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terça-feira, 4 de junho de 2013

Jamelão - "Jamelão Interpreta Lupicínio Rodrigues" (1972)





“Eu não sou músico, não sou compositor,
não sou cantor, não sou nada.
Eu sou é boêmio.”
Lupicínio Rodrigues


Há quem ironize que Lupicínio Rodrigues era, como cantor, um grande compositor. O célebre músico gaúcho é, inegavelmente, um dos maiores nomes da história da música brasileira, precursor do chamado samba-canção, antes mesmo de contemporâneos seus como Cartola, Herivelto Martins e Nelson Cavaquinho. É reconhecido nacionalmente – mesmo nunca tendo saído da (até hoje) nada promissora mercadologicamente terra-natal Porto Alegre – e já foi gravado por centenas de intérpretes das mais distintas gerações e vertentes, que vão de Orlando Silva a Elis Regina, de Ângela Maria a João Gilbertode Isaura Garcia a Caetano Velosode Nelson Gonçalves a Arrigo Barnabé. Mas era comum acharem que Lupi não servia para cantar. A voz miúda, a la Mário Reis, dolorida como suas letras, não tinha, principalmente naquele longínquos anos 30, quando surgiu para a música, nada a ver com o, este sim, apreciado vozeirão dos cantores impecáveis e técnicos da Rádio Nacional, a “Globo” da época, primeira era Vargas.

Há controvérsias. Tanto que o histórico “Roteiro de um Boêmio”, álbum com quatro discos de 78 rpm gravado em 1952 por Lupicínio com seu vocal original, daquele jeito mesmo, cool e sutil, é considerado por fãs como o definitivo registro do autor de “Se Acaso Você Chegasse”. Mas o jornalista e compositor Hamilton Chaves, mesmo tentando dar uma força ao amigo, mandou-lhe ver na veracidade: “Tu não é cantor, rapaz. Põe na tua cabeça! Neste país subdesenvolvido, cantor é quem tem voz operística”. O próprio Lupi sabia que estava longe de um Caruso. Considerava-se, antes de tudo, um boêmio – o que, de fato, era acima de qualquer coisa. As paixões, os remorsos, as angústias, as brigas, as bebedeiras, as traições, as desilusões, enfim, tudo o que há de mais intenso e sentimental vivido por ele de bar em bar pelas ruas da cidade servia de substrato para o universo de suas composições. Misto de Lord Byron com Nelson Rodrigues, este dândi do subúrbio compôs, fosse sozinho ou com parceiros de copo e canção (como Alcides Gonçalves, Felisberto Martins e David Nasser), obras-primas do chamado samba “dor-de-cotovelo”, uma magnífica metonímia inventada por ele próprio para classificar seu estilo mais característico.

Porém, como dizia outro célebre sambista, Ataulfo Alves, “a maldade desta gente é uma arte”, e a desconfiança com sua autointerpretação sempre pairou, ainda mais por quem, a estas alturas, já tinha sido imortalizado na voz de Francisco Alves, Cyro Monteiro e uma penca de cantores “oficiais”.

Até que surge alguém para dar ponto final à discussão. Amigo pessoal de Lupicínio desde quando, excursionando pelo Rio Grande do Sul nos anos 50, o conheceu, o ilustre Jamelão se encantou com a obra de Lupi e passou a incluir suas músicas em seu repertório tanto de shows como em discos. Autointitula-se, então, sem o menor zelo, como seu principal intérprete. E tinha razão. Nem a impostação excessiva, nem o minimalismo asséptico, mas, sim, um canto possante com toques da malandragem do morro. A lapidação disso está em “Jamelão Interpreta Lupicínio Rodrigues” (Continental, 1972), que traz 12 joias representativas do tesouro que é a obra deste autor, desde as primeiras canções “Meu Pecado” e “Sozinha”, os sucessos radiofônicos “Exemplo” e “Vingança” até clássicos absolutos, como “Nervos de Aço” – aqui, bonita num compasso mais ligeiro que o normal.

Carrancudo e de personalidade forte, Jamelão, antes de tornar-se marca registrada do Carnaval do Rio de Janeiro como o maior puxador de sambas-enredo pela escola Mangueira, desde os anos 60, já era conhecido nas gafieiras como crooner por sua voz encorpada tomada de intensidade e sentimento. E o cancioneiro de Lupicínio fecha totalmente com isso. Acompanhado da excepcional Orquestra Tabajara, uma big-band ao estilo dos grandes grupos de jazz norte-americanos, Jamelão dá um verdadeiro show. Os arranjos, notados com perfeição pelo maestro Severino Araújo, também caem como uma luva, o que não é de se estranhar, uma vez que a melodia lupiciniana, marcadamente escrita em tom menor, carrega com bastante originalidade o arrebatamento sensual do tango e a breguice cult do bolero - além, é claro, da malemolência do samba carioca. Jamelão, por sua vez, solta o gogó a serviço da obra do amigo, um constante flerte entre o vulgar e o sofisticado, entre o coloquialismo e a alta literatura, entre a ironia e o drama. As versões incluídas neste trabalho ganham, assim, a força interpretativa do cantor e o apuro das harmonias, achando a roupagem certa que a música do mulatinho merece.

“Vingança”, de abertura pontuada no naipe de sopros, é notável. “O remorso talvez seja a causa/ Do seu desespero/ Ela deve estar bem consciente/ Do que praticou/ Me fazer passar tanta vergonha/ Com um companheiro/ E a vergonha/ É a herança maior que meu pai me deixou”. Versos de um gênio. A interpretação, que parece sair do âmago de Jamelão, é intensificada pela orquestração, que intercala o andamento suave do piano com os arroubos emocionados da orquestra. “Ela disse-me assim”, a respeito da culpa torturante de um homem pego com as calças na mão pelo marido da amante com ela, é outro destaque do disco: cadenciada, sentida, quase chorosa.

Mais uma história tragicômica é contada em “Um favor”, em que um pobre-diabo pede a quem lhe possa ajudar a encontrar a amada que lhe deu um pé na bunda (“Faça esse mundo acordar/ Para que onde ela esteja/ Saiba que alguém rasteja/ Pedindo pra ela voltar”). O arranjo é especial, principalmente na “deixa” metalinguística da letra ao clamar que músicos e seus instrumentos auxiliem neste chamado desesperado. Claro que a “flauta o trombone e clarim” atenderam. E assim segue em todas as faixas, repletas de dor, angústia e amores não correspondidos como é típico na música de Lupicínio Rodrigues. E Lupicínio Rodrigues cantado por Jamelão, aí mesmo que fica insuperável.

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FAIXAS:

1. Meu recado (Felisberto Martins/ Lupicínio Rodrigues)
2. Homenagem
3. Sozinha
4. Um favor
5. Exemplo
6. Quem há de dizer (Alcides Gonçalves/Lupicínio)
7. Cigano (Martins/Lupicínio)
8. Amigo ciúme (Onofre Pontes/Lupicínio)
9. Torre de babel
10. Nervos de aço
11. Ela disse-me assim
12. Vingança

todas de Lupicínio Rodrigues, exceto indicadas

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Ouça:




sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Navegante Errante





foto: Doris de Oliveira - fototeca Cioma Breitman
Museu Joaquim José Felizardo - Pref. mun. de Porto Alegre
O Naval foi e sempre será o bar da minha infância. Encravado em pleno Mercado Público de Porto Alegre, centro histórico da cidade, o típico boteco, aberto nos longínquos anos de 1907, é parte essencial da história de porto-alegrenses como eu, tendo em vista sua tradição e notoriedade. Aquele pé-direito altíssimo; as portas de madeira estilo português; o piso de lajotas intercalando preto e branco; o cheiro de trago no ar; as mesas de madeira com plástico grosso por cima; os porta-retratos com fotos antigas; os afrescos do teto; o enorme cartaz acima das cabeças com a imagem de um navio; as fotografias pitorescas nas paredes; o ar que parecia tomado por uma neblina de satisfação. Tudo ali me encantava desde quando, guri, levado por meu pai e, muitas vezes, juntamente com meu irmão, comecei a frequentar o bar Naval. Ia a vários outros com meu pai, mas ao Naval era especial. Não era sempre. Às vezes, no dia de pagamento de meu pai, funcionário da prefeitura, saíamos da repartição dele na Borges de Medeiros e rumávamos direto para lá, felizes. E mesmo com essa frequência menos assídua era incrível como sempre me senti em casa, tal como se o bar fosse uma extensão da minha.

Aquela aura do local me dava impressão de que, ao adentrar pela porta, fosse pela de dentro do Mercado, fosse pela da calçada, que dá para a rua, saíamos do resto do mundo para entrar, exclusivamente, no Naval, como navegantes num barco solto no meio do mar. A percepção de criança fazia com que, inclusive, eu nunca atinasse exatamente de qual dos quatro lados do Mercado Público se entrava para acessá-lo. Parecia que era pelo lado do Guaíba... mas, não, era pelo Largo... ou pelo lado da Prefeitura...? Afora a justificativa do senso de direção ainda em desenvolvimento em uma criança como eu, não posso deixar de pensar hoje que a entrada para aquele museu boêmio era, na verdade, imaginária.

A melhor parte para nós eram as comidas. Comida de boteco típica, daquelas suculentas, sempre com o mesmo gosto anos a fio. Tínhamos nossos pratos prediletos: as almôndegas gigantes, espetacularmente bem fritas, e a chuleta de porco, um respeitável bife cujo sabor especial era um verdadeiro segredo. Tinha também uma pimenta maravilhosa, a melhor que já comi na vida, feira na casa, que só passei a apreciar mais velho, pois era muito forte para meu paladar naquela época.

Não bastasse todo esse espírito, ainda o aspecto humano era de total acolhimento por parte dos garçons, que, na minha mente infantil, estavam ali desde sempre (e, quem sabe, não estavam?). Paulo Naval, um português de olhar entre o arguto e o carinhoso cujo nome resume a simbiose de sua existência com o local, visto que ele e o bar eram parte da mesma coisa; e Mauro, tipo turco dono de olhos verdes intimidadores até o momento em que abria seu sorriso largo e receptivo. Ambos eram amigos de meu pai, a quem tratavam como verdadeira deferência. No entanto e até por isso, Paulo chamava-o, com uma permissividade cúmplice de quem sabia de muita safadeza de meu pai, de “negro sem-vergonha”. O local sempre recebeu desde cidadãos comuns até personalidades, como Lupicínio Rodrigues, Carlos Gardel, Túlio Piva, Elis Regina, Glênio Peres, Leonel Brizola, Jânio Quadros, Olívio Dutra. Mas não havia distinção: podia ser político, conhecido, operário, personalidade, artista, zé-niguém, jovem, ancião, bicha, vesgo. Independia: anônimos ou famosos, todos os clientes eram tratados com o maior dos respeitos e atenção, e, alguns, como meu pai, pessoa comumente querida aonde ia (ainda mais nas rodas de birita e botecos da vida), ganhavam, sim, uma atenção especial.

Episódio clássico que mostra essa afetuosidade foi a ocasião em que meu pai, num dos tais dias de pagamento, pegou todo seu ordenado e se atirou para o Naval, sozinho. Lá, tomou todas a ponto de não ter condições de voltar para casa tamanho o porre. Tentou dar uns passos, mas caiu em plena rua. Pois então que o Paulo, sabendo que o pai tinha recém recebido o salário e que estava com este todo sacado dentro da bolsa, tomou a liberdade de abri-la e guardar o dinheiro consigo. Depois, chamou um taxi, pagou do seu bolso o taxista e mandou meu pai pra casa. No dia seguinte, já refeito do pileque, meu pai voltou ao bar para resgatar seu pertence, agradecer e pagar o taxi. Paulo não aceitou o dinheiro. Meu pai sempre se emocionava ao se lembrar desse ato de pura amizade, tanto pela consideração que tiveram com ele, rara para com um cliente, quanto pela ética de como agiram.

Por essas e outras, não à toa o Naval me parecia algo realmente poético. E Paulo Naval era um poeta de mão cheia, autor do livro "O Garçom e o Cliente - No Balcão do Naval" cujo lançamento ocorreu em pleno bar num concorrido coquetel. Recordo de uma vez que, sentados numa das mesas, ele, orgulhoso, de avental enxovalhado e paninho branco úmido na mão, recitou uma de suas obras. Momento inesquecível para mim.

Na esteira de meu pai, eu e meus irmãos também éramos muito queridos lá. Lembro da primeira vez que fomos com minha irmã, ainda uma criança de uns 4 ou 5 anos, sob os olhos arregalados de minha mãe, que permitiu o passeio com a pequena mas não sem certo receio. Mas deu tudo certo. Engraçado que, por conta daqueles dias de calor louco de Porto Alegre, misturado ao cansaço de sair cedo de casa conosco, ela acabou dormindo profundamente em nosso colo, chegando a ficar com o corpo todo mole. Parecia uma boneca de pano, pois, além de não acordar, precisava ser segurada permanentemente para não desmoronar. Naquele dia, Paulo e Mauro, felizes com a ilustre visita como se fosse a de uma familiar sua, bateram uma foto dela ainda acordada, tomando uma Mirinda de garrafa. Essa foto foi parar na parede do bar, ficando ali desde então.

Os anos se passaram. Cresci, a dinâmica de minha vida se alterou e, nesse meio tempo, entre outras mudanças, meu pai, motivo de meu contato primeiro com o Naval, foi para o outro plano. Mesmo assim, sempre procurei com uma frequência até parecida com a que tinha na infância dar uma passada por lá, fosse para sentar e comer, levar algo pronto para casa ou apenas dar um alô para o Paulo e o Mauro. Sentia-me, no fundo, com certa responsabilidade de manter a herança emocional de meu pai para com eles. Via-os nessas ocasiões, e era muito bom. Mas os anos de casa e a rotina religiosamente diária já os havia desgastado. Normal. Envelhecidos, mantinham a mesma simpatia e sorriso aberto, fazendo as mesmas perguntas a cada vez que eu ia (em que eu e meu irmão trabalhávamos, se eu ou meu irmão que é arquiteto, como estavam minha mãe e minha irmã, essas coisas de gente afeita a ti). No entanto, era perceptível que estavam cansados e que aquele cenário se alteraria, mas eu, talvez por apego ao sentimento de magia alimentado desde a infância, nem pensei em cogitar.

Mas as mudanças, de fato, ocorreram. Outro dia, dando voltas no Mercado Público, resolvi, como de costume, visitar os amigos Paulo e Mauro. Fui tomado de surpresa quando cheguei à porta do Naval. O local, todo reformado, agora tinha límpidas paredes brancas, arquitetura requintada e ar totalmente asséptico. Descaracterização própria de uma protomodernidade ignorantemente desmemoriada. A foto de minha irmã não estava mais lá, assim como os porta-retratos velhos, o cartaz do navio e tampouco a névoa de prazer. Até a porta que dava pra rua havia virado uma simplória janela. Dava pra ver que uma conceituada consultoria empresarial havia agido ali implacavelmente e passado o rodo em tudo que fosse nostálgico e não-moderno, deixando o local com cara não de botequim do Mercado Público de Porto Alegre, mas com cara de boteco bacaninha da Vila Madalena paulista. E, eu, com cara de bobo.

Perguntei a um garçom, um loiro baixinho, onde estavam o Sr. Paulo e o. Sr. Mauro. “Se aposentaram”, respondeu, olhando-me com uma expressão de estranhamento desdenhoso como se eu fosse um navegante errante em águas alheias. Mas meu desapontamento era a maior prova de que, na verdade, era ele o deslocado. Aquela indiferença modernosa e acéfala, que valoriza apenas o novo e cuja falta de alcance nem se presta a procurar no passado sentidos para o hoje, era o maior sinal da ação desrespeitosa desses tempos atuais. De fato, tudo que não fosse jovem tinha ficado para trás ali: aquelas conversas revolucionárias ou jogadas fora, aquelas bebedeiras homéricas ou o simples trago no fim do expediente, aqueles amores arrebatadores ou meros galanteios, aquelas figuras pitorescas ou cidadãos comuns, aquelas geniais ideias artísticas ou importantes acordos políticos. Tudo isso pertenceu a um tempo espacial diferente disso que se vive no dia a dia. Um tempo não-racional impossível de ser percebido por um simples garçom como os de hoje, que bate ponto como um escriturário. Tive o impulso de perguntar onde tinham posto a foto de minha irmã... mas recolhi a fala. Agradeci e fui embora, com um fio de melancolia e resignado com um mundo que insiste em ser muito real.

Mesmo assim, não deixei de frequentar o Naval. Volto lá de vez em quando. A comida é outra, gostosa também. Mas incomparável. Trata-se de outro Naval, pois “aquele” Naval, dos mocotós violentos, dos saraus de poesia, dos bate-papos inflamados, do chope perfeitamente tirado e dos tipos elegantemente extravagantes e encantadores, como foi meu pai, não existe mais. Perdeu-se no horizonte do oceano de lembrança, rumando para outra dimensão de tempo e espaço. Contudo, talvez minha paixão pelo Naval permaneça porque explique, justamente, esta minha atemporalidade ou o sentimento de, às vezes, estar deslocado no tempo. Assim como me acontecia quando subia à proa do Naval e me sentava à nau, com as pernas curtinhas que não encostavam o convés do tombadilho, para navegar longe sem sair do lugar. 

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Caetano Veloso - Teatro da Ospa - Porto Alegre (1992)


O conhecimento que adquiri sobre cultura é, hoje, para um adulto de 42 anos, bem mais assimilável diante dos olhos alheios do que quando eu era jovem. Naquela época, meu gosto e entendimento por cinema e música causavam espanto, visto que não correspondiam com o de muito adulto, quanto menos ao de outros jovens da minha idade. Como um guri de 13 anos, negro e de classe média é capaz de gostar (e entender!) daquilo que somente a classe média alta (e branca) detém? Enfim, não se escapa ileso disso no Brasil. Considerando a devida bagagem adquirida de lá para cá, posso dizer que, na juventude, já me mostrava interessado e conhecedor de muita coisa – principalmente, em comparação a pessoas então da minha idade, muito mais preocupados em ter grana para gastar na balada do fim de semana. Eu, um ET entre meus pares, queria saber mesmo era de filmes e de música. Meus gastos se voltavam a locadoras, discos e a conhecer coisas.

Caso de Caetano Veloso, a quem havia descoberto fazia alguns anos mas que, naquele 1992, completando 50 anos de vida, se revelava fortemente a mim através do seu então novo disco, “Circuladô”. Pela MTV, via seguidamente o ótimo clipe da música de trabalho “Fora da Ordem”. Mas, principalmente, minha curiosidade se despertava por causa da antenada Rádio Ipanema. Pela rádio, minha escola musical-cultural, ouvia não apenas esta música, mas também outras joias daquele disco, como a pedrada crítico-social “O Cu do Mundo”. Fui atrás do disco, óbvio. Adquiri-o em K7, trabalho que se tornou, até hoje, um dos meus preferidos de Caetano e sobre o qual já falei aqui no blog. Assim. quando o baiano anunciou que vinha a Porto Alegre para a turnê do álbum, não pestanejei. Sem ninguém tão empolgado quanto eu para ir ao show, fui sozinho.

Seria o primeiro sem a companhia de ninguém, nem pais, nem irmão, nem amigo. Só eu. Era comum ir às sessões especiais de cinema sozinho, mas a um show, que acabaria tarde da noite, nunca. E longe de onde era minha casa, na zona Sudeste de Porto Alegre. De ônibus, por cerca de 1 hora, me desloquei até o alto do Bom Fim/Independência em direção ao antigo e hoje desativado Teatro da Ospa, onde ocorreria o show. Com a devida preocupação de minha mãe, fui. Lembro que tinha fila Av. Independência afora, passando pela frente da casa da Cruz Vermelha, uma novidade para mim, que não frequentava aquelas imediações. Já ali, minha figura impressionava aqueles que assistiriam junto comigo dali a algumas horas o memorável show de Caetano. Lembro-me claramente que um senhor de meia-idade, de óculos e provavelmente fã do músico desde quando era adolescente, perguntou a mim com admiração que idade eu tinha.

Caetano e a grande banda comandada por Jaques Morelenbaum
Já lá dentro, na plateia superior esquerda, num bom lugar para quem não tinha dinheiro suficiente para pagar o valor para se assistir lá de baixo, posso dizer que foi naquela feita que me deparei pela primeira vez com a maestria do pessoal dessa geração (ele, Chico, Paul, Milton, Stevie, Bethânia, Stones, Gil, etc.). Não apenas a qualidade musical, mas a maestria de saber montar set-lists. Cruzes! “Circuladô”, o disco, já trazia músicas que garantem uma apresentação de alto nível se entremeadas com sucessos antigos e outras canções mais populares, o que normalmente se faz repertórios de shows. Mas essa “turma” sabe ir além disso. Caetano e sua ótima banda (Luiz Brasil, guitarra, violão e Synthaxe; Marcos Amma e Welington Soares, percussões; Dadi, baixo; Marcelo Costa, bateria; e Jaques Morelenbaum, cello, além da produção do show) articulam um show cujo encadeamento das músicas é tão bem construído que virou, não à toa, referência na obra do próprio Caetano. 

Equilibrando hits, clássicos, versões, textos, letra de idiomas diferentes e releituras suas e de outros compositores, além das faixas do disco que motivava a turnê, o show é uma sequência de tirar o fôlego de qualquer fã ou aspirante a isso, como eu o era ali. Momentos mais enérgicos, outros, mais cândidos; outros, ainda, mais populares ou mais conceituais. Mas sem jamais perder o ritmo narrativo. Aliás, como não se embasbacar com uma sequência inicial como esta?: Abre-se com a clássica “A Tua Presença” num novo e magnífico arranjo; engata uma versão bossa-nova “banquinho-violão” de “Black or White”, de Michael Jackson, expediente que o próprio Caetano já inovara poucos anos antes ao fazer o mesmo com “Billie Jean”, também autoria do Rei do Pop, mas que, ali no show, pegava todo mundo de surpresa; e uma virada sem pausa para um rock minimalista com o texto inédito “Os Americanos”, este, não cantado, mas lido por seu autor, que, além da qualidade inequívoca de compositor, é também um escritor de mão cheia.
Não lembro bem onde entrava no show “Fora da Ordem”, mas com certeza era na primeira metade em se tratando de música de trabalho do disco novo. O fato é que, logo em seguida, emenda-se outra sequência incrível e inesperada: a linda “Um Índio” – em uma versão melhor que a original dos Doces Bárbaros –, a novelística "Queixa" e uma assombrosa "Mano a Mano", clássico tango de Carlos Gardel com Morelenbaum ao cello e Caetano apavorando no vocal. Mas não terminava aí: só na voz e violão, vêm uma trinca com a assertividade dissonante de "Chega de Saudade"; uma surpreendente versão de "Disseram que eu Voltei Americanizada", do repertório de Carmen Miranda; e “Quando eu Penso na Bahia", em que Caetano torna Ary Barroso muito caymmiano.

A bela arte da capa do disco ao vivo,
que fazia cenário para o show visto
na Ospa
Intercalando um que outro dos ótimos temas de “Circuladô” – como “A Terceira Margem do Rio" (das raras dele e de Milton Nascimento), “Itapuã” e a já citada “O Cu do Mundo” –, Caetano traria ainda outras pérolas consagradas (“Você é Linda”, “Os Mais Doces Bárbaros", “Sampa”) e mais surpresas. Uma delas, é a versão para "Oceano", então recente sucesso de Djavan que emocionou a galera. Outra: uma estupenda versão para “Jokerman”, de Bob Dylan, ponto alto do show e que lhe confere o começo de uma segunda e derradeira parte. Mas não terminava ali (Caramba!). Tinha mais coelhos naquela cartola, pois o espetáculo trazia também duas revelações. Primeiro, a de que a querida “O Leãozinho” havia sido escrita, nos anos 70, justamente para um dos integrantes daquela banda, Dadi, o que resultou numa execução desta somente com o seu contrabaixo acompanhando a voz de Caetano. A outra revelação também é relativa aos anos 70, mas consideravelmente mais melancólica visto que resultante dos reflexos da Ditadura Militar. Antecipando o que traria em seu livro-ensaio “Verdade Tropical”, de 1997, Caetano conta para a plateia, antes de cantar “Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos”, que Roberto e Erasmo Carlos a escreverem em sua homenagem, e que conheceu a canção recém-composta numa visita de Roberto a ele e Gil no exílio, em Londres, ocasião aquela em que se emocionou muito.

Para mim, que conhecia de cabo a rabo “Circuladô”, ficou claro por que, de todas, tanto“Ela Ela”, arranjada e tocada em estúdio com Arto Lindsay, como “Lindeza”, com Ryuichi Sakamoto aos teclados, igualmente sui generis, cada qual com suas particulares performances irreproduzíveis à altura sem esses músicos específicos, não se executaram. Além de compreensíveis ausências, ambas nem de longe fizeram falta ao show, que, antes de tudo, foi um show de repertório. Tão marcante foi tal apresentação, que se tornou o primeiro de uma série de discos ao vivo de Caetano, o CD duplo “Circuladô Vivo”, algo que passou a acontecer com regularidade a partir de então após cada disco de estúdio lançado. A qualidade técnica da gravação, que se tornava disponível à época no Brasil pós-Collor, certamente colaborou para isso. Porém, antes de qualquer coisa, o tratamento dado pela também iniciante parceria entre Caetano com Jaques Morelenbaum é crucial para o sucesso do álbum ao vivo, um dos mais celebrados da carreira de Caetano. Se no estúdio os Ambitious Lovers Arto e Peter Scherer vinham numa ótima tabelinha com o baiano desde “O Estrangeiro”, de 1989, o que se adensaria em “Circuladô”, no palco, era a mão versátil do maestro líder da Banda Nova de Tom Jobim que ditava a musicalidade. Por influência dele, "Terra" (que ficou de fora do CD, assim como outra clássica, "Baby"), talvez a melhor melodia de Caetano, ganhou no show a talvez sua melhor versão das várias que o autor já registrara ao longo da carreira.

Não tenho idade para ter ido a shows célebres de Caetano em Porto Alegre, como o da turnê do disco “Cinema Transcendental”, em 1979, ou o de 1972, no Araújo Vianna, de onde, após encantar a plateia, partiu com figurino e tudo rumo ao histórico e único encontro que teve com Lupicínio Rodrigues, no Se Acaso Você Chegasse, na Cidade Baixa. Mas a ver pela repercussão que este show de 1992 teve, tanto com o lançamento e sucesso do CD ao vivo como também de um especial para a TV Manchete e um documentário dirigidos por Walter Salles Jr. e José Henrique Fonseca – à época, em VHS –, era impossível Caetano não conquistar de vez aquele pré-adolescente da periferia porto-alegrense, que, encantado com o que vira, nem se abalou por andar sozinho tarde da noite de volta para casa. Aliás, ele nem lembra como e quando chegou em casa. Mas que chegou, chegou – para alívio de sua mãe. Se não, ele não estaria aqui agora, redigindo este texto recordado da grande noite em que viu Caetano Veloso pela primeira vez ao vivo.

Show "Circuladô Vivo" (1992)

Documentário "Circuladô Vivo" (1992)


Daniel Rodrigues

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Engenheiros do Hawaii - "A Revolta dos Dândis" (1987)


"O disco e tudo mais é dedicado à Porto Alegre
(a real e as imaginárias)"
dedicatória da banda no encarte do álbum



Uma vez eu ouvi, não lembro onde, Humberto Gessinger, líder e cabeça pensante dos Engenheiros do Hawaii, dizendo que os discos gêmeos “A Revolta dos Dândis” e “Ouça o Que Eu Digo Não Ouça Ninguém” eram sobre comunicação. Bom, acho que é verdade e não é. Efetivamente o são com seus outdoors, comerciais, vozes oficiais, seus livros e revistas mostrando imagens sem nitidez, infelizes infartados de informação e televisões e rádios sendo jogados pelas janelas, mas junto com isso trazem também dilemas pessoais, paixões mal-resolvidas, dúvidas existenciais, conflitos ideológicos e mais uma série de outros assuntos que se não constituem um centro temático, por certo em algum momento encontram o tema que, segundo o principal compositor da banda norteia a obra. Podia aqui falar de qualquer um dos dois mas começo pelo primeiro da trilogia que só terminaria com o bom "Várias Variáveis" de 1991. Depois de um primeiro disco interessante porém com sonoridade um tanto crua e pouco definida, Os Engenheiros do Hawaii reapareciam com um disco conceitual apoiado no folk, no progressivo e na própria tradição musical gaúcha, muitíssimo bem encaixado, bem resolvido, bem concebido, e, como diz o meu amigo Christian Ordoque, colaborador daqui do ClyBlog, um disco com início-meio-fim. Com letras inteligentíssimas, bem sacadas, repleto de referências literárias, citações filosóficas, ditos populares, trocadilhos e combinações fonéticas interessantes, o álbum “Revolta dos Dândis” de 1987, era o retrato do amadurecimento da banda de Porto Alegre com um som mais robusto, ousado e agora cheio de personalidade, muito devido ao ingresso do guitarrista Augusto Licks que colaborava então de forma decisiva para este crescimento e para as melhores virtudes instrumentais do álbum.
O nome do disco, tirado de um capítulo de um romance de Albert Camus, dá nome às faixas de abertura de cada lado do que seria um LP (formato original de seu lançamento), ambas começando com o mesmo riff e apresentando formatos bastante parecidos no que diz respeito à composição com letras que expõe, de certa forma, os dois lados que tudo na vida pode ter e a procura por algum sentido nisso tudo. Aliás o disco todo se amarra e cria interligações entre uma faixa e outra: versos de “Vozes” são repetidos em “Quem Tem Pressa Não Se Interessa”; o fraseado de guitarra que abre “Terra de Gigantes” reaparece no início de “Vozes”; conceitos de “Filmes de Guerra, Canções de Amor” aparecem expressos em “Desde Aquele Dia” entre várias outras peças soltas neste pequeno quebra-cabeça.
A suave e profunda “Terra de Gigantes”, um dos grandes sucessos do disco, com seus sonhos, perguntas e anseios de juventude, tinha ares de hino de geração; “Infinita Highway” outro hit radiofônico, até improvável por sua longa duração para os padrões de rádio, trazia um pop-rock envolvente que nada mais fazia que expor a grande estrada que é a vida; a romântica “Refrão de Bolero”, flertando com o brega, era uma balada dolorida de dor-de-cotovelo ao melhor estilo do conterrâneo Lupicínio Rodrigues; e fechando o que seria o lado A, a espetacular “Filmes de Guerra, Canções de Amor”, além de uma letra genial, trazia uma brilhante percussão de tamborins durante os excelentes solos de Augusto Licks entre as partes da letra, crescendo até explodir numa verdadeira escola de samba na parte final. “Quem Tem Pressa Não Se Intereressa” tem uma certa ênfase na bateria e um vocal 'atropelado', e a boa “Desde Aquele Dia” mostrava um toque de música espanhola sobretudo no refrão. O disco acaba com a notável “Guardas da Fronteira” com participação vocal do lendário músico gaúcho Júlio Reny, e cuja sonoridade remete um pouco à música regionalista, numa canção sarcástica e pessimista que encerra praticamente toda a idéia do disco conferindo-lhe um final digno e grandioso.
“Ouça o que Eu digo Não Ouça Ninguém”, que o seguiria poderia tranquilamente ter sido o disco 2 de um álbum duplo, por exemplo, tal a semelhança e complementação de ambos os trabalhos mas como não foi, e é quase inevitável falar de um sem citar o outro, será objeto de análise em outro momento e merecerá seu capítulo à parte.

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FAIXAS:
1."A Revolta Dos Dândis I"   4:10
2. "Terra De Gigantes"   3:59
3. "Infinita Highway"   6:11
4. "Refrão De Bolero"   4:34
5. "Filmes De Guerra, Canções De Amor"   4:02
6. "A Revolta Dos Dândis II"   3:13
7. "Além Dos Outdoors"   3:33
8. "Vozes"   3:35
9. "Quem Tem Pressa Não Se Interessa" (Humberto Gessinger, Carlos Maltz) 2:27
10. "Desde Aquele Dia"   3:30
11. "Guardas Da Fronteira"   4:31


* todas as faixas, Humberto Gessinger, exceto as indicadas

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segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Bar Naval - Porto Alegre 27/09/09








O Mercado Público de Porto Alegre,
patrimônio histórico
Tive neste final de semana uma breve passagem pela minha cidade, Porto Alegre, na qual revi parentes, amigos e fui ao meu estádio, o Beira-Rio. Aproveitei também, já que em dado momento estava no Centro da cidade na hora do almoço e tendo que esperar meu irmão por mais uma hora, para ir em um dos lugares mais tradicionais da cidade dentro de um dos pontos mais significativos e históricos dela: o Bar Naval, dentro do Mercado Público.
A velha placa do Naval
Conheço o Naval desde que me conheço por gente e por certo o Naval me conhece antes que eu me conhecesse. Provavelmente, imagino, já com dois ou três anos de idade deva ter sido levado ao bar, até porque fui testemunha que minha irmã com menos idade foi apresentada ao Naval, provavelmente com menos de um ano.
Revi o proprietário, figura simpaticíssima e já parte da história da cidade, Seu Paulo Naval, amigo de longa data de meu pai que mesmo não me vendo há anos não esqueceu do gurizinho que era levado lá e sempre pedia a mesma coisa: chuletinha de porco à milanesa (inclusive ainda me trata por “gurizinho”).
O Naval, bar com 102 anos de história, sempre teve a característica de, mesmo com suas acomodações modestas e simples, receber as mais ilustres figuras da cidade além de visitantes importantes como Nélson Gonçalves, Gardel e muitos outros. Dizem que o ex-governador Olívio Dutra era cliente assíduo (e consta que seja chegado numa birita), que Lupicínio Rodrigues ia lá de vez em quando, atores do centro do país, jogadores da dupla Grenal – lá eu conheci pessoalmente Figueroa, o capitão do Andes do Internacional.
Pra manter a tradição comi, é óbvio, uma chuleta de porco à milanesa. O mesmo sabor de todos estes anos. Sempre que ia a Porto Alegre pensava em ir lá, visitar o Seu Paulo, falar das histórias do pai, almoçar lá e tudo mais, mas sempre deixava passar. Acho que paguei uma dívida comigo, com o Naval, com Seu Paulo, com a tradição e com a minha cidade.

Fotos de artistas nas paredes,
muitos inclusive que estiveram lá.



Eu com Seu Paulo.

Cly Reis

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

POA Jazz Festival - Centro de Eventos BarraShoppingSul - Porto Alegre/RS (9, 10 e 11/11/2018)



1ª noite – 9/11

Começou a 4° edição do POA Jazz Festival no Centro de Eventos do BarraShopping Sul. Como não estou envolvido profissionalmente neste ano, pude acompanhar com atenção a primeira noite. Quem abriu os trabalhos foi uma das minhas bandas favoritas da nova geração: a Marmota Jazz. Como sempre, os meninos mostraram a qualidade de sua música aliada a uma apresentação expressiva. Com o repertório calcado no segundo disco, "A Margem", os marmotas impressionaram o público do festival com suas composições cheias de passagens intrincadas e soluções rítmicas que se transformam a cada instante. O guitarrista Pedro Moser estava particularmente inspirado mas a banda inteira deu show de musicalidade. Na metade do show, entra no palco o cantor Pedro Veríssimo. O repertorio mudou, passando para a reinterpretação de standards como "The Man I Love" e "My Funny Valentine". Este encontro do cantor com a banda está rendendo bons frutos e o caminho natural para esta parceria parece ser a gravação de um disco. Pedro foi feito para cantar com a Marmota e vive-versa. A surpresa foi a inclusão de "Time of the Season", da banda roqueira sessentista The Zombies. Em tese, um corpo estranho mas que Pedro e os Marmotas se encarregaram de "transformá-la" em outro standard.

A talentosa Marmota Jazz com o convidado já parceiro Pedro Verissimo
Na sequência, veio a atração certamente mais popular de todo o festival: as argentinas Bourbon Sweethearts. Três vocalistas que emulam o som dos grupos vocais femininos das décadas de 30 e 40, como as Andrew Sisters, além de tocar trombone, violão e baixo acústico. Meu amigo Eduardo Osorio Rodrigues comparou a música das portenhas às trilhas sonoras dos filmes de Woody Allen. A gênese está ali. As Bourbon Sweetheatts tiveram grande empatia com o público, que reconheceu a música das Betty Boops argentinas como "jazz da antiga".  Particularmente, neste quesito, prefiro o trabalho da POA Jazz Band, que deu show nos intervalos.

As argentinas Bourbon Sweethearts: emulando o som dos grupos
vocais femininos das décadas de 30 e 40
Para encerrar, a grande atração da noite: o saxofonista alto Rudresh Mahanthappa e seu grupo Indo-Pak Coalition, formado pelo guitarrista Rez Abbasi e pelo baterista e tablista Dan Weiss. Mesclando os intrincados ritmos indianos com uma pegada elétrica que beira o jazz-rock, Mahanthappa hipnotiza o público com sua destreza. Já Abbasi se utiliza de um arsenal de efeitos e variedade de timbres em sua guitarra, fazendo com que ela soe absolutamente diferente a cada momento. O baterista Weiss merece um capítulo à parte: mestre dos polirritmos na bateria – lembrando as invenções do indiano Ranjit Barot, que toca com John McLaughlin –, Weiss demonstra domínio completo das tablas, como se fosse um nativo. Depois, adota um 4/4 básico do rock, como se fosse um John Bonham redivivo.

Mahanthappa hipnotizando o público com sua destreza
Usando loops de guitarra e saxofone – que me lembraram "Baba O'Riley", do The Who –, Mahanthappa recheia sua interpretação com climas jazzísticos, roqueiros e orientais que vão se sucedendo numa música muito particular e voltada para o futuro. Como normalmente acontece com a última atração da noite, o público mais conservador levantou e foi embora. Impressionado com a música do Indo-Pak Coalition, evoquei Caetano Veloso, imaginando o grupo "esfregando o leite mau (a música sem rótulos) na cara dos caretas".



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2ª noite – 10/11

Vitor Arantes Quarteto abrindo a segunda noite do festival
A segunda noite do 4° POA Jazz Festival no Centro de Eventos do Barra Shopping iniciou abrindo espaço para a nova geração do jazz e da música instrumental brasileira. Subiu ao palco o Vitor Arantes Quarteto, vencedor do Concurso Novos Talentos do Jazz, parceria do festival daqui com Savassi e o Sampa Jazz. Como se poderia esperar de um grupo tão jovem, a mistura de ritmos brasileiros e jazz desenvolvida pela rapaziada em suas composições próprias apresenta momentos interessantes e que certamente serão melhor explorados no futuro. Os meninos mostraram todo seu talento nas versões de "Bebê", de Hermeto Pascoal, e da clássica "My Favorite Things", do musical "A Noviça Rebelde" e que ganhou notoriedade na gravação de John Coltrane de 1961. 

Na sequência, entramos na máquina do tempo e voltamos ao final da década de 50 e começo dos anos 60 com os argentinos do Mariano Loiácono Quinteto. Adotando como parâmetro musical as lendárias gravações do hard-bop da Gravadora Blue Note, o trompetista e seu grupo fizeram uma viagem para aqueles tempos de Art Blakey & The Jazz Messengers e semelhantes. Loiácono parecia um Lee Morgan ressuscitado (opinião confirmada pelo próprio Mariano depois do show). Já seu saxofonista tenor, Sebastian Loiácono, alterna passagens “coltranísticas” com os estilos de Sonny Rollins e Joe Henderson. No piano e no baixo, dois velhos conhecidos do Festival de Jazz de Canoas: Ernesto Jodos e Jerónimo Carmona. Completa o grupo o baterista Eloy Michelini. No repertório, só pérolas, entre elas duas baladas de cortar os pulsos: "You Don't Know What Love Is" e "Soul Eyes". Com tanta energia, Mariano e seu grupo conquistaram o público presente. Aliás, um parêntese: os dois grupos que mais empolgaram a plateia, depois do arrasa-quarteirão Rudresh Mahanthappa, foram os hermanos Bourbon Sweethearts – para mim, exagerado – e o quinteto do trompetista, plenamente justificado. 

Uma viagem ao hard-bop anos 50 com o quinteto de Mariano Loiácono 
Para encerrar a noite, uma brisa da melhor MIB (Música Instrumental Brasileira) com o grupo do baterista Edu Ribeiro, também integrante do Trio Corrente e do Vento em Madeira. Usando uma formação não usual de guitarra, trompete/flugelhorn, baixo elétrico e acordeon, Edu desfila com categoria e precisão sobre os mais variados estilos: frevo, samba, choro, baião e até mesmo o sulista chamamé. Interessante é ver o guitarrista Fernando Correia assumir o lugar do piano na harmonia, enquanto Edu, Daniel D'Alcântara no sopro e Guilherme Ribeiro no fole ficam com a improvisação. Tudo isso é mantido no lugar pelo baixo seguro de Bruno Migotto. Na apresentação, músicas do disco "Na Calada do Dia" como "O Índio Condá", "Maracatim", ambas de Edu, e "Brincando com Theo", homenagem da flautista Léa Freire ao filho dos músicos Monica Salmaso e Teco Cardoso. Nela, o guitarrista teve espaço para um solo e mostrou sua técnica apurada. 

Grupo do baterista Edu Ribeiro: formação não usual que agradou
No final, o líder chama ao palco o argentino Mariano e lhe faz tocar um frevo. No papel, parece uma demasia mas Loiácono se saiu muito bem. Em resumo, uma noite de música de alta qualidade para o público que compareceu ao Centro de Eventos. 


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3ª noite – 11/11

Instrumental Picumã, uma das mais interessantes bandas surgidas
nos últimos tempos no RS
Pra fechar a 4ª edição do POA Jazz Festival, mais uma noite de ótima música no BarraShopping Sul. Tudo começou com os guris do Instrumental Picumã. Uma das bandas mais interessantes surgidas nos últimos tempos aqui no Estado, o Picumã faz a ponte entre a música regional gaúcha – e os ritmos do sul do mundo – com uma linguagem jazzística. Com uma formação que reúne flauta (Texo Cabral), violão (Matheus Alves) e acordeon (Paulinho Goulart) como solistas e tendo na base os baixos acústico e elétrico (Miguel Tejera) e percuteria variada (Bruno Coelho), o Picumã desfilou as músicas de seu primeiro disco e várias composições inéditas, que farão parte do próximo trabalho.
Toda a sonoridade do grupo é voltada para uma concepção acústica coletiva, o que não impede de destacarmos os trabalhos de Matheus no violão e de Bruno, se virando em vários instrumentos de percussão ao mesmo tempo. Destaque para algumas canções do primeiro CD como "Salsilla Y Scooby", "Milonguera" e "Chacareta".

Na sequência, tivemos o show mais descontraído de todo o festival: o mestre da harmônica Maurício Einhorn, acompanhado de duas feras: Nelson Faria, na guitarra, e o nosso querido gaúcho de Frederico Westphalen, Guto Wirtti, no baixo acústico. Como se estivessem na varanda, os três tocaram standards ("The Days of Wine and Roses"e "Blusette"), clássicos da bossa-nova ("Corcovado"), MPB ("Pra Dizer Adeus", numa linda versão) e as composições de Einhorn que ganharam o mundo ("Estamos Aí" e Batida Diferente"). O repertório era escolhido na hora, segundo a vontade do líder, que se esbaldou contando histórias, chamando o homenageado Zuza Homem de Mello ao palco e falando de seus amigos gaúchos. Tudo isso com o acompanhamento luxuoso de Faria e Wirtti, ambos dando um show de musicalidade. Claro que esta atmosfera relax conquistou o público, que acorreu em hordas aos bastidores após a apresentação.

Einhorn, sua harmônica e sua banda no show mais descontraído do festival
Pra fechar a noite e o festival, o piano trio de um dos maiores instrumentistas e arranjadores brasileiros: Gilson Peranzzetta. Acompanhado do mestre Zeca Assumpção no baixo acústico e do exímio baterista João Cortes, Peranzzetta mostrou as músicas que estão no disco "Tributo a Oscar Peterson". Baseando parte do show no disco "West Side Story", de 1962, o pianista deu mostras de sua técnica impecável em canções como "Somwhere", "The Days of Wine and Roses" (de novo, dando a oportunidade de comparação entre as versões mostradas no palco do BarraShopping) e "Con Alma".

O craque Peranzzetta: formação em trio que vai além da bossa-nova
A curiosidade da noite foi a versão piano solo de "Tico-Tico no Fubá", de Zequinha de Abreu, que, lá pelas tantas, se transforma em "Nunca", de Lupicínio Rodrigues. Pra encerrar, outra surpresa: a clássica "Just One of Those Things" em ritmo de samba. Dentro da tradição do piano trio, Peranzzetta e seus asseclas se saíram muito bem, mostrando que o formato ultrapassa os grupos do tempo da bossa-nova e pode apontar para uma outra sonoridade. Parabéns aos curadores Carlos Badia, Rafael Rhoden e Carlos Branco pelo belo trabalho, extensivo a toda equipe técnica e de produção, em especial a este grande produtor e uma figura amada por todos chamada Bruno Melo.


por: Paulo Moreira
fotos: Ricardo Stricher

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Gal Costa – Turnê “Estratosférica” – Auditório Araújo Vianna – Porto Alegre/RS (02/10/2015)




Divina e maravilhosa.
Sinceramente pensei que havíamos perdido Gal Costa. Por quase duas décadas, ela, uma das maiores cantoras do Brasil e do mundo havia se afundado numa fase obscura de falta de criatividade e trabalhos opacos que nem a voz cristalina conseguia impulsionar. Parcerias ruins, projetos mal elaborados, repertórios duvidosos, ações de marketing ineficientes. Tudo contribuía para pior a ponto de quase tirar o brilho da intérprete de tantas glórias e êxitos. Porém, em 2012, renascida das cinzas, Gal Costa chama o “mano” Caetano Veloso para exorcizar seus demônios e lança o “divisor de águas” "Recanto", no qual não só retoma uma série de referências que havia deixado no passado quanto, obviamente, se ergue de novo musicalmente.
Não é mesmo à toa que “Recanto” tenha esse título, pois de fato a partir dele tudo mudou para Maria da Graça Costa Penna Burgos, que completa louváveis 50 anos de carreira em 2015. E uma das mostras dessa mudança para melhor é o novo CD “Estratosférica”, cuja turnê passou por Porto Alegre numa memorável apresentação da baiana e sua banda de jovens rapazes. Aliás, a nova geração é que, sob a batuta dessa experiente cantora, dá o tom dos novos trabalho e show. A começar pela direção musical, a cargo de Pupilo (Nação Zumbi), certamente responsável em boa parte pelo tom de rock do show. Igualmente, o repertório é recheado de canções de compositores de agora, como Mallu Magalhães, Marcelo Camelo, Criolo, Zeca Veloso (sim, filho de Caetano!) e Alberto Continentino.
Maravilhosamente bem iluminado e com uma Gal em boa forma física e principalmente vocal, “Estratosférica” é uma aula de construção de repertório e conceito de espetáculo. Mesclando as novas músicas com sucessos e clássicos da carreira, Gal não faz apenas o que se espera como, assim, reassume a função que sempre foi sua desde que se tornou a revolucionária resistente do tropicalismo e a dona de hits incontestes das rádios: a de servir de canal transformador entre o novo e o tradicional na música brasileira. Afinal, foi ela uma das principais responsáveis por gravar, nos anos 60 e 70, os então jovens Caetano, Gilberto GilTom ZéJards Macalé, Luiz Melodia, Jorge Ben e vários outros. stoneano “Sem medo nem esperança”, música do novato Arthur Nogueira com poesia do veterano Antonio Cícero dando o recado pela intérprete: “Nada do que fiz/ Por mais feliz/ Está à altura/ Do que há por fazer” (assim é que nós gostamos de ver, Gal!). Esta emenda com “Mal Secreto”, de Jards e Waly Salomão, gravada por ela no histórico “Fa-Tal” ou “Gal a Todo Vapor”, de 1971. Voltando mais no tempo, Gal revive o ápice do tropicalismo com “Namorinho de Portão”, de Tom Zé, que ganha arranjo tão parecido com o de 1969 que a guitarra de Guilherme Monteiro soa até com aquele distorcido rasgado de Lanny Gordin. Grande momento.
Gal e sua excelente banda.
Nessa linha, o show começa detonando com o rockzão
Como todo bom concerto de rock, a base harmônica está na guitarra, que ganha ora peso ora groove, auxiliado pela bateria de Thomas Harres, pelo baixo de Fábio Sá e, principalmente, pelos teclados do ótimo Maurício Fleury, ora modernos ora retrô-psicodélicos, servindo como elemento climático e de textura. Soa assim a versão de outro clássico, “Não Identificado”, de Caetano, cujos efeitos do sintetizador cobrem muito bem a orquestração intensa e espacial de Rogério Duprat da original. “Pérola Negra”, de Melodia, é outra das antigas que conquista o público. As canções novas não deixam, no entanto, nada a dever para as já consagradas. É o caso de “Quando você olha pra ela”, gostoso samba-rock assinado por Mallu com cara do melhor Jorge Ben: melodia suingada, linha vocal assimétrica e a docilidade romântica de uma “Ive Brussel” e “Moça”. Aliás, Benjor é reverenciado mais de uma vez: primeiro numa embasbacante “Cabelo”, parceria com Arnaldo Antunes que ganha arranjo de funk-rock pesado, tipo Parlaiment/Funkadelic (o que é aquilo!). Lá no fim, Babulina volta em alto estilo para encerrar o show com uma improvável (mas maravilhosa) "Os Alquimistas Estão Chegando", misto de indie e samba-soul (o que é aquilo, de novo!).
Voltando às novas, ainda surpreendem a doce bossa-nova “Pelo fio”, de Camelo, com ares de Carlos Lyra ou Ronaldo Bôscoli; “Ecstasy”, joia nova de João Donato e Thalma de Freitas; a interessante faixa-título, de Maria Poças, Romário Oliveira Jr. e Barreto; e, principalmente, a genial “Por baixo”, um malicioso baião eletrônico de Tom Zé encomendado pela conterrânea: “Por baixo do vestido: a timidez/ Baixo da timidez: a seda fina/ Baixo dela: uma nuvem de calor/ Baixo de calor: um perfume da China...”. Ainda, a bela “Você me deu”, de Caetano e seu filho Zeca, revisitando o conceito de “Recanto”; “Muita Sorte", última música escrita pelo saudoso Lincoln Olivetti (morto em 2014), "Amor, Se Acalme" (de Marisa Monte, Arnaldo e Cezar Menezes); a sensorial “Anuviar”, de Moreno Veloso e Domenico; e a rica “Dez Anjos”, parceria de Criolo e Milton Nascimento, também feita especialmente para Gal. Aliás, para abrilhantar a noite no Araújo Vianna, Bituca, na cidade para um show que faria dali a dois dias, foi prestigiar a amiga.
Como nos velhos tempos, voz e violão.
O clima especial de quem está reverenciando sua própria obra faz com que a artista passe por pontos importantes, e Caetano está presente aí novamente. Além de ser personagem fundamental no resgate da companheira de Doces Bárbaros e o único a ter quatro composições no set-list, é dele ainda outro feito: a primeira canção gravada por Gal (ainda como Maria da Graça), “Sim, Foi Você”, em 1965. Para tocá-la, a própria volta a empunhar o violão, numa das horas emocionantes do show.
A pulsante “Casca” (Jonas Sá e Alberto Continentino), das melhores do show e que novamente remete ao tom kratrock de “Recanto”, fecha muito bem com o hino “Cartão Postal”, de Rita Lee e Paulo Coelho, resgatada com muita sensibilidade por Gal. É o que acontece também com “Arara”, de Lulu Santos, e no desbundante blues de “Como 2 e 2”, em que a cantora repete a performance que faz com que sua interpretação seja tão definitiva quanto a de Roberto Carlos. Por falar em Roberto, é a parceria dele com Erasmo Carlos escrita em homenagem à própria em 1969, o sucesso “Meu nome é Gal”, que fecha o show no bis. Ainda teria mais um impressionante arranjo, este para o samba dor-de-cotovelo de Lupicínio Rodrigues “Vingança”, que vira um bolero modernista, para encanto dos gaúchos.

Foi mais um show deste histórico momento de comemorações de 50 anos de carreira e/ou de 70 anos de idade, aos quais já presenciei de dois anos para cá de Caetano e Gil (tanto juntos quanto separadamente), Milton, Maria Bethânia e da norte-americana Meredith Monk. Ou seja: a celebração de uma geração que, na faixa ou acima dos 70 anos (ponham-se aí os Rolling StonesPaul McCartneyStevie WonderBob Dylan e outros precursores), ainda nos tem muito para dizer. E Gal, para sorte de todos, voltou ao time de forma inteira. Total. Legal. Fa-tal. Estratosférica.





quinta-feira, 16 de março de 2023

ÁLBUNS FUNDAMENTAIS Especial 15 anos do ClyBlog - Jards Macalé - "Real Grandeza - Parcerias com Waly Salomão" (2005)



Para lembrar: Jards Macalé - 80 anos
Vale a pena ser poeta?

por Márcio Pinheiro

Em parceria com Waly Salomão, ele subverteu a dor de cotovelo e a cornitude, dando uma nova dimensão à fossa e lançando as bases para a morbeza romântica

Nascido no terceiro dia do Carnaval de 1943, Macalé – filho de um militar com uma dona de casa, atravessou um amplo aprendizado teórico, iniciado no violão clássico e consolidado nos conjuntos de bossa nova e no nascimento do tropicalismo. Em 1969, assustou público e júri de um Festival da Canção com seu berro que anunciava haver um morcego na porta principal. Os tempos não eram de piadas e de sustos forçados. Macalé recebeu uma vaia estrondosa. Recuperou-se, mas nunca mais conseguiu se livrar do rótulo de maldito.

As bases da morbeza romântica se estruturavam na dor de cotovelo, na cornitude – como explicou Augusto de Campos –, e nas composições de Nelson Cavaquinho e de Lupicínio Rodrigues – ou “Lupicínico” como era definido por Macalé e Waly. Era uma espécie de fossa traduzida pelo tropicalismo. Um estilo que não perdia a ironia, a capacidade de rir de si mesmo, como comprova o título do disco – Real Grandeza é uma rua no bairro de Botafogo onde se localiza um dos mais conhecidos cemitérios do Rio.

Há duas maravilhas inéditas no CD. "Berceuse Criolle", com Maria Bethânia acompanhada por um trio violão-piano-cello. A outra é "Olho de Lince", em que a voz gravada de Waly entoa versos que servem como uma continuação de "Anjo Exterminado". Se na música dos anos 70, vigiado pela ditadura, Waly falava em“Fecho janelas sobre a Guanabara/Já não penso mais em nada/Meu olhar vara vasculha a madrugada”, anos depois, em tempos de abertura, o poeta grita: “Quando quero saber o que ocorre à minha volta/Ligo a tomada abro a janela escancaro a porta/Experimento tudo nunca me iludo”.

Outro hino daqueles tempos de sufoco, "Vapor Barato", gravado pela primeira vez por Gal Costa, ganha uma versão renovada com um arranjo eletrônico pesado do Vulgue Tostoi com Marcelo H (voz e programações), Junior Tostoi (craviola elétrica, craviola elétrica com arco, baixo, programações e edições) e Rodrigo Campello (cordas virtuais, programações, edições). Só com seu violão, Macalé interpreta "Rua Real Grandeza", e, acompanhado pelo piano de Cristóvão Bastos, recupera o bolero "Senhor dos Sábados".

Como a parceria era prolífica também em amizades, "Real Grandeza" serve ainda como encontro musical. Estão lá Luiz Melodia em "Negra Melodia", reggae com pitadas de samba que tem ainda a participação de Kassin, Pedro Sá e Domenico e do veterano conjunto vocal As Gatas, Adriana Calcanhotto na já citada "Anjo Exterminado" e Frejat em "Mal Secreto", aquela que fala em um dos lemas da dupla: “Não preciso de gente que me oriente”.

vídeo de "Mal Secreto", com Jards Macalé e Frejat


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FAIXAS

1 - "Olho de Lince" - Participação: Waly Salomão - 4:22
2 - "Rua Real Grandeza" - 3:09
3 - "Senhor dos Sábados" - 3:06
4 - "Anjo Exterminado" Participação: Adriana Calcanhotto - 3:15
5 - "Dona de Castelo" - 3: 27
6 - "Vapor Barato" - Participação: Marcelo H - 4:32
7 - "Mal Secreto" - Participação: Frejat - 3:47
8 - "Negra Melodia" - Participação: Luiz Melodia - 4:19
9 - "Revendo Amigos" - 4:51
10 - "Berceuse Crioulle" - Participação: Maria Bethânia - 3:19
11 - "Pontos de Luz - Participação: As Gatas - 2:34

Todas as composições de autoria de Jards Macalé e Waly Salomão

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OUÇA O DISCO: