Um filme do tempo do cinema moleque, onde um roteiro simples, mas com bons personagens, interpretados por excelentes atores, faziam grandes obras. Uma obra leve e cômica, que ao mesmo tempo consegue ser tensa, com um suspense bem feito, uma ótima direção do premiadíssimo John Huston.
Um casal de irmãos missionários Rose Sayer (Katharine Hepburn) e o reverendo Samuel Sayer (Robert Morley) vivem tranquilamente na antiga Congo Belga (atual Republica do Congo), até o inicio da primeira grande guerra, onde o exercito alemão aparece para controlar o país. Devido a luta para resistir ao controle dos alemães, o reverendo Samuel acaba morrendo, e Rose se vê sozinha, pois a maioria dos nativos foram presos ou assassinados e alguns viraram soldados do exército alemão. Se passam alguns dias e com chegada de Charlie Alnutt (Humphrey Bogart), um barqueiro que vive na região, viajando pelos rios abordo do seu barco “Rainha da África”. Charlie no primeiro encontro com Rose não causa boa impressão, mas agora ele é a única chance dela sair com vida do pequeno vilarejo e também, por que não se vingar dos alemães?
A irmã Rose despejando as bebidas do embriagado barqueiro
Rose Sayer é uma personagem de uma força de vontade incrível, que nunca perde sua feminilidade, se no começo do filme ela passa a imagem de esnobe e aristocrática, o jeito que ela olha para Charlie, as roupas que ela veste, você não consegue imaginar que ao longo do filme você vai torcer por aquela personagem. Dai vem a tragédia, a chega a guerra, ela perde tudo, só não perde seu espirito de luta, sua vontade de se vingar daqueles que acabaram com sua vida, mesmo nos momentos em que ela está frágil, que parece perdida, rapidamente ela se recompõem. Rose não é uma donzela em perigo que espera ser salva, e sim ela vai atrás da salvação, e pode se dizer que ela acaba salvando Charlie.
Charlie Alnutt logo na sua primeira aparição, diferente de Rose ele já te conquista, abordo de sua “Rainha da África” (que barco barulhento!!!), chamando atenção de todos na vila, atrapalhando a missa dos irmãos Sayer, logo depois, em uma hilariante cena onde ele almoça com os irmãos, nos é mostrado sua simplicidade e humildade. Com o passar do filme, também fica claro que ele tem problemas com as bebidas, mas com a ajuda Rose ele supera isso e consegue se transformar em um homem novo. Ele não é um galã, longe disso, ele não tem bons modos, não se veste bem, anda boa parte do filme sujo, mas a sua personalidade, o seu jeito de ser, são apaixonantes.
As dificuldades (reais) de atravessar o Rio Congo
O filme em sua grande parte se passa dentro do barco e o casal tentando atravessar o rio Congo, para destruir um grande barco alemão que dominava aquela região, mas para chegar até lá terão que passar por uma emboscada do exército alemão, sem falar dos perigos naturais do Rio do Congo. A trama mostra as diferenças deste casal sem fazer rodeios, tudo bem claro, por exemplo, o plano de destruir o barco é ideia de Rose, que Charlie é totalmente contrário, mas por ela se mostrar irredutível ele acaba ajudando, é um inicio de relacionamento difícil, mas a cada perigo superado pelo casal seus laços são fortalecidos. Uma cena que acho fantástica e que muda completamente o relacionamento dos dois, é quando Rose percebe que o humor de Charlie sempre muda após ele beber, fica agressivo, então ela toma uma decisão, jogar todo estoque de bebidas na água, uma por uma, provocando a revolta de Charlie, que na hora fica revoltado, mas em seguida percebe que não necessita mais da companhia da bebida, pois agora ele tem uma companheira muito melhor.
A produção do filme sofreu muito durante as filmagens, boa parte do filme foi gravada no Congo, atores e pessoas da produção ficaram doentes, as dificuldades de ajustar as câmeras, algumas cenas tiveram que ser refeitas em estúdio, mesmo com toda a dificuldade, o resultado final foi algo épico. Podemos reclamar de maneira injusta (pelo menos eu acho injusto) dos efeitos especiais do filme que são muito precários, é o que tinha na epoca e o filme tentou fazer o melhor, a única cena desse tipo que me incomodou, foi o momento onde o casal de protagonista foi atacado por uma nuvem de mosquitos (algo que realmente aconteceu com a equipe de filmagem), na cena os mosquitos foram colocados digitalmente, o que ficou muito falso, os atores ficaram um pouco perdidos sem saber para onde olhar, se colocassem eles se debatendo e reclamando dos mosquitos, a cena já ficaria bem clara, sem haver a necessidade de mostrar os insetos.
A memorável cena do beijo.
É realmente uma aventura na África, e você realmente entra nesta aventura, o filme é dinâmico, não cansa, apesar não ter a velocidade que estamos acostumados a ver nas produções atuais, sim ele é meio lento em alguns momentos, mas isso é muito bom, porque aí você pode ver a beleza da fotografia do filme, apreciar a bela paisagem, que o diretor faz questão de mostrar. Sem falar que temos duas estrelas no auge de suas carreiras, Katharine Hepburn e Humphrey Bogart (Bogart até mesmo ganhou seu único Oscar de melhor ator por este filme), estão incríveis, não são atores, porque a imagem que eles passam é que é tudo real, são naturais, mesmo com toda dificuldade de gravar o filme, diálogos incríveis, cenas memoráveis, como o primeiro beijo do casal, ou quando o barco encalha e os dois descem para puxar o barco, a uma perfeita química entre eles, os personagens vão se transformando, se misturando, um absorvendo o outro, fantástico o trabalho desta dupla.
Vale muito a pena ver o filme, ele é muito agradável e suave, uma obra de arte, na verdade é apenas uma historia bem contada. Simples, não? Mas os prazeres mais simples são tão bons.
Obs: Passei dias falando com um sotaque inglês “Mrs. Alnutt”.
Num ano em que O Agente Secreto brasileiro tem brilhado mundo afora, tendo estado pertinho de ganhar um Oscar, nosso Clássico é Clássico (e vice-versa) abre o ano cinefutebolístico com um confronto que traz ninguém menos que o maior agente secreto do cinema. Sim, senhoras e senhores, Bond, James Bond, o 007, em duas versões que usarão de todas as suas armas e recursos para derrotar o oponente e mostrar quem é o verdadeiro clássico do cinema.
Pouca gente sabe mas, antes de ser o ponto de retomada da franquia 007, apresentado Daniel Craig, "Cassino Royale" já tivera uma versão ousada e estrelada nos anos '60. Esse original, embora já contemporâneo da conhecida franquia de ação e aventura com os galãs invencíveis e sedutores vividos por Sean Connery e Roger Moore, entre outros, não fazia parte oficialmente daquela série e, por sua vez, ao mesmo tempo que prestava uma homenagem ao personagem, também o satirizava. O conhecido poder de sedução e a fraqueza por mulheres do agente britânico são elementos importantes na confusa e estapafúrdia trama da primeira versão que é composta por cinco segmentos amarrados entre si pela eliminação de outros agentes zero-zero por uma organização chamada SMERSH. James Bond, então, aposentado, é convencido a voltar à ativa para investigar e deter o grupo criminoso que usa exatamente de armas de sedução para sequestrar os agentes e pensa em atingir o mulherengo Bond desta mesma forma. Mas a coisa fica completamente sem pé nem cabeça! Bond tem a ideia de infiltrar falsos 007 entre suspeitos da tal organização. O mais relevante na trama e o melhor deles é Peter Sellers que, especialista em cartas, no jogo de bacará, que virá a enfrentar o especialista em baralho, Le Chiffre, desesperado para recuperar suas finanças num jogo decisivo para sanar suas dívidas e salvar a própria vida de seus credores.
"Cassino Royale" (1967) - trailer
"Cassino Royale" (2006) - trailer
Nesse ponto as histórias se cruzam, no novo "Cassino Royale", a MI6 tem a informação que um financiador terrorista, Le Chiffre, endividado por um negócio frustrado pretende recuperar seus fundos numa mesa de jogo num torneio particular em Montenegro num local chamado Cassino Royale.
Bond então se prontifica a ser incluído na mesa, como um milionário apostador qualquer, a fim de evitar que Le Chiffre vença e levante o dinheiro. Aí entra outro ponto de convergência entre as duas versões: Vesper Lind. Na última versão ela é a representante do Tesouro Nacional que vai financiar, sob risco, a aposta de Bond na mesa de pôquer, já na primeira, é uma milionária que conduz o falso Bond, Evelyn Tremble ao cassino para enfrentar Le Chiffre.
Os dois Bond vencem os Le Chiffre de cada uma das histórias, ambos são torturados, cada uma à sua maneira, para entregar o dinheiro ao vilão, e em ambas as situações Le Chiffre é morto por seus credores. Enquanto o antigo conduz tudo isso com um humor estranho e psicodélico, o novo o faz com dramaticidade e uma intensidade até então poucas vezes vistas num filme da franquia. A tortura do então estreante Daniel Craig no papel de 007 é das mais brutais e dolorosas que se possa imaginar para um homem, mas que, curiosamente, tem lá também, em meio à dor, seu toque de humor.
Enquanto a refilmagem segue a trilha dos financiadores terroristas, do dinheiro perdido na primeira operação frustrada, perseguido por Le Chiffre, barrado por Bond, perdido por ele mesmo depois, até que vá atrás de quem o traiu e permitiu que fosse parar nas mãos dos bandidos, o original é uma salada de situações cuja conexão entre si é tão frágil que chega a ser quase inexistente. Tem a filha de Bond com a espiã Mata Hari, Mata Bond, que é sequestrada por um disco voador gigante, tem o sobrinho Jimmy Bond (Woody Allen) que se revela o grande vilão por trás de toda a trama, o Dr. Noah, cujo grande objetivo é tornar-se alto e mais atraente para as mulheres, tem uma grotesca invasão de soldados, coubóis e índios ao cassino para enfrentar os criminosos, tem uma explosão atômica de soluços, enfim... uma miscelânea caótica!
O filme de 1967 tinha um timaço! Além de um dos episódios ter sido dirigido e estrelado por John Huston, a seleção contava ainda com David Nível, Deborah Kerr, Peter Sellers, Woody Allen, Orson Welles, Ursula Andress e Jean-Paul Belmondo. Infelizmente, de um modo geral, muito mal aproveitados num filme sem pé nem cabeça. Peter Sellers, como Tremble, Ursula Andress, como Vesper, e Welles, como Le Chiffre, ainda conseguem se salvar, mas de resto, é só talento e qualidade desperdiçados. Parece aquele time cheio de craques mas com jogadores escalados fora de posição ou em funções que não rendem o seu melhor.
Já o time de 2006 é aquele elenco equilibrado com os jogadores no lugar certo. Tem a craque Judy Dench, no papel da chefona M, o ótimo jogador Mads Michelsen fazendo um bom Le Chiffre, a competente Eva Green como Vesper Lind, e o limitado Daniel Craig no papel principal dando conta do que é esperado dele. É tipo aquele centroavante que até é ruim tecnicamente, mas que, se cair na frente dele, ele mata. É artilheiro!
"Cassino Royale" (1967) - créditos de abertura
"Cassino Royale" (2006) -
Sequência da perseguição em Veneza
Cassino Royale '67 leva poucas vantagens. A abertura com uma animação colorida e psicodélica é mais interessante que aquela tradicional de silhuetas e balas voando em câmera lenta da franquia oficial. O original faz 1x0 no início pela abertura, mas não sustenta. O jogo de Cassino Royale '06 é bem melhor e mais desenvolvido. Não é nada brilhante, nada espetacular, mas tem andamento, tem sua lógica, tem coerência, e por isso não demora a empatar: 1x1.
Embora interpretado por grandes nomes do cinema na primeira versão, como David Niven e Peter Sellers, o estreante Daniel Craig é melhor na função do que os craques do outro time e vira o jogo para o remake. 1x2.
A propósito, Orson Welles é um gênio do cinema, uma dos maiores de todos os tempos, não faz mal o que o ténico lhe pede, mas o Le Chiffre de Mads Michelsen é muito melhor. Aquela cara cínica, aquela expressão implacável e o interessante detalhe do olho lacrimando sangue conferem a ele um lugar únioco e de destaque entre os vilões de James Bond. 1x3 para CR'06
Agora unido os dois, o jogo de cartas no cassino, bacará na primeira versão e pôquer na segunda, além do fato de ser ridículo e risível no confronto entre Peter Sellers e Orson Welles, é muito mais tenso e relevante no confronto de Craig com Mads Michelsen, com direito a reviravolta, envenenamento e ressurreição. 1x4. Já virou goleada!
O time de '67 esboça uma reação com a interessante sequência da missão de Mata Bond, a filha de James Bond, em Berlim, num episódio que, apesar dos absurdos como a viagem de táxi de Londres até a capital alemã, contém mais ação, mais espionagem e uma estética muito legal que mistura psicodelia com expressionismo alemão, com cenários coloridos, geométricos e distorcidos. 2x4. Gol de Mata Bond.
Mas se vamos falar de sequências, a cena em Veneza põe por água abaixo qualquer ambição do filme antigo. A descoberta de Bond, a perseguição, os incríveis desmoronamentos da cidade, o final dramático com a amada Vesper Lind, tudo, toda a jogada, todo o envolvimento garante mais um gol para Casino 2006. 2x5.
Cassino '67, repleto de craques, até faz mais um na tabelinha de Burt Bacharach com Dusty Springfield. O maestro cria toda a jogada para a loura, com sua belíssima voz, completar com classe para o fundo das redes com "The Look of Love", canção indicada na época ao Oscar que não faz feio diante de nenhuma outra da franquia consagrada. Mas não é o suficiente para mudar a história do jogo. 3x5 e até que saiu barato.
Cassino Royale de 1967 apostou todas suas fichas num elenco estelar mas não contava com um jogo mais equilibrado do adversário que soube distribuir bem suas apostas entre a trama, a ação, o suspense e a dramaticidade. Cassino Royale 2006 limpou a mesa!
O jogo entre James Bond e Le Chiffre nas duas versões. À esquerda, Peter Sellers contra Orson Welles; à direita, Daniel Craig contra Mads Michelsen.
O que que alguém tem em mente quando resolve refilmar um dos maiores clássicos de todos os tempos? A não ser que você seja um Kubrick, um Kurosawa, um Scorsese, e pretenda lançar uma nova visão sobre o original, nenhuma razão justifica. Fazer melhor?... É uma pretensão descabida e constrangedora. Melhorar tecnicamente?... O filme é consagrado, aclamado, multipremiado e o cara acha que um efeitinho aqui, outro ali, uma maquiagem, vão fazer diferença? Ganhar muito dinheiro? A mera ousadia de mexer com um clássico já gera desconfiança do público e, geralmente a conferida, a ida ao cinema, só confirma o fracasso da empreitada, o que faz com que, nas críticas, nos comentários e no boca-a-boca ele não seja recomendado e portanto torne-se, na maioria das vezes, um grande prejuízo financeiro. Fazer uma homenagem?... Não com uma versãozinha que não amarra as chuteiras do clássico, quando a melhor homenagem seria ficar sentado no sofá de casa assistindo e reverenciando aquela obra-prima. Então, me diz: por que diabos um infeliz resolve refilmar "Ben-Hur"?
Cara, que contribuição o cidadão acha que tem a dar ao filme que até pouco tempo atrás era o maior ganhador do Oscar? Ele acha que pode melhorar alguma coisa? Pode ter recordes de bilheteria? Não! Não! Mil vezes não!
A versão atual tenta ser mais dinâmica, mais enxuta do que as mais de três horas da antiga, o que não se justifica porque, por outro lado, fica se demorando em situações dispensáveis, cujo tempo poderia estar sendo utilizado num melhor desenvolvimento. A opção por um encurtamento, além de tudo, modifica pontos interessantes da história original, como, por exemplo, a "adoção" de Judah Ben-Hur pelo romano que é salvo por ele nas nas galés no original, que é excluída em detrimento de um "avanço da fita" até o ponto onde nosso herói conhece o mercador (Morgan Freeman) que lhe proporciona enfrentar o irmão adotivo Messala na corrida de bigas. Cena que, justiça seja feita, é muito caprichada, muito bem executada, ganhando uma importância crucial no novo filme, mas que, a rigor, não devia ter sido tentada pois, por mais bem feita que tenha sido, sempre que se for lembrar da cena de bigas de "Ben-Hur", pode ter certeza que a que virá à mente de qualquer um será a épica de 1959. Mas aí reside um ponto interessante: o filme não é um horror, não é péssimo, terrível! Tem seus defeitos mas tem suas virtudes. A cena da corrida é boa, a das galés é impactante, a ordenação da história e a hierarquia de fatos proposta pelo diretor é até interessante... Só que deveria usar tudo isso para fazer outro filme e não refilmar um dos maiores filmes da história. Na comparação é como o Íbis ajeitadinho, com um bom esquema tático, se meter a enfrentar o Barcelona.
trailer "Ben-Hur" (1959)
trailer "Ben-Hur" (2016)
Pois então, já que falamos em futebol, vamos à bola rolando que é o que interessa. Só pela ousadia, por ter se metido de pato a ganso, o "Ben-Hur" do glorioso Timur Bekmambetov já sai tomando 1x0.
Pelas atuações dolorosas de seus protagonistas, especialmente do personagem principal, Jack Huston, neto de John Huston, que deve ter causado um alvoroço no cemitério fazendo com que o avô, William Wyler e Charlton Heston (mesmo sem ser brilhante) dessem voltas nos seus respectivos túmulos com sua performance, e pelo não menos terrível Messala leva 2x0.
Pela relação da mãe ( Ayelet Zurer) com o adotado romano, vai o terceiro gol, e pela fragilidade e má construção das relações no filme, de um modo geral, vai buscar mais uma na rede.
Por ter se metido a besta de tentar reproduzir a incrível cena dos remadores nas galés, mesmo o fazendo com alguma qualidade, toma outro no contra-ataque: 5x0; e pela opção pela exclusão do resgate do cônsul romano na batalha marítima que recupera a nobreza de Ben-Hur, leva outro pra deixar de ser besta. Não perca as contas: 6x0.
Por modificar elementos expressivos do clássico de 1959 como o acidente com o novo governador, chegando à judeia, que leva à prisão de Ben-Hur; a situação da mãe e irmã leprosas; a transferência do Circo Romano, onde ocorrem as corridas, de Roma para uma "filial" em Jerusalém; a ausência das quilhas metálicas nas rodas da biga de Messala, na prova; e a falta de colhões de manter aquela conotaçãozinha homossexual entre Ben-Hur e Messala que o antigo, mesmo em sua época, teve a ousadia de sugerir, vai buscar mais uma no barbante. Estamos em quanto? Sete, né?
O original marca mais um pela trilha sonora marcante de Miklós Rósza e outro pelo deslumbre visual e suntuosidade. É um massacre: 9x0.
William Wyler contra o esforçado Timur Bekmambetov vale mais um pra conta do original e; como não poderia deixar de ser, pela cena da corrida de bigas, um das mais marcantes, eletrizantes, emocionantes, incríveis da história do cinema, guarda mais um. 11x0.
Mas e as virtudes do remake que eu apontei, não valem nada? Meros chutes a gol, sem perigo nenhum. Aquelas que o goleiro olha e só acompanha pela linha de fundo e o narrador chama o slogan da emissora: "Globo e você, tudo a ver", ou "Bandeirantes, o canal do esporte", ou "SporTV, o canal campeão"..., ou qualquer coisa do tipo.
O de 2016 até é esforçado mas, me desculpe: Clássico é clássico.
Resultado final:
O antigo abre 11 corpos de vantagem sobre o novo na corrida de bigas, alcança o retardatário e pisoteia o cocheiro do adversário na curva final.
“José Mojica, mestre do terror e dos espaços profundos.”
Glauber Rocha
“Sua câmera não mente jamais e confirma o desejo de reinventar o gênero horror com uma deformação formal, que só se encontra em alguns verdadeiros pioneiros”.
Rogério Sganzerla
Nas primeiras décadas do século XX, alguns dos cineastas que
ajudaram a construir a linguagem do cinema o fizeram com muita criatividade e
intuição. Passados os pioneiros anos em que Griffith e Méliès abriram os
portais daquele mundo de imaginação, foi a vez de outros realizadores, principalmente
Vidor, Hitchcock, Lang, Sternberg e Clair, desvelarem aquela pedra bruta.
Com recursos tecnológicos e financeiros geralmente parcos de um período de entre-Guerras,
era a inventividade em criar soluções, trucagens e métodos que os fazia obter o
resultado que pretendiam em frente à câmera e... ação! Estava feita a magia.
As décadas se passaram e os polos produtores e escolas de
cinema foram assimilando a gramática audiovisual de maneira formal e técnica.
Porém, o primitivismo criativo, algo genial e admirável em qualquer realizador,
inclusive nos mais estudados, é ainda mais valioso quando surtido com
espontaneidade. Caso do já saudoso José Mojica Marins, morto no último dia 19
de fevereiro. Eternizado como seu principal personagem, o assustador coveiro Zé
do Caixão, o diretor – um autodidata que mal tinha o primário concluído, quanto
mais um curso de cinema – alinha-se a este time de cineastas cuja linguagem
cinematográfica lhe era natural e transbordante.
Mojica como Zé do Caixão à época de "À Meia Noite..."
À margem do mainstream, Mojica firmou seu nome pela via do cinema marginal. Independente e amador, ele não produzia para nenhum grande estúdio e penava
para financiar seus projetos, mas seu cinema de terror bizarro inspirado nos B
Movies e, igualmente, calcado no noir e no western norte-americanos e seus
grandes estetas – Orson Welles, John Ford, Howard Hawks, John Huston – driblava qualquer escassez de recursos. Esmerava-se nos roteiros e tinha uma técnica intuitiva apurada para a fotografia, a edição, a construção de personagens e a condução narrativa. Assim foi por toda sua carreira, “fazendo chover” mesmo com
baixos orçamentos, a exemplo dos celebrados “À Meia-Noite Levarei Sua Alma” (1964),
“Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver” (1967) e “O Estranho Mundo de Zé doCaixão” (1968).
Duas exceções, entretanto, mostram que, nas raras ocasiões
em que teve recursos para produzir melhor, Mojica não desperdiçava. Um deles é,
justamente, seu último longa, de 2008, “Encarnação do Demônio”, produzido por
Paulo Sacramento e no qual, após mais de seis décadas de carreira transcorridas,
finalmente conseguiu fazer um filme nos moldes do que sempre sonhou. O outro
título de sua extensa filmografia em que se vale de uma produção digna é
“Exorcismo Negro”, de 1974 (ano em que havia ganho dois prêmios na França, L’Ecran Fantastique e Tiers Monde). Produzido por Aníbal Massaini Neto – financiador de
pornochanchadas, mas responsável também por bons longas históricos como “Independência
ou Morte” e “Corisco, o Diabo Loiro” –, tem poucas locações, menos de 15 personagens
e alguns figurantes. Se não se trata de uma superprodução, é suficiente para o
diretor estabelecer um padrão de qualidade, que coloca “Exorcismo Negro” entre
os seus melhores.
Na história. na onda do então recente sucesso de “O Exorcista”, de um ano antes, Mojica
viaja para passar o Natal com os amigos num sítio onde vivem e escrever a
história de seu próximo filme. No entanto, coisas misteriosas começam a se
suceder na casa, com seus amigos sendo possuído por alguma força sobrenatural. Ele
descobre que a matriarca da família fez, no passado, um acordo com a bruxa Malvina
para engravidar e salvar seu casamento. Em troca, Malvina deve indicar o filho
do Satanás, Eugênio, para se casar com a menina. Além disso, Mojica entra em
conflito com o próprio Zé do Caixão, que está pronto para recolher as almas
daquela família. Como é peculiar de Mojica, a autorreferência e o jogo de
sentidos para com seu alter-ego dão à obra um ar metalinguístico, assim como já
havia proposto em “O Despertar da Besta” e “O Estranho Mundo...”
Mojica com a família de amigos em "Exorcismo...": tensão o tempo todo
O versátil Jofre Soares sendo acometido pelo espírito de Zé do Caixão
Possessão e exorcismo: influências do recente sucesso de "O Exorcista"
“Exorcismo...” traz um manancial de referências obrigatórias
a filmes de horror: a casa assombrada, objetos que se movem sozinhos, corpos
sendo tomados por espíritos malignos, bichos peçonhentos, mistérios familiares
que vem à tona, erotismo grotesco, um animalzinho de estimação judiado e uma
criança cuja inocência é ameaçada pelo mal. Porém, mais do que uma sucessão de
clichês, o filme tem a qualidade de que tudo é tecnicamente bem realizado: efeitos
especiais, cenas de briga, trucagens com sangue, cenografia, corte da edição. Diferentemente
do que se viu por muito tempo no cinema nacional e que se tornou-lhe,
inclusive, uma pecha. Merece atenção especial, entretanto, a fotografia (quesito
no qual Mojica sempre foi irreparável), que concilia a dureza da sombra marcada
e a coloração que capricha nos tons quentes – principalmente, claro, no
vermelho-sangue. Igualmente, não apenas o uso bem articulado da trilha sonora,
outra conhecida qualidade do diretor, como, também, da própria seleção das
músicas, como as de Syd Dale, Daniele Amfitheatrof e Michel Magne.
Cena do ritual: apavorante e na medida certa
Mas, além disso, o ritmo de “Exorcismo...” é perfeito. Aquilo
que é um problema em alguns filmes de Mojica, fruto justamente da dificuldade de
produção que invariavelmente enfrentava, a continuidade é um trunfo deste
longa. A narrativa mantém a tensão e dá sustos do início ao fim. A chegada do
personagem Mojica à casa dos amigos, por exemplo, é sucedida por uma série de
acontecimentos aterrorizantes, que não deixam o espectador descansar. A
sequência do ritual macabro, excessivamente longa em outras realizações do
cineasta (“Delírios de um Anormal” e na reedição estendida de “O Despertar...”),
aqui está na medida exata entre a alucinação vivida pelo personagem e o ritmo
narrativo, que não cansa quem assiste.
Premiado internacionalmente, celebrado por referências como
Glauber Rocha, Gustavo Dahl e Rogério Sganzerla e, bem mais tarde, descoberto
pelo mercado norte-americano, que o intitularia como Coffin Joe. Nada foi
suficiente para que Mojica vencesse as restrições ao seu trabalho por quase todo
o período em que esteve ativo, dos anos 40 até o século XXI. Nos anos 80, espremido
pela censura e pelo sistema, partiu para o cinema pornô, que ao menos lhe daria
alguma grana. Pouco antes de conceber seus últimos filmes, já nos anos 2000,
Sganzerla escrevia sobre o amigo e admirado cineasta: “Além de nunca ter
recebido nem adiantamento, quanto mais condições de produção compatíveis com
seu talento, não filma há 15 anos, sendo vítima do descaso, inépcia,
irresponsabilidade ou talvez preconceito”. Pouco visto em seu próprio país, “Exorcismo...”
é, certamente, um dos melhores filmes de terror da década de 70 – rica neste
gênero, aliás. A se ver por este resultado, imagine se Mojica tivesse recebido
o devido reconhecimento em vida?
Ele contracenou ao lado de quase todos os grandes atores e atrizes da golden age americana. Com Burt Lancaster trabalharam em quase 10 filmes juntos. Também produziu e dirigiu dezenas de outras lendas do cinema. Atuou em clássicos eternos como "Spartacus", "Glória Feita de Sangue" e "Duelo de Titãs". Foi dirigido por nada menos que; Howard Hawks, Henry Hathaway, John Huston, John Frankenheimer, Otto Preminger, Anthony Mann e George Miller. Era considerado um ator difícil e ao mesmo tempo muito respeitado. Demitiu Anthony Mann de Spartacus e trancou o pé com Hollywood em relação à "lista negra" do governo americano quando saiu em defesa de Dalton Trumbo e de outros roteiristas. Foi indicado ao Oscar, Bafta, César e Globo de Ouro. Mesmo merecendo, a Academia só lhe daria um Oscar honorário. Da lista da AFI dos maiores atores de todos os tempos, ele é o único ainda vivo. Doou cerca de 40 milhões de dólares a caridade. Atribui sua longevidade ao casamento duradouro de mais de 60 anos. Longa vida mestre, longa vida lenda.
Nosso convidado do Duelo do mês é o radialista, locutor,
cinéfilo e blogueiro Paulo Telles.
Morador da Lapa, no Rio de Janeiro, o famoso bairro boêmio carioca não é páreo
para o fascínio cinéfilo de nosso entrevistado. Telles divide seu tempo entre
as locuções e roteiros de rádio e as várias colaborações para blogs e revistas
de cinema. Dentre elas, a DVD Magazine, onde possui uma coluna. Seu blog, Filmes Antigos Club, está há 5 anos no ar. O espaço é dedicado a artigos sobre filmes clássicos
que fizeram história. Telles também é um dos maiores especialistas do Brasil no
tema western, tendo escrito diversos
textos e resenhas sobre o gênero. Ele se considera criterioso para fazer suas
matérias e põe a pesquisa como peça fundamental para redigir qualquer texto. Eu
decidi entrevistá-lo e explorar todo seu vasto conhecimento de sétima arte. Ele
gentilmente aceitou e colaborou com respostas bem afinadas e nos deu uma grande
entrevista. Um prato cheio de spaghetti
e western de todo tipo, fartura total
para os amantes do bang bang.
Desfrutem com armas na mão.
BINO: Paulo, vamos
entrar direto no tema western. Recentemente eu li um texto seu para a DVD
Magazine que foi um dos melhores que vi sobre o tema bang bang. Era sobre o Western Americano e o Europeu,
uma comparação, na verdade, uma diferenciação de ambos os estilos, quase um
duelo. Eu tenho notado entre amigos e cinéfilos uma divisão de preferências
entre os dois. É certo que o spaghetti
fez o western americano repensar sua estética de cowboy limpinho, mas ao mesmo tempo bebeu muito na fonte hollywoodiana de
fazer estes filmes. Quais foram as grandes contribuições que ambos os gêneros
deram um para o outro?
Eastwood e seu referencial "Os Imperdoáveis"
PAULO TELLES: Primeiramente,
saudações cinéfilas aos leitores do Clyblog e obrigado pela acolhida. Esse texto foi um dos meus primeiros redigidos no meu blog Filmes Antigos Club, criado em2010, dividida
originalmente em três partes, e foi trasladado para minha coluna Revendo por Edinho Pasquale (editor
do DVD Magazine) em um único artigo. Ambos os estilos deram uma indelével
contribuição à sétima arte, contudo, os faroestes
spaghetti ajudaram a fortalecer o gênero. Para vocês terem uma
ideia, o western (por definição do
famoso crítico Andre Bazin, o "cinema
americano por excelência") foi extremamente explorado por Hollywood
pelo menos durante os primeiros 60 anos de indústria, inclusive na TV e nos
seriados infantis de cinema (ao estilo Durango
Kid, The Lone Ranger, etc), praticamente repetindo uma fórmula,
ou melhor, dizendo, uma estética lírica e poética. Obviamente isso foi
saturando o público e a crítica, mesmo que o cinema americano nos meados da
década de 1950 tentasse inovar o gênero com temas sociais e de politização. Até
que veio um notável cineasta italiano chamado Sergio Leone a mostrar para as
plateias do mundo que o Velho Oeste era mais pungente do que os cineastas
americanos florearam, mas estes, amantes da mitologia e do folclore, não se
importavam com a fidelidade dos reais acontecimentos, e sim com a legenda áurea
e romântica dos mitos do Oeste Americano. Obviamente, isso não condizia com uma
época violenta que fora o Velho Oeste. Ele admirava os trabalhos dos mestres
Ford, Hawks, Mann, Daves, Hathaway, mas discordava do idealismo romântico e
poético que estes diretores envolviam acerca de seus cowboys e no meio em que viviam, mesmo que estes cowboys fossem de teor freudiano. Se não
fosse Leone, os westerns americanos
ficariam quase batendo na mesma tecla, e graças a ele o gênero, no geral,
sobreviveu mais um pouco e vem de certa forma, sobrevivendo. Afinal os
americanos não teriam feito obras como “Meu
ódio Será Sua Herança”, “Os Profissionais”, “Quando os Bravos se Encontram”,
“Mato em Nome da Lei”e até mesmo "Os Imperdoáveis", de Clint Eastwood, se não fosse pela
intervenção dos westerns italianos. Ambos os estilos, o americano e o
europeu, cada um com sua essência, foram importantíssimos e são de um legado
ímpar para a cinematografia mundial.
B: Um dos legados
de Ford e de outros grandes diretores foi mitificação do homem do Oeste
americano. Mas ao mesmo tempo sabemos que muito do que se via nos filmes não
correspondia à realidade ou era controverso. Um dos maiores exemplo é o famoso
tiroteio de O.K. Corral. Tivemos diversas produções sobre este tema e que
exaltaram os participantes do tiroteio, mas a pesquisa de especialistas disse
que não foi nada daquilo o que aconteceu na verdade. E outro foi uma espécie de
inversão que transformou o índio em pária social pelas produções de cavalaria,
aquela história de mocinho versus
índio. Formato que alguns diretores repensariam anos depois – Ford foi um
deles. O progresso a qualquer "custo" desnudado nas produções de
Leone confrontava os mitos fordianos e CIA. A figura do pistoleiro anti-herói e
errante é na verdade uma cutucada. Fale-nos um pouco do mito do cowboy.
PT: Como eu disse, os americanos são fascinados
pela mitologia do Oeste Americano, e isso já acontecia antes mesmo do
surgimento do cinema. Em 1883, o próprio William Frederick Cody, conhecido
mundialmente como Buffalo Bill, já vinha explorando ele mesmo seu lado de
“herói” nos seus espetáculos circenses do Oeste Selvagem. Quando o cinema já
existia como um espetáculo, Buffalo Bill foi convidado por um dos primeiros
mocinhos do Far-West, Gilbert Broncho Billy Anderson (que também
era produtor) para estrelar um filme, intitulado “The Adventures of Buffalo Bill”, justamente com a
intenção de demonstrar que, no cinema, a ideal “fábrica de sonhos”, realidade e
lenda poderiam se confundir facilmente. Dois anos depois da morte de Wyatt
Earp, em 1929, um escritor chamado Stuart Lake publicou um livro chamado “Wyatt Earp, Frontier Marshal” (“Wyatt Earp, o Delegado da Fronteira”),
onde narrava as façanhas do “Leão de Tombstone”, como era Earp alcunhado. Lake
sempre declarou que cada narrativa, cada palavra ou vírgula, foram do delegado,
mas depois voltou atrás, dizendo que todo o livro era de sua inteira autoria, e
que Wyatt nunca lhe passou informações. Contudo, já nessa época, o cinema estava
em busca de heróis para mitificar o verdadeiro mocinho, e não de personagens
freudianos ou em enredos elevados a tragédia grega como viria mais tarde. Com
base no livro de Lake, Wyatt Earp parecia se encaixar como este novo mito cowboy. Em 1937, Randolph Scott e Cesar
Romero eram respectivamente Wyatt e Doc Holliday no filme “Frontier Marshal”, um dos primeiros
filmes a abordar o duelo de O.K. Corral baseado na história de Lake, cujo
argumento serviria também para “Paixão
dos Fortes”, de John Ford, em 1946. Mas evidente que não foi apenas Wyatt Earp o objeto desta mitificação cinematográfica, e Hollywood
transformou em heróis Billy The Kid, Jane Calamity, Buffalo Bill, Jesse James,
Wild Bill Hickcok, Kit Carson e até mesmo o famigerado General Custer. Todos na
realidade estavam distantes de serem “mocinhos”, mas o cinema americano
preferiu de início laurear tais ídolos do Velho Oeste, pondo uma legenda
romântica em cada um, imprimindo lendas e descartando fatos verdadeiros.
Afinal, um famoso cineasta que todo bom amante de western prestigia já falava em um de seus grandes filmes: “Isto é o Oeste. Quando a lenda é mais forte
que os fatos, se imprime a lenda”. Isso mesmo, John Ford.
"Sem lei e sem alma"
Quanto ao famoso tiroteio do O.K. Corral, tão bem
retratado em filmes como “Paixão dos
Fortes”, “Sem Lei e Sem Alma”, e “A Hora da Pistola” (os dois últimos de John Sturges), não passou
de uma tremenda farsa. O verdadeiro tiroteio, ocorrido em 26 de outubro de
1881, durou um minuto, enquanto que no filme “Sem Lei e Sem Alma”dura 15. Nem Wyatt Earp e nem seus
irmãos foram heróis em nenhum momento de suas vidas, e sim assassinos
acobertados pela insígnia da Justiça. Ike Clanton era um homem pacífico e ele e
seus parentes foram vítimas dos Earp, porque sabiam de coisas comprometedoras a
respeito de Wyatt e Doc Hollyday, este um pobre coitado. O verdadeiro Earp era
o típico “171” do Velho Oeste: trapaceiro, mentiroso, amoral e covarde. Nem
mesmo a amizade de Earp com Holliday era verdadeira. Foram, de fato, parceiros
de copo e mesas de jogo, além de ser seu aliado e cúmplice no duelo de O.K.
Corral, mas não tinham grandes afinidades. Wyatt era de uma família de rudes
camponeses pioneiros do Oeste, e Doc de uma família refinada do Leste,
diplomado em Odontologia e de esmerada cultura. E fato é que, na última vez que
se encontraram, descobriram que eram bastante diferentes e resolveram não mais
se falar. Segundo o cinema, tal fato não deve ser impresso, mas sim a lenda
romântica de que os dois eram amigos inseparáveis. Contudo, o western como gênero cinematográfico foi
sendo revisado a partir do início de 1950, e o protótipo do herói que vinha
sendo retratado em muitos destes filmes sofreu mudanças por grande parte de
cineastas revisionistas. O herói não era 100% herói, ou definitivamente, não
era. Ele podia agir de acordo com sua forma de pensar sobre justiça, lei, ordem
e meio que vive. Poderia cometer acertos e erros como qualquer ser humano.
Enfim, foi preciso humanizar o cowboy,
e mesmo os famigerados vilões também são objetos de profunda análise pela base
psicológica.
B:
Quem foram para você os diretores e os filmes de western que melhor deram esta contribuição, vamos
dizer, social e mitológica do homem daquele meio?
James Stewart em "E o sangue semeou a terra".
mito do cowboy
PT: Acredito
que Anthony Mann e Delmer Daves foram os mais prolíferos dentro desta
contribuição à mitologia do homem dentro do Velho Oeste, muito embora os
estilos dos diretores se diferenciem. Interessante em dizer que os cinco filmes
em série estrelados por James Stewart em parceria com o cineasta Mann refletem
bem a mitologia do homem em seu meio social. Basta assistirmos obras como “Winchester 73”(1950), “E O Sangue
Semeou a Terra” (1952), “O Preço de um Homem” (1953), “Região do Ódio” (1954) e
“Um Certo Capitão Lockhart” (1955)que veremos este mito do herói grego no meio da tragédia grega, ou em
outras palavras, o mito do homem, do novo cowboy,
no meio social em que ele esta vivendo. Já Delmer Daves tem uma obra “didática”
que reflete muito bem o tema, “Como
Nasce um Bravo”,de 1958, estrelado por Glenn Ford e Jack Lemmon,
onde temos este aprendendo a ser um “cowboy
de verdade” em meio a um grupo de rudes vaqueiros liderados por Ford, um
dos grandes ícones do Far-West americano. Lemmon, um cara do Leste e
acostumado à boa-vida, tem exatamente em sua mente o mito meio que laureado do cowboy, mas quando ele vai ver, percebe
que não é nada disso.
B: Agora nos fale
dos primeiros westerns realizados nos Estados Unidos.
PT: O cinema nasceu em 1895, na França, e isto já
é falar nos primórdios da sétima arte e de sua invenção como meio de
entretenimento. Já em 1898, nos Estados Unidos, a Edison Company (de Thomas
Edison), produziu uma vinheta de um minuto de duração chamada “Cripple Creek Bar Room”, aclamado por
alguns críticos e estudiosos como o primeiro western da história. Segundo Primaggio Mantovi, autor do livro “100 anos de Western”, a cena mostrava
um pequeno saloon com alguns cowboys, um típico jogador do Velho
Oeste, e uma garçonete de aspecto masculino que pôde ter sido interpretado por
um ator. Contudo, foi “O Grande Roubo
do Trem”, datado de 1903, que mereceu a honra de ser o primeiro western, por se tratar de um primeiro
filme a contar uma história escrita especialmente para o cinema (logo, o
primeiro script para o gênero). O filme foi feito em apenas dois dias e
se tornou oficialmente o primeiro western
do cinema. Vieram pioneiros como David W. Griffith, Thomas Happer Ince, William
S. Hart, Cecil B. DeMille (mais tarde, o idealizador de grandes espetáculos
épicos e bíblicos, como “Os Dez
Mandamentos” e ”Sansão e
Dalila”), e o próprio John Ford, cada um realizando uma obra ou outra no
gênero. E não somente quando o cinema engatinhava em seus primeiros passos,
como também ainda não se tinha o recurso do som, afinal ainda era a fase silents
do cinema. David W. Griffith é considerado o pai da linguagem cinematográfica,
e realizou em 1915 o filme que é considerado, de fato, o primeiro
longa-metragem do cinema: “O
Nascimento de uma Nação”. Thomas Ince idealizou o primeiro
estúdio ao ar livre, ao comprar 20 mil acres de terra para construir sua
própria cidade do Velho Oeste, contratando depois uma trupe de cowboys autênticos e índios de verdade,
peritos em cavalgar, laçar e atirar. “War
on The Plains”e “Custer’s
Last Fight”, ambos de 1912, foram um dos primeiros westerns rodados por Ince.
vídeo O Grande Roubo de Trem
Contudo, o ano de 1914 é tido como o ano oficial do
nascimento do western no cinema,
porque até então não houve a preocupação em desenvolver um ator capaz de
encarnar o autêntico cowboy do Oeste,
ou por que não dizer, o mito. Os primeiros atores a desenvolver os heróis do
gênero foram Lionel Barrymore e Francis Ford (irmão do cineasta John) e eram
figuras presentes nos filmes de Griffith e Ince, mas o primeiro herói oficial
do gênero foi mesmo Gilbert “Bronco
Billy” Anderson. William
S. Hart e Cecil B. DeMille tiveram um interesse maior pelo gênero nos
primórdios do cinema americano. Ainda em 1914, DeMille estreou na direção com “Amor de índio”, e
posteriormente transportou para as telas, em primeira adaptação
cinematográfica, o famoso romance de Owen Wister, “The Virginian – O Paladino da Justiça”, história esta que
teria várias readaptações para o cinema em épocas futuras, inclusive originando
uma série de TV na década de 1960, muito famosa – “O Homem de Virginia”, estrelada por James Drury.Ainda
no período silents do cinema, Cecil B DeMille dirigiu os westerns “Sonhos de Moça” (“The Girl of The Golden West”), em 1915,
e refilmou, em 1918, “Amor de Índio”.
"Marked Man",
primeiro western
do mestre John Ford
William S. Hart
era um ator clássico do teatro norte-americano que tentava transferir sua
carreira para o cinema, e junto com John Barrymore e o lendário Douglas
Fairbanks (na minha consideração, o primeiro grande aventureiro da sétima
arte), seria um dos poucos a realizar este ideal, mas Barrymore não estava
interessado em westerns. Com a ajuda
de Thomas Ince, que foi seu produtor, ele realizou os westerns “Um Negócio
Perigoso”, em 1914; “Terra do Inferno”, em 1916
(considerado o primeiro western
adulto); “Serás minha escrava”,
também de 1916; “The Tiger”, em
1918; e “Wagon Tracks”, em
1919. Juntos, a dupla Hart e Ince alcançaram sucesso de crítica e público que
nem eles ao certo poderiam imagina.
John Ford começou sua carreira em 1914, como
assistente de direção, ator e até dublê, com o nome artístico de Jack Ford.
Iniciou na arte da direção em 1917, dirigindo “A Marked Man”, seu filme favorito e um dos poucos que adorava
mencionar em suas entrevistas. Entre este ano de 1917 até 1920, Ford realizou
28 westerns para o estúdio da
Universal, todos de grande importância para o gênero. Em 1924, Ford realizou
uma obra-prima, o épico do gênero “Cavalo
de Ferro”, estrelado por George O’ Brien, que havia sido dublê de
Tom Mix. Existem ainda muitas outras obras do gênero realizadas nos primeiros
anos da indústria cinematográfica, mas numerá-las todas é um trabalho que
requer ainda pesquisa de minha parte.
B: O papel da
mulher na sociedade do Oeste americano era bem secundário, penso que nas
produções do gênero western isso
também não era diferente. São raros os filmes em que tivemos mulheres como
protagonistas e com personagens fortes. O que você pensa disso?
PT: Penso que isso não é necessariamente verdade
em termos de produção do gênero. Temos ótimos filmes em que a mulher é a protagonista.
É verdade que não são muitos, mas devemos fazer justiça aos cineastas que se
lembraram delas. Anthony Mann fez isso em “Almas em Fúria”, em 1950, colocando Barbara Stanwyck como a
heroína freudiana e corajosa que desafiava a “madrasta má” vivida pela dama do
teatro americano Judith Anderson, para defender seu pai, vivido por Walter
Huston (pai do cineasta John). Stanwyck era considerada por Hollywood como a “Madrinha dos Westerns”, e tudo porque
ela era perfeita para o gênero. Ela cavalgava muito bem e sabia atirar de
verdade, sendo também uma extraordinária atriz em outros gêneros, geralmente em
papéis bem avançados para as atrizes de sua época. Barbara atuou em fitas westerns como “A Bandoleira” (ou “Na
Mira de um Coração”), dirigido por George Stevens, em 1935, onde
viveu a lendária Annie Oakley, e fez um importante papel feminino em “Aliança de Aço”, de Cecil B.
DeMille, dividindo as honras com Joel McCrea. Anos mais tarde, na década de
1960, foi a estrela de um famoso seriado de TV do gênero, “The Big Valley”(1965-1969),
onde viveu a corajosa matriarca de uma família.
Barbara Stanwyk,
madrinha do western
Também tivemos um personagem forte feminino como
protagonista num grande clássico americano do gênero dirigido por um dos
grandes artesãos da sétima arte, o brilhante Nicholas Ray. Falo de “Johnny Guitar”, realizado em 1954,
onde Joan Crawford esbanja toda a ousadia e a coragem como nunca antes exibidas
no cinema. Joan está perfeita como a dona de saloon perseguida por uma banqueira que sente um ódio mortal por
ela (vivida pela também brilhante Mercedes McCambridge), enquanto ela também é
defendida por um “herói-bandido” que sempre carrega um violão, Johnny Guitar
(vivido por Sterling Hayden). Uma das obras mais psicológicas do gênero com um
surpreendente espaço para a reivindicação feminina, tendo como pano de fundo a
disputa de duas mulheres pelo amor de um mesmo homem, onde o confronto final
entre as duas é inevitável. Em 1994, aproveitando o embalo da volta dos westerns
no mercado de cinema graças ao estrondoso sucesso de "Os Imperdoáveis", de Eastwood, veio “Quatro Mulheres e Um Destino”, dirigido
por Jonathan Kaplan, onde temos um elenco de primeira, lideradas pelas
poderosas Madeleine Stowe, Mary Stuart Masterson, Andie MacDowell e Drew
Barrymore, onde são elas as grandes protagonistas da obra. E pouco tempo
depois, veio Sharon Stone protagonizando em “Rápida e Mortal”, em 1995, contracenando com Gene
Hackman. Seja como for, as mulheres estão sempre marcando o seu território no
gênero, sejam como protagonistas ou personagens secundárias, talvez mesmo
servindo como a fonte de motivação para o herói ou o mito do Velho Oeste. Sem a
cativante presença feminina, o western
não tem graça.
B: Vamos falar de spaghetti, vamos falar de Leone. A meu ver foi um
diretor completo, inovador e vanguardista. Estava à frente de seu tempo em
relação a muitos diretores de seu país e até de Hollywood. Mesmo assim ele foi
massacrado pela crítica em sua época, algo que Peckinpah e outros também
sofreram na pele. Porque ele demorou tanto a ser reconhecido e valorizado?
Um dos principais respossáveis
pelo faroeste spaghetti,
Sergio Leone
PT: Foi, em grande parte, o preconceito de alguns
críticos. Tanto Leone quanto Sam Peckinpah utilizaram muito do excesso da
violência em suas obras, algo inovador para os padrões dos anos de 1960. Os
críticos de então acreditavam que o público poderia ficar chocado com esta nova
maneira de se fazer Western. Tanto a violência mostrada por Peckinpah quanto as
mostradas por Leone eram uma arte incompreensível para a crítica da época,
muito embora Sergio se preocupasse não somente com a violência, mas com todo um
conjunto. Contudo, ambos os diretores tiveram merecido reconhecimento lá pela
metade dos anos de 1970, quando suas obras foram revisitadas por críticos de
mente mais aberta. Outro fator que também que veio a demorar o reconhecimento
destes dois mestres foi a desconstrução do mito do cowboy romântico. Leone,
assim como Peckinpah, derrubaram de vez todas as lendas romanescas do gênero,
que já eram obsoletas já no fim da década de 1950. Alguns críticos de início
não viam isso com bons olhos, e muito menos, Hollywood. Contudo, como sabemos,
foi graças ao sucesso dos Westerns italianos que o cinema americano teve que se
reinventar para não perder a concorrência, e não deu outra. Outro motivo que
ajudou também a retardar o reconhecimento de Leone & Cia foi justamente
alguns cineastas de baixo orçamento tentarem imitar o estilo de Leone sem
sucesso, o que o incomodava, pois achava que o estavam plagiando. Por isso que
muitas vezes tivemos faroestes europeus tão pobres e inexpressivos que mal passaram
das prateleiras das locadoras de vídeo, muitos deles feitos com baixíssimo
orçamento e roteiros sem pé e nem cabeça. O próprio Sergio Leone declarou a
respeito de seus imitadores durante uma entrevista: "Sou considerado o
Pai do Western Spaghetti, mas se eu soubesse que teria feito parir tanto
fdp..."
Pode parecer piegas, mas gosto de assistir filmes sobre a Paixão de Cristo na época da Páscoa. Confesso que sou daqueles espectadores que as emissoras, sem constrangimento de serem repetitivas e óbvias, conseguem atingir. Em país católico como o Brasil, no que entra a Semana Santa, começam a pipocar produções de diferentes épocas sobre a Via-Crucis.
Por mais óbvio que seja, contudo, muitos desses filmes são bastante interessantes, visto que motivam os realizadores, essencialmente cristãos em sua maioria, a produzirem algo que lhes faz muito sentido, que lhes é caro em termos de crença e visão de mundo. Por isso, invariavelmente saem realizações caprichadas, maiúsculas, quando não, superproduções que se destacam, inclusive, na filmografia de alguns grandes cineastas. Casos de John Huston, David Lean e Franco Zefirelli, para ficar em três.
Então, sem medo de soar enfadonho, vão aqui sete títulos sobre a saga bíblica que, mesmo não sendo-se católico, é, sem dúvida, uma grande história. Digna de filme (s).
“Paixão de Cristo”, de Mel Gibson (EUA, 2004)
Mesmo com pé atrás com relação a Mel Gibson em produções nas quais atua, tenho que admitir que os filmes dirigidos pelo ator australiano merecem respeito. Este, em especial, além de trazer uma abordagem realística das últimas horas de Cristo, com cenas de alta violência e crueldade – o que deve ter sido bem verdade – tem o rigor de ser inteiramente falado em aramaico e latim, línguas usadas na época de Jesus Cristo. Sem “estrelas”, é uma realização, por mais criticada que tenha sido à época de seu lançamento, bastante sóbria e circunspecta.
Ultraviolência na Via-Crucis: controverso filme de Gobson
“A Última Tentação de Cristo”, de Martin Scorsese (EUA/Canadá, 1988)
O filme que provocou o "cancelamento" de Scorsese, por parte do Vaticano, que fez uma séria marcação ao cineasta após realizar esta ousada adaptação da obra de Níkos Kazantzákis. Blasfema, diria a Igreja. Mas o filme é uma preciosidade. Além da história, que traz uma visão alternativa do que poderia ter sido a vida – e a morte – de Cristo, tem no papel do Messias o ótimo Willem Dafoe, mais Harvey Keitel, Harry Dean Stanton e David Bowie. A trilha, vencedora do Grammy de Melhor Álbum New Age e uma das mais emblemáticas do cinema, é de Peter Gabriel. Polêmico, este as TVs não passam muito, não...
cena de Cristo sendo tentado por Satã em “A Última Tentação de Cristo”
“A Idade da Terra”, de Glauber Rocha (Brasil, 1980)
Outro título não muito lembrado para a Páscoa, até por conta de sua visão extremamente pessoal, alegórica e crítica da vida de Jesus, da Igreja e das estruturas de poder. Aliás, não uma vida, mas quatro! Geraldo Del Rey, Tarcísio Meira, Jece Valadão e Antônio Pitanga vivem, cada um, a personificação de um Cristo em diferentes realidades sociais: um negro, um militar, um índio e um guerrilheiro. No Brasil, Cristo não precisa de Via-Crucís: ele é crucificado simbolicamente um pouco todo dia. Último filme do gênio do Cinema Novo, que, assim como quase ocorreu com Scorsese, foi seu calvário. Desiludido com a péssima recepção da obra, o cineasta morreria meses depois de seu lançamento.
As quatro personificações de Cristo na visão de Glauber
“A Maior História de Todos os Tempos”, de George Stevens, David Lean e Jean Negulesco (EUA, 1965)
O cara jogou xadrez com o Diabo e encarnou Jesus. Só mesmo um grande ator como Max Von Sydow para se prestar a esses dois extremos com tamanha entrega e competência. Traz ainda no elenco o “épico” Charlton Heston, além de Martin Landau e Telly Savalas. Épico com letra maiúscula codirigido por três feras da Hollywood clássica, George Stevens, David Lean e Jean Negulesco. Bem tradicional em abordagem, o que contrabalanceia as nossas sugestões anteriores.
Von Sydow: haja versatilidade para quem já deu um "plá" com o Tinhoso...
“A Vida de Brian”, de Terry Jones (Inglaterra, 1979)
Se é pra blasfemar, então vamos com tudo: “A Vida de Brian”, o hilariante longa da turma da Monthy Pyton, que desfaz a sempre penosa e triste história da Via Sacra de Jesus. Aliás, o filme não é exatamente sobre a vida do filho de Deus, e sim de um pobre coitado, sonso e azarado que é confundido com o Messias. O azar é tanto que o cara, mesmo tentando escapar de todas as maneiras, acaba por ser crucificado junto com o Salvador, numa das cenas mais “épicas” do cinema de comédia, quando cantam “Olhe Sempre o Lado Bom da Vida” ao final. Dando aqui uma letra, a cena, com sua ironia, traz uma mensagem positiva que muito falta ao catolicismo quando se refere ao tema.
a hilária cena da crucificação de "A Vida de Brian"
“O Evangelho Segundo São Mateus”, de Pier Paolo Pasolini (Itália, 1964)
Quando fizemos um adendo na abertura em que dissemos que nem todos os realizadores eram necessariamente católicos, a referência era tanto a Glauber Rocha quanto, especialmente, a Pasolini. Anarquista e gay, o genial diretor italiano realizou por vontade própria a vida do Salvador através do poético texto eclesial. Talvez, o distanciamento crítico de seu posicionamento político e a sua sensibilidade de poeta – e, claro, seu talento único como cineasta – tenham lhe habilitado a realizar aquele que é o mais fiel filme sobre Jesus e seus ensinamentos – indicado, inclusive, pela Biblioteca do Vaticano, que teve que se render à obra de um filho não-abençoado.
filme completo "O Evangelho Segundo São Mateus”
“Rei dos Reis”, de Nicholas Ray (EUA, 1961)
Quem não se lembra de filmes como este ou “A Bíblia” na Sessão da Tarde da Sexta-Feira Santa? Mais um típico épico bíblico norte-americano dos anos 60, assim como "A Maior História..." a superprodução de Nicholas Ray tem narração de Orson Welles e trilha de Miklós Rózsa e roteiro de Ray Bradbury. Remake do filme mudo de Cecil B. de Mille, de 1927, em suas mais de três horas de duração, traça a vida de Jesus Cristo, do nascimento até a ressurreição, baseando-se nos quatro evangelhos canônicos (Mateus, Marcos, Lucas e João), além dos escritos do historiador romano Tácito.
Sermão da Montanha encenado grandiosamente por Ray