- Paul: Isso é bom, eu gosto de surpresas. O que é?
- Jeanne: Música, só não sei como fazer isso funcionar.
Diálogo entre Jeanne (Maria Schneider) e Paul (Marlon Brando) do filme "O Último Tango em Paris"
"O Último Tango em Paris", trilha sonora que Gato Barbieri compôs em tempo recorde seguindo as orientações de Bernardo Bertolucci, é uma imensa suíte em que se destaca o sax áspero e quente de Gato, envolto pelos arranjos de Oliver Nelson à frente de uma orquestra de 32 músicos. Sobra espaço ainda para dois percussionistas brasileiros, Afonso Vieira e Ivanir do Nascimento, o Mandrake, músico há muito radicado na Itália, primo de Pelé.
A trilha foi um fenômeno. Recorde de vendas para um disco instrumental e presença nas programações das rádios. Colocaria a carreira de Gato no seu mais alto patamar. Depois disso, ele nunca faria nada tão relevante.
A morte de Bernardo Bertolucci finalizou um capítulo que se manteve para sempre incompleto e obscuro na história da música e do cinema, envolvendo disputas, ciúmes, invejas, traições e acusações de plágio. O próprio cineasta nunca fez questão de explicar o que houve, tampouco Gato Barbieri, que enveredaria por novos caminhos em sua música, mantendo-se ativo até morrer, em abril de 2016, aos 83 anos.
Rejeitado para a trilha, Astor Piazzolla, morto em 1992, repassaria as duas composições que havia feito para o filme para que fossem usadas noutro longa-metragem, "Cadáveres Ilustres", de Francesco Rosi. Quando "O Último Tango em Paris" foi lançado, chegou a dizer que poderia ter composto uma trilha superior. Para amigos, admitia que gostava muito da gravação de Gato Barbieri.
Uma das missões de minha profissão, a de jornalista, é a de, a partir de
meu filtro capacitado e abalizado, informar as pessoas daquilo que não lhes está
evidente, ajudando-as a se elucidar e formar opinião. Quando se trata de
assuntos envolvendo cultura e arte, não é diferente. Levar-lhes o “não óbvio”,
aquilo que não conhecem, pois o que já conhecem não precisa, certo? Não exatamente.
Há tanta confusão de informação no ar (e nas redes) que o “óbvio”, por
desconhecimento ou falta de critério, mistura-se com o irrelevante ou passa até
a ser relegado. Os melhores filmes franceses de todos os tempos, por exemplo: numa
recente lista, vi apontados títulos queridinhos como “O Fabuloso Destino de
Amélie Poulin” e “Intocáveis” como sendo indispensáveis, enquanto que não
figuraram nada de Jean Vigo ou Michel Carné. Ora, convenhamos! E olha que
não estou nem falando de obras de cineastas menos conhecidos, mas igualmente merecedores,
como Sacha Guitry ou Julien Duvivier – mas aí, seria exigir demais.
O cinema francês é um dos mais ricos e referenciais da cinematografia
mundial, desde os irmãos Lumière até as escolas e movimentos que este promoveu
ao longo do tempo, como o Realismo Poético, o Cinema Vérité e a revolucionária Nouvelle
Vague. Nada contra os bons “Intocáveis” ou “Amélie Poulin” – este último, aliás,
se tivesse que escolher um de Jeunet, preferiria “Delicatessen” ou “Ladrão de
Sonhos”. Porém, basta conhecer um pouco da história do cinema do país de Victor
Hugo para enxergar o rico e numeroso universo de produções relevantes para além
desses sucessos recentes. O pioneirismo, as inovações estilísticas, as contribuições
técnicas e teóricas se deram em vários momentos da história da sétima arte.
Definitivamente, o cinema francês não deve ser reduzido a uma amostra que nem
de longe reproduza seu tamanho e importância.
Por conta disso, elaborei uma lista de 20 títulos realmente essenciais
para se compreender e admirar o cinema francês. Óbvios para mim, mas a quem não
conhece ou se enreda em avaliações mal ajuizadas, talvez não. Afora a
criteriosa tarefa de selecionar os mais relevantes entre tantos títulos ótimos,
elencá-los foi delicioso. Estão aqui mencionados, sem ordem de preferência,
clássicos que determinaram épocas, obras-primas consagradas do cinema mundial e
filmes que cumpriram papéis além do próprio cinema: tornaram-se ícones da arte
e da cultura do século XX, como “Acossado”, “A Regra do Jogo” ou “A Nós a
Liberdade. A ideia foi a de constar um de cada grande realizador, embora alguns
(Truffaut e Resnais, por exemplo) inevitavelmente haja mais tendo em vista a indispensabilidade
das realizações citadas. Também, dentro da lógica de informar a partir de meu
filtro pessoal, se perceberão toques de meu entendimento próprio. De Carné,
optei por incluir “Os Visitantes da Noite” e não o consagrado “O Boulevard do
Crime”; De Buñuel, “O Discreto Charme da Burguesia” a “Bela da Tarde”; De Godard,
“Je Vous Salue, Marie” a algum dos cult-movies
dos anos 60, como “Pierre Le Fou” ou “Alphaville”. Crítica pessoal pura, mas
que em nada prejudica a representatividade da seleção como um todo.
Claro, ficou de fora uma enormidade de coisas, como “Lacombe Lucien”,
de Malle, “Orfeu Negro”, de Camus, “Eu, um Negro”, de Rouch, “A Bele e a Fera”,
de Cocteau, ou “Napoleon”, de Gance. Privilegiou-se os essencialmente
franceses, por isso não aparecem co-produções como “O Último Tango em Paris” ou
“A Comilança”. Também não entraram nada de Maurice Pialat, Eric Rohmer,
Costa-Gavras, Jacques Demy, Jacques Rivette... Paciência. Além da impossível
unanimidade de listas, uma como esta, que represente algo tão relevante e robusto,
incorreria em incompletude. Uma coisa é certa: não perdemos tempo com
irrelevâncias. Ah, isso não. Voilà!
- “Viagem à Lua”, de Georges Méliès (“Le Voyage dans la lune”, 1902)
- “A Nós a Liberdade”, de René Clair (“À Nous la Liberté”, 1931)
- “Zero de Conduta”, de Jean Vigo (“Zéro de conduite”, 1933)
Poster original de
"Zero de Conduta"
- “A Regra do Jogo”, de Jean Renoir (“La Regle Du Jeu”, 1939)
- “Os Visitantes da Noite”, de Michael Carné (“Les Visiteurs du Soir“,
1942)
- “Orfeu”, de Jean Cocteau (“Orphée”, 1950)
A visão de Cocteau para a
saga de Orfeu
- “As Diabólicas” (“Les Diaboliques”), de Henri-Georges Cluzot (1955)
- “Meu Tio”, Jacques Tati (“Mon Oncle”, 1958)
- “Os Incompreendidos”, de François Truffaut (“Les 400 Coups”, 1959)
Cena do revolucionário
"Os Incompreendidos"
- “Os Primos”, de Claude Chabrol (“Les Cousins”, 1959)
- “Hiroshima, Moun Amour”, de Alain Resnais (1959)
- “Acossado”, de Jean-Luc Godard (“À bout de souffle”, 1960)
- “O Ano Passado em Marienbad”, de Alain Resnais (“L'Année dernière à
Marienbad”, 1961)
- ‘Jules et Jim”, de François Truffaut (1962)
- “Cleo das 5 às 7”, de Agnès Varda (“Cléo de 5 à 7”, 1962)
- “La Jetée”, de Chris
Marker (1962)
As impressionantes foos de Marker
que compõe a narrativa de "La Jetée"
- “Trinta Anos Esta Noite”, de Louis Malle (“Le feu follet”, 1963)
- “O Discreto Charme da Burguesia”, de Luis Buñuel (“Le charme discret
de la bourgeoisie”, 1972)
- “Je Vous Salue, Marie”, de Jean Luc Godard (1985)
"Je Vous Salue, Marie", a produção
mais recente da lista
junto com Betty Blue
- “Betty Blue”, de
Jean-Jacques Beineix (“37° le Matin”, 1986)
Acabo
de ler "Marlon Brando - A face sombria da beleza", do
jornalista francês François Forestier, que já biografou JFK e Marilyn Monroe. O presentaço veio do amigo Francisco Bino, que, na
dedicatória, fez uma previsão um tanto cômica: "Che, tu vai
ler tão rápido que vai parecer ejaculação precoce - desse mal Brando não sofria". Na verdade, acho que foi o único mal do
qual esse puta ator não padeceu.
Brando teve infinitas personalidades. Ora anjo, ora monstro. Mais monstro do
que anjo, diga-se. Na arte dramática, soube ser Midas; na vida real,
foi Medusa. Único, rebelde, encantador, arrogante, trágico. Ao
mesmo tempo em que conquistava todos à sua volta, fazia-se
repugnante. Antes de filmar algumas cenas de "Uma rua chamada
pecado", praticava um ritual que começava por uma leve
masturbação, depois molhava a calça jeans e, por fim, abria a
braguilha. Pronto, agora Stanley Kowalski poderia se exibir aos
colegas - em especial, à Blanche DuBois-Vivien Leigh.
Desdenhava
a profissão. Não lia roteiros, não decorava falas. Improvisava e
tomava conta dos sets como se fosse o dono de estúdio - havia
exceções, como com John Houston e Francis Ford Coppola, por
exemplo. Ainda no teatro, quando fazia "Um bonde chamado
desejo", tinha como hobby "brincar de boxe" com
figurantes e atores substitutos. Certo dia, levou um direto no rosto
que quebrou seu nariz. O autor da proeza: um jovem desconhecido
chamado Jack Palance, que se orgulharia a vida inteira do feito. Sua
grande diversão era chocar, chamar a atenção. E conseguiu. Todas
as mulheres do universo, de Hollywood ao Taiti, do México às
Filipinas, caíram em tentação. Entre as que sucumbiram, Ava
Gardner (então namorada de Frank Sinatra, que mandou capangas darem
um "recado" a Brando envolvendo a palavra "castração"), Marilyn Monroe (a quem ele não dava bola - "era muito
bunduda") e Vivien Leigh (então esposa de Laurence Olivier,
bissexual e grande referência para Brando, tanto no cinema quanto no
teatro).
Na adolescência como
protagonista de
"O Selvagem"
O
homem que virou rei de Hollywood, que defendeu indígenas e panteras
negras, nunca escondeu a sexualidade aflorada, intransigente,
desafiadora, inquietante. Gostava de mulheres exóticas - Rita
Moreno, Movita Castañeda, Katy Jurado, Tarita Teririipaia. E de
homens, também. Entre eles, os parceiros de toda vida: Wally Cox e
Christian Marquand. Brando nunca negou sua bissexualidade. Bernardo
Bertolucci teria se apaixonado por ele, incutindo sua obsessão nas
transgressões entre Brando e Maria Schneider em "O último
tango em Paris". O ator gostava tanto de gente quanto de Russel,
seu guaxinim. Teimava, no entanto, em não gostar de si. Ainda que
não bebesse ou consumisse drogas (influência pela vida errante
levada pela mãe, Dodie), Brando maltratava o próprio corpo comendo
desenfreadamente. A grande paixão? Sorvete. Potes e mais potes, que
o faziam engordar quilos de um dia para o outro. Aos 30 anos, por
estar "muito rechonchudo", quase perdeu o papel de "O
selvagem" para Montgomery Clift - que fazia sombra a Brando
desde "Uma rua chamada pecado", sendo, na época, um dos
grandes queridinhos de Hollywood. Monty era bonito, educado,
inteligente e homossexual. Ainda que tomasse conta de qualquer
ambiente, Brando baixou a bola para um colega de "O selvagem".
Um ex-fuzileiro naval mal-encarado chamado Lee Marvin fazia-no
tremer. Para Marvin, aquele motoqueiro falso requebrava um pouco além
da conta. "Maricão", dizia. "Não passa de um
monte de merda".
Dali
em diante, entre péssimos filmes e parcas boas exceções, como o
genial "Sindicato de Ladrões" (novamente de Kazan), Brando
via seu peso aumentar na mesma medida em que as confusões sucediam
em sua vida pessoal - sempre envolvendo mulheres. No começo dos anos
70, foi parar em "O Poderoso Chefão", já gordo e
decadente, com 58 anos, depois que o papel fora recusado por Laurence
Olivier e George C. Scott. Brando estava desacreditado, assim como o
filme, negado por vários diretores até parar nas mãos de um jovem
de 31 anos chamado Francis Ford Coppola. Sem dinheiro e credibilidade, Brando trocou 5% de participação na bilheteria por
U$ 100 mil. Deixou de ganhar, por baixo, U$ 10 milhões. Mas
recuperou a estima, a aura que havia ido pelo ralo. Depois dos
primeiros dias de filmagem, quando quiseram trocar Coppola pelo velho
mestre de Brando, um dedo-duro do Macartismo chamado Elia Kazan, Don
Corleone acariciou um gatinho e bateu pé: "se tirarem Coppola, também saio". Assim, Coppola ficou. Ficando, fez uma
obra-prima. Ficou rico e conseguiu dinheiro e renome suficiente para
realizar seu maior sonho, uma insanidade chamada "Apocalipse
Now". Tão insano quanto os 125 quilos com os quais Brando
chegou às locações, nas Filipinas.
Brando encarnando o célebre
Cel. Kutz em "Apocalypse Now"
Sobre
"Apocalipse Now", Forestier escreve: "As filmagens
seriam afetadas por um furacão, que destrói os cenários; o ator
principal, Harvey Keitel, não podia ser mais irritante. É pior que
Brando, no estilo Actors Studio. A cada saleiro depositado na mesa,
Keitel pergunta: ‘Mas por quê? Desde quando? Qual a história
desse saleiro? E dessa mesa?’. Coppola o manda embora. O
substituto, Martin Sheen, é satisfatório, mas... sofre um ataque
cardíaco, de cansaço. Passam-se os dias. A película prende nas
câmeras, por causa da umidade. Os técnicos fumam, se drogam,
contraem doenças desconhecidas. Os mosquitos atacam os brancos. Os
bifes importados dos Estados Unidos chegam descongelados, ou mesmo
podres. Encantadoras figurantes incitam os atores e maquinistas a se
entregarem a atos imorais - mas saborosos. O próprio Coppola cede
aos encantos das coelhinhas da Playboy que participam das filmagens.
O exército filipino recusa-se a emprestar helicópteros. Brando
raspa a cabeça. Dennis Hopper, o bad boy de ‘Sem Destino’,
chega. Drogado até o pescoço, recusa-se a tomar banho. Passada uma
semana, ninguém mais lhe dirige a palavra - exceto por telefone. Ao
fim de 40 dias, passa a ter direito a um ônibus particular: ninguém
mais quer entrar na condução com ele. Brando desaparece na selva."
Em
2004, aos 80 anos, Marlon Brando morreu. Apesar de ter tido o mundo
ao seu dispor, pereceu sozinho, assistindo uma comédia sem graça de
Abbot & Costello. Talvez comendo um McDonald´s daqueles que eram
jogados por cima do muro por um funcionário da lancheria mais
próxima de sua casa, em Mulholand Drive. Partiu não sem antes ter
vivido uma sequência de tragédias que, se fosse transformada
roteiro de cinema, perderia credibilidade - tamanho surrealismo. Em
1990, seu filho Christian Brando, um drogado problemático de QI
abaixo da média, dá um tiro na cabeça do cunhado, Drag Dollet, na
sala da casa do ator. Brando presencia os momentos seguintes e
procura inocentar o filho "atuando" no tribunal. Cheyenne,
a filha viúva, é outra problemática. Viciada em drogas e remédios,
estava grávida do agora finado namorado. Depois de inúmeras
tentativas de suicídio, a garota conseguiu se enforcar (“com
sucesso”) em 1995, aos 24 anos.
Entre
a sedução de Kowalski, a luta de Zapata, a ingenuidade de Terry
Malloy e a sagacidade de Vito, fico com a insanidade de Kurtz. Ou de
Brando, tanto faz. Ao fim e ao cabo, this will never be the end.
porRicardo Lacerda
Ricardo Lacerda é jornalista, chato e curioso. Desde que se conhece
por gente, vê filmes e escuta música de “gente velha” – como
diziam os amigos do colégio. É aficionado por folclore
latino-americano, curte Paulo Leminski e Pedro Juan Gutierrez –
entre doses de Salinger e Hesse. Na tela, aceita quase tudo – salvo
exceções. Foi editor da revista APLAUSO. Formado pela PUC, tem
especialização em Relações Internacionais pela ESPM e é sócio
da República – Agência de Conteúdo, de onde escreve para
publicações como Superinteressante, AMANHÃ, Voto e Jornal do
Comércio.