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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

COTIDIANAS nº887 Especial de Carnaval - "O samba é um desconforto potente"



As ruas são mães do samba ainda que muitas vezes tentem trancar a criança em casa. Percebo que tem uma turma acreditando em uma dicotomia perigosa: a que o samba é um retrato da nossa cordialidade como povo e o funk é o retrato de um Brasil violento, misógino e cruel. Um amigo acaba de me perguntar se eu concordo que o samba retrata um Brasil mais gentil, festeiro, carnavalesco.
Acho que a carnavalização do samba - aquele processo de vinculá-lo apenas ao perfil de música que borda a nossa suposta simpatia - foi e continua sendo em larga medida uma tentativa de domá-lo (seja por parte do Estado, da indústria fonográfica, da mídia, do mercado publicitário, de alguns sambistas etc.), exatamente porque o samba é muito mais complexo e problemático - no sentido de não se domar a análises superficiais - do que isso.
Muito mais do que gênero musical ou bailado coreográfico, o samba é elemento de referência de um amplo e complexo cultural que dele sai e a ele retorna, dinamicamente. Nos sambas vivem saberes que circulam; formas de apropriação do mundo; construção de identidades comunitárias dos que tiveram seus laços associativos quebrados pela escravidão; hábitos cotidianos; jeitos de comer, beber, vestir enterrar os mortos, amar, matar, celebrar os deuses e louvar os ancestrais. Reduzir o samba ao terreno imaginário onde mora a alegria brasileira do carnaval é um reducionismo completo.
Não custa recordar que o discurso do samba, e de toda a múltipla musicalidade oriunda da diáspora africana, também está no fundamento do tambor, que fala daquilo que nossas gramáticas não nos preparam para ler. O tambor - e são tantos! - vai buscar quem mora longe, e isso é muito sério.
O samba – de cara podemos lembrar – até a complexidade de experiências que o definem – é testemunho e fonte documental para contratar as nossas contradições poderosas, o nosso horror e as nossas escapadelas pelas frestas da festa: o beijo na cabrocha, O assassinato de Malvadeza Durão, a alvorada no morro, a prisão do Chico Brito que fuma erva do norte, a ilusão de um olhar, o mulato calado que já matou um e se garante na inexistência do X-9 em Mangueira, os poderes do jongueiro cumba, o batizado do neguinho vestido de anjo em Pirapora, o preconceito racial no casamento do neguinho e da senhorita, as porradas que o delegado Chico Palha enfiava em macumbeiro nos tempos da vadiagem, a navalha no bolso, o revólver como maneira nossa de entrar no século do progresso, a mulher vitimada pela violência, submissa como Amélia, rebelde e altaneira como Gilda; o tiro de misericórdia no menino que cresceu correndo nos becos que nem ratazana e morreu como um cachorro, gemendo como um porco... Tá tudo no samba.
Foi exatamente o samba, sobre o qual reflito sistematicamente, que me fez perceber e encarar um Brasil de complexidades que não comportam dicotomias reducionistas. O samba é um desconforto potente para que o Brasil se reconheça como produtor constante de horror e beleza. É o filho mais duradouro dos tumbeiros, em tudo que isso significa de tragédia, redenção, subversão, negociação, resistência, harmonia, violência, afeto, afirmação de vida e pulsão de morte na nossa história. O samba é a entidade mais poderosa das falanges da rua.

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"O samba é um desconforto potente"
Luiz Antonio Simas

domingo, 15 de fevereiro de 2026

"O Corpo Encantado das Ruas", de Luiz Antonio Simas" - ed. Civilização Brasileira (2020)




"Nos últimos anos comecei a amadurecer dois princípios que hoje são a base do que escrevo. O primeiro é o de que os temas que me interessam são vinculados aos processos de invenção e reconstrução de laços de sociabilidade no campo das sapiências das ruas: sambas, escolas de samba, carnavais, terreiros, pequenos comércios, quermesses de igrejas, saberes da trívia e os modos de criação da vida de crianças, mulheres e homens comuns: aquilo que podemos definir como cultura."

"Temos cada vez mais necessidade de ousar olhares originais contra a tendência de normatização, unificação e planificação dos modos de ser das mulheres e dos homens no mundo."
trechos do livro "O Corpo Encantado das Ruas"



"O Corpo Encantado das Ruas" é a exaltação daqueles hábitos urbanos que foram escasseando, sumindo, sendo aos poucos extintas, por conta das modernizações, da tecnologia, das pressões socais, do politicamente correto que sufocam a cidade e seus cidadãos roubando, a cada dia, um pouco do prazer de viver nas coisas simples.

Práticas, pessoas, lugares, comidas, são lembradas pelo sempre aprazível Luiz Antonio Simas, professor e historiador, mestre em história social, botafoguense apaixonado e especialista em carnaval, com a nostalgia de quem viveu coisas tão gostosas, puras, curiosas, ímpares do cotidiano carioca, mas que agora lamenta o impositivo sepultamento desses costumes que nos faziam um pouco mais humanos. 

Simas nos apresenta personagens lendários das ruas do Rio, recupera os antigos blocos de bairro, festejos, fala com saudade das brincadeiras de rua como pipas e carrinhos de lomba, reverencia acepipes clássicos de boteco, cita remédios naturais da sabedoria do povo, lamenta a arenização do futebol e a elitização da torcida, e sobretudo exalta a cultura negra dentro do contexto da identidade do Rio de Janeiro, seja nos terreiros de umbanda, nas esquinas, nas comidas, na sabedoria popular ou no carnaval.

Livro gostoso em cada capítulo, cujos episódios e passagens são expostos de forma, às vezes, melancólica, é verdade, mas não por isso menos suave e, não raro, divertida e engraçada. Faz a gente ficar com uma certa saudade do tempo em que as coisas eram mais simples.



Cly Reis


domingo, 8 de outubro de 2023

"Ode a Mauro Shampoo e outras histórias da várzea", de Luiz Antônio Simas - ed. Mórula (2017)

 




"Os textos deste livro (...) foram escritos
com a duvidosa categoria de um peladeiro
que mais tomou frangos do que fez golaços.
A irrelevância do futebol das várzeas,
a comovente ruindade dos perebas,
a epopeia silenciosa dos derrotados,
dos fracassados, dos frangueiros,
dos frequentadores das arquibancadas de madeira e cimento,
traçam certo painel afetuoso
sobre um Brasil que me interessa."

"A minha pátria é um gole de cerveja
para comemorar um gol sem importância,
coisa capaz de aconchegar um homem na sua aldeia
quando tudo mais lhe parece 
vertigem de um mundo desencantado."
Luiz Antônio Simas


Que coisa maravilhosa o livro de Luiz Antônio Simas! Um deleite para os apaixonados por futebol. Quem já jogou bola num terreno baldio, quem teve um timezinho de bairro, quem conhece uma daquelas figuras folclóricas dos campos, quem frequentou estádio antes dos padrões FIFA, vai se identificar e até se emocionar com as pequenas histórias de "Ode a Mauro Shampoo e outras histórias da várzea", relatadas por essa figura incrível que é Luiz Antônio Simas, um romântico desse esporte que, segundo ele, foi reinventado pelo brasileiro.

Luiz Antônio Simas, professor de história e pesquisador de culturas populares, nos apresenta diversas histórias que resgatam a raiz do futebol, a essência, o improviso, a espontaneidade, a molecagem, o prazer pelo jogo. Times de várzea, pequenos clubes profissionais, suas origens e fundações muitas vezes inusitadas, episódios pitorescos, suas lendárias formações, nomes e apelidos hilários de seus craques, seus goleiros frangueiros, zagueiros mal-encarados, hinos inspirados e cores de uniformes... tudo é objeto para as divertidas e muitíssimo bem escritas crônicas do autor.

A epopeica excursão do Santa Cruz de Recife ao Amazonas, nos anos 40, que teve de tudo, de caganeira a assassinato; a escalação clássica do Vila da Cava, de Nova Iguaçu; o juiz que declaradamente beneficiava seu clube do coração; a curiosa origem do nome do Treze de Campina Grande, da Paraíba; o zagueiro que não escovava os dentes pra espantar os atacantes; o centroavante conhecido como Abecedário exatamente por ser um completo analfabeto, são apenas alguns dos episódios narrados de forma descontraída pelo autor. Simas é um romântico, um nostálgico do futebol, inconformado com os novos tempos de clubes empresa, modernas arenas, namming-rights, gramas sintéticas, pedantismos futebolísticos e mimadinhos jogadores "táticos" com seus pomposos nomes, com sobrenomes, RG e o escambau.

Livro com o sabor de um bom papo sobre futebol, regado a cerveja na birosca da esquina.


Cly Reis