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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

“Summer Of Soul (...ou, Quando a Revolução Não Pôde Ser Televisionada)”, de Ahmir "Questlove" Thompson (2021)

 

Não parece aceitável que seja apenas o aperfeiçoamento dos recursos técnicos, capazes de recuperar com tecnologia digital filmes antigos, o motivo que explique porque estejam vindo somente agora a público certos registros do passado cujos espinhosos temas são necessários e urgentes para se entender a sociedade do hoje. O racismo, seja estrutural, velado ou institucionalizado, de alguma forma colabora para essa justificativa. Por que, então, não fosse por isso, somente após 60 anos de carreira, Tina Turner sentira-se à vontade para divulgar questões até então sujeitas à crítica de sua vida pessoal no documentário “Tina”? Igualmente, por que apenas dos últimos anos para cá tenham fervilhado docs  abordando abertamente este tema como "Os Panteras Negras: Vanguardas da Revolução" (2015), "What Happened, Miss Simone?" (2015), "Eu Não Sou Seu Negro" (2016), "A 13ª Emenda" (2016) e "Libertem Angela Davis" (2012)?

Esse esquecimento perverso quase fez o mundo perder de conhecer uma história praticamente apagada das mentes, mas que, salva pelas mãos do cineasta Ahmir "Questlove" Thompson, foi resgatada para a eternidade. “Summer Of Soul (...ou, Quando a Revolução Não Pôde Ser Televisionada)”, o magnífico e arrebatador documentário que concorre, com todo merecimento, ao Oscar nesta categoria, explora o Harlem Cultural Festival de 1969, evento que reuniu multidões de pessoas negras pela primeira vez em um acontecimento público e ao ar livre nos Estados Unidos e grandes nomes da música negra para celebrar a cultura afro-americana. Apesar da magnitude do festival, as imagens recuperadas pelo filme ficaram guardadas por décadas – acredite-se – numa cave. A referência no título à música de Gil Scott-Heron, escrita originalmente naquele mesmo explosivo ano de 1969, deixa claro o tom de denúncia que choca e encanta ao mesmo tempo. Como essa história tão rica nunca havia sido contada?

Wonder dando adeus ao sufixo "Little"
e ganhando maturidade
no Harlem Cultural Festival


Montado com sensibilidade e perspicácia, “Summer...” une em sua narrativa didática jornalística com arqueologia urbana. Focado nos vários números musicais que se apresentaram no palco montado em pleno Mount Morris Park, as apresentações são entrecortadas por breves mas extremamente precisas informações documentais sobre aspectos sociais, políticos e biográficos que sustentam o objeto do filme, fazendo com que não seja apenas um amontoado de músicas seguidas umas das outras (o que, neste caso, já seria interessante). Minitelejornais sobre determinado artista, imagens de fatos sociais recentes como manifestações contra o racismo, ou contextualizações históricas necessárias, como a coincidência do festival com o dia da chegada do homem à Lua, 20 de julho, dão ainda mais peso àquelas performances que se veem no palco, agigantando-as de significado e importância.

Afora isso, a variedade de estilos (R&B, funk, gospel, blues, jazz) e o nível de qualidade do cast é de encantar qualquer admirador da música feita nos últimos 60 anos. B.B. King, Nina Simone, Mahalia Jackson, Stevie Wonder, Sly & Family Stone, Gladys Knight & the Pips, The 5th Dimension, Max Roach e outros desfilam à frente dos olhos dos espectadores, dando a impressão de quase não se acreditar que aquilo um dia aconteceu. Mas está ali, vivo novamente. Afortunados que estavam na plateia e alguns daqueles artistas, como Marilyn McCoo e Ronald Townson, da The 5th Dimension, juntam-se aos espectadores comuns nesse assombro. Noutro grande mérito do filme de Thompson, pessoas que presenciaram o festival, seja assistindo ou se apresentando, são convidadas a reverem as imagens até então perdidas. Profundamente tocados, pois a revivência lhes retraz alegrias e dores, é impressionante perceber o quanto todos demonstram surpresa com o que veem, não só por somente agora terem a oportunidade disso, mas porque, não fosse a força intrínseca da imagem, do mistério divino que o cinema guarda, as memórias tendem a irem se apagando até, um dia, desaparecerem por completo. É o cinema documental exercendo suas duas primordiais funções: revelar e eternizar.

trailer de "Summer of Soul"

Além de um retrato do momento sociocultural de final dos conturbados anos 60, o filme serve também para se entender o próprio estágio em que se encontravam àquela época os artistas participantes, visto que, para alguns, o festival foi crucial para a carreira. Wonder, então com 19 anos, por exemplo, sobe ao palco do Harlem Cultural Festival exatamente no ínterim entre sua tutela artística pela Motown, iniciada quando ainda era uma criança, e o começo da maturidade criativa, que o levaria a se tornar um dos mais consagrados artistas de todos os tempos a partir de então. A Sly & Family Stone, igualmente. É impressionante perceber que “Stand!”, revolucionário disco de estreia da banda que mesclava o funk negro ao psicodelismo do rock com o grito contra as desigualdades, havia sido lançado apenas um mês antes da realização do festival e, mesmo assim, já era uma febre junto ao público. E o que dizer da apresentação explosiva de Nina?! Ou da homenagem a Martin Luther King, protagonizada por Mavis Staples e Mahalia!? De arrepiar. Se o assassinato do pastor e líder político ainda hoje não é totalmente assimilado pela comunidade negra, imagine-se à época, pouco mais de um ano anos após o trágico ocorrido e em que as feridas estavam abertas.

Mavis e Mahalia protagonizando
um dos momentos mais
emocionantes do filme
O paralelismo com fatos históricos daquele efervescente período está presente a cada minuto do longa, como a onipresença dos Black Panthers (responsáveis pela segurança do evento), a presença de figuras emblemáticas para a causa negra como o ativista Jesse Jackson e o protagonismo de Tony Lawrence, agitador cultural e organizador do festival. Somente assistindo-se o filme se entende com mais clareza, por exemplo, o porquê das críticas que sempre pairaram em relação à política de financiamento da corrida especial, intensificada pelos Estudos Unidos naquela década de 60 de Guerra Fria e disputa de poder com a União Soviética. Num dos momentos do filme, mostram-se reportagens da época com pessoas sendo entrevistadas durante o festival dizendo ser um absurdo o governo gastar bilhões de dólares para ir à Lua enquanto a população, ali, pobre e em sua maioria negra, passa por tanta dificuldade. Noutro ponto, mais um aspecto elucidativo de “Summer...”: o festival foi realizado, curiosamente, durante o mesmo verão que outro megaevento, o de Woodstock, o qual levantava não a perigosa bandeira da luta contra o racismo e dos direitos civis, mas a utópica máxima hippie de “paz e amor”. Não é difícil de saber qual festival entrou para a história e qual foi esquecido num porão...

“Summer...” não é só provavelmente o melhor documentário deste ano e forte candidato à estatueta da Academia, como um dos mais brilhantes sobre música da história do cinema, tranquilamente equiparável a clássicos do gênero como “O Último Concerto de Rock”, “Gimme Shelter” e “Amazing Grace”. Sua narrativa, que casa metalinguística e documentação histórica, é tão eficiente que lhe potencializa o caráter de espetáculo e de denúncia social num só tempo. A realização milagrosa de “Summer...” é, por si, reveladora, visto que funciona como uma metáfora da vida da América escravagista: preso num calabouço, o negro, até então fadado ao apagamento social, sai da condição subumana para forjar, com talento ímpar e força interior ainda mais admirável, toda a arte musical moderna como se conhece hoje.


Daniel Rodrigues

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

"Elvis", de Baz Luhrmann (2022)




“Elvis” é vibrante, é bem dirigido, tem boas atuações, direção de arte perfeita, é feito com o coração, é tecnicamente de alto nível mas... não emociona. Aprendi que, com cinema, não é certo nutrir expectativas em relação a um filme antes de vê-lo. No máximo, permito-me ler a sinopse previamente quando não tenho ideia do que se trata. Mas quando o assunto é a cinebiografia do maior astro da música pop de todos os tempos, essa relação é necessariamente diferente. Afinal, é impossível dissociar o fã do crítico em se tratando de Elvis Presley. Ambos são os espectadores capazes de entender o filme do australiano Baz Luhrmann, que assisti em uma sessão especial no GNC Cinemas do Praia de Belas Shopping.

Incluo-me nesta dupla avaliação por três motivos. Primeiro, porque soaria ilógico abordar um ícone tão popular a quem todos de alguma forma são tocados de maneira distanciada. Segundo, porque, neste caso, a admiração ao artista, dada a dimensão inigualável deste para a cultura moderna, colabora com a avaliação, visto que imagem pública e carisma se balizam. Ainda, em terceiro, mesmo que desprezasse essa abstenção, a avaliação final não muda, pois talvez só a reforce.

Afinal, “Elvis” é, sim, um bom filme. Além da caracterização e atuação digna de Oscar de Austin Butler no papel do protagonista, bem como a de Tom Hanks na pele do inescrupuloso empresário de Elvis, Tom Parker, há momentos bem bonitos e reveladores. Um deles é como se deu toda a concepção do histórico show “From Elvis in Memphis”, gravado pelo artista ao vivo em 1969, evidenciando os desafios e êxitos daquele projeto ambicioso. Igualmente, o momento do "batismo" do pequeno Elvis na igreja evangélica ainda no Tenessee, quando, em transe, conhece a música negra na voz de ninguém menos que Mahalia Jackson.

O pequeno Elvis sendo batizado pela música e a cultura negra 

No entanto, essa sensação é um dos sintomas de não inteireza do filme, percepção que passa necessariamente pela parcialidade crítica. Em qualquer obra artística, quando partes são destacadas, como retalhos melhores que outros, algum problema existe. É como um quadro com traços bonitos, mas de acabamento mal feito, ou um disco musical com obras-primas no repertório, mas desigual por conta de outras faixas medíocres. Luhrmann é bom de estética, mas cinema não é somente isso. A estética precisa funcionar a favor da narrativa e não se desprender dela. Se fosse somente isso, seria exposição de arte ou desfile de moda. Aí reside uma das questões do filme: a sobrecarga de estetização – inclusive narrativa. Além de prejudicar a continuidade, resulta nestes espasmos catárticos ajuntados e não integrados.

Por isso, a narrativa, na primeira voz de Parker, parece, ao invés de solucionar um roteiro biográfico não-linear (o que é lícito, mas perigoso), prejudicar o todo, desmembrando em demasia os fatos uns dos outros. O ritmo começa bastante fragmentado, tenta se alinhar no decorrer da fita, mas a impressão que dá é que em nenhum momento estabiliza, como se, para justificar uma narrativa criativa e "jovem", lançasse de tempo em tempo dissonâncias que tentam surpreender, mas que, no fundo, atrapalham. O cineasta, aliás, tem histórico de resvalo nesta relação forma/roteiro. Havemos de nos lembrar de “Romeu + Julieta”, de 1997, seu primeiro longa, totalmente hype visualmente mas em que o diretor preguiçosamente delega o texto para o original de Shakespeare, resultando num filme desequilibrado do primeiro ao último minuto.

Butler ótimo como Elvis: digno de Oscar

O positivo em casos assim é que a probabilidade de agradar pelo menos em lances esporádicos é grande. A mim, por exemplo, não foi o clímax (a meu ver, um tanto apelativo e simplório) que tocou, mas, sim, cenas talvez nem tão notadas. Uma delas, é a escapada de Elvis para a noite no bairro negro à mítica Beale Street, em Memphis. O que me encheu os olhos d'água não foi nem o Rei do Rock trocando ideia com B.B. King (ao que se sabe, licença poética do roteirista) ou assistindo tête-à-tête Sister Rosetta Tharpe e Little Richard se apresentarem, mas a chegada do já ídolo Elvis ao local. Ele é respeitosa e admiravelmente recebido pelos negros e não com histeria como já o era em qualquer outro lugar que fosse. É como se os verdadeiros criadores do rock 'n' roll, gênero musical a que muitos ainda hoje atribuem roubo cultural por parte de Elvis, lhe admitissem, dizendo: "Tudo bem de você circular entre nós. Você é um dos nossos".

Outra cena que me emocionou foi a do show na reacionária Jacksonville, na Florida, em 1955, quando Elvis, indignado com as imposições da sociedade moralista, resolve não obedecer que o censurem de cantar e dançar do seu jeito julgado tão transgressor para a época. Claro, que deu tumulto. Aquilo é o início do rock. O gênero musical, misto de country e rhythm and blues, os artistas negros já haviam inventado. Mas a atitude, tão essencial quanto para o que passaria a ser classificado como movimento comportamental de uma geração, nascia naquele ato. Ali, naquele palco, estão todos os ídolos do rock: Lennon, RottenJim, JaggerNeil, Jello, PJ, Hendrix, Kurt, Ian, Rita, Iggy e outros. Todos são representados por Elvis. Impossível para um fã ficar impassível. Além disso, a sequência é filmada com requintes técnicos (troca de ISO, edição ágil, uso de foto P&B, etc.) que lhe dão um ar documental ideal. Aqui, Luhrmann acerta em cheio: estética a serviço do roteiro.

O polêmico show Jacksonville recriado por Luhrmann: o início do rock

Por outro lado, há desperdícios flagrantes. As primeiras gravações do artista, feitas para a gravadora Sam Records, entre 1954 e 55, um momento tão mágico e gerador de um dos registros sonoros mais sublimes da cultura moderna, são abordadas somente en passant. Algo que seria bastante explorável em uma cinebiografia que intenta fantasia.

Todos esses motivos justificam o olhar não só do crítico como também o do fã, uma vez que um embasa o outro. Se o filme é bom, mas não decola, é justamente porque o primeiro condiciona-se a avaliar tecnicamente, mas quem tem propriedade - e direito - de esperar ser encantado pela obra é quem curte de verdade Elvis e rock 'n' roll. Pode ser que tenha obtido sucesso com muita gente, mas a mim não arrebatou. Uma pena. A se ver que as cinebiografias de Freddie Mercury e Elton John, artistas que nem gosto tanto quanto Elvis, me arrebataram e esta, não. Não saí com uma sensação negativa, mas com a de que se perdeu uma oportunidade de ouro. “It’s now or never”? "Now", pelo menos, não foi.

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trailer do filme "Elvis", de Baz Luhrmann



Daniel Rodrigues


quinta-feira, 19 de março de 2026

Living Colour - Best of 40 Years Tour - Bar Opinião - Porto Alegre/RS (26/02/2026)


Lobão é um chato de galocha, que fala muita bobagem boca afora, mas que, convenhamos, às vezes tem bons lampejos. Em uma entrevista recente dele na qual falava sobre heavy metal, justificando porque não gosta de Iron Maiden, o velho roqueiro brasileiro argumentou que bandas como esta e várias outras nessa linha perderam, da metade dos anos 70 em diante, a veia negra do rock, presente em Deep Purple, Black Sabbath e Led Zeppelin, e passaram a investir numa injustificável (e branca) atmosfera nórdica. No alvo, sr. Lobão. Assistindo a Living Colour, a banda norte-americana formada integralmente por músicos negros há 40 anos, fica fácil entender onde o rock pesado desviou a rota. Verdadeiros herdeiros de Little Richard, Chuck Berry, Sister Rosetta Tharpe e Jimi Hendrix, mas também de James Brown, Sly Stone, Aretha Franklin, George Clinton, Chaka Khan, Death, Prince e Bad Brains, a LC, que fez um show arrasador em Porto Alegre na turnê que comemora suas quatro décadas, foi quem, no final dos anos 80, reivindicou a autoria negra e resgatou a verdadeira semente do rock das guitarras distorcidas.

Com um repertório muito bem montado, que inicia com sucessos, passa por momentos de surpresas, homenagens, sessões livres e termina com as "mais mais" e direito a bis, Corey Glover (vocais, e que vocais!), Vernon Reid (guitarra, gênio!), Doug Wimbish (tocando baixo como se não estivesse fazendo nada difícil) e Will Calhoun (bateria, certamente dos melhores do instrumento) não apenas executam os números: eles brincam de tocar. A construção harmônica e o arranjo das competições favorece a que eles, exímios instrumentistas, improvisem o tempo todo, transformando também as músicas constantemente.

A entrada dos quatro no palco foi triunfal ao som do tema do filme "O Império Contra-ataca", de John Williams, uma sacada bastante sarcástica vindo de um grupo que "contra-atacou" o "império" branco da indústria pop. A abertura, então, foi com "Leave it Alone", do disco “Stain”, de 1993. Prejudicados nos primeiros números em razão da qualidade do som, quando mal se ouvia a voz potente de Glover e a guitarra de Reid era um zunido só, eles fizeram na sequência "Middle Man" e uma magnífica versão, mesmo mal equalizada, de "Memories Can't Wait", da Talking Heads, gravada por eles, assim como a anterior, em "Vivid", de 1988. Até em reggae eles transformaram a música num trecho! Mas o que manda mesmo é a guitarra intensa e melodiosa de Reid, assim como ele faria em muitas outras a seguir.

Living Colour tocando Talking Heads:
nem o som ruim atrapalhou

"Ignorant is Bliss", em que parece que Mr. Dinamite sujou de guitarras pesadas seu groove, e o heavy-metal possante de "Go Away" vieram antes da ótima "Bi", suingada e com toda aquela atmosfera jazzística em cima de um rock vibrante. A altamente variante "Funny Vibe", cuja bateria de Calhoun é que dita o ritmo, indo do hardcore ao funk e ao jazz em poucos compassos, ainda é incrementada com "Fight The Power", dos seus ídolos Public Enemy.

A essas alturas, já com o som ajeitado na mesa de áudio, um dos momentos especiais do show: quando tocam "Hallelujah", de John Cale, só no vocal de Glover e a guitarra de Reid, fazendo suscitar os cânticos de louvor da tradição gospel que está na veia dos rapazes da LC. Lembrei muito de Mahalia Jackson emocionando a multidão quando cantava “Precious Lord, Take My Hand”, para se ter ideia da potência do que seu viu/ouviu no Opinião. Depois, colada, a clássica "Open Letter (to a Landlord)", ao mesmo tempo uma música de protesto e denúncia do racismo e uma oração. A cara da banda. Olha: isso é que é saber compor um setlist

Mas tinha mais! A pedrada "Pride", um de seus maiores sucessos, levantou ainda mais a galera, composta basicamente de fãs da banda e do Metal. E as improvisações, mesmo em músicas consagradas, impressionantemente nunca param de acontecer. Está no jeito de eles tocarem, de sentirem a própria música. Mas essa liberdade de inventar na hora não quer dizer faça com que o quarteto se perca ou que desvirtuem os próprios temas. Experientes, sabem quando "criar" mais e quando dar apenas "cores livres". Afinal, estamos falando de música preta, de descendentes do improviso do jazz e do blues. Dava para ouvir, em certos momentos, a influência direta do free jazz spiritual de John Coltrane, principalmente em se tratado de Reid. Verdade é que a LC é talvez a única power band em atividade, aquela classificação de grupo em que todos, sem exceção, são grandes músicos.

Pois até a "cozinha" brilhou. Calhoun fez todos ficarem embasbacados com seu solo de bateria e na conjugação com a música “Baianá”, do conjunto brasileiro Barbatuques. Empunhando aquelas baquetas junto com Calhoun, estavam, certamente, Elvin Jones com sua africanidade, John Bonham com sua intensidade, Steve Gadd com sua habilidade, Art Blakey com sua capacidade de criar ritmo. Pouco depois, foi a vez de Wimbish, chamando o público pra cantar e dançar, comandar o palco cantando um medley de três clássicos do hip-hop da Grandmaster Flash & The Furious Five, "White Lines", "Apache" e um dos maiores hits da era break, "The Massage". Demais!

Trecho de "Bi", um dos sucessos da LC

O final do show foi uma sequência de tirar o fôlego, começando com "Glamour Boys", cuja guitarra suingada do riff explode em distorção no refrão cantado pela plateia toda ("I ain't no glamour boy (I'm fierce!)/ I ain't no glamour boy (wow!)"); o blues matador "Love Rears It's Ugly Head", o maior sucesso da LC e cujo clipe gastou de tanto rodar na MTV no início dos anos 90; e a paulada "Type", outro clássico absoluto deles e do rock pesado de todos os tempos. Refrãozasso: "We are the children of concrete and steel/ This is the place where the truth is concealed/ This is the time when the lie is revealed/ Everything is possible, but nothing is real". E Reid, hein?! O que é Vernon Reid tocando?! Ele é por si um show. Definitivamente um dos deuses da guitarra. Contemporâneo de Steve Vai e Joe Satriani, de quem guarda semelhanças no jeito de tocar, Reid é um guitar hero em atividade e que exercita seu estilo não só em solos inventivos (e que não são cansativamente extensos como fazem a maioria dos virtuoses), mas também na maneira de compor. Tanto quanto seus companheiros, vê-lo ao vivo no palco é algo realmente memorável.

Mas, gente: ainda tinha mais, acreditem. O hardcore "Time's Up", que dá nome ao celebrado segundo disco da LC, de 1990, emendou-se com outra de "Vivid", "What's Your Favorite Color?". E, para "encerrar", nada mais nada menos que "Cult of Personality", seguramente um dos 10 maiores riffs do rock dos últimos 40 anos, que foi entoada por todo o pessoal em êxtase que lotava o Opinião. É muito heavy, mas também é muito jazz, principalmente por suas quebras de ritmo, variações de escala e andamento e, claro, a habilidade dos rapazes de improvisar. 

Digo "encerrar" assim, entre aspas, porque ainda rolou, como disse no início, bis. E foi primeiro com a calmaria da gostosa "Solace of You" - que em muito lembra a mistura de reggae e ritmos do Caribe de "Alagados", da Paralamas do Sucesso, de alguns anos antes - para, enfim, terminarem com outra de suas covers emblemáticas: a punk "Should I Stay or Should I Go", da The Clash.

Foram só pedradas, só clássicos, que fez lembrar a primeira apresentação da banda no Brasil, no Hollywood Rock de 1992, quando ainda muito jovens, e que não só assisti ao vivo pela TV na época como gravei em K7 e por anos meu irmão e eu escutamos aquele memorável show. Agora, mais maduros, Glover, Reid, Wimbish e Calhoun continuam a tocar o que talvez à época nem tenha me dado conta com tamanha clareza: a de que se trata do mais alto nível de rock que se possa imaginar. O rock melodioso, tocado com alma e, por que não, também barulhento. Um rock negro, tal qual foi criado, há quase 80 anos. Como diz aquela canção, "Lobão tem razão". Às vezes, tem.

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Quarteto norte-americano no palco do Opinião


Reid, Glover com seus deads e Wimbish com Calhoun ao fundo 


A clássica "Pride" pra exaltar a galera


O grande sucesso "Love Rears it's Ugly Head", 
que pôs o Opinião para suingar


Músicos da mais alta qualidade em uma apresentação histórica


Momento emocionante - e pulsante - com "Open Letter
(to a Landlord)". Louvação e protesto


Quase terminando o show, "Cult of Personality", 
um dos maiores riffs já escritos


Clima de festa dos "metaleiros" com as mãos chifradas pra cima


Cover de The Clash para encerrar 
o show com punk rock



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texto: Daniel Rodrigues
fotos e vídeos: Leocádia Costa e Daniel Rodrigues