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sábado, 27 de setembro de 2025

Exposição “Teatro Experimental do Negro nas fotografias de José Medeiros” - Instituto Tomie Ohtake - São Paulo/SP

 

São Paulo, entre as várias delícias culturais e gastronômicas que vivenciamos nos dias em que estivemos lá em junho, trouxe a mim especialmente uma aproximação com um tema o qual já venho perscrutando cada vez mais: a negritude. Afora passar horas percorrendo os corredores do Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, extremamente ricos em obras e referências ao tema, outro espaço que fizemos questão de visitar foi o Instituto Tomie Ohtake, em Pinheiros, onde estava em cartaz a exposição “Teatro Experimental do Negro nas fotografias de José Medeiros”.

Projeto coletivo pioneiro iniciado em 1944 por Abdias Nascimento, o TEN foi criado para transformar, por meio do teatro, “as estruturas de dominação, opressão e exploração raciais implícitas na sociedade brasileira dominante”. Ativo e militante nos palcos até a década de 1960, o grupo desenvolveu obras de forte impacto, enfrentou o racismo e abriu caminhos para a formação e o reconhecimento de expoentes como Ruth de Souza e Léa Garcia.

A magnífica arquitetura interna do
Instituto recebendo a expo sobre o TEN 
A mostra, uma parceria do Instituto Tomie Ohtake e do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (Ipeafro), trouxe fotos do consagrado fotógrafo José Medeiros, que ao longo de anos, produziu diversos registros fotográficos do grupo e presenteou Abdias Nascimento com um importante acervo onde convergem fotografia, teatro e engajamento. Com poses e enquadramentos modernos influenciados pela prática teatral, as fotos, imponentes, são um testamento do orgulho e da força do artista negro em uma época em que isso era uma ofensa.

Presenciar essa exposição fotográfica foi um reencontro. Primeiro, no que se refere ao Instituto Tomie Ohtake, o belíssimo prédio em homenagem à artista visual nipo-brasileira projetado pelo seu filho, o arquiteto Ruy Ohtake e o qual havia conhecido em 2010, em visita a São Paulo na companhia de minha mãe. Desta vez, a parceria foi de Leocádia, que pisava neste espaço cultural pela primeira vez como eu fazia há 15 anos. Hoje, é possível perceber que a programação do local conta com diversas atividades e parcerias que tocam na questão da negritude, seja por meio de cursos, debates, exposições, etc.

Mas o reencontro maior se deu, claro, pelo objeto da exposição: o TeatroExperimental do Negro. No curso sobre cinema negro que ministro, há cruzamentos que traço com o TEN, como a presença dos atores Aguinaldo Camargo e Ruth de Souza em um dos filmes clássicos dessa temática no Brasil, “Também Somos Irmãos”, de 1948, que bebe bastante na fonte da companhia teatral através do conceito de atuação e, mais que isso, no protagonismo dado a eles e à questão racial, bastante abafada àqueles idos.

Além de Ruth, Léa e Aguinaldo, já mencionadas, as fotos de Medeiros trazem outras figuras emblemáticas das artes cênicas pretas brasileiras, como Haroldo Costa, Marina Gonçalves, José Monteiro, Renée Ferreira e, claro, o próprio Abdias, descrito pelo Ipeafro como o mais completo intelectual e homem de cultura do mundo africano do século XX. Poeta, escritor, dramaturgo, artista visual e ativista pan-africanista, é ele quem mobiliza as ações do TEN, montando a pioneira peça “O imperador Jones”, em 1945, e diversas outras, como “Todos os Filhos de Deus têm Asas” (1946), “Auto da Noiva” (1947) e “Othello” (1949).

Abdias, a mente pro trás do TEN

Na sequência, alguns registros das fotos de José Medeiros, que carregam a força e a expressividade da arte preta brasileira nos palcos e nos seus arredores de coxias, camarins e ensaios. As fotos mesmo falam por si, tendo em vista que algumas foram tiradas em condições de iluminação precárias, mas que, mesmo assim, e com muita habilidade técnica do fotógrafo, existiram. Persistiram. Resistiram.

🎭🎭🎭🎭🎭🎭🎭🎭

Então, vamos à exposição!

 Ensaio da peça O filho pródigo, com Ruth de Souza, Abdias Nascimento, José Monteiro,
Aguinaldo Camargo, Marina Gonçalves e Roney da Silva

Impressionante foto de Aguinaldo Camargo em
elenco em impressionante cena de O imperador Jones

 Ruth de Souza e Ilena Teixeira na peça
"Todos os filhos de Deus têm asas"

Ruth novamente, em Othello, totalmente diva negra

Elenco masculino ensaiando a pioneira peça "O Imperador Jones", de 1945 

Abdias e Léa Garcia em cena: que dupla

Uma panorâmica pela exposição de 
José Medeiros sobreo TEN


Detalhe de cena com Aguinaldo Camargo e Fernando Araújo

A  Orquestra Afro-Brasileira, que mantinha parceria com o TEN

José Medeiros captou também o momento de pausa na aula de balé

O jovem Haroldo Costa

 Aula de alfabetização oferecida pelo TEN à comunidade
preta  dos anos 40. Revolucionário

Em "Filhos de santo", Addias contracena com Ruth (1949)

Retratos: Haroldo, Abdias, Ruth e Léa

Foto imperfeita tecnicamente, mas brilhante em expressividade

Outro pioneirismo do TEN: o jornal Quilombo,
publicação só sobre assuntos da negritude

A bela Renée Ferreira em "Aruanda", de 1948

Outra preciosidade de José Medeiros: Abdias
e Léa encenando Shakespeare



fotos e vídeo: Leocádia Costa, Daniel Rodrigues e Acervo Abdias Nascimento / Ipeafro

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Exposição "Senhor da Várzea, da Argila e do Fogo" de Francisco Brennand - Santander Cultural - Porto Alegre/RS









"Leda e o Cisne", obra-prima
Em “Prometeu Acorrentado”, de Ésquilo, o barro é um elemento altamente simbólico para o entendimento da criação do homem e de sua relação com as divindades. Quando o ardiloso Prometeu, filho do titã Jápeto com Clímene, incumbido de originar os homens, considerou insuficiente apenas água e terra para compô-los, roubou, para fúria de Zeus, o fogo dos deuses para completar a tarefa, estava feita bagunça. Suficiente para Zeus mandar criar Pandora e esta levar consigo a caixa com as piores características que os deuses podiam ter e dá-las de presente... aos homens. Assim os mortais ficaram nesse limbo: forjados pelo barro fundido, amaldiçoados pelo Olimpo. Afetado por suas imperfeições, o homem jamais soube (ou saberá) desfazer-se desse mal-estar entre o divino e o mundano. É dessa tensão mitológica que provém a obra de um dos mais representativos e sui generis artistas brasileiros: o pernambucano Francisco Brennand. Parte de sua vastíssima obra está em exposição até setembro no Santander Cultural na mostra "Senhor da várzea, da argila e do fogo", com curadoria de Emanoel Araujo.
Num universo atemporal que mistura misticismo, personagens históricos, divindades, natureza e sexo, a obra de Brennand, atualmente com 89 anos, é resultado de mais de 40 anos de trabalho incessante na Oficina Cerâmica e o Parque das Esculturas Francisco Brennand, em Pernambuco, localizados na antiga olaria de sua família, que o artista adaptou e reconstruiu como ateliê e espaço expositivo. Esse mundo à parte é mínima mas competentemente reproduzido no hall do Santander, principalmente pelos grandes painéis com fotos da oficina, que ambientam a região de várzea das redondezas de Recife. Mas o que coloca o visitante mesmo em contato com objeto de Brennand são, obviamente, as obras.
De uma robustez espantosa, o que se vê de início são esculturas, todas dos anos 70, de animais típicos da campina (lagarto, jacaré, molusco). Blocados. Tesos. A técnica de cerâmica vitrificada, de grande dificuldade de execução, impressiona ainda mais na ainda mais impressionante “Serpente” (2014/15), composta de três grandes partes (cauda, cabeça e corpo), que, viva, parece submergir por debaixo da terra para hastear a cabeça para fora em posição de ataque. Surpreende, igualmente, a organicidade de “Árvore da Vida” (1977), com suas formas arredondadas e volumes sobrepostos – que, não à toa, remetem às formas erotizadas do corpo humano (sim, aquele do barro e do fogo pecador de Prometeu). Pois aí está uma das mais marcantes características propostas de Brennand: formas que, diretamente humanas ou não, trazem, por mais de um viés, a questão da essência através da lascívia, da gênese, da criação.
A visualização de vulvas, pênis, testículos, seios, glúteos e afins é determinante para a percepção de obras como “La tour de Babel” (1978), “Ídolo” (1878), “Molusco” (1977), “Origem do Mundo” (1984) ou a série “Fruto”, nas quais o fálico se integra e interfere decisivamente. Quando não necessariamente, o conceito se denota em caráter mais uterina, a exemplo das formas ovulares da série “Ovo” e “Ovo da Serpente” ou da instalação “250 Ovos Brancos”.
Por mitológico se entende tudo que ganha formato na argila de Brennand, desde o essencialmente olímpico (as sofridas “Ofélia”, 1978; “Diana Caçadora”, 1980; “Antígona”, 1978), os mitos cristãos (os embaraçados “Adão” e “Eva”, 2015), os mitos da história (um sangrento “Calígula”, 1981; uma altiva “Joana D’Arc Guerreira”, 1978) e até da própria existência mundana com suas mitologias estéreis. Uma abordagem perpassada pela crítica, haja vista a disformia alienígena de “Guilherme Tell” (1977) ou a de “O Sobrevivente” (1995), quando não pontuada por certo desprezo pela espécie humana, como no animalesco “Primeira refeição” (1995). De fato, o hibridismo homem/bicho – bem como as implicações disso – é uma leitura presente no imaginário de Brennand, haja vista seu “Pã” (1978), misto de  verme e falo ereto. 
Ainda das esculturas, outra arrebatadora é “Leda e o Cisne” (1980), de suas mais conhecidas obras em que expressa, num tempo, a sensualidade das formas da mulher e o desejo carnal, a leveza da feminilidade e o equilíbrio da escultura clássica. Como no duo “Frade” (cerâmica vitrificada queimada em baixa temperatura, que lhes dá a colocação esbranquiçada), em que estes ostentam pontiagudas tetas por debaixo dos hábitos, as formas de Leda não pronunciam apenas seu gênero, uma vez que sua perna esticada remete claramente a um pênis também. Sem o apelo sexual tão direto, os bustos, todos elevados em altivos pedestais detalhadamente ornamentados um a um, são de comparáveis belezas. Em “Palas Atenea” (1987), incrível, de tão expressivo, tem-se a impressão de estar sendo vigiado por aquele guerreiro medievo. Destaque ainda para a triste “Ofélia”, uma inexpressiva “Maria Antonieta” (1993) e “Lara” (1978), outra cuja face exprime um sofrimento sensível. Todas mortas, parecem a quem vê cadáveres.
Muito bonitas também suas telas a óleo, demonstrando a perícia do desenho. De pincelada impositiva, compõe aquilo que deseja, sem espaço para aleatoriedades. E as cores não fogem quase nunca dos tons terrosos da argila, quando muito do verde da mata. Ideias visíveis nos quadros “O Olho de Deus” (s/d), “O Rio” (1966) e “Árvore da Vida” (1980).
Desprovida da religiosidade clássica, a pagã obra de Brennand parece fugir também dos estereótipos tanto em conceito quanto em estética para forjar uma mitologia dos mortais. Suas cerâmicas e óleos são tão inclassificáveis quanto os estilos de Van Gogh na pintura ou de Augusto dos Anjos na poesia. Impossível alocá-lo dentro de uma linha ou escola. Por manipular a matéria que compõe os seres da terra, sua obra é marcada pelos elementos de vida e morte, os quais lhe fazem parte de um mesmo material. O que leva a entender que, num ato não de provocação como o de Prometeu, mas de coragem, Brennand tenha se embrenhado no desafio de cumprir aquilo que aquele não completou. Incompletude esta que, talvez, seja minimamente recuperada a cada vez que se admira alguma reconciliadora obra deste elevado espírito vindo, quem sabe, não das várzeas do nordeste brasileiro, mas da Tessália grega.
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Exposição “Senhor da Várzea, da Argila e do Fogo”,
de Francisco Brennand
local: Santander Cultural (Sete de Setembro, 1.028, Praça da Alfândega – Centro - Porto Alegre)
período: até 4 de setembro
de terça a sábado, das 10h às 19h, e domingo, das 13h às 19h. (fechado nos feriados)



A cabeça da enorme cobra de argila

O minucioso e blocado Jacaré

A placa cerâmica Peixe


Volumes que se assemelham às formas humanas

O fálico La Tour de Babel

O ídolo larva


Entre os frutos


Interagindo com os ovos

Ovo da Serpente

Diana Caçadora

O Tímidos Adão e Eva

Calígula coberto de sangue

Pã, misto de verme e pênis

O frade com seus seios pontiagudos

O grito da Leucósia

O expressivo rosto cadavérico de Lara

O Olho de Deus

Os tons de terra também nos óleos das tintas

Leocádia anda ao lado da obra-prima
Leda e o Cisne

Este blogueiro e Brennand
olhando para a foto