As impressões que me passavam a respeito de "Pecadores" na época do lançamento eram simplistas, genéricas e um tanto depreciativas. Havia uma opinião corrente que se tratava de nada mais que um novo "Um Drink no Inferno" em outro contexto. Aí que fui para ele com a expectativa de assistir a mais um filme de vampiros qualquer sem maiores qualidades. Foi até bom esperá-lo desta maneira pois aos poucos foi, cada vez mais, revelando valor, qualidades, mostrando que, absolutamente, não se resumia a uma aventura banal, um terror barato com tema batido, uma imitação oportunista.
"Pecadores" é um filme sobre a identidade do negro, a alma do negro e a tentativa de intimidar suas manifestações e, não sendo possível isso, roubá-la.
No longa, dois gêmeos retornam à sua cidade depois de muito tempo, com a intenção de abrir uma casa de blues só para negros. Na noite de abertura, um pequeno grupo de brancos aparece no local e insistem em serem convidados a entrar na festa. Os três misteriosos brancos virão a se revelar, na verdade, vampiros que, não conseguindo entrar, tentam então contaminar outros negros de modo a atingir os demais lá dentro.
Uma metáfora sobre a apropriação da cultura negra, da interferência, da vigilância sobre os hábitos e tradições dos afrodescendentes na América. Algo como, "Se não pudermos fazer parte, tomamos para nós e ainda destruímos a imagem de vocês".
Muito mais do que apenas um filme de vampiro, muito mais do que meramente um filme sobre blues, "Pecadores" se utiliza da linguagem do horror para expor o verdadeiro terror de uma realidade de perseguições, violência, covardia e humilhação, mas muito hábil funde essa treva, esse mal, à beleza do blues, à riqueza da cultura negra criando uma obra única na filmografia recente do cinema. A cena da festa, em que o jovem bluesman toca e evoca toda a cultura negra, ancestral e futura, para o salão é algo mágico e absolutamente emocionante. De arrepiar!!!
Grandes atuações, especialmente de Michael B. Jordan (que eu nem gosto muito) fazendo os gêmeos protagonistas, grande trilha sonora, ótima maquiagem, direção competentíssima! "Pecadores" justifica seu grande número de indicações ao Oscar pelo grande número de virtudes que tem em diversos âmbitos. Se vai ganhar em muitas é outra história, mas as nomeações por si só valorizam suas qualidades.
"Pecadores" é terror, é musica, é drama. É sangue, é pele, é ritmo. É vermelho, é negro, é blue! E se o blues é a música do diabo, como muitas lendas falam a respeito de pactos, maldições, almas perdidas, nada mais apropriado que essa tenha sido o tema dessa obra que já nasce como um novo clássico do terror, do cinema de vampiros e do cinema negro. Deixem tocar o blues!
O blues invocando espíritos do passado e do futuro.
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Sangue sem pecado
por Daniel Rodrigues
Ryan Coogler, assim como outros cineastas negros norte-americanos da nova geração, como Steve McQueen, Jordan Peele, Kasi Lemmons e Anthony Fuqua, são comprometidos com a causa negra. Todos sabem que, diante do nível que alcançaram dentro na indústria cinematográfica depois de décadas de apagamento da voz negra, não podem perder oportunidades de dizerem aquilo que ficou por tanto tempo silenciado. Em “Pecadores”, filme premiado de Coogler recordista em indicações ao Oscar na história, com 16 - batendo "A Malvada" (1950), "Titanic' (1997) e "La La Land" (2016), todos com 14 -, essa máxima prevalece. E de uma forma bem original.
Com figurinos, atuações, direção de arte e, principalmente, uma trilha sonora acachapante, “Pecadores” traz a história dos irmãos gêmeos Smoke e Stack (ambos interpretados por Michael B. Jordan), que voltam à sua cidade natal com o objetivo de reconstruir a vida e apagar um passado conturbado. Endinheirados, eles querem montar um juke joint, casa noturna com música ao vivo para a comunidade negra. Porém, uma força maligna passa a persegui-los e busca tomar conta da cidade e de todos os cidadãos, obrigando-os a lutar para sobreviver e a lidar com lendas e mitos ameaçadores à suas existências. É a luta dos vampiros brancos contra os mocinhos pretos.
Celebrado por gente como Spike Lee, Christopher Nolan e Tom Cruise, Coogler não só realiza um filme diferenciado como exercita sua já provada versatilidade, uma vez que é diretor de dois blockbusters dos tempos atuais, o revolucionário MCU “Pantera Negra” e a exitosa franquia “Creed”, spin-off de “Rocky”, dois projetos totalmente distintos, mas ambos construídos com muita habilidade por ele. Ao colocar a questão do preconceito racial no cerne de um thriller de terror, o cineasta reafirma o inteligente caminho aberto por Peele em “Corra!” e “Nós”, marcos do que se pode chamar de neo black horror, porém adicionando uma problemática há muito aventada, mas pouco discutida: a apropriação cultural.
O caminho é o que se conhece: a sociedade brancocêntrica primeiro nega a existência do negro, relegando-o ao “não-ser”, apaga sua história, descredibiliza sua produção intelectual e o oprime moral, material e fisicamente para, feito isso, roubar-lhe suas riquezas. Uma delas, e talvez a de maior evidência nesse histórico roubo simbólico, é a música. Em “Pecadores”, essa questão é o centro da disputa: por inveja dos caipiras brancos dessa cultura preta verdadeira e elevada, eles tornam-se vampiros. De sangue, literalmente, o mesmo que mentem ser desprovido de nobreza, mas que tanto se mordem (opa, no pescoço?!) por não tê-los correndo em suas veias.
Sangue não à toa tão valorizado. Uma das cenas de “Pecadores”, que vale o filme, mostra o personagem Sammie "Preacher Boy" Moore (Miles Caton) cantando e tocando um blues no bar e fazendo emergir do além diversas almas negras em camadas simbólicas e tempos que se misturam. Dos primórdios do blues, nascido das mentes e corações amargurados dos escravos, até os rappers da atualidade, passando pelo rock, o soul, o funk, o gospel e toda contribuição do negro dos Estados Unidos para a cultura pop. Simplesmente genial.
Antológica cena de "Pecadores" em que a magia da música negra faz o tempo se diluir
As resoluções para a trama sobrenatural que o filme vai ganhando, principalmente a partir de sua segunda metade, são boas, mas não empolgantes. O stinger, a cena pós-créditos, este sim (sem dar spoiler) é surpreendente, mas não suficiente para elevar um filme a uma classificação maior do que “bom”. Já Michael B. Jordan é um capítulo à parte. Ele passou a ser mais valorizado enquanto indicado como Melhor Ator ao Oscar depois do triste e revoltante episódio de racismo em plena cerimônia do Bafta, na Inglaterra, em fevereiro - onde, aliás, levou o prêmio. Embora agora com mais atenções para si, o astro não está tão bem quanto nos dois outros filmes que fez com Coogler, exatamente “Pantera...” e “Creed” – este último, no qual é protagonista. Agora, ele concorre com Wagner Moura e Timothée Chalamet, os dois fortes candidatos entre os indicados, mas pode ser que surja como uma terceira via por conta de um falso moralismo da Academia. Não será mal dado, mas menos justo e, se acontecer como prêmio de consolação por causa desse mal-estar, hipócrita.
Independentemente de qualquer coisa, Coogler faz história e, mais uma vez, acerta em sustentar o discurso antirracista ao qual é um importante porta-voz na indústria cultural. Ele sabe disso e mantém-se fiel ao compromisso de evidenciar as barbaridades promovidas pelo racismo na sociedade, mas também toda a riqueza da cultura afro-americana em suas infinitas frentes. Neste sentido, “Pecadores” cumpre muito bem sua proposição. Sem cometer nenhum pecado.
trailer de "Pecadores"
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"Pecadores"
título original: "Sinners"
direção: Ryan Coogler
elenco: Michael B. Jordan, Delroy Lindo, Hailee Steinfeld
Sempre enxerguei a Blackexpliotation com uma certa
desconfiança. É um gênero do cinema muito atrativo, esteticamente sedutor, exaltador da fantástica cultura afro-americana mas, em última análise, uma mera
reprodução dos padrões branconcêntricos e imperialistas. Esse cinema é, em grande parte, alimentado pela teoria do filósofo e médico
psiquiatra Frantz Fanon de que o negro, para vencer a alienação imposta pela
sociedade branca e passar a oferecer a devida“resistência ontológica”, precisava,
necessariamente, passar por um processo de afirmação cultural. Pronto: tudoque
vinha acumulado por décadas e décadas de opressão, violência e desumanização da
figura do negro norte-americano, foi, por volta dos anos 70, momento culminante desse desenvolvimento social-antropológico, posto em obras
cinematográficas como uma forma reativa de se combater o racismo. O método: afirmando a
existência do negro com sua cultura e beleza.
Acontece que, como qualquer ação meramente reativa, a chance
de se incorrer na superficialidade é grande. E foi o que o
ocorreu com a Blackexploitation enquanto movimento: combate à “exploração” da imagem do “negro”
através de uma resposta imediata em forma de transposição do espaço ocupado pelo branco, só que agora com figuras pretas na tela. Simples
assim: branco por preto, preto no branco. Afora a potência de filmes
como “Shaft”, “César Negro” ou “Superfly”, e por conter uma série de
qualidades, desde as maravilhosas trilhas sonoras assinadas por gênios da
música negra norte-americana até a formação de astros como Pam Grier e Richard
Roundtree, há de se dizer que não deu tão certo assim enquanto ação afirmativa.
Era o momento do movimento Black Power, de um país a poucos anos da conquista dos Direitos
Civis, dos Panteras Negras, de conflitos raciais e, ao mesmo tempo, de ascendência
de ídolos pretos como James Brown, Sly Stone, Sidney Potier e Angela Davis, Ou
seja: muita coisa para se elaborar em muito pouco tempo, e o resultado foi a utilização das ferramentas inadequadas. Para ocupar seu espaço, meramente o inverteu. É o que o próprio Fanon chama de “mímica da representação dos senhores”. Tanto que, após o boom
da Blackexploitation, precisou que se caminhasse pelo menos mais 40 anos para
que, carregados pela mão firme de Spike Lee até então, o cinema norte-americano, enfim,
passasse a contar sua história com a consistência merecida através de nomes
como Jordan Peele, Steve McQueen, Ryan Coogler, entre outros.
Tudo isso para dizer que “Os Gritos de Blácula”, de Bob Kelljan, filme da
Blackexploitatiion de 1973, é uma boa exceção àquele discurso autoenganado dos
negros norte-americanos com esse cinema. Tive a felicidade de apresentá-lo, no dia
4 de dezembro do ano passado, durante a 12ª edição do festival A Vingança dos Filmes
B, coordenado pelo amigo, colega de Associação de Críticos do Rio Grande do Sul
(ACCIRS) e colaborador deste blog, Cristian Verardi. Continuação de “Blácula – O
Vampiro Negro”, de 1972, “Os Gritos...” se sai melhor do que seu original,
visto que consegue avançar não apenas para com sua obra-matriz mas em relação a
praticamente todos os outros Blackexploitation na discussão
da negritude.
William Marshall no papel de Blácula: patologia e conflito
O filme começa com a morte da rainha vodu Mama Loa, o que
motiva os membros de seu culto a votarem na aprendiz adotiva Lisa Fortier (Pam
Grier) como sua sucessora. Isso deixa indignado o arrogante filho biológico da matriarca, Willis (Richard Lawson). Inconformado, ele procura um feiticeiro e, partir dos ossos do Príncipe
Mamuwalde, ressuscita Blácula (William Marshall) para vingar-se, mas acaba virando seu escravo. Enquanto um exército sedento por sangue se forma, um
policial obcecado por ocultismo passa a perseguir Blácula com o objetivo de dar
fim ao reinado do vampiro definitivamente.
Grande qualidade de “Os Gritos...” está, justamente, nessa
apropriação da lenda de Drácula, tão branca quanto europeia, trazendo seu
conflito para o cerne da questão racial. Príncipe Mamuwalde é, ao mesmo tempo,
uma figura essencialmente ligada à ancestralidade africana, como ele mesmo
expõe na cena em que presencia o leilão de objetos africanos. Contraditoriamente, entretanto, é amaldiçoado justamente por isso. O que lhe constitui é algo que ele
considera impuro, doentio, psicopatológico, mas... é o que lhe constitui.
Então, para ser ele mesmo, tem que deixar de ser ele mesmo. Alto grau de
conflito existencial – e racial.
Eu na sessão do festival A Vingança dos Filmes B
Voltando a Fanon, é ainda mais interessante notar como o
filme evoca uma das questões cruciais da filosofia do pensador martinicano, que
é a da dicotomia “visibilidade e invisibilidade”. Para ele, a experiência
vivida do negro será sobretudo dada pelo olhar imperialista do branco, que o
inferioriza e, imediatamente, o invisibiliza. Assim, a invenção do negro como um
ser inferior o reduz ao silêncio, à não-existência, a nada. Esses atributos
negativos podem bem ser empregados à figura do Blácula, cujos instintos selvagens,
presentes no personagem original de Bram Stoker, são aqui potencializados pela
corporalidade estereotipada que marca o negro. Blácula, que suga o
sangue de mulheres e homens indistintamente, é uma ameaça tão sexual quanto de
violência, tal qual o negro na sociedade racista.
Cena bastante simbólica desse dilema é a que Blácula dialoga
com seu “pupilo” Willis, logo no começo da fita. Ainda sem entender a extensão da
maldição que se abateu sobre ele, Willis arruma-se para sair de casa e ir ao uma
festa. Além da proibição por parte do carrasco, chama atenção a reação de Willis
em relação à famosa característica dos vampiros: não se enxergar no espelho. Incrédulo
de que a partir dali nunca mais poderá ver seu reflexo, chega a pedir a
Blácula que avalie seu visual, tamanha importância que ele como um negro
norte-americano daquela época de “black is beautiful” dava a este aspecto. Não
é apenas uma mera afetação ou vaidade: é o “reflexo” de uma comunidade
precisando se ver representada, precisando cumprir a sina fanoniana de derrubar
as máscaras brancas. Sem ver-se no espelho, isso é impossível.
Talvez não tão consciente de seus próprios apontamentos, “Os
Gritos...” é, sim, um filme bem realizado e que dá um passo adiante na proposta reativa da Blackexploitatiion,
abrindo caminho para o que, anos depois, um cineasta como Peele faria com profundidade
discursiva dentro do próprio gênero terror. Como obra, é um thriller
bastante interessante, de ótima fotografia, estética pop, trucagens
eficientes, enquadramentos bem sacados e, claro, trilha excepcional (a cargo de Bill Marx), característica dos filmes Blackexploitatiion. Curioso pensar que o “novo humanismo” proposto
por Fanon, ferramenta com a qual se superaria essa desumanização, tenha, no cinema negro norte-americano, partido justamente de uma
figura não-humana. Como disse o próprio Fanon: “o homem também é um não”.
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trailer de "Os Gritos de Blácula"
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"Os Gritos de Blácula"
título original: "Scream Blacula Scream"
direção: Bob Kelljan
elenco:William H. Marshall, Don Mitchell, Pam Grier, Michael Conrad, Bernie Hamilton, Richard Lawson
Noite de Natal. Há quem prefira a confraternização com parentes e amigos na comemoração do nascimento de Cristo, e os que preferem fugir de toda a agitação , uma espécie de isolamento introspectivo. Sarah até tinha o que comemorar, o filho que estava prestes a chegar, mas por outro lado também tinha motivos para lamentar e refletir. Um acidente de carro levara seu marido mas poupara a ela e ao bebê que levava no ventre. Agora, meses depois, na véspera de Natal, sua opção foi pedir a casa de um amigo, se afastar do resto do mundo, se isolar de tudo, refletir, lamentar uma vida que se fora e esperar pela nova vida que virá. No entanto, uma indesejada visitante viria a lhe perturbar a paz. Uma misteriosa mulher insiste em entrar na casa e, depois de ardilosamente conseguir, faz do retiro natalino de luto de Sarah, uma verdadeira noite infeliz. A todo custo, sem limites, sem piedade, a invasora tenta, com todos os recursos possíveis, matar aquela mulher grávida. O resultado dessa caçada dentro de uma casa suburbana francesa é um banho de sangue e brutalidade num nível quase insuportável.
Representante do chamado Novo Cinema Extremo Francês, "A Invasora", não se preocupa em poupar o espectador de cenas chocantes, desconfortáveis e perturbadoras. O ataque a uma mulher grávida, indefesa, leva inevitavelmente o espectador à questão do por quê alguém agiria daquela maneira selvagem, incontrolável, irascível contra uma pessoa tão vulnerável? E sem levar minimamente em consideração o fato de sua vítima estar carregando em seu ventre um inocente! E o pior ainda: ter esse ser indefeso que nem nasceu também como alvo.
O motivo? Seria spoiler contar se existe um motivo ou não e qual seria ele. Não cometerei essa canalhice com meu leitor. O que posso dizer é que independente da razão, se existe, se é justificável ou não, essa invasora proporciona ao fã do terror uma das caçadas mais cruéis que já se viu no cinema, indo até o limite total de suas forças, possibilidades, armas, condição física, para atingir seu objetivo.
Uma das minhas vilãs preferidas do cinema. Béatrice Dalle, a eterna Betty Blue, aqui determinada, impiedosa, implacável, imparável! Se é pra ser má, se é pra cumprir o que se propôs, não é pra ter mimimi. E com essa invasora anônima de Natal, não tem mesmo.
Ela, a misteriosa assassina, não vai desistir até dar um fim na pobre grávida que só queria um pouco de paz interior na véspera de Natal.
"Campo 731" é uma das coisas mais terríveis que já assisti. Terrível como elogio, em se tratando de cinema de horror no que diz respeito a sangue, tripas, brutalidade, mas também terrível no sentido de deplorável, de abominável, de hediondo. As coisas que acontecem nessa ousada produção hong-konquesa são simplesmente de fechar os olhos, virar o rosto, revirar o estômago e, sobretudo, de encher o coração de ódio em relação às barbaridades que o ser humano é capaz com seu semelhante, uma vez que tudo o que se passa no filme ACONTECEU.
Baseado em fatos reais, retratando experiências brutais do exército japonês em um campo de prisioneiros na região ocupada da China durante a Segunda Guerra, "Campo 731" é absolutamente chocante e perturbador. Militares inimigos, nativos, camponeses, voluntários iludidos ou desinformados, civis "dispensáveis", são submetidos a experimentos laboratoriais sem limites com finalidade de desenvolver armas biológicas e recursos de destruição em massa.
A parte em que os militares e cientistas japoneses fazem soltar a pele dos braços de uma mulher depois de um tratamento térmico extremo, a que um homem é submetido a uma experiência com nitrogênio líquido e tem seus braços quebrados como se fossem pedras de gelo, tipo o T100 quando se parte todo em pedacinhos no Exterminador 2, a dissecação de um menino camponês com seus órgãos sendo retirados ainda vivo; a cena do gato sendo devorado por centenas de ratos famintos, a do intestino e tripas saindo pelo ânus do homem colocado na câmara de descompressão, são só alguns dos momentos mais brutais deste filme bizarro.
Nada brilhante, lá com seus probleminhas de acabamento técnico, mas competente no que se propõe, "Campo 731 - Bactérias, a maldade humana" é um horror gráfico pesado num estilo quase documental de relevância histórica subestimada uma vez que trata-se de uma das poucas produções no cinema que retrata essa parte pouco conhecida da segunda grande guerra, bem menos alardeada que o Holocausto alemão, mas não menos cruel e desumana.
Um dos momentos mais chocantes do filme. A pele soltando do esqueleto depois de um experimento térmico extremo.
Cly Reis
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"Campo 731 - Bactérias, a maldade humana"(ou"Homens por Trás do Sol")
Voltando de uma festa de Halloween, duas garotas já um tanto 'altinhas' no álcool, resolvem comer alguma coisa antes de pegar o carro para voltar para casa na madruga. Numa pizzaria topam com um tipo bizarro fantasiado de palhaço carregando um saco plástico de lixo. Mas, ora, é noite de Halloween e o que não falta são tipos esquisitos e fantasias assustadoras, não é mesmo? Uma delas mais bêbada brinca com o esquisitão, zomba dele, tira selfie e tudo mais, enquanto a outra, amedrontada, desconfia que haja alguma coisa de errado com aquela figura. Intuição correta, baby! Aquele palhaço monocromático estará dali a alguns instantes naquela pizzaria dando início à sua noite de terror, sangue e brutalidade. E elas, as duas, serão suas principais vítimas. "Terrifier" (2016) marca o início oficial da saga de um dos novos ícones do terror, o brutal e sádico slasher Art, O Palhaço, possivelmente o mais selvagem, violento, cruel, desumano, bárbaro, perverso personagem do cinema de horror já visto nos últimos tempos. Art não tem limites, não tem remorso, não tem pena, brinca, se diverte com a dor, com o sofrimento da vítima, debocha e gargalha silenciosamente ao melhor estilo de um mímico enquanto pratica suas maiores atrocidades. É sinistramente criativo, é original em suas execuções, tem uma ampla coleção de instrumentos em seu saco de lixo e os usa com liberdade e variação conforme a necessidade, a conveniência ou a intensidade da maldade pretendida. "Terrifier" tem algumas das cenas mais chocantes que já vi na vida e, mesmo depois, já tendo assistido às outras duas sequências da franquia cujo autodesafio desafio do diretor era exatamente o de superar a violência de sua primeira obra, ele continua sendo o mais impressionante nesse sentido. A parte em que o palhaço simplesmente corta uma das garotas que está dependurada nua de cabeça para baixo e de pernas abertas, da vagina até cabeça, é ainda hoje, para mim uma das coisas mais terríveis que um filme de terror já me apresentou. As sequências "Terrifier 2" e "Terrifier 3" têm, sem dúvida, coisas absurdas, cenas de fechar os olhos, de virar o rosto, mas, na prática, embora até tenham roteiros mais elaborados, mais elementos, mais personagens, são meros exercícios de superação daquilo que foi tão impressionante a ponto de ser sempre lembrado quando o assunto é violência extrema e tornar-se uma referência de algo a ser batido. Podem até superar por condições técnicas, orçamento, novas ideias, mas o que fez brotar esse anseio dos fãs do splatter em ter sempre mais e mais e mais, mais sangue, mais tripas, mais brutalidade, foi o primeiro longa do perverso palhaço mímico preto e branco. É mais limitado, mais curto, tem pouca história, pouco desenvolvimento... pode ser. Mas, queira ou não, a 'semente do mal' foi semeada por Terrifier.
Que bonitinho o palhacinho, né, moça? Só que não! E esse será o início de uma noite aterrorizante...
Cly Reis
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"Terrifier"(ou "Aterrorizante")
título original: "Terrifier"
direção: Damien Leone
elenco: Jenny Kennel, Catherine Corcoran, Samantha Scaffidi e David Howard Thornton
Admito que não esperava nada de interessante vindo de Francis Lawrence, diretor pelo qual tenho pouco apreço, mas que me pegou de surpresa com "A Longa Marcha: Caminhe ou Morra", essa excelente adaptação de um livro de Stephen King, da época em que ele assinava sob o pseudônimo Richard Bachman. "A Longa Marcha" quase foi adaptado anteriormente por nomes de peso como George Romero e Frank Darabont, mas os projetos acabaram no limbo das produções frustradas.
Com roteiro adaptado por J.T. Mollner (Strange Darling), Lawrence conseguiu entregar um filme tenso, brutal e, de certa forma, de uma tristeza tocante. É como se "A Noite dos Desesperados" encontrasse "Conta Comigo". O carisma do elenco juvenil, encabeçado por Cooper Hoffman e David Johnson, é a espinha dorsal dessa trama distópica, onde num futuro militarista, um grupo de garotos se alista para uma caminhada sem linha de chegada, onde o último a ficar em pé recebe um grande prêmio, enquanto o resto do grupo é executado conforme desacelera o passo. Impossível não se envolver com o drama e o destino cruel dos personagens.
Trailer oficial de "A Longa Marcha: Caminhe ou Morra"
Tanatomorfose é o nome dado ao processo morfológico de alterações que ocorrem nos organismos após a morte, o que se passa com órgãos, tecidos, células, ou seja, a deterioração do corpo.
É o que vemos acontecer em vida com a jovem Laura ao longo do filme que leva o nome deste processo biológico, "Thanatomorphose". No desconfortável e reflexivo longa do diretor canadense Éric Falardeau, Laura, uma artista plástica bloqueada criativamente, começa a sentir que seu corpo está se decompondo aos poucos. Tudo começa depois de uma noite de sexo intenso com o "namorado", um cara egoísta e abusivo com quem tem relações. Manchas e hematomas começam a surgir em seu corpo. Amigos chegam a achar que sejam resultado de agressões do namoradinho machão e ela mesmo tem dúvidas se a intensidade da transa teria causado os primeiros ferimentos. Mas será que fora mesmo a noitada de sexo ou aquele ponto de partida teria sido apenas simbólico quanto ao que já se passava com a garota? Laura se sente vazia, carente, desrespeitada, mal tratada em seu relacionamento, sem inspiração na sua arte, desconfortável em seu próprio lar... Sente que ela mesmo não é nada, que está morta, que está apodrecendo por dentro. E vamos acompanhando essa decomposição progressiva, primeiro uma feridinha, depois as unhas caindo, largas mechas de cabelo, dentes, orelha, pele. Em determinado momento, conformada, chega a parecer estar gostando da deterioração, sentindo mais prazer do que sentia com o namorado, talvez sentindo-se mais sexy do que se sentia antes. Antes sem criatividade para dar continuidade a uma escultura inacabada de argila, agora vai incorporando partes suas à obra, dedos, pele, como que se misturando ou se transferindo para a obra, tentando talvez se completar fora de si, criar uma outra Laura quem sabe melhor do que é.
Bem conduzido, "Thanatomorphose" não é um terror de sustos, de surpresas, é lento, estático, silencioso, mas é assustador pelo que está por vir. Chega a dar medo da próxima parte dela que vai cair e como isto vai acontecer. E nesse sentido, se você não vai virar o rosto ou fechar os olhos para não ver uma morte violenta como em tantos filmes de horror, vai fazê-lo para não ver a podridão avançando num corpo humano. Sem dúvida, um dos filmes mais repugnantes que já se fez.
A tanatomorfose da jovem Laura em pleno andamento...
"Extraído dos Arquivos Secretos da Polícia de Uma Capital Europeia" (1972), também conhecido como "Cerimônia Trágica", nome alternativo que faz mais jus ao seu enredo do que o original extenso, criado para capitalizar em cima da moda dos filmes italianos com títulos longos, é um bom exemplo de pânico satânico à italiana.
Na trama, durante uma noite de tempestade um grupo de jovens hippies bate à porta de uma mansão isolada, sem desconfiar que os proprietários são satanistas. A presença do grupo atrapalha uma missa negra, desencadeando consequências funestas.
O diretor Riccardo Freda, um pioneiro do cinema de horror italiano, se ressentiu pelo fato dos produtores terem feito modificações à revelia, principalmente no seu desfecho. Na sequência final imposta, um personagem aleatório entra em cena para explicar didaticamente a resolução da trama. Um apêndice absurdo que trata o espectador como idiota, justificando o descontentamento de Freda. Na história ainda temos a presença de Camille Keaton, anos antes de estrear o polêmico exploitation "A Vingança de Jennifer" (1978). Os bons efeitos de maquiagem ficaram à cargo de Carlo Rambaldi, que anos depois ficaria famoso por dar vida para "E.T", de Spielberg.
porC R I S T I A N V E R A R D I
Membro fundador da Associação de Críticos de Cinema do RGS (ACCIRS), colaborador de diversas publicações especializadas em cinema, como as revistas “Teorema” e “Hatari!”, e os livros “50 Olhares da Crítica Sobre o Cinema Gaúcho” (Ed. ACCIRS), “Cinema Fantástico Brasileiro – 100 Filmes Essenciais” (Abraccine), e “O Cemitério Perdido dos Filmes B: Exploitation” (Ed. Estronho). É apresentador do programa “Zinematógrafo”, produtor e programador da mostra “A Vingança dos Filmes B”. Como ator trabalhou em produções como “Mar Negro” (2013), “Morto Não Fala” (2018), “A Noite Amarela” (2019) e “O Cemitério das Almas Perdidas” (2020).