Curta no Facebook

Mostrando postagens com marcador Musical. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Musical. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 4 de maio de 2026

"Michael", de Antoine Fuqua (2026)


É impossível assistir à cinebiografia de algum artista que se admira sem relacionar com a própria vida. Ainda mais aqueles que fizeram parte da SUA biografia. Foi o que me aconteceu vendo "Michael", do cineasta Antoine Fuqua. As lembranças da infância, quando eu, com 4 para 5 anos de idade, ia pra frente da TV dançar igual a Michael Jackson em "Thriller", nos idos de 1982/3, vieram à mente. O icônico videoclipe, que impressionara o mundo inteiro com sua abordagem e qualidade cinematográficas, foi um de impacto gigante para mim à época, um dos primeiros contatos com cultura de massa que aquele pequeno menino negro do Sul do Brasil teve juntamente com os desenhos animados da TV aberta.

Somente este contexto já é suficiente para me aproximar tanto do filme, que reduz minha chance de não gostar. Afinal, o aguardado longa de Fuqua, sucesso de bilheteria, é, sim, apreciável, mas abertamente comercial. Com a direção tecnicamente perfeita e a abordagem pop, como lhe é característico, o cineasta, um dos eminentes negros do cinema norte-americano atual, conta a história do maior astro pop de todos os tempos (interpretado por seu sobrinho Jaafar Jackson) de forma cronológica, porém com um recorte acertado, haja visto que não vai até a sua morte. Pegando do começo da vida artística, ainda criança com os irmãos companheiros de Jackson 5, passando pela ascensão da carreira solo, vai até o fatídico momento em que Michael se desenvencilha do opressor pai, Joe - vivido por Colman Domingo, num papel digno de indicação a Oscar. As belas cenas musicais e o realismo de diálogos ajudam a cumprir bem esse recorte narrativo, que nada mais é do que a escolha central da trama: a conturbada relação de Michael com o pai.

No que se refere a Joe Jackson, cabe uma reflexão sociológica. Afinal, como o histórico de racismo, intolerância e perseguição aos negros nos Estados Unidos gerou pais de família afro-americanos rancorosos, mesquinhos, infelizes e invejosos! E pior: dada a baixa autoestima deles, revoltados com uma sociedade que lhes esmagou e não lhes deu oportunidade de brilharem com seus talentos individuais, usam esses sentimentos somenos, justamente, contra aqueles que deviam amar. É o caso de Joe e o caçula Michael, mas também com outros artistas negros do século 20, como Ike Turner para com a esposa Tina Turner e o pastor C. L. Franklin com sua filha Aretha. Todos psicologicamente doentes e tiranos domésticos. Incapazes de admitir que seus próximos são, sim, astros com mais brilho que eles, entram em rota de colisão e numa cruzada para obscurecê-los. É triste de se ver tamanha perversidade, mas explicável em um contexto maior.

Domingo na pele do perverso Joe Jackson:
digno de Oscar
Afora isso, o filme também é incisivo ao apresentar um Michael dono de si e não um artista apenas talentoso levado pela mão por responsáveis como muito se propagou. O empresário John Branca e o produtor Quincy Jones, a quem ele respeitava e admirava, não comandavam, mas, sim, o próprio Michael. Sua consciência de homem preto, inclusive - algo pelo qual também sempre foi duramente criticado em razão do branqueamento da pele e das cirurgias plásticas descaracterizantes - é consistentemente rechaçada na cena em que ele, em 1983, bate pé diante do diretor da sua gravadora para que seu clipe fosse o primeiro de um artista negro a rodar na MTV. E foi.

Para quem acompanhou Michael Jackson desde criança até a fase adulta sabe que muito do que é mostrado faz sentido, mas também que há um cuidado em tratar de temas delicados. Porém, essa é a hora de trazer à tona essas delicadezas, se não, fica estranho.

E é aí que a proximidade de fã com a obra do artista faz com que seja impossível não se notar as lacunas. Quanto mais fã, aliás (e nem sou o maior conhecedor de MJ, repleto de ardorosos apaixonados pelo mundo todo), mais se sabe dos fatos verídicos. E me refiro a lacunas importantes, basais. Em "Michael", um dos assuntos faltantes foi criticado antes mesmo do filme ser lançado: o nebuloso (mas possivelmente verdadeiro) caso de abuso sexual sofrido por ele na infância. Nem uma menção, mesmo que sutil para não escancarar algo tão traumático? Pesa negativamente, uma pena.

Outro ponto faltante: onde está Diana Ross? E Stevie Wonder? Ambos admirações de Michael e com quem ele conviveu, tocou, filmou e gravou. Não foi possível incluí-los no roteiro? Foi uma opção? Há questões contratuais que impeçam? Verba para pagar direitos de imagem duvido que os produtores não tivessem. 

O que me pesou também foi a ausência de referência ao filme "O Pequeno Príncipe", de 1974. Falou-se acertadamente de Gene Kelly, James Brown, Charles Chaplin e Fred Astaire, inspirações mais óbvias de Michael. Mas seria importante informar a quem não sabe de onde vieram várias de suas referências coreográficas: da dança da serpente no deserto, brilhantemente coreografada pelo ator e dançarino Bob Fosse. Há gestuais idênticos aos eternizados por Michael, dentre os quais o famoso passo Moonwalk, marca registrada de MJ. Tiveram medo de expor Michael e ferir sua imagem? Embora a clara semelhança da dança de um e de outro, não parece uma mera imitação e, sim, uma forte inspiração, por isso não faria nenhum mal em se revelar isso ao grande público. Ao contrário: traria mais uma das referências pop que a genial cabeça de Michael conseguia reunir e devolver em forma de arte.

A semelhança das danças de Michael Jackson e Bob Fosse


De tudo que não está em "Michael", no entanto, o que mais me ressenti foi não se mostrar com mais detalhe o processo criativo do Rei do Pop ao compor. Há vídeos de matérias jornalísticas que registram esse processo, algo absolutamente fascinante de se ver, ainda mais considerando que ele, dono de ouvido absoluto, não precisava (assim como Elis Regina e Lupicínio Rodrigues) tocar nenhum instrumento para saber exatamente o que queria em sua música. Fuqua opta por evidenciar mais o processo de criação coreográfica - o que faz com perfeição nas cenas de "Beat It" e "Thriller" -, mas dá menor relevância para a invenção musical. No máximo, situa o conceito impulsionador de determinadas canções, como coisas que ele via na TV. Como fã, saí frustrado por isso, pois esperava por mais.

Cinebiografias não são necessariamente completas, é certo. Mas quem vê, por exemplo, "O Tempo não Para", sobre Cazuza, sente falta de se mencionar ou representar Ney Matogrosso, pessoa sabidamente fundamental na vida íntima e artística do autor de "Ideologia". Contudo, não dá para alguém que conhece o objeto do filme fechar os olhos para o que (não) está vendo. Ainda mais, quando se tratam de informações importantes. 

Há representatividade e "lugar de fala" na direção de Fuqua, uma vez que somente os tempos atuais deram condições a uma produção dessas ser realizada por um cineasta negro. Para ele, pessoalmente, deve ser uma realização abordar um ídolo formativo. Entendo isso. No entanto, fica por aí a reserva autoral. O final de "Michael", que deixa reticências para uma sequência, fecha a tampa dessa abordagem excessivamente comercial da obra: recorta-a até um ponto bem estipulado, mas, fatalmente, não a desfecha com o impacto que merecia. Como geralmente ocorre, o lado business compromentendo o artístico. Mas para um cineasta que esticou até a inanição uma franquia que começou legal como "O Protetor", não é de se estranhar que ainda produza tantas sequências de "Michael" quanto as de "Velozes & Furiosos". E o público do entretenimento, sem maiores distinções, vai adorar.

*************

Trailer de "Michael", de Antoine Fuqua


👑👑👑👑👑👑👑👑👑

"Michael"
Direção: Antoine Fuqua
Gênero: Drama/Biografia/Musical
Elenco: Jaafar Jackson, Nia Long, Laura Harrier, Juliano Krue Valdi, Miles Teller, Colman Domingo
Duração: 127 min
Ano: 2026
País: Estados Unidos
Onde assistir: Nos cinemas

👑👑👑👑👑👑👑👑👑


Daniel Rodrigues

terça-feira, 10 de novembro de 2020

cotidianas #696 - O Mundo é Assim

 

"Day and Night", de Max Ernest (1941)
O dia se renova todo dia

Eu envelheço cada dia e cada mês

O mundo passa por mim todos os dias

Enquanto eu passo pelo mundo uma vez


A natureza é perfeita

Não há quem possa duvidar

A noite é o dia que dorme

O dia é a noite ao despertar


****************

letra de "O Mundo é Assim"
da Velha Guarda da Portela
(autoria: Alvaiade, 1968)

Ouça:

segunda-feira, 27 de julho de 2020

"Hair", de Milos Forman (1979)



"Hair" representa o início do movimento jovem através da contracultura e do New Age. Ideias que representam um clamor por mudança de pensamentos: sexo não é algo pecaminoso, existe mais que guerra e dinheiro, a aparência não é sinônimo de status (ou não deveria ser) e a crença de que existe algo a mais por aí através da astrologia (a nova era de Aquário).

Adaptado tardiamente dos palcos (praticamente 10 anos depois do lançamento na Broadway), estreou nos cinemas representando mais do passado do que do presente. Mesmo assim, suas danças desorganizadas e sexualizadas, as letras politizadas, os protagonistas de discurso livre e ingênuo, as melodias marcantes... Tudo ainda fazia sentido.

Destaque para a cena do alistamento militar através da música "White Boys / Black Boys" onde militares analisam os convocados nus com um fetichismo erótico que faz sentido dentro da lógica de escolher o melhor "material". Crítica de primeira.

cena do alistamento militar - "White Boys / Black Boys"
"Hair" merece ser visto até por quem não gosta de musicais. Ainda mais em tempos como o nosso, em que a realidade dura e cruel esmaga nosso dia a dia. Afinal, a dureza da luta não pode ser motivo pra gente parar de contestar, sonhar e lutar por um mundo melhor. Mesmo que nossos valores sejam ingênuos e utópicos eles devem sempre estar lá. A mudança começa com os sonhadores.
As causas, reivindicações e lutas de "Hair"
permanecem atualíssimas e extremamente válidas ainda nos nossos dias atuais. 

por Luan Nascimento

quinta-feira, 16 de março de 2017

“Cantando na Chuva”, de Gene Kelly e Stanley Donen (1952)



Eu já tinha visto no Youtube as duas cenas mais icônicas de “Cantando na Chuva” (a clássica em que Gene Kelly dança e canta em meio a uma chuva feita de água e leite - sim, eu pesquisei - ou a cena hilária e mais exigente fisicamente de Donald O'Connor em que canta "Make 'em Laugh" em meio a piruetas e tombos). Mas, confesso, nunca tinha parado para assistir ao filme por inteiro.

Brega em alguns momentos, mas com um trabalho artístico impressionante, tem nos números de danças e na metalinguagem o seu forte. Afinal, um filme que fala sobre o início do cinema falado, cheio de referências ao próprio fazer cinematográfico pode render falas interessantes como "Não vou muito no cinema, se já viu um [filme], já viu todos". O que é surpreendente é que todas as canções de “Cantando na Chuva” (com exceção de duas) já tinham sido utilizadas em outras produções. Então, o roteiro foi construído ao redor das músicas, o que não dá pra perceber devido à organicidade da história.

Claro que há os exageros, os furos e uma ou outra canção não tão inspirada ou deslocada, mas o que me chamou atenção foi o empenho dos atores em todos os números. Quando fiquei sabendo que as veias dos pés de Debbie Reynolds estouraram com esforço num número de sapateado ou que Donald O'Connor precisou de um longo período de repousou depois da famosa cena, pensei que todos eles mereceram ser imortalizados por esse clássico.

E vocês achando que cantar e dançar era coisa fácil, hein?


A famosa cena dos tombos e piruetas de O'Connor que 
lhe rendeu uma boa canseira

por Luan Pires