde assistir: Netflix



Daniel Rodrigues

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