Essa escrita parte de um dilema vivido por Bassi: ao se preparar para uma temporada fora do país e ter que deixar em seu apartamento no Brasil sua biblioteca pessoal, composta por aproximadamente 8 mil volumes, o autor cria como estratégia falar sobre alguns deles. Se não todos, algo impossível, ao menos aqueles que ajudam a construir sua formação como pessoa e profissional. De sua admiração por Jorge Luis Borges, Erico Verissimo e Machado de Assis, passando pela fascinante história da Anna Comnena, bem como as suas junto a Mia Couto e Dalton Trevisan, são adoráveis sem, contudo, se restringirem somente a esses temas, visto que pontuam uma série de outras colocações pertinentes àquilo.
A partir dessa premissa, o leitor é convidado a penetrar nas memórias, divagações, observações e pensamentos particulares de Bassi. O que poderia se tornar uma experiência enfadonha, é, pelo contrário, muito curiosa e deleitosa. No que se refere à linguagem, como mencionado no começo deste texto, igualmente uma boa surpresa. Bassi vale-se de seu cabedal de conhecimentos para construir uma narrativa fluida, que casa o tempo todo a fruição dada pelo autor com informações sobre literatura, história, filosofia, música, entre outros, sem se furtar de rebuscá-las, contudo. Porém, sempre entremeado por essa aproximação com quem lê.
Para um nativo e morador de Porto Alegre como eu, há ainda mais empatia. O texto de encerramento, “Entre uma Palavraria e Outra”, em que narra o último dia de funcionamento da livraria Palavraria, no bairro Bom Fim, fez-me remeter a boas lembranças – contrariamente ao sentimento expresso por ele naquele momento de perda –, pois foi ali que Leocádia e eu nos reencontramos, em janeiro de 2012, para nunca mais nos desligarmos.

