A gente avisou que o véio tava chegando... Deixou chegar agora já era! Wayne Shorter põe mais um disco entre os ÁLBUNS FUNDAMENTAIS em 2025 e agora divide a liderança com os Rapazes de Liverpool com mais obras destacadas na nossa seção entre os artistas internacionais. Já entre os brasileiros, com a inclusão de "Dia Dorim, Noite Neon", entre os nossos Fundamentais, Gilberto Gil empata com o mano Caetano e os baianos agora dividem a liderança nacional. Mas é bom ficarem espertos porque, comendo pelas beiradas como um bom mineiro, Milton Nascimento aproveita a parceria com o agora líder Shorter e se aproxima da ponta também.
Entre os anos que mais entregaram grandes álbuns, não tivemos mudanças no ano que passou e, ainda que a década de 70 tenha mais representantes, o ano de 1986 segue na frente.
2025 nos trouxe alguns estreantes na nossa seção de grandes discos, como os alemães do Trio, os ingleses do Sleaford Mods, o prodígio Father John Misty, o sambista Argemiro Patrocínio e regionalismo do Quinteto Armorial, mas marcou também os 80 anos do grande Ivan Lins e a entrada da Estônia na galeria de países integrantes da nossa lista, com o genial "Tabula Rasa", de Arvo Pärt.
Confere aí, então, como ficaram as posições nos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS:
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PLACAR POR ARTISTA (INTERNACIONAL)
The Beatles e Wayne Shorter***: 7 álbuns
Kraftwerk e John Coltrane: 6 álbuns
David Bowie, Rolling Sones, Pink Floyd, Miles Davis, Talking Heads e John Cale* **: 5 álbuns cada
The Who, The Smiths, Led Zeppelin, Bob Dylan, Philip Glass e Lee Morgan: 4 álbuns cada
Stevie Wonder, Cure, Van Morrison, R.E.M., Sonic Youth, Kinks, Madonna, Iron Maiden , U2, Lou Reed**, e Herbie Hancock***: 3 álbuns cada
Björk, Beach Boys, Cocteau Twins, Cream, Chemical Brothers, Sean Lennon, Deep Purple, The Doors, Echo and The Bunnymen, Elvis Presley, Elton John, Queen, Creedence Clarwater Revival, Janis Joplin, Johnny Cash, Joy Division, Massive Attack, Morrissey, Muddy Waters, Neil Young and The Crazy Horse, New Order, Nivana, Nine Inch Nails, PIL, Prince, Prodigy, Public Enemy, Ramones, Siouxsie and The Banshees, The Stooges, Pixies, Dead Kennedy's, Velvet Underground, Metallica, Dexter Gordon, PJ Harvey, Rage Against Machine, Body Count, Suzanne Vega, Beastie Boys, Ride, Faith No More, McCoy Tyner, Vince Guaraldi, Grant Green, Santana, Ryuichi Sakamoto, Chick Corea, Sinéad O'Connor, Marvin Gaye e Brian Eno* : todos com 2 álbuns
*contando com o álbum Brian Eno e John Cale , ¨Wrong Way Out"
**contando com o álbum Lou Reed e John Cale, "Songs for Drella"
*** contando o álbum "Five Star', do V.S.O.P.
PLACAR POR ARTISTA (NACIONAL)
Caetano Veloso e Gilberto Gil* **: 8 álbuns*#
Chico Buarque ++ #: 7 álbuns
Jorge Ben ** e João Gilberto* **** e Milton Nascimento ***** º >: 5 álbuns
Tim Maia, Rita Lee e Legião Urbana: 4 álbuns
Gal Costa, Titãs, Paulinho da Viola, João Donato, Engenheiros do Hawaii, Criolo º e Tom Jobim +: 3 álbuns cada
João Bosco, Lobão, Emílio Santiago, Jards Macalé, Elis Regina, Edu Lobo+, Novos Baianos, Paralamas do Sucesso, Ratos de Porão, Roberto Carlos, Sepultura, Cartola e Baden Powell*** : todos com 2 álbuns
*contando com o álbum "Brasil", com João Gilberto, Maria Bethânia e Gilberto Gil
**contando o álbum Gilberto Gil e Jorge Ben, "Gil e Jorge"
*** contando o álbum Baden Powell e Vinícius de Moraes, "Afro-sambas"
**** contando o álbum Stan Getz e João Gilberto, "Getz/Gilberto"
***** contando com o álbum Milton Nascimento e Lô Borges, "Clube da Esquina"
+ contando com o álbum "Edu & Tom/ Tom & Edu"
++ contando com o álbum "O Grande Circo Místico"
# contando com o álbum "Caetano & Chico Juntos e Ao Vivo"
º contando com o álbum Milton Nascimento e Criolo "Existe Amor"
>contando com o álbuns "Native Dancer", com Wayne Shorter
PLACAR POR DÉCADA
anos 20: 2
anos 30: 3
anos 40: 1
anos 50: 121
anos 60: 103
anos 70: 171
anos 80: 146
anos 90: 111
anos 2000: 22
anos 2010: 19
anos 2020: 3
*séc. XIX: 2 *séc. XVIII: 1 PLACAR POR ANO
1986: 24 álbuns
1977: 22 álbuns
1972: 21 álbuns
1969 e 1985: 20 álbuns
1976: 19 álbuns
1970, 1971 e 1992: 18 álbuns
1968, 1973, 1975 e 1979 17 álbuns
1967 e 1980: 16 álbuns cada
1983, 1965 e 1991: 15 álbuns cada
1988, 1989, 1990 e 1994: 14 álbuns
1987: 13 álbuns
PLACAR POR NACIONALIDADE*
Estados Unidos: 224 obras de artistas*
Brasil: 174 obras
Inglaterra: 131 obras
Alemanha: 12 obras
Irlanda: 8 obras
Canadá: 5 obras
Escócia: 4 obras
Islândia, País de Gales, Jamaica, México: 3 obras
Austrália, França e Japão: 2 cada
Itália, Hungria, Suíça, Bélgica, Rússia, Angola, Nigéria, Argentina, Estônia e São Cristóvão e Névis: 1 cada
*artista oriundo daquele país
(em caso de parcerias de artistas de países diferentes, conta um para cada)
“É nessa parte que eu ganho tudo o que eu sempre quis? Quem disse isso? Posso receber meu dinheiro de volta?”
Trecho de Bored In The USA
Falar sobre amor em músicas é clichê, certo? Convivemos com artistas cantando sobre o tema há séculos, oferecendo diversos pontos de vista (que muitas vezes se repetem) sobre esse sentimento único da experiência humana. Um álbum conceitual também soa como um lugar-comum à essa altura do século XXI, não? Pois bem: em 2015, um multi-instrumentista nascido em Maryland, com parte de sua carreira na cena de Seattle e vivendo em Los Angeles, Josh Tillman, lançou sob sua persona Father John Misty sua grande obra (até o momento): "I Love You, Honeybear".
Proveniente de uma família evangélica, Tillman cresceu em um ambiente culturalmente opressivo, onde não pôde escutar música "secular" até sair de casa. A única exceção que conseguiu abrir foi quando já era adolescente e convenceu seus pais que Bob Dylan era um artista cristão, por conta do álbum "Slow Train Coming".
Antes do sucesso, o artista lançou diversos discos sob o nome J. Tillman, que tiveram uma recepção modesta na cena indie-folk americana. Em 2008 se tornou baterista da banda Fleet Foxes e após quatro anos com o grupo, Josh deixou o grupo e se mudou para Los Angeles numa espécie de última tentativa (ou desespero). Lá, durante uma bad trip de LSD, passou dias sob efeito da droga e, ao retornar à plena consciência, surgiu com inúmeras inspirações musicais — além de um novo alter ego: sábio, irônico e quase messiânico: o Father John Misty.
Em 2012, lançou seu primeiro disco sob o seu pseudônimo: Fear Fun, pelo selo Sub Pop (com o qual segue até hoje). O álbum recebeu avaliações positivas e trouxe a Tillman mais visibilidade do que seus 10 anos anteriores de carreira. Canções como "Nancy From Now On" e "I'm Writing a Novel" revelam seu estilo: recheadas de sarcasmo e auto-descobrimento, com letras inspiradas por experiências pessoais e viagens psicodélicas.
Já no segundo disco, é notável uma evolução. Um passo além em relação ao trabalho anterior, "I Love You, Honeybear" foi presença frequente nas listas de "melhores do ano" de 2015. Tillman estava claramente imerso na realidade de seu recém-celebrado casamento com a fotógrafa Emma Elizabeth Garr. Mas o álbum vai além da paixão intensa daquele momento: ele também reflete sobre a sociedade americana, o “American Way of Life” do momento e a consolidação da cultura hipster — que ele mesmo ironicamente personifica. Tudo isso engarrafado com doses de humor sem soar forçado.
Musicalmente, a obra transita entre soul, rock, folk e baladas no estilo crooner. Em vinil, "ILYHB" foi lançado como disco duplo em 45 RPM, acompanhado de um encarte riquíssimo, cheio de fotos das cartas que trocou com sua esposa, fotos da lua de mel e mais algumas imagens. Aliás, Tillman faz questão que todos os seus álbuns estejam disponíveis em vinil e até fita K7.
Destaco aqui a faixa-título, que abre o disco com uma intensidade tão grande que já nos coloca dentro do universo que o autor vivia naquele momento. A letra fala de um amor visceral: “nus, ficamos chapados no colchão, enquanto o mercado financeiro global colapsava”, e, ironicamente, chama sua parceira de “ursinho de pelúcia”. "Chateau Lobby #4 (in C for Two Virgins)" faz referência ao icônico Chateau Marmont, em Los Angeles, onde ele e Emma passaram a lua de mel. Contudo, a canção mescla realidade e ficção, abordando a perda da virgindade de maneira quase lúdica e finalizada com um belíssimo solo de trompetes.
"The Night Josh Tillman Came To Our Apt". nos traz sua melhor mimica de Velvet Underground, em que Misty conta, com enormes doses de sarcasmo a história de uma menina pretensiosa que o foi visitar, a qual ele detesta por achar que sabe de tudo, além de “ter ideias modernas e cantar igual a Sarah Vaughan”, a qual nosso locutor retruca com "Eu odeio essa levitação sentimental que garotas brancas fazem”. "The Ideal Husband" nos traz um relato de tudo que um marido ideal não deve fazer, desde mentir, sexo desprotegido e dizer coisas horríveis às pessoas que ama.
"Bored In The USA" é uma sátira amarga ao contexto do americano médio no capitalismo tardio. Diferente do Boss, Tillman inicia com um piano lastimoso, abordando sobre a amargura de um americano médio, que vive para trabalhar e pagar seu empréstimo sub-prime (típico dos EUA para compra de casas), além de citar o apego do povo estadunidense com seus símbolos, enquanto afunda em remédios para conseguir lidar com sua realidade e suas dívidas. Ao fundo, é possível escutar risos, como se ridicularizasse as situações de vida do nosso narrador.
Em "Holy Shit", nosso “pastor” segue o embalo crítica social e traz um tópico matriz da sua existência, aliado com o tópico matriz do disco: a religião e o amor. Na canção, ele cita e ilustra diversos conceitos da sociedade ocidental, os colocando em perspectiva quando comparado com o que realmente deveria significar ser humano, ou viver em uma sociedade, como no verso “talvez o amor seja uma instituição baseada na escassez de recursos; mas eu falho em entender o que isso tem a ver com você e eu".
Apesar de pessoal, a obra é extremamente universal, e é justamente o contexto de Josh Tillman que faz com que o Father John Misty traga uma nova perspectiva ao assunto. É sincera, sexy, e apaixonada, como o amor deve ser. O último verso do álbum é, supostamente, composto das primeiras palavras que disse a sua esposa: “te vejo por aí! Qual seu nome?”.
"I Love You, Honeybear" é, acima de tudo, um retrato honesto da contradição de existir: amar profundamente em um mundo cada vez mais cínico. Tillman transforma suas neuroses, senso de humor e ironia em algo que soa universal, mesmo que parta de um lugar profundamente íntimo. É um disco sobre amar e abraçar vulnerabilidades, e sobre tentar manter a sanidade quando tudo em volta parece implodir.
Clipe de"The Night Josh Tillman Came To Our Apartment", deFather John Misty
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FAIXAS:
1. 'I Love You, Honeybear" - 4:39
2. "Chateau Lobby #4 (In C For Two Virgins)" - 2:51
3. "True Affection" - 3:57
4. "The Night Josh Tillman Came To Our Apt." - 3:36
5. "When You're Smiling And Astride Me" - 4:34
6. "Nothing Good Ever Happens At The Goddamn Thirsty Crow" - 4:35