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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Exposição “Tramas do Inventário”, de Íris Borges e Letícia de Cássia - Projeto Lãs do RS - Casa de Cultura Mário Quintana - Porto Alegre/RS


Não é de hoje que acompanho os trabalhos fotográficos de minha amiga Íris Borges. Aliás, lembro de quando ela começou nessa trilha da fotografia, há uns bons anos. Porém, como se vão 30 anos de amizade, deu tempo de vê-la aperfeiçoar-se nessa arte e colocar pra fora esse talento, seja em projetos solo, seja nos registros de eventos como a Feira do Livro de Porto Alegre. Em 2014, inclusive, tive a felicidade de visitar e, mais do que isso, escrever o texto de apresentação de sua exposição “Aparício”, no antigo Paris Cinema Café, dedicada ao saudoso gatinho dela e de seu parceiro, meu também amigo “trintão’ Christian Ordoque.

Pois, já sabendo do talento de Íris com as lentes, fomos Leocádia e eu visitar antes que encerrasse a exposição “Tramas do Inventário”, com fotos dela e de Letícia de Cássia, também curadora, no espaço Vitrine Lãs do RS: Fio da Meada, na Casa de Cultura Mário Quintana. A mostra, que busca fazer um inventário dos saberes e fazeres da lã do Rio Grande do Sul, integra o projeto de inovação social e cultural Lãs do RS, que apoia dezenas de artesãs a partir das ações ligadas à cadeia produtiva e artesanal da lã no Estado. 

Tiradas principalmente por Íris e destacando o papel das mulheres neste contexto, há fotos de vários municípios do interior gaúcho onde a cultura da lã é presente, como Caçapava do Sul, Mostardas, Lavras do Sul, Rosário do Sul, Santana do Livramento e São Gabriel. Nelas, nota-se um olhar sensível e detalhista, que trazem cores, vivências e emoções só possíveis de serem captadas por quem, como Íris, estava atenta ao momento (e ao ângulo) certo. Tanto os retratos de pessoas quanto as fotografias de paisagens ou de objetos transmitem esse apuro, que alia instantaneidade e observação. Tudo sem uso de grandes recursos de edição posterior, ou seja, são fotos em que prevalece a luz original e o enquadramento da hora. 

Pena que a exposição se encerrou, mas é bem possível que seja levada a algum outro espaço juntamente com as peças exclusivas das lãs feitas com uso de fibras naturais, couro e resíduos de plantas, através de técnicas tradicionais e de referência cultural. Se pousar noutro pago, possivelmente estaremos lá de novo. Por ora, confiram algumas das belas peças expostas em “Tramas do Inventário”:

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Foto geral da parede com as fotos


A fofa ovelha, geradora da matéria-prima


Retrato diante de um dos principais cartões-postais do RS:
as ruínas das Missões, em São Gabriel


Fotaça mostrando manual a lavagem da lã


Novelos pendurados em diversos tons de cor


Diversidade de ângulos e olhares


Artesã captada pela lente de Letícia


A cadelinha atenta à lida com as ovelhas


Vê se essa nuvem não parece feita de lã?


Linda foto de Letícia do entardecer no campo 


Outro ângulo geral com as peles naturais logo abaixo


Detalhe das tramas da lã que foi parar no pôster da exposição


Leocádia e eu com a amiga e autora Íris


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texto e fotos: Daniel Rodrigues

terça-feira, 9 de junho de 2026

Seminário “14 de Maio - O Dia Seguinte. E agora?” - Teatro Roberto Atayde Cardona - Montenegro/RS (14/05/2026)


Por essas coisas da vida, no ano passado estive na cidade de Montenegro dando meu curso sobre Cinema Negro na Fundarte, através do Sesc Montenegro, Naquela ocasião, meu irmão Tiago Ritter, montenegrense, sabendo que estava na sua cidade-natal, me manda um áudio de whats dizendo: “Ah, tu tá em Montenegro?! Então, vou avisar uma pessoa que eu conheço, que gostaria muito que vocês se conhecessem, pois admiro vocês dois”. Gol. A pessoa a quem Tiago se referia era Rogério dos Santos, presidente da Central Única das Favelas - Cufa RS Montenegro e a quem ele conhecia não só a pessoa como o trabalho que desenvolvia há bastante tempo.

Pois, passado quase um ano após o curso, sou convidado a participar, integrando um seleto grupo de painelistas, do seminário pertinentemente intitulado: “14 de Maio - O Dia Seguinte. E agora?”, ocorrido nesta data no Teatro Roberto Atayde Cardona, e com a companhia de Leocádia.. 

Digo “pertinentemente intitulado” porque o seminário, realizado pela Cufa RS Montenegro através do projeto Resgate Negro do Vale do Caí, propõe uma reflexão sobre o que veio depois do 13 de maio de 1888, data da assinatura da Lei Áurea, que aboliu formalmente a escravidão no Brasil. O 14 de maio simboliza justamente o dia seguinte, quando a população negra foi deixada sem reparação, sem políticas de inclusão e sem acesso real à cidadania. Algo que eu exploro em meu curso e que considero o principal ponto de inflexão sócio-histórico da população negra no Brasil.

Para minha satisfação e orgulho, subi no mesmo palco que pessoas de renome nacional e regional, algumas as quais muito admiro, como Celso Athayde, presidente da Cufa Global; o escritor Itamar Vieira Junior; a líder comunitária Rozeli da Silva; e a deusa negra Zezé Motta, com quem, por rápido momento estive e pude entregar-lhe um exemplar do livro da Accirs e registrar uma foto.

A mesa de debate a qual compus foi para tratar do tema: “Raízes Negras da Cultura Brasileira” e que tive a felicidade de dividir com a mãe-de-santo e líder comunitária Cláudia Chu, o professor de música Renato Batista, o músico senegalês radicado no RS Kanhanga e mediação do querido jornalista Marck B. Dentre as preciosas falas do debate, a minha foi na linha da valorização e contextualização do cinema negro no Brasil, considerando os dois pontos de partida: a famigerada Abolição da Escravatura, em 1988, e a criação do cinema, poucos anos depois, em 1895. Isso explica em parte porque, somente nos anos 40 algum eco de cinema sobre as questões do povo negro começaram a ser tratadas na tela grande.

Também teve aquelas que tive o prazer de conhecer e assistir, como a empreendedora Gabi Valente, a advogada Danielle Araújo, a líder comunitária Maira Azevedo e a educadora e filósofa Bárbara Carine, vencedora do Prêmio Jabuti Educação pelo livro "Como Ser um Educador Antirracista" e criadora da louvável escola Afro-Brasileira, na Bahia. Que fala potente e descolonizadora a sua! Daquelas que mexeu com a emoção de todos na plateia. Quem também deu um show – e arrancou ao mesmo tempo gargalhadas e consternação da plateia com sua fala consciente e combativa sobre as mães pretas na sociedade brasileira, foi a comunicadora Tia Ma. Discussões que só um evento deste calibre e força simbólica este pode oportunizar.

Pela manhã, abertura oficial do seminário


Zezé Motta e Rozeli da Silva mediadas por Rogério dos Santos


Nos bastidores com a deusa Zezé Motta, a quem presenteei com um livro da Accirs


Também prestigiei Celso Athayde e seu filho, Vinicius, com quem troquei autógrafos


Itamar Viera Jr. falado sobre sua escrita negra


Nós no debate sobre Raízes da Cultura Negra Brasileira


Trecho de minha participação no seminário


Ao final com os companheiros de debate Marck, Cláudia, Renato e Kanhanga


Foto só sorrisos com Marck B e o idealizador do evento, Rogério dos Santos




texto: Daniel Rodrigues
fotos e vídeo: Daniel Rodrigues e Leocádia Costa

quinta-feira, 28 de maio de 2026

T.N.T. - Show "T.N.T. I - Ponto Zero" - Auditório Araújo Vianna - Porto Alegre (24/04/2026)


A T.N.T. pode não ser necessariamente a melhor banda gaúcha de todos os tempos, haja vista que tem Os Replicantes, De Falla, Engenheiros do Hawaii, Liverpool, Cascavelletes, Saracura... Mas uma coisa não se tem dúvida: eles são a banda mais icônica do rock ‘n’ roll no Rio Grande do Sul. Criado há 40 anos, esse histórico grupo tanto para o rock da terra da bombacha quanto para o Brasil celebrou as quatro décadas de lançamento do seu memorável primeiro e homônimo disco num disputado show no Auditório Araújo Vianna, que lotou de fãs para ouvi-los e cantar seus clássicos.

Por falar em clássico, foi assim que iniciaram a apresentação: emendando nada menos que três de seus maiores sucessos: “Entra Nessa”, “Ana Banana” e “Identidade Zero”. Ufa! Um começo arrasador.. Porém, de certa forma parece que Charles Master, Márcio Petracco, Tchê Gomes, João Maldonado, Fábio Ly, Paulo Arcari e Felipe Jotz gastaram metade da pólvora antes do primeiro quarto de batalha. Não que depois tenha necessariamente decaído ao tocaram músicas menos conhecidas ou tão aclamadas, mas o som mal equalizado (que embolava os sons e dificultava que se entendesse aquilo que já não se sabe de cor), somado à longa duração do show inteiro, deu um certo cansaço.

Mas tudo bem, afinal, show de rock de verdade passa por cima de som ruim ou algum equívoco de repertório, e o  público compareceu mesmo para vê-los tocar as músicas que uma geração inteira de gaúchos cresceu ouvindo nas rádios. Caso de “Irmã do Dr. Robert” e “Oh Deby”, esta última, assim como as três citadas do começo do show, composições de autoria de Flávio Basso (ou Júpiter Maçã ou Jupiter Apple). Aliás, ou eu não entendi pelo som embolado das falas entre as músicas ou ninguém mencionou Flávio, que, convenhamos, é o arquiteto da T.N.T., a cabeça mais criativa não só da banda, mas de todo o rock gaúcho em todos os tempos. Estranho...

Além do disco de estreia, teve também coisas das outras fases, como os hits “Não Sei” (“Não sei se eu tô certo ou se eu tô errado/ Mas faço tudo o que eu digo e digo tudo que eu faço”), “Não Vai Mais Sorrir (Pra Mim)” (ambas de “TNT nº 2”, de 1988 e já sem Flávio na formação), “Noite Vem, Noite Vai” e “Quem Procura Acha”, duas do terceiro álbum de estúdio da T.N.T., de 1991. O público gostou.

O hit "Não Sei" com sua melodia a la "Sweet Jane"


Rolou ainda uma participação da Orquestra Rosariense, que não acrescentou muito, na verdade. Tanto que a banda tocou, no bis, exatamente as músicas que haviam rearranjado para as cordas, “Muito Cuidado” e “Nunca Mais Voltar”. Mais para o final, teve outra consagrada, “Cachorro Louco”, desses rocks imbatíveis, dos melhores do BRock anos 80. Para encerrar, “O Mundo É Maior Que o Teu Quarto”, da Cowboys Espirituais, uma das corruptelas da T.N.T. assim como a Tenente Cascavel e a Cascavelletes. Baita música, regravada por gente como Barão Vermelho, mas que, por não terem dosado melhor a narrativa do show e gastado as melhores lá no início, talvez não fosse a mais indicada para encerrar.

Mas, de novo, tudo bem! A noite foi para celebrar o bom e velho rock ‘h’ roll, o que a T.N.T. representa no mais alto grau. Deixa pra lá a acústica ruim, o andamento do repertório. O negócio foi “entrar nessa” e “dançar um rock ‘n’ roll”. Foi o que fizemos - e foi legal.

🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸

Começa o show da lendária T.N.T.


Acompanhando a letra no telão de "Entra Nessa",clássico do rock gaúcho


Entrando nessa com "Entra Nessa"

"Ana Banana" no começo do show pondo 
todo mundo pra cantar


Repertório do primeiro e dos outros discos da
banda compuseram o show

A T..N.T. canta outra clássica: 
"A Irmã do dr. Robert"


Mais clássicos


Tocando "Nunca Mais Voltar", das preferidas da galera


Estes dois roqueiros felizes por ver a T.N.T.
celebrando os 40 anos de sua estreia


🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸


texto: Daniel Rodrigues
fotos e vídeos: Daniel Rodrigues e Leocádia Costa

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Beira-Mar Norte e Centro Histórico de Florianópolis/SC


Uma das nossas estratégias para circular por Florianópolis sem ter um carro, fosse pelas praias da ilha, fosse para aproveitar a sua parte urbana, foi ficar hospedado no Centro da cidade. Assim, pudemos, nos dias em que não pegamos praia, intercalamo-las com passeios ali mesmo por onde estávamos. Diferentemente do que a maioria dos turistas fazem em cidades litorâneas, para nós é um barato tanto esse tipo de banda quanto conhecer as regiões de Centro, que geralmente têm um Centro Histórico, Mercado Público, museus... Tudo que a gente aproveitou nos dias de “não-praia” por Florianópolis.

Num desses dias, o passeio começou de manhã pela orla da Beira-Mar Norte, um dos cartões-postais de Floripa, com suas pistas para circulação e prática de esportes por toda extensão, banhado pelo mar represado entre a ilha e o continente, assim como a icônica ponte Hercílio Luz, que liga os dois pedaços de terra que compõem a capital catarinense.

Capital esta, um dia chamada de Nossa Senhora do Desterro, cheia de história, constituída ao longo de 4.500 anos pelas nativas e dizimadas tribos indígenas Kaingang, Xokleng e Guarani; os escravos negros, vindos principalmente de Moçambique, na África Austral; o papel desbravador dos oportunistas exploradores Bandeirantes, os açorianos ocupantes e as figuras históricas catarinenses, tal Anita Garibaldi, Nereu Ramos, Othon da Gama Lobo d’Eça e o já mencionado Hercílio Luz, engenheiro e político. Parte disso pudemos ter contato na exposição permanente Museu de Cidade, presente no Museu de Florianópolis, hoje comandado pelo Sesc SC e que fica num prédio histórico do Centro, o qual já serviu de Casa de Câmara e Cadeia Municipal.

Antes, contudo, entre o passeio na Beira-Mar Norte e um almoço no Shopping Beira-Mar, mais deriva pelas ruas da cidade, que lembram por vezes Rio de Janeiro, Porto Alegre e São Paulo, até chegar no Marcado Público, patrimônio histórico e cultural de Floripa. Dele, tinha vaga e prazerosa lembrança de quando fui, há uns 20 anos, a qual se confirmou como num deja vu. Aquele clima de mercado público de metrópole, com suas bancas de souvenires, artesanato, comidas típicas, gentes e movimentação. Nem pestanejo em dizer que a melhor comida da viagem foram os sanduíches da banca Paradinha do Fernando, um pãozinho francês tostado com recheio de omelete com calabresa e outro de bolinho de carne. Uma atração turística, que se soma à simpatia e o bom atendimento do próprio Fernando e de sua equipe.

Teve também uma passada na loja de artesanato da Casa da Alfândega, outro prédio histórico, ao lado do Mercado, um dos pontos iniciais da cidade. Pertencente ao IPHAN e Inaugurado em 1876, em uma cerimônia que coincidiu com o aniversário da princesa Isabel, ali, onde hoje se celebra a arte dos artistas indígenas, sambaquis e nativos da ilha, um dia foi o principal centro alfandegário de Florianópolis, até o fechamento do porto, em 1964. Um dia, ali se comercializou de um tudo, que chegava à ilha como mercadoria pelas embarcações. Inclusive escravos.

Essa Florianópolis mais evidente e ao mesmo tempo mais profunda carrega no seu sol e no calor ameno muita energia, guardada naquelas construções históricas, naquelas calçadas pedregosas e na complexidade da intersobrevivência, que se enxerga em quem está vivo +e em quem não está – mas um dia esteve. Como é, por sinal, todas as cidades históricas.

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Cena matinal na Beira-Mar Norte


Eu amando Floripa


Mais da manhã ensolarada na Orla de Florianópolis


Detalhe das pedras


O mar e o Continente ao fundo


Detalhe da ação da água nas pedras 
da Beira-Mar Norte


Barcos


Uma das antigas estações de bombeamento desativadas,
mas cujos prédios são patrimônio histórico


Foto de dia anterior com o Mercado Público, ao fundo, e a Casa da Alfândega,
em seu tom amarelo característico


Os cachorros do Centro


Movimento interno do Mercado Público 


Encontramos Roberto Carlos cantando e lucrando uns trocados no Largo da Alfândega


Loja dentro do prédio histórico Casa da Alfândega 


A Bruxa, presente no folclore da Ilha, controlando da porta quem entra em quem sai


Instrumentos dos sambaquis no Museu da Cidade


Fotos de escravos vindos de Moçambique para a Desterro colonial


Esta dupla terminando seu passeio pelo Centro de Floripa

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