Curta no Facebook

Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta Moacir. Ordenar por data Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta Moacir. Ordenar por data Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Moacir Santos - "Coisas" (1965)


"Moacir Santos é um jedi."
Ed Motta

"Eu sou o 'Ouro Negro' do Brasil."
Moacir Santos

A música popular brasileira, mesmo com sua trajetória centenária, demorou a se reconhecer negra. O samba, ritmo mais característico do Brasil, embora a gênese africana, com elementos oriundos das nações Banto, Iorubá, Jeje, Mina, Bornu, Gurunsi e outras, sofreu, ao longo do tempo, com diversas intervenções que, às vezes propositalmente, o distanciaram da origem. Caso do "boleramento" do samba da Rádio Nacional, nos anos 40 e 50, e da própria bossa-nova, demasiado jazz para ouvidos mais ortodoxos. O morro, mesmo, não aparecia no cenário. Ambas as ondas propunham características tão estrangeiras, que só faziam reduzir o espaço simbólico da verdadeira raiz da música brasileira, fosse por modismo, entreguismo ou, pior, vergonha.

Jorge Ben, com o emblemático “Samba Esquema Novo”, de 1963, foi o primeiro sopro de resgate deste africanismo na MPB. Instintivo, pop e moderno, levava a raiz afro-brasileira a outro nível ancorado na tradição violeira. Mas ainda era pouco. Se se olhar para uma das pinturas de Heitor dos Prazeres (aliás, também um grande sambista), que tematizam a gente do samba dos morros e das ruas, fica claro que havia uma série de outros instrumentos – e, portanto, outras texturas e tonalidades – nas rodas e cordões cariocas do início do século 20, que iam além do pandeiro e tarol. Como descreve José Ramos Tinhorão em seu “Os Sons Negros no Brasil”, cabia no samba toda a influência ibérica trazida da Europa pelos portugueses, como o fado e a fofa, mais as diversas culturas diaspóricas vindas da África, tal o batuque, o calundu, o folguedo e a umbigada.

Alguma coisa haveria de salvar a africanidade na música brasileira, e isso veio das mãos de Moacir Santos. Compositor, arranjador, saxofonista e vocalista, este pernambucano lança seu primeiro e absolutamente marcante álbum de estreia com base nas lições que ensinava a seus alunos, as despretensiosamente chamadas “coisas”. Acontece que essas "coisas" eram preciosidades, assim como os seus seguidores. Seus discípulos – entre eles, nada menos que Baden Powell, João Donato, Paulo Moura, Sérgio Mendes, Nara Leão, Eumir Deodato, Carlos Lyra e Roberto Menescal – aprenderam estes valiosos ensinamentos de harmonia e composição com um já maduro e experiente músico capaz de sinterizar mundos. Ex-integrante de orquestras de circo e bandas militares de diversas cidades do Nordeste, nos anos 40, Moacir, após trabalhar como instrumentista e arranjador da orquestra da Rádio Nacional, em 1951, já no Rio de Janeiro, aperfeiçoou seus estudos eruditos com os maestros alemães Ernest Krenek (que o introduz na técnica dodecafônica) e o célebre Hans-Joachim Koellreuter, de quem se tornou assistente, além de estudar também com Claudio Santoro e Cesar Guerra-Peixe.

Lançado há 60 anos pelo cultuado selo Forma – responsável por obras icônicas da música brasileira dos anos 60 como “Os Afro-Sambas”, de Vinicius de Moraes e Baden, e a trilha sonora de Sérgio Ricardo para “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, o filme de Glauber Rocha“Coisas” é justamente o nome dado ao disco que resume as avançadas ideias musicais de Moacir Santos. O trabalho revitaliza a bossa-nova sob a aura das matrizes africanas, ao passo de que também engendra harmonias jazzísticas e ritmos da cultura nordestina, como o frevo, o samba-de-roda, o maracatu e as bandas marciais. A valorização da cultura negra é perceptível tanto na atenção dispensada pelo compositor à percussão, com a incorporação de instrumentos pouco usuais (como berimbau, kalimba, atabaque, agogô e afoxé), como na invenção de uma base rítmica original, ligada a esse matiz. Coisa de gênio. 

São apenas 10 coisas, ou melhor: 10 lições instrumentais, que inventam esse Brasil profundo e sofisticado de Moa. "Coisa n° 4" não à toa passa à frente de suas três companheiras ordinárias para abrir o disco, visto que escolhida para provocar o impacto necessário ao florescer da obra. E o cumpre com louvor: um ritmo de ponto de candomblé se funde a uma base de metais em tom baixo, como o de uma banda marcial em dia de quermesse. É quando entra o trombone solo de Edmundo Maciel desenhando o riff, que serpenteia com elegância o ritmado carregado do culto de orixá. Depois, juntam-se trombone, metais e madeira, num desenvolvimento melódico airoso.

Moacir, revolucionário e mestre dos mestres
da música brasileira 
Dá tempo de recuperar o fôlego – talvez nem tanto assim – com a “nº 10”, uma bossa-nova com traços caribenhos com uma das melodias mais bonitas já escritas por Moacir. Samba-jazz puro, seja no toque sincopado do piano, seja na insinuante linha do trompete. Tudo muito apurado e com clara referência aos mestres Tom Jobim, Johnny Alf, João Donato e Antônio Maria.

Recuperando o tema escrito dois anos antes para a trilha sonora de “Ganga Zumba”, o primeiro filme de Cacá Diegues, “Tema de Nanã” vira agora a “Coisa nº 5”. Novamente, como na abertura do disco, o toque percussivo prevalece, mas logo se transforma numa marcha, que dignifica o gênio militar do herói quilombola. O arranjo de Moacir é espantosamente bem arquitetado, conjugando todos os metais e madeiras (sax alto, sax barítono, sax tenor, trompete, trombone, trombone baixo e flauta). Um ano antes, Nara, com arranjos do próprio autor, a incluiria em seu celebrado álbum de estreia cantando-a apenas em melismas. Somente em 1972 a música ganharia letra – e em inglês – no LP “Maestro”, que Moacir gravaria já nos Estados Unidos, para onde se mudou em 1967 para lecionar e exercer trabalhos free-lancer para cinema.

Enquanto o tema “3” é quase o estudo de um samba minimalista escrito sobre a combinação de três acordes, a “segunda coisa”, que vêm na sequência, esmera num jazz sensual e enigmático conduzido pela bateria de Wilson das Neves e o vibrafone do seu irmão, o também percussionista Cláudio das Neves. Desfilam solos da flauta de Copinha e o trombone baixo de Armando Pallas sobre uma base arranjada no tom médio dos metais. Nesta fica clara a habilidade melódico-harmônica de Moacir, que emprega escalas modais e ambíguas no uso das terças (ora maiores, ora menores), gesto que que torna o número ainda mais negro.

Outra estonteante é a de “nº 9”, subtitulada "Senzala", um lamento nagô com ares jazzísticos cujo toque do sax alto sustenta uma das melodias mais bonitas da música brasileira pós bossa-nova. Há algo arábico nessa melodia em permanente mistério, como uma saudade da mãe-África, como um banzo. Não se nota exaltação: apenas o sofrimento calado das correntes prendendo a pele escrava na escaldante noite no engenho. Já a “Coisa nº 6” acelera o compasso para um samba gafieira em que a volumosa instrumentalização dignifica Severino Araújo e a Orquestra Tabajara. Ritmada, suingada e lindamente melodiosa.

Não menos brilhante, a “sétima lição” é um samba-jazz exemplar, das melhores desse primeiro e referencial repertório de Moacir. Já a “Coisa nº 1”, não menos elegante, forja-se sobre uma sutil percussão de bongôs, um violão sincopado e a dança dos metais, que esculpem este samba cadenciado, que capta as lições da bossa nova e as ressignifica ao deslocar rítmicos e métricos, característica do compositor pernambucano.

Intitulada de “Navegação” em 2001, quando ganhou letra de Nei Lopes e vocal de Milton Nascimento para o álbum-tributo “Ouro Negro”, produzido por Zé Nogueira e Mário Adnet, e um dos mais cultuados temas do cancioneiro de Moa, a “Coisa nº 8” é a escolhida para fechar essa pequena ópera preta. E no mais alto nível de musicalidade e sofisticação. Mesmo sem o vocal, é possível embarcar neste navio moaciriano e intuir os versos: “Da proa desta embarcação/ Consigo interpretar, enfim/ A carta de navegação/ Que o mar traçou dentro de mim”.

Não é exagero dizer que, se não existisse “Coisas”, não existiriam “Os Afro-Sambas” de Vinicius e Baden, nem a África universal do Milton de “Minas"/"Geraes”, nem a “Maria Fumaça” soul-funk da Black Rio, nem o samba enraizado do Martinho da Vila de “Origens”, nem a “Refavela” de Gilberto Gil, nem a musicalidade colorida da Europa moura de Djavan. Não haveria lastro para tudo isso não fosse Moacir Santos e o salvamento que ele promoveu à música brasileira negra. Tal uma nova abolição. Como disse Ed Motta, Moacir é “essa mão de proteção sobre as nossas criações e de tudo que a gente tem pra fazer daqui pra frente”. O que quer dizer muita, mas muita coisa.

🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵


FAIXAS:
1. "Coisa Nº 4" - 4:01
2. "Coisa Nº 10" (Moacir Santos, Mário Telles) - 3:06
3. "Coisa Nº 5 (Nanã)" (Santos, Telles) - 2:45
4. "Coisa Nº 3" - 3:00
5. "Coisa Nº 2" - 4:55
6. "Coisa Nº 9 (Senzala)" (Santos, Regina Werneck) - 3:08
7. "!Coisa Nº 6" - 3:22
8. "Coisa Nº 7 (Quem É Que Não Chora?)" (Santos, Telles) - 2:25
9. "Coisa Nº 1" (Santos, Clovis Mello) - 2:41
10. "Coisa Nº 8 (Navegação)" (Santos, Werneck) - 2:19
Todas as composições de autoria de Moacir Santos, exceto indicadas

🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵




Daniel Rodrigues

domingo, 17 de julho de 2011

Trio 3-63 – Projeto UniMúsica – Salão de Atos da UFRGS – Porto Alegre -RS (14/07/2011)


Olorum no toró: uma homenagem a Moacir Santos


Moacir Santos (1926-2006)
Tem dias que a chuva parece precipitar além do normal. E o último 14 de julho foi assim – pelo menos em Porto Alegre. Choveu 48 horas sem parar. E não era qualquer chuvinha. Era “chuva que Deus mandava”, incessante, bastante. Mas tanta água vinda do céu foi, para os mais atentos, o prenúncio de algo transcendental que aconteceria na noite deste fatídico e molhado dia. Numa homenagem ao maestro pernambucano Moarcir Santos, um dos maiores gênios da música universal dos últimos tempos, o Trio 3-63, dentro do Projeto UniMúsica 30 anos – tempomúsicapensamento, fez um inesquecível show para cerca de 400 destemidos – e abençoados – espectadores no Salão de Atos da UFRGS.
Trio 3-63: apresentação curta porém marcante

Formado pela flautista Andrea Englert, pelo pianista Paulo Braga e pelo percussionista Marcos Suzano, três feras, o Trio 3-63 destilou um show curto mas emocionante do início ao fim, onde predominou a execução perfeita, unindo técnica e alma, e, claro, a reverência a Moacir Santos, instrumentista, arranjador e compositor, autor de obras-primas da MPB, como o célebre álbum “Coisas”, de 1960, e “Opus 3 nº 1”, de 1979. Moacir, que viveu grande parte de sua vida artística nos Estados Unidos, onde é venerado, foi, ao lado de Tom Jobim  e Hermeto Paschoal, o grande mestre da revolução harmônica da música brasileira moderna. Sua estética tem, com um hibridismo impressionante, toques de jazz e erudito misturados aos ritmos essencialmente brasileiros, bebendo no vasto folclore do nordeste (maracatu, coco, roda, xaxado, cantos religiosos), na tradição dos ritmos afro-brasileiros (lundu, jongo, candomblé, samba, marcha, choro, maxixe) e até caribenhos (rumba, habanera, cuban jazz). Tudo sempre com muito bom gosto e perfeição.
Marcos Suzano, fera da percussão
No show, o Trio 3-63 destilou clássicos como “Coisa nº 1”, “Paraíso” e “Outra Coisa”. Porém, fizeram mais do que isso. A começar pela inteligente incursão a obras de outros compositores influenciados e/ou influenciadores de Moacir Santos, como os “Motivos Nordestinos”, do percussionista e compositor Luiz D’Anunciação, e “A Inúbia do Cabocolinho”, do maestro e pesquisador musical Guerra-Peixe, ex-professor de Moacir nos seus primórdios tempos em Pernambuco. Nesta seara, ainda apresentaram a gostosa “Radamés y Pelé”, de Tom Jobim (homenageado que, por sua vez, homenageava, além do craque da bola, outro craque, este dos sons, Radamés Gnatali, grande influenciador da bossa nova e de Moacir), além de uma composição do próprio Paulo Braga, “Farol”, onde claramente o pianista conjuga todas essas referências.




Mas o trio guardaria ainda outras duas surpresas. Primeiro que, a certa altura, o trio passou a quinteto. Primeiramente, com a entrada no palco do multi-instrumentista Lui Coimbra, que tocou violão e cantou a suave e brejeira “A Santinha lá da Serra”, parceria de Moarcir com o poeta Vinícius de Moraes. Depois, ao cello, Lui acompanhou a banda em outra novidade do show: “The beautiful life” e “Love Go Down”, canções inéditas no Brasil resgatadas por Andrea no acervo de Moacir nos EUA.
Ao final do show, junta-se aos integrantes o cantor e percussionista Carlos Negreiros, negro alto, tipo etíope, todo de branco como que uma entidade da umbanda. Com seu bongô e sua bela voz grave, mas de refinado alcance dos agudos, cantou com os quatro “Coisa nº 8 - Navegação”, de charmosa melodia e letra poética (“Depois de tanto palmilhar/ Desvios e bifurcações/ Da proa desta embarcação/ Consigo interpretar, enfim/ A carta de navegação/ Que o mar traçou dentro de mim”), proporcionando o momento mais emocionante do show. Foi também Negreiros quem creditou a Olorum, senhor da criação e dos céus, o milagre de estarmos ali, mesmo com o toró que o próprio orixá fazia cair lá fora. Só podia ser uma mensagem divina, pois fomos, de fato, abençoados nesta noite. Por Olorum e por Moacir Santos, cuja poderosa alma estava lá também, encharcando-se de alegria e beleza como nós todos.



terça-feira, 22 de abril de 2014

Os 15 Melhores Discos Brasileiros de Música Instrumental

Hermeto Paschoal, presente em 3 discos da lista,
"Em Som Maior", "tide" e o seu, "Hermeto".
Nessas brincadeiras diletantes de criar listas sobre os mais diferentes temas musicais nas redes sociais (10 melhores show assistido no Teatro da Ospa, 10 melhores discos de jazz da ECM, 10 melhores músicas contra a ditadura militar, 10 músicas chatas do Chico Buarque, 10 melhores discos de soul music, e por aí vai) fui instigado a montar uma que, num primeiro momento, titubeei. “Será que eu saberia compor uma com esse tema?”, pensei. Tratava-se do “Melhor Disco Instrumental de Música Brasileira”. Mesmo com meu conhecimento musical, que não é pouco, teria eu embasamento suficiente para criar uma lista interessante e, além disso, suficientemente informada a esse respeito? Pois, para minha própria surpresa, a lista saiu, e bem simpática, diga-se de passagem. Além de não se prender a um estilo musical específico (o que se chamaria burramente de “música instrumental brasileira” pura), típico de minha forma de enxergar a música e a arte, acredito que minha listagem não ficou pra trás em comparação a de outros que se empolgaram e publicaram as suas também.
Claro que tem muita coisa que não consta na minha lista que vi na de outros, pois certamente ainda tem muito o que se conhecer dentro do mar de maravilhas sonoras que existe. Raul de Souza, Barrosinho, Os Cobras, Victor Assis Brasil, Djalma Correa e Edison Machado, por exemplo, nem cito, pois não tive o prazer ainda de conhecer seus trabalhos a fundo ou ponto de saber selecionar-lhes um disco representativo. Mas acho que, afora o gostoso dessa prática quase infantil de elencar preferências, tais lacunas são justamente o papel dessas listas: abrir novos paradigmas para que novas revelações se deem e se passe a conhecer aquele artista ou banda que, quando se ouve pela primeira vez, se pensa com surpresa e excitação: “Cara, como que eu nunca tinha ouvido isso?!” Se algum dos títulos que enumero causar essa sensação nos leitores, já cumpri meu papel.

Aí vão, então os meus 15 discos preferidos da música brasileira instrumental, mais ou menos em ordem:


1 – “Maria Fumaça”, da Banda Black Rio (1977)


2 – “Coisas“, do Moacir Santos (1965)
3 – “A Bed Donato”, do João Donato (1970)
4 – “Wave”, do Tom Jobim (1967)
5 – “Em Som Maior”, da Sambrasa Trio (1965)


6 – “Revivendo”, do Pixinguinha e os Oito Batutas (1919-1923 – coletânea de 1895)
7 – “O Som”, da Meirelles e os Copa 5 (1964)
8 – “Donato/Deodato”, do João Donato e Eumir Deodato (1973)
9 – “Sanfona”, do Egberto Gismonti (1981)
10 – “Light as a Feather”, da Azymuth (1979)
11 – “Jogos de Dança”, do Edu Lobo (1982)
12 – “Opus 3 No. 1”, do Moacir Santos (1968)
14 – “Tide”, do Tom Jobim (1970)


15 – “Hermeto”, de Hermeto Paschoal (1971)






sábado, 21 de janeiro de 2017

ARQUIVO DE VIAGEM - Brasília /DF - 06/01/2016 a 13/01/2016



"Dizia ele
'Estou indo pra Brasília,
nesse país lugar melhor não há' ".



O verso do "Faroeste Caboclo" da Legião Urbana, pode não ser totalmente verdadeiro uma vez que há lugares mais aconchegantes, mais calorosos, de belezas naturais mais deslumbrantes mas não há como negar que Brasília é uma das obras mais notáveis criadas pelo homem. Uma verdadeira escultura interativa em escala real moldada em meio ao cerrado brasileiro que se não soubéssemos que fora construída poder-se-ia jurar que aqueles prédios brotaram do chão naquele lugar. O corajoso e visionário empreendimento de JK, materializado pelo traçado de Lúcio Costa e pelas linhas ousadas e artísticas de Oscar Niemeyer não a toa é Patrimônio da Humanidade. É absolutamente encantador ir desvendando o plano e entendendo-o à medida que circula-se na cidade. Há críticas, é verdade, até dos próprios habitantes; há problemas urbanos, eu sei; há distorções do projeto original, é verdade; mas para um arquiteto, só o fato de percorrer uma cidade planejada (e que funciona), já é uma enorme experiência e o melhor aprendizado de urbanismo que se possa ter mesmo que seja para a partir de seu projeto repensar soluções urbanas.
Mas além do plano, do traçado, dos palácios, a capital federal tem outros atrativos como o Parque da Cidade é uma ótima opção de lazer para a família com áreas de recreação, esporte, estar e convívio; o Parque Nacional, na Asa Norte, dentro de uma reserva ambiental com muito verde e com uma concorrida piscina natural; as lojas de discos e camisetas no CONIC, prédio "gêmeo" e rebatido do Shopping Conjunto Nacional, que apesar do mau aspecto, bem menos conservado que seu irmão espelhado do outro lado do Eixo, guarda verdadeiros tesouros em vinil; tem o simpático Lago Paranoá com belas vistas ao longo de sua extensão e áreas de circulação e lazer, além das boas opções de gastronomia no Pontão; e a propósito de comidas, tem ainda os ótimos restaurantes e barzinhos nas áreas comerciais da super-quadras.
Outro programa que vale muito é a visitação dos palácios que se não bastassem já serem obras de arte em grande escala ainda guardam grandes produções das artes plásticas especialmente de artistas brasileiros.
Fica um certo ódio ao percorrer, ali, o centro do poder sabendo de toda a lama que corre por trás daquelas paredes, dentro daqueles gabinetes, mas se o visitante não se deixar afetar de forma preponderante por esta sensação, se segurar a raiva e souber admirar o que é bonito e positivo em Brasília, certamente terá uma passagem agradável. Brasilia certamente é um lugar que merece ser visitado.

O BÁSICO E FUNDAMENTAL EM BRASÍLIA
O Congresso é visita obrigatória.
Bom, né, não tem como ir a Brasilia e não visitar o centro administrativo, o eixo monumental, o centro do poder. A ordenada Esplanada de Ministérios, a formosa Catedral com seus belos vitrais, o belíssimo Museu Nacional com suas linhas audaciosamente arredondadas, e, é claro, os prédios dos três poderes com sua arquitetura moderna e ousada. Ah, detalhe! Vale a pena conhecer o interior dos palácios que além de revelar mais da arquitetura genial de Niemeyer, tem grandes obras de arte de artistas brasileiros. O Planalto, o Itamaraty e o congresso Nacional tem visitações que podem ser agendadas. Legal também é ir mais adiante no eixo monumental e ir até a torre de TV de onde pode-se ver a cidade inteira e tirar ótimas fotos.




COMER EM BRASÍLIA
O Pontão tem excelentes opções
gastronômicas.
Olha, me surpreendi com a qualidade dos restaurantes em Brasília! Comi bem em todos os lugares em que estive, desde barzinhos mais básicos, até restaurantes um pouco mais sofisticados. É bem verdade que só comi na Sa Sul, onde estava hospedado, mas não tenho dúvidas de que no outro extremo não teria sido diferente. Destaque para o ótimo Dona Lenha com suas ótimas carnes e seus deliciosos temperos, para o bar Buteko e seus petiscos saborosos e muito bem servidos, ambos nas Quadras, e para o Sallva no Pontão do Lago Sul que além de um cardápio de muito bom gosto tem ótimo atendimento e de quebra uma bela vista para o Lago Paranoá.





COMPRINHAS E AFINS
O CONIC é o point!
Além das muitas opções de shopping centers, Brasilia oferece feirinhas de artesanato como a da Torre de TV com artigos variados de artesanato, as lojinhas dos museus com artigos personalizados e temáticos, e muitas galrias de arte espalhadas por todo o Plano. Mas o grande barato mesmo para o pessoal mais alternativo como eu que quer fugir do convencional, mais interessado por discos, camisetas, games e quadrinhos, é o CONIC, um complexo comercial com má aparência devido a um certo abandono mas que revela-se, ao contrário do que pode-se imaginar, não só totalmente seguro como absolutamente interessante. Ótimas opções em vinil com preços e estilos variados, artigos para colecionadores e amantes de HQ's e lojas de camisetas com estampas muito transadas. Destaque para a Atlântida Discos com muitos títulos em vinil, para a Berlim Discos com mais CD's que LP's; e para a excelente loja de camisetas do Natinho onde além de comprar belas camisetas com estampas feitas por ele mesmo, tive um agradável papo sobre música, literatura e cinema.



PLAYLIST
Minha cabeça é muito musical e estou sempre pensando em alguma música e situações, lugares, frases, pessoas, acabem sempre acionando aquele PLAY automático no cérebro. Nessa viagem não foi diferente, e diga-se de passagem, Brasília é um prato cheio para a memória musical de um cara como eu. Assim, aí vão algumas das músicas que acabavam sempre aparecendo, ligando, acendendo na mente diante de várias situações e por diversos motivos na capital do Distrito Federal.

1. FAROESTE CABOCLO - Legião Urbana
Legião Urbana
Mais do que qualquer outra canção, a saga de João de Santo Cristo suscita diversas "memórias" plantadas pela cinematográfica letra de Renato Russo. Desde a perspectiva da chegada à Capital com o sonho de uma vida melhor, passando por Taguatinga, Asa Norte, Planaltina, até chegar ao fatídico duelo final na Ceilândia, "Faroeste Caboclo", o quilométrico e improvável sucesso da Legião talvez seja a imagem musical mais inspiradora de Brasília. E tudo aquilo pra que? Só pra falar com o Presidente pra ajudar toda essa gente que só faz sofrer.

OUÇA: Legião Urbana - "Faroeste Caboclo"




2. BRASÍLIA - Plebe Rude
O concreto já rachou?
Ah, o riff inicial volta e meia retinia em meu ouvido mental. "Brasília" da Plebe Rude está presente a todo momento e em todo lugar: "Capital da esperança, asas e eixos do Brasil"; "Brasília tem centos comerciais, muitos porteiros e pessoas normais"; "A morte traz vida e as baratas se arrastam". Com uma abordagem mais amarga, mais angustiante e pessimista, ela afirma figurativamente que o concreto da cidade já teria rachado, ou seja que o sonho de cidade ideal já teria desmoronado há muito tempo.

OUÇA: Plebe Rude - "Brasília"




A Asa Norte do Plano Piloto
3. UM TELEFONE É MUITO POUCO - Léo Jaime
Essa não é das melhores, sei, mas não conseguia deixar de pensar nela cada vez que ia em direção à Asa Norte. "E ele foge para a Asa Norte tropeçando em ratos que saem do esgoto". E eu tinha esse disco, hein.

OUÇA: Léo Jaime - "Um Telefone é Muito Pouco"






4. FLOR DO CERRADO - Gal Costa
A flor do cerrado
Lembrei dessa inicialmente quando vi a belíssima peça em ouro de mesmo nome em exposição no Palácio do Planalto, mas depois não deixava mais de pensar nela sempre que me deparava com a espécie propriamente dita espalhada por boa parte da vegetação de Brasília, especialmente no Parque Nacional. Não conhece uma? Bom... "Da próxima vez que eu for a Brasilia eu trago uma flor do cerrado pra você".


OUÇA: Gal Costa - "Flor do Cerrado"




Hino das Diretas Já.
5. CORAÇÃO DE ESTUDANTE - Milton Nascimento
Impossível não lembrar dessa ao visitar o Memorial Tancredo Neves, localizado atrás da Praça dos Três Poderes. Um passeio pela trajetória do homem que representou esperança para o Brasil logo após o fim da ditadura militar e que morreu antes de assumir a presidência. Os comícios, as "Diretas Já", a eleição indireta, a internação e a morte são destacadas no belíssimo espaço projetado por Oscar Niemeyer e que tem trechos da canção de Milton Nascimento escritos nas paredes.

OUÇA: Milton Nascimento - "Coração de Estudante"





Nossa Senhora do Cerrado
nos proteja.
6. TRAVESSIA DO EIXÃO - Legião Urbana
Mais uma da Legião que talvez tenha sido a banda que malhor retratou e mais mencionou a cidade em suas músicas. Cada vez que pegava o Eixo Rodoviário lembrava dessa. Ah, a propósito, nem tentei atravessá-lo a pé.

OUÇA: Legião Urbana - "Travessia do Eixão"





Tema do filme
"República dos Assassinos"
7. NÃO SONHO MAIS - Chico Buarque
Essa não tem a ver diretamente com Brasília mas a menção aos candangos, denominação atribuída aos  brasilienses, a trazia à minha mente constantemente. "Meu amor, vi chegando/ um trem de candango/ formando um bando/ mas que era um bando/ de orangotango pra te pegar".


OUÇA: Chico Buarque - "Não Sonho Mais"






Na parede do Memorial.
8. UM ÍNDIO - Caetano Veloso
Lembrei dessa ao visitar o Memorial dos Povos Indígenas, onde inclusive há trechos da letra nas parede logo na entrada.


OUÇA: Caetano Veloso - "Um Índio"







Ótima capa do disco
"Vítimas do Milagre"
9. TÁ COM NADA - Detrito Federal
Essa não é tanto pela música que, embora fale de Nova República, Tancredo e tal, não faz uma menção objetiva à cidade em si. É muito mais pela emblemática capa do álbum da banda, que vem muito a propósito nos dias atuais. Sempre lembrava dela ao visualizar lá ao fundo da Esplanada do Ministérios, o Congresso Nacional.

OUÇA: Detrito Federal - "Tá Com Nada"





JK no alto de
seu Memorial.
10. FILHO ÚNICO, IRMÃO DE TODOS - Moacir Franco
Na verdade não me orgulho muito de ter lembrado dessa mas a visita ao Memorial JK fez com que inevitavelmente ela viesse à minha mente. Ouvia muito essa música, por incrível que pareça, no antigo programa Festa Baile da TVE, apresentado por Agnaldo Rayol, que minha querida vó assitia. De vez em quando Moacir Franco dava as caras por lá e cantava essa. É... A gente não tem muito controle sobre a memória, não é mesmo?

OUÇA: Moacir Franco - "Filho Único, Irmão de Todos"





Abaixo alguns registros fotográficos da capital brasileira:


"Os Guerreiros", ou "Os Candangos"
como também é conhecida a estátua
na Praça dos Três Poderes

Visitamos a Praça dos Três Poderes em dia de troca da bandeira.

Desfile militar e salva de tiros para a bandeira nacional.

Brasília vista "de trás". Fascinate de qualquer ângulo.

O Memorial Tancredo Neves.

O interior do Memorial a Tancredo com o livro de heróis nacionais (abaixo à direita)
e ao fundo um belíssimo painel sobre a Inconfidência Mineira.

O Supremo Tribunal Federal.
Será que essa justiça está sendo mesmo imparcial utlimamente?

A famosa rampa do Palácio do Planalto.

Perfil do Planalto com a bandeira ao fundo.

O interior guarda grande quantidade de obras de arte como esta,
"O Circulo".

Painel de Burle Marx no Salão Oeste.

Também no Planato, "Galhos e Sombras" de Franz Kerjcberg.

A aquitetura já é uma obra de arte no Palácio.

Onde as tramas são feitas.
O Gabinete da Presidência.

A rampa do Planato de dentro para fora
guarnecida pelos Dragões da Independência.

O blogueiro em frente ao Congresso Nacional.

Outro prédio que abriga inúmeras obras de arte´
ao longo de seus corredores, salas e salões.
Aqui o Salão Verde.

A toca dos ladrões, digo,... o plenário da Câmara

Eu no Senado.
Outro antro de... Bom, deixa pra lá.

Vista do Congresso para a Esplanada.


O belíssimo Palácio da Justiça e suas águas.

Outro admirável prédio, o Palácio do Itamaraty.
à sua frente a escultura "Meteroro" de Bruno Giorgi.

Mais uma das muitas obras de arte de Niemeyer,
a escada interna do Itamaraty.

Os jardins do Itamaraty ficaram a cargo de Burle Marx
e dividem espaço com belíssimas obras de arte.

A Biblioteca Nacional.

Mais uma impressionante obra de Oscar Niemeyer,
o Museu Nacional.

Espaço interno do Museu.

A Catedral de Brasília.

Os belíssimos vitrais da artista franco-brasileira Marianne Peretti.

Ainda no Eixo Monumental, mas afastando-se um pouco
temos a Torre de TV que proporciona de seu alto
uma privilegiada vista da cidade.

Vista de parte da Asa Sul com a Ponte Juscelino Kubitschek ao fundo.

Declaração de amor à cidade ao pé da Torre.

Mais adiante, no Eixo, o Memorial das Nações Indígenas.

Mias uma admirável obra de Oscar Niemeyer
com seu percurso circular em declive que chega ao pa´tio central.

O Memorial JK.

Grande acervo, vídeos, fotos e objetos pessoais
do homem que tirou Brasília do papel.

Em frente ao remodelado Estádio Mané Garrincha
com sua imponente colunata.

Afastando-se um pouquinho do centro o belíssimo Palácio da Alvorada.

Vegetação típica de cerrado no Parque Nacional, na Asa Norte.

A piscina de água mineral bombando no Parque Nacional.

Outra atração é o Jardim Zoológico, na Asa Sul.

O lindo tigre albino no Zoo de Brasília.

Área de estar e lazer à beira do lago Paranoá
num píer calçadão na Asa Norte.

E outra ótima opção de lazer e gastronomia à beira das águas
é o Pontão do Lago Sul.

Um dos arcos da imponente
Ponte Juscelino Kubitschek.

Aqui a Ponte JK vista por inteiro.

Bom, eu resolvi botar uma ordem nessa zona
e estou aqui para anunciar que vou assumir essa bagaça.



Cly Reis