O marcante personagem Dorival, do filme de Furtado e Goulart
A proposital sensação de
incompletude que a última tomada de “O Dia em que Dorival Encarou a Guarda”, de
Jorge Furtado e José Pedro Goulart, de 1986, deixa para o espectador, parece
premeditar uma noção ética a qual o cinema gaúcho irremediavelmente ainda iria
se deparar. Naquele meado de anos 80, quando ainda se vivia sob a sombra da
ditadura e ansioso por uma democracia que nunca chegava, fazia muito sentido a
cena em que o militar vivido por Sirmar Antunes, sem (conseguir) verbalizar uma
palavra, minimamente se compraz do encarcerado Dorival (João Acaiabe), homem
negro como ele, alcançando-lhe um cigarro após este último ser linchado
fisicamente pelos colegas e mais uma vez psicologicamente pela sociedade.
Quem, como eu, um negro que viveu
aquela década em Porto Alegre – cidade onde o referido filme foi rodado –,
lembrará, por exemplo, que “música de preto” só se escutava na finada Rádio
Princesa, dial “oficialmente instituído” para que o hoje tão valorizado samba
tivesse onde rodar. Qualquer semelhança com os vissungos e lundus entoados e
dançados nas senzalas não é mera coincidência – nem preciosismo semântico, no
caso. Tanto o exemplo do filme quanto o da rádio mostram o quanto o
silenciamento do negro era preponderantemente estabelecido naqueles idos.
Precisaram mais de três décadas para, enfim, começarmos a avançar nesses
aspectos. Mas não sem conflito.
Cartaz original do filme "Inverno", que motivou a live da APTC
As reticências imaginárias da
cena derradeira do curta de Furtado e Goulart convidavam que alguém continuasse
escrevendo aquele texto de barbárie para uma narrativa de transformação. E o
avanço social se encarregou disso. Os ventos de indignação provocados pelo
episódio George Floyd nos Estados Unidos tomaram tanta força que, mais intensos
que um minuano, vieram soprar aqui nas paragens do Rio Grande do Sul. Mais
precisamente, na mesma Porto Alegre das senzalas que apartavam tanto o Dorival em
sua cela e o samba nas ondas da Rádio Princesa há cerca de 35 anos. E soprou de
forma violenta a ponto de desestabilizar antigas estruturas. O recente episódio
da live promovida pela Associação Profissional de Técnicos Cinematográficos do
Rio Grande do Sul (APTC-RS) sobre o filme “Inverno” (1983), no dia 3 de julho, mediado
por Giordano Gio e com a presença de Carlos Gerbase, Luciana Tomasi, Giba Assis Brasil e Luciene Adami (integrantes da equipe) e a realizadora e roteirista
Mariani Ferreira, abriu como jamais visto nestas terras um debate sobre dois
aspectos que pareciam fadados ao estado de silêncio: a presença de negros no
setor audiovisual gaúcho e, o mais grave deles – visto que é a raiz explicadora
do primeiro aspecto –, o racismo.
Os parcos números da
representatividade negra no setor audiovisual gaúcho falam por si. Sabe-se que
o estudo "Diversidade de gênero e raça nos lançamentos brasileiros de
2016", divulgado pela Agência Nacional do Cinema (Ancine) em 2018, embora
a defasagem para os dias atuais, não mudou muito de lá para cá. Dos 142 longas
exibidos comercialmente no circuito, apenas 2,1% foram dirigidos por homens negros,
e sequer um dirigido ou roteirizado por uma mulher negra naquele ano. Em termos
históricos, apenas cinco longas foram dirigidos por pessoas negras no Rio
Grande do Sul: “Um É Pouco, Dois É Bom” (1970), de Odilon Lopez; “Porto dos
Mortos” (2012), de Davi de Oliveira Pinheiro; “Central – O Filme” (2016), de
Tatiana Sager e Renato Dornelles; “De Boca em Boca” (2016), de Wagner Abreu; e
“O Caso do Homem Errado” (2017), de Camila de Moraes.
A exemplo do já mencionado
curta-metragem de Furtado e Goulart, a intencionalidade de mudança não precisa
vir necessariamente de pessoas negras. Até é bom que não seja sempre assim. Além
deste, o cinema gaúcho conta com longas-metragens como “O Homem que Copiava”
(2003) e “Meu Tio Matou um Cara” (2004), ambos também de Furtado, que trazem
atores negros como protagonistas – Lázaro Ramos e Darlan Cunha, respectivamente
– e que, cada um a seu modo, buscam contextualizar a condição do negro na
sociedade brasileira do início do século 21. Mais do que estes, contudo, o já
referido “O Dia em que Dorival Encarou a Guarda” é o que, mesmo com o
consciente e salutar respeito ao “lugar de fala” de quem o dirige, duas pessoas
brancas, vai na raiz do problema do racismo ao valer-se do estereótipo para chegar
à crítica, e não para normatizá-la.
Darlan e Lázaro em "Meu Tio Matou um Cara": raros protagonistas negros na história do cinema gaúcho
Se o exemplo de Furtado e Goulart
é louvável, é também, num espectro maior, insuficiente. Segundo o professor e
mestre em História pela UFRGS, Cléber Teixeira Leão, pesquisador da temática
racial com foco nos estudos críticos da branquidade, é fácil perceber um
pensamento brancocêntrico tanto no cinema gaúcho quanto no nacional focado na
universalização de uma história do Rio Grande do Sul e do Brasil a partir de um
recorte da visão do branco. “Sempre que é necessário fazer um recorte racial ou
mesmo socioeconômico, a película chega carregada de estereótipos quando trata
do negro e do indígena. Mas o mesmo cinema positiva e deifica a questão
imigratória, os relacionamos à música, à arte plástica dos descendentes de
europeus, os brancos”, argumenta Leão.
Se os números anteriormente citados
falam por si, mais ainda o fazem os depoimentos ouvidos na live da APTC.
Verbalizadas pela produtora Luciana Tomasi e indiretamente consentidas por
outros participantes durante a reunião virtual, as falas foram motivadas, sem
dúvida, pela presença instigadora de Mariani Ferreira. Integrante do Macumba
Lab, coletivo de profissionais negros e negras do audiovisual no Rio Grande do
Sul, tanto sua articulação intelectual quanto condição de mulher negra desacomodaram.
Não o fariam, contudo, se ela não trouxesse questões como raça e gênero,
assumindo o silenciamento historicamente engendrado. Mas, não. Nas respostas a
suas colocações – até certo ponto revisionistas, mas inequivocamente plausíveis
e genuínas –, reverberam questões como identidade, normatização da hegemonia
branca, necessidade de representatividade negra, desvirtuamento do "lugar
de fala", entre outros aspectos. Todos, analisados juntos ou
separadamente, demonstram o quanto não se está preparado para enfrentar a
discussão do racismo com a responsabilidade que o tema exige, mas também que
fazê-lo urge.
Dois aspectos observados no
episódio da referida live merecem especial atenção. Primeiro, conforme
levantado por Leão, a idealização da herança europeia, um dos argumentos usados
por Luciana para justificar sua desatenção à questão do negro na produção
audiovisual porto-alegrense. ”A discussão trazida na live da APTC sobre cinema
gaúcho, na realidade, demonstra justamente esse recorte de uma Porto Alegre criada
a partir de uma construção brancocentrada, que tenta reivindicar uma identidade
pseudoeuropeia branca que, se diga, a cidade não tem. Não somos uma capital
somente de descendentes de europeus: existem múltiplas raízes raciais e de
ancestralidade que percorrem as ruas de Porto Alegre”, diz o professor.
Não se trata de policiar a
liberdade artística – quanto menos, inutilmente aquela que já se produziu – e
nem desqualificar a inquestionável contribuição que a geração desses
precursores do novo cinema gaúcho deu. No entanto, explicar o desinteresse com
a causa dos negros pela simples ausência de contato com esta é, além de muito
confortável, fraco e irresponsável de quem se espera, como agente cultural
importante do Estado, algo bem mais refletido. “A questão que surgiu na live, a
partir da fala da produtora Luciana Tomasi, era a de uma impossibilidade de
dialogar com a história e temáticas não brancas, que compõem a história e a
sociedade porto-alegrense, pois sua herança sanguínea europeia, assim como a de
alguns dos participantes da live, impossibilitava essa abordagem”, observa
Leão. Os dois referidos longas de Furtado são produzidos por Luciana Tomasi, e
não à toa deixei para voltar a referi-los aqui. O que talvez pudesse ser um
lapso de desaviso soa, agora, como reconfirmação desse descompromisso
anacrônico e segregador.
Mariani Ferreira: articulação intelectual e condição de mulher negra
Ligado a esse aspecto, o outro
que destaco se resume num vocábulo, o qual, infelizmente, diz muito mais do que
se gostaria. Luciana, ao discorrer que pessoas com sobrenome como o dela ou
Schünemann, Adami, Gerbase e de semelhante ascendência europeia, diz não ter condições,
pelas razões citadas anteriormente, de fazer um filme da “senzala”. Leão nota nessa
fala o quanto só se consegue perceber os grupos não brancos dentro da história
gaúcha ou nacional a partir da abordagem de submissão da escravização negra – e
isso é muito grave. “A percepção sócio-histórica manifestada nessa fala
impossibilita uma ruptura com esse estereótipo, que é construído dentro de um
processo de racialização imposto e construído pelo branco, que não se entende
historicamente como raça, nem tampouco como privilegiado ao definir os nichos
onde cada um dos grupos não brancos são categorizados histórica e socialmente”,
completa.
Quando o roteiro de “O Dia em
que...” foi escrito – coassinado por Furtado, Goulart, Tabajara Ruas, Ana Luiza Azevedo e Giba Assis Brasil –, intencionalmente o protagonista, tão veículo de pré-concepção
quanto de denúncia, não tinha sobrenome. Era Dorival e pronto. Precisava-se,
por meio desse elemento narrativo, evidenciar a desumanização. Hoje, reivindica-se,
com probidade, a menção a Oliveira Silveira. Eu, cria daqueles ricos mas também
atrasados anos 80, vi, por muito tempo, as manifestações contra o racismo –
vindas invariavelmente apenas dos próprios negros – justificadamente reativas,
mas pouco argumentativas. Agora, é diferente.
O sistema foi estremecido, e não
demorou para que o meandro estrutural do racismo, sustentado pelo preconceito
arraigado, aparecesse. Agora, é hora de romper o silêncio e encará-lo.
“Torna-se necessário”, diz Leão, “pensar a visão brancocêntrica acrítica, que
só permite pensar os não brancos dentro de determinados nichos, o que, em si,
faz parte do que chamamos de racismo estrutural”. Para ele, é necessário romper
essa nada apreciável tradição gaúcha, que tenta buscar ainda uma positivação
racial branca europeia disfarçada de étnica. A continuidade da política de
cotas nas universidades, que já vem mostrando resultados consistentes de
transformação e inclusão social, e o fomento a projetos como Macumba Lab, por
exemplo, são fundamentais para essa mudança de realidade. Segundo a professora doutora
de filosofia Andrea Maila Voss Kominek, “conhecer nossas raízes e repensar
nossa realidade representam o único meio possível para uma sociedade justa e
igualitária. Desconsiderar o problema do racismo no Brasil é ser
conivente. É permitir que a desigualdade se perpetue. Reconhecê-lo, conhecê-lo
e discuti-lo constitui o primeiro passo rumo a uma sociedade livre”.
De fato, o audiovisual gaúcho
levou um grande susto ao ver emergir o racismo das grades que o escondiam,
fosse na cela do personagem Dorival, fosse na referida senzala onde
indiretamente condena-se a existência de uma raça. Políticas estão sendo
tomadas, posições estão sendo revistas, governo e entidades estão correndo
contra o tempo para responder a essa lacuna social e moral deixada pela brutal escravatura
no Brasil e (tão bem) assimilada entre os homens. Mas as sociedades avançam, e
isso é irrefreável, inclusive no autocomplacente Rio Grande do Sul.
Dia 3 de julho foi o dia desse avanço
em direção a entendimentos mais amplos e plurais, mesmo que para isso tenha-se
que brigar, apontar erros e expor aquilo que precisa ser dito. O dia em que o
cinema gaúcho encarou o racismo. Só assim cidades como Porto Alegre podem ter,
cada vez mais, representada nas mais diversas áreas não apenas a influência
europeia, mas a de outras culturas como a africana. Como a brasileira, aliás, única,
pois mestiça e universal. E que pessoas como Dorival possam, resgatadas suas
dignidades, responder com nome e sobrenome. Assim, um sobrenome ao mesmo tempo comum
e digno, como um Oliveira Silveira ou o de quem assina este artigo.
***************
curta “O Dia em que Dorival Encarou a Guarda”,
de Jorge Furtado e José Pedro Goulart (1984)
por Daniel Rodrigues
Artigo originalmente publicado no Blog Roger Lerina escrito a convite do jornalista
Quem me conhece sabe que a minha banda brasileira favorita veio da
Bahia não é o Camisa de Vênus. Claro que são os Novos Baianos. E toda vez que
alguém fala neles, pensa direto em "Acabou Chorare", um verdadeiro... clássico
da MPB de todos os tempos. Adoro este disco. Mas o meu favorito deles é outro:
“Novos Baianos F.C.”, terceiro disco da trupe, lançado um ano depois do “Acabou...”.
Pensem bem: depois de fazer um disco como aquele, como seguir em frente? Pois
Pepeu, Baby, Paulinho e Moraes e sua gangue resolveram fazer um LP falando das
coisas que faziam parte da sua vida cotidiana naquele sítio em Jacarepaguá onde
viviam em total harmonia (mais ou menos, né? como ficou claro no filme "Filhos de João - O Admirável Mundo Novo Baiano", de Henrique Dantas).
A brincadeira começa com “Sorrir e Cantar Como Bahia”, música de Luiz
Galvão e Moraes Moreira que faz um jogo de palavras com a gravidez de Baby
Consuelo e a maternidade do planeta: “Mãe
pode ser e ter bebê/ E até pode ser Baby também”. Ela estava
permanentemente grávida de Riroca, Zabelê e Nana Shara, suas três meninas que
se tornariam o trio SNZ. O futebol do título está presente em “Só Se Não For
Brasileiro Nessa Hora”. Como cronista do cotidiano, Galvão consegue mostrar
exatamente o que acontecia nas ruas do Brasil, até bem pouco tempo, o joguinho
de bola na calçada: “Que a vida que há do
menino atrás da bola/ para carro, para tudo/ quando já não há tempo/ para
apito, para grito/ E o menino deixa a vida pela bola/ Só se não for brasileiro
nessa hora”. O lado nonsense de
Galvão, o letrista da banda, aparece em “Cosmos e Damião”, uma verdadeira
viagem onomatopaica na voz de Paulinho Boca de Cantor. Olhem que maluquice: “Qui qui qui qui qui não é qui qui qui/ Que
bom é bom demais pra ser aqui/ Onde um faz hum e outro hum hum/ Mas que bom,
todos hum!/ Como um dia, não ria ?/ Sorria como nós...um dia como esse de
Cosmos e Damião/ você pode até dançar com Damião/ Mas quem contrariar a lei do
Cosmos/ não vai pagar/ já paga ao contrariar”. Doideira total emoldurada
pelas guitarras, bandolins e violões de Pepeu e Moraes, o baixo de Dadi,
Jorginho Gomes na bateria mais Paulinho, Baby, Baixinho e Bola nas percussões.
Eles fazem a gente cantar estes versos enlouquecidos.
Uma das influências mais marcantes do grupo, Dorival Caymmi, é
reinterpretado e rearranjado em “O Samba da Minha Terra”. Uma mistura de MPB
com Jimmi Hendrix, a versão deles valoriza o verso: “Quem não gosta de samba/ Bom sujeito não é/ É ruim da cabeça ou doente
do pé”. Esse sim é o verdadeiro roque brasileiro, onde as guitarras
convivem harmonicamente com a percussão e não copiam ninguém. Ao ouvir os
discos dos Novos Baianos – e esse, em particular –, fico imaginando porque
grande parte da gurizada se deixa seduzir pelo “rock brasileiro” dos anos 80.
Todas as bandas daquela fase são inspiradas em algum grupo inglês do período.
Poderia também dizer copiadas. Enquanto isso, os NB usaram a incrível e
inesgotável matriz de ritmos nativos para fazer uma música criativa e
inteligente. “Vagabundo não é Fácil” é outro exemplo das letras maluquetes de
Galvão numa cama de samba com um surdo bem marcado: “Se eu não tivesse com afta/ até faria uma serenata pra ela/ Que veio
cair de morar/ Em cima de minha janela”. Lá pelas tantas, rola uma rima de “Bicarbonato
de sódi”o com “pessoas sem ódio”. Hilário! E no final, mais um jogo de
palavras: “Ao menos leve uma certeza/
Você me deixa doído/ Mas só não me deixará doido/ Porque isso sou/ Isso eu já
sou”. Na sequência, outro sambão daqueles de sair cantando pela rua: “Com
Qualquer Dois Mil Réis”. Na voz de Paulinho Boca de Cantor, a música brinca com
a figura do malandro carioca: ”E o malandro
aqui/ Com Qualquer Dois Mil Réis/ Põe em cima uma sandália de responsa e essa
camisa/ de malandro brasileiro/ que me quebra o maior galho”. E o refrão é
chicletaço musical: “E esse ano não vai
ser/ Igual aquele que passou/ oh oh oh oh oh que passou”.
Depois deste samba balançado, vem a faixa mais “roquenrou” de todo o
disco, “Os Pingo da Chuva”, que Baby Consuelo se encarrega de dar aquele molho.
Preste a atenção nos comentários da guitarra de Pepeu durante toda a canção,
enquanto Baby canta este história pro seu namorado – não por acaso, ele, Pepeu,
na época –, dizendo que ele não deve se preocupar com o céu que está “preto e as nuvens que até as sombras
assombram”. Ela sabe que “Você tem
seus argumentos de querer/ o sol pra bater sua bola/ E a lua pra ver sua mina/
ou só pra ir ali na esquina...Faça como eu que vou como estou/ porque só o que
pode acontecer/ É os pingo da chuva me molhar”. E esse rock vira um baião
elétrico no final. É aí que eu me refiro. Com tantas possibilidades rítmicas e
melódicas, os roqueiros dos anos 80 se contentavam em copiar The Smiths, The Cure, The Police, entre outros. Que desperdício! “Quando Você Chegar” é uma
bossa a lá João Gilberto onde Moraes fala de um filho que está chegando e que,
aparentemente, iria chamar de Pedro. Os planos devem ter mudado, pois este
filho é o guitarrista Davi Moraes, que veio a Porto Alegre em 2013 com ele para
um show em homenagem aos 40 anos de “Acabou...”. Lá pelas tantas, esta bossa
vira um samba. E a letra é tão boa que vai inteira: “Quando você chegar/ é mesmo que eu estar vendo você/ Sempre brincando
de velho/ me chamando de Pedro/ me querendo menino que viu de relance/ Talvez
um sorriso em homenagem à Pedro/ Pedro do mundo dum bom dum bom dum bom.../
Fique quieto que tudo sana/ Que a língua portuguesa, a língua da luz/ A
lusitana fez de você o primeiro guri/ Meu guri, meu gurizinho/ Água mole em
pedra dura, pedra pedra até que Pedro”.
Pra encerrar “Novos Baianos F.C”, duas faixas sem letra. Desde "Acabou Chorare" existia, dentro dos Novos Baianos, o grupo instrumental A Cor do Som,
formado por Pepeu, Dadi, Jorginho e os percussionistas. As duas últimas músicas
são dedicadas a este embrião de trabalho que iria desembocar no grupo de mesmo
nome que gravaria seu primeiro disco em 1977. Na formação de estreia, só Dadi
permaneceria, tendo ao seu lado o irmão Mu mais Armandinho e Gustavo. “Alimente”
e “Dagmar” são dois exemplos do que seria desenvolvido pela Cor e por Pepeu em
seu primeiro trabalho solo, “Geração de Som”, em 1978. Choro, samba, rock, tudo
misturado e embalado pra presente. Uma delícia de disco que muita gente não
conhece. Em 1978, os Novos Baianos gravam seu último disco, “Farol da Barra”,
outro trabalho incrível. E decolam as carreiras solo de Pepeu, Baby, Dadi na
Cor do Som. Mas isso, como sempre, é outra história.
vídeo de"Só Se Não For Brasileiro Nessa Hora" - Novos Baianos
************************************
FAIXAS:
1. "Sorrir e cantar como Bahia" (Luiz Galvão/Moraes Moreira)
– 3:37
2. "Só se não for Brasileiro Nessa Hora" (Galvão/Moraes) –
3:28
3. "Cosmos e Damião" (Galvão/Moraes) – 4:07
4. "O Samba da minha Terra" (Dorival Caymmi) – 3:29
5. "Vagabundo não é Fácil" (Galvão/Moraes) – 5:06
6. "Com qualquer Dois Mil Réis" (Galvão/Moraes/Pepeu Gomes) –
3:26
7. "Os Pingo da Chuva" (Galvão/Moraes/Pepeu) – 4:10
Assim como os de gângster ou que retratam a Segunda Guerra Mundial, os
filmes de prisão são bastante atrativos. Até mesmo os mais puramente
aventurescos, como “Condenação Brutal”, com Sylvester Stallone, ou “A Rocha”,
com Sean Connery, se estiverem passando na TV te puxam para que se assista pelo
menos um pouco ou mesmo daquele ponto até o final. De fato, os filmes sobre
sistema prisional guardam uma magia especial. Talvez porque, assim como os de
gângster ou Segunda Guerra, muitas vezes se baseiem em fatos reais. Quando não,
são tão passíveis de verdade quanto um verídico, haja vista a identificação que
seus personagens geram junto ao espectador ou mesmo pelas barbaridades que
geralmente denunciam, sejam ficção ou não. Não raro estão em jogo os mais
basais direitos humanos.
Desta forma, busquei listar 15 títulos bem abrangentes e interessantes
sobre o tema. De produções europeias a asiáticas, passando pelos cinemas
brasileiro (bem representado), argentino e, claro, norte-americano, que domina
largamente neste quesito. Desde clássicos do passado até os dias de hoje, os
Estados Unidos são imbatíveis em filmes de prisão. Valeu entrarem filmes não
apenas de penitenciária – embora sejam a maioria – mas também de cadeias comuns
e de prisioneiros de guerra. De presos políticos, como nos essenciais “A
Confissão” (Costa-Gavras) ou “Pra Frente, Brasil” (Roberto Farias), ficaram
para uma outra seleção. Como valeu apenas longas-metragens, merece menção
honrosa “O Dia em que Dorival Encarou a Guarda”, curta-metragem de Jorge
Furtado e José Pedro Goulart, uma obra-prima que, inclusive, completa 30 anos
de seu lançamento em 2015.
Sem ordem de preferência, a condição foi a de que a história se passe,
se não inteiramente, pelo menos a maior parte do tempo dentro das celas,
sendo-lhes um elemento narrativo preponderante. Assim, ficaram de fora ótimos exemplares
como “Dançando no Escuro”, de von Trier, “O Último Imperador”, de Bertolucci, ou
“Batismo de Sangue”, de Helvécio Ratton, que têm, sim, sequências em prisões,
mas relatam muito mais do que isso em suas tramas. No nosso caso, não basta:
tem que estar encarcerado mesmo, atrás das grades, em cana, no xadrez, detido, vendo
o sol nascer quadrado. Então, “teje preso” a esses 15 títulos essenciais sobre prisão:
- “O Homem de Alcatraz”, de John
Frankenheimer (“Birdman of Alcatraz” - EUA, 1962)
Com a mão do craque John Frankenheimer, diretor que nunca se omitiu de
mostrar mazelas do sistema norte-americano e nem de aprofundar aspectos
psicológicos muitas vezes relegados à superficialidade, este filme traz a
realidade de uma penitenciária típica dos Estados Unidos a partir de um
conflito entre o pragmatismo e o humanismo. Um prisioneiro (Robert Stroud, por
Burt Lancaster) condenado pelo assassinato de dois homens passa a vida na
cadeia. Lá se torna um autodidata sobre pássaros, sendo reconhecido
mundialmente como uma grande autoridade no assunto. Mas, apesar de demonstrar
regeneração e um intelecto superior, o Estado se recusa a libertá-lo.
- “O Processo de Joana D’arc”,
de Robert Bresson (“Procès de Jeanne D´Arc” - FRA, 1962)
A austeridade e sobriedade de Robert Bresson emprestam ao filme uma
narrativa absolutamente austera, desde o uso de atores não-profissionais até o
centramento exclusivo aos documentos oficiais sobre o caso, passado no século
XV. Para muitos o grande filme do diretor, “O Processo...” mostra outro tipo de
prisão, a religiosa, uma vez que a iluminada Joana era considerada bruxa pelas
visões e percepções espirituais que tinha naturalmente. Com rigor, Reconstituiu
a prisão, o julgamento e a execução da mártir.
- “Fugindo do Inferno”, de John
Sturges (“The Great Escape” - EUA, 1963)
Clássico filme de prisão de guerra à época da Segunda Guerra e baseado
em fatos reais. Aliados tentam fugir de um campo de concentração alemão, o
Stalag Luft III, considerado como o mais seguro do gênero. Elenco impagável com Steve McQueen, James Garner, Richard Attenborough, Charles Bronson, James Coburn, entre outros feras. Globo de Ouro de Melhor Filme de Drama.
- “Rebeldia Indomável”, de Stuart Rosemberg (“Cool
Hand Luke” - EUA, 1967)
Filme impactante e com a excelente atuação de Paul Newman, que faz o
rebelde e inconsequente Luke Jackson. Preso, ele recusa-se a obedecer as regras
do local e ganha o respeito dos demais presidiários por sua valentia e
malandragem. Insiste em fugir, mas a cada nova recaptura as punições são mais
severas, aumentando constantemente o ódio entre ele e os guardas. Indicado ao
Oscar, Newman não levou este, que foi para o ator coadjuvante, George Kennedy.
Porém, em 2003, seu personagem Luke foi escolhido pelo American Film Institute
(AFI) como o trigésimo maior herói dos filmes norte-americanos.
Dustin Hoffman e Steve McQueen
em "Pappilon"
- “Papillon”, de Franklin Schaeffner (EUA,
1973)
Obra-prima ainda pouco valorizada, esta superprodução é dos filmes mais
realistas e impactantes do gênero. Conta a história verídica de Henri Charrière
(Steve McQueen, novamente encarcerado), conhecido como Papillon, que, apesar de
reclamar inocência da acusação de assassinato, é condenado à prisão perpétua e
enviado para cumprir a sentença na Guiana Francesa, na Ilha do Diabo, num
presídio de segurança máxima. A direção de Schaeffner não deixa nada às
escuras: as torturas, a fome, as punições, a desumanidade do presídio, está
tudo ali. McQueen, impecável, assim como Dustin Hoffman (o amigo francês Dega).
Incrivelmente, recebeu apenas indicações no Oscar e Globo de Ouro, mas não
levou nada. Das injustiças históricas.
- “O Expresso da Meia-Noite”, de
Alan Parker (“Midnight Express” - ING, 1978)
Dos mais impactantes e dramáticos filmes do gênero, passa-se, ao
contrário das jaulas superequipadas dos Estados Unidos, numa insalubre e insana
prisão da Turquia. O saudoso Brad Davis interpreta magistralmente Billy Hayes,
um estudante norte-americano que é pego traficando drogas num aeroporto de
Istambul. Não só vai parar numa prisão degradante, onde é torturado física e
psicologicamente, como ainda recebe como exemplo uma pena mais rigorosa que o
normal. Parker, em ótima fase, leva o espectador a entrar num mundo de
introspecção e loucura, dando um sentido metafórico e simbólico ao título.
Oscar de Melhor roteiro adaptado, de Oliver Stone, e de Melhor Trilha Sonora,
com os marcantes temas synth-pop de Giorgio Moroder.
- “Alcatraz – Fuga Impossível”,
de Don Siegel (“Escape from Alcatraz” - EUA, 1979)
Para muitos, o maior filme de penitenciária já realizado, o que não é
nenhum absurdo. Ápice da parceria entre Siegel e Clint Eastwood, que interpreta
Frank Morris, um condenado que tem várias tentativas de fugas em seu histórico
e é enviado para a prisão de segurança máxima da Ilha de Alcatraz, conhecida
por não deixar nenhum preso fugir ou sair vivo numa escapada. Porém, obstinado
e calculista, Frank vê os pontos vulneráveis de Alcatraz e, com a ajuda de
alguns outros internos, cria uma rota de fuga perigosa e improvável. Não tem
como não torcer pelo bandido!
- “Furyo – Em Nome da Honra”, de
Nagisa Oshima (“Merry Christmas, Mr. Lawrence” - JAP/ING/NZL, 1983)
Raro filme do sempre profundo Oshima, que reúne dois gênios da música
como atores: David Bowie (em sua melhor atuação no cinema) e Ryuichi Sakamoto,
que assina também a ótima trilha. Na Segunda Guerra, num campo de concentração
na Ilha de Java, o prisioneiro inglês Jack Celliers (Bowie) provoca um conflito
quando decide não obedecer às rígidas regras do capitão Yonoi (Sakamoto),
insolência repudiada com violência. Porém, o oficial inglês se mantém
irredutível, o que enfurece ainda mais o capitão. Interessante reflexão sobre
orgulho, honra e os limites humanos tanto físicos quanto psicológicos.
Sônia Braga nos lances oníricos
do filme.
- “O Beijo da Mulher Aranha”, de
Hector Babenco (BRA/EUA, 1984)
Um dos cineastas mais talentosos vivos, Babenco está nesta lista com
dois filmes. Um deles é este até então raro acerto de coprodução brasileira com
os EUA, uma vez que, quando se fazia, prevalecia o poderio yankee. Com
equilíbrio, Babenco consegue fazer com que Milton Gonçalves e José Lewgoy
ficassem no mesmo nível de William Hurt (Oscar de Melhor Ator pela atuação) e
Raul Julia, sem falar, claro, na participação mais que especial de Sônia Braga.
As sequências em que Hurt e Julia contracenam na cela são históricas em
diálogos e afinação entre atores, pois, além de talentosos, nota-se que estão
muito bem dirigidos.
- “Memórias do Cárcere”, de
Nelson Pereira dos Santos (BRA, 1984)
Prêmio da crítica em Cannes e Melhor Filme em Moscou (quando o evento
ainda era importante), este épico do cinema brasileiro é uma aula de construção
narrativa, a qual dialoga metalinguisticamente o tempo todo com a obra de
memórias escrita por Graciliano Ramos, quando este fora preso na vida real pelo
governo Getúlio Vargas. Ainda, atuações impecáveis de Carlos Vereda, José
Dumont, Tonico Pereira, os saudosos Jofre Soares e Wilson Grey e da jovem
Glória Pires. Cenas memoráveis, como a “transmissão” da Rádio Libertadora
dentro do quartel, o momento da deportação de Olga Benário e a ajuda dos presos
a esconderem os escritos do suposto
livro, entre outras várias.
- “Barrela: Escola de Crimes”,
de Marco Antonio Cury (BRA, 1990)
Daqueles filmes que tem tudo para ser monótono, mas o roteiro, as
atuações e a direção são tão bons que formam uma obra coesa. O texto teatral de
Plínio Marcos se encaixa com densidade à adaptação cinematográfica, sustentada
no jogo certo de distribuição das falas de cada personagem (todos MUITO nem
construídos) e nas atuações intensas de cada um dos atores. São seis presos
condenados a longas penas e confinados numa cela onde cada qual disputa seu
espaço. A situação se torna mais angustiante quando junta-se a eles um jovem de
classe média preso durante briga. Frustração, tristeza, humilhação, autoproteção.
Plínio Marcos tece tudo isso numa teia em que coabitam o amor mais profundo e inalcançável
ao abandono concreto e degradante.
- “Um Sonho de Liberdade”, de
Frank Darabont (“The Shawshank Redemption” - EUA, 1994)
Junto com “Alcatraz”, disputa o posto de grande filme de prisão da
história. Emocionante, toca em temas fortes como morte, amizade, religião,
injustiça e desejos essenciais do ser humano. Em 1946, Andy Dufresne (Tim
Robbins), um bem sucedido banqueiro, tem a sua vida radicalmente modificada ao
ser condenado por um crime que nunca cometeu, o homicídio de sua esposa e do
amante dela. É mandado para a Penitenciária Estadual de Shawshank, para cumprir
pena perpétua. Lá, conhece muita gente, desde o corrupto e cruel agente
penitenciário, o prisioneiro Ellis Boyd Redding (Morgan Freeman), com que faz
amizade, e até Al Capone, que cumpria sua pena lá depois de ser pego por Elliot
Ness. Figura na lista dos 100 melhores filmes de todos os tempos pelo AFI.
- “Carandiru”, de Hector Babenco
(BRA, 2003)
Outro de Babenco, este ainda mais imerso na questão prisional. Ao
contrário de “O Beijo...”, entretanto, faz o movimento narrativo inverso: parte
do ambiente social para o da prisão, estabelecendo uma permanente comotivação
entre os dois espaços – física e psicologicamente. De narrativa moderna, faz
com estes paralelismos um dos melhores filmes nacionais da primeira década dos
anos 2000, estabelecendo diversos atores que se tornariam astros nos anos
seguintes, como Rodrigo Santoro, Lázaro Ramos, Wagner Moura e Caio Blat. A
história, baseada no best seller do médico e escritor Dráuzio Varella, culmina
no fatídico Massacre de 1992. Filmaço.
Os próprios presos constroem a
narrativa no documentário.
- “O Prisioneiro da Grade de
Ferro”, de Paulo Sacramento (BRA, 2003)
Brilhante documentário de Sacramento em que ele coloca os próprios
presos a construir com ele o filme, numa cocriação que reforça o realismo
documental da proposta. Utilizando as técnicas aprendidas em um curso de
filmagem ministrado dentro do presídio, os detentos encarcerados no maior
centro de detenção da América Latina, o Carandiru, documentam seu cotidiano,
registrando as condições precárias nas quais sobrevivem. Filmado 10 anos após o
Massacre do Carandiru, que custou a vida de mais de uma centena de detentos,
mostra o quanto uma tragédia como esta promovida pelo Estado não se apaga com
facilidade, haja vista as marcas inapagáveis nas pessoas e na sociedade.
- “Leonera”, de Pablo Trapero
(ARG – 2008)
Do grande cineasta argentino Pablo Trapero, um dos maiores da
atualidade, tem a peculiaridade de contar a vida dentro de uma penitenciária
feminina, no caso uma para mães e grávidas sentenciadas. No caso de Julia (a
bela e talentosa Martina Gusman), acusada de um crime sem provas, o filme
mostra sua adaptação à nova realidade social, o que a transforma intimamente.
Porém, seu desejo de fugir dali nunca esmorece, e é isso que a move. Não é o
melhor de Trapero, mas guarda várias qualidades de seu cinema.
"Gal é uma coisa gostosa. Ela é cantada em prosa e verso e se eu falar alguma coisa mais, vão dizer que eu estou copiando. É das cabeludas mais bonitas que conheço".
Dorival Caymmi
Caetano Veloso observou certa vez que a obra de Dorival Caymmi, embora pequena em volume de canções em relação a de outros compositores contemporâneos a ele (tal Ary Barroso ou Lamartine Babo) ou mesmo dos baianos como o próprio Caetano, é proporcionalmente a mais revisitada. Caymmi é pedra-fundamental da música brasileira, um cancionista e poeta capaz de inventar uma nova tradição, a qual encerra o folclore, o samba rural e a vida cotidiana da Bahia de Todos os Santos. Muito fizeram em versá-lo, mas nem sempre com assertividade, visto que sua música leva a uma encruzilhada: de tão original que é, dificulta quem a acessa. De todos, quem melhor resolveu essa equação foi Gal Costa em “Gal Canta Caymmi”, de 1976, disco que completa 50 anos com o mesmo frescor de quando foi lançado, além do show homônimo, um sucesso de público, que estreava exatamente no dia 11 de fevereiro, no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro.
Rainha das dunas de Ipanema que levavam seu nome, o ponto de encontro da contracultura carioca em tempos de ditadura, Gal exercia um papel central em meados dos anos 70. Era, ao mesmo tempo, a devota de João Gilberto e a roqueira janisjopliana, que havia irrompido no festival de 1968 e abraçado a psicodelia tropicalista, influenciando comportamentos e tornando-se um símbolo feminino libertário e contestador. Os parceiros Caetano e Gilberto Gil já haviam voltado do exílio, é bem verdade. Mas Gal, a diva resistente que segurou a barra do Tropicalismo sozinha na hora da linha-dura, conquistou seu espaço inconteste e ali reinava. Assim, tinha carta branca para empreitar o projeto que desejasse, como este, sugerido por Roberto Menescal, diretor artístico da sua gravadora, a Phillips, e prontamente aceito por ela. Por ideia dele, Gal havia gravado, um ano antes, “Modinha para Gabriela” para a novela da TV Globo, canção de Caymmi. Assim, não foi difícil identificar o próximo passo. Após o sucesso dos revolucionários “FA-TAL”, de 1971, e “Índia”, de 1973, era a vez da aguerrida Gal desafiar os padrões novamente, agora, modernizando o cancioneiro do autor de "Maracangalha" e outros eternos clássicos da MPB.
Mexer no que é sagrado não é para qualquer um, no entanto. E, claro, houve críticas. A imprensa inculta da época classificou "GCC" como "um crime à obra musical de Dorival Caymmi", "avacalhação" e "boçalidade". Porém, a cantora sabia o que estava fazendo e que não estava sozinha. Aliás, via-se muito bem acompanhada e amparada. Na trincheira com ela dois sólidos parceiros: Perinho Albuquerque e João Donato. Eles repetiam a química que definira o clássico “Cantar”, de 1974, marco da maturidade musical e artística de Gal. E se naquele álbum havia a batuta de Caetano orquestrando reportório e atmosfera, neste o papel ficava a cargo exclusivamente desses dois exímios arranjadores. A solução perfeita para versar Caymmi. Ora um, ora outro, produtor e diretor musical, respectivamente, eles assinam os arranjos de todas as faixas, equilibrando a pegada rock de um com o clima latin-jazz de outro sem deixar de soar com impressionante unidade. E, principal: ambos trabalham para dar o suporte necessário às formidáveis voz e interpretação de Gal, “a melhor cantora do Brasil” segundo João Gilberto.
Caymmi participando do show de Gal, em 1976, no Teatro João Caetano (RJ)
Esse equilíbrio fica evidente nas duas faixas que abrem o álbum: os sambas “Vatapá”, um símbolo do cancioneiro caymmiano transformado em um soul jazz, e "Festa de Rua" (“Meu Senhor dos Navegantes, venha me valer”), numa pegada bastante pop. A primeira, a cargo do mestre Donato, com seus característicos arranjos de metais em tom médio. Já a seguinte, arranjada por Perinho, é colorida dos mesmos sopros e embalada num ritmo de samba soul. O samba-canção “Nem Eu”, da fase carioca de Caymmi, ganha a suavidade da voz de Gal em sua simplicidade composicional, a qual é traduzida em bossa-nova novamente pela mão de Donato, um dos precursores do gênero.
Aí, o negócio fica sério em duas em sequência: “Pescaria (Canoeiro)” e “O Vento”. O que Perinho faz com essas duas peças da célebre fase das “canções praieiras” de Caymmi é simplesmente deslumbrante. As músicas soam vigorosas, arrojadas, dando a medida da modernidade aplicada por Gal à obra do mestre. “Pescaria” conta com a sanfona de Dominguinhos, baixo de Novelli e violão de Menescal. Já em “O Vento”, piano de Antonio Adolfo e bateria de Paulinho Braga. Porém, deslumbrante mesmo é Gal cantando essas duas, certamente músicas que povoaram seu imaginário sonoro desde pequena em Salvador. O que é ela atingindo os agudos quando sobe um tom nos versos: “Ô canoeiro/ bota a rede no mar”?! Ou quando entoa, num ritmo funkeado: “Curimã ê, Curimã lambaio”?! É de arrepiar. A música está nela, capacidade que somente as grandes cantoras, como Sarah Vaughan, Elis Regina, Amy Winehouse ou Aretha Franklin, conseguem. Gal é uma delas.
O lado B, no formato original do LP, abre com mais um clássico inconteste da cidade de Salvador e do folclore baiano, que é "Rainha do Mar", dedicada à Iemanjá. Filha de Omulu, Gal era devota do candomblé, tendo se iniciado no referencial terreiro Ilê Iaomim Axé Iamassê com Mãe Menininha do Gantois. Ao ouvi-la cantar: “Minha sereia é rainha do mar/ Minha sereia é rainha do mar/ O canto dela faz admirar” tem-se a impressão de que está cantando sobre si mesma, tamanha a comunhão corpo/espírito que a música (e sua voz) consegue provocar.
Em seguida, noutra concatenada com Donato, mais um dos sambas cariocas, e outro show de interpretação de Gal. É "Só Louco", cuja melodia e letra têm visível influência de Lupicínio Rodrigues, com quem Caymmi convivera nos boêmios anos 30 no Rio de Janeiro. Animando o clima dor-de-cotovelo deixado pela anterior, "São Salvador" é daqueles temas solares feitos para o vocal de Gal brilhar. Igual a "Peguei Um 'Ita' No Norte", em que Donato novamente capricha no arranjo e onde Gal põe com delicadeza ímpar sua cristalina voz. Fechando num clima de festa, Perinho a ajuda a transformar o samba urbano "Dois de Fevereiro" em um samba-funk suingado.
Com “GCC”, Gal rompera uma barreira na indústria fonográfica brasileira ao produzir um álbum celebrando apenas um compositor, formato que ganharia o nome songbook mais tarde e se tornaria extremamente comum. Dois anos depois dele, foi a vez de Nara Leão gravar somente Roberto Carlos e Erasmo Carlos no disco “...E Que Tudo Mais Vá Pro Inferno”, um de seus maiores sucessos na carreira, favorecendo-se do caminho aberto pela colega baiana. Sinal de que Gal, mais uma vez, estava à frente das coisas. Ao homenagear Caymmi, ela mostrou que era permitido ousar mantendo o respeito à tradição. Gal nasceu assim, cresceu assim, era mesmo assim e foi sempre assim: uma baiana à frente do seu tempo.
“Quando não genocidam as nossas crianças elas crescem e têm grandes chances de se tornar, no futuro, um Xande de Pilares, por exemplo. Que estupendo cantor ele se confirma neste álbum que não me canso de ouvir”.
Ricardo Aleixo, poeta, músico e ativista negro
"Canto e imagino que todo o povo, toda 'gente quer ser feliz, gente quer respirar ar pelo nariz' e levar a paz."
Xande de Pilares, em carta aberta sobre “Xande canta Caetano”
O povo preto não pode nunca deixar de estar alerta. Mãe Bernadete, Moa, Amarildo, Júlio César, Genivaldo, Moïse, Sandro. Marielle Franco. Seja pela força do Estado, seja pelo braço armado do Estado, seja pela conivência do Estado, seja pela incompetência do Estado. No Brasil, o genocídio negro vem de séculos, desde os navios tumbeiros. E quando crias negras nem sequer têm a chance de conhecerem a vida? João Pedro, Heloísa, Miguel, Eloá, Thiago, Ágatha, Maria Eduarda, Kauã, Alice, Emilly, Rebecca. Chacinados da Candelária.
Acontece que, há séculos também, este mesmo povo preto massacrado e açoitado, embora submetido à pior das condições humanas, a escravidão e o aniquilamento, resiste. Resiste e dança, tal como um personagem essencial para esta análise um dia disse: "com uma graça cujo segredo nem eu mesmo sei".
Alexandre Silva de Assis, ou Xande de Pilares, nascido no suburbano Morro da Chacrinha e que leva no nome outro bairro pobre da Zona Norte do Rio de Janeiro, é fruto deste milagre da resistência. Criado nas rodas de samba de Ramos, Cachambi, Madureira, Pilares – o Pagode do Boleiro, o da Beira do Rio, o Pagofone, o da Geci, o Compasso da Vila, o Risco de Vida, a Adega do Sambola –, chegou ao estrelato aos 22 com o Grupo Revelação na onda pagodeira dos anos 90. Sobreviveu e se desenvolveu. Solo, lançou, entre outros, discos com títulos nada despropositados: “Esse Menino Sou Eu” e “Perseverança”. Aos 53, então, Xande valeu-se da desatenção do sistema racista para cunhar um disco que já nasce, assim como ele e seus milhões de irmãos, valoroso e celebrável. “Xande Canta Caetano” é daquelas raras obras que não precisam da permissão do tempo para se tornarem essenciais. Já vem ao mundo assim.
Vários motivos levam o disco a ser especial. A começar pelo homenageado, cuja gigantesca e assombrosa obra em tamanho e importância garante um set-list de alta qualidade. Segundo: a ideia surgiu de um convite do próprio Caetano Veloso, aceita com certo temor pela responsabilidade por parte de Xande, mas assumida com reverência, respeito e entrega pelo mesmo. Terceiro, a ousadia de trazer para o seu chão, o samba, até mesmo aquilo que não é samba na roupagem original. E quarto e principal: o primoroso resultado final. São apenas 10 faixas, que levam o canto emocionado e gabaritado de Xande para canções do baiano – muitas delas, clássicos do cancioneiro brasileiro – em versões personalíssimas e inspiradas.
Xande demonstra ser um grande fã de Caetano já na escalação do repertório. Uma seleção de quem conhece a fundo aquilo a que está se dedicando. Mas sobretudo e artisticamente falando, um entendimento do que se conecta com ele como intérprete. Fora o fato de ser um disco de duração curta e exata – como os da MPB dos velhos tempos do long player, incluindo os de Caetano –, o repertório torna-se um dos diferenciais do disco. Xande optou por músicas não óbvias do farto cancioneiro caetaneno, mesmo podendo recorrer a uma maior facilidade. Não seria nenhum crime, por exemplo, aproveitar sambas consagrados como “Desde que o Samba é Samba”, "Saudosismo", “Sampa” ou “Sem Samba não Dá”. Ou, quem sabe, sambas convictos do compositor: "Festa Imodesta", "A Voz do Morto", "Samba em Paz", "Força de Imaginação", esta parceria com a "dona do samba" D. Ivone Lara? Diminuiria a margem de erro. Mas não. Xande ousou – e acertou. A se ver pela surpreendente escolha de “Muito Romântico”, que abre o disco numa tocante versão da canção feita para a voz perfeita de Roberto Carlos em 1977 e gravada pelo autor apenas posteriormente. Samba puxado no cavaquinho, instrumento-base de Xande aprendido naquelas tais rodas de samba de outrora, nos botequins da vida. No talento trazido acorrentado da África pelos ancestrais, dos batuques sincréticos na senzala.
Pois outro jovem preto que driblou o sistema genocida é corresponsável por este feito: Ângelo Vitor Simplício da Silva, mais conhecido como Pretinho da Serrinha. Igualmente rebento dos pagodes da vida, das quadras de escola de samba, do ouvido absoluto e do talento nato. Pretinho é quem, além de produzir o disco com a mais alta competência e tocar nada menos que 24 instrumentos nas gravações, assina todos os arranjos, estes capazes de operar o milagre de fazer com que músicas de estruturas rítmicas variadas soem naturalmente sambas tal tivessem sido assim desde sempre. “Luz do Sol”, o emocionante tema escrito por Caetano para a trilha sonora do filme “Índia, A Filha do Sol”, de 1982, de uma balada melancólica vira, simplesmente, um samba-canção de muito bom gosto na tradição de Cartola e Paulinho da Viola.
E o que dizer de “Qualquer Coisa”, que, de portenha, passa a ganhar ares de sambolero com direito a bandolim de Hamilton de Holanda? Até mesmo o hit “Tigresa”, outro não-samba originalmente, é vestido por uma elegante roupagem em que Xande desfila extensão vocal e fraseados num samba lânguido e sensual. Palmas, aliás, para outro preto: Diogo Gomes – mais uma de história linda de superação e perseverança –, que capricha no arranjo de metais.
videoclipe de"Tigresa", da Araguaia Filmes
Assim como “Tigresa”, “Alegria, Alegria” é outro clássico inconteste de Caetano relido no álbum. Porém, ainda mais improvável achar samba naquela marchinha psicodélica. Pois Xande/Pretinho conseguiram, e com louvor. Das melhores do álbum, um dos hinos do movimento tropicalista, defendida pelo autor no memorável Festival da Canção de 1967, transforma-se em um misto de samba rural e afoxé em que o violão do craque Carlinhos 7 Cordas prevalece. Xande, cuja memória ainda preserva da infância as festas da Folia de Reis nas comunidades em que viveu, evidencia neste samba raiz uma atmosfera que talvez até Caetano nem percebera que sua música continha.
Outra nada óbvia – e mostra do quanto Xande caprichou na pesquisa interna à música do homenageado – é “Diamante Verdadeiro”, composta por Caetano para a mana Maria Bethânia e que abre o disco de maior sucesso da carreira dela, “Álibi”, de 1978. Como se encarnasse Moreira da Silva, Xande faz o diamante reluzir verdadeiramente como um samba-de-breque. Na sequência, para uma das mais pessoais e bonitas de todo o repertório de Caetano, “Trilhos Urbanos”, o que poderia ser equivocado se torna ainda mais assertivo. Resgatando no marcante som dos atabaques e do cavaquinho o xirê de candomblé e o samba-de-roda do Recôncavo Baiano, terra-natal de Caetano, a dupla Xande e Pretinho constrói uma das mais belas músicas de todo o disco e, quiçá, da década no Brasil. O bom-senso não recomendaria que o incomum “refrão de assovio” da original de Caetano fosse reproduzido. A solução? Um coro feminino cantarolando a melodia de “Retirantes”, de Caymmi, que faz remeter imediatamente à célebre canção-tema da novela “Escrava Isaura”, presente na memória afetiva de todo brasileiro. Sacada de mestres, astúcia de uma raça que sobrevive com graça para além das desgraças.
Formando a tríade com os maiores cantores da MPB presenteados por Caetano com sua criatividade ímpar, Xande, que passara por Roberto e Bethânia, agora chega a vez de Gal Costa, mencionada na faixa anterior por seu canto de "Balancê". E fazendo jus a um repertório pinçado com sensibilidade, ele versa ainda “O Amor”, que Caetano, sobre a poesia revolucionária do poeta russo Maiakovski, deu para a voz cristalina de Gal em 1981. A mais samba, mas nem por isso menos desafiadora, é “Lua de São Jorge”, uma reverência a ao guerreiro Ogum em ritmo de pagode. Salgueirense, Xande celebra também a escola a qual pertence, devota do mesmo santo, tão vermelha e branca quanto ele. Não à toa os metais e o agogô desenham toda a melodia, afinal, está se falando do “senhor da metalurgia”.
Mas ainda mais revolucionária é a que encerra: “Gente”, o grito humanista mais pungente de Caetano. Difícil escutá-la e não ir às lágrimas, como ocorreu com o próprio Caetano ao ouvi-la pela primeira vez. Xande, com sua história pessoal e representatividade, cantando em clima de samba-enredo essa ode às pessoas simples, apropriando-se dela, reverbera em muitas dimensões do tecido social brasileiro. “Gente pobre arrancando a vida com a mão”. Quanto potência e significado versos como estes ganham ao saírem de sua boca: “Não, meu nêgo, não traia nunca essa força, não/ Essa força que mora em seu coração”.
“Xande Canta Caetano” é, sem pestanejar, o melhor álbum lançado no Brasil em 2023, um presente aos brasileiros para um festivo ano em que o país se livrou do fascismo e vislumbrou novamente a esperança na democracia, no respeito ao outro e no amor. Brasileiros como Ricardo Aleixo, Jorge Furtado, Pena Schmidt, Martha Medeiros, Nizan Guanaes e Moysés Mendes pensam o mesmo. Na mesma lógica de enumerar nomes como na música "Gente", podem-se adicionar tranquilamente a Francisco, Zezé, Gildásio, Renata, Agripino, Dolores ou João, como a poética sugere, outros nomes, tal Pretinho, tal Diogo. Tal Xande. Foi deixarem o negro existir, deu nisso: amor e arte, as armas contra a iniquidade capazes de transformar o mundo. Afinal, gente é pra brilhar como brilha Alexandre Silva de Assis. Não pra morrer de fome, de bala ou pela invisibilidade.
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videoclipe de "Gente", da Araguaia Filmes
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FAIXAS:
1. “Muito Romântico” - 3:16 2. “Luz do Sol” - 3:44 3. “Qualquer Coisa” (participação: Hamilton de Holanda) - 3:00 4. “Tigresa” - 3:59 5. “Alegria, Alegria” - 2:56 6. “Diamante Verdadeiro” - 3:14 7. “Trilhos Urbanos” (Música incidental: “Retirantes”, Dorival Caymmi) - 3:22 8. “Lua de São Jorge” - 3:01 9. “O Amor” (Caetano Veloso / Ney Costa Santos / Vladimir Maiakovski) - 3:37 10. “Gente” - 3:55
Todas as composições de autoria de Caetano Veloso, exceto indicadas