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Em tempo, trazemos os vencedores do Festival de Cinema de Gramado deste ano. Afora a Mostra Assembleia Legislativa de Curtas-Metragens Gaúchos, a qual acompanhei de cabo a rabo como nos outros anos por conta da participação da Accirs com o Prêmio da Associação (Crítica), as outras mostras todas, por conta de compromissos que me fizeram deixar Gramado com o evento rolando, não foi possível acompanhar em suas totalidades. Algum longa nacional aqui, um documentário ali, um curta nacional acolá, mas ainda por assistir muita coisa.
O que não quer dizer que não devamos destacar aqui os premiados. E olha que tem coisa bem interessante, como o grande vencedor da noite, o mineiro “Nosso Segredo”, de Grace Passô, que além de Melhor Filme ainda levou outros dois Kikitos (Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte). Quem também se destacou foi “Feito Pipa”, do cearense Allan Deberton, diretor cujo longa de estreia, “Pacarrete”, de 2020, abocanhou os principais prêmios daquele ano em Gramado e foi literalmente ovacionado. Desta vez, seu bonito filme ficou com o que merecia: Melhor Longa-Metragem Brasileiro pelo Júri Popular, Diretor, Atriz (Teca Pereira) e Ator Coadjuvante (Lázaro Ramos), além de uma Menção Honrosa ao ator mirim para Yuri Gomes. O prêmio de Melhor Longa-Metragem Brasileiro pelo Júri da Crítica ficou com “Leite em Pó” (MG/SP/RN), de Carlos Segundo, que também venceu em Melhor Roteiro (Carlos Segundo e Rafael Copel) e Melhor Desenho de Som (Waldir Xavier).
Ainda em nível nacional (onde há anos não concorre nenhum filme gaúcho, há de se saber por que), o documentário premiado foi “Gonzaguinha, da Maior Liberdade”, da competente diretora Susanna Lira. A se ver por outros trabalhos dela (“Torre das Donzelas”, “Mussum, um Filme do Cacildis”, “Fernanda Young: Foge-me ao Controle”) é de se imaginar que, tratando justamente da efervescente vida e militância política do talentoso compositor carioca, tenha-se aí um filme realmente apreciável. Tanto que bateu um considerado nos corredores de Gramado como favorito: “O Projeto”, de Sabrina Fidalgo e Yvan Rodic, que abriu a Mostra dedicada aos documentários e impressionou quem assistiu por seu roteiro, montagem e, principalmente, contundência na mensagem, que avalia e critica o colonialismo pelo mundo.
Vindo para o Rio Grande do Sul, além dos destaques entre os curtas-metragens, que tratei aqui em postagem anterior ao falar de “Grão” e “Banho Maria” (sem falar de "O Véu", "Coisa Ruim" e"Estátuas Também Morrem?" outros bons títulos da safra), teve também a Mostra Sedac/Iecine de Longas. Nesta, quem saiu com vários prêmios foi “A História mais Triste do Mundo”, de Hique Montanari, uma das duas ficções entre os cinco concorrentes, sendo os outros três documentários. E foi justamente um dos docs que se sagrou o principal agraciado do festival desse ano: “Filhas da Lua”, de Tatiana Sager, o qual ainda foi o escolhido do Júri Popular e da categoria de Melhor Montagem. Semelhante ao que comentei sobre Susanna, os antecedentes de Tatiana e seu parceiro Renato Dornelles ("Central", "Olha pra Elas") dão bons indicativos que se trata de uma obra, sim, merecedora dos reconhecimentos que levou.
Foi uma passagem rápida por Gramado, mas sempre satisfatória. Ano que vem tem mais e, quem sabe, para acompanhar do início ao fim como fiz em 2025. Fiquem, então, com a listagem dos premiados de Gramado em cada Mostra:
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LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS
Melhor Filme: “Nosso Segredo”, de Grace Passô
Melhor Filme pelo Júri Popular: “Feito Pipa”, de Allan Deberton
Melhor Filme pelo Júri da Crítica: “Leite em Pó”, de Carlos Segundo
Melhor Direção: Allan Deberton por “Feito Pipa”
Melhor Atriz: Teca Pereira por “Feito Pipa”
Melhor Ator: José Loreto por “Chorão: Só os Loucos Sabem” e Christian Malheiros por “Justino: Nos Bastidores do Reino”
Menção Honrosa: Yuri Gomes por “Feito Pipa”
Menção Honrosa: Onna Silva por “Justino: Nos Bastidores do Reino”
Melhor Roteiro: Carlos Segundo e Rafael Copel por “Leite em Pó”
Melhor Fotografia: Wilssa Esser por “Nosso Segredo”
Melhor Ator Coadjuvante: Lázaro Ramos por “Feito Pipa”
Melhor Atriz Coadjuvante: Naruna Costa por “Pele de Rinoceronte”
Melhor Desenho de Som: Waldir Xavier por “Leite em Pó”
Melhor Trilha Musical: Otávio de Moraes por “Chorão: Só os Loucos Sabem”
Melhor Direção de Arte: Lucas Osório por “Nosso Segredo”
Melhor Montagem: André Finotti e José Eduardo Belmonte por “Justino: Nos Bastidores do Reino”
"Nosso Segredo", grande vencedor da edição 2026 do festival
CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS
Melhor Filme: “씨발 (Shibal)”
Melhor Direção: Wesley Gabriel Silva Santos por “Pão Doce”
Melhor Ator: Francisco Gaspar por “Pão Doce”
Melhor Atriz: Chris Couto por “Um Passeio”
Melhor Roteiro: Camila Tarifa por “Mulher Papaya”
Melhor Fotografia: Felipe Ovelha por “Pique-Pega”
Melhor Montagem: Gilson Costa e Thamires Coelho por “Divino: sua alma, sua lente”
Melhor Trilha Musical: Ângelo de Souza por “Graxa e o Zepelin”
Melhor Direção de Arte: Jackson Abacatu por “A menina que queria ser pedra”
Melhor Desenho de Som: Marcos Lopes por “Fúrias”
Melhor Filme pelo Júri da Crítica: “Mulher Papaya”, de Camila Tarifa
Prêmio Especial do Júri: “Revelação”, de Gabriela I. Gaia
Prêmio Canal Brasil de Curtas: “Revelação”, de Gabriela I. Gaia
Júri Popular: “Divino: sua alma, sua lente”, de Clea Torres e Gilson Costa, com codireção de Divino Tserewahú
O curta paulista "Shibal" sagrou-se o vencedor
LONGAS-METRAGENS DOCUMENTAIS
Melhor Longa-metragem Documentário: “Gonzaguinha, da Maior Liberdade”, de Susanna Lira
Menção Honrosa Documentário: “Empeleitada”
Documentário de Susanna Lira sobre Gonzaguinha: destaque da mostra competitiva
LONGAS-METRAGENS GAÚCHOS (MOSTRA SEDAC/IECINE)
Melhor Longa-metragem Gaúcho: “Filhas da Lua”, de Tatiana Sager
Melhor Montagem: Gabriel Sager Rodrigues por “Filhas da Lua”
Melhor Direção: Hique Montanari por “A História Mais Triste do Mundo”
Melhor Roteiro: Hique Montanari por “A História Mais Triste do Mundo”
Melhor Ator: Arthur Seidel por “A História Mais Triste do Mundo”
Melhor Trilha Musical: João Vitor Costa Dias por “A História Mais Triste do Mundo”
Melhor Desenho de Som: Gabriela Bervian por “A História Mais Triste do Mundo”
Melhor Fotografia: Juarez Pavelak por “A História Mais Triste do Mundo”
Melhor Atriz: Áurea Baptista por “Remanente - Voltagem”
Melhor Direção de Arte: Tiago Retamal por “Remanente - Voltagem”
Júri Popular: “Filhas da Lua”, de Tatiana Sager
MOSTRA GAÚCHA DE CURTAS (PRÊMIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA)
Melhor Filme: “Grão”, de Gianluca Cozza e Leonardo Rosa
Melhor Ator: Leandro Gomes, por “Grão”
Melhor Atriz: Gaby Buffon, por “Elisete tem que casar!”
Melhor Direção: Gabriel Motta, por “O Véu”
Melhor Roteiro: Thais Fernandes, por “Estátuas também morrem?”
Melhor Fotografia: Lívia Pasqual, por “Drunken Car”
Melhor Montagem: Gabriela Kopp, por “Claudete”
Melhor Direção de Arte: Marco Arruda, por “Raidinalha”
Melhor Trilha Sonora/Melhor Música: Otávio Vassão, por “Grão”
Melhor Edição/Edição de Som: Fernando Efron, por “Raidinalha”
Melhor Produção Executiva: Allan Riggs e Guilherme Suman, por “Terra Bruta”
Melhor Figurino: Beatriz Pieratti, por “Drunken Car”
Menção Honrosa: “O Acumulador de Memórias”
Prêmio Accirs - Júri da Crítica: “Grão”
"Filhas da Lua", de Tatiana, doc sobre a vida de mulheres que sobreviveram ao sistema prisional
HOMENAGENS ESPECIAIS
Troféu Oscarito - Andréa Beltrão
Troféu Eduardo Abelin - Renata Almeida Magalhães
Kikito de Cristal - Selton Mello e Maria Fernanda Cândido
Nei Lisboa diz em uma de suas reflexivas canções: “Alguns edifícios por dia/ Desabam dentro da avenida/ E salva-se a filosofia”. Entendidas metaforicamente, estas “edificações” podem muito bem representar aquilo que erguemos como padrões temporais para o ser humano em sociedade. E que está desabando, acabando-se. Antes sólidos, inabaláveis; hoje, contestados, ressignificados. Em crise. Isso serve tanto para os arquétipos filosóficos de jovens tanto homens quanto de mulheres, algo muito bem percebido por curtas-metragens da nova safra do cinema gaúcho exibidos na Mostra Assembleia Legislativa de Curtas-Metragens Gaúchos durante o 54º Festival de Cinema de Gramado, ocorrido entre 12 e 22 de agosto.
Mais propriamente, os filmes com esse olhar imersivo são “Grão”, da dupla rio-grandina Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa, o principal premiado da mostra competitiva, e o não menos instigante “Banho Maria”, de Gabriel Faccini. O primeiro, uma crítica mordaz da masculinidade tóxica. O segundo, uma reflexão existencial do lugar da mulher na sociedade capitalista – e essencialmente machista. Cada um a sua forma, ambos os filmes põem em questionamento estes padrões arraigados – e caducos – do que é (ou deve ser) homem ou mulher, como se, para ser um ou outro, tenha-se que seguir uma cartilha que já não existe mais. Ambos, mesmo em situações distintas, em determinado momento trazem dita a mesmíssima frase: “O mundo está acabando”.
“Grão”, em especial, pode-se considerar o melhor curta-metragem da temporada (quiçá, o melhor filme gaúcho entre todos do ano). É o aprimoramento do trabalho de Cozza e da Rosa e da produtora Saturno, coletivo que vem realizando produções na mesma linha há alguns anos com grande contundência e assinatura estilística. No primeiros deles, o belo documentário “Construção”, de 2020, sobre uma mãe de família despejada de sua casa e reconstruindo a vida, já se percebia um olhar distinto sobre questões sociais e existenciais por meio de um hibridismo entre documentário e ficção. Porém, foi em “Madrugada”, de 2022, e, logo após, mais transversalmente, “Cassino” (2024), que a dupla adentra no (sub)mundo da sua Rio Grande, cidade portuária com oportunidades mas geradora de um “cinturão” de subempregos ocupados por jovens desqualificados para o que o sistema exige.
trailer de "Grão"
Metais, fumaça, máquinas opressivas e ensurdecedores ruídos industriais imperam sobre um ambiente escuro, de luzes funcionais e impessoais em que os braços fortes não têm capacidade de controlar os sentimentos da vida. Numa fotografia metalingusticamente granulada, edição fragmentada e uma câmera ora atenta a um fato, ora meramente observadora, os personagens masculinos, representados na figura de Leandro, magistralmente interpretado por Leandro Gomes, iludem-se com seus carros possantes, suas músicas altamente insinuantes, seus músculos fabricados e com meia dúzia de notas em dinheiro para aplacar os desejos sexuais. Nada disso mais é suficiente. A transa com a garota desejada, a venda da “caranga”, a curtição com os “bróder”: tudo termina descartado, encalhado, abandonado. Como o antigo barco na praia do Cassino, como os grãos de soja sobrados na beira do mar, como o carro atolado na areia da praia. Como ele mesmo, depois de uma noite de porre e solidão, afundado na terra. Um grão de volta a seu ciclo para poder voltar a existir.
Não apenas o júri principal da Mostra Assembleia Legislativa, que lhe deu três premiações, entre estas, a de Melhor Filme, a Associação de Críticos de Cinema do RS (Accirs) também concedeu o Prêmio da Crítica. Em sua justificativa, a Accirs escreveu: "Por tratar da masculinidade sob uma ótica crítica, com humor e densidade; por tornar um território em crise um personagem central do filme; por deixar transbordar solidão, melancolia e desejo com domínio de recursos visuais e sonoros; a ACCIRS reconhece mais um passo na trajetória investigativa do grupo de realizadores neste universo e premia o curta-metragem 'Grão'". Antes, o filme já havia sido escolhido para a 9ª Mostra Sesc de Cinema – Circuito RS e ganhado o Festival de Tiradentes, em Minas Gerais, o que o tornou apto a concorrer pelo Brasil ao Oscar de 2027, mostrando que a turma da Saturno está madura para, agora, encarar o primeiro longa-metragem. Que venha, pois deverá ser coisa boa.
Construído a partir de outras premissas e escolhas narrativas, “Banho Maria”, embora não tenha levado nenhum prêmio em Gramado – é, igualmente a “Grão”, um dos 14 selecionados da Mostra Sesc desse ano –, é de uma contundência mais sensível, mas não menos branda. Em uma manhã de calor escaldante, uma mulher, Maria (Silvana Rodrigues), decide faltar ao trabalho e aproveitar o dia num parque aquático para refletir sobre si, quando encontra um menino, que está de aniversário, o qual, indiretamente, ajuda-lhe e sua busca interna.
Ao transformar o ambiente do parque aquático em um cenário quase surreal a partir de seus enquadramentos, temperatura de foto e até de efeitos especiais (pequenos, mas muito bem feitos), o filme de Faccini compartilha com o espectador o autoquestionamento da vida de uma jovem preta e trabalhadora de classe média, um dos principais alvos da estrutura misógina e machista da sociedade brasileira, ainda mais por ser uma mulher fora dos padrões estéticos.
teaser de "Banho Maria"
De roteiro eficiente e diálogos idem (são impagáveis as conversas entre a protagonista e o pequeno Alisson, vivido por Lukas Rodrigues), “Banho Maria” reflete esse lugar do feminino preto em um Estado que nega a existência e a contribuição de sua população negra. O espectador é informado parcialmente das inquietudes existenciais de Maria, praticamente apenas a questão da contrariedade dela quanto aos próprias rumos profissionais. Porém, ficam subentendidos propositais “três pontos”, como se, ao mexer nessa estrutura sufocante de sua vida, outros aspectos também haveriam de ser desencadeados.
Estes dois curtas gaúchos convidam o espectador a um movimento de submersão interior simbólico da figura materna, seja um mergulho na água (útero) ou na terra (vida). Se em “Grão” a estranheza se revela pela surpresa da solidão masculina, em “Banho Maria” é a reação (sub)consciente feminina diante de sua realidade opressiva que permite um imergir diferente, mesmo que em “banho maria”, ou seja, ainda em processo de elaboração. Uma tentativa de mergulho em si mesma, nas verdades da personagem mulher e não um enterrar-se na areia como um bicho acuado (Leandro, de "Grão"). Seja pela crítica ou pela revelação, ambas as obras mostram que os valores desgastados daquilo que se entende por ser humano, seja homem ou mulher, já não se sustentam mais. O mundo está acabando, edifícios desabam dentro da avenida. É preciso rever suas bases para chegar a verdades interiores pouco acessadas, mas essenciais para um renascimento. E salva-se a filosofia.
Júri de Longas Gaúchos: ao lado das colegas Gabi e Keyti
Minha proximidade e intimidade com o Festival de Cinema de Gramado vem numa crescente desde que passei a, ainda na pandemia, a participar mais ativamente daquele que é o maior festival de cinema do Brasil. Se em outros anos compus Júri da Crítica, comissão de seleção de curtas-metragens brasileiros e, nas duas últimas edições, o júri do Prêmio Accirs, que revela o prêmio da crítica para a Mostra Gaúcha de Curtas-Metragens no Prêmio Assembleia Legislativa, ocorrido durante o evento, desta vez a experiência foi ainda mais completa. Segunda edição à frente da Accirs e primeira em tempo integral, desta vez minha participação foi para a composição do júri de longas gaúchos.
Juntamente com minhas queridas colegas, a gaúcha Gabrielle Fleck, atriz e produtora gaúcha baseada em Los Angeles, Estados Unidos, e Keyti Souza, produtora executiva baiana, formamos um júri coeso e harmonioso. E principal: saímos os três satisfeitos com o resultado de nossa deliberação, que distribuiu de forma meritocrática Kikitos para todos os cinco filmes da mostra.
Afora essa incumbência, claro, também integrei, assim como no ano passado, o nosso querido júri do Prêmio Accirs na 22º Prêmio Assembleia Legislativa – Mostra Gaúcha de Curtas no primeiro final de semana. Ao lado dos colegas Mônica Kanitz, Paulo Casanova, Roger Lerina, Cristian Verardi e Ivana Almeida da Silva, premiamos com certificado o filme “Gambá”, dirigido por Maciel Fischer, o qual tive novamente a alegria de entregar no palco do Palácio dos Festivais. Outro orgulho também foi a presença preta nos júris do festival, uma vez Keyti e eu estivemos acompanhados das ilustres Fernanda Lomba, Dríade Aguiar, Isabel Fillardis e Polly Marinho. O registro, pode-se dizer, resultou numa foto histórica para o festival de Gramado.
Entregando o Prêmio Accirs para o curta gaúcho "Gambá"
Mas o bom mesmo de festival de filmes é ver... filmes! Ao todo, assisti 45 deles, entre documentários, curtas e longas, dentre estes, “O Último Azul”, vencedor do Urso de Prata em Berlim que fez sua pré-estreia em Gramado. Da programação geral, o destaque realmente fica por conta dos longas brasileiros, praticamente 100% de acerto, a não ser o fraco “Querido Mundo” (RJ), de Miguel Falabella, um “Sai de Baixo” cinematográfico esquizofrênico e indeciso entre a linguagem do cinema e do teatro.
Afora este, só filmes de alto nível, como os ótimos “Cinco Tipos de Medo”(MT), grande vencedor do 53º Festival de Cinema de Gramado (levou para casa quatro Kikitos: Melhor Filme, Melhor Roteiro e Melhor Montagem para Bini, além do prêmio de Melhor Ator Coadjuvante paraXamã), “Nó” (PR) e “A Natureza das Coisas Invisíveis” (DF), meu preferido da mostra. Já as outras mostras foram bastante mais inconstantes. A de documentários brasileiros, por exemplo, continha filmes mais fracos que alguns da mostra de longas metragens gaúchos, tal “Uma em Mil” ou o grande vencedor, “Quando a Gente Menina Cresce”, melhores que qualquer um dos candidatos nacionais.
Momento histórico dos jurados pretos em Gramado: eu com Fernanda Lomba, Dríade Aguiar, Keyti, Isabel Fillardis e Polly Marinho
Na mostra de curtas nacionais, idem. A seleção trouxe um conjunto mais fraco em relação ao do ano passado, o mesmo para com os curtas gaúchos. O que talvez explique seja a enxurrada de inscrições justificada este ano por conta das produções realizadas a partir das leis de incentivo, como a Paulo Gustavo, que faz aumentar o número de filmes, mas não necessariamente de filmes bons, uma vez que dá espaço para realizadores ainda imaturos cinematograficamente falando. Melhor assim do que os recentes anos de falta de incentivo e negacionismo.
Chamou atenção, por fim, os vários filmes de criança nas diferentes categorias, tipo de temática não tão corrente no cinema brasileiro. Dos curtas gaúchos, os ótimos “Gambá”, laureado por nós da Accirs, e “Trapo”, grande vencedor da Mostra Gaúcha, são quase filmes irmãos, tamanha semelhança narrativa e temática. Ambos tratam do universo infantil e trazem, ludicamente, questões como amadurecimento, medos e anseios. Entre os longas gaúchos, outro filme nesta linha: o já mencionado “Quando...”, que trata sobre a passagem da infância para a adolescência de meninas na fase da primeira menstruação.
Nos curtas e longas brasileiros, idem. O curta paranaense “Quando Eu For Grande”, sobre um menino que volta para casa com sua mãe após uma visita ao pai e ao irmão na prisão, carregando dúvidas e incertezas sobre o futuro, e o longa candango “A Natureza...”, que trata da relação de duas meninas na faixa dos 10 anos, são exemplares.
A clássica foto final com os premiados
Ademais, confiram, então, os premiados da edição de 2025. Ano que vem tem mais.
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LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS
Melhor Filme: "Cinco Tipos de Medo", de Bruno Bini
Melhor Direção: Laís Melo, por “Nó”
Melhor Ator: Gero Camilo, por “Papagaios”, de Douglas Soares
Melhor Atriz: Malu Galli, por "Querido Mundo", de Miguel Falabella
Melhor Roteiro: Bruno Bini, por "Cinco Tipos de Medo"
Melhor Fotografia: Renata Corrêa, por "Nó", de Laís Melo
Melhor Montagem: Bruno Bini, por "Cinco Tipos de Medo"
Melhor Trilha Musical: Alekos Vuskovic, por "A Natureza das Coisas Invisíveis", de Rafaela Camelo
Melhor Direção de Arte: Elsa Romero, por "Papagaios", de Douglas Soares
Melhor Atriz Coadjuvante: Aline Marta Maria, por "A Natureza das Coisas Invisíveis", de Rafaela Camelo
Melhor Ator Coadjuvante: Xamã, por "Cinco Tipos de Medo", de Bruno Bini
Melhor Desenho de Som: Bernardo Uzeda, Thiago Sobral e Damião Lopes, por "Papagaios", de Douglas Soares
Prêmio Especial do Júri: "A Natureza das Coisas Invisíveis", de Rafaela Camelo
Menção Honrosa: "Sonhar com Leões", de Paolo Marinou-Blanco
Melhor Filme pelo Júri Popular: "Papagaios", de Douglas Soares
Melhor Filme pelo Júri da Crítica: "Nó", de Laís Melo
Xamã, premiado como Melhor Ator Coadjuvante por seu papel e "Cinco..."
CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS
Melhor Filme: “FrutaFizz”, de Kauan Okuma Bueno
Direção: Adriana de Faria, por “Boiuna”
Ator: Pedro Sol Victorino, por “Jacaré”
Atriz: Jhanyffer Santos e Naieme, por “Boiuna”
Roteiro: Ítalo Rocha, por “Réquiem para Moïse”
Fotografia: Thiago Pelaes, por “Boiuna”
Montagem: Lobo Mauro, por “Samba Infinito”
Trilha Musical: As Musas, por "As Musas"
Direção de arte: Ananias de Caldas e Brian Thurler, por “Samba Infinito”
Desenho de som: Marcelo Freire, por “Jeguatá Xirê”
Prêmio Especial do Júri: "Aconteceu a Luz da Lua", de Crystom Afronário
Menção Honrosa: "Quando Eu For Grande", de Mano Cappu
Prêmio Júri da Crítica: “O Mapa em que Estão Meus Pés”, de Luciano Pedro Jr.
Prêmio Canal Brasil de Curtas: “Na Volta Eu Te Encontro”, de Urânia Munzanzu
Melhor Filme Júri Popular: “Samba Infinito”, de Leonardo Martinelli
"Frutafrizz", melhor curta brasileiro no 53º Festival de Gramado
LONGAS-METRAGENS DOCUMENTAIS
Melhor Longa-metragem Documentário: “Lendo o Mundo", de Catherine Murphy e Iris de Oliveira
Menção Honrosa Documentário: "Para Vigo Me Voy!", de Lírio Ferreira e Karen Harley
O doc sobre Paulo Freire e seu método de ensino levou o principal Kikito na categoria
LONGAS-METRAGENS GAÚCHOS - MOSTRA SEDAC/IECINE
Melhor Filme: “Quando a Gente Menina Cresce”, de Neli Mombelli
Direção: Jonatas e Tiago Rubert, por “Uma em Mil”
Ator: Stephane Brodt, por “Passaporte Memória”
Atriz: Lara Tremouroux, por “Passaporte Memória”
Roteiro: Jonatas e Tiago Rubert, por “Uma em Mil”
Fotografia: Bruno Polidoro, por “Bicho Monstro”
Direção de arte: Gabriela Burck, por “Bicho Monstro”
Montagem: Joana Bernardes e Thais Fernandes, por “Uma em Mil”
Desenho de som: Rodrigo Ferrante e André Tadeu, por “Rua do Pescador n° 6”
Trilha musical: Renato Borghetti, por “Rua do Pescador n° 6”
Menção Honrosa: para o elenco feminino de "Quando a Gente Menina Cresce"
Melhor Filme pelo Júri Popular: “Quando a Gente Menina Cresce”, de Neli Mombelli
Prêmio Iecine Destaque: “Um é Pouco Dois é Bom”, de Odilon Lopez (recebido por Vanessa Lopez)
Prêmio Iecine Inovação: Victor Di Marco e Marcio Picoli
Prêmio Leonardo Machado: Araci Esteves
Prêmio Iecine Legado: Gustavo Spolidoro
Prêmio Sirmar Antunes: Glória Andrades
O belo "Quando...": merecia estar na mostra nacional
MOSTRA GAÚCHA DE CURTAS - PRÊMIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA
Melhor filme: ‘Trapo’
Melhor direção: Viviane Jag Fej Farias e Amalia Brandolff (‘Fuá – O Sonho’)
Melhor atriz: Mikaela Amaral, por‘Bom Dia, Maika!'
Melhor ator: Igor Costa, por ‘O Pintor’
Melhor roteiro: Cássio Tolpolar, por ‘Imigrante/Habitante’
Melhor fotografia: Takeo Ito, por ‘Gambá’
Melhor direção de arte: Clara Trevisan, por ‘Mãe da Manhã’
Melhor trilha sonora/música: Zero, por ‘Bom Dia, Maika!’
Melhor montagem: Alfredo Barros, por ‘Imigrante/Habitante’
Melhor figurino: Samy Silva, por ‘A Sinaleira Amarela’
Melhor edição de som/desenho de som: Vini Albernaz, por ‘Mãe da Manhã’
Melhor produção/produção executiva: Renata Wotter, por ‘O Jogo’
Melhor filme - Prêmio Accirs - Júri da Crítica: ‘Gambá’
"Trapo", um dos filmes de criança do festival, levou o troféu de Curta Gaúcho
O ano de 2024 foi desafiador para todo gaúcho por conta dos desastres climáticos de maio. A área do cinema, claro, foi bastante afetada, seja pela interrupção das atividades, seja pelo prejuízo material a espaços e salas de cinema, seja pela natural inserção no cenário local enquanto atividade cultural e econômica, Claro que, indireta e até diretamente em alguns casos, a Associação dos Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (Accirs), em seu 16º ano de atividade, também foi afetada. Atividades que ocorreriam em junho não se realizaram e outras nem se pode cogitar isso. Porém, uma delas, foi mantida: a já tradicional eleição dos Melhores do Ano, que tem por base produções lançadas em mostras e festivais, no circuito comercial e também em plataformas de streaming, no caso, de 2024.
Dividida em dois turnos, a votação selecionou os melhores longas-metragens estrangeiro, brasileiro e gaúcho, além do melhor curta gaúcho do ano. Ainda, os membros da associação entregam, desde a primeira edição dos Melhores do Ano, o Prêmio Luís César Cozzatti, que reconhece filmes, projetos, instituições ou pessoas de destaque no cenário audiovisual gaúcho. Os vencedores foram revelados em primeira mão durante evento sobre crítica online e atuação internacional com o historiador e crítico de cinema Waldemar Dalenogare, realizado no dia 14 de janeiro, na Sala Paulo Amorim da Casa de Cultura Mario Quintana, o qual tive o privilégio de mediar. Sala lotada, público interessado, muitas interações e selfies.
Confira, então, os vencedores do Prêmio Accirs 2024:
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Melhor curta-metragem gaúcho: "Pastrana", de Melissa Brogni e Gabriel Motta
É hat-trick que se fala quando no esporte alguém atinge a marca de repetir três vezes o mesmo feito, né? Podemos dizer que "Pastrana", dos jovens cineastas Melissa e Gabriel, marcou esse triplete. Primeiro, no 52º Festival de Gramado, em agosto, quando nosso júri do "Gauchão", o Prêmio Accirs para curtas-metragens gaúchos dentro da Mostra Assembleia Legislativa, votou nesta produção para o filme. Mais adiante, em novembro, igual: nosso júri de crítica formado para o 2º Festival de Cinema de Canoas o escolheu. Agora, para ratificar, o grupo de membros consagra este belo documentário de montagem ágil, imagens impactantes e narrativa tocante que presta, por meio de um enfoque muito pessoal, homenagem ao skatista de downhill Allysson Pastrana, falecido trágica e precocemente em 2018 durante uma competição.
Melhor longa-metragem gaúcho:
"Até Que a Música Pare", de Cristiane Oliveira
A Accirs ainda não havia premiado Cristiane nem com o belo "A Primeira Morte de Joana", de 2023, como também ao brilhante "Mulher do Pai", de 2017, um dos mais importantes filmes da nova cinematografia gaúcha. Agora, enfim, veio o reconhecimento ao seu terceiro longa, que conta a história de Chiara, matriarca de uma família de descendência italiana, e seu marido, Alfredo, que decide acompanhá-lo em uma de suas viagens a trabalho para não ficar só em casa depois que o último de seus filhos sai do lar para morar sozinho. A sensível história, contada com ainda mais sensibilidade pela cineasta, põe o casal diante do maior desafio de suas vidas com o casamento de 50 anos à prova.
Longa-metragem nacional:
"Ainda Estou Aqui", de Walter Salles
O filme que arrebatou crítica e, incrivelmente, público fora e dentro do Brasil. Mas o fenômeno "Ainda Estou Aqui", embora raro para o cinema brasileiro, tendo em vista o tema e a abordagem competentes mas nada pop como as comédias da Globo Filmes, é totalmente merecido. O filme que levou Fernanda Torres ao Globo de Ouro e o Brasil ao Oscar é uma sensível e comprometida reconstrução da história real da família Paiva, que viu o pai de cinco filhos e marido da resistente Eunice Paiva ser levado pelos militares para nunca mais voltar. Obra forte e necessária - principalmente, no atual momento em que as manifestações fascistas volta a ameaçar as democracias e os direitos humanos.
Longa-metragem Internacional:
"Anatomia de uma Queda", de Justine Triet
O que os olhos enxergam? Que olhos são esses, o do espectador? O da diretora? O de um personagem cego? Os de um cão de olhos sadios, mas irracional? O olhar da Justiça? O brilhante e incomum thriller de Justine é um misto muito bem argumentado de drama familiar, filme de tribunal e análise sociocomportamental da sociedade francesa. Todas as interrogações que o filme levanta e convida o espectador a acompanhar o desenrolar da trama, ora desvendando, ora impondo novos questionamentos. Com isso, outros pontos também surgem: o cinema não seria exatamente isso, a dúvida do que se vê ou se escuta? Mesmo com outros ótimos filmes internacionais em 2024, como "Dias Perfeitos", "Os Colonos" e "Pobres Criaturas", a Accirs teve a lucidez de premiar "Anatomia de uma Queda", outra obra de cineasta mulher assim como os brasileiros "Pastrana" e "Até que...".
Prêmio Luís César Cozzatti (destaque gaúcho):
Hélio Nascimento
Um dos mais respeitados críticos de cinema em atividade no Brasil, Hélio Nascimento assina há 64 anos uma coluna semanal sobre cinema no Jornal do Comércio, de Porto Alegre. Atualmente com 88 anos de idade, foi agraciado, em 2022, com o Prêmio Gramado 50 Anos no Festival de Cinema de Gramado, honraria destinada a pessoas cujas trajetórias em cinema se destacaram ao longo das décadas. Hélio tem dois livros lançados: "Cinema Brasileiro", de 1981, e "O Reino da Imagem", de 2002, e integra o livro "50 Olhares da Crítica Sobre o Cinema Gaúcho", publicado em 2021 pela Accirs e da qual é sócio-honorário.
Dois curtas-metragens produzidos no Rio Grande do Sul em especial saltaram aos olhos na última edição do Festival de Gramado. O primeiro deles foi, obviamente, a grande revelação “Pastrana”. Vencedor do prêmio de Melhor Curta-Metragem na competição nacional, feito que não ocorria há anos no cinema gaúcho, o filme dos jovens diretores Melissa Brogni e Gabriel Motta ganhou, com total merecimento, ainda os Kikitos de Melhor Fotografia e Montagem, além de arrebatar a crítica na Mostra Gaúcha – Prêmio Assembleia Legislativa, levando o Prêmio ACCIRS, e mais o de Melhor Produção Executiva.
Porém, outro filme dessa recente leva gaúcha um pouco menos laureado, mas nem por isso, menor em relevância e qualidade, é, “Chibo”. Eleito melhor curta-metragem gaúcho no Prêmio Assembleia Legislativa, o filme dos também jovens realizadores Gabriela Poester e Henrique Lahude tem a potência inquietante do filmes de arte. Se “Pastrana” conquista o público em poucos minutos por sua montagem ágil, imagens impactantes e narrativa tocante ao prestar, num documentário muito pessoal, uma homenagem ao skatista de downhill Allysson Pastrana, falecido trágica e precocemente em 2018 durante uma competição, “Chibo”, por sua vez, vale-se de outras ferramentas para se erguer enquanto obra. O que faz com bastante originalidade.
O filme traz a história de uma família, que vive na fronteira entre Brasil e Argentina, às margens do rio Uruguai, e que trabalha com chibo - travessia clandestina de mercadorias para subsistência, comércio e pessoas. Dani, a filha mais velha, está prestes a concluir o ensino médio e enfrenta as decisões dessa fase da vida. Num realismo cru, fotografia que oscila entre o sujo e o poético e uma proposta de “dificultação” do olhar, “Chibo” capta tanto a questão identitária e socioeconômica do gaúcho quanto a feminina e a da juventude em busca de perspectivas.
Em perspectiva de uma onda de produções gaúchas que vêm questionando valores arraigados (e, no mais das vezes, desgastados) do povo Rio Grande do Sul, como os longas “Casa Vazia” (Giovani Borba, 2021), “Rifle” (Davi Pretto, 2017) e os recentes “Além de Nós” e “Sobreviventes do Pampa”, ambos de Rogério Rodrigues, “Chibo” traz à tona uma outra perspectiva para essa saudável discussão. Num estado que recentemente viveu a maior catástrofe natural de sua história e tenta, a murros em ponta de faca, reconstruir-se, por que não, então, diante do presente sentimento de crise, voltar-se para dentro e repensar a si próprio? Afinal, o que é esse ser gaúcho? Filmes como “Chibo” trazem à tona um dos pontos essenciais dessa discussão, que é a questão do trabalho e sua precarização. Enquanto o agro monocultural e tecnológico (leia-se soja e pecuária) avança, para onde vão pessoas como Dani e seus familiares, à margem deste processo? Não à toa, simbólica e praticamente eles margeiam um rio que divide dois países vizinhos permanentemente em dificuldade econômica.
Cena de "Chibo": é preciso repensar o gaúcho
Além disso, “Chibo” também guarda um olhar muito apurado para a questão feminina. Que perspectiva de vida uma adolescente tem naquele fim de mundo pobre e sujeito a piorar? Causa uma desacomodarão ao espectador ver os momentos da protagonista em casa ou na lida com os bichos na pequena propriedade, ao passo que também é encantador vê-la nas interações com a irmãzinha imersas na paisagem bonita daquele local longe do mundo.
Seja a emoção genuína que “Pastrana” causa no espectador, seja o desconforto propiciado por “Chibo”, o Rio Grande do Sul ganhou dois excelentes representantes do novo cinema este ano. E como curtas-metragens são a porta para realizações mais audaciosas futuras, que venham os desafios. Gabriela e Lahude, por sinal, já estão em desenvolvimento do longa-metragem "Caça". A se ver pelas mostras iniciais, o caminho foi muito bem aberto.
Assisti de casa a cerimônia de premiação do 52º Festival deCinema de Gramado, o qual pude, ao menos por alguns dias, participar
presencialmente de novo ao lado de Leocádia, assim como havíamos feito pela
primeira vez em 2022. E desta, além do prazer de estar no maior e mais longevo
festival de cinema do Brasil e de encontrar amigos e colegas, teve um sabor especial: foi o meu primeiro à frente
da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (Accirs), entidade a
qual assumi a presidência há cerca de 2 meses. Isso fez com que, presentemente,
pudesse integrar, também ineditamente, o júri do Prêmio Accirs aos
curtas-metragens gaúchos, o chamado “Gauchão”, na Mostra Assembleia Legislativa
ocorrida no primeiro final de semana do evento.
Juntamente com meus colegas de associação, Adriana
Androvandi, André Bozzetti, Carol Zatt, Cristiano Aquino, Mônica Kanitz e Paulo
Casa Nova, deliberamos este prêmio da crítica ao agora, uma semana depois,
multipremiado “Pastrana”, de Melissa Brogni e Gabriel Motta, tendo em vista que
o filme levou também Kikitos na Mostra de Curtas-Metragens Nacionais, incluindo
o principal, o de Melhor Filme. O quase solitário destaque que demos a “Pastrana”
na mostra gaúcha (recebeu apenas mais o singelo troféu de Melhor Produção
Executiva), quando subi ao palco para entregar-lhes o certificado e nosso livro, foi, de certa forma, chancelado na mostra nacional, que, além do
grande prêmio, conferiu ainda o reconhecimento por Fotografia e Montagem a esta homenagem para Allysson Pastrana, skatista de downhill, que faleceu em 2018 durante uma competição.
vídeo da cerimônia de entrega da Mostra de Curtas Gaúchos - Prêmio Accirs
Mas existe ainda mais um fator de especialidade a esta nova participação
minha em Gramado. Havia composto o júri da crítica na 49º edição, em 2021, alto da pandemia da
Covid-19, o que obrigou a que todo o festival fosse virtual, inclusive a
contribuição do grupo do qual estive. Desta feita, no entanto, outra felicidade
me aproximou diretamente dos filmes, que foi integrar a comissão de seleção dos
curtas-metragens nacionais, empreitada que encarei entre junho e julho ao lado
de três competentes mulheres: a atriz e diretora Fernanda Rocha, do Rio de
Janeiro; a professora da UFMS Daniele Siqueira, do Mato Grosso, e a cineasta, professora
e minha colega de Accirs Daniela Strack.
Cartaz do excelente "Pastrana", conquistas nas mostras gaúcha e nacional
Da difícil seleção dos mais de 300 filmes que assistimos e
discutimos, dentre os quais muita coisa de alta qualidade, restaram os 12
títulos concorrentes, seleção esta que, aliás, foi mais de uma vez elogiada no
palco durante a cerimônia de premiação, o que me deixa bastante orgulhoso. E mais
ainda por ver o gaúcho “Pastrana”, um de nossos escolhidos para esta seleção, sair
vencedor como há 9 anos não ocorria – principalmente em um ano em que o Rio Grande do Sul foi tão afetado
pelas enchentes ocorridas em maio. Somando-se à escolha do público pelo ótimo e
tocante “Ana Cecília”, a outra produção gaúcha da mostra de curtas nacionais pareando
com filmes do Centro-Oeste, Nordeste, Norte e Sul do país, pode-se considerar uma
vitória do cinema gaúcho e do Rio Grande do Sul.
Ainda sobre os pagos daqui, do Prêmio Sedac/Iecine de Longas-Metragens
Gaúchos – que celebrou a produção indígena “A Transformação de Canuto”, de
Ariel Kuaray Ortega e Ernesto de Carvalho, com o prêmio de Melhor Filme –, não
assisti a nenhum deles por não estar mais em Gramado quando de suas exibições,
o que desejo fazer em breve assim que estes começarem a rodar nas salas de
Porto Alegre. Já em relação aos documentários, que foram exibidos apenas no
Canal Brasil e não no Palácio dos Festivais, dois deles perdi, mas vi o
vencedor, “Clarice Niskier: Teatro dos pés à Cabeça”, de Renata Paschoal, embora
um doc de estrutura convencional, pareceu-me merecedor num primeiro momento.
Por fim, os longas brasileiros. Foi-me possível conferir
apenas dois concorrentes quando em Gramado: “O Clube das Mulheres de Negócios”,
de Ana Muylaert, que levou somente Prêmio Especial do Júri pelo conjunto do
elenco, mas que, a meu ver, se credenciava a, quem sabe, Trilha Sonora ou Atriz
(Cristina Pereira); e “Estômago 2: O Poderoso Chef”, de Marcos Jorge, uma
coprodução Brasil-Itália totalmente equivocada capaz de deturpar e diminuir o
excelente filme original, de 2007, um cult do cinema nacional. Roteiro confuso,
inconsistente e banal, que compromete todo o filme, desde seu ritmo narrativo
até as atuações, a ponto de apagar aquele que deveria ser o personagem
principal, o chef de cozinha agora presidiário Raimundo Nonato, vivido pelo
ator João Miguel.
Cena de "Oeste Outra Vez", grande vencedor do ano
Para grande surpresa minha e de muita gente da crítica, “Estômago
2” foi o maior premiado da edição, com 5 Kikitos, dentre os quais – pasmem! – o
de Melhor Roteiro. Sinceramente, equivocada a escolha, visto que injustificável
para uma história que não se concatena. Até sondei a possibilidade de se estar
privilegiando um filme com potencial de bilheteria (deve estrear nos cinemas em
29 de agosto), mas a hipótese se esvaiu rapidamente, tendo em vista que um júri
deve valorizar, em respeito ao espectador e ao cinema, um mínimo de qualidade –
o que o roteiro de “Estômago 2” deixa muito a desejar. Ainda mais estranho foi,
mesmo com uma atuação que não lhe favorece, visto que a história ofusca o
próprio protagonista, é Miguel ter dividido o prêmio de Melhor Ator junto com Nicola
Siri! O filme ainda, para completar, abocanhou Trilha Sonora, que nada mais é
do que a emulação da, esta sim, ótima trilha do primeiro filme. Tudo muito
estranho.
Os outros longas não tive, assim como os gaúchos dessa
metragem, a oportunidade de assistir, mas ao que parece, pela reação geral, a
redenção dos erros de avaliação foram os prêmios da crítica, para “Cidade;
Campo”, de Juliana Rojas, e a escolha do grande filme do ano de Gramado: o goiano "Oeste
Outra Vez", de Erico Rassi, que realmente se destaca diante dos outros nas
poucas cenas que vi. O faroeste à brasileira, que traz uma narrativa centrada
em um universo masculino rural, conquistou também os prêmios para Melhor
Fotografia e Melhor Ator Coadjuvante, para Rodger Rogério.
Enfim, uma premiação com altos e baixos (como são na
maioria), mas que, independentemente disso, não tira de mim a alegria de ter
participado de forma tão mais consistente do Festival de Gramado.
A clássica foto final com os premiados
Confira, então, os premiados da edição de 2024:
LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS
Melhor filme:‘Oeste Outra Vez”, de Erico Rassi
Melhor direção: Eliane Caffé, por “Filhos do Mangue”
Melhor ator: João Miguel e Nicola Siri, por “Estômago 2: O Poderoso Chef”
Melhor atriz: Fernanda Vianna, por “Cidade; Campo”
Melhor roteiro: Bernardo Rennó, Lusa Silvestre e Marcos Jorge, por “Estômago 2: O
Poderoso Chef”
Melhor fotografia: André Carvalheira, por “Oeste Outra Vez”
Melhor montagem: Karen Akerman, por “Barba Ensopada de Sangue”
Melhor ator coadjuvante: Rodger Rogério, por “Oeste Outra Vez”
Melhor atriz coadjuvante:Genilda Maria, por “Filhos do Mangue”
Melhor direção de arte: Fabíola Bonofiglio e Massimo Santomarco, por “Estômago 2: O Poderoso
Chef”
Melhor trilha musical: Giovanni Venosta, por “Estômago 2: O Poderoso Chef”
Melhor desenho de som: Beto Ferraz, por “Pasárgada”
Prêmio especial do júri: “O Clube das Mulheres de Negócios”, de Anna Muylaert
Júri popular: “Estômago 2: O Poderoso Chef”, de Marcos Jorge
Júri da Crítica:“Cidade; Campo”, de Juliana Rojas
CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS
Melhor filme: “Pastrana”, de Melissa Brogni e Gabriel Motta
Melhor direção: Lucas Abrahão, por “Maputo”
Melhor roteiro: Adriel Nizer, por “A Casa Amarela”
Melhor ator: Wilson Rabelo, por “Ponto e Vírgula”
Melhor atriz: Edvana Carvalho, por “Fenda”
Melhor trilha musical: Liniker, por “Ponto e Vírgula”
Melhor fotografia: Livia Pasqual, por “Pastrana”
Melhor montagem: Bruno Carboni, por “Pastrana”
Melhor direção de arte: Coh Amaral , por “Maputo”
Melhor desenho de som: Felippe Mussel, por “A Menina e o Pote”
Prêmio especial do júri: “Ponto e Vírgula”, de Thiago Kistenmacher
Júri popular: “Ana Cecília”, de Julia Regis
Prêmio Canal Brasil de Curtas: “Maputo”, de Lucas Abrahão
Menção honrosa
“Ressaca”, de Pedro Estrada
“Via Sacra”, de João Campos
“Navio”, de Alice Carvalho, Larinha R. Dantas e Vitória Real
"Maputo”, de Lucas Abrahão
Júri da crítica:“Fenda”, de Lis Paim
LONGAS-METRAGENS DOCUMENTAIS
"Clarice Niskier: Teatro dos pés à Cabeça”, de Renata Paschoal
LONGAS-METRAGENS GAÚCHOS
Melhor filme: "A Transformação de Canuto", de Ariel Kuaray Ortega e Ernseto de Carvalho
Melhor Direção: Ariel Kuaray Ortega e Ernseto de Carvalho, por "A Transformação de
Canuto"
Melhor Ator: Fabrício Benitez, por "A Transformação de Canuto"
Melhor Atriz: Cibele Tedesco, por "Até que a Música Pare"
Melhor Roteiro: Thais Fernandes, Rafael Corrêa e Ma Villa Real, por "Memórias de um Esclerosado"
Melhor Fotografia: Camila Freitas, por "A Transformação de Canuto"
Melhor Direção de Arte: Adriana do Nascimento Borba, por "Até que a Música Pare"
Melhor Montagem: Jonatas Rubert e Thais Fernandes, por "Memórias de um Esclerosado"
Melhor Desenho de Som: Kiko Ferraz, por "Memórias de um Esclerosado"
Melhor Trilha Musical: André Paz, por "Memórias de um Esclerosado"
Júri Popular: "Infinimundo", de Bruno Martins e Diego Müller
CURTAS-METRAGENS GAÚCHOS - PRÊMIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DE CINEMA
Melhor filme; "Chibo", de Gabriela Poester e Henrique Lahude
Melhor direção: Rodrigo Herzog, por "Está Tudo Bem"
Melhor atriz: Jéssica Teixeira, por "Noz Pecã"
Melhor ator: Victor Di Marco, por "Zagêro"
Melhor roteiro: Victória Kaminski e Rubens Fabrício Anzolin, por "Posso Contar nos Dedos"
Melhor fotografia: Eloísa Soares, por "Cassino"
Melhor direção de arte: Denis Souza, Victoria Kaminski e Nadine Lannes Maciel, por "Posso Contar
nos Dedos"
Melhor trilha sonora: Edneia Brasão e Pedro Erler, por "Não Tem Mar Nessa Cidade"
Melhor montagem: Marcio Picoli e Victor Di Marco, por "Zagêro"
Melhor desenho de som: Fábio Baltar, por "Flor"
Melhor produção executiva: Graziella Ferst e Marlise Aúde, por "Pastrana"
FILMES UNIVERSITÁRIOS - PRÊMIO EDINA FUJII – CIA RIO
“A Falta que Me Traz”, de Laura Zimmer Helfer e Luís Alexandre, da
Universidade de Santa Cruz do Sul
texto: Daniel Rodrigues
fotos: Daniel Rodrigues, Leocádia Costa e Edison Vara/Festival de Gramado