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segunda-feira, 20 de abril de 2026

Elvis Presley - "Elvis Presley" ou "Rock 'N' Roll" (1956)



“As pessoas de cor vêm cantando e tocando desse jeito por tanto tempo que nem mesmo sei. Eles tocam assim nos cortiços e ouvem essa música na jukebox. Ninguém deu a mínima até que comecei a cantar esse estilo. 
Aprendi com eles”.
Elvis Presley

"Houve muitos caras durões. Já houve impostores. E houve concorrentes. Mas só há um Rei". 
Bruce Springsteen

Foi em 26 de março de 1956. Esta é a data simbólica do nascimento de algo que revolucionaria a sociedade da idade contemporânea: o surgimento do rock 'n roll. Neste dia, após três anos de carreia musical, Elvis Aaron Presley, então com apenas 21 anos, lançava seu clássico e homônimo primeiro disco, não à toa também intitulado com aquilo que ousa inventar: “Rock ‘N’ Roll”. Muito já se falou sobre este álbum, e muito teria ainda a se falar hoje, 70 anos após sua chegada às lojas, aos ouvidos e aos corações de gerações de fãs. Mas como pede a cartilha de um bom rock, o legal mesmo é falar pouco e curtir, mas curtir muito!

Do primeiro crepitar da agulha no vinil ao último, são só músicas icônicas da cultura mundial, como poucos produtos culturais conseguem oferecer. É impaciente até hoje, e seguirá sendo, aquele início com "Blues Suede Shoes": "Well, it's one for the money" (dois acordes do violão e da bateria), "Two for the show" (mais dois acordes), "Three to get ready”, (bateria antecipando) “Now go, cat, go/ But don't you step on my blue suede shoes”. A partir daí, é a cargo de Elvis ao violão e do incendiário trio: Scotty Moore, guitarra; Bill Black, baixo; e D.J. Fontana, bateria; além de Gordon Stoke, ao piano; e os The Jordanaires, nos vocais de apoio. São os primeiros acordes do começo de um novo mundo. É a liberdade soando pelos ouvidos! 

A atitude, a assimetria, a rebeldia, a imperfeição, a perfeição, a luxúria, a carne, a carne. A música nunca mais foi a mesma depois daqueles 2 minutos chegarem ao fim. Os jornais da época chamariam de “primitivo”, “delinquente”, “vulgar”, “animalesco”, e “que suas performances deveriam ser restritas ao cais do porto e a bordéis, não à televisão nacional”. É tudo isso, sim, meus senhores. Era algo realmente delinquente, primitivo, assustador. E irrefreável. E divino.

Num disco cuja primeira faixa simboliza uma das maiores transformações comportamentais, mercadológicas e artísticas do século 20, ainda havia mais. Já existia "Hound Dog", single daquele mesmo ano com que Elvis pusera o mundo de cabeça para baixo. Bruce Springsteen, fã ardoroso do King, disse por toda uma geração do impacto que a icônica faixa teve para ele na primeira vez que a ouviu: "Ela simplesmente atravessou meu cérebro". Mas o álbum ia além disso, pois materializava em uma obra completa essa revolução. Elvis canta a “Tutti-Frutti” do negro gay e desafiador Little Richards empostando a voz blueser e dando uma outra roupagem a esse marco do rock. Afinal, Elvis mostrava, ainda muito embrionariamente, que rock, esse insubordinado filho direto do blues, se desmembraria em centenas e centenas de outros subgêneros. “Rock and roll can never die”, diria Neil Young em sua canção.

E tem também o country rock "Just Because", uma versão folk para o Standart “Blue Moon” e as baladas indefectíveis "I'll Never Let You Go (Lil' Darlin')" e "I Love You Because", gravações que Elvis registrara em seu período de Sun Records, entre 1953 e 1954, e cujos takes tornaram-se lendários como precursores do rock. E Elvis também canta o gênio Ray Charles ("I Got A Woman"), dos primeiros a fazer generosa ponte entre a música do Oeste com o R&B do Sul; "One-Sided Love Affair", que contém todos os predicados de um rock embalado; e "Trying to Get to You", exemplar country rock, com um show de vocal de Elvis.

E o que dizer de “Money Honey”, outro ícone da cultura contemporânea, muito bem escolhida pelo produtor da RCA, Steve Sholes, para encerrar o disco? Estão ali os maneirismos, a potência vocal, a reverência à tão massacrada cultura afro-americana daquela época. Elvis, alheio a qualquer preconceito de raça, disse: “Lá em Tupelo, Mississippi, eu ouvia o velho Arthur Crudup mandando bala e pensei que se eu conseguisse passar esse mesmo sentimento, minha música não teria igual”. No alvo, mr. Presley. 

A própria capa, centenas de vezes imitada e referenciada com suas letras em rosa na vertical no canto à esquerda e em verde na horizontal, abaixo, é pura ousadia: visceral, potente e até erótica para a época. Mesmo sem ser enquadrada, é possível enxergar, só de ver a expressão de seu rosto, os quadris e as pernas remexendo freneticamente e enlouquecendo de tesão a plateia, tal como a febre Elvis provocaria por anos.

O jovem caipira do Mississipi, nascido numa sociedade racista e colonialista, conviveu e absorveu do povo negro as suas principais referências. Soube ele misturar a enraizada cultura folk, a sonoridade melancólica do country e a visceralidade da tradição negra - o blues, o gospel, o R&B e, claro, o nascente rock ‘n’ roll, que já havia sido criado por mãos negras de Sister Rosetta Tharpe. Elvis juntou os branquelos feiosos Carl Perkins, Bill Halley e Jerry Lee Lewis aos roqueiros negros Little Richards, Chuck Berry e Bo Diddle, mais uma pitada do modern country de Ramblin' Jack Elliott e Woody Guthrie à sua imagem jovial e estonteante e seu carisma e, pronto: estava feita a química para o maior ícone pop de todos os tempos.

Nunca mais se repetirá essa combinação.

Mick Jagger, John Lennon, Madonna, Lou Reed, Elton John, Springsteen, Renato Russo, Lana Del Rey, Paul McCartney, Freddie Mercury, Eddie Vedder, Joan Jett, Bob Dylan, todos, sem exceção, devem ao Rei do Rock.

Elvis Presley, o disco, é muito mais do que um disco. É o raiar de uma era. É a criação da cultura pop. É a invenção de uma nova linguagem. É o florescer de uma revolução comportamental. É o nascer para valer da indústria fonográfica. É a entrada da juventude no mercado consumidor. É a instituição da cultura jovem. É a concretização do fenômeno de massas. É a simbolização da "vitória" dos Estados Unidos na Segunda Guerra, mesmo com a polarização da Guerra Fria (afinal, do outro lado da Cortina de Ferro não havia nada parecido com ele). Elvis, o disco, que alça o artista ao estrelato, é o primeiro efeito multimídia, que vazaria para o cinema, a TV e milhares de produtos do “Américan way of life”. Primeiro disco de rock ‘n’ roll a liderar as paradas, primeiro a passar dez semanas no topo da Billboard Top Pop Albuns. O primeiro do gênero a vender mais de um milhão de cópias. 

Há quem acredite que Elvis, Rei do Rock, foi a encarnação de Jesus Cristo, Rei dos Reis. Embora sua também breve existência, assim como a do filho de Deus, e o forte impacto de sua passagem entre os mortais, mobilizando multidões por onde passsava, não há como comparar. Cheio de defeitos, Elvis foi se mostrando cada vez mais machista, mesquinho e mimado, Elvis foi a representação perfeita não da Redenção, mas, sim, do messiânico rock ‘n’ roll, aquela música que veio à Terra, há exatos 70 anos, para salvar a humanidade. Da caretice do mundo.

🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸

FAIXAS:
1. “Blue Suede Shoes” (Carl Perkins) - 1:58
2. “I'm Counting On You” (Don Robertson) - 2:21
3. “I Got A Woman (Ray Charles) - 2:22
4. “One-Sided Love Affair” (Bill Campbell) - 2:10
5. “I Love You Because” (Leon Payne) - 2:39
6. “Just Because” (Bob Shelton, Joe Shelton, Sid Robin) - 2:32
7. “Tutti Frutti” (Dorothy La Bostrie, Richard Penniman) - 1:57
8. “Tryin' To Get To You” (Singleton, McCoy) - 2:31
9. ”I'm Gonna Sit Right Down And Cry (Over You)” (Biggs, Thomas) - 2:01
10. “I'll Never Let You Go” (Jimmy Wakely) - 2:21
11. “Blue Moon” (Rodgers & Hart) - 2:39
12. “Money Honey” (Jesse Stone) – 2:33

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OUÇA:

🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸


Daniel Rodrigues

segunda-feira, 28 de abril de 2025

Tracy Chapman - "New Beggining" (1995)



"Eu nunca presto muita atenção ao gênero, pessoalmente. Não acho relevante ou interessante."

"Há uma parte de mim que está em tudo que escrevo."
Tracy Chapman

Tracy Chapman já provou que não precisa provar mais nada para ninguém. Uma das maiores vendedoras de discos do folk-rock norte-americano das últimas décadas, autora original, cantora de personalidade, ativista, dona de si. Seu primeiro e celebrado disco, de 1988, venceu de 3 Grammy Awards e discos de Ouro e Platina. Com 8 álbuns gravados, Tracy entrou mais de uma vez na Billboard e ganhou BRIT Awards, American Music Awards e mais prêmios Grammy. Cantou ao lado de Peter Gabriel, Youssou N'Dour, Eric Clapton, Luciano Pavarotti, Carlos Santana, Ziggy Marley, Bonnie Raitt. Atuou em prol da Anistia Internacional, do Farm Aid, do We the Planet, da libertação de Nelson Mandela, da memória de Matin Luther King. E mesmo assim a crítica a subestima.

Além de ser perseguida pelo julgamento reducionista (inclusive, musicalmente falando) de que se trate apenas de uma “emuladora” de Joan Armatrading – musicista são-cristovense-britânica de uma geração anterior a de Tracy e a quem guarda algumas semelhanças, mas, principalmente, diferenças – recai sobre ela uma exigência para que sua obra seja mais densa do que já é, o que resulta numa demonstração bastante machista e racista. A argumentação “especializada” é de que, por exemplo, letras de canções como “Talkin’ 'bout Revolution” (escrita aos 16 anos e que se tornou um de seus maiores clássicos), que fala sobre a necessidade de levantar-se contra as injustiças sociais, seja mais profunda em dizer COMO fazer essa revolução a qual prega. Ora: está se avaliando uma música pop de pouco mais de 4 min, e não uma tese de pós-doutorado em Sociologia Política!

Para piorar, houve, principalmente nos primeiros anos de carreira musical de Tracy, logo que esta surgiu ainda jovem, aos 23 anos, uma cruel expectativa em relação aos trabalhos seguintes ao seu disco de estreia – o sucessor “Crossroads”, de 1989, e o terceiro, Matters of the Heart, de 1992. Era uma exigência velada para que ela assumisse uma imagem de singer-songwriter “de protesto”, rotulando-a num nicho pré-determinado pela própria indústria. Descarada demagogia. Nunca se viu tal expectativa para pertencer a um estilo ou outro para com James Taylor ou Paul Simon, por exemplo, dois homens brancos judeus intocáveis e da mesma linha de musicalidade de Tracy, que circula entre o folk e o soft rock. Numa indústria que reflete a sociedade norte-americana, tais cobranças haveriam de caber, sim, a uma mulher jovem, preta e LGBT fora dos parâmetros de beleza da mídia. 

Acontece que Tracy, cuja discrição da vida pessoal sugere sua esperteza, entende muito bem as intenções maliciosas para consigo. Ela sabe que cada passo seu é vigiado e que ela vale muito mais do que a caixinha dentro da qual a queiram colocar. Por isso, “New Beggining”, seu quarto disco e que completa 30 anos de lançamento, traz esse título aparentemente sem um motivo maior, mas carregado de respostas não só aos pretensos manipuladores como, ainda mais, a si mesma. Para alguém como ela, independentemente do sucesso já alcançado, é sempre um “novo começo”. Maduro e cheio de personalidade, “New Beginning”, produto de uma Tracy agora com 31 anos, é o resultante do trabalho de três anos de composição e de mergulho interior da artista, levantando questões sobre sofrimento, racismo, causas sociais e ambientais. Crítica e público reconheceram: levou disco multi-platina e teve mais de 3 milhões de cópias vendidas. 4ª posição na Billboard 200, passou 95 semanas na parada, tendo ainda o single "Give Me One Reason" por cinco semanas em 3ª no Hot 100 da Billboard.

Quebrando a repetição da foto da própria artista na capa como nos três trabalhos anteriores (mais uma mostra da maturidade alcançada), o disco é excelente em tudo: arranjos, execução, produção, narrativa e, claro e principalmente, aquilo que Tracy faz com exímia habilidade, que são as composições. Ela abre o álbum mostrando os porquês. "Heaven's Here on Earth", uma balada melancólica e de profunda beleza, traz uma letra de alta carga poética e reflexiva. “Você pode olhar para as estrelas em busca de respostas/ Procurar por Deus e por vida em planetas distantes/ Ter sua fé na eternidade/ Enquanto cada um de nós tem em si o mapa do labirinto/ E o céu é aqui na terra/ Nós somos o espírito da consciência coletiva/ Nós criamos a dor e o sofrimento e a beleza no mundo”. Arranjo perfeito e ela cantando belamente. 

A faixa-título, igualmente, exala personalidade. De ritmo embalada em tempo 2x2, provocaria qualquer músico a transformá-la num reggae. Tracy, no entanto, não cede à tentação mais óbvia e concebe uma balada folk como é mestra em compor a exemplo de “Across the Lines”, “Freedom Now” e “Open Arms”, todas dos trabalhos anteriores. 

O misto de r&b e spiritual com folk e pop do estilo musical de Tracy não é simplesmente uma receita de bolo: trata-se de um processo internalizado e inato da artista. Tracy veio de uma família pobre da negra Cleveland, em Ohio, onde vivia com a mãe e a irmã. Passou necessidade e sofreu racismo, como todo preto norte-americano de classe baixa. Na adolescência, nos anos 70, com as políticas afirmativas advindas dos Movimentos pelos Direitos Civis, pode fazer faculdade de Antropologia. Vivia entre os livros da biblioteca pública e o rádio, que ouvia incessantemente e  única fonte de informação musical que tinha na infância e adolescência,. “Eu cresci em uma família da classe trabalhadora e estava muito ciente das lutas que minha mãe enfrentou enquanto criava a mim e minha irmã. Havia outras pessoas na minha família que trabalhavam em empregos braçais enquanto a economia industrial estava começando a fracassar e desaparecer. Quando criança, acho que não tinha noção da política disso, mas por osmose você está captando o estresse ou as preocupações que os adultos ao seu redor têm”, disse em recente (e rara) entrevista ao The New York Times.

Toda essa experiência de vida deu a Tracy um jeito muito próprio tanto de compor quanto de cantar - até por isso é tão rasteiro imputá-la como uma cópia malfeita de Joan Armatrading, que tem outra bagagem. E o modo de cantar transmite isso. É quase mais sentido do que escutado. Mal comparando, assim como Bob Dylan – um de seus ídolos – cuja maneira de cantar expressa todas as angústias da geração beat, a de Tracy é carregada de ancestralidade e vivência do negro nos Estados Unidos. “Cold Feet”, com ares de canção de trabalho de escravizados das plantações de algodão do Sul norte-americano, é exemplar nisso. Um cantar triste mas lúcido, consciente de seu valor e de sua dor. O mesmo em "Smoke and Ashes", com seus coros de worksongs, e a balada ”At This Point in My Life”, que muito bem retrata a vida de um irmão de cor vivido, mas com esperança na vida: “A essa altura da minha vida/ gostaria de viver como se só o amor importasse/ como se redenção viesse em um suspiro/ como se procurar viver fosse realmente tudo o que se precisa/ não importa quem o consiga”.

Igualmente balada, porém romântica, “The Promisse” é forjada num lindo dedilhado do violão de Tracy com leves acompanhamentos do baixo e do violino. Sem percussão alguma, pura leveza. E quantas lindas melodias! Todas, sem exceção. Como Tracy sabe engendrar letra é música e ainda fazer refrões tão marcantes e gostosos de se ouvir, a exemplo daquele que é um de seus grandes sucessos do início da carreira, “Baby Can’t I Hold”. A se ver por "Tell It Like It Is", cheia de groove e das melhores do repertório, e a já referida “Give me...”, hit do álbum e que a deu um terceiro Grammy. Um blues doce e irresistível com ares de B.B. King e Memphis Minnie.

Clipe de "Give Me One Reason", que tocou bastante na MTV à época do lançamento

Tracy empresta seu vocal intenso e sofrido para falar também sobre um tema hoje na crista da onda: as mudanças climáticas. A introspectiva canção "The Rape of the World" diz: “Mãe de todos nós/ Lugar do nosso nascimento/ Como podemos ficar à distância/ E assistir a violação do mundo/ Isso é o começo do final/ Esse é o mais chocante dos crimes/ O mais letal dos pecados/ A maior violação de todos os tempos”. À época, 3 anos depois da Eco92, não era todo artista que levantava a voz para tratar sobre a natureza.

Já “Remember the Tinman” volta àquela atmosfera da contadora de histórias de “Fast Car”, sucesso do seu primeiro e aclamado disco. Tudo para encerrar com outra das melhores: “I’m Ready”, um tocante r&b com toques gospel. Sim, Tracy Chapman diz que, em seu novo nascimento, estava pronta para o que desse e viesse. “Eu estarei pronta para deixar os rios me lavarem/ Se as águas puderem me arrastar/ Eu estou pronta”. Eles pensavam que ela sucumbiria ao sistema, né? Até tentaram, mas Tracy tem consigo séculos de conhecimento ancestral, de tradição oral, de musicalidade inerente, de dor de escravidão, de exclusão social, de genocídio preto.

Nossa, acabou... Ou melhor: ainda não acabou! De pouco menos de 2 min, a hidden track "Save a Place for Me” ainda vem para dar um recado cheio de generosidade para com os que a amam como também para quem quer que seja: “Salve um lugar para mim/ Salve um espaço para mim/ Em seu coração/ Se você esperar, eu virei para você”. Com uma fraca média de um disco a cada 5 anos, pode-se perceber que o negócio com Tracy é realmente esperar, que um dia ela reaparece para conquistar mesmo aqueles que não eram seus fãs e passam a reconhecer suas qualidades inequívocas e intransferíveis. Porém, quando ela vem, como “New Beggining” é uma prova, pode-se ter certeza de que é para ficar.
 
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FAIXAS:
1. "Heaven's Here on Earth" – 5:23
2. "New Beginning" – 5:33
3. "Smoke and Ashes" – 6:39
4. "Cold Feet" – 5:40
5. "At This Point in My Life" – 5:09
6. "The Promise" – 5:28
7. "The Rape of the World" – 7:07
8. "Tell It Like It Is" – 6:08
9. "Give Me One Reason" – 4:31
10. "Remember the Tinman" – 5:45
11. "I'm Ready" – 4:56
12. "Save a Place for Me" (hidden track) – 1:50
Todas as faixas de autoria de Tracy Chapman

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OUÇA O DISCO:
 


Daniel Rodrigues

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Quinteto Armorial - “Do Romance ao Galope Nordestino” (1974)

 

Doses Cavalares de Brasil


“Convencidos de que a criação é muito mais importante do que a execução, [os músicos do Quinteto Armorial] preferiram a tarefa mais dura, mais ingrata, mais difícil e mais séria: a procura de uma composição nordestina renovadora, de uma Música erudita brasileira de raízes populares, de um som brasileiro, criado para um conjunto de câmera, apto a tocar a Música europeia, é claro mas principalmente apto a expressar o que a Cultura brasileira tem de singular, de próprio e de não europeu.” 
Ariano Suassuna 

A história da arte no Brasil viu, em alguns momentos, a tentativa de se representar uma ideia de nação. Seja por motivos políticos, ideológicos ou simplesmente astuciosos, é fácil concluir que, para se chegar a uma identidade pretensamente simbólica de um povo, a produção artística é o melhor meio para se alcançar essa finalidade nacionalista. No século XIX, o Romantismo à brasileira buscava, num território recém emancipado da Coroa portuguesa, ressaltar as paisagens exóticas, a natureza, os povos primitivos e a miscigenação para suscitar o orgulho dos “novos” brasileiros. No Estado Novo, igual. Tanto o forte investimento na Rádio Nacional, impulsionadora de uma gama de célebres artistas, como no cinema, denotam o projeto de Estado de unificar em uma mensagem ufanista um espírito comum.

Afora a grande subjetividade de se materializar esse feito e da óbvia dificuldade de sintetizar em códigos simbólicos um país de dimensões continentais e em construção, é evidente que a estratégia não deu necessariamente certo em todas essas tentativas. A influência da Europa, seja como modelo, seja como contraposição, põe às claras a falta de elementos primitivos da cultura e da natureza de um país jovem historicamente como o Brasil – principalmente, em comparação à própria Europa, não à toa chamado de Velho Mundo. Residem nesse pensamento ocidentalizado as críticas a outro movimento que também tentou com suas ferramentas inventar uma arte puramente brasileira: o Movimento Armorial. Antes de “brasileira”, aliás, nordestina. Surgido em 1970 por iniciativa do escritor paraibano Ariano Suassuna quando atuou como Diretor do Departamento de Extensão Cultural da Universidade Federal de Pernambuco, essa vertente artístico-cultural, manifesta em literatura, música, dança, artes plásticas, arquitetura, cinema, etc., centrava-se na valorização das artes populares nordestinas e propunha como ideia central a criação de uma arte erudita a partir de elementos populares.

Há quem acuse o Movimento Armorial de ser, além de academicista, também elitista e cínico, pois, na prática, não se comunicava com o tal povo no qual tanto bebia, restringindo-se ao círculo de seus principais cabeças: Suassuna, o artista plástico Francisco Brennand, o gravurista Gilvan Samico e uma meia dúzia de afortunados homens das artes. O que é impossível criticar, no entanto, é a qualidade das obras produzidas, entre elas uma que completou 50 anos em 2024: o disco de estreia do Quinteto Armorial, “Do Romance ao Galope Nordestino”. Com uma obra que propõe um diálogo entre o cancioneiro folclórico medieval e as práticas criativas dos cantadores nordestinos e seus instrumentos musicais tradicionais, o Quinteto Armorial lançava, pelo selo Marcus Pereira, um trabalho revolucionário e inédito em forma e conceito, o qual mereceu Prêmio APCA como o Melhor Conjunto Instrumental de 1974.

Formado pelos então jovens músicos nordestinos Antônio José Madureira, Egildo Vieira do Nascimento, Antônio Nóbrega, Fernando Torres Barbosa e Edison Eulálio Cabral, o conjunto instrumental trazia um manancial de aparatos musicais condizente com sua proposta de síntese: rabeca, pífano, viola caipira, violão e zabumba perfilando-se com os eruditos violino, viola e flauta transversal. A junção do conceito armorial com a textura dos sons gerava uma sonoridade própria, a se ver por "Revoada", exemplo claro dessa junção de tempos históricos, culturas e apropriações. Sem percussão, traz o som metálico da viola caipira, que se harmoniza com as cordas – o violino clássico e a rabeca, retrazida da Idade Média para este novo contexto – e o sopro de pífaro e flauta. Uma forma bastante didática de começar o disco.

Como bem coloca Suassuna em seu texto de apresentação na contracapa do disco, há a influência ibérica por meio dos instrumentos de origem hindu ou árabe, tão marcantes no Nordeste. Se "Revoada" é ritmada e lírica em seus toques ásperos e arcaicos, “acerados como gumes de faca-de-ponta”, tanto mais é "Repente". Esta evoca o Nordeste somente em sons e sem precisar articular uma palavra ou verso a tradição poético-musical dos repentistas de improvisarem estrofes criando-os no exato momento da apresentação. Desde 2021, o repente é considerado patrimônio cultural do Brasil pelo Iphan. 

Típica obra do Movimento Armorial: "Pe. Cícero Romão (Tríptico)”,
óleo sobre aglomerado de Gilvan Samico, do mesmo ano do disco
“Padrinhos” musicais do movimento Armorial, o maestro carioca César Guerra-Peixe e o compositor e folclorista pernambucano Capiba são reverenciados. Guerra-Peixe com a faixa “Mourão”, de sua autoria, um baião embalado que o Brasil inteiro passou a conhecer melhor na trilha sonora do filme “O Auto da Compadecida”, de 2000 (e que acaba de ganhar uma continuação), que se inspira em seus acordes. Nome do cavalo típico do sertão, Mourão, além da evidente referência aos mouros pela cor da pele/pelagem crioula, dignifica, ainda, uma das alusões presentes no título do disco, o “galope”, estilo musical base das festividades juninas da região. 

Já Capiba tem semelhante destaque. O inventor de frevos clássicos da cultura de Pernambuco e protagonista do tradicional bloco carnavalesco Galo da Madrugada, também é lembrado por uma de suas principais peças: "Toada e Desafio", esta também da trilha de “O Auto...” – aliás, a música central do filme –, aqui lindamente executada pelo Quinteto Armorial. Mais um leque de conhecimentos empíricos trazidos à luz da música erudita: além do popular galope, agora merecem releituras a “toada”, cantiga de melodia simples e monótona entoada pelos vaqueiros nordestinos, e o “desafio”, duelo de versos improvisados surgido na Grécia antiga entre os pastores, reinventado na Idade Média e que veio parar no Brasil justo no Nordeste brasileiro, onde, como diz Luz Câmara Cascudo, “o combate assumiu asperidades homéricas”.

A força cultural nordestina dá ainda mais elementos a Madureira, que compõe a renascentista "Toada e Dobrado de Cavalhada", claramente dividida em duas partes: um lento introdutória e, na sequência, um allegro que acompanha o trote ligeiro da dança. Flautim e pífaro dialogando. Misto da música rural dos berberos marroquinos e os mouros dos séculos 12 e 13, ambos ligados pela religião. Vanguarda que surpreenderia até mesmo gente como a Penguin Cafe Orchestra, como a “desafinada” “Toré”, absolutamente moderna. 

E quando idealizam uma Idade Média brasileira para além dos livros de História, como em "Romance da Bela Infanta"? Tema amoroso ibérico do séc. XVI recriado nas cores monocórdicas dos instrumentos rústicos. Mas Madureira faz ainda melhor quando resgata o romance do próprio Nordeste! "Romance de Minervina", canção provavelmente datada do séc. XIX, que recria uma atmosfera provençal ao modo dos trópicos. É possível enxergar uma procissão pelos campos mediterrâneos e, ao mesmo tempo, a tristeza árida do sertão. Igualmente medievas são "Excelência”, tema nordestino de canto fúnebre, e “Bendita”, cântico de Zacarias à maneira dos Salmos que os romeiros entoam pelo itinerário do enterro.

Antônio Nóbrega, dono de reconhecida carreira solo e o de maior proeminência entre todos os músicos do grupo, já a época não ficava para trás. É dele "Ponteio Acutilado", moda forjada na tradição dos violeiros. É praticamente 1 min de solo de viola caipira para, a partir de então, todos os outros instrumentos entrarem e se harmonizarem como se sempre tivessem pertencido ao mesmo território geográfico. A outra dele é "Rasga", dissonante e introspectiva na primeira metade, mas que se encerra (e ao disco) com um “rasga ponteio” festivo.

Os ouvidos populares hoje são familiarizados com a sonoridade que o Quinteto Armorial ajudou a sintetizar. Basta notar a naturalização desses sons em produções populares inspiradas na obra de Suassuna e seus séquitos, como as incontáveis produções audiovisuais da TV Globo que emulam esse universo folclórico e onírico. Mal comparando, como fizeram os alemães da Kraftwerk ao “inventarem” os sons de computador que conhecemos hoje, criando uma espécie de “sonoplastia digital” que se tornou universal. Para com a sonoridade nordestina e, até por uma questão de proporção territorial bastante brasileira, no caso, o Quinteto Armorial cumpriu mais do que um papel esteticamente formal, mas, sim, musical e antropológico. 

O movimento ao qual o Quinteto Armorial muito bem representou não é um consenso entre as pessoas da cultura, mas é inegável a validade de sua proposta, reconhecida hoje nacionalmente, haja vista a rica exposição aos seus 50 anos, ocorrida em 2023, e também internacionalmente por artistas consagrados como o chinês Ai Weiwei. A ideia de valorização da cultura do Brasil que movimentos como este tentam suscitar de tempos em tempos, podem, mesmo com as controvérsias, serem vistas como potência. Uma potência policarpeana de tornar oficial a cultura ancestral. Como escreveu Lima Barreto em “O Triste Fim de Policarpo Quaresma”, personagem símbolo da luta por uma identidade brasileira: “O que o patriotismo o fez pensar foi num conhecimento inteiro do Brasil, levando-o a meditações sobre os seus recursos, para depois então apontar os remédios”. Se depender desse pessoal, nenhum brasileiro jamais adoeceria por causa de síndrome de vira-latas.

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FAIXAS:
1. "Revoada" (Antônio José Madureira) - 3:44
2. "Romance da Bela Infanta" (Romance ibérico do Séc. XVI, recriado por Madureira) - :53
3. "Mourão" (César Guerra Peixe) - 1:50
4. "Toada e Desafio" (Capiba) - 4:26
5. "Ponteio Acutilado" (Antônio Carlos Nóbrega) - 4:32
6. "Repente" (Madureira) - 4:36
7. "Toré" (Madureira) - 2:59
8. "Excelência" (Tema nordestino de canto fúnebre, recriado por Madureira) - 3:02
9. "Bendito" (Egildo Vieira do Nascimento) - 4:23
10. "Toada e Dobrado de Cavalhada" (Madureira) - 4:52
11. "Romance de Minervina" (Romance nordestino, provavelmente do Séc. XIX, recriado por Madureira) - 1:33
12. "Rasga" (Nóbrega) - 4:48

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OUÇA O DISCO:


Daniel Rodrigues
Texto publicado originalmente no site AmaJazz

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Música da Cabeça - Programa #269

 

Descobrimos o que todo mundo quer saber: qual a tatuagem que Anitta fez no tororó! Claro que foi do MDC, né, gente? Ela sabe o programa de hoje vai deixar a sua marca e que vai ter de um todo: The Velvet Underground, Tim Maia, Criolo, Ronnie Lane & Pete Townshend, Gilberto Gil, Ratos de Porão e mais. Ainda, Cabeção pelos 100 anos de nascimento de Iannis Xenakis. Sem deixar o seu na reta, o programa é às 21h, na tatuada Rádio Elétrica. Produção, apresentação e marca íntima: Daniel Rodrigues.


quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Música da Cabeça - ESPECIAL Nº 250

 

O Brasil nunca foi ao Brasil, o poeta nos lembra. No MDC Especial nº 250, trazemos uma entrevista sobre as profundezas das nossas raízes com a professora e etnomusicóloga Ana Paula Ratto de Lima Rodgers. Ela nos traz um relato sobre a cultura, a música e as tradições dos Enawenê- Nawê e das tribos sul-americanas no nosso quadro Uma Palavra. Ainda, músicas, letra e tudo mais. Sintoniza na originária Rádio Elétrica, às 21h. A produção e a apresentação são de Daniel Rodrigues. (fotos: Survival International)


Rádio Elétrica:
http://www.radioeletrica.com/

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Stephen Stills - "Stephen Stills" (1970)

Como fazer um disco clássico em 10 lições


“Sou uma das pessoas mais preguiçosas que conheço, mas quando eu pego fogo, fico obsessivo.”
Stephen Stills

Quem acessa as páginas do livro “1001 Discos para Ouvir Antes de Morrer” talvez nem se aperceba de um dado interessante: há mais álbuns do combo Crosby-Stills-Nash-Young do que dos Beatles. Enquanto os ingleses somam 12 discos seja da banda quanto dos trabalhos solo de seus ilustres integrantes, os americanos mandam ver em nada menos que 16 registros considerando-se os dos quatro juntos, em trio, em duo, seus respectivos solo, um da Buffalo Springfield e os três da The Byrds com David Crosby na formação. Mais do que curiosa, essa comparação diz muito principalmente quando se refere ao rock do início dos 70. Enquanto os Beatles separavam-se e dispersavam suas produções, a turma da Costa Oeste mantinha-se firme e forte. E unida. Somente nos primeiros três anos daquela década, são 6 memoráveis discos em que todos se visitam, entre estes o primeiro solo de Stephen Stills

Acontece que, mesmo sendo um ativo integrante da Buffalo e autor do maior hit da banda, a clássica "For What It's Worth", de 1966, que colocara a banda no rol das vendedoras de 1 milhão de cópias, pairava uma inexplicável desconfiança sobre a verdadeira capacidade de Stills. Claramente, o jovem cantor e compositor texano, de apenas 25 anos à época, talvez pela personalidade mais acanhada ou preguiçosa, não gozava da mesma idolatria que seus companheiros, principalmente em relação a Crosby, já considerado uma lenda do rock, e, claro, ao carismático e talentoso Neil Young, consagrado em carreira solo havia dois anos. 

Se não lhe faltava igual talento, então, o que precisava? Vencer a própria indolência e agir. Stills disse a si mesmo: "Querem que eu prove que sei fazer sozinho? Então, vou ser bem didático". Munido de todo seu amplo conhecimento musical, Stills compõe, então, um disco como quem prepara uma aula. São 10 lições... quer dizer: 10 canções, que percorrem o rock em todas as suas vertentes originárias faixa a faixa e de maneira não apenas pedagógica como, principalmente, com rara inspiração. Casando ousadia e melancolia, o doutrinamento começa com “Love the One You're With”, sucesso do disco. Rock com levada latina, seu marcante refrão, a voz rasgada de Stills e os acachapantes coros são de tirar o fôlego. Até os reconhecíveis melismas “tchu ru ru”, ouvido em temas como a suíte “Judy Blue Eyes", da Crosby, Stills & Nash, de um ano antes, estão presentes. Aliás, os colegas estão reunidos fazendo-lhe o coral juntamente com John Sebastian, Priscilla Jones e Rita Coolidge, praticando a mensagem central da canção: “Ame quem está com você”. Com esse cartão de visitas impactante, é como se Stills entrasse pela porta da classe e dissesse à turma: “cheguei!”

Agora que os alunos estão estaqueados nas carteiras, é hora de vir com a segunda lição: “como compor um rock melódico”. A resposta é "Do for the Others", em que o próprio autor faz praticamente tudo sozinho: toca baixo, guitarra, percussão e, claro, canta. Aliás, canta lindamente. Ouvindo-a, fica muito claro de onde vem parte das harmonias da Buffalo e da CSN&Y - e também de onde Ben Harper tirou a melodia de "Diamonds on the Inside". Parte do ensinamento é o de saber variar e aproveitar suas próprias capacidades compositivas. Por isso, a próxima, o rhythm and blues gospel "Church (Part of Someone)", seja talvez ainda tão mais impressionante e marcante. Esplendorosa, pode-se dizer, com direito ao vozeirão de Stills a la Joe Cocker e um coro simplesmente arrebatador.

Tema de casa nº 4: “se forem tentar fazer um hard rock psicodélico em plena fase áurea de Led Zeppelin, Steppenwolf, The Who e Queen, façam-no por completo”. Com a companhia de Calvin "Fuzzy" Samuels no baixo, Jeff Whittaker na percussão e Conrad Isidore na bateria, Stills ataca o Hammond e o microfone e deixa a guitarra para ninguém menos que o maior de todos do instrumento: o amigo Jimi Hendrix, em uma de suas últimas gravações antes de morrer prematuramente um mês depois de “Stephen Stills” ser lançado e a quem, por isso, o disco é dedicado. É visível a proeminência de Hendrix ao lançar suas frases de guitarra, sendo que a música o ajuda muito a desenvolver sua técnica insuperável: embalada, de refrão pegajoso, performances empolgadas e arranjo na medida.

Momento importante da aula, quando o professor Stills excede o ensinamento da disciplina em si e contribui filosoficamente com seus aprendizes: “se você já foi ao Céu, então, não perca a oportunidade de estar com Deus”. Stills faz exatamente isso. Se na faixa anterior ele conta com as palhetadas do gênio da guitarra, em "Go Back Home" é o Deus do instrumento, Eric Clapton, que é convocado. Comandando os pedais de distorção, o autor de “Layla” escreve um blues eletrificado abençoado pelos anjos. Um show nas nuvens.

É a vez de aliviar novamente o andamento e trazer o delicioso pop-rock "Sit Yourself Down", em que conta mais uma vez com um poderoso coro dos amigos, agora ainda ajudados por Cass Elliot e Claudia Lanier. Mais uma melodiosa, a balada triste “To a Flame”, além de emocionar, tem a primeira aparição de orquestra, claro, estrategicamente reservada para surpreender os ouvintes no sétimo número, já se encaminhando para o final do disco. Com arranjo e condução do maestro Arif Mardin, as cordas e metais entram na segunda metade da faixa e acompanham o piano e a voz agora suave e afinadíssima de Stills. Que perfeição!

O conteúdo até aqui teve R&B, hard-rock, blues, gospel, balada, country e tudo mais, certo? Pois Stills guarda ainda três joias diferentes entre si para completar seu compêndio musical. O músico traz, agora, a acústica “Black Queen”, limite entre o folk e o blues: ao estilo Muddy Waters em "Folk Singer", conta com violão de corda de aço e voz. Aliás, o vozeirão rouco e inebriado de Stills! Com esta nova batelada de conhecimento, Stills encaminha-se para o encerramento de seu tutorial.  "Cherokee", a nona preleção, é o intermeio entre tudo o que veio antes e o aguardado final. O que não significa que o mestre desperdice esse momento. Aliás, faz num rock soul com rico arranjo de metais e madeiras e outra participação ilustre, a do multi-instrumentista Booker T, líder da Booker T & The MG's, esmerilhando no órgão.

Ufa! Quanta variedade! Mas ao mesmo tempo, quanta coesão do disco até aqui. Porém, antes da sirene tocar, Stills guarda o melhor para a última página do polígrafo. Com versos de esperança a uma América livre e afetiva (“Todos são estranhos, todos são amigos/ Todos são irmãos”), "We Are Not Helpless" é o gran finale que qualquer disco de rock gostaria de ter – e que poucos, muito poucos conseguem. Balada rascante e melodiosa, que resume todas as vertentes trazidas anteriormente, com a voz possante de Stills sobrando em intensidade. A música, no entanto, vai além disso. Se o começo remonta à melancolia do folk-rock de origem, a melodia avança para um crescente emocional, principalmente quando voltam, triunfantes, as cordas, os metais e o coral. Mas ainda tem mais! Para arrebentar o coração de quem acompanhou o álbum até então, "We...” transforma-se, como “You Can't Always Get What You Want” dos Rolling Stones, de um ano antes, num rock gospel embalado. O final, apoteótico, junta tudo: banda, voz, cordas e o órgão, o qual tem a primazia de pronunciar o último acorde. Como disse o policial Malone a Elliot Ness em “Os Intocáveis”: “aqui termina a lição”.

Mais do que um apanhado de temas que exercitam o arsenal estilístico da música pop dos anos 60/70, o álbum de estreia de Stills é uma aula também de como fazer um grande disco, com ritmo narrativo envolvente e, principalmente, construído com músicas de qualidade inquestionável. Depois de “Stephen Stills”, nunca mais ninguém se meteu a besta em colocar a capacidade do músico à prova. Como um professor que avalia uma prova, ele foi passando a régua nas desconfianças uma a uma e cravando pontuação máxima em todas. A recompensa, por fim, não poderia ser outra: nota 10 pra ele.

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FAIXAS:
1. "Love the One You're With" - 3:04
2. "Do for the Others" - 2:52
3. "Church (Part of Someone)" - 4:05
4. "Old Times Good Times" - 3:39
5. "Go Back Home" - 5:54
6. "Sit Yourself Down" - 3:05
7. "To a Flame" - 3:08
8. "Black Queen" - 5:26
9. "Cherokee" - 3:23
10. "We Are Not Helpless" - 4:20
Todas as composições de autoria de Stephen Stills

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OUÇA O DISCO:
Stephen Stills - "Stephen Stills"

Daniel Rodrigues

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Música da Cabeça - Programa #234

 

Inflação nas alturas? Que tal, então, promovermos nós uma elevação? Do volume, é claro, para podermos curtir o MDC de hoje, que vai estar a 234%: a soul de Sade, o country rock da Buffalo Springfield, a bossa nova de Tom Jobim, o folk-pop de Suzanne Vega e mais. Teremos nossos quadros fixos e móveis, sempre no mais alto nível. Faz assim: põe na elevada Rádio Elétrica às 21h, aumenta o som e aproveita o programa. A produção e a apresentação são de Daniel Rodrigues. E não deixem de votar no Música da Cabeça (Programa de Rádio) e em Daniel Rodrigues (Apresentador de Rádio) para o Prêmio Press! www.revistapress.com.br/premiopress/


Rádio Elétrica:

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quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Música da Cabeça - Programa #231

 

Em semana de 7 de Setembro, proclamemos nossa independência no MDC. Aliás, o que o Brasil sabe muito bem, a se ver por Erasmo Carlos, Black Alien, Mutantes e Lia de Itamaracá, que estarão no programa hoje. Afora eles, têm também os estrangeiros Beach Boys, Talking Heads e The Cardigans que também falam por si próprios. Ainda, quadros fixos e móveis, tudo no programa desta quarta, às 21h, na proclamada Rádio Elétrica. Produção, apresentação e grito do Ipiranga: Daniel Rodrigues. (além de um outro retumbante de #forabozo)


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segunda-feira, 24 de maio de 2021

Bob Dylan - "Blood on the Tracks" (1975)

Dylan, o salvador

 

"Como se estivesse escrito em minha alma de mim para você." 
Verso da letra de "Tangled Up in Blue"


A intenção deste texto não é falar sobre “Blood on the Tracks”. Assim como outros vários discos de Bob Dylan, esta obra-prima merece estar entre os fundamentais de qualquer discoteca rock como “Desire”, “Besament Tapes”, “Planet Waves”, “The Freewheelin' Bob Dylan” ou os aqui já resenhados “Blonde on Blonde”, "Bringing It All Back Home" e "Highway 61 Revisited"

Na verdade, é quase irrelevante comentar que “Blood...” é considerado por muitos o seu melhor trabalho; que, confessional, foi escrito sob a dor dilacerante de um casamento desfeito; que a "cozinha" que lhe acompanha é a clássica The Band; ou que traz algumas das melhores letras e arranjos da carreira de Dylan, da lindeza de sua faixa de abertura, "Tangled Up in Blue"; da emocionante balada arrependida “If You See Her, Say Hello”, uma das mais belas do cancioneiro rock; do blues infalível "Meet Me in the Morning"; do desfecho primordial de “Buckets of Tears”. Não, este texto não se propõe a falar sobre o óbvio. Pelo menos, não a esta obviedade. Quero falar, sim, sobre quando Bob Dylan me salvou. O que não é nenhuma novidade, visto que o Nobel de Literatura 2016 faz isso a uma geração inteira. Voz da cultura beatnik, foi vital para o ativismo social na década de 60 por causas mundiais como os Direitos Civis, o armamento nuclear e a Guerra do Vietnã. Também, o artista que mais do que ninguém, mais que Jean Cocteau, Jim Morrison ou Bertold Brecht, aproximou a literatura e a poesia da música. 

Mas, para chegar a Dylan, tenho que falar antes sobre outro grande músico do século XX a quem também atribuo minha salvação: Henri Mancini. Impossível desvincular essa história, entretanto, de outra figura aparentemente nada a ver com esses dois, pois homem da política e longe de minha consideração: Alceu Collares. Todos a seu modo me levaram a mim mesmo e a “Blood...”. Mas voltemos à metade dos anos 90, quando eu era um jovem recém saído do 1º Grau do Ensino Fundamental. Como para muitos estudantes brasileiros diante desta etapa, tinha eu que escolher o que fazer da vida. Ano de 1994. Governador do Rio Grande do Sul àquela época, Collares, havia nomeado a igualmente incompetente esposa Neusa Canabarro para o comando da Secretaria de Educação do Estado. Ela, por sua vez, instituíra um sistema indigno e desumano de seleção e ingresso de alunos egressos para o 2º Grau que obrigava as famílias de alunos a formarem constrangedoras e quilométricas filas à porta de escolas estaduais semanas antes para, depois de noites e dias de chuva, frio, sol e perigos de violência, mendigar uma vaga. 

Embora já tivesse certa noção de que a Comunicação era meu caminho, a curto prazo não via como algo a seguir. Filho de uma família de classe média pobre e da periferia, queria fazer o 2º Grau e, assim que possível, começar a trabalhar concomitantemente. Para isso, então, melhor era ver um curso técnico, que dava melhores perspectivas para esse plano. Havia uma escola pública que oferecia curso técnico de Publicidade, algo na área que me interessava, mas a procura a este curso, sabia-se, era extremamente disputada e as vagas eram poucas. Fora que, morando longe dessa escola, localizada noutro extremo da cidade, a logística imposta pela política estadual dificultava-nos ainda mais. Outra alternativa era a chamada Informática, algo hoje tão embrenhado na vida social mas que recém começava a surgir no Brasil naqueles idos. Revoltado com a condição desrespeitosa à sempre desfavorecida classe média daquele sistema educacional vigente, e diante da obrigação da escolha para que escola ir, neguei-me a colocar a mim e a minha família naquela situação de infinitas, insalubres, perigosas e aflitivas filas. Não podendo optar por algo mais a fim comigo, e nem mais tendo ao alcance vaga sequer em Informática, o jeito foi deslocar-me para mais longe e pegar o que viesse. Foi então que, por essas coisas que adolescentes não sabem medir, ingressei num curso de Eletrônica como se isso tivesse algum fio de relação com Informática – a qual, por si, já era uma segunda alternativa.

Óbvio que, no transcorrer do curso, as diferenças entre um ser das humanas como eu e um curso essencialmente das exatas como o de Eletrônica apareceram e ficaram cada vez mais evidentes. Afora os discos em casa, estava muito, muito longe de Dylan. Não via a hora de finalizar os três anos exigidos e partir para um cursinho pré-vestibular. 

Consegui, em parte, no entanto, o que me propunha: trabalhar enquanto estudava, o que se deu dentro da própria escola, pois assumi, no contraturno, um estágio no almoxarifado do laboratório. Foi ali, numa noite fortuita, que um dos meus salvadores surgiu. Acompanhava o trabalho de dois alunos, que desenvolviam seu trabalho de conclusão conjunto, fornecendo-lhes os materiais necessários. Já cansados de tanto raciocinarem sobre diodos e transistores, lá pelas tantas começaram a falar sobre assuntos diversos para desanuviar. Em determinado momento, um deles, que gostava de música, quis fazer uma referência ao autor do tema da Pantera Cor-de-Rosa, que ele sabia, mas não se recordava do nome. Foi, então, que eu, de forma extremamente natural, pois era uma informação comum para mim, despretensiosamente ajudei-lhe: "Henri Mancini". A conversa terminou ali, pois o espanto do rapaz foi tamanho que chocou não somente a ele quanto a mim mesmo. Era-lhe tão improvável que o estagiário de almoxarifado soubesse com tanta facilidade quem era o autor de clássicos como "Blue Moon" e "Peter Gunn", que aquela informação não poderia ser descartada por mim. Eu estava gritantemente no lugar errado e meu primeiro salvador, Henri Mancini, me ajudava a tomar o rumo que a vida escolhera.

Corrigida a rota, fiz o pré-vestibular e entrei na faculdade de Jornalismo da PUCRS em 1999, onde pude confirmar categoricamente a assertividade da minha escolha profissional. Entre muitas lembranças, amigos e momentos inesquecíveis daquele tempo, um me marcou. E é aí que entra meu outro salvador. Se naquele episódio do laboratório de Eletrônica o ocorrido com Mancini transcorreu num dia qualquer do qual não guardo com exatidão, neste caso, a lembrança tem dia e ano certos: 24 de maio de 2001. Aniversário de 60 anos de Dylan.

Sem nenhuma combinação prévia, aquela data foi comemorada da maneira mais natural e devota que se possa imaginar. Foi absolutamente bonito e emocionante. Era uma celebração calma e solene: pelos corredores e salas de aula, as pessoas se cumprimentavam, como que celebrando um acontecimento familiar. Era como se um ente querido, um Deus, um salvador, estivesse completando mais um ciclo ao redor do sol e todos ali sabiam do tamanho simbólico disso. Não teve show, “parabéns pra você”, algazarra, nada diferente. Simplesmente, mestre Dylan fazia seis décadas e nós, cientes de que presenciávamos um momento especial, sabíamos que estávamos no lugar certo para compartilhar aquela felicidade. Para mim, assim como Mancini, Dylan não fez nenhuma força para isso: bastou-lhe a sua representativa existência.

Passadas exatas duas décadas daquela célebre noite na faculdade de Jornalismo, Dylan faz, hoje, 80. Muito trilhei depois daquele episódio, que serviu para me dar a certeza de que autoconhecer-se e ser coerente consigo é o melhor caminho. E que vale a pena correr atrás disso. Curiosamente, “Blood...”, considerado a salvação da alma do artista após o choque da separação, a mim represente também isso, porém noutros termos. Como outros álbuns dele, carregam essa força incomensurável de um artista que cumpre aquilo que os grandes são capazes: são fundamentais para o desenvolvimento da civilização, pois decifram o mistério do que somos, estabelecendo pontes entre nossas mentes e corações através de suas obras. Privilégio ter sido um dia, como milhares de outras pessoas, salvo por esse oitentão.

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FAIXAS:
1. "Tangled Up in Blue" – 5:42
2. "Simple Twist of Fate" – 4:19
3. "You're a Big Girl Now" – 4:36
4. "Idiot Wind" – 7:48
5. "You're Gonna Make Me Lonesome When You Go" – 2:55
6. "Meet Me in the Morning" – 4:22
7. "Lily, Rosemary and the Jack of Hearts" – 8:51
8. "If You See Her, Say Hello" – 4:49
9. "Shelter from the Storm" – 5:02
10. "Buckets of Rain" – 3:22
Todas as composições de autoria de Bob Dylan

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OUÇA O DISCO:

Daniel Rodrigues

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Música da Cabeça - Programa #199

 

Bernie Sanders passou a semana esperando sentado só pra ouvir o MDC. Então, chegou a hora, senador! Hoje teremos conterrâneos seus como Tracy Chapman, Beck e Angelo Badalamenti, mas também os britânicos da Chemical Brothers e Cocteau Twins e brasileiros, representados por Ronnie Von, Milton Nascimento e Gilberto Gil. Além disso, tem "Cabeça dos Outros" e "Palavra, Lê" com letra de Djavan - que prometemos compreendê-la. Isso às 21h, na paciente Rádio Elétrica. Produção, apresentação e toneladas de leite condensado: Daniel Rodrigues (#BolsonaroGenocida)


Rádio Elétrica:

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quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Elias Dya Kymuezu - "Elias" (1969)

ÁLBUNS FUNDAMENTAIS ESPECIAL 12 ANOS DO CLYBLOG
 

"Mamã kudilė ngö"


"Na vida do rei da música angolana encontrei o percurso de todos nós, angolanos. Elias fala por todos os Elias, todos os mais velhos de Angola".
Marta Santos

“O lamento transmitido na canção do povo de Luanda, que enfrentava o colono, e que o Elias espalhou por Angola inteira através da sua voz, constituiu uma forma de clamar o socorro para a liberdade do seu povo do jugo colonial”.
Marta Santos

A voz que acalma, o pranto das mamãs angolanas que viram seus filhos partirem e nunca mais voltarem.“Mamã kudilė ngö é-me muene ngui monå” (“Mamã não chores mais, eu também sou teu filho!”)  Um Semba na voz do cantor Elias Dya Kymuezu, o rei da música angolana. 63 anos de carreira, sempre a cantar em kimbundo, compondo e escrevendo as suas próprias músicas. Nunca cantou ou usou uma composição de outros.

O homem que recebeu na era colonial, pela mão do Luís Montez, o título de “rei da música angolana” quando o negro não era considerado gente, era menos que uma coisa. Ficou em terceiro lugar num festival de ex-colônias, em Santarém, Portugal. Foi chamado de fadista africano, porque diziam que: "Quando ele canta, minha alma encanta!" Santarém chorou e aplaudiu, mesmo não entendendo a letra e o dialecto. Sentiu o sentimento que a música carregava.

Em 1983, foi ao Brasil a convite do seu amigo Martinho da Vila para gravar com ele e Chico Buarque no grande projeto "Canto Livre de Angola".

Elias, hoje com 82 anos: voz e o
percurso do povo angolano


Certa vez, o cantor Percy Sledge veio até cá dar um concerto, na casa 70, e Elias faria o show de abertura. Mas Percy chegou cedo e o dono do espaço encontrou-o impávido a um canto espreitando Elias a cantar. Lembrou-lhe que o seu show do começaria às 21h, ele não entendia o porquê de tão grande estrela estar aí a espreitar o Elias. Percy respondeu que estava aí para ver um grande monstro da música angolana. E não se cansava de aplaudir de pé, apesar de algumas pessoas lembrarem-lhe que estavam aí para vê-lo a ele. Percy fez um grande show e disse a alto e bom som: "Esse homem motivou-me mais, porque acabei de ver uma coisa que qualquer grande músico espera ver no mundo”.

Elias Dya Kimuezu é bangāo, cheio de classe. Faz lembrar os clássicos  americanos. Podemos facilmente perceber a humildade dele e a sua sensibilidade. A sua música, ou melhor, a essência das suas músicas, as suas canções são de lamento de quem lamenta a morte de alguém. Naquela altura, quando ainda eram colonizados, não se lamentava, só isso se lamentava, o sofrimento do povo, e até hoje o cantor não sai da sua canção, do seu ritmo. Porque a sua canção é invocação. Invoca a mãe, a dor invoca toda uma sociedade.

Elias Dya Kimuezu traz-nós a lembrança dos ancestrais, o mesmo lamento, a mesma dor.
Ele faz a transição do tradicional ao moderno.

Um breve retrato do homem, o músico, rei da música angolana que retrata, nas suas músicas factos quotidianos, da vida nos bairros suburbanos de Luanda.

Aprendi com meu pai a respeitá-lo e a apreciá-lo.

A mensagem de conforto do filho para a mãe angustiada que vê, o filho partir a fim de se juntar aos combatentes da libertação, ou deportado (“transportado”, no dizer do povo) para o trabalho forçado nas roças  de São Tomé e Príncipe.

Essa mensagem de esperança, na qual o filho acredita na canção, “Mamã kudilė ngö”, do disco "Elias". É uma canção que acalma e limpa a lágrima da mamã negra que vê o filho partir para não mais voltar. Elias lembra as mamãs negras de Angola que “não chores mais, tu também sou teu filho...”

50 anos se passaram e eu tive o prazer de escrever o livro-biografia de Elias Dya Kymuezu: "A Voz e o Percurso de um Povo".

E continuo a emocionar-me com as canções do rei da música angolana.

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(NOTA DO EDITOR) Não há registro oficial quanto ao ano de lançamento do disco "Elias". Conforme a autora, também biógrafa do músico, a produção não ultrapassa o ano de 1970. Somando-se à informação de que o encontro de Elias Dya Kymuezo com o produtor angolano Valentim De Carvalho, produtor deste disco, ocorreu em 1969, creditou-se o lançamento  para este ano.



Vídeo de "Zé Salambinga" para a TV francesa, 1989



por  M A R T A    S A N T O S


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FAIXAS:
01. Watiaña - Instrumental
02. Uá Ué Muxima - Ai Meu Coração
03 Monami, Uá Muxima - Meu Filho Do Coração
04. Samba
05. Ressurreição
06. Ku Iéku - Não Vás
07. Entrudo
08. Nhajinga - Waya - Instrumental
09. Zom - Zom
10. Muénho Uá Mutu - Vida Humana
11. Zé Salambinga
12. Mama Kudile Ngó - Minha Mãe Não Chores
Todas as faixas de autoria de Elias Dya Kymuezu

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Marta da Silva Santos nasceu em Luanda, Angola, em julho de 1963. Com 15 anos foi para Portugal, onde decidiu viver e estudar Direito. Escritora infantil, valoriza em sua obra a oralidade e a ancestralidade do povo africano. É a primeira angolana pertencente à Academia de Letras e Artes Luso-Suíça e Membro da Associação Portuguesa de Poetas. Além da biografia "Elias Dya Kimuezo: a voz e o percurso de um povo" (2012), é autora também dos livros "Gita e Outros Contos" (2006), "Contos de Cá, Pedaços de Mim" (2013), "A Fada Clodi" (2015) e  "Tão Perto e Tão Longe: satisfação residencial e participação cívica nos bairros municipais de Lisboa" (2015).