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domingo, 6 de dezembro de 2009

"Vicky Cristina Barcelona' de Woody Allen (2008)


Esta semana, mesmo, por acaso, li em algum lugar, um comentário afirmando que o Woody Allen bom era o dos anos 70. Deve-se admitir que as obras-primas do diretor encontram-se com efeito nesta fase, como "Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo mas tinha medo de perguntar" e "Manhattan", tendo ainda uma produção bastante interessante nos 80 com jóais como "Hannah e suas irmãs" e "Zelig", mas verdadeiramente começa a dar sinais de estafa criativa e qualitativa nos 90, mesmo assim, neste período, ainda conseguindo produzir o ótimo e divertido "Misterioso Assassinato em Manhattan" em 1993 e o bom "Poderosa Afrodite". O novo século pelo visto não tem sido muito auspicioso para Allen, depois de uma série de fracassos logo na virada do milênio, parece estar tentando reencontrar o caminho. Tenho que admitir que não vi "Dirigindo no Escuro", "O Escorpião de Jade", "Os Trapaceiros" mas sei que o próprio Allen afirma fazerem parte de sua pior fase como cineasta. Com um testemunho desses acho que nem vou arriscar.
Não vinha assistindo muito a estes mais novos também porque aqui em casa há uma restrição (da patrôa) a Woody Allen e, como na medida do possível a gente pega filmes para ver juntos, acabava deixando passar filmes que até me interessam como "Scoop" e "Melinda e Melinda" para o qual tenho boas recomendações. Curiosamente, neste sábado procurando filmes na locadora ela demonstrou interesse em "Vicky Cristina Barcelona" do qual eu ouvira falar bem. Ôpa! Oportunidade de ver Allen em casa na Sessão Conjunta com a mulher.
Só que lamentavelmente o filme não é lá essas coisas. Aliás é bem fraco. Uma história bem inconsistente, um roteiro incrivelmente óbvio com falas até mesmo previsíveis e um humor bastante duvidoso. Pra piorar, o filme todo é conduzido por uma narração que, salvo toda a minha paciência de tentar descobrir onde queria-se chagar com aquilo, mostrou-se absolutamente desnecessária. Não era necessário narrar o que eu estava vendo, estava ali na tela ou ia estar dali a segundos. Uma condução de filme totalmente equivocada.
A locação em Barcelona, a mistura de línguas, o cenários, a fotografia, me parecem mais uma expressão de paixão momentânea ou descoberta do diretor de algum outro lugar que não Manhattan, onde, sinceramente, acho que ele deveria continuar. Até por inspiração mesmo. O fator Espanha, o fator Barcelona, com Javier Barden e Penélope Cruz, o intimismo, a comédia velada, só fez com que ficasse com uma cara meio Almodóvar no fim das contas e, na boa, se é pra ver Allen assim, eu prefiro ver um Almodóvar mesmo.
Como disse, tenho boas referências de "Melinda e Melinda" e pretendo ver uma hora dessas. Só que pelo jeito vai ter que ser sozinho na sessão da madrugada. Acho que depois desse perdi de vez a boa vontade da minha mulher em ver Woody Allen.


Cly Reis

terça-feira, 5 de novembro de 2013

ClyBlog 5+ Cineastas


introdução por Daniel Rodrigues


Jean-Claude Carrière disse certa vez que “quem faz cinema é herdeiro dos grandes contadores de histórias do passado”. Pois é isso: cineastas são contadores de histórias. Afinal, quase invariavelmente, quanto mais original a obra cinematográfica, mais se sente a “mão” do seu realizador. Um filme, na essência, vem da cabeça de seu diretor. Fato. Tendo em vista a importância inequívoca do cineasta, convidamos 5 apaixonados por cinema que, cada um à sua maneira – seja atrás ou na frente das câmeras –, admiram aqueles que dominam a arte de nos contar histórias em audiovisual e em tela grande.
Então, dando sequência às listas dos 5 preferidos nos 5 anos do clyblog5+ cineastas:



1. Gustavo Spolidoro
cineasta e
professor
(Porto Alegre/RS)

"Se Deus existe, ele se chama Woody Allen"



O pequeno gênio,
Woody Allen

1 - Woody Allen
2 - Stanley Kubrick
3 - Rogário Sganzerla
4 - François Truffaut
5 - Agnes Varda






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2. Patrícia Dantas
designer de moda
(Caxias do Sul/RS)


"Gosto destes"


1 - Quentin Tarantino
2 - Stanley Kubrick



3 - Sofia Coppola
4 - Woody Allen
5 - Steven Spielberg

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3. Camilo Cassoli
"Felizes Juntos" rendeu ao chinês
o prêmio de melhor direção
em Cannes
jornalista e
documentarista
(São Paulo/SP)


"Não sei se exatamente nessa ordem,
mas esses são os cinco com quem me identifico."


1 - Wong Kar-Wai
2 - Federico Fellini
3 - Wim Wenders
4 - Eroll morris
5 - Werner Herzog






***************************************

4 . Jorge Damasceno
biblioteconomista
(Porto Alegre/RS)


"Fiquei louco para incluir o Robert Altman e o Buñuel na lista."


1 - Stanley Kubrick
2 - Francis Ford Coppola
3 - Werner Herzog
4 - Ingmar Bergman
5 - Fritz Lang
Um dos clássicos de Lang,
"M- O Vampiro de Dusseldorf''












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5. Alessa Flores
empresária
(Porto Alegre/RS)


"Greenway mudou a minha vida com "O Cozinheiro, o Ladrão, Sua Mulher e o Amante".
Um filme que resume o que é arte pelo roteiro, fotografia, figurinos, trilha e direção impecáveis.
Não consegui achar mais nada que fosse tão bom quanto."


Cena marcante do impressionante
"O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante"












1 - Peter Greenway
2 - Pedro Almodóvar
3 - Sofia Coppola
4 - Roman Polanski
5 - David Cronenberg






sábado, 4 de dezembro de 2010

"Zelig", de Wody Allen (1983)



Ainda tenho algumas dívidas de Woody Allen para comigo mesmo e uma delas era "Zelig", filme que sempre quis ver mas nunca loquei, perdia quando passava no Cult e assim por diante. Esta semana tive a oportunidade de assistir e só confirmou tudo o que eu esperava dele. Pode não ser tão espetacular quanto "Manhattan", meu preferido do diretor, mas é daqueles geniais, na mesma proporção por exemplo de "Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo mas tinha medo de perguntar". Só um gênio como Allen pra fazer um filme daquele e daquele jeito.
Zelig Gordo, Zelig Negro, Zelig Escocês.
Na forma de um (falso) documentário, conta a história de um homem, Leonard Zelig, que tem a capacidade de assimilar as característcas não só psicológicas mas também físicas de quem se aproxima dele. O cara vira um fenômeno, uma atração mundial e é badalado por onde passa até que acontecimentos fazem com que toda a opinião pública se volte contra ele. O barato, além deste formato é como ele é apresentado, com imagens verdadeiramente antigas da sociedade americana dos anos 20 e 30, mescladas às produzidas para o filme, que são tão bem trabalhadas, envelhecidas, riscadas, mal-cortadas que parecem realmente serem originais de muito tempo atrás. Os filmes reais dentro do filme alternam-se na condução do "documentário" com filmagens 'amadoras', gravações das sessões com o sr. Zelig, com fotos que praticamente dialogam, e depoimentos posteriores de pessoas envolvidas no curioso caso; tudo isso numa montagem espetacular, com inserções da imagem de Zelig (Allen) em fotos e acontecimentos de maneira muito convincente (isso muito antes e sem os mesmos recursos técnicos de "Forrest Gump"
"Zelig" na verdade é uma grande alegoria sobre a individualidade, a personalidade, a auto-estima do indivíduo e a volubilidade das pessoas e opiniões, tratando tudo isso de uma forma extremamente original, inteligente e divertida.
Ainda tenho uma certa dívida de Allens: não vi "Radio Days", não vi o recente "Tudo pode dar certo", perdi há poucos dias também na TV o "Bananas", mas aos poucos eu vou diminuindo este meu prejuízo. Gênio! Woody Allen é um dos que se pode atribuir este adjetivo sem medo.



Cly Reis

quinta-feira, 12 de junho de 2025

8 Comédias Românticas para o Dia dos Namorados



É Dia dos Namorados! Se muitas vezes uma história de amor começou com um mero "oi, tudo bem?", em outras tantas o romance teve início com alguma situação curiosa, inusitada, uma implicância pessoal, uma negativa inicial, ou qualquer coisa do tipo. As comédias românticas, gênero muito popular nos últimos tempos no cinema comercial, volta e meia retratam situações desse tipo e é exatamente o inusitado dos acontecimentos que perfazem as relações que fazem com que momentos como esses se tornem cômicos.

A bem da verdade, exatamente por ter ganho muita popularidade, o gênero ficou um tanto saturado, repetitivo e até meio imbecilizado, mas ao longo da história do cinema algumas películas tornaram-se marcantes e emblemáticas dentro desse segmento.

Destacamos aqui algumas dessas histórias de amor da telona. Desavenças, romantismo, inocência, brigas, desafios, frustrações, amadurecimentos, descobertas, determinação... tem um pouco de tudo nessa lista. Afinal, cada história verdadeira tem alguma coisa dessas coisas aí, não? O que teve na sua história? Com qual filme você se identifica? 

Confira aí sete filmes destacados nesse Claquete Especial de Dia dos Namorados:



💖💖💖💖💖💖💖💖



1. "Harry e Sally - Feitos Um Para o Outro", de Rob Reiner (1989) - Os encontros, desencontros, desentendimentos, desavenças, diferenças, amizade, afastamento, aproximação, atração, de um casal de desconhecidos, depois conhecidos, depois inimigos, depois amigos, até descobrirem, anos depois, que... eram feitos um para o outro. "Harry e Sally..." é sem dúvida alguma um dos melhores exemplares do gênero, até pelo fato de conseguir explorar uma série de situações que acontecem com casais e que levaram ao início ou fim de relações. Em meio a toda a comicidade, sua verossimilhança dá-se em grande parte pelo fato de que muitas das situações vividas pelos personagens são baseadas em histórias reais relatadas por casais e terapeutas conjugais.




2. "(500) Dias Com Ela", de Mark Webb (2009) -  Proposta diferenciada no gênero. Aqui o carinha é romântico, sonhador e apaixonadão, e a garota por sua vez é mais descolada, desapegada e pragmática. No fim das contas, o personagem principal de "(500) Dias com Ela"   não é nenhum dos dois e sim OS RELACIONAMENTOS em si. Roteiro interessantíssimo com uma linha cronológica descontinuada num vai e vem dos dias (com ela e sem ela), montagem dinâmica e ousada, além de uma trilha sonora excelente. Uma das melhores comédias românticas dos últimos tempos.





3. "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa", de Woody Allen (1977)Woody Allen é tão genial que consegue transformar uma grande DR num filme saboroso. O longa trata da relação de um humorista judeu (o próprio Allen) e sua nova namorada, a complexa Annie Hall, vivida magistralmente por Diane Keaton, e sua experiência de viverem juntos. O relacionamento é um tanto complicado e essa experiência gera uma série de questionamentos levantados com muito humor e muita inteligência nos diálogos sagazes e brilhantes do roteiro, co-escrito pelo próprio Allen. 

Profundo sem ser hermético, filosófico sem ser chato, romântico sem ser meloso, "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa" revolucionou a ideia de filmes sobre relacionamentos. 




4. "A Garota de Rosa Shocking", de Howard Deutch (1986) - Ilustre representante das comédias teen dos anos 80, o filme é um dos mais emblemáticos de sua geração. Namoros, colégio, festinhas, decepções, corações partidos, finais felizes, tudo isso faz parte do corpo básico de uma série de produções dessa época, cada um lá com sua ênfase, mas muitas vezes com esses temas recorrentes. Em "A Garota de Rosa-Shocking", a humilde Andie, Molly Ringwald, é caidinha pelo bonitão da escola, Blane, fica se fazendo de difícil. Andie conta com a fiel amizade e os conselhos do divertido Duckie, que na verdade é apaixonado pela amiga e fica tentando abrir seus olhos quanto ao riquinho para quem ela fica praticamente se humilhando. A gente torce brutalmente pro amigo esquisitão, pra ela enxergar que aquele cara é que vale realmente a pena mas (ALERTA DE SPOILER!!! ), para infelicidade do espectador, num final broxante, ela fica mesmo com Blane que finalmente resolve deixar de ser bunda-mole e ficar com que realmente gosta dele. Muita gente não gostou do final e, deste modo, os produtores resolveram fazer uma nova versão ("Alguém Muito Especial") mudando o gênero dos personagens e com o desfecho que todos desejavam : o personagem principal ficando com a melhor amiga. 

Embora o final seja muito discutido e muita gente prefira a segunda versão, "A Garota de Rosa Shocking" é clássico e continua sendo referência em comédias românticas juvenis.



5. "Feitiço da Lua", de Norman Jewison (1987) - Filme gostosíssimo em que uma viúva,  Loretta, retomando sua vida após a perda do marido, aceita a proposta de casamento de um empresário do bairro onde mora, bem mais velho que ela mas que lhe transmite aquela paz, tranquilidade e segurança. No entanto, para tumultuar sua vida, ela se vê tentada pelo irmão mais novo do noivo, o impulsivo e intempestivo Rony, e mesmo brigando muito contra seus sentimentos, acaba se apaixonando pelo cunhado. Roteiro excelente, diálogos bem escritos, atuações espetaculares, especialmente a de Cher no papel principal que lhe rendeu o Oscar de melhor atriz, muito romance e magia no ar. 

Daqueles pra assistir com um sorriso no rosto. 




6. "Ela É o Cara", de Andy Fichman (2006) - Famoso pelas tragédias como "Hamlet", "Macbeth", "Romeu e Julieta", William Shakespeare também era mestre nas comédias. "Muito Barulho Por Nada", "A Comédia dos Erros", "A Megera Domada" são alguns exemplos da genialidade do bardo para o humor sendo algumas até adaptadas para o cinema. "Noite de Reis", outra de suas comédias famosas não só ganhou uma versão cinematográfica como também uma leitura completamente nova e ousada levando os personagens da trama clássica para o universo do futebol. Em "Ela é o Cara", Viola, vivida por Amanda Bynes, é uma adolescente boa de bola, que sabendo da dissolução do time feminino de sua escola, aproveita uma viagem do irmão gêmeo Sebastian ao exterior, para, disfarçada de rapaz, assumir sua identidade e se inscrever no time de futebol masculino da outra escola do irmão. Só que nessa de se disfarçar de menino, acaba se apaixonando por Duke, um colega de time que, por sua vez, é fissurado por Olivia, a bonitona da escola. Mas como jogar no time, se passar pelo irmão, enganar a cunhada, driblar a garota que fica gamada por ela convencida de que é um homem, e ainda dar uns pegas no gatinho colega de futebol? Ah, tudo isso gera muitas confusões, muitas risadas e muito romance. Ótima adaptação shakesperiana!



7. "Scott Pilgrim Contra o Mundo", de Edgar Wright (2010) - Rock'n roll, quadrinhos, games, amores não correspondidos. "Scott Pilgrim Contra o Mundo" é uma comédia romântica bem pouco convencional e absolutamente eletrizante. Scott, um carinha comum, meio sonso, desajeitado, integrante de uma banda de rock que ensaia para um festivallocal, acaba de chutar sua namorada para ficar com a soturna e misteriosa Ramona. No entanto ela o adverte que para ficar com ela terá que enfrentar seus sete ex-namorados malignos. Ok! Apaixonando, ele topa mas não imagina o tamanho dos desafios que o aguardam em cada um dos enfrentamentos. Um astro de cinema fodão, um poderoso empresário musical, um vegano poderoso pela pureza de seu corpo, uma estrela pop lésbica, gêmeos roqueiros, tudo em duelos ao estilo videogame passando fases, ganhando bônus, vidas e eliminando o oponente. 

Desafio de skate, batalha de bandas, luta com espada ninja, estética de quadrinhos, pontuação de games na tela, voos, explosões, solos de guitarra... "Scott Pilgrim Contra o Mundo" é possivelmente a mais improvável comédia romântica que você terá assistido na vida. 



8. "Se Meu Apartamento Falasse", de Billy Wilder (1966) - Mestre das comédias, Billy Wilder conseguia dar leveza a histórias muitas vezes carregadas de elementos delicados. "Se Meu Apartamento Falasse", vencedor de 5 Oscar, incluindo os de filme e direção, traz temas como ética, adultério, depressão, suicídio, e mesmo assim nos entrega um produto final gostoso, repleto de romance, ternura e risadas. O apartamento do título em questão é o de C.C. Baxter (Jack Lemmon), funcionário de uma seguradora que empresta seu cantinho para vários superiores, incluindo o dono da empresa, para estes terem encontros amorosos com mulheres, em geral funcionárias da própria empresa. Mas Baxter descobre que uma das amantes do patrão é nada mais nada menos que Fran (Shirley MacLaine) a ascensorista do prédio onde ele trabalha e pela qual ele é apaixonado. Num dos encontros com o chefe, frustrada pela falta de perspectiva do caso amoroso com um homem casado, Fran tenta o suicídio dentro do apartamento, o que a aproxima do colega apaixonado que a socorre em tempo. Fran vai acabar percebendo que Baxter, na verdade, é verdadeiramente um homem por quem vale a pena tentar alguma coisa na vida, um recomeço. Mas até chegar a esse ponto ainda terá que ver, sentir, entender, aprender algumas coisas e... levar um certo susto.

Talvez a comédia romântica das comédias românticas!

Genial!


💖💖💖💖💖💖💖💖💖

Seja lá como tenha acontecido e se desenrolado sua história de amor, Feliz Dia dos Namorados!



por Cly Reis






sexta-feira, 27 de março de 2026

"Cassino Royale", de John Huston, Ken Hughes, Val Guest, Robert Parrish e Joseph McGrath (1967) vs. "Cassino Royale", de Martin Campbell (2006)

 



Num ano em que O Agente Secreto brasileiro tem brilhado mundo afora, tendo estado pertinho de ganhar um Oscar, nosso Clássico é Clássico (e vice-versa) abre o ano cinefutebolístico com um confronto que traz ninguém menos que o maior agente secreto do cinema. Sim, senhoras e senhores, Bond, James Bond, o 007, em duas versões que usarão de todas as suas armas e recursos para derrotar o oponente e mostrar quem é o verdadeiro clássico do cinema.

Pouca gente sabe mas, antes de ser o ponto de retomada da franquia 007, apresentado Daniel Craig, "Cassino Royale" já tivera uma versão ousada e estrelada nos anos '60. Esse original, embora já contemporâneo da conhecida franquia de ação e aventura com os galãs invencíveis e sedutores vividos por Sean Connery e Roger Moore, entre outros, não fazia parte oficialmente daquela série e, por sua vez, ao mesmo tempo que prestava uma homenagem ao personagem, também o satirizava. O conhecido poder de sedução e a fraqueza por mulheres do agente britânico são elementos importantes na confusa e estapafúrdia trama da primeira versão que é composta por cinco segmentos amarrados entre si pela eliminação de outros agentes zero-zero por uma organização chamada SMERSH. James Bond, então, aposentado, é convencido a voltar à ativa para investigar e deter o grupo criminoso que usa exatamente de armas de sedução para sequestrar os agentes e pensa em atingir o mulherengo Bond desta mesma forma. Mas a coisa fica completamente sem pé nem cabeça! Bond tem a ideia de infiltrar falsos 007 entre suspeitos da tal organização. O mais relevante na trama e o melhor deles é Peter Sellers que, especialista em cartas, no jogo de bacará, que virá a enfrentar o especialista em baralho, Le Chiffre, desesperado para recuperar suas finanças num jogo decisivo para sanar suas dívidas e salvar a própria vida de seus credores.

"Cassino Royale" (1967) - trailer


"Cassino Royale" (2006) - trailer


Nesse ponto as histórias se cruzam, no novo "Cassino Royale", a MI6 tem a informação que um financiador terrorista, Le Chiffre, endividado por um negócio frustrado pretende recuperar seus fundos numa mesa de jogo num torneio particular em Montenegro num local chamado Cassino Royale.

Bond então se prontifica a ser incluído na mesa, como um milionário apostador qualquer, a fim de evitar que Le Chiffre vença e levante o dinheiro. Aí entra outro ponto de convergência entre as duas versões: Vesper Lind. Na última versão ela é a representante do Tesouro Nacional que vai financiar, sob risco, a aposta de Bond na mesa de pôquer, já na primeira, é uma milionária que conduz o falso Bond, Evelyn Tremble ao cassino para enfrentar Le Chiffre.

Os dois Bond vencem os Le Chiffre de cada uma das histórias, ambos são torturados, cada uma à sua maneira, para entregar o dinheiro ao vilão, e em ambas as situações Le Chiffre é morto por seus credores. Enquanto o antigo conduz tudo isso com um humor estranho e psicodélico, o novo o faz com dramaticidade e uma intensidade até então poucas vezes vistas num filme da franquia. A tortura do então estreante Daniel Craig no papel de 007 é das mais brutais e dolorosas que se possa imaginar para um homem, mas que, curiosamente, tem lá também, em meio à dor, seu toque de humor.

Enquanto a refilmagem segue a trilha dos financiadores terroristas, do  dinheiro perdido na primeira operação frustrada, perseguido por Le Chiffre, barrado por Bond, perdido por ele mesmo depois, até que vá atrás de quem o traiu e permitiu que fosse parar nas mãos dos bandidos, o original é uma salada de situações cuja conexão entre si é tão frágil que chega a ser quase inexistente. Tem a filha de Bond com a espiã Mata Hari, Mata Bond, que é sequestrada por um disco voador gigante, tem o sobrinho Jimmy Bond (Woody Allen) que se revela o grande vilão por trás de toda a trama, o Dr. Noah, cujo grande objetivo é tornar-se alto e mais atraente para as mulheres, tem uma grotesca invasão de soldados, coubóis e índios ao cassino para enfrentar os criminosos, tem uma explosão atômica de soluços, enfim... uma miscelânea caótica!

O filme de 1967 tinha um timaço! Além de um dos episódios ter sido dirigido e estrelado por John Huston, a seleção contava ainda com David Nível, Deborah KerrPeter SellersWoody AllenOrson Welles, Ursula Andress e Jean-Paul Belmondo. Infelizmente, de um modo geral, muito mal aproveitados num filme sem pé nem cabeça. Peter Sellers, como Tremble, Ursula Andress, como Vesper, e Welles, como Le Chiffre, ainda conseguem se salvar, mas de resto, é só talento e qualidade desperdiçados. Parece aquele time cheio de craques mas com jogadores escalados fora de posição ou em funções que não rendem o seu melhor.

Já o time de 2006 é aquele elenco equilibrado com os jogadores no lugar certo. Tem a craque Judy Dench, no papel da chefona M, o ótimo jogador Mads Michelsen fazendo um bom Le Chiffre, a competente Eva Green como Vesper Lind, e o limitado Daniel Craig no papel principal dando conta do que é esperado dele. É tipo aquele centroavante que até é ruim tecnicamente, mas que, se cair na frente dele, ele mata. É artilheiro!

"Cassino Royale" (1967) - créditos de abertura



"Cassino Royale" (2006) -
Sequência da perseguição em Veneza

Cassino Royale '67 leva poucas vantagens. A abertura com uma animação colorida e psicodélica é mais interessante que aquela tradicional de silhuetas e balas voando em câmera lenta da franquia oficial. O original faz 1x0 no início pela abertura, mas não sustenta. O jogo de Cassino Royale '06 é bem melhor e mais desenvolvido. Não é nada brilhante, nada espetacular, mas tem andamento, tem sua lógica, tem coerência, e por isso não demora a empatar: 1x1

Embora interpretado por grandes nomes do cinema na primeira versão, como David Niven e Peter Sellers, o estreante Daniel Craig é melhor na função do que os craques do outro time e vira o jogo para o remake. 1x2.

A propósito, Orson Welles é um gênio do cinema, uma dos maiores de todos os tempos, não faz mal o que o ténico lhe pede, mas o Le Chiffre de Mads Michelsen é muito melhor. Aquela cara cínica, aquela expressão implacável e o interessante detalhe do olho lacrimando sangue conferem a ele um lugar únioco e de destaque entre os vilões de James Bond. 1x3 para CR'06

Agora unido os dois, o jogo de cartas no cassino, bacará na primeira versão e pôquer na segunda, além do fato de ser ridículo e risível no confronto entre Peter Sellers e Orson Welles, é muito mais tenso e relevante no confronto de Craig com Mads Michelsen, com direito a reviravolta, envenenamento e ressurreição. 1x4. Já virou goleada!

O time de '67 esboça uma reação com a interessante sequência da missão de Mata Bond, a filha de James Bond, em Berlim, num episódio que, apesar dos absurdos como a viagem de táxi de Londres até a capital alemã, contém mais ação, mais espionagem e uma estética muito legal que mistura psicodelia com expressionismo alemão, com cenários coloridos, geométricos e distorcidos. 2x4. Gol de Mata Bond.

Mas se vamos falar de sequências, a cena em Veneza põe por água abaixo qualquer ambição do filme antigo. A descoberta de Bond, a perseguição, os incríveis desmoronamentos da cidade, o final dramático com a amada Vesper Lind, tudo, toda a jogada, todo o envolvimento garante mais um gol para Casino 2006. 2x5.

Cassino '67, repleto de craques, até faz mais um na tabelinha de Burt Bacharach com Dusty Springfield. O maestro cria toda a jogada para a loura, com sua belíssima voz, completar com classe para o fundo das redes com "The Look of Love", canção indicada na época ao Oscar que não faz feio diante de nenhuma outra da franquia consagrada. Mas não é o suficiente para mudar a história do jogo. 3x5 e até que saiu barato.

Cassino Royale de 1967 apostou todas suas fichas num elenco estelar mas não contava com um jogo mais equilibrado do adversário que soube distribuir bem suas apostas entre a trama, a ação, o suspense e a dramaticidade. Cassino Royale 2006 limpou a mesa!

O jogo entre James Bond e Le Chiffre nas duas versões.
À esquerda, Peter Sellers contra Orson Welles;
à direita, Daniel Craig contra Mads Michelsen.




Gooooool do CR'06?
Sabe de quem?
Você sabe o nome dele!
Bond, James Bond. É dele a camisa 007.


Cly Reis

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Cinema e Esporte - As Modalidades Esportivas na Telona - II


Embora algumas modalidades já tenham iniciado suas competições, os Jogos Olímpicos de Tóquio estão abertos, oficialmente mesmo, a partir de hoje e, desta forma, também está aberta a temporada de publicações referentes a esporte e ao país sede, o Japão, aqui no ClyBlog.
Pra começar, assim como fizemos na última Olímpíada, preparamos uma listinha destacando alguns filmes relacionados com esportes olímpicos. Alguns filmes são especificamente sobre determinada modalidade, em outros há uma cena ou um momento marcante, em outros o esporte é um elemento contextual, em outros é decisivo para a trama... Tem para todos os gostos! O importante é que os esportes estão ali. É lógico que um evento desse porte tem tantas modalidades esportivas que não dá para destacar todas e, sinceramente, eu duvido que tenhamos filmes de algumas delas, mas aqui no Claquete destacamos dez e achamos que  ficou uma lista bem diversificada quanto a gêneros cinematográficos, estilos, abordagens, nacionalidades e com esportes bem interessantes que renderam bons filmes. Então, chega de papo-furado, e vamos à lista:

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"O Campeão", de Franco Zefirelli, (1979)
  - Quando se fala em filmes com esporte, é impossível não pensar nos filmes de boxe, e quando o boxe é assunto na telona, alguns filmes imediatamente vêm à mente como a saga "Rocky" e o cultuado 
"Touro Indomável". Mas outro que é referência quando se fala na Nobre Arte é o dramático "O Campeão". Dirigido por Franco Zefirelli, o filme trata da história de um boxeador aposentado, com problemas com álcool e um filho pequeno para criar, depois que a mãe os abandonara. Com problemas de dinheiro, tentando garantir a guarda do filho diante da mãe (Faye Dannaway), que retornara cheia de grana e arrependimento, e ainda querendo justificar a idolatria do filho, que o vê como um herói, Billy Flynn, vivido por John Voight, resolve voltar aos ringues. Mas já sem as melhores condições físicas e contrariando recomendações  médicas, uma nova luta, àquelas alturas, pode não ser uma boa ideia... Embora muita gente já tenha visto, não vou dar spoiler e contar o final,  mas, só para dar uma ideia, o filme é considerado um dos mais tristes de todos os tempos. Já da pra imaginar, né?

*****

"Caçadores de Emoção", de Kathryn Bigelow (1991) - O surfe, que estreia em Olimpíadas este ano, em Tóquio, aparece em "Caçadores de Emoção", uma aventura policial em que um agente se infiltra em um grupo de surfistas que, ao que parece, vem realizando roubos a bancos fantasiados com máscaras de presidentes americanos. Johnny Utah (Keanu Reeves), se aproxima, aprende a surfar e, para ganhar a confiança do líder do grupo, Bhodi, interpretado por Patrick Swayze, até pega umas ondas com os carinhas. Dirigido por Kathryn Bigelow, que anos depois seria a primeira mulher a ganhar o Oscar de melhor direção por "Guerra ao Terror", e com Patrick Swayze no auge de sua popularidade e em sua melhor forma física, para delírio do público feminino, "Caçadores de Emoção", se não é um grande filme, ao menos mantém o espectador grudado na trama e na aventura. O surfe está presente em muitos momentos do filme em boas cenas cheias de adrenalina, mas a cena final, numa espécie de "hora da verdade", é a mais marcante e uma das mais icônicas dos filmes de ação dos anos 90.

"Caçadores de Emoção - cena final"


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A galerinha de "Kids", com o skate presente,
dando um daqueles rolezinhos.
"Kids", de Larry Clark (1995)
- Não é um filme sobre skate e, na verdade, o esporte também debutante em Jogos Olímpicos, este ano, nem tem tanto destaque assim. O fato é que a turminha que protagoniza os eventos e envolvimentos do longa é um grupo de jovens skatistas, uma galerinha da pesada que não tá nem aí  pra nada e só quer saber de trepar, ficar doidão e barbarizar por aí. Filme pesado, duro, com algumas situações angustiantes, revoltantes e até degradantes. Produzido no auge da situação da AIDS, o filme que era para ser uma espécie de alerta para a irresponsabilidade, especialmente entre os jovens, em suas relações, parece não ter conseguido sequer controlar o próprio set de filmagem que, pelo que se sabe foi um caos com sexo e drogas para todo lado. Consta que alguns atores, muitos deles amadores, ficaram traumatizados com a experiência e outros sequer conseguiram voltar a atuar. Daquele time, no entanto sobreviveram à  experiência e vingaram na carreira as boas Rosario Dawson e Chloë Sevigny.

*****

"Troca de Talentos", de John Witesell (2012)
 - Mesma pegada do consagrado "Space Jam" mas sem os desenhos e sem a mesma qualidade. Brian, um garoto impopular, fracote, zoado, fãzaço de basquete mas sem nenhum talento para a prática do jogo, vai assistir a um jogo de seu time, o Oklahoma City Thunders, onde jogava Kevin Durant na época, e, por uma rara sorte em sua azarada vida, naqueles entretenimentos do intervalo de jogo, ganha de Durant uma bola de basquete, mas por uma circunstância toda especial e mágica, acabam trocando de talentos no momento da entrega da bola para o garoto. Aí o que acontece é que o garoto, que era um pereba na escola, passa a arrasar, entra pro time principal, vence todos os jogos contra outras escolas e, de quebra, conquista a gatinha que tanto cobiçava. Na outra ponta da história, o craque da NBA, passa a jogar nada, decepciona na liga, é responsável por derrotas, vai para a reserva e até  mesmo pensa em encerrar a carreira. Seu empresário, desesperado, passa a procurar as razões para aquela queda tamanha e repentina de qualidade e, juntando os pontos, elementos, fatos, chega até  o garoto e a noite da entrega da bola. Aí, só resta descobrir como fazer para devolver os respectivos talentos a cada um.
Filme fraquinho, previsível, cheio de clichês mas, no fim das contas, se o espectador for pela mera diversão, sem muita exigência, até pode achar uma comediazinha bem divertida.

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"O Casamento de Muriel", de P.J. Hogan (1994)
- Muriel é uma gordinha simpática, doce, sonhadora, fã de ABBA, mas, infelizmente, não muito popular e sem nenhum amigo. Ela tem o sonho de mudar de vida, sair da pequena Porpoise Split, conhecer gente, afastar-se de sua sufocante família, em especial de seu desprezível pai, e, acima de tudo, se casar. Mas casar da forma mais bela e tradicional: com cerimônia, bolo, vestido branco e tudo.
Mas que diabo esse filme tem a ver com esportes e com Olimpíadas? Tem que, depois de sair de Porpoise Split, encontrar uma boa amiga, finalmente se sentir viva por um momento na vida, mudar o nome para Mariel, voltar à cidadezinha, ser descoberta no golpe que aplicou na própria mãe, fugir de casa, ir morar com a amiga, nossa protagonista, decidida em casar, decide procurar, em anúncios especializados de jornais, um homem à procura de uma jovem para matrimônio. Ela conhece David Van Arkle, um nadador sul-africano que busca de uma esposa local a fim de obter cidadania australiana e e poder participar dos jogos olímpicos. Assim, Muriel consegue realizar seu sonho, embora, salvo raros momentos, o casamento não tenha sido exatamente o paraíso que ela poderia imaginar. Boa comédia com elementos dramáticos, com destaque para Tony Colette, no papal que, de certa forma, impulsionou sua carreira.

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"O Homem Que Mudou o Jogo", de Bebnet Miller (2012)
- Se o futebol americano já ganhou uma certa força e popularidade no Brasil, o beisebol, que tem uma quantidade considerável de produções cinematográficas por parte da indústria norte-americana, ainda nem tanto. Desta forma, salvo algum argumento mais emotivo ou atraente, os filmes sobre o tema acabam não caindo totalmente nas graças do público brasileiro. E entre tantas histórias de ex-jogadores com algum tipo de crise, dramas de superação, times infantis de bairro, paizões treinadores, animações, um dos que merece destaque dentro desse universo, muitas vezes tão pobre de qualidade, é o bom "O Homem Que Mudou o Jogo", de Bennet Miller, história real de um cara que, com muita observação, perspicácia, coragem, em 2002, impulsionou um time nada mais que mediano, o Oklahoma Atlhetics, e o tornou um dos destaques da MLB, tendo seu modelo de gestão, imitado depois, até mesmo, por times maiores e tradicionais.
É um filme de beisebol mas outras questões como os métodos do manager Billy Beane, sua determinação, os objetivos, as dificuldades, se salientam tanto que a estranheza do esporte yankee, de nossa parte, acaba sendo superada pelo bom roteiro e pela ótima atuação de 
Brad Pitt no papel do protagonista. Filme de beisebol que vale a pena, apesar do beisebol.

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"Uma Razão Para Vencer", de Sean McNamara (2018)
- Filmes com voleibol são bem raros e até por isso, mesmo não sendo grande coisa, vale a pena mencionar na nossa lista de filmes com esporte, o longa norte-americano "Uma Razão Para Viver". Baseado em fatos reais, o longa trata sobre um time de vôlei cuja capitã e melhor jogadora, Caroline, uma jovem alegre, positiva e vibrante, morre num acidente trágico de motocicleta, e sua melhor amiga, completamente desestruturada a partir do acidente, passa a tentar recuperar o estímulo e o prazer pelas coisas. Para isso, contará com a liderança e persistência da treinadora do time que vai fazer com que a decisão de voltarem a jogar e disputarem o torneio, se torne uma espécie  de missão  e tributo à  jovem que não está mais entre elas.
"Uma Razão Para Vencer" é um típico drama de superação, de motivação, meio irregular no ritmo, meio cansativo em alguns momentos, mas que não é um lixo e conta com um bom elenco, com nomes como a boa Erin Moriarty e os oscarizados 
William Hurt, como pai da garota falecida, e Helen Hunt, no papel da determinada treinadora.

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A tensa cena da corrida em que 
Ali tem que dar tudo de si (mas nem tanto assim).
"Filhos do Paraíso", de Majid Majidi (1999)
-  Não é um filme de atletismo mas a cena da corrida é uma das mais emocionantes do filme e... se encaminha para ser decisiva para a resolução do problema. E qual é  o problema? A questão toda é que um garoto, Ali, de uma família humilde de Teerã, perde o único sapato da irmã menor ao levá-lo para consertar, no sapateiro. Constrangido e culpado, e sem outra opção, dadas as condições da família e o temor de contar para os pais, ele empresta os seus próprios tênis, rasgados e velhos, para a irmã ir a escola pela manhã, aguardando que ela volte para que ele possa ir à sua aula, à tarde. Mas a combinação tem seus problemas, seus imprevistos, seus atrasos, suas correrias e a situação passa a ficar insustentável. Quando tudo só parece ficar cada vez pior, uma corrida promovida pela escola parece ser a grande oportunidade de resolver o problema, pois o prêmio para o terceiro colocado é,  nada mais nada menos que um tênis. Mesmo com uma certa indisposição dos professores em relação por conta dos muitos atrasos ocasionados pelo revezamento do tênis, Ali dá um jeito de ser inscrito na prova e terá que, ao mesmo tempo ser competente e rápido o suficiente para estar no grupo da frente, entre os primeiros, mas cuidadoso o bastante para não chegar em primeiro nem em segundo.
Como eu já disse, a cena toda é algo absolutamente tensa e agoniante, ainda mais quando, um dos concorrentes trapaceia e derruba Ali, que tem que se recuperar na prova e dá uma arrancada decisiva para que fará com que consiga (ou não) o tão almejado prêmio.
Mais um dos ótimos filmes da safra iraniana dos anos 90, com toda aquela competência que os cineastas de lá têm, de nos apresentar, dentro de uma trama aparentemente simples, todo um aspecto humano sempre relevante e significativo, além de uma contextualização de realidade social e cultural com sensibilidade e beleza.

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O tiro certeiro de Merida que lhe garantiu
a solteirice (e a indignação da mãe).
"Valente", de Branda Chapman (2012)
- Merida passa longe de ser a princesa ideal. É  largadona, dasaforada, rebelde e, por isso tudo, em constante conflito com a mãe, a rainha autoritária e intransigente Elinor. Ela quer que a filha siga os padrões de comportamento de acordo com sua posição e mantenha as tradições do reino, tornando-se sua sucessora, casando-se com o pretendente de outro clã que vencer um torneio de arco e flecha que ela pretende promover. Merida não quer que seu destino seja decidido numa competição, num jogo, mas, já que é  assim, ela dá um jeito, reinterpreta as regras e se habilita a competir contra os próprios pretendentes. Autoconfiante e certeira, ela, praticante desde pequena do esporte, não dá a menor chance para os competidores, acabando com essa história de casamento e causando revolta nos líderes dos outros clãs mas, especialmente na mãe, que fica uma fera. Elas discutem, brigam e Merida foge para a floresta onde é guiada por chamas mágicas à cabana de uma bruxa, a quem pede para que a mãe deixe de ser como é. A bruxa atende mas... a ideia não era bem a que Merida tinha em mente. A mãe que estava uma fera com ela, se transforma, literalmente numa fera, mesmo. A rainha é metamorfoseada num enorme urso negro e, agora, Merida tem que lidar com a criatura transfigurada da mãe e impedir um conflito que se aproxima entre seu povo e o reino vizinho, por conta do descumprimento da promessa do casamento que representaria a paz entre eles.
Muita aventura, confusão, boas risadas e algumas boas quebras de paradigmas como só a Pixar sabe fazer quando negócio é animação. "Valente" é a 
Pixar apostando num filme de princesa pouco convencional, numa fábula diferente, numa heroína incomum e acertando no alvo. 

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"Match Point", de Woody Allen (2006)
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Woody Allen teve uma sequência de trabalhos geniais, quase ininterruptamente, ali, do início dos anos '70 até a metade dos '80. Praticamente só obras-primas! Ali, a partir dos anos '90, a qualidade já passou a oscilar um pouco e, se às vezes éramos brindados com mais um filmaço que poderia se juntar, tranquilamente, à galeria dos seus melhores, outras tantas tínhamos algo bem enfadonho e dispensável. Mas nessa época de altos e baixos, um dos que, certamente, pode ir para a categoria dos grandes é "Match Point - Ponto Final", um suspense policial que, literalmente, deixa o espectador com o coração na mão até o último momento, até o último ponto.
Chris Wilton é um ambicioso ex-jogador de tênis que se torna instrutor em um requintado clube inglês e que ganha a confiança de Tom Hewitt, um ricaço filho de um grande empresário, passando a ser seu treinador somente para se aproximar de sua irmã e, quem sabe entrar para a família. O golpe está  dando certo até  que ele conhece a noiva de Tom, a belíssima Nola, o que é o começo de sua ruína. Chris casa com a filha do milionário, garante um lugar como executivo em sua empresa, dá o golpe do baú, mas o envolvimento paralelo com Nola , uma inesperada gravidez (será???) e a ameaça da revelação do affair, que colocaria todo seu esforço a perder, faz com que tome atitudes drásticas e resolva se livrar da amante.
Fora alguns contratempos, alguns imprevistos de um assassino de primeira viagem, superados com uma certa dose de sorte, seu plano corre bem, seus álibis são convincentes e não há nada que a polícia possa suspeitar. Um crime perfeito! Bom, quase... Pois uma certa intuição de que alguma coisa não fecha, não bate, faz com que um dos investigadores refaça os passos e chegue se aproxime do assassino.
Exatamente para eliminar qualquer suspeita, Chris pretende se livrar dos pertences que levara do apartamento vizinho, de modo a fazer tudo parecer mero um roubo que terminara em assassinato. Ele joga as coisas da senhoria de Nola no rio, mas ao jogar o último item que percebera em seu bolso, o anel da idosa, o objeto, 
na cena mais marcante do filme e uma das grandes da filmografia do diretor, caprichosamente, bate no parapeito, sobe e.... Allen desacelera a cena num slow-motion angustiante, com o anel no ar, e remete à própria cena inicial do filme, quando uma bola de tênis bate na rede e, num quadro parado, fica no ar, podendo decidir o jogo. Para um lado, cai na água, e a prova do crime é eliminada; para o outro, cai no chão e o policial, que se está em seu encalço, poderá ter a prova que falta de que Chris estivera no prédio no dia dos crimes.
Não vou dar spoiler aqui. Aliás já falei demais, mas posso garantir que a cena faz a gente torcer como se fosse uma partida de tênis de verdade. Filme que começa leve, parece uma comédia, parece um romance, vira um drama, passa a ser um um policial, até tornar-se um suspense eletrizante, "Match Point" é Woody Allen na melhor forma, voltando ao gênero do thriller policial, ao melhor estilo de "O Misterioso Assassinato em Manhattan", um dos  seus bons dos anos 90, só que aqui sem a comédia e com muito mais tensão.
"Match Point", em sua brilhante construção e desenvolvimento, além de todas suas qualidades e virtudes cinematográficas, tem o mérito de fazer  refletir sobre a impotência humana diante do todo, de que não temos domínio sobre tudo. Que, no fim das contas, muitas das vezes, na vida, por mais que façamos tudo "certo" ou tudo errado, as coisas se resumem, na verdade, em para qual lado a bola vai cair.

"Match Point" - cena inicial 





por Cly Reis