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domingo, 19 de julho de 2026

"Todos Já Sabem", de Asghar Farhadi (2018)


Talvez nem todos saibam, mas o filme “Todos Já Sabem” já foi motivo de resenha no Clyblog, em 2019, pelas mãos do nosso colaborador Vagner Rodrigues. Na ocasião, Vagner apontou as qualidades desse trhiller misterioso, cuja composição é distinta e certeira: o talento do elenco (os espanhóis Penélope Cruz e Javier Bardem mais o argentino Ricardo Darín), a competência do diretor (o iraniano Asghar Farhadi) e a história envolvente. Mas é exatamente essa junção exitosa que nos motiva a, novamente, falarmos do filme no blog. Afinal, hoje tem final da Copa do Mundo inédita entre Espanha e Argentina, e um filme que reúne “em campo” justamente esses dois países – e de forma tão certeira – merece, sim, ser revisitado diante da atual ocasião.

O roteiro do filme, se não todos, muitos já sabem, haja vista que a produção é de 8 anos atrás. Por isso, relembremos: “Todos...” conta a história de Laura (Penélope), que retorna à Espanha natal para acompanhar a cerimônia de casamento de sua irmã. Por motivos de trabalho, o marido argentino (Darín) não pode ir com ela. Chegando no local, Laura reencontra o ex-namorado, Paco (Bardem), que não via há muitos anos. Durante a festa, uma tragédia acontece. Toda a família precisa se unir diante de um possível crime de grandes proporções, enquanto se questionam se o culpado não está entre eles. Na busca por uma solução, segredos e mentiras são revelados sobre o passado de cada um.

Afora trazer na mesma produção Argentina e Espanha, “Todos...” nos apresenta semelhanças cinematográficas que também unem esses dois países. A história faz bem lembrar a ótima fase recente do cinema argentino, que produziu vários thrillers empolgantes como “O Segredo dos Seus Olhos”, “Vermelho Sol” e "Kóblic", além de jogar luzes sobre Darín, um dos melhores atores deste século. Igualmente, o filme faz remontar o clássico cinema espanhol, como o fantástico de Victor Erice e as tramas de suspense psicológico de obras como “Dispara!” e “O Sétimo Dia”, estes dois últimos do saudoso Carlos Saura - que, aliás, já havia feito a ponte entre seu país natal e o sul-americano nos documentários "Tango", de 1998, e "Argentina", de 2015. Colabora para este resultado a direção de Farhadi, representante de uma escola cinematográfica tão importante do novo cinema mundial como a do Irã. 

Espanha e Argentina em campo, só que no cinema, por meio dos astros
Penélope Cruz, Ricardo Darín e Javier Bardem

Igualmente, “Todos...” também aproxima os países finalistas da Copa por um motivo até então inédito na competição: será apenas a segunda vez em quase 100 anos que os dois principais times falam o mesmo idioma! Já teve de tudo em termos idiomáticos em Copas: português com italiano, espanhol com holandês, francês com croata, alemão com húngaro, italiano com checo... mas espanhol com espanhol só lá na primeira edição, em 1930, quando Argentina e Uruguai se enfrentaram. Geopoliticamente falando, é a primeira vez que, a rigor, um país colonizador enfrenta um colonizado por ele mesmo, relação esta que remonta a mais de 500 anos!

História à parte, será um grande jogo e que reescreverá, sim, um novo capítulo histórico, Em campo, o próprio estilo de jogo de cada equipe é parecido, valorizando a bola e contando com a força do coletivo. No cinema, arte essencialmente coletiva, essa química entre espanhóis e argentinos já deu muito certo, a se ver por outros títulos hispano-argentinos como o já citado "O Segredo...", "Um Conto Chinês" e “Truman”, todos, aliás, também com Darín. O suspense de Farhadi mostra bem isso, pois cada um dos países, Espanha e Argentina, são escolas craques nas quatro linhas que formam a câmera. Isso “todos los saben”, Agora, falta saber qual escola, mas a do futebol, se saíra melhor nas quatro linhas do gramado.

trailer de "Todos Já Sabem"


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"Todos Já Sabem"
Título Original: "Todos lo Saben"
Direção: Asghar Farhadi
Gênero: Thriller, Suspense
Elenco: Penélope Cruz, Javier Bardem, Ricardo Darín
Duração: 2h13min
Ano: 2018
País: Espanha, França, Itália, Argentina
Onde assistir: Prime Vídeo, Apple TV, Google Play Filmes

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Daniel Rodrigues

Messi

 






'Messi' - REIS, Cly
(giz de cêra em sulfite)



'Messi'
Cly Reis

sábado, 18 de julho de 2026

cotidianas #902 - "Uma Partida de Football"

 



Brasilx Argentina
Campeonato Sul-Americano (1919)
Das coisas elegantes que as elegâncias cariocas podem fornecer ao observador imparcial, não há nenhuma tão interessante como uma partida de football.

É um espetáculo da maior delicadeza em que a alta e a baixa sociedade cariocas revelam a sua cultura e educação.


Num círculo romano, com imperadores, retiários, vestais e outros sacerdotes e sacerdotisas, não se poderiam presenciar aspectos tão interessantes, cousas tão inéditas como nas nossas arenas de jogo dos pontapés na bola.

Os gladiadores eram raramente homens de grande beleza física e muito menos intelectual; os nossos jogadores de football, porém, são excelentes modelos, em que o crânio alongado e pontiagudo dá um remate de beleza aos seus membros inferiores que muito lembram certos ancestrais do homem.

O senhor Coelho Neto, a quem muito admiro, já fez a apologia desses Apolos, com a força de sua erudição em cousas gregas.

Não há, portanto, nos nossos hábitos, fato mais agradável do que assistir uma partida de bolapé.

As senhoras que assistem merecem então todo o nosso respeito. Elas se entusiasmam de tal modo que esquecem todas as conveniências. São as chamadas “torcedoras” e o que é mais apreciável nelas é o vocabulário. Rico no calão, veemente e colorido, o seu fraseado só pede meças ao dos humildes carroceiros do cais do porto.

Poderia dar alguns exemplos, mas tinha que os dar em sânscrito. Em português ou mesmo em latim, eles desafiariam a honestidade: e é, por um, que me abstenho de toda e qualquer citação elucidativa.

O que há, porém, de mais interessante nessas festanças esportivas, é o final. Sendo um divertimento ou passatempo, elas acabam sempre em rolo e barulho.

Por tal preço, não vale a pena a gente divertir-se.

É o que me parece.

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"Uma Partida de Football"
Lima Barreto
(1919)

"A Pátria de Chuteiras", de Nelson Rodrigues - ed. Nova Fronteira (2013)

 


"É muito difícil elogiar
o Brasil no Brasil, 
é muito difícil elogiar
o brasileiro entre brasileiros."
Nelson Rodrigues


Época de Copa do Mundo e, mesmo quem não tem ligação forte com o futebol, tem ranço com o Neymar ou está cansado da desorganização da CBF, se pega torcendo para a Seleção Canarinho. É quando aqueles caras, em gramados estrangeiros, representam mais que jogadores de futebol, mais que estrelinhas mimadas interessadas prioritariamente em dinheiro, é quando, de certa forma, representam a Pátria.

Coletânea de crônicas organizadas pelo ex-Ministro do Esporte, Aldo Rebelo, reunidas do período entre 1956 a 1977, "A Pátria de Chuteiras", de Nelson Rodrigues, traz toda o característico ufanismo entusiasta do escritor, logicamente acompanhado de muito talento, verborragia, e uma capacidade singular de adjetivações criativas e hiperbólicas.

Composto na maior parte por textos relacionados às Copas do Mundo que o cronista acompanhou, o livro também conta com textos a respeito de outros momentos marcantes do futebol brasileiro, como a vaia histórica de Julinho Botelho, uma atuação assombrosa do crucificado goleiro Barbosa contra o Santos de Pelé, na Taça Brasil de 1959, e o jogo de despedida de Garrincha no Maracanã, tudo sublinhado pelas expressões únicas que consagraram o texto rodriguiano, como complexo de vira-lata, João sem medo e o próprio título do livro, cunhado por ele, a pátria de chuteiras.

Exagerado, patriota a um extremo que chega a beirar o irritante, Nelson Rodrigues insistia para que o brasileiro se valorizasse, melhorasse sua autoestima e abandonasse o que chamava de complexo de vira-lata, diante dos europeus.

Nelson tinha razão em parte. Embora o brasileiro carregue, sim, uma autocrítica muitas vezes excessivamente pesada sobre si mesmo, e mereça um olhar um pouco mais condescendente e generoso, a verdade é que hoje em dia, especificamente no futebol, aquele discurso de que somos os melhores do mundo e ninguém tem talento como nós, já não serve mais. Podemos discutir os motivos: a evasão de jogadores jovens para o exterior, a adoção de sistemas de jogo europeus, a globalização e o ingresso de imigrantes e ex-colonizados em escolas de futebol antes muito rígidas e sistemáticas, enfim...  Mas fico me perguntando se Nelson Rodrigues manteria essa opinião sobre o monopólio do talento brasileiro vendo hoje um Musiala na Alemanha, um Saka na Inglaterra, um Olise, na França, um Yamal na Espanha, driblando e entortando a espinha dos adversários como um bom atacante brasileiro faria.

Acho que hoje em dia Nelson Rodrigues não se orgulharia muito da Seleção nacional e dos jogadores sem sangue e sem coração que vestem a amarelinha.



Cly Reis