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terça-feira, 8 de julho de 2025

Claquete Especial Mês da Luta Antirracista - "A regra é o respeito"*

 

O competente e precursor De e seu Dogma Feijoada
Em 2000, o cineasta paulista Jeferson De, em colaboração com outros realizadores negros, lançava, durante o 11º Festival Internacional de Curtas de São Paulo, o chamado Dogma Feijoada, marco daquilo que se pode chamar de cinema negro brasileiro moderno. Embora a prática do audiovisual entre realizadores negros no Brasil se dê de muito antes, o movimento em si ainda parece bastante válido 25 anos após seu lançamento. De – que posteriormente prosseguiria contribuindo com a própria ideia de um cinema feito por negros com filmes como “Bróder”, de 2011, e “Doutor Gama”, de 2021 – apresentava um programa composto, além de outras atividades, pelo manifesto Gênese do Cinema Negro Brasileiro. Em referência ao Dogma 95, criado pelos cineastas europeus Thomas Vinterberg e Lars Von Trier cinco anos antes e que defendia a necessidade de produções mais realistas e menos comerciais, o Dogma Feijoada interrogava uma urgência histórica bem mais doméstica: “o que entendemos como cinema negro brasileiro?”

Dentre as diretrizes e exigências do manifesto, havia sete “regras” para a produção de um cinema negro: (1) o filme tem de ser dirigido por realizador negro brasileiro; (2) o protagonista deve ser negro; (3) a temática do filme tem de estar relacionada com a cultura negra brasileira; (4) o filme tem de ter um cronograma exequível. Filmes-urgentes; (5) personagens estereotipados negros (ou não) estão proibidos; (6) o roteiro deverá privilegiar o negro comum brasileiro; e (7) super-heróis ou bandidos deverão ser evitados.

Tal como devem ser os manifestos políticos, o Dogma Feijoada trouxe o tema à tona de forma abertamente impositiva. Não haveria de ser de outro jeito. Afinal, estava-se, naquele momento, virada do século 20 para o 21, resgatando não apenas uma fatia econômico-produtiva dentro de uma indústria há muito existente no Brasil. Mas, sim, estava-se, ao menos no setor audiovisual, recuperando séculos de total desumanização de um povo pela prática da escravidão e outros quase 120 anos de sequestro intencional e deliberado da mão de obra negra após a Lei Áurea, de 1888, e o projeto estatal de embranquecimento e substituição dos “ex-escravos” por imigrantes europeus brancos.

"Kasa Branca!, dos exemplos da nova safra do
cinema preto brasileiro
Passadas mais de duas décadas desde a provocação de De e sua turma, a boa notícia é que, sim: avançou-se de lá para cá em termos de produção negra no cinema nacional. Senão em todos, pelo menos em vários dos requisitos elencados. Quando a Dogma Feijoada foi parar no estômago do cinema brasileiro, algumas ações na direção de uma maior equidade de oportunidades e compensação histórica estavam sendo preparadas. No Senado Federal, consolidava-se, também em 2000, o Comitê Permanente pela Promoção da Igualdade de Gênero e Raça. Naquele mesmo ano, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro aprovava uma lei que reservava metade das vagas das universidades estaduais para estudantes de escolas públicas, semente do que resultaria na exitosa Lei de Cotas, conhecida também como Lei 12.711, aprovada em 2012. 

A realidade do audiovisual brasileiro mudou bastante, principalmente a partir de então. Mas é fato que ainda insuficiente para dar conta da demanda reprimida da comunidade negra. Em 2024, a Cinemateca Negra realizou um levantamento inédito, que mapeou 1.104 filmes dirigidos por pessoas negras no Brasil desde a década de 1940. O estudo revelou que 83% dessa produção surgiu, justamente, entre 2010 e 2020. Contudo, essa parcela representa somente 10% dos filmes brasileiros lançados no mesmo período.

Hoje é possível se verem filmes como “O Dia que te Conheci”, de 2024, dirigido pelo cineasta negro André Novais Oliveira e realizado pela produtora mineira Filmes de Plástico, que privilegia em suas produções personagens negros da vida real, ou seja, longe de se passarem por “super-heróis ou bandidos”. A “urgência” se evidencia ao abordar o tema da depressão e das pressões da vida social, enquanto o item da “cultura negra”, outra exigência posta em manifesto, está inserido de forma naturalizada em seus protagonistas, que tentam existir na cidade com suas ancestralidades e bagagens pessoais.

O tocante "O Dia que te Conheci": cinema negro 
em essência e na prática

Outro título emblemático para o novo cinema brasileiro é “Marte Um”, de 2022, também da Filmes de Plástico, este, dirigido pelo igualmente cineasta negro Gabriel Martins. Ao natural, também atende a todos os predicados ditados pelo Dogma Feijoada: protagonismo negro atrás e na frente da tela, representação da vida de pessoas comuns, questões sociais imperiosas, quebra dos modelos preconcebidos, projeto exequível. E o mais importante: ambos são histórias bem contadas, humanas, tocantes, que aproximam tanto o público negro da tela quanto demonstra a realizadores afrodescendentes que, sim, “nós podemos” realizar um cinema honesto e de qualidade sobre as nossas coisas.

Bulbul, figura essencial para o
cinema negro no Brasil
Se “O Dia que te Conheci”, “Marte Um” e outros filmes da atualidade (como “Kasa Branca”, “Mussum - O Films” e “Othelo, O Grande”) representam o objetivo traçado anos atrás, é evidente que, para se chegar a tal estágio, muito se precisou caminhar. Precursores do cinema negro brasileiro, como Cajado Filho e Haroldo Costa, tiveram em Zózimo Bulbul, Adélia Sampaio, Odilon Lopes e Joel Zito Araújo, principalmente, a consolidação de um cinema preto no Brasil. 

No entanto, o que pareceu escapar à ambição momentânea do grupo do Dogma Feijoada é um dos gargalos do cinema nacional atualmente: como distribuir e onde exibir tais produções? Como fazer esse cinema tão importante para a autoidentificação de um país chegar ao público de interesse? Numa busca na internet por alguns títulos nacionais que tratam das questões do negro, como “Todos Somos Irmãos” (1949) ou “Quilombo” (1984), é possível encontrá-los disponíveis no Youtube. Porém, vários outros, principalmente os mais recentes, somente nos streamings – e de forma paga. 

Com salas de cinema cada vez mais escassas, iniciativas como a 1ª Mostra de Cinema Negro na Escola, que ocorre até dia 11 na Cinemateca Capitólio, em Porto Alegre, são louváveis. Com sessões gratuitas e uma seleção de filmes negros brasileiros, a iniciativa irá exibir filmes com temática afro-brasileira para estudantes e professores de 50 escolas estaduais e municipais da capital e da região metropolitana, atingindo cerca de cinco mil alunos e docentes.

Em um mês marcado por várias datas de combate ao racismo (Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial, 3, Dia Internacional Nelson Mandela, 18, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, 25), é fundamental que iniciativas e programas públicos como este fomentem a exibição de produções pretas como forma de ampliar o acesso ao que realizadores negros têm a dizer e ao que os olhares (sejam pretos ou não) têm a enxergar. Aproximar o público daquilo que lhe interessa e pertence. A visibilidade das histórias e contribuições da comunidade negra deve proporcionar um espaço de reflexão e diálogo, tão fundamental a uma sociedade democrática que se pretende igualitária. E sem que se precise enumerar regras para isso, como a bem pouco tempo. Oxalá a única regra seja ditada por apenas uma sentença: respeito. 

*artigo originalmente publicado no Segundo Caderno do jornal Correio do Povo em 27 de junho de 2025


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Daniel Rodrigues


quinta-feira, 1 de março de 2018

The Cure, eu te amo mas não te quero mais

Apesar de tudo, você ainda tem meu coração.
Eu já amava o The Cure antes mesmo de conhecer. Sim! Pode parecer exagero mas é a mais pura verdade. Por ocasião  da vinda da banda em 1987, uma rádio de Porto Alegre fez um especial de uma hora com alguns dos melhores momentos da carreira do grupo até então. Eu, um garoto de doze anos recém começando a escutar coisas interessantes, estimulado pela então recente explosão do rock nacional, fui ouvir o programa interessado em saber quem eram aqueles tão badalados ingleses que em alguns dias desembarcariam na minha cidade. E eis que o programa começa e eu percebo que não  somente já conhecia, como sempre gostara daquelas músicas mesmo sem saber de quem eram. "Inbetween Days" era a abertura do programa Clip Clip, "Close To Me" era aquela do clipe do armário, "Primary" era vinheta de uma rádio, "The Walk" tocava num comercial, "Boys Don't Cry" tocava à insistência por todo o canto, e outras que eu não conhecia, mais soturnas e sombrias, caíram  imediatamente nas minhas graças. Eram eles! Era o que eu queria ouvir e tudo estava reunido em uma só  banda. Estava estabelecida uma relação de amor. 
Não fui no show porque os tempos eram outros e se hoje em dia a meninada passa dias acampada numa fila em frente a um estádio para ver seus ídolos, não só com o consentimento dos pais como muitas vezes com acompanhados deles, naquela época, eu um fedelho, mesmo que me fosse permitido ir, meus pais não pagariam meu ingresso ainda mais pra ver uns caras mórbidos e esquisitos como aqueles. Mas passei então a partir dali a obter tudo o que pudesse daquela banda.
A coletânea "Standing On A Beach"
que me orientou quanto ao que
procurar e conhecer da banda.
Comprei a coletânea  "Standing on a Beach" e conhecendo a partir dele a ordem cronológica da obra da banda fui atrás de tudo. O exótico "The Top", o acessível e consagrado "The Head On The Door" e o ao vivo "Concert", que tiveram distribuição no Brasil, a muito custo, economizando mesada, consegui comprar. Os importados, no entanto, fora da minha realidade, eu dava um jeito de conseguir numa loja que gravava os álbuns por um valor bem mais em conta do que fosse comprá-los. Aí  que conheci o "Three Imaginary Boys", que hoje vejo como irregular mas que na época lembro de deixar rolando de madrugada até que eu pegasse no sono; os álbuns  gêmeos "Seventeen Seconds"e "Faith", ambos direcionadores da identidade que a banda assumiria e viria a lhe ser distintiva; o tecno-pop mal-resolvido porém de bons resultados comerciais de "Japanese Whyspers" e mais um monte de bootlegs, que na época era ao que se atribuía o termo "pirata". Com muito esforço consegui comprar o clássico "Pornography", este sim, disco definidor de característica e linguagem, e o subestimado e pouco valorizado "Blue Sunshine" do projeto de Robert Smith com Steven Severin do Siouxsie and The Banshees, disco de importância crucial na consolidação do pop que o Cure apresentaria a partir dali.

Naquele ano de 87 a banda em seu melhor momento e com sua melhor formação, que se tornaria a mais clássica e idolatrada, lançaria "Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me", um duplo muito bem acabado e repleto de hits mas que, como conjunto, poderia ter sido melhor como um álbum simples mais enxuto. 
Dois anos se passaram e mesmo com todo o sucesso dos últimos trabalhos, boatos sobre problemas internos e um possível fim da banda não paravam de rolar. E foi em meio a esse clima e a essa boataria que surgiu "Disintegration", um álbum denso, pesado mas que mesclava com maestria essa melancolia com um pop de alta qualidade resultando num improvável sucesso que fez deste o álbum  mais vendido e um dos mais cultuados da banda. Meio que na carona veio a coletânea de remixes "Mixed Up" que, se não se justificava plenamente, trazia ao menos algumas boas releituras e a então inédita e interessante "Never Enough". Mais fofocas, mais diz-que-diz, e novamente do meio do turbilhão outro grande disco: "Wish", mais solto e leve surgia como um raio luminoso na carreira do Cure, emplacando novamente um monte de sucessos e trazendo a reboque dois ótimos registros ao vivo, os discos "Show" e "Paris".
Robert Smith , no show do Rio em 2013
Mas os boatos não eram somente rumores e os problemas existiam de verdade: Laurence Tolhurst, um dos fundadores e amigo de longa data de Robert Smith, com problemas de alcoolismo era mandado embora, outros integrantes com outros interesses e projetos davam no pé, o selo pelo qual o Cure gravara desde o início da carreira, a Fiction, era vendido e Dave Allen, produtor de todos os grandes trabalhos do grupo não estava mais nos planos. Ninguém fica indiferente a tudo isso e quando o Cure veio ao Brasil em 1996 para o Hollywood Rock, e quando finalmente consegui realizar meu desejo de vê-los ao vivo, o que se viu foi uma banda confusa, desentrosada e com um repertório novo bastante irregular. É que aquela vinda precedia o lançamento do álbum "Wild Mood Swings" e foi aí que nossa relação começou a estremecer. Desde então a banda pareceu ter perdido o rumo, a identidade, criatividade e limitar-se a tentar imitar a si mesma. O bom mas, para mim, superestimado "Bloodflowers" ainda foi um último suspiro de qualidade e, embora seja colocado ao lado de "Pornography" e "Disintegration" como parte de uma espécie de trilogia das sombras, passa muito longe dos dois e até mesmo de outros momentos mais criativos da banda.
Depois disso, então, tudo só veio a piorar. O Cure virou uma auto-paródia e seus discos seguintes "The Cure" e "4:13 Dream" passaram a ser não somente dispensáveis como irrelevantes. Assim que eu não ouço mais The Cure. Praticamente ignoro tudo depois de "Wish". Tenho o "Bloodflowers" em casa mais por respeito do que por paixão mas de resto, tudo que ouço depois desta época me parece insosso, indiferente ou mais do mesmo. Até o visual, a cabeleira desgrenhada de Robert Smith, hoje parece muito mais uma caricatura do que colabora no seu papel de marca registrada.
É claro, ouço todos os antigos discos com o mesmo fervor e admiração e ainda sou apaixonado por aquela banda que eu conhecia. É como aquele cara que teve que acabar um namoro porque sabia que era necessário, que a namorada não era mais a mesma, que mudara, mas que ao chegar em casa dorme abraçado com o porta-retrato com a foto dela. 
Teaser do show comemorativo de 40 anos no Hyde Park
Nesse 2018 quando o The Cure completa 40 anos de existência, embora respeitada fico com a sensação que a banda nunca recebeu o devido valor e reconhecimento por sua obra e trajetória. O Cure não inventou a roda, não descobriu o fogo, mas criou uma identidade musical tal que é referência desde que a banda se firmou, sabendo expandir seu leque e suas possibilidades de modo a não ficar restrito a determinado tipo de público, sem para isso abrir mão de suas características. Sua música pode não ser originalíssima mas seu som e tão único que eu costumo dizer que tem coisas que só o Cure faz pr'a gente. Mas não tem feito. E faz tempo.
A banda comemorará suas quatro décadas de atividade com um show monumental no Hyde Park em Londres no mês de julho, que tem tudo para ser épico e no qual certamente tocará todos seus grandes sucessos e as preferidas dos fãs, que é o que atualmente o que vale a pena no Cure: seu passado. Tive a oportunidade de compensar o fraco show do Hollywood Rock com uma apresentação de mais de três horas, aqui no Rio, em 2013, que foi mais ou menos nessa linha: apresentaram o que tinham de melhor. Apesar da fraca e pouco carismática formação atual, lavaram a alma e com certeza levarei aquele dia como um dos grandes momentos da minha vida. Mas a essas alturas tenho a impressão de que isso é tudo que teremos deles: grandes recapitulações e rememoramentos. E é aí que eu fico pensando que se é para ficar gravando discos como os que o Cure vem apresentando e insistindo em musiquetas sem a menor inspiração, seria melhor Robert Smith cumprir aquilo que tantas vezes ameaçou e dar um ponto final nisso tudo. Não pensem que falo isso sem alguma dor. Que recomendo isso com satisfação. Não! The Cure é minha banda do coração. Mas se é pra fazer música como quem trabalha num cartório, prefiro apenas ficar com os nossos bons momentos: descobrir aquela banda num programa de rádio, dormir ao som do "Three Imaginary Boys", comprar o "Pornography", presenciar aquele showzaço de 2013... Sim, eu te amo, The Cure, mas tenho que ser realista e admitir para mim mesmo que, se for assim como está, eu não te quero mais.



Cly Reis
(texto publicado originalmente no blog Zine Musical)

quinta-feira, 22 de março de 2012

cotidianas #147 - O Filho do Diabo

Quem seria àquela hora?
As batidas insistentes na porta interrompiam sua habitual sesta, da qual não abria mão, principalmente naquela época do ano em que fazia muito calor. Lidara a manhã inteira no campo de algodão e agora que conseguia descansar o corpo exausto um inconveniente vinha incomodá-lo. Quem seria?
Levantou-se ainda meio sonolento, vestiu a calça e foi até a porta ainda vestindo a camiseta regata. Abriu apenas a porta interna de madeira, deixando fechada a porta telada que lhe socorria dos insetos à noite. A claridade da rua ofuscou por um momento seus olhos, mas assim que fixou a visão, deparou-se com um negro retinto magro de chapéu de abas largas na cabeça e vestido com um terno escuro com camisa branca e  uma gravata estreita fixada no colarinho por um pregador prateado. O negro que exibia um sorriso largo, amplo, branco e com um sutil ar debochado, inclinou-se suavemente para a frente, aproximando o rosto da tela de mosquitos, encarando o dono da casa com interesse.
- Em que posso ajudá-lo? - quis saber o jovem Bob com uma certa irritação por ter sido acordado.
O desconhecido, sem desfazer o sorriso, respondeu com outra pergunta:
- Não se lembra de mim, irmão?
Bob não era bom fisionomista, mas tinha certeza de nunca ter visto aquele cidadão antes, até porque não haveria como esquecer um sorriso daqueles que parecia ter todos os dentes do mundo.
- Não, acho que não - respondeu esperando ser, então, informado acerca da ocasião da apresentação entre os dois. Mas não foi o que recebeu.
- Tem certeza, irmão?
A insistência do estranho, aliada à inconveniência da visita começavam a lhe incomodar um pouco mais agora. Sem falar naquele incômodo tratamento excessivamente aproximador, ainda mais por aquelas bandas do Mississipi, principalmente entre os pretos, como ambos eram.
- Sim, tenho certeza! Agora vai dizendo o que quer ou vai caindo fora - levantando a voz.
- Desculpe, irmão.  - disse o estranho sem desfazer um milímetro da bocarra sorridente - é que por um momento achei que seu rosto me fosse familiar...
- E então? O que quer? - insistiu.
- Sua mãe está, irmão?
Bob não conseguiu disfarçar um certo embaraço:
- Minha mãe morreu faz 7 anos, cara! o que é que você quer afinal?
- Ah, sinto muito, irmão. Me solidarizo com sua dor. - agora escondendo os dentes mas mantendo um tom de troça e levando o chapéu ao peito como em condolência.
- E pare de me chamar de irmão. - ordenou finalmente tomando aquela atitude que já queria ter tomado desde que o homem o chamara daquela maneira pela primeira vez naquela tarde
- Mas não somos todos irmãos perante... Ele, irmão? - argumentou em tom cínico movendo apenas os olhos na direção do céu.
- E quer saber: vai dando o fora daqui antes que eu pegue a minha espingarda e te ponha pra fora cheio de chumbo no rabo.
- Desculpe, irmão. Eu não quis incomodar.
- Eu já disse pra não me chamar mais de irmão, cara! Chega dessa merda, eu vou pegar a minha arma.
E já ia virando quando o sujeito falou:
- Se prefere assim, Robert.
Interrompeu o movimento e parou intrigado.
- Como sabe o meu nome?
- Eu sei muitas coisas, Robert - agora definitivamente abandonando o tratamento de irmão.
- Quem é você? - perguntou o rapaz agora verdadeiramente curioso.
-Não se lembra de mim, Robert?
Não tendo resposta do rapaz que continuava encarando-o como que procurando alguma informação em algum lugar remoto da memória, o estranho de sorriso cheio continuou:
- É, acho que não poderia lembrar, mesmo. Mas conheci sua mãe.
Foi perceptível quando Robert arregalou os olhos.
Continuou:
- Ela ia a esses bares de pretos onde nós costumávamos tocar. Eu toquei com o teu pai, sabia?
A revelação pareceu estremecer o rapaz.
- Conheceu meu pai? Você sabe quem ele é?
- Ah, pode estar certo disso, irmão. O homem era bom naquilo. No blues, sabe? As mulheres caíam por ele. Foi o que aconteceu com a tua mãe. O problema é que quase sempre os maridos, os namorados não gostavam muito disso. Foi o que aconteceu com o homem dela. É, filho, um irmão que vivia com ela não gostou muito dessa brincadeira e "PUM!". Mandou bala no teu pai, irmão.
Então a mãe envolvera-se com um blueseiro. O pai fora assassinado. Por ciúmes! A revelação era assustadora. A mãe sempre lhe dissera simplesmente que o pai sumira no mundo. Por que nunca lhe contara aquilo?
- Tinha o teu mesmo nome, guri - disse agora mudando de tratamento novamente - De certo tua mãe quis homenagear. - completou esticando a última palavra ealargando ainda mais o sorrisão.
E continuou:
- O problema é que ele ficou me devendo uma coisa antes de morrer. Não estava nos meus planos que chegasse um sujeito qualquer de cabeça enfeitada e enchesse teu pai de bala. Aí que eu não tive tempo de cobrar.
- Eu não tenho muito dinheiro, moço, mas quanto é que ele ficou devendo? Sendo coisa justa e se estiver dentro do meu possível eu posso ver se consigo dar um jeito.
Riu alto desta vez e balançou a cabeça negativamente o estranho.
- Não, não. Não se trata de dinheiro.
- O quê, então?
- Teu pai pediu minha ajuda e eu ajudei. Ele só tocava daquele jeito por minha causa, cara! Eu que afinei o violão pra ele. E olha que ele tocava demais, filho. Mas, tinha que vir aquele côrno gordo e "PÁ!". Eu não estava pronto pra levar o que era meu naquele dia, sabe? Aí que ele se salvou. Eu não consegui levar o que ele havia tratado comigo.
- Ainda não entendo...
- Entende, sim - mostrou ainda mais os dentes brancos o negro parado à porta.
- Você já tocou o blues, rapaz? - perguntou o estranho.
- Não. Minha mãe sempre me dizia que isso era coisa de vagabundos, que um homem de bem tem que trabalhar e não ficar andando com um violão, uma guitarra, uma gaita por aí. Nunca me deixou pegar num violão. - explicou o rapaz um tanto confuso.
- Tem um violão aí? - quis saber o negro apesar de já saber a resposta.
- Acho que tem um sim que a minha mãe guardava escondido de mim, no sótão.
- Vai lá buscar, filho. Eu espero.
Hesitou um pouco mas curioso, fechou também a porta de madeira, além da outra vazada que já estava fechada, por alguma garantia qualquer que desconhecia, e foi-se lá para dentro a buscar o instrumento.
Subiu ao sótão rapidamente e achou fácil atrás das antigas coisas da mãe falecida. Estava branco de poeira e as cordas irremediavelmente oxidadas. Espanou o violão como pode, desceu as escadas e levou ao estranho que esperava imóvel e com o mesmo sorriso de quando o deixara naquele mesmo lugar.
- Aqui está. - apresentou ao estranho.
- Sabe tocar?
- Já disse que não sei. Minha mãe nunca me deixou me aproximar disso - reforçou o rapaz.
- Eu acho que sabe... Toca. - disse apontando para o violão.
O rapaz então o empunhou com uma destreza que surpreendeu a ele mesmo. Levou à altura do peito e mesmo duvidando de si próprio moveu os dedos às cordas. De uma maneira inexplicável, assim que começou a mover os dedos, passou a produzir um som mágico, uma melodia admirável. O violão guardado todos aqueles anos estava perfeitamente afinado. E, cara, aquilo era blues! Era blues! Nunca havia tocado. Nem as cordas enferrujadas o impediam de fazer aquilo daquela maneira magistral. Que música era aquela? Nunca havia ouvido mas era como se a tivesse conhecido a vida toda. Robert podia não saber que música era aquela mas o estranho sabia: chamava-se"Me and the Devil Blues".
- Viu, guri. - agora já variava o tratamento entre irmão, filho, guri, cara...
- Como pode? Eu nunca...
- Foi seu pai. De alguma forma a alma dele permanece em você. E sabe como é que é, filho: trato é trato.
Robert só então parecia se dar conta do que se passava ali. De quem era aquele negro retinto permanentemente sorridente ali à sua frente. Sempre ouvira falar que os homens daquela região faziam muito desses tais pactos há muito tempo atrás mas nunca acreditara que fosse verdade.
- É alguma brincadeira? - quis certificar-se Robert.
- Temo que não, irmão.
- E o que acontece agora?
- Você vai lá dentro, veste um bom terno e vem comigo - como se fizesse alguma diferença vestir-se bem ou mal indo para o lugar onde o homem pretendia levá-lo.
- E se eu não quiser? - perguntou com uma ponta de medo do que teria como resposta.
- Bom, guri, esse foi só um primeiro encontro. Só quis que você soubesse das coisas, soubesse que eu estou por perto, de olho em você. Não esperava mesmo que viesse logo de cara. Se você não quiser vir hoje não tem problema, mais cedo ou mais tarde vai acabar tendo que vir. Mas pode ter certeza que eu não vou-te deixar escapar que nem aconteceu com o teu pai. - e perguntou só para confirmar - Mas então, você vem ou não?
- Não vou, não. Nem hoje nem nunca. Eu não tenho nada a ver com isso. Não tenho nada a ver se um blueseiro bêbado prometeu a alma pra Este ou pr'Aquele.
- Tem sim, guri. Tem sim - falou pacientemente e depois continuou - Mas não precisa ficar nervoso. Eu vou-me embora. Foi um prazer conhecê-lo, Robert - disse agora fazendo a mesma mesura da chegada, curvando-se e levando o chapéu ao peito, com os olhos cravados no rapaz e o sorriso, agora parecendo sinistro, absolutamente inalterado.
Virou as costas, desceu os dois degraus do alpendre e tomou o caminho de terra que começava na frente da casa. Andou poucos passos mas logo deteve-se voltando a cabeça para a casa, lançando um último olhar para o rapaz e fazendo questão de lembrá-lo daquilo que ele, Robert, no seu íntimo não tinha a menor dúvida:
- Eu volto - disse o negro, agora finalmente fechando o sorriso.
Robert só então abriu a porta de tela e ficou parado no alpendre com o violão em uma das mãos ao lado do corpo, acompanhando com os olhos o homem que ia caminhando pela estrada. Foi se afastando, se afastando e quando quase sumia da vista, um carro passou levantando poeira e que fez com que o estranho desparecesse finalmente ali pela altura da encruzilhada.



Cly Reis

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Stevie Wonder - “Songs In The Key Of Life” (1976)





“Songs In The Key Of Life’é apenas
um aglomerado de pensamentos
no meu subconsciente que meu Criador
decidiu me dar como força,
amor + amor – ódio = energia do amor capaz de fazer 
o possível para
trazer 
à minha consciência 
uma ideia.
Uma ideia para mim
é um pensamento formado
 no subconsciente,
o desconhecido e, 
por vezes,
aquilo que se procura no impossível.” 
Stevie Wonder
texto do encarte original



Chegou a hora de falar de um monumento da música do Século XX e que vai ficar pra sempre na vida de todo mundo: “Songs In The Key Of Life”, de Stevie Wonder. Conheci este disco nas ondas da Continental Superquente 1120, em 1976. A rádio começou a tocar o primeiro de muitos hits do disco, "Isn't She Lovely". E aí me apaixonei. Comprei o disco em 1979 e começou uma longa história de amor e devoção com este disco com D maiúsculo.

Ele começa com um gospel wonderiano de arrepiar chamado "Love's in Need of Love Today". Nela, todos os instrumentos são tocados por ele - especialmente os sintetizadores -, a não ser uma percussão incidental. Os vocais também são todos de Stevie, que se esmera em criar um efeito de coral de igreja batista norte-americana. Um começo de impacto. O Stevie religioso se manifesta com "Have a Talk With God", na qual novamente está no comando de todos os instrumentos. Nela, SW diz: "Quando você achar que a vida está muito difícil/ apenas tenha uma conversa com Deus". Religiosidade sem pregação. "Village Ghetto Land" mostra o lado de preocupação social. Os sintetizadores - uma obsessão wonderiana na época - tão o tom sombrio de um gueto cheio de violência, lixo e descaso das autoridades.

Na sequência, uma das surpresas do disco: uma faixa instrumental chamada "Contusion". Uma espécie de homenagem de Stevie ao guitarrista Jeff Beck, que participou de vários discos dele durante a década de70 e recém havia lançado o também monumental "Blow by Blow". "Contusion" não ficaria mal como bonus track do disco de Beck. Comandada pela guitarra de Michael Sembello (que faria sucesso no começo dos anos 80 com "Maniac", lembram?) a música ganha os vocais de SW e outros vocalistas e se transforma em um fusion soul. Só ele mesmo poderia fazer algo do gênero. Pra fechar o Lado 1, um tributo ao mestre Duke Ellington e ao jazz: "Sir Duke" tem um naipe de sopros que faz lembrar a big bands de Duke e Count Basie, entre outros. O arranjo esperto de SW faz a gente bater o pé numa batida irresistível. Uma delícia!

No formato vinil, o lado 2 começa com Stevie recordando seus tempos de criança em Detroit, já cego em "I Wish". Nela, SW manda ver na bateria, base de todo o arranjo. Tirando o baixo de Ben Watts e os sopros, Stevie comanda o show dizendo "Eu gostaria que aqueles dias pudessem voltar uma dia / Eu gostaria que aqueles dias nunca tivessem desaparecido". Uma evocação da infância difícil, mas de muita luta. Foi lá que ele começou a tocar os primeiros instrumentos. Depois deste momento balançado de memória, vem a minha música preferida por motivos sentimentais: "Knocks Me Off My Feet". Uma balada tendo o piano como base, mas a letra é que dá o tema: "Não quero te incomodar/mas tem alguma sobre o teu amor/ que me faz fraco e me deixa fora de mim", numa tradução nada literal. Linda canção e que me emociona sempre que a ouço. E vendo ouvindo há mais de 30 anos. Isso é o que se pode chamar de uma música que fica contigo. Lembranças sentimentais à parte, vem "Pastime Paradise", cujo riff de sintetizadores imitando cordas virou a base de "Gangsta Paradise" de Coolio na década de 90. Novamente, as preocupações sociais de Stevie Wonder afloram: segregação, exploração, mutilação são os problemas que ele aponta. A solução deve ser integração, consolação, salvação para a paz no mundo. Tudo temperado com coro de Hara Krishnas e de uma igreja de Los Angeles.

É neste disco que Stevie dá vazão à suas indagações sobre o mundo. Contextualizando: os Estados Unidos tinham passado por uma tempestade social com o caso Watergate, a crise do petróleo e o crescimento da violência urbana, especialmente nos guetos. Estes fatos iriam desembocar nos anos 80 com o surgimento do rap e do hip hop, levando adiante a mensagem de Wonder. "Summer Soft" inicia como mais uma balada de SW, mas se transforma na segunda parte, quando o destaque fica com o órgão pilotado pelo grande Ronnie Foster (cuja importância para a música brasileira acontece em 1982, quando produz "Luz", o grande disco de Djavan). "Ordinary Pain" também tem uma ligação com a MPB. Em 84, no seu disco "Fullgás", Marina Lima fez uma versão da primeira parte desta música ("Pé na Tábua") . Mas SW foi engenhoso. Faz uma música de amores perdidos e a divide em duas, apresentando a versão masculina, suave, e a feminina, uma funkeira cantada por Shirley Brewer.

O Lado 3 começa com Aisha, a filha recém nascida de Wonder chorando. Esse choro se transforma na batida irresistível de "Isn't She Lovely", uma das canções mais conhecidas dele. O solo de harmônica desta canção é das melhores performances instrumentais que eu já ouvi. Um mega hit merecido e cantado até hoje nos shows, onde Stevie apresenta Aisha já adulta - e maravilhosa! "Joy Inside My Tears" traz SW outra vez no comando de todos os instrumentos, excetuando os teclados de Greg Phillinganes. Esta é daquelas canções que vão te pegando aos poucos. São necessárias várias audições pra entrar no clima. Mas depois te garanto, tu vais sair na rua cantando o refrão "You, you, you / have made life history / You brought some joy inside my tears".

"Black Man" é a epítome da preocupação de Wonder em integrar todas as raças. Ele traz para o final da música um professor que pergunta aos alunos questões sobre aventureiros, descobridores, políticos que tiveram grande feitos e as crianças respondem a raça de cada um deles. Brancos, negros, índios, todos mencionados e mostrando que somos iguais. Uma bela mensagem de integração numa base funk. Fechando o disco, o lado 4 abre com uma preciosidade: "Ngiculela", onde Wonder canta uma história de amor em uma língua africana, em espanhol e em inglês, sobre uma base instrumental feita somente por ele. Mágico, assim como a próxima faixa. "If It's Magic" é outra surpresa. O arranjo traz Dorothy Ashby na harpa e Wonder no vocal e na harmônica somente no final. Suavidade e beleza num momento de reflexão.

Na sequência, Stevie traz ninguém menos que Herbie Hancock pra pilotar o piano elétrico Fender Rhodes em "As", outra música de amor onde ele declara sua paixão dizendo que "Eu sempre te amarei/ Até que os arco-íris queimem o céu/ Até que os oceanos cubram todas as montanhas/ Até que a Mãe Natureza diga que seu trabalho está pronto". Nada vai impedir Stevie de sentir este amor por uma mulher, pelas crianças e pela humanidade. E se você conseguir ficar parado nesta canção, é porque está morto!!! Fechando o disco original, vem um petardo dançante chamado "Another Star" com as participações de George Benson na guitarra e Bobbi Humphrey na flauta. Stevie compreende o ideário pop e faz a gente cantar o tempo inteiro com um coro de backing vocais entoando apenas "lálálá". Impressionante o comando que ele tem das formas musicais que formam o que se convencionou chamar de "música pop". E o tempo todo em "Songs in The Key of Life” somos surpreendidos pelas sacadas geniais que ele arma, transformando e transmutando as formas do soul, do jazz, do funk, do gospel. Uma hora com um grupo convencional de guitarra, teclados, baixo,bateria e percussão. E em outra fazendo dos sintetizadores uma orquestra de cordas ou um órgão de igreja para passar sua inquietação sobre os destinos do mundo. Tudo isso em 1976!

No disco original ainda vinha um compacto duplo (vocês sabem o que é isso? Um disquinho de vinil com duas músicas de cada lado). A primeira é "Saturn", na qual tirando duas guitarras e um teclado, ele toca todos os instrumentos e faz todas as vozes. "Ebony Eyes" tem sabor de bubblegum pop com a novidade daquele momento, o talk box, que Peter Frampton tinha popularizado em seu disco "Frampton Comes Alive". Destaque também pro solo de sax de Jim Horn. "All Day Sucker" é um funkão que traz três guitarras (!!) fazendo a base para Stevie e os backing vocais de Carolyn Denis. E o compacto termina com ma faixa que se poderia chamar de balada jazzy chamada "Easy Goin' Evening (My Mama 's Call)”. O Fender Rhodes e a harmônica tocam a melodia, enquanto Nathan Watts faz a base para este final sereno de um totem da música de todos os tempos. Se você não conhece, aqui vai um presentinho do tio Paulo Moreira: logo abaixo um link para o disco completo. Desculpem o tamanho do texto, mas um disco desses merece!

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FAIXAS:
1. "Love's in Need of Love Today” - 7:06
2. "Have a Talk with God" (Wonder, Calvin Hardaway) - 2:42
3. "Village Ghetto Land" (Wonder, Gary Byrd) - 3:25
4. "Contusion" - 3:46
5. "Sir Duke" - 3:54
6. "I Wish" - 4:12
7. "Knocks Me Off My Feet" - 3:36
8. "Pastime Paradise" - 3:28
9. "Summer Soft" - 4:14
10. "Ordinary Pain" - 6:23
11. "Saturn" (Michael Sembello, Wonder) – 4:54
12. "Ebony Eyes” – 4:11
13. "Isn't She Lovely?" - 6:34
14. "Joy Inside My Tears" - 6:30
15. "Black Man" (Wonder, Byrd ) - 8:30
16. "Ngiculela” “(Es Una Historia)” “(I Am Singing)" - 3:49
17. "If It's Magic" - 3:12
18. "As" - 7:08
19. "Another Star" - 8:28
20. "All Day Sucker" – 5:06
21. "Easy Goin' Evening (My Mama's Call)" – 3:55

todas de Stevie Wonder, exceto indicadas

(ordem da versão em CD)

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OUÇA:




segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Rickie Lee Jones – “Rickie Lee Jones” (1979)




"Ela é muito mais velha do que eu
em termos de sabedoria da vida.
Às vezes, ela parece tão antiga
como a sujeira das ruas,
e ainda outras vezes
ela é tão nova como uma garotinha."
Tom Waits,
sobre Rickie Lee Jones



Era 1979 e uma voz diferente surgiu no rádio. O clima era mezzo jazzístico, mezzo pop, beirando as coisas que Joni Mitchell havia feito cinco anos antes. Mas tinha uma pegada irresistível, uma produção impecável, era uma daquelas canções que a gente ouve no rádio, fica esperando o locutor dizer quem é e sai correndo para uma loja de discos (é, se fazia isso, naquela época) pra comprar a bolacha (isso é 1979 “A.CD”. Ou seja: antes do CD). O mistério foi desvendado pelo locutor da Gaúcha FM (não lembro quem era): Rickie Lee Jones com “Chuck E’s in Love”.

Aos poucos, o mistério daquela voz quase infantil, cantando jazz, foi sendo desvendado. A cantora tinha sido namorada de Tom Waits, companheira de estrada e de loucuras do cantor e compositor e, nestas andanças, foi apresentada aos produtores Russ Titelman e Lenny Waronker da Warner Bros. Como uma história de Cinderela, Rickie Lee Jones, a fugitiva, a garota beat dos anos 70, acabou sendo contratada por uma das maiores gravadoras do mundo e, num passe de mágica, estava no topo das paradas dos Estados Unidos. Em breve, de quase todo mundo. Mas o que tinha esta cantora e este disco de tão importante, diferente? E o que levou este escriba a traçar algumas linhas, chamando este disco de estreia de um dos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS? Vamos (procurar) desvendar na sequência.

“Rickie Lee Jones” inicia exatamente com esta música do rádio, “Chuck E’s in Love”. Uma canção com um toque jazzístico, levado pela bateria do mestre Steve Gadd e pelos violões de Rickie, Buzz Feiten e Fred Tackett. Na letra, ela simplesmente conta a história do seu amigo Chuck E. Weiss se apaixonando. O que brilha mesmo nesta canção é a produção de Titelman & Waronker, que conseguiram dar um tom beirando ao pop para uma música composta no violão e de melodia simples. O resultado é que “Chuck E’s in Love” chegou ao quarto lugar da parada como single, levando o LP ao terceiro lugar da Billboard.

Em “On Saturdays Afternoons in 1963”, ela relembra seus tempos de criança em Chicago e diz: “O máximo que você jamais irá/ é voltar ao lugar que você já conheci/ Se os adultos conseguem rir tão devagar/ Enquanto você vê a neve cair lentamente/ Os anos devem passar”. O arranjo de orquestra é de Nick DeCaro, muito eficiente.

“Night Train” é uma das minhas preferidas do disco. Nela, a mãe está fugindo do marido agressivo, levando seu bebê e conta para a criança como aconteceu esta fuga, usando inclusive metáforas do jogo de bilhar. “Aqui estou indo/ caminhando com meu bebê nos braços/ porque estou no lado errado da bola oito preta/ E o diabo, veja, ele está bem atrás de nós/ E esta trabalhadora disse que vai levar meu bebezinho/ meu pequeno anjo de volta/ Mas eles não vão conseguir/ porque estou aqui com você no trem noturno”. Na criação deste clima de fuga, temos a percussão exata de Victor Feldman, o baixo de Willie Weeks, os teclados de Neil Larsen, os violões de Jones e Feiten e o arranjo orquestral de Mandel. Rickie se supera no vocal desta canção, susurrando no início e fazendo uma verdadeira prece no meio da canção. Emocionante.

“Youngblood” é outra canção em que Rickie relembra seus tempos de juventude. “Dê uma caminhada à meia-noite na cidade/ Young Blood vai te encontrar em algum lugar/ Se você está procurando por alguma coisa pra fazer/ Sempre tem algo acontecendo/ Como eu e Bragger pedimos emprestado um coupê hoje/ Lá vem Pepe e ela tem um amigo com o Chevrolet/ mas ela não está correndo/ Está caminhando devagar/ e ela não está chorando... apenas está cantando baixinho”. Tudo isso embalado pelos timbales e pela bateria de Mark Stevens e os backing vocals inconfundíveis de Michael McDonald. Esta canção foi o segundo single tirado do disco, chegando ao 40º lugar da parada da Billboard.

“Easy Money” tem participações de peso. A música começa com o baixo acústico do mestre Red Callender, o solo de piano é de Dr. John e o vibrafone que percorre a canção é de Victor Feldman. O clima deste blues é de dois escroques que querem fazer um “dinheiro fácil”. A mulher quer usar seus poderes de sedução para arrancar uma grana dos trouxas. Daquelas de estalar os dedos junto com o disco.

Quando Rickie Lee tinha 21 anos, ela morou no Arizona. Sua vida naquele estado cheio de paisagens desoladoras e céu aberto rendeu algumas canções no repertório da cantora. Uma delas é “The Last Chance Texaco”, onde ela usa os nomes de empresas petrolíferas (cujos postos de gasolina ela devia ver nas estradas desertas do Arizona) como metáforas para amores desfeitos. A composição tem como base o violão de Rickie Lee, mas os sintetizadores de Micahel Boddicker e Randy Newman, que recriam o ruído dos carros que passam pela estrada. Na letra, ela recomenda que se faça uma checagem dos componentes do carro, antes que ele pare na estrada. Como se checar o estado do relacionamento vá impedir que ele termine. “É sua última chance/ de checar embaixo da capota/ última chance/ Ela não está soando muito bem/ Sua última chance/ de confiar no homem com a estrela/ Você encontrou sua última chance Texaco/ Bem ele tentou ser comum (Standard)/ Tentou ser móvel (Móbile)/ Tentou viver num mundo (World)/ e numa concha (Shell)”. Todo o tempo a metáfora percorrendo a canção.

“Danny’s All-Star Joint” volta o clima memorialista de RLJ, lembrando de uma lanchonete de sua adolescência onde tinha uma máquina de música que fazia “doyt-doyt”. O Rhythm and Blues da canção é propelido pela bateria de Steve Gadd, pelo baixo de Chuck Rainey e pelos sopros de Tom Scott, Chuck Findley e Ernie Watts. Lá pelas tantas, a jovem RLJ fala para seu acompanhante masculino: “Você não pode quebrar as regras até que saiba como jogar o jogo/ Mas se você quiser se divertir/ pode mencionar o meu nome/ Mantenha seus pés nas rua/ seus calcanhares na grama/ Mas mantenha seu negócio no bolso/ é aí que ele pertence”. Irresistível com os sopros fazendo aqueles riffs estilo James Brown.

Uma canção diferente no disco é “Coolsville”, mais uma faixa em que ela relembra os tempos de teenager rebelde que vivia nas ruas de Venice. Com a guitarra de Buzz Feiten dando um clima fantasmagórico e a bateria de Jeff Porcaro rebombando como tímpanos de orquestra, Rickie Lee conta sua história e de dois amigos, Bragger e Junior Lee, que viviam em Coolsville, a cidade dos descolados. Depois de algumas aventuras, os três se reencontram: “Então agora é J e B e eu/ soa parecido/ mas não é a mesma coisa/ mas tá tudo bem/ A cidade não nos machuca tanto/ quando tudo parece o mesmo”. Viver em Coolsville já não significa tanto para estes três desajustados.

“Weasel and the White Boys Cool” é uma parceria com Alfred Johnson, com quem RLJ começou a cantar em Los Angeles, quando tinha 21 anos. Foi uma das músicas compostas na época que sobreviveu e foi parar no disco. Aqui, Rickie Lee é a observadora das aventuras e desventuras de Sal (Bernardi), seu amigo e ex-namorado e que viria a ter papel importante no segundo disco da cantora e compostora, chamado “Pirates”, lançado dois anos depois. “Sal estava trabalhando no esconderijo de Nyro no centro da cidade/ Vendendo artigos do congresso para estas pessoas do Centro/ Ele era bem sórdido que o conheci/ uma fuinha num casaco de lá de menino pobre/ Sal vivia num curral de vinil preto em Nova Jersey/ comprava sua carne da puta na porta ao lado/ Ele queria malpassado mas ganhava bem passado”. Durante a canção, Sal se muda de bairro, dando adeus aos seus pais e amigos, passa dificuldades mas acaba na fila da previdência social. Rickie Lee o salva, logo depois.

Mais uma parceria com Alfred Johnson, “Company” é uma balada jazzística daquelas lancinantes com arranjo maravilhoso de cordas de Johnny Mandel. Brilham também o piano de Neil Larsen e os teclados de Randy Kerber. Uma canção de amor desfeito. A letra diz tudo: “Eu lembro de você muito bem/ Mas sobreviverei outro dia/ Conversas para partilhar/ Quanto não tem ninguém/ Eu imagino o que você diria/ Te verei em outra vida, baby/ Te libertarei em meus sonhos/ Mas quando eu chegar do outro lado da galáxia/ Vou sentir falta de sua companhia”. A narradora está consciente de que o amor acabou, mas continua sentindo a falta: “E agora que você se mandou pra viver sua vida/ Você diz que nos encontraremos de vez em quando/ Mas nunca seremos os mesmos/ E eu sei que nunca terei esta chance de novo/ Não como você/ Companhia/ Estou procurando por companhia/ Veja e ouça através dos anos/ Algum dia você poderá me ouvir/ Ainda chorando por companhia”. Nervos dilacerados por esta paixão que se terminou mas não acabou.

A última faixa do disco também é melancólica. “After Hours (Twelve Bars Past Midnight)”, com o piano de Rickie Lee e as cordas de Nick DeCaro. A juventude de RLJ é novamente evocada na letra: “Toda a gangue já foi pra casa/ Parada na esquina/ bem sozinha/ Eu e você, poste de luz/ Pintamos a cidade de cinza/ Oh, somos tantas lâmpadas/ que perderam nosso caminho/ Diga boa noite, América/ O mundo ainda ama um sonhador/ E toda a gangue já foi pra casa/ e eu estou parada na esquina/ bem sozinha”.

Depois deste inesperado sucesso do disco de estreia, muitas fichas foram colocadas no futuro comercial do trabalho de Rickie Lee Jones. Rebelde como sempre foi, ela levou dois anos divulgando este primeiro disco, excursionando pelos Estados Unidos e Europa e, quando chegou a hora de fazer um novo disco, subverteu todas as possíveis expectativas lançando “Pirates”, um disco incrível, porém de difícil audição para ouvidos acostumados ao Top 40. Mas essa é outra história.
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FAIXAS:
1. "Chuck E.'s In Love" – 3:28
2. "On Saturday Afternoons in 1963" – 2:31
3. "Night Train" – 3:14
4. "Young Blood" – 4:04
5. "Easy Money" – 3:16
6. "The Last Chance Texaco" – 4:05
7. "Danny's All-Star Joint" – 4:01
8. "Coolsville" – 3:49
9. "Weasel and the White Boys Cool" (Rickie Lee Jones/Alfred Johnson) – 6:00
10. "Company" (Lee Jones/Johnson) – 4:40
11. "After Hours (Twelve Bars Past Goodnight)" – 2:13
todas composições de autoria de Rickie Lee Jones, exceto indicadas.

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OUÇA O DISCO:


terça-feira, 23 de setembro de 2025

A potência transformadora do cinema em sala de aula*

 

Burnett: educação pelo cinema
O cinema é uma arte com enorme potencial transformador no ambiente escolar. Essa qualidade, se bem empregada, pode ser direcionada para o combate a um dos grandes problemas sociais da humanidade: o racismo.

Nos anos 1970, nos Estados Unidos, a Escola de Cinema da Universidade da Califórnia (UCLA) criou, em resposta à necessidade de reparação e inclusão da população negra no Ensino Superior e no setor audiovisual, um programa voltado a estudantes pretos e de onde saíram alguns dos mais celebrados cineastas da atualidade, como Spike Lee e Charles Burnett. Além de formar realizadores engajados na causa preta, o meio acadêmico-escolar oportunizou a eles o contato com diversas cinematografias capazes de lhes expandir conhecimentos e entender a si próprios como cidadãos e sociedade.

O exemplo da UCLA é emblemático quando se faz referência à formação humanista aliada à educação. Salvo tratar-se de uma instituição de Ensino Superior, o que a universidade norte-americana fez há aproximadamente 50 anos serve como amostra de que é possível, por meio de sessões direcionadas, mostras internas, formação de cineclubes, exibições especiais, entre outras alternativas, levar o cinema para dentro da sala de aula e fomentar o debate sobre temas urgentes como o preconceito racial.

Percebe-se, no entanto, um caminho pedagógico ainda pouco explorado por parte de instituições de ensino particulares no Rio Grande do Sul. A força de penetração e de estímulo à reflexão que a arte cinematográfica possui é sui generis, talvez a maior em termos de potencialidades diante de outras, como as artes visuais, a música, a dança e a literatura, visto que, em sua complexidade formal, encerra elementos de todas essas manifestações.

Há, no cinema nacional atual, importantes filmes que propõem um discurso antirracista, como “Marte Um”, “O Dia que te Conheci” e “Kasa Branca”, todos de realizadores negros. Mas não apenas: existem clássicos, acessíveis pelas plataformas de streaming, como “Também Somos Irmãos”, de 1948, e “Quilombo”, de 1984, que deveriam chegar ao público infantil e juvenil dadas as temáticas e abordagens das questões sociais e históricas do racismo no Brasil. Filmes que muito bem podem ser trabalhados junto aos alunos em atividades extra ou intracurriculares.

O clássico "Também Somos Irmãos",
pioneiro em tratar o racismo no cinema brasileiro

Há exemplos positivos no ensino particular gaúcho. Criado durante a pandemia, o Clube de Cinema do Colégio João XXIII, de Porto Alegre, começou totalmente virtual e depois avançou para encontros presenciais. Embora inativo no momento, o clube chegou a ter, em 2023, mais de 20 alunos do 5º ao 9° ano do Ensino Fundamental, numa dinâmica totalmente factível: os estudantes assistem ao filme em casa e, durante a aula, promovem um debate em meio a exibição de trechos.

Contudo, ainda é pouco. Criar acervos virtuais com títulos direcionados – com a devida consultoria de profissional da área – é, por exemplo, um caminho bastante viável a instituições particulares, que têm recursos para isso. No mais, a própria ida a uma sala de cinema com os alunos pode gerar saudáveis discussões e trabalhos de sala de aula a depender do tema tratado. E se esse tema for o racismo, o mais nocivo mal que a sociedade brasileira precisa extinguir, tão melhor.

*artigo originalmente publicado na revista eletrônica Educação em Pauta, do Sinepe-RS


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Daniel Rodrigues


domingo, 14 de agosto de 2016

ÁLBUNS FUNDAMENTAIS ESPECIAL DIA DOS PAIS - Elis Regina - "Elis" (1980)







COMUNHÃO



“A vida é boa te digo eu/
A mãe ensina que ela é sábia/
O mal não faço, eu quero o bem/
A nossa casa reflete comunhão.”
da música “Comunhão”,
de Fernando Brant e Milton Nascimento,
criada para o musical Missa de Quilombo, 1982



Meu pai e eu éramos muito ligados. Nem todos os filhos sentem-se assim ligados aos seus pais. Muitos de nós passamos parte da vida lamentando o berço familiar, a descendência e tudo o que existe dentro de uma família.

Comigo não foi assim.

Cresci até os 4 anos com um pai muito feliz, animado e parceiro de aventuras. Cresci no Centro da cidade de Porto Alegre após nascer no Bom Fim. Nas imediações do Centro eu e ele íamos ao parquinho que ficava no Largo da Epatur. Eu viajava nos discos voadores, andava de charrete e montava nos cavalinhos do carrossel. Ele ficava me cuidando e fotografando ao mesmo tempo.

Meu pai curtia revelar as imagens e organizar nos álbuns, que naquele tempo eram feitas em câmera com negativo quadrado e a imagem final dependia das condições técnicas do fotógrafo – ele tinha talento! Todas as fotos aprovadas iam para um álbum-pasta que por anos nos acompanhou. Dono de um gênio forte, por vezes temperamental, sempre se percebia amor nele e alegria nestes momentos.

Assim cresci: parte saindo rumo aos parques, praças e ruas do bairro e por outras tive meus momentos de estar em casa. Lá brincava comigo de gravar a voz. Eu adorava. Vez em quando cantava ou contava do meu dia na escola.

Faz um tempo que recebi uma “cutucada”, como se diz no dialeto estranho das redes sociais, dos editores do ClyBlog para escrever sobre uma das maiores cantoras brasileiras, Elis Regina. O que isso tem a ver comigo e com a minha relação paterna? Tudo! Mas confesso que o convite me deixou atordoada, sem saber por onde começar. Elis está em muitos momentos da minha vida representando transformação.

Eu e Marcelo na abertura da exposição
A Aventura de Criar - Galeiria Duque, maio 2015
Comecei escutando Elis Regina em casa. Meu pai foi seu fã até o dia em que recebeu, junto com milhões de brasileiros, a notícia da sua morte. No auge da carreira artística, quando Elis já havia se consagrado num grande nome da música, uma estrela de maior grandeza. Meu pai não a perdoou por sair de cena tão cedo. Neste período, em plena década de 80, escutávamos sem parar os LPs da Elis em nossa vitrola CCE, que era muito bem equipada com duas caixas de som grandes para uma família de classe média. 

Depois de tantas audições no lar, eu já sabia as letras, os tempos e as paradas que a cantora fazia. Então, apresentava a dublagem nas reuniões de final de ano e nos aniversários à família. E me achava a segunda melhor cantora daquele momento por conta dessa total sintonia que tínhamos. Eu tinha de 7 para 8 anos de idade.

Nunca me rendi somente à voz, mas a toda atmosfera como intérprete que Elis criava para cada canção. A emoção, a quebra das palavras, o respirar das frases, a cadência de cada arranjo tornava cada faixa do LP única. Realmente algumas canções são “inescutáveis” se a intérprete não for Elis Regina.

O LP que mais tocou em mim é este, de 1980, que tem as faixas inesquecíveis: “Rebento” de Gilberto Gil; “Nova Estação“ de Luiz Guedes e Thomas Roth; “O Medo de Amar é o medo de ser livre” de Beto Guedes e Fernando Brant; “Aprendendo a jogar” e “Só Deus é quem sabe”, ambas de Guilherme Arantes; além da arrebatadora “Trem Azul”, de Lô Borges e Ronaldo Bastos, hino em minha vida. Quem escutava Elis recebia a melhor produção musical do momento.

Acervo de Elis da CCMQ
Jornal Zero Hora - 22/09/2005
Fui compreender seu universo e sua enorme contribuição a jovens compositores anos mais tarde, quando, adolescente, lendo matérias, vendo artigos e escutando amigos me dei conta do movimento, da visibilidade e da força que ela deu a uma galera referência até hoje na música brasileira.

O tempo passou e meu pai acabou perdoando a morte de Elis Regina, voltou a escutar sua voz e vez em quando ele comentava: “Mas ela canta como ninguém mais poderia interpretar essa canção!”, e então se recolhia ao silêncio respeitoso de escutá-la.

Em 2005, tive a alegria de ser convidada por Sergio Napp, então Diretor da Casa de Cultura Mário Quintana, a criar o Acervo Elis Regina da CCMQ. Nesta época, mergulhei em todas as informações que recolhemos de acervos doados e de livros editados sobre ela. Lembro-me do impacto que tive com a análise do mapa astral de Elis, por um dos maiores astrólogos do país, Antônio Carlos “Bola” Harres, que anos mais tarde foi meu cunhado e que apresenta a configuração astral de Elis de uma forma que compreendemos os conflitos, o fluxo das emoções e as nuances talentosas da cantora.

Elis era uma mulher com força impulsiva e, ao mesmo tempo, com alta sensibilidade. Opostos atuando sempre ao mesmo tempo. Essa análise me ajudou a compor com os arquitetos Carlos e Lizete Jardim as cores, a atmosfera e a forma de apresentar os conteúdos do Acervo. Nesta época também conheci mais profundamente o repertório de Elis e a sua estreita relação com compositores que embalaram minha mesma infância, tais como: Milton Nascimento/Fernando Brant, Gil, Beto Guedes, Guilherme Arantes, Ronaldo Bastos, Lô Borges, João Bosco/Aldir Blanc, Ivan Lins, entre outros.

Durante todo o tempo de pesquisa sobre o Acervo meu pai me incentivou com orgulho de ver aquela escuta de anos atrás se transformar em um espaço físico homenageando a intérprete e a cantora, que mesmo sendo um dos maiores nomes da música brasileira, se achava brega perto de outras cantoras da sua época, a exemplo de Rita Lee.

Meses após termos aberto o Acervo Eis Regina, fui apresentada por Luiz Carlos Prestes Filho em Porto Alegre a Fernando Brant, compositor e letrista da mais alta qualidade musical e humana. Ele ficou muito feliz com o Acervo, que conheceu numa vista a CCMQ quando estava na fase de implementação da sede da União Brasileira de Compositores na capital gaúcha.  Ficamos amigos.

Eu e Fernando Brant na inauguração do UBC
em Porto Alegre em 2006
Em 2011, numa visita a Belo Horizonte, cidade onde Fernando morava, fomos ao show de Milton Nascimento que abria o novo espaço da cidade. Fazia poucos meses que Fernando havia participado do projeto Coleção Mario Quintana para a Infância, volumes IV e V, realizado por minha empresa Aprata. Todo faceiro com a chegada da Coleção (que levei pessoalmente a ele em agradecimento por tanta generosidade), ele me recebeu com esse convite irrecusável: “Vamos assistir o Bituca, Leo? Ele fará um show no teatro recém-inaugurado aqui após reforma pelo SESC e vai homenagear a Elis. Você tem que estar lá porque vais representar Porto Alegre nesse momento. Vamos?” Como é que eu diria não?

Fomos então direto para o teatro e lá chorei por 90 minutos do show, segurando a mão do Fernando, que emocionado com a audição de suas composições, enchia os olhos de água e dava longos suspiros sorrindo. Um dos maiores presentes que recebi da vida: reunir neste dia os compositores e a carga musical que tenho em minha bagagem relacionada a Elis.

Depois desse dia, só falei com ele por telefone e e-mail. Foi a nossa despedida amiga em grande estilo envolvidos pela atmosfera musical que ele construiu de tanta beleza e com a homenagem à mulher que, segundo ele, foi a maior incentivadora da carreira de todo aquele Clube da Esquina e os outros tantos desgarrados que até então buscavam uma oportunidade para persistir na música.

Quando voltei a Porto Alegre, contei a meus pais e os dois se emocionaram muito com essa vivência em Beagá. Tentei escrever sobre todos estes momentos, mas não conseguia elencar os fatos, porque a emoção me invadia e desorganizava a escrita. Comecei a escrever o texto com meu pai e Fernando ainda vivos. Porém foi somente com a partida de ambos, Fernando em junho de 2015, e meu pai, em junho de 2016, que me senti serena para contar essa história de total sintonia entre nós.

Obrigado meu pai por não proibir a escuta, mesmo doendo demais a ausência de Elis.

Obrigado Fernando por essa amizade inesquecível.

Obrigado Elis por esse sentimento de comunhão, por trazer até todos nós em forma de Arte - essa vibração prateada, brilhante e sonora, que foi sua passagem por esse planeta e que tanto nos liga amorosamente.

Saudade de tudo que vivemos e hoje é memória viva em mim!

Gratidão, Amor e Luz para vocês.


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Elis Regina - "Aprendendo a Jogar" - programa Fantástico (1980)

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FAIXAS:
1. "Sai Dessa" (Ana Terra/Nathan Marques)
2. "Rebento" (Gilberto Gil)
3. "Nova Estação" (Thomas Roth/Luiz Guedes)
4. "O Medo de Amar É o Medo de Ser Livre" (Beto Guedes/Fernando Brant)
5. "Aprendendo a Jogar" (Guilherme Arantes)
6. "Só Deus É quem Sabe" (Guilherme Arantes)
7. "O Trem Azul" (Lô Borges/Ronaldo Bastos)
8. "Vento de Maio" (Telo Borges/Márcio Borges)
9. "Calcanhar de Aquiles" (Jean Garfunkel /Paulo Garfunkel)

faixas bônus do relançamento em CD 
1. "Tiro ao Álvaro" (Adoniran Barbosa / Osvaldo Molles) – Com Adoniran Barbosa
2. "Se Eu Quiser Falar com Deus" (Gilberto Gil)
3. "O que Foi Feito Devera (de Vera)" (Milton Nascimento/Fernando Brant/Márcio Borges) – Com Milton Nascimento
4. "Outro Cais" (Marilton Borges/Duca Leal) – Com Os Borges

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OUÇA O DISCO