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quarta-feira, 23 de setembro de 2026

John Coltrane - "Olé Coltrane" (1961)


"Que grão toureiro na praça!
Que bom serrano na serra!
Que brando era com as espigas!
Que duro com as esporas!
Que terno com o orvalho!
Que deslumbrante na feira!
Que tremendo com as últimas
bandarilhas todas treva!"
Trecho do poema "Pranto por Ignacio Sánchez Mejías", do poeta espanhol Federico Garcia Lorca

Não há precisão nas datas, mas estima-se que o jazz tenha surgido em finais do século 19. Ou seja: trata-se de uma linguagem de pouco menos de um século em meio, ainda mais considerando que, comercialmente, estabeleceu-se na indústria fonográfica há menos que isso. O florescimento do jazz foi como a abertura de um portal de onde pode-se ver emergir alguns dos maiores gênios da música moderna reconhecidos por todo o mundo. Estes praticamente 100 anos do jazz coincidem com os exatos 100 de nascimento daquele que é, talvez, não apenas o maior talento da história do jazz, como um ser ainda mais prodigioso na história da música. Como Beethoven, Mozart, Bach, Debussy. Um gênio superior, movido por um amor supremo e que tocou, com seu sopro de saxofone, a mão de Deus: John Coltrane.

Em sua vasta obra, produzida em apenas 9 anos de carreira, entre diversos álbuns solo, parcerias ou participação em conjuntos, não são poucos os discos que se destacam, sendo comum se lembrar da fase com seu famoso quarteto do início dos anos 60, formado por Elvin Jones, na bateria, McCoy Tyner, piano, e Paul Chambers, baixo. Porém, em meio a tanta variedade e qualidade, um outro trabalho merece especial realce: “Olé Coltrane”, de 1961.

Além de integrar com muita propriedade e originalidade formas jazzísticas distintas, como o hard bop e o jazz modal ao pós-bop e o avant-garde, e diferentemente de outros trabalhos do próprio Coltrane da mesma época em que o hard-bop prevalecia (“Giant Steps”, “Lush Life”, “Bags & Trane”, “Coltrane Jazz”), “Olé” é exuberante também na formação do grupo que o acompanha. Mesmo com o sucesso de seu então recém formado quarteto mágico, Coltrane ousa experimentar uma banda maior e com outras sonoridades, texturas e estilos. Para executar os três números de “Olé”, chama para a gravação, ocorrida em maio daquele ano para a gravadora Atlantic, um time grande, que incluía, além do piano (Tyner), bateria (Jones) e baixo (Art Davis e Reggie Workman intercalando-se), flauta (Eric Dolphy), trompete (Freddie Hubbard) e um sax alto para conjugar com os seus tenor e soprano. 

Com esta conformação diferente e expandida em relação a uma banda mais enxuta, Coltrane cria uma atmosfera densa e onírica para traduzir a sua visão da cultura hispânica, algo muito em voga no jazz daquele início de anos 60. Na faixa-título, “Olé”, entretanto, Coltrane faz mais do que apenas dar sua versão, mas, sim, de moldar sua alma àquela sonoridade. Jazz modal de mais de 18 minutos (o que compreende todo o lado A do formato LP original), tem na influência espanhola um “leitmotiv”, que dá base para que ele e seus parceiros de estúdio desaguem suas melhores intenções e impressões. Dolphy, com uma flauta estonteante tal o capote vermelho do toureiro tremulando diante do touro; Hubbard, contagiado pela emoção da arena, mas sempre com um olhar no que virá adiante, no próximo passo do bailado mortal; Davis com um baixo ora trastejado, ora tangido, que remete às variações de posição entre o furioso animal e o destemido artista; Tyner com o piano garantidor do espectro modal em suas variações circulares, assim como o formato da arena da tourada; a bateria de Jones pulsando num compasso flamenco; e o sax soprano de Coltrane, claro, representando o toureiro: elegante, esguio, altivo, sensual. Mas, sobretudo, fatal, matador. 18 min de puro deleite.

Jazz bluesy, "Dahomey Dance" convida o ouvinte a outro tipo de dança, que não o bailado dramático da tourada imortalizado nos versos de Federico Garcia Lorca. Voltando-se à celebração da sua Mãe-África, Coltrane e banda transformam em sons toda a grandeza do icônico Reino de Daomé, na África Ocidental e onde hoje fica localizado o Benim, o qual prevaleceu por três séculos através de sua arte, comércio, exércitos e religiosidade. Fechando, “Aisha”, de autoria de Tyner, uma homenagem à sua então esposa e cujo nome, não coincidentemente, tem, como ela, origem árabe (Tyner foi um devoto da religião islâmica) e ainda por cima significa "aquela cheia de vida". Assim como ela, a música é, sim, tomada de vida e pelo calor da paixão. Para quem já era, àquela época, um dos mais exímios baladistas do jazz como Coltrane, essa composição do amigo dedicada à sua amada foi um presente. Quanta delicadeza, e não somente de front man, mas de Hubbard, Dolphy, Jones e Workman, de quem se escuta, ao fundo, o vibrar das cordas do contrabaixo. De Tyner, então, nem se fala.

Há 100 anos nascia John Coltrane. Há mais ou menos o mesmo tempo, o jazz se estabelecia como cultura. Hoje, é impossível conceber um sem o outro: Coltrane sem que o jazz tenha sido antes inventado e, tanto quando, o jazz sem o capítulo Coltrane em sua história. Um século de Coltrane é como celebrar um século de jazz. Ou vice-versa. Não importa de que lado ou de onde venham os aplausos para sua música universal. Pode ser de qualquer lugar do mundo. Italianos diriam "Bravo!", franceses diriam "Hourra!", latinos diriam "Viva!" e os espanhóis, sabiamente dramáticos, dizem: "Olé, Coltrane!".

🎷🎷🎷🎷🎷🎷🎷🎷🎷

FAIXAS:
1. "Olé" (John Coltrane) - 18:05
2. "Dahomey Dance" (Coltrane) - 10:50
3. "Aisha" - (McCoy Tyner) - 7:32

Faixa bônus da edição em CD:
4. Original Untitled Ballad (To Her Ladyship) (Billy Frazier) - 9:00

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OUÇA:

🎷🎷🎷🎷🎷🎷🎷🎷🎷


Daniel Rodrigues


quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Exposição “Andy Warhol: Pop Art!”, de Andy Warhol - Museu de Arte Brasileira – MAB FAAP - São Paulo/SP

 


"Não importa quantas vezes a gente se encontre na pista, ele [Halston] me agarra e me abraça e me beija e diz, 'É muito bom ver você, mr. Warhol'".
Andy Warhol, em "Diários de 
Andy Warhol - vol. 1 (1976-1981)"

Não é errado dizer que o motivo que nos levou a esta curta mas proveitosa temporada em São Paulo foi ver Andy Warhol. A vontade de visitar a cidade já nos era acalentada há anos, mas sempre impossibilitada por uma série de fatores que não vêm ao caso enumerar. Porém, a presença de Warhol através da exposição temática a ele “Andy Warhol: Pop Art!”, no Museu de Arte Brasileira – MAB FAAP, era forte o suficiente para considerarmos a possibilidade, o que se concretizou em junho, pouco antes da mesma ser prorrogada até final de agosto.

Artista referencial em nossas formações tanto culturais e filosóficas como acadêmicas, Andy é daquelas admirações de anos. Aliás, para possivelmente qualquer ser humano que viveu os últimos 80 anos, visto que suas criações, tão emblemáticas quanto icônicas, são parte da vida social do mundo moderno. Já havíamos visto algumas obras dele em parceria com Jean-Michel Basquiat no CCBB de Belo Horizonte, em 2014, e na mostra individual de Basquiat no CCBB do Rio de Janeiro, em 2018, e já tínhamos nos embasbacado. Imagina agora, nesta exposição, que reúne mais de 600 peças do “pai da pop-art”!?

Como fãs e conhecedores de sua trajetória, não deixamos de sentir algumas ausências na seleção das obras. É o caso das belíssimas capas para LP’s de jazz do início da carreira, anos 50, ou mesmo os quadros coassinados com Basquiat, da segunda metade dos anos 80, de um Warhol já adoecido e “passando o bastão” ao pupilo. Porém, nada que desmereça a excelente curadoria, que dá, sim, a dimensão da magnitude de sua obra. Estão lá as bottle-lines da revista Glamour no começo da carreira; os anúncios para calçados e artigos de luxo dos anos 50; a arte kitsch dos anos 70; a Factory; o Studio 54; o lado designer; o publisher, a ligação com a música pop; os quadros clássicos (Marylin, Liz Taylor, Elvis, Pelé, Liza); o pioneirismo como “influencer”; a moda; o ativista político; o visionário do audiovisual e quantos Andy Warhol se queira imaginar.

Com textos muito bem escritos e informativos, ressaltando o que merece, a exposição recapitula os principais momentos históricos de sua carreira nas artes, sejam elas visuais, da música, da moda, do cinema, da televisão ou da fotografia. De um senso estético-visual impressionante, o qual ele ajudou a redefinir no cenário da arte contemporânea, Warhol tinha também domínio do desenho – como, aliás, todo grande artista visual que se preze, tal Picasso, Dali ou Pollock. Por trás das fotos manipuladas e das serigrafias havia sempre um traço apurado, como fica evidente seja nas naturezas mortas, dos anos 50, ou nas serigrafias e tinta acrílica sobre linho das figuras de Miguel Bose (1983) ou de Albert Einstein (1980), que lembram o traço leve e contínuo de Jean Cocteau.

Quadro de Miguel Bose: serigrafia que não esconde
o lindo traço a la Cocteau

É muita coisa legal que Warhol produziu, e impressiona bastante ver isso tudo reunido. As séries com rostos de artistas, como as de Silvester Stallone, Debbie Harry, Alfred Hitchcock e Clint Eastwood é de cair o queixo. Igualmente, as centenas de polaroides das mais variadas pessoas, de Yoko Ono a Truman Capote, de Dennis Hooper a Mick Jagger, de Jane Fonda a Valentino. As fotografias das funções na Factory, os filmes experimentais (“Eat”, “Kiss” e “Velvet Underground”), as embalagens de Campbell’s e Mott’s, as capas de discos...

Famosos ou não, ninguém em NY
escapava de sua Polaroid
Nada escapava a essa figura aglutinadora e em constante processo, uma força da natureza multimídia. Embora vivesse rodeado de famosos iguais a ele, Warhol nunca deixou que isso se sobrepusesse ao seu trabalho e relegasse a segundo plano sua arte. Pelo contrário: quanto mais se enfurnava nesses universos, mais tirava combustível para produzir. Warhol não se perde nessa fogueira de vaidades justamente porque ele sabia ser ferramenta para a materialização - e crítica - do que hoje é conhecido como showbiz. Ele era figura central e catalizadora de todos esses estímulos que o rondavam: Hollywood, universo queer, noite nova-iorquina, publicidade, moda, música pop, televisão. Dos famosos aos anônimos, todos deveriam ter pelo menos 15 minutos de fama, entendia ele. Warhol teve muitos 15 minutos multiplicados até os dias de hoje e assim certamente continuará.

No Jornalismo, reza que se deve evitar usar o termo "gênio" para qualquer pessoa com o perigo de vulgarizar o termo. Se for aplicar genialidade para qualquer um, o que dizer, então, de Mozart, Da Vinci ou Shakespeare? Embora não leve tanto assim a sério a regra, visto que me empolgo com "genialidades" alheias, hei de concordar, sim, que muitas vezes se vulgariza o termo. Mas com Andy Warhol não há esse receio. Warhol é gênio, sim, tanto quanto estes citados. Um Mozart, um Da Vinci, um Shakespeare de nossos tempos.

📺📺📺📺📺📺📺📺📺📺

As flores dos primeiros desenhos, anos 50

Rosas feitas em nanquim e corante de anilina sobre papel

"Cabeça de menino", de 1950, bonito traço feito a nanquim e grafite

Borboletas, do mesmo ano (grafite sobre papel)

"Lenço de seda" em grafite e têmpera
 
O universo da moda entra na sua vida em 1955

Como ilustrador exclusivo da marca de calçados I. Miller Shoes
Company, faz anúncios para o New York Times

Anúncio para perfume Bottle, de 1953

"Pássaros e abelhas voando" (s/d): ideias de pop art

Dos anos 60, abstratos

Mais borboletas, espalhadas pelos anos 50 e 60

Brilhante anúncio para a Dior, já com cara do que Basquiat faria

Ainda a moda: torso de Paola Dominguim, de 1983. Moderníssimo

O estilista Halston ganharia alguns posters em 1982 para sua linha de casacos

"Abra este lado": a fantástica série baseadas em etiquetas
de transporte e manuseio, de 1962. Muito pop

Vestido "Frágil" composto só de etiquetas "descartáveis"

As clássicas embalagens de Campbell's: arte como produto


Brillo, Mott's, Heiz, Del Monte, Campbell's: 
o design industrial ganha status de arte


Embalagem de Campbell's virou um ícone

Elvis duplo: um clássico do mundo moderno

Por falar em clássico, o que dizer desta
serigrafia de 1964, a obra mais cara do mundo?

Victor Hugo, amigo e modelo para diversos quadros, aqui
neste díptico de tinta acrílica e serigrafia sobre linho de 1978

Mais um clássico: Elizabeth Taylor, de 1964

Liz Taylor num dos mais emblemáticos trabalhos de Warhol

A série feita para Jackie O. em 1964, logo após o assassinato de John Kennedy

As borboletas, as flores e as imagens 
repetidas estampadas nos lenços

A criatividade das artes e capas da revista Interview

Mais da Interview: arte visual e gráfica

Como layoutar uma revista com criatividade

As estamparias de camisetas. O amigo Keith Hering está numa delas

Warhol nos domínios do seu estúdio Factory

Cenas das festas nova-iorquinas dos anos 70/80

A agitação cultural da Factory em fotos

Um jovem Sting fotografado por Warhol

Série "Ladies and Gentlemen", de 1975, sobre a cena queer de NY

Mais do tributo vibrante à comunidade trans e drag da Big Apple

Warhol faz seu próprio "Rorscharch", gigante acrílico sobre linho de 1984

"Estátua da Liberdade Fabis", de 1986, último ano de vida do artista

Da série Skulls, de 1976: crítica à tradição cristã, pegada punk e
o desencanto do fim de século com a AIDS e a Guerra Fria

"Tunafish Disaster": o atum em lata que matou pessoas em 1963
virou crítica ao consumismo

Genial obra feita da oxidação provocada pela urina sobre metal

A impactante - e grandiosa - "A Última Ceia", de 1986


"A Última Ceia", dos trabalhos finais de Warhol

Fantásticas serigrafias para criticar a cadeira elétrica
da série "Death and Disaster", de 1963

Série de Mao Tsé Tung, de 1972

Mais Mao

Lindas pinceladas sobre o desenho numa das 199 serigrafias de Mao feitas por Warhol


Filme "Kiss", de 1963

As lindas capas de discos e filmes. Pena que se expuseram poucas


Velvet Underground & Nico: projeto musical experimental 
que mudou a história da música moderna

As incríveis polaroids, que invariavelmente viravam base para outra obra,
como as de Mick Jagger e Pelé

Deuses dos esporte viraram também pop na série Atletas, de 1977

O gênio da bola pelo gênio da arte popular

Judeus célebres retratados: Einstein...

... e Freud. Anos 80

Beethoven num quádruplo originalíssimo

Joan Collins em acrílica e serigrafia sobre linho, de 1985

Neil Armstrong fincando a bandeira na Lua pop

Miss Aretha Franklin em díptico magnífico

E o que dizer desse poster de Liza para o show dela de 1981?

Michael e o estilo de Warhol combinam muito

Outra série espetacular, a de retratos. Aqui, mestre Clint Eastwood

Stallone em retratos de 1980 e 1981

Diane Keaton em acrílica e serigrafia sobre linho (1984)

Bill Murray também ganhou seu retrato

Mestre do suspense em arte do mestre da pop art

E nós escolhemos miss Debbie Harry para compartilhar nosso registro

Ah! E também viramos pop art a la Warhol, nossos 15 minutos de fama


📺📺📺📺📺📺📺📺📺📺

exposição "Andy Warhol: Pop Art!”
Obras de Andy Warhol
local: Museu de Arte Brasileira – MAB FAAP
endereço: Rua Alagoas, 903 - Higienópolis - São Paulo/SP
visitação: de terça-feira a domingo, das 9h às 20h (último horário de entrada às 19h)
período: até 31/08/2025
entrada: gratuita



texto: Daniel Rodrigues
fotos e vídeos: Leocádia Costa e Daniel Rodrigues