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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

"Muito Prazer", de Jorge Furtado (2026)


Parece um contrassenso, mas fui tenso assistir "Muito Prazer", o novo longa de Jorge Furtado. Não por repelir prazer, não entendam mal. Mas, sim, por, no fundo, desejar não me decepcionar com Furtado. Cabeça genial do cinema gaúcho e nacional, criador de algumas das obras-primas do nosso cinema dos últimos 40 anos como “Ilha das Flores” e “O Homem que Copiava”, o cineasta e roteirista vinha apresentando, infelizmente, um considerável declínio em suas últimas realizações. Não que realizadores de longa data sejam impedidos de altos e baixos, até porque manter o mesmo nível por muito tempo é improvável. Mas, infalivelmente, espera-se que se mantenha a consideração por quem se admira.

Ocorre que, no entanto, a amostra recente de Furtado, tanto em cinema quanto em TV, vinha sendo errática e longe de seus melhores momentos. O por vezes monótono “Virgínia & Adelaide” (2023), codirigido por ele e Yasmin Thayná, o roteiro de “Grande Sertão” (2024), desastroso filme de Guel Arraes, ou o desengraçado humorístico televisivo “Tô Nessa” (2025), com Regina Casé, formam um conjunto de trabalhos que não condiziam com aquele criador sagaz de “Comédia da Vida Privada”, dos roteiros de “Lisbela e o Prisioneiro”, de comédias deliciosas e inteligentes como “Saneamento Básico - O Filme” ou “Meu Tio Matou um Cara”, para ficar nas comédias a título de comparação com “Muito Prazer”. Parecia que aquela veia criativa e inteligente havia esmorecido, tornado-se pouco eficiente, que as marcas de seu cinema se transformaram em clichês. Que o Furtado de antes, sabe-se lá o motivo, havia ido embora.

Mas a grandes artistas sempre se deve dar novas chances. Será que “Muito Prazer” traria o que seu título prometia? Filme iniciado e eis o primeiro diálogo entre os personagens de Daniel de Oliveira (Rubem) e de Luiza Arraes (Grace): fraco. Muito fraco. Sem conexão dos tempos de fala dos atores, soluções semânticas forçadas, encenação superficial... Ih! Deu a impressão de se estar assistindo a um daqueles especiais de comédia da Casa de Cinema de Porto Alegre para a Globo, só que sem brilho. Aquele receio antes de entrar no cinema, então, reapareceu: será que se confirmaram minhas tristes suspeitas sobre Furtado?

Mas a deusa Hedonê olharia por mim e não me deixaria sair frustrado. Logo o filme engrenou: os diálogos passaram a funcionar, as atuações ganharam densidade e o roteiro começou a fluir. Na história, Rubem, após descobrir que herdou de seu tio um motel desativado, encontra no local Grace, uma ex-funcionária que vive lá clandestinamente. Determinados a reabrir o motel, eles, juntamente com a amiga Nalva (Samantha Jones), confabulam um plano inusitado: vender na internet vídeos feitos por câmeras escondidas nos quartos dos clientes. Ao serem descobertos, eles têm agora que provar que os vídeos são falsos.

O intrépido trio Rubem, Grace e Nalva: pornografia sem apelação

É muito interessante como Furtado consegue construir um filme sobre pornografia sem ser superficial e não recair nem para a explicitação, de um lado, e nem para o pudico, de outro. Num mundo hedonista em que sexo e dinheiro continuam dando as cartas, é bastante auspicioso uma obra que trate sobre estes dois temas de uma maneira saudável.

Igualmente, há elementos bem próprios do cinema de Furtado, os quais ajudam nessa abordagem. A edição ágil, as falas combinadas e a exploração do cenário como configurador do espaço-tempo são algumas delas. A principal, no entanto, é a ludicidade típica do cinema do cineasta gaúcho. É este espaço do lúdico que sustenta, inclusive, outra característica sua, que é a incidência da metalinguagem. Como em “Real Beleza”, que traz o tema da subjetividade da formação da imagem, mas, principalmente, em “Saneamento Básico”, há presente a figura do cineasta. Se em “Saneamento” era Zico, personagem de Lázaro Ramos, quem representava a figura de gente como Furtado, em “Muito Prazer” o alter-ego desse alguém amador que brinca de fazer cinema realiza-se na nerd Nalva.

A trama, com suas idas e vindas, com o escalonamento das mirabolantes ideias “comerciais” do trio, é em muitos momentos hilária e traz aquela sensação a que tanto eu e muitos espectadores estão acostumados: a de como é confortante ver um filme de Jorge Furtado. A quem tive a felicidade de reencontrar. Não é, necessariamente, um de seus melhores trabalhos, mas foi como se eu pudesse, novamente, tal como faço mentalmente há cerca de quatro décadas, estender-lhe a mão em parabéns e cumprimento: “Muito prazer, Jorge Furtado. Que bom reencontrá-lo”.

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trailer de "Muito Prazer"


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Daniel Rodrigues

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Música da Cabeça - Programa #480


1,87%. Número que se torna um mantra para as próximas semanas. Mas vamos nos ater, pelo menos hoje, a outro número: o das 480 edições do MDC. Para marcar essa data, teremos convidados do calibre de Paulinho da Viola, Steve Reich, Silas de Oliveira, BaianaSystem, Suzanne Vega e mais. Rumo ao infinito, o programa especial entra no segundo turno às 21h na decisiva Rádio Elétrica. Produção, apresentação e mangas arregaçadas: Daniel Rodrigues


www.radioeletrica.com

terça-feira, 6 de outubro de 2026

"Até Logo, Biblioteca", de Rafael Bassi - Ed. Casa de Astérion (2025)


"...me dei liberdade de fazer buscas [na minha biblioteca] com os olhos, e, de maneira muito sentimental, eleger alguns e escrever algo sobre. Acho que esse pequeno exercício me fará bem. E se alguém quiser lê-lo, espero que fique bem também."
Rafael Bassi

É admirável quando um autor culto consegue se expressar sem se usar dessa cultura, digamos, verticalmente. Não raro, a alta carga de cultura se reverte, contraditoriamente, numa narrativa de baixa carga de admissibilidade ou de atratividade. Mesmo tratando de temas interessantes, abusa-se do empolamento e/ou de expressões e construções epistemológicas intrincadas, complexas. Chatas muitas vezes. Não é, por sorte, o que se pode dizer sobre Rafael Bassi, pelo menos em seu agradável livro de crônicas “Até Logo, Biblioteca”, no qual o professor, escritor e historiador (especialista em História, Letras e Filosofia, entre outras formações) traz textos sobre seus livros e a paixão pela literatura conjugando, constantemente, sua alta cultura com uma forma aprazível de escrever.

Essa escrita parte de um dilema vivido por Bassi: ao se preparar para uma temporada fora do país e ter que deixar em seu apartamento no Brasil sua biblioteca pessoal, composta por aproximadamente 8 mil volumes, o autor cria como estratégia falar sobre alguns deles. Se não todos, algo impossível, ao menos aqueles que ajudam a construir sua formação como pessoa e profissional. De sua admiração por Jorge Luis Borges, Erico Verissimo e Machado de Assis, passando pela fascinante história da Anna Comnena, bem como as suas junto a Mia Couto e Dalton Trevisan, são adoráveis sem, contudo, se restringirem somente a esses temas, visto que pontuam uma série de outras colocações pertinentes àquilo. 

A partir dessa premissa, o leitor é convidado a penetrar nas memórias, divagações, observações e pensamentos particulares de Bassi. O que poderia se tornar uma experiência enfadonha, é, pelo contrário, muito curiosa e deleitosa. No que se refere à linguagem, como mencionado no começo deste texto, igualmente uma boa surpresa. Bassi vale-se de seu cabedal de conhecimentos para construir uma narrativa fluida, que casa o tempo todo a fruição dada pelo autor com informações sobre literatura, história, filosofia, música, entre outros, sem se furtar de rebuscá-las, contudo. Porém, sempre entremeado por essa aproximação com quem lê.

Para um nativo e morador de Porto Alegre como eu, há ainda mais empatia. O texto de encerramento, “Entre uma Palavraria e Outra”, em que narra o último dia de funcionamento da livraria Palavraria, no bairro Bom Fim, fez-me remeter a boas lembranças – contrariamente ao sentimento expresso por ele naquele momento de perda –, pois foi ali que Leocádia e eu nos reencontramos, em janeiro de 2012, para nunca mais nos desligarmos. 

Mas não apenas essa geoafetividade nos aproxima, mas a descrição de deslocamentos e Curitiba, onde estive com Leocádia num final de semana de muitas andanças, mas até mesmo de Buenos Aires, a qual ainda não tivemos a oportunidade de pisar, mas que, contada da forma como está no livro, dá a sensação de que já estivemos lá, como um agradável déjà vu.


Daniel Rodrigues

domingo, 4 de outubro de 2026

cotidianas #909 - Dia da Eleição

 




Um visual meio selvagem para o dia
Olhos se abrindo disparam centelhas de neon
Ela zomba, ela rejeita
A cidade é sua escrava, ele está traindo sua amante
Ela é instável e obscura
Ela é má e ela é incansável
Tão incansável, incansável mesmo

Tudo sobre você, como dizem por aí
Boatos ou rivais gritam para a força de ataque
E aí caras, a propósito
Vocês estão cientes que estão sendo ilegais?
Isso faz com que o comportamento do seu salvador pareça maligno
Desculpe se não é o momento, mas me digam
Como vocês se encaixam nesta trapaça?

Máxima surpresa
Seu sorriso é algo novo
Eu tiro minha camisa e rezo
Nós estamos jurados e fadados a sofrer a onda de calor
Retire minha camisa e reze
Estamos chegando no dia da reeleição

Esticando meu amor pelo caminho
Ao seu convite, esticando meu corpo
Use sua jogada intuitiva
Porque talvez nós tenhamos mais tempo de jogo do que dinheiro

Surpresa máxima
Ela sabe de alguma novidade
Eu tiro minha camisa e rezo
Estou me poupando para sofrer a onda de calor
Tire minha camisa e reze
Estamos chegando no dia da reeleição

Por estradas e vielas
A chance de um amante na direção do vento
Abafa murmúrios e sons
Que sejam calmas as mãos sobre a pele
Vá mais longe
Cordas entrelaçadas todas cantam
Ganhando algum tempo para escapar
Nós poderíamos dançar!

Não deveria estar perguntando
Louco e intrigante
Podia ser meu dia da eleição

Nem tente me induzir
Em toda a minha restrição não há hesitação
Todos os sinais estão à solta
Por que a sanidade é rara no fim deste dia difícil
Sombras estão rastejando para fora do metrô
Qualquer caminho que você escolhe
Em todas as direções apenas para me confundir

Surpresa máxima
Você sabe de alguma novidade
Eu tiro minha camisa e rezo
Nós estamos jurados e fadados a sofrer essa onda de calor
Tire minha camisa e reze
Estamos chegando no dia da reeleição
Dia da reeleição

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tradução da letra da música "Election Day"
da banda Arcadia

Ouça: