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sábado, 3 de janeiro de 2026

Clyblood #7 - "Os Gritos de Blácula”, de Bob Kelljan (1973)

 

Sempre enxerguei a Blackexpliotation com uma certa desconfiança. É um gênero do cinema muito atrativo, esteticamente sedutor, exaltador da fantástica cultura afro-americana mas, em última análise, uma mera reprodução dos padrões branconcêntricos e imperialistas. Esse cinema é, em grande parte, alimentado pela teoria do filósofo e médico psiquiatra Frantz Fanon de que o negro, para vencer a alienação imposta pela sociedade branca e passar a oferecer a devida“resistência ontológica”, precisava, necessariamente, passar por um processo de afirmação cultural. Pronto: tudo que vinha acumulado por décadas e décadas de opressão, violência e desumanização da figura do negro norte-americano, foi, por volta dos anos 70, momento culminante desse desenvolvimento social-antropológico, posto em obras cinematográficas como uma forma reativa de se combater o racismo. O método: afirmando a existência do negro com sua cultura e beleza.

Acontece que, como qualquer ação meramente reativa, a chance de se incorrer na superficialidade é grande. E foi o que o ocorreu com a Blackexploitation enquanto movimento: combate à “exploração” da imagem do “negro” através de uma resposta imediata em forma de transposição do espaço ocupado pelo branco, só que agora com figuras pretas na tela. Simples assim: branco por preto, preto no branco. Afora a potência de filmes como “Shaft”, “César Negro” ou “Superfly”, e por conter uma série de qualidades, desde as maravilhosas trilhas sonoras assinadas por gênios da música negra norte-americana até a formação de astros como Pam Grier e Richard Roundtree, há de se dizer que não deu tão certo assim enquanto ação afirmativa. 

Era o momento do movimento Black Power, de um país a poucos anos da conquista dos Direitos Civis, dos Panteras Negras, de conflitos raciais e, ao mesmo tempo, de ascendência de ídolos pretos como James Brown, Sly Stone, Sidney Potier e Angela Davis, Ou seja: muita coisa para se elaborar em muito pouco tempo, e o resultado foi a utilização das ferramentas inadequadas. Para ocupar seu espaço, meramente o inverteu. É o que o próprio Fanon chama de “mímica da representação dos senhores”. Tanto que, após o boom da Blackexploitation, precisou que se caminhasse pelo menos mais 40 anos para que, carregados pela mão firme de Spike Lee até então, o cinema norte-americano, enfim, passasse a contar sua história com a consistência merecida através de nomes como Jordan Peele, Steve McQueen, Ryan Coogler, entre outros.

Tudo isso para dizer que “Os Gritos de Blácula”,  de Bob Kelljan, filme da Blackexploitatiion de 1973, é uma boa exceção àquele discurso autoenganado dos negros norte-americanos com esse cinema. Tive a felicidade de apresentá-lo, no dia 4 de dezembro do ano passado, durante a 12ª edição do festival A Vingança dos Filmes B, coordenado pelo amigo, colega de Associação de Críticos do Rio Grande do Sul (ACCIRS) e colaborador deste blog, Cristian Verardi. Continuação de “Blácula – O Vampiro Negro”, de 1972, “Os Gritos...” se sai melhor do que seu original, visto que consegue avançar não apenas para com sua obra-matriz mas em relação a praticamente todos os outros Blackexploitation na discussão da negritude.

William Marshall no papel de Blácula: patologia e conflito 

O filme começa com a morte da rainha vodu Mama Loa, o que motiva os membros de seu culto a votarem na aprendiz adotiva Lisa Fortier (Pam Grier) como sua sucessora. Isso deixa indignado o arrogante filho biológico da matriarca, Willis (Richard Lawson). Inconformado, ele procura um feiticeiro e, partir dos ossos do Príncipe Mamuwalde, ressuscita Blácula (William Marshall) para vingar-se, mas acaba virando seu escravo. Enquanto um exército sedento por sangue se forma, um policial obcecado por ocultismo passa a perseguir Blácula com o objetivo de dar fim ao reinado do vampiro definitivamente.

Grande qualidade de “Os Gritos...” está, justamente, nessa apropriação da lenda de Drácula, tão branca quanto europeia, trazendo seu conflito para o cerne da questão racial. Príncipe Mamuwalde é, ao mesmo tempo, uma figura essencialmente ligada à ancestralidade africana, como ele mesmo expõe na cena em que presencia o leilão de objetos africanos. Contraditoriamente, entretanto, é amaldiçoado justamente por isso. O que lhe constitui é algo que ele considera impuro, doentio, psicopatológico, mas... é o que lhe constitui. Então, para ser ele mesmo, tem que deixar de ser ele mesmo. Alto grau de conflito existencial – e racial.

Eu na sessão do festival
A Vingança dos Filmes B
Voltando a Fanon, é ainda mais interessante notar como o filme evoca uma das questões cruciais da filosofia do pensador martinicano, que é a da dicotomia “visibilidade e invisibilidade”. Para ele, a experiência vivida do negro será sobretudo dada pelo olhar imperialista do branco, que o inferioriza e, imediatamente, o invisibiliza. Assim, a invenção do negro como um ser inferior o reduz ao silêncio, à não-existência, a nada. Esses atributos negativos podem bem ser empregados à figura do Blácula, cujos instintos selvagens, presentes no personagem original de Bram Stoker, são aqui potencializados pela corporalidade estereotipada que marca o negro. Blácula, que suga o sangue de mulheres e homens indistintamente, é uma ameaça tão sexual quanto de violência, tal qual o negro na sociedade racista.

Cena bastante simbólica desse dilema é a que Blácula dialoga com seu “pupilo” Willis, logo no começo da fita. Ainda sem entender a extensão da maldição que se abateu sobre ele, Willis arruma-se para sair de casa e ir ao uma festa. Além da proibição por parte do carrasco, chama atenção a reação de Willis em relação à famosa característica dos vampiros: não se enxergar no espelho. Incrédulo de que a partir dali nunca mais poderá ver seu reflexo, chega a pedir a Blácula que avalie seu visual, tamanha importância que ele como um negro norte-americano daquela época de “black is beautiful” dava a este aspecto. Não é apenas uma mera afetação ou vaidade: é o “reflexo” de uma comunidade precisando se ver representada, precisando cumprir a sina fanoniana de derrubar as máscaras brancas. Sem ver-se no espelho, isso é impossível.

Talvez não tão consciente de seus próprios apontamentos, “Os Gritos...” é, sim, um filme bem realizado e que dá um passo adiante na proposta reativa da Blackexploitatiion, abrindo caminho para o que, anos depois, um cineasta como Peele faria com profundidade discursiva dentro do próprio gênero terror. Como obra, é um thriller bastante interessante, de ótima fotografia, estética pop, trucagens eficientes, enquadramentos bem sacados e, claro, trilha excepcional (a cargo de Bill Marx), característica dos filmes Blackexploitatiion. Curioso pensar que o “novo humanismo” proposto por Fanon, ferramenta com a qual se superaria essa desumanização, tenha, no cinema negro norte-americano, partido justamente de uma figura não-humana. Como disse o próprio Fanon: “o homem também é um não”.

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trailer de "Os Gritos de Blácula"

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"Os Gritos de Blácula"
título original: "Scream Blacula Scream"
direção: Bob Kelljan
elenco: William H. Marshall, Don Mitchell, Pam Grier, Michael Conrad, Bernie Hamilton, Richard Lawson
gênero: terror, vampiro, Blackexplotation, policial
duração: 96min.
país: Estados Unidos
ano: 1973
onde assistir: YouTube


Daniel Rodrigues

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

ClyBlood#6 - Especial de Natal - "A Invasora", de Alexandre Bustillo e Julien Maury (2007)



Noite de Natal. Há quem prefira a confraternização com parentes e amigos na comemoração do nascimento de Cristo, e os que preferem fugir de toda a agitação , uma espécie de isolamento introspectivo. Sarah até tinha o que comemorar, o filho que estava prestes a chegar, mas por outro lado também tinha motivos para lamentar e refletir. Um acidente de carro levara seu marido mas poupara a ela e ao bebê que levava no ventre. Agora, meses depois, na véspera de Natal, sua opção foi pedir a casa de um amigo, se afastar do resto do mundo, se isolar de tudo, refletir, lamentar uma vida que se fora e esperar pela nova vida que virá. No entanto, uma indesejada visitante viria a lhe perturbar a paz. Uma misteriosa mulher insiste em entrar na casa e, depois de ardilosamente conseguir, faz do retiro natalino de luto de Sarah, uma verdadeira noite infeliz. A todo custo, sem limites, sem piedade, a invasora tenta, com todos os recursos possíveis, matar aquela mulher grávida. O resultado dessa caçada dentro de uma casa suburbana francesa é um banho de sangue e brutalidade num nível quase insuportável.

Representante do chamado Novo Cinema Extremo Francês, "A Invasora", não se preocupa em poupar o espectador de cenas chocantes, desconfortáveis e perturbadoras. O ataque a uma mulher grávida, indefesa, leva inevitavelmente o espectador à questão do por quê alguém agiria daquela maneira selvagem, incontrolável, irascível contra uma pessoa tão vulnerável? E sem levar minimamente em consideração o fato de sua vítima estar carregando em seu ventre um inocente! E o pior ainda: ter esse ser indefeso que nem nasceu também como alvo.

O motivo? Seria spoiler contar se existe um motivo ou não e qual seria ele. Não cometerei essa canalhice com meu leitor. O que posso dizer é que independente da razão, se existe, se é justificável ou não, essa invasora proporciona ao fã do terror uma das caçadas mais cruéis que já se viu no cinema, indo até o limite total de suas forças, possibilidades, armas, condição física, para atingir seu objetivo.

Uma das minhas vilãs preferidas do cinema. Béatrice Dalle, a eterna Betty Blue, aqui determinada, impiedosa, implacável, imparável! Se é pra ser má, se é pra cumprir o que se propôs, não é pra ter mimimi. E com essa invasora anônima de Natal, não tem mesmo. 

Ela, a misteriosa assassina, não vai desistir até dar um fim na pobre grávida
que só queria um pouco de paz interior na véspera de Natal.


Cly Reis

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"A Invasora"
título original: "À l'intérieur"
direção: Alexandre Bustillo e Julien Maury
elenco: Alysson Paradis, Béatrice Dalle
gênero: horror, terror psicológico, gore
duração: 78min.
país: França
ano: 2007
onde assistir: MUBI, TV Macabra e YouTube

domingo, 7 de dezembro de 2025

Clyblood #5 - "Campo 731 - Bactérias, a maldade humana" ou "Homens por Trás do Sol", de Tun Fei Mou (1988)

 


"Campo 731" é uma das coisas mais terríveis que já assisti. Terrível como elogio, em se tratando de cinema de horror no que diz respeito a sangue, tripas, brutalidade, mas também terrível no sentido de deplorável, de abominável, de hediondo. As coisas que acontecem nessa ousada produção hong-konquesa são simplesmente de fechar os olhos, virar o rosto, revirar o estômago e, sobretudo, de encher o coração de ódio em relação às barbaridades que o ser humano é capaz com seu semelhante, uma vez que tudo o que se passa no filme ACONTECEU.

Baseado em fatos reais, retratando experiências brutais do exército japonês em um campo de prisioneiros na região ocupada da China durante a Segunda Guerra, "Campo 731" é absolutamente chocante e perturbador. Militares inimigos, nativos, camponeses, voluntários iludidos ou desinformados, civis "dispensáveis", são submetidos a experimentos laboratoriais sem limites com finalidade de desenvolver armas biológicas e recursos de destruição em massa.

A parte em que os militares e cientistas japoneses fazem soltar a pele dos braços de uma mulher depois de um tratamento térmico extremo, a que um homem é submetido a uma experiência com nitrogênio líquido e tem seus braços quebrados como se fossem pedras de gelo, tipo o T100 quando se parte todo em pedacinhos no Exterminador 2, a dissecação de um menino camponês com seus órgãos sendo retirados ainda vivo; a cena do gato sendo devorado por centenas de ratos famintos, a do intestino e tripas saindo pelo ânus do homem colocado na câmara de descompressão, são só alguns dos momentos mais brutais deste filme bizarro.

Nada brilhante, lá com seus probleminhas de acabamento técnico,  mas competente no que se propõe,  "Campo 731 - Bactérias, a maldade humana" é um horror gráfico pesado num estilo quase documental de relevância histórica subestimada uma vez que trata-se de uma das poucas produções no cinema que retrata essa parte pouco conhecida da segunda grande guerra, bem menos alardeada que o Holocausto alemão, mas não menos cruel e desumana.

Um dos momentos mais chocantes do filme.
A pele soltando do esqueleto depois de um experimento térmico extremo.


Cly Reis

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"Campo 731 - Bactérias, a maldade humana" (ou "Homens por Trás do Sol")
título original: "Hei tai yang 731"
direção: Tun Fei Mou
elenco: JeGang Wang, Zhaohua Mei, Runsheng Wang
gênero: horror, gore, guerra, histórico
duração: 105min.
país: Hong Kong
ano: 1988
onde assistir: YouTube

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Clyblood #4 - "Terrifier", de Damien Leone (2016)



Voltando de uma festa de Halloween, duas garotas já um tanto 'altinhas' no álcool, resolvem comer alguma coisa antes de pegar o carro para voltar para casa na madruga. Numa pizzaria topam com um tipo bizarro fantasiado de palhaço carregando um saco plástico de lixo. Mas, ora, é noite de Halloween e o que não falta são tipos esquisitos e fantasias assustadoras, não é mesmo? Uma delas mais bêbada brinca com o esquisitão, zomba dele, tira selfie e tudo mais, enquanto a outra, amedrontada, desconfia que haja alguma coisa de errado com aquela figura.

Intuição correta, baby! Aquele palhaço monocromático estará dali a alguns instantes naquela pizzaria dando início à sua noite de terror, sangue e brutalidade. E elas, as duas, serão suas principais vítimas.
"Terrifier" (2016) marca o início oficial da saga de um dos novos ícones do terror, o brutal e sádico slasher Art, O Palhaço, possivelmente o mais selvagem, violento, cruel, desumano, bárbaro, perverso personagem do cinema de horror já visto nos últimos tempos. Art não tem limites, não tem remorso, não tem pena, brinca, se diverte com a dor, com o sofrimento da vítima, debocha e gargalha silenciosamente ao melhor estilo de um mímico enquanto pratica suas maiores atrocidades.
É sinistramente criativo, é original em suas execuções, tem uma ampla coleção de instrumentos em seu saco de lixo e os usa com liberdade e variação conforme a necessidade, a conveniência ou a intensidade da maldade pretendida.
"Terrifier" tem algumas das cenas mais chocantes que já vi na vida e, mesmo depois, já tendo assistido às outras duas sequências da franquia cujo autodesafio desafio do diretor era exatamente o de superar a violência de sua primeira obra, ele continua sendo o mais impressionante nesse sentido. A parte em que o palhaço simplesmente corta uma das garotas que está dependurada nua de cabeça para baixo e de pernas abertas, da vagina até cabeça, é ainda hoje, para mim uma das coisas mais terríveis que um filme de terror já me apresentou.
As sequências "Terrifier 2" e "Terrifier 3" têm, sem dúvida, coisas absurdas, cenas de fechar os olhos, de virar o rosto, mas, na prática, embora até tenham roteiros mais elaborados, mais elementos,  mais personagens, são meros exercícios de superação daquilo que foi tão impressionante a ponto de ser sempre lembrado quando o assunto é violência extrema e tornar-se uma referência de algo a ser batido. Podem até superar por condições técnicas, orçamento, novas ideias, mas o que fez brotar esse anseio dos fãs do splatter em ter sempre mais e mais e mais, mais sangue, mais tripas, mais brutalidade, foi o primeiro longa do perverso palhaço mímico preto e branco. É mais limitado, mais curto, tem pouca história, pouco desenvolvimento... pode ser. Mas, queira ou não, a 'semente do mal' foi semeada por Terrifier.

Que bonitinho o palhacinho, né, moça? Só que não! 
E esse será o início de uma noite aterrorizante...



Cly Reis

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"Terrifier" (ou "Aterrorizante")
título original: "Terrifier"
direção: Damien Leone
elenco: Jenny Kennel, Catherine Corcoran, Samantha Scaffidi e David Howard Thornton
gênero: gore, splatter, slasher
duração: 85min.
país: Estados Unidos
ano: 2016
onde assistir: Prime Video e YouTube
assistir: "Terrifier"







segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Clyblood #3 - "A Longa Marcha: Caminhe ou Morra", de Francis Lawrence (2025)

 

Admito que não esperava nada de interessante vindo de Francis Lawrence, diretor pelo qual tenho pouco apreço, mas que me pegou de surpresa com "A Longa Marcha: Caminhe ou Morra", essa excelente adaptação de um livro de Stephen King, da época em que ele assinava sob o pseudônimo Richard Bachman. "A Longa Marcha" quase foi adaptado anteriormente por nomes de peso como George Romero e Frank Darabont, mas os projetos acabaram no limbo das produções frustradas. 

Com roteiro adaptado por J.T. Mollner (Strange Darling), Lawrence conseguiu entregar um filme tenso, brutal e, de certa forma, de uma tristeza tocante. É como se "A Noite dos Desesperados" encontrasse "Conta Comigo". O carisma do elenco juvenil, encabeçado por Cooper Hoffman e David Johnson, é a espinha dorsal dessa trama distópica, onde num futuro militarista, um grupo de garotos se alista para uma caminhada sem linha de chegada, onde o último a ficar em pé recebe um grande prêmio, enquanto o resto do grupo é executado conforme desacelera o passo. Impossível não se envolver com o drama e o destino cruel dos personagens. 

Trailer oficial de "A Longa Marcha: 
Caminhe ou Morra"


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Cristian Verardi

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Clyblood #2 - "Thanatomorphose", de Éric Falardeau (2012)

 



Tanatomorfose é o nome dado ao processo morfológico de alterações que ocorrem nos organismos após a morte, o que se passa com órgãos, tecidos, células, ou seja, a deterioração do corpo.

É o que vemos acontecer em vida com a jovem Laura ao longo do filme que leva o nome deste processo biológico, "Thanatomorphose". No desconfortável e reflexivo longa do diretor canadense Éric Falardeau, Laura, uma artista plástica bloqueada criativamente, começa a sentir que seu corpo está se decompondo aos poucos. Tudo começa depois de uma noite de sexo intenso com o "namorado", um cara egoísta e abusivo com quem tem relações. Manchas e hematomas começam a surgir em seu corpo. Amigos chegam a achar que sejam resultado de agressões do namoradinho machão e ela mesmo tem dúvidas se a intensidade da transa teria causado os primeiros ferimentos. Mas será que fora mesmo a noitada de sexo ou aquele ponto de partida teria sido apenas simbólico quanto ao que já se passava com a garota? Laura se sente vazia, carente, desrespeitada, mal tratada em seu relacionamento, sem inspiração na sua arte, desconfortável em seu próprio lar... Sente que ela mesmo não é nada, que está morta, que está apodrecendo por dentro. E vamos acompanhando essa decomposição progressiva, primeiro uma feridinha, depois as unhas caindo, largas mechas de cabelo, dentes, orelha, pele. Em determinado momento, conformada, chega a parecer estar gostando da deterioração, sentindo mais prazer do que sentia com o namorado, talvez sentindo-se mais sexy do que se sentia antes. Antes sem criatividade para dar continuidade a uma escultura inacabada de argila, agora vai incorporando partes suas à obra, dedos, pele, como que se misturando ou se transferindo para a obra, tentando talvez se completar fora de si, criar uma outra Laura quem sabe melhor do que é.

Bem conduzido, "Thanatomorphose" não é um terror de sustos, de surpresas, é lento, estático, silencioso, mas é assustador pelo que está por vir. Chega a dar medo da próxima parte dela que vai cair e como isto vai acontecer. E nesse sentido, se você não vai virar o rosto ou fechar os olhos para não ver uma morte violenta como em tantos filmes de horror, vai fazê-lo para não ver a podridão avançando num corpo humano. Sem dúvida, um dos filmes mais repugnantes que já se fez.

A tanatomorfose da jovem Laura em pleno andamento...



por Cly Reis

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"Thanatomorphose"
Título Original: "Thanatomorphose"
Direção: Éric Falardeau
Gênero: Horror Corporal
Elenco: Kayden Rose, Rich-Denis Gagnon, Émile Beaudry
Duração: 100 min
Ano: 2012
País: Canadá
Onde assistir: YouTube






quinta-feira, 31 de julho de 2025

Clyblood #1 - "Extraído dos Arquivos Secretos da Polícia de Uma Capital Europeia" ou "Cerimônia Trágica", de Riccardo Freda (1972)

 

"Extraído dos Arquivos Secretos da Polícia de Uma Capital Europeia" (1972), também conhecido como "Cerimônia Trágica", nome alternativo que faz mais jus ao seu enredo do que o original extenso, criado para capitalizar em cima da moda dos filmes italianos com títulos longos, é um bom exemplo de pânico satânico à italiana. 

Na trama, durante uma noite de tempestade um grupo de jovens hippies bate à porta de uma mansão isolada, sem desconfiar que os proprietários são satanistas. A presença do grupo atrapalha uma missa negra, desencadeando consequências funestas.

O diretor Riccardo Freda, um pioneiro do cinema de horror italiano, se ressentiu pelo fato dos produtores terem feito modificações à revelia, principalmente no seu desfecho. Na sequência final imposta, um personagem aleatório entra em cena para explicar didaticamente a resolução da trama. Um apêndice absurdo que trata o espectador como idiota, justificando o descontentamento de Freda. Na história ainda temos a presença de Camille Keaton, anos antes de estrear o polêmico exploitation "A Vingança de Jennifer" (1978). Os bons efeitos de maquiagem ficaram à cargo de Carlo Rambaldi, que anos depois ficaria famoso por dar vida para "E.T", de Spielberg.


por C R I S T I A N   V E R A R D I


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Membro fundador da Associação de Críticos de Cinema do RGS (ACCIRS), colaborador de diversas publicações especializadas em cinema, como as revistas “Teorema” e “Hatari!”, e os livros “50 Olhares da Crítica Sobre o Cinema Gaúcho” (Ed. ACCIRS), “Cinema Fantástico Brasileiro – 100 Filmes Essenciais” (Abraccine), e “O Cemitério Perdido dos Filmes B: Exploitation” (Ed. Estronho). É apresentador do programa “Zinematógrafo”, produtor e programador da mostra “A Vingança dos Filmes B”. Como ator trabalhou em produções como “Mar Negro” (2013), “Morto Não Fala” (2018), “A Noite Amarela” (2019) e “O Cemitério das Almas Perdidas” (2020).

segunda-feira, 28 de julho de 2025

Nova seção do Claquete: o Clyblood!

 

Não raro os textos do Claquete, nossa sessão sobre cinema, são voltados aos filmes de terror. O gosto por este gênero e por suas diversas subcatagorias, junto à frequência com que assistimos filmes desse tipo, acabam por fazer com que pintem pelo blog vários deles invariavelmente entre dramas, animações, ficções científicas, documentários, etc. Isso nos levou a pensarmos: por que não abrirmos um espaço mais destacado para esses filmes? 

Afora isso, calhou de passarmos a ter agora a luxuosa colaboração de Cristian Verardi, um dos maiores conhecedores (e admiradores) do cinema de terror do Rio Grande do Sul e, por que não dizer, do Brasil. Além de membro fundador da Associação de Críticos de Cinema do RS (ACCIRS), entre outras diversas atividades que desenvolve, o cara é produtor e programador da mostra A Vingança dos Filmes B, que já conta com celebráveis 11 edições. Cristian, assim, vem a somar com aquilo que a gente já naturalmente produzia sobre terror, mas não tinha ainda um nome específico.

Tudo isso nos motivou a que criássemos aqui no Clyblog, dentro da nossa já tradicional sessão Claquete, uma nova subsessão: a Clyblood. O nome fala por si. No Clyblood, será possível encontrar aquela resenha mais desenvolvida até o texto mais despretensioso, aquele que sai espontaneamente quando se assiste um filme de terror e se fica louco pra escrever alguma coisa, nem que seja uma simples comentário.

Então, acompanhe nossas postagens, que em breve teremos novidades! Seja slasher, de vampiro, gore, sobrenatural, de zumbi, found footage, terrir, de serial killer, body horror, trash ou quantos estilos a criatividade macabra imaginar: nada passará ileso às tintas do Clyblood. Tinta de cor vermelho-sangue, obviamente. 


Os editores 
Cly Reis e Daniel Rodrigues

sexta-feira, 27 de junho de 2025

"Helraiser - Renascido do Inferno", de Clive Barker (1987) vs. "Hellraiser - Renascido do Inferno", de David Bruckner (2022)

 


Tem remakes que nunca deveriam ter sido feitos porque, simplesmente, não tem nada a acrescentar em relação ao original. Mas tem alguns que, pela precariedade de produção do original, orçamento, limitações técnicas da época, etc., teriam tudo para se justificar como refeitura de um clássico. Pois não é que a maioria desses se complica? Se perde sozinho, erra no básico, tem escolhas erradas...

É o caso da refilmagem de "Hellraiser", de 2022, que tinha a faca e o queijo na mão para fazer um filme, se não melhor, tão bom quanto o primeiro de 1987. O original é um clássico, um cult, amplamente idolatrado pelos fãs de horror e invariavelmente presente em listas de melhores do gênero, mas não há como negar que tem lá suas deficiências. Era o primeiro longa do diretor Clive Barker que era um tanto inexperiente e, mesmo atingindo um resultado bastante bom, mostrava-se ainda pouco preparado para um projeto daquele porte; por mais que a história tenha sido escrita por ele mesmo, até então mais notório como escritor, a trama é incompleta e vaga em alguns pontos, carecendo um pouco de alguma orientação, um norte, em determinados momentos; embora a maquiagem seja um ponto marcante pela caracterização dos Cenobitas, especialmente o icônico Pinhead, a parte técnica era limitada e alguns efeitos visuais são bastante fracos e até constrangedores; sem falar que, com exceção de Ashley Lawrence, no papel da filha, Kirsty, e de Doug Bradley, como Pinhead, o time de atores era bem ruinzinho, especialmente o elenco de apoio.

Ou seja, com um comandante um pouco mais rodado, com mais filmes na bagagem; alguns complementos e acréscimos na trama só para enriquecer e amarrar pontas soltas; os recursos técnicos mais avançados que os tempos atuais proporcionam; um orçamento um pouco mais confortável; e alguns atores um pouco mais competentes que os do filme original, o remake de "Hellraiser - Renscido do Inferno" seria algo realmente válido e elogiável. 

Mas não...

Os caras resolveram errar em tudo e fizeram uma porcaria de filme!

Uma uma tentativa de inserir elementos dramáticos, familiares, comoventes; elementos ainda mais vagos que no anterior, alguma intenção de explicar alguma coisa mas sem muita coerência, personagens inconsistentes, outros sem propósito, e como se não bastasse, uma mudança fatal em relação ao primeiro: Pinhead mulher. 

Não, ó... tem limite essa coisa de mudar o gênero ou cor de alguns personagens clássicos do cinema só em nome da inclusão, diversidade, barreiras, etc. Alguns são o que são e foram pensados daquela maneira por um contexto, um conceito, um propósito. E é o caso do líder do cenobitas, o Pinhead, que simbolizava exatamente os 'demônios' do próprio diretor, sua manifestação das dúvidas sobre limites, prazeres e desejos sexuais. Embora, inegavelmente, qualquer mulher possa carregar essas questões, alimentar fetiches, ter prazer na dor, no caso específico, a manutenção do gênero do personagem era algo muito relevante para um melhor diálogo com a obra original e com o que era proposto a partir dela.

Dito isso, a nova versão não tem nada a acrescentar. 

"Hellraiser (2022) - trailer


Nela, uma ex-viciada em drogas, Rilley, tenta resgatar seu irmão Matt capturado pela Configuração do Lamentos, a caixa que abre portas para os infernos de dor e prazer. No esforço de encontrá-lo, Rilley chega ao nome do possível dono da caixa quebra-cabeça que ela encontrara por acaso num armazém abandonado e que possivelmente seria a causa do desaparecimento do irmão. Ela vai então com o namorado e outros dois amigos à antiga casa de Voight, o homem que possuíra o artefato há tempos atrás, e lá se vê presa em um labirinto todo projetado em função das faces da Configuração dos Lamentos, que dependendo da disposição das aberturas da casa, podem protegê-los mas também permitir a entrada dos demônios e levá-los aos portões da dor e sofrimento.

"Hellraiser" (1987) - trailer


No antigo, um homem, Larry, resolve se mudar com a noiva Julia para a antiga casa de sua família sem saber que lá, anos antes, no sótão, o irmão, Frank, um depravado, pervertido e mau-elemento, havia aberto uma caixa quebra-cabeça misteriosa e sido lacerado por demônios. No entanto, um acidente doméstico causa um ferimento em Larry e o sangue que pinga no chão fazendo com que Frank começa a voltar das trevas onde se encontrava. Ajudado por Julia, sua ex-amante, Frank absorvendo os corpos de homens que ela levara para que ele devorasse, vai recompondo aos poucos seu corpo. Representando uma ameaça para o pai, uma vez que Frank pretende cobrir-se com a pele do irmão, a filha de Larry, Kirsty que abrira a caixa acidentalmente promete aos Cenobitas entregar o tio, o homem que os enganou e voltou do inferno, em troca de que a deixem em paz. Mas... fazer acordo com seres como estes pode ser algo muito arriscado.

O renascimento de Frank - "Hellraiser (1987)


Não sabemos muito sobre a tal caixa, sua origem, a origem de seus poderes, algumas amarrações são bem deficientes, outras coisinhas são meio incoerentes, Claire Higgins como Julia é atriz fraquíssima, Sean Chapman, o Frank, não está à altura da importância de seu papel, o personagem Steve que ajuda Kirsty no final é irrelevante e caricato, os efeitos de 'raiozinhos' amarelos quando a garota aprisiona os Cenobitas é ridículo, mas mesmo assim "Hellraiser" (1987) é muito melhor que sua refilmagem e é, sim, com todos seus pequenos defeitos, um clássico absoluto do terror.

A Pinhead mulher dentro do contexto da criação do personagem é gol contra e Hellraiser '87 faz 1x0. Agora, por mérito próprio, imponente, ameaçador, amedrontador, aterrorizante, Doug Bradley, o verdadeiro Pinhead, eternizado como um dos mais marcantes personagens do terror, faz o dele: 2x0. A ambientação numa casa velha e um sótão todo vazado de madeira e não numa mansão tecnológica garante o 3x0. Mesmo com a precariedade de recursos técnicos em alguns momentos, a cena da recomposição do corpo de Frank, no chão do sótão, vale mais um. 4x0 para o time de Clive Barker. E, pra fechar, as correntes, os ganchos, pele rasgada, esticada... E pensar que o remake mal usou esse recurso... Azar é deles! O original se aproveita e lança ganchos de tudo quanto é parede, rasga a pele do remake e faz mais um: 5x0. Os novos Cenobitas até que são legais, mas os antigos também eram,aA nova Configuração dos Lamentos, a caixa mágica que abre o portal do outro lado, até tem uma movimentação mais interessante, mais natural que a antiga que era muito mecanizada, e se os efeitos especiais novos serviram para alguma coisa foi pra isso, mas nada disso é o suficiente pra dar um golzinho para o remake, e desta forma, o placar fica assim mesmo.

Dor e sofrimento merecidos para um desafiante tão medíocre.

Hellraiser '87 se deliciou de prazer.

Aqui um pouquinho de cada um:
no alto, à esquerda Kirsty do primeiro filme, e à direita, Rilley, do segundo;
na segunda linha, Pinhead e seus amiguinhos no sótão acabadão da casa,
e à direita, a Pinhead com seus companheiros no saguão central da mansão;
na terceira linha, as correntes e ganchos provocando dor e sofrimento ao traidor Frank, no original,
e o mesmo recurso subutilizado, excessivamente discreto no segundo filme, à direita;
e por último os líderes Cenobitas, Pinhead:
à esquerda o clássico Doug Bradley e à direita, a nova, Jamie Clayton. 



Uma corrente, duas correntes, três, quatro, cinco...
O time de 2022 nem viu de onde saiu tanto gancho e sentiu na pele a superioridade do adversário.
Foi sofrimento e dor até o final.
Um verdadeiro inferno!



por Cly Reis