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segunda-feira, 19 de abril de 2021

Roberto Carlos - "Roberto Carlos" (1975)


“Seu carisma e sua bondade levam muitas pessoas a mitificá-lo num patamar de uma entidade como um anjo ou coisa assim. Embora o chamem normalmente de ‘Rei’, já ouvi alguns o chamarem de ‘santo’ e até de ‘Deus’. Para mim, é o Amigo, com maiúscula.” 
Erasmo Carlos 

Não são infundadas várias das acusações que recaem sobre Roberto Carlos. Que ele é pouco generoso com outros artistas. Que deliberadamente “puxou o tapete” de novas estrelas que podiam ameaçar seu trono. Que deixou de usar o seu poder midiático para enfrentar a Ditadura Militar enquanto colegas eram perseguidos, presos ou mortos. Que passou a agir de forma cada vez mais excêntrica e maniática. Que tornou paulatinamente sua música cafona, principalmente, pela intensificação da imagem católica. Que faz décadas que não produz nada que o valha. Mas uma coisa é impossível contestar: Roberto é o Rei. Dizer que ele nunca compôs uma das centenas de músicas que gravou ou dedicou a outros músicos, como alguns ilógicos sustentam, é tão loucura quanto acreditar que o homem não foi à Lua ou que Elvis Presley não morreu. Amor e ódio são dois lados da mesma moeda deste personagem único no Brasil, o qual completa 80 anos de vida hoje.

É inquestionável que o Roberto Carlos Braga, nascido neste mesmo dia 19 de abril na sua natal Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo, no longínquo ano de 1941, seja altamente carismático e dono de uma das obras mais gigantescas da música brasileira, talvez a única em toda a América Latina da segunda metade do século XX a unir com tamanho êxito arte autoral e apelo popular. Da fase inicial, no final dos anos 50, em que passou dos boleros ingênuos para a quase tão ingênua Jovem Guarda, revolucionando a música e a indústria fonográfica brasileiras, à segunda e mais duradora, em que se torna o maior cantor do Brasil, há um longo caminho repleto de discos quase que invariavelmente autointitulados e regulares. Sem variação, no entanto, são seus resultados. Estima-se que, nos 62 anos de carreira, tenha vendido, até hoje, cerca de 140 milhões de discos.

A maioridade de RC, que havia se solidificado na virada dos anos 60 para os 70, não foi assim, tão linear quanto possa parecer. Amadurecido artística e pessoalmente, ele, maior nome do staff de sua gravadora, a CBS, sabia e tinha carta branca para criar obras que juntassem o frescor da fase anterior às novas perspectivas do mercado que se abriam à sua frente com o envelhecimento natural de seu público. Atinado, ele engendra isso com sabedoria e coesão. Caso deste disco de 1975, seu 15º no mercado brasileiro, em que traz, além de clássicos imortais do cancioneiro nacional, versões de outros autores, como sempre fez muito bem, e temas escancaradamente românticos, aqueles que punham as mulheres da incipiente classe média brasileira a suspirar. Mesmo essas últimas, mais bregas, como “Elas por Elas” e “Desenhos na Parece”, são tão bem apresentadas em arranjos das mãos Horace Hott e Lee Holdridge, que agradam ouvidos dos seletivos aos mais ousados.

Naquela metade dos anos 70, Roberto tinha o mundo em suas mãos. E sabia disso. Para tanto, contava com a parceria iluminada do “irmão camarada” Erasmo Carlos, com quem dividiu centenas de autorias ao longo de mais de três décadas – na grande maioria, as melhores de seu cancioneiro. “Quero que Vá Tudo pro Inferno”, hit do álbum, é exemplar neste sentido. O arranjo para a música de 1965, originalmente do álbum "Jovem Guarda", é um misto de soul e rock e mostra um compositor maduro, mas ligado a suas origens dos tempos do Clube do Rock e da adolescência no bairro carioca da Tijuca. Fã de Elvis, Little Richard e James Brown, mostrava estar viva essa ligação com a alma contestadora do rock, inclusive ainda permitindo-se dizer com naturalidade e poesia palavras "negativas" como “inferno”, coisa que a tacanhice cristã ridiculamente o impede hoje.

A dupla Roberto e Erasmo: alta produção nos anos 70
Outras três da dupla Roberto/Erasmo, todas clássicas: a balada country-humanista “O Quintal do Vizinho”, a romântica “Olha” – sucesso na voz de Maria Bethânia, em 1993, e que ganharia, 32 anos de sua estreia, uma bela versão bossa nova do coautor Erasmo com a participação de Chico Buarque – e o memorável samba-rock “Além do Horizonte” – também regravada por Erasmo, em 1980, mas aí contando com o vozeirão do tijuacano como eles: Tim Maia. Nesta, RC se vale de sua habilidade inigualável de interpretação aliada ao arranjo do maestro norte-americano Jimmy Wisner, que faz as cordas dialogarem com seu vocal.

Outra vertente que o disco solidifica é a apropriação do cancioneiro em espanhol, nova porta internacional que começava a se mostrar promissora para o artista já consagrado na Itália ao conquistar, em 1968, o Festival de San Remo com “Canzone per Te”. Ele já havia feito um disco inteiro assim em 1965, mas desde que a fase romântica deslanchara, passou a apostar mais fortemente nos países latinos. Agora era a vez de emplacar duas em pronúncia castelhana: “Inovildable”, de Julio Gutierrez, e a andina “El Humahuaqueño”, de Edmundo Zaldivar, na qual é acompanhado do grupo Los Chaskis. Ambas as faixas são usadas no repertório de "Tu Cuerpo", disco de um ano depois, o qual continha exatamente as mesmas músicas, porém todas cantadas no idioma de Cervantes.

Mais uma com o Tremendão é a balada (ainda em português) “Seu Corpo” ("No seu corpo é que eu me encontro/ Depois do amor o descanso/ E essa paz infinita/ No seu corpo minhas mãos/ Se deslizam e se firmam/ Numa curva mais bonita"), com primoroso arranjo de Chiquinho de Moraes. Importante na carreira de RC, a faixa consolida o estilo de canções com temática heteroeróticas iniciado em “Amada Amante” (1971) e “Proposta” (1973) e que resultaria em sucessos absolutos desse filão trazido por ele do brega e aperfeiçoado em hits posteriores como “Os Seus Botões” e “Cavalgada”. Muito bem intercaladas entre as composições próprias, contudo, estão as de músicos como Benito Di Paula (“Amanheceu”), Maurício Duboc (“Existe Algo Errado”) e de uma dupla de jovens nordestinos que recém começavam a carreira: Fagner e Belchior, de quem grava “Macuripe”, escolhida para fechar o álbum.

Ao completar oito décadas de vida, Roberto Carlos merece ter sua obra revisitada e reavaliada – o que resultará, certamente, numa maior apreciação de seus trabalhos dos anos 60, 70 e 80, os mais produtivos. Mas jamais menosprezada. Polêmico, o autor de "Detalhes" pode não agradar a todos, mas nunca ser chamado de artista medíocre como defendem os detratores. Afora o plausível, é fato que ele sofre, na mesma medida e como se isso fosse justificativa, com o peso dos que fazem fama no Brasil: são a representação do povo, mas também não são aceitos como alguém que ascendeu. Tornado divindade, é exatamente por isso condenado por não ser humilde pela ótica cristã e mal resolvida da sociedade. 

Deve-se saber separar o joio do trigo, no entanto. Roberto Carlos se tornou um velho chato, mas alguém dono de uma história que não se apaga. Há cantores melhores do que ele? Erasmo é melhor compositor que o parceiro? Há veracidade naquilo que o acusam? Tudo pode ser verdade, mas o fato é que sua obra guarda uma qualidade e uma importância incomensuráveis. Admitir que RC é um dos mais bem sucedidos artistas do século é talvez demais para quem ainda crê na sandice de que Erasmo é seu ghostwriter. Mas basta uma audição de discos como este de 75 para perceber que, definitivamente, não é qualquer coisa que se diga sobre ele que o faça perder a majestade.

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Roberto Carlos - "Quero que Vá Tudo pro Inferno" 
(Roberto Carlos Especial 1975)


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FAIXAS:
1. "Quero Que Vá Tudo Pro Inferno" - 3:37
2. "O Quintal do Vizinho" - 2:51
3. "Inolvidable" (Julio Gutierrez) - 3:15
4. "Amanheceu" (Benito di Paula) - 4:19
5. "Existe Algo Errado" (Maurício Duboc-Carlos Colla) - 3:38
6. "Olha" - 4:02
7. "Além do Horizonte" - 4:20
8. "Elas Por Elas" (Isolda-Milton Carlos) - 3:13
9. "Desenhos na Parede" (Beto Ruschel-Cezar de Mercês) - 3:20
10. "Seu Corpo" - 3:19
11. "El Humahuaqueño" (Edmundo Zaldivar) - 3:28
12. "Mucuripe" (Fagner-Belchior) - 4:43
Todas as composições de autoria de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, exceto indicadas


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OUÇA O DISCO:

Daniel Rodrigues

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

"Roberto Carlos em Detalhes", de Paulo César Araújo - ed. Planeta (2006)

 

por Márcio Pinheiro


"Eu tive duas motivações. Uma foi a afetiva: ele foi meu primeiro ídolo de infância. A outra, inte­lectual. Quando cheguei à faculdade e me interes­sei pelo estudo da música brasileira, constatei que não tinha nenhum livro que explicasse o fenóme­no Roberto Carlos."
Paulo César Araújo, sobre o que o motivou a escrever a obra


Se você pretende saber quem ele é, eu posso lhe dizer: está tudo em "Roberto Carlos em Detalhes", livro de Paulo César Araújo lançado pela Editora Planeta em 2006, logo depois retirado de circulação e até hoje o mais completo perfil biográfico feito sobre um artista tão gigantesco quanto misterioso. Na internet, o livro pode ser encontrado pelo preço médio de 400 reais.

Resultado de 16 anos de pesquisas e entrevistas, "Roberto Carlos em Detalhes" começou a ser desenvolvido em 1990, quando Araújo - autor de "Eu Não Sou Cachorro, Não" - começou a coletar dados para um trabalho específico sobre a Jovem Guarda. Entre as quase duas centenas de entrevistas - incluindo aí nomes como Tom Jobim, Chico Buarque e João Gilberto - percebeu que um nome se destacava.

Assim, o bem detalhado "Detalhes" acompanha a trajetória do cantor desde a infância, do nascimento em Cachoeiro do Itapemirim, em abril de 1941, filho caçula do relojoeiro Robertino e da costureira Laura, e revela aspectos pouco conhecidos e/ou comentados, como quando Roberto Carlos, aos seis anos, foi atropelado por uma locomotiva e sua perna direita teve de ser amputada até pouco abaixo do joelho.

O autor também acompanha a chegada de Roberto Carlos ao Rio, em 1956, relatando o encontro do jovem com Wilson Simonal, Tim Maia, Erasmo Carlos e, principalmente, com o produtor musical Carlos Imperial, a quem Roberto chamava de "papai" e que foi responsável pela gravação de seu primeiro disco. Antes disso, Roberto Carlos, suburbano com influências roqueiras, tentou se inspirar em João Gilberto, mas nunca foi bem aceito pela turma da Zona Sul. Resolveu abandonar o ídolo e criar um caminho à parte. "Ele foi rechaçado pela classe média. Era chamado de 'João Gilberto dos pobres'", lembra Araújo.

Das diversas fases do cantos - da Jovem Guarda ao romantismo dos motéis, dos rocks iniciais ao misticismo - tudo está contemplado. Araújo conta histórias sem descambar para a mera fofoca e esmiúça todos os fatos que já foram contados superficialmente em um ou outro lugar.


segunda-feira, 1 de junho de 2026

Erasmo Carlos - “Banda dos Contentes” (1976)


"'Banda dos Contentes' não é redondo, fechado, nem sufocante. É um trabalho livre, aberto, de um rock muito simples, girando em torno de um mundo real." 
Eliane Martins, em matéria da revista Pop, na época do lançamento de "Banda dos Contentes"

"Mudei. Mudei para melhor. Agora não sou mais galã de Jovem Guarda. Não me preocupo mais com a imagem. Eu estava sufocado, agora estou mais livre." 
Erasmo Carlos, em 1976

Roberto Carlos já havia deitado no divã da psicanálise 4 anos antes. Erasmo Carlos, coautor da canção gravada pelo “irmão camarada” em 1972, sentia que precisava de algo parecido. O Erasmo agora pai, casado, com carreira profissional consolidada e livre de vez da imagem do rapaz suburbano alçado ao estrelato da Jovem Guarda sabia que devia também se entender melhor. Mas se para alguns o processo terapêutico embaralha as emoções, para ele o aprofundamento em si mesmo foi revolucionário – e se deu através da própria música. “Banda dos Contentes”, álbum de 1976 que completa 50 anos de lançamento, é a prova disso, pois capta um homem honesto consigo e que, diante das mudanças do mundo daquela época, buscava se encontrar de coração e asas abertas.

Musicalmente, Erasmo já vinha exercitado seu lado tropicalista e independente da figura neo-romântica de Roberto desde “Erasmo Carlos e os Tremendões”, de 1970, passando pelo celebrado “Carlos, Erasmo”, de 1971, e pelo não menos “memorável” “Sonhos e Memória (1941-1972)”, de 1972. Em “Banda...”, o antigo garotão de “Gatinha Manhosa” e “Fama de Mau” chega maduro como músico e como pessoa. Isso se refletia na banda que escolhera trazer para perto de si: a fidelidade do “mutante” Liminha no baixo, a bateria esperta de Elber Bedaque, a guitarra roqueira de Rick Ferreira e a sofisticação jazz-samba do piano de Antônio Adolfo, além das participações de grandes músicos como Perna Fróes, Ruy Maurity, Rubão Sabino e do grupo Karma nos backings.

A diversidade sonora e a caprichada produção, a cargo de Guti e do próprio Erasmo, dão conta de um repertório que mantém o alto nível do início ao fim, com uma construção narrativa típica de quem sabe o que está fazendo. E mais legal é que, contrariamente a uma possível densidade em razão da influência psicanalítica, o disco une saudavelmente reflexões existenciais e filosóficas com sua caracteristicamente saborosa melodia. Até a arte visual é contaminada por esse olhar. No encarte do LP, Benício desenha vários homens se digladiando violentamente. Todos têm o rosto de Erasmo...

A faixa-título, com letra que parece ter saído fresquinha de uma sessão de terapia, é ao mesmo tempo fatídica e engraçada. ‘Às vezes olho no espelho/ Não vejo minha cara/ E com que cara que eu vou me mostrar/ Dentro de mim/ Com o meu saco cheio/ Porque a vida me fez/ Somente do meu tamanho”, dizem os versos. Mas o olhar freudiano contamina, de uma forma ou de outra, praticamente todo o repertório escolhido. O hit “Filho Único”, que inicia o disco e que foi tema de abertura da novela da Rede Globo Locomotivas, é uma das músicas mais sensíveis de toda aquela geração. Com uma letra que fala da busca de autonomia e independência de um filho sem irmãos para com sua genitora, traz alguns dos versos mais duros que a música brasileira já escreveu, justamente por contar uma verdade pouco admitida na sociedade daqueles idos: a de que os filhos são do mundo, não dos pais. O mundo agora é seu dono, “e nos seus planos não estão você”. Ele e Roberto, autores, abrem dizendo: “Ei mãe, não sou mais menino/ Não é justo que também queira parir meu destino”. Quer sentença mais psicanalítica que essa? Uma das joias do pop rock brasileiro de todos os tempos.

Arte de Benício no encarte do LP: vários Erasmos
contra eles mesmos
Sem deixar cair a peteca, Erasmo traz um então pouco conhecido compositor cearense chamado Belchior, que Elis Regina e Vanusa já haviam gravado mas que ainda nem havia lançado seu primeiro álbum, o hoje histórico “Alucinação”, daquele ano. A faixa é a clássica “Paralelas”, com sua letra forte e poética (“E no escritório em que eu trabalho e fico rico/ Quanto mais eu multiplico, diminui o meu amor”) e melodia/arranjo tanto quanto.

E se é para manter o nível lá em cima, nada melhor do que uma inédita como “Queremos Saber” na sequência. Assim como Caetano Veloso havia dado a Erasmo “De Noite na Cama” anos antes, agora era o outro tropicalista-mor, Gilberto Gil, que lhe presenteava com uma canção. E que canção! Indagadora, esta delicada balada caía como luva para a voz doce de Erasmo. Quem não há de ficar impactado (ou, pelo menos, reflexivo) com esses versos?: “Queremos notícia mais séria/ Sobre a descoberta da antimatéria E suas implicações/ Na emancipação do homem/ Das grandes populações/ Homens pobres das cidades/ Das estepes, dos sertões”. Cássia Eller regravaria “Queremos...” 25 anos depois e as interrogações continuariam as mesmas...

Em época de autoanálise, por que também não promover a investigação do que se põe como externo? É o que Erasmo e Roberto, em mais uma da dupla no disco, fazem, literalmente, com muita “descontração”. Monstro do Lago Ness, Carnaval, 10 Mandamentos, homem na Lua, guerras: está tudo em “Análise Descontraída”. Erasmo mostra-se indignado e incrédulo com o que vê à sua volta. “Eta mundo velho/ Você me parece ainda um ovo/ Ou então precisa urgentemente se acabar pra nascer de novo”. Morte, nascimento, valores ultrapassados, violência, modernidade confusa... Mais uma vez, a bendita terapia pegando.

Uma epifania em um cenário turbulento, “Dia de Paz”, de Jorge Mautner e Adolfo, evoca o Erasmo hippie de “Gente Aberta” e “Por Cima dos Aviões”. Outra que parece se deslocar no tempo e espaço para fugir um pouco da realidade é “Continente Perdido (Terra de Montezuma)”, uma fenomenal composição de Maurity e José Jorge, que conta com flautas e arranjos de Perna e uma sonoridade toda latina de raiz. Ousadias que Erasmão se permitia. Assim como a deliciosa “Baby”, mais uma de autoria com Roberto, um funk matador aos moldes de “Mundo Deserto” em que volta a usar sua verve contestadora para criticar... os homens como ele! Em sua descida às próprias profundezas, Erasmo, diante de uma feminista empoderada, vê-se inerte. “Deixe os seus protestos e os manifestos/ Pra outra periferia/ Não fui eu quem fez as leis/ Que não lhe dão maior autonomia/ Mas, se não dá/ Vamos fazer o nosso amor num outro dia”. Genial! Com uma linha de sopros de primeira, o baixo pulsante de Rubão, a bateria suingada de Pascoal Meirelles e as guitarras de Perna e Gabriel O’Meára, tem ainda o bass vocal de Erasmo marcando o ritmo.

Igualmente a “Dia de Paz”, “Fatos e Fotos”, de Luiz Mendes Jr. e Renato Terra, integrantes da Karma, baixa de novo a rotação numa canção romântica como as que Erasmo era craque em interpretar desde a Jovem Guarda. Isso porque, para encerrar, ele manda ver num country-rock ao mesmo tempo empolgante, lúdico e audacioso: “Billy Dinamite”, dele e de Rick. Audacioso, primeiramente, na concepção, haja vista que é a primeira música, após quase 20 anos de carreira artística, escrita com outro parceiro que não Roberto. Depois dele, viriam muitos outros, de Marisa Monte a Nelson Motta, de Samuel Rosa a Emicida. Narrando uma história típica de um livrinho barato do Tex, em que um mocinho se apaixona pela filha do cacique da tribo inimiga e, sabendo que sentenciara a própria morte por causa do amor, “fez a cama na montanha para ficar mais perto do céu”.

O anterior “Carlos, Erasmo”, seu mais cultuado álbum, bem como os posteriores “Erasmo Carlos Convida” (1980), “Mulher” (1981) e, já da última fase, “Rock‘n’Roll” (2009), são considerados marcos na discografia do Tremendão. Porém, nenhum outro é tão autoral e fala tanto sobre o próprio artista como “Banda...”, um divisor-de-águas em sua carreira. Com sua "cuca legal"“descontente” com o que devia ser, Erasmo antecipava, por exemplo, a crítica à masculinidade tão em voga hoje, expondo angústias, dúvidas, insatisfações e, principalmente, fragilidades do homem moderno. No brutalizado Brasil dos anos 70, de ditadura militar e supremacia da machosfera, Erasmo era um homem que chorava e se permitia emocionar. “Banda...” reflete, assim, mais do que qualquer outro trabalho seu aquilo que sempre lhe atribuíram: o de ser um verdadeiro Gigante Gentil em um mundo de cada vez menos gentilezas. 

videoclipe do Fantástico de "Billy Dinamite"

🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸

FAIXAS:
1. "Filho Único" (Erasmo Carlos/ Roberto Carlos) - 3:40
2. "Paralelas" (Belchior) - 2:55
3. "Queremos Saber" (Gilberto Gil) - 3:54
4. "Análise Descontraída" (Erasmo Carlos/ Roberto Carlos) - 3:30
5. "Dia de Paz" (Jorge Mautner/ Antonio Adolfo) - 3:30
6. "A Banda Dos Contentes" (Erasmo Carlos/ Roberto Carlos) - 3:10
7. "Continente Perdido (Terra de Montezuma)" (José Jorge/ Ruy Maurity) - 5:05
8. "Baby" (Erasmo Carlos/ Roberto Carlos) - 3:25
9. "Fatos e Fotos" (Luiz Mendes Jr./ Renato Terra) - 3:01
10. "Billy Dinamite" (Erasmo Carlos/ Rick Ferreira) - 4:18

🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸

OUÇA O DISCO:

Daniel Rodrigues

terça-feira, 19 de abril de 2011

Roberto Carlos - "Roberto Carlos" (1971)


"Meu irmão, vem pra cá porque pintou uma música que eu acho que não poderemos deixar pra depois".
Roberto ligando para o parceiro Erasmo depois de ter feitos os primeiros versos de "Detalhes"



Hoje completando 70 anos, pode-se dizer que o Rei voltou à moda. não que em algum momento tenha deixado de estar. Não! Pelo contrário. Roberto Carlos é provavelmente um dos casos raros de inabalável longevidade e permanência de notoriedade e carinho público. Mas digo que está em voga de novo por causa dessa coisa toda de homenagem de escola de samba, CD gravado por divas da MPB, de show épico no Maracanã, show pra milhões de pessoas na praia, suposta namoradinha bem mais nova..., etc. Embora nunca esquecido, é verdade, pode-se afirmar contudo que poucas vezes nos últimos tempos foi  tão badalado. Mas todo este reconhecimento de sua obra e carreira, que parece ter sido despertado, efetivamente, com a presente exposição, não é sem justiça. Ainda que, claramente, tenha apresentado um decréscimo na qualidade de sua obra nos últimos anos, com um apelo excessivamente popular e mirando grupos específicos como baixinhas, gordinhas,mulheres de óculos, etc., o conjunto de seu trabalho é inegavelmente valoroso e importantíssimo para a música popular brasileira. Mesmo com estas variações de nuances e ênfases na carreira, conseguiu atingir com a mesma intensidade diferentes gerações e diferenciados públicos, passando pelo romântico, pelo rock, pelo religioso, pelo soul, pelo brega, sem nunca perder a majestade.
Numa carreira tão vasta e com uma discografia tão ampla, coisas pra destacar é que não faltam em qualquer uma das fases, mas escolho aqui, "Roberto Carlos" de 1971, por ser um dos discos que, além de apresentar uma boa variação dos elementos que compõe a obra de RC, o romântico, o soul, o brega, o cancioneiro, o gospel, o rythm'n blues; é até hoje um dos seus trabalhos de maior sucesso.
O disco é um daqueles definitivos onde praticamente todas as músicas são clássicos e várias foram pras paradas de sucesso.
Abre com uma das mais marcantes do Rei e uma de suas mais populares: a apaixonada e triste "Detalhes", que transformou-se praticamente em sinônimo de canção romântica na música brasileira. Traz a ótima "Como Dois e Dois", com sua levada meio blues, de autoria de Caetano Veloso a quem, a propósito, é dedicada outra das grandes do disco, "Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos", feita por conta do exílio do cantor baiano fora do país. "Todos estão Surdos", mesmo com tema religioso, que poderia fazê-la tornar-se enfadonha, é uma das melhores da carreira de Roberto Carlos, num soul ousado, meio gospel, cantado (falado) meio à moda rap antecipando alguma coisa do estilo em nível de música brasileira. Tem ainda a interessante "I Love You", na qual Roberto arrisca uma voz diferente, num ritmo mais alegre e descontraído e fecha com "Amada Amante", meio brega, é verdade, mas inegavelmente outro dos marcos da música romântica nacional e da carreira do Rei, onde o cara solta todo seu mel numa letra sensual e provocante.
Infelizmente, ainda que valorosas, músicas como "Detalhes" e "Amada Amante"começaram a abrir caminho para o rumo que Roberto viria a tomar mais ou menos daquele momento em diante até chegar a álbuns repetitivos e especiais chatos de fim de ano da Globo, mas não há como negar que este, nesta fase de transição, ainda é um baita de um disco e sobretudo não há como refutar a importância do Rei para a música brasileira. Eternamente Majestade.
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FAIXAS:
1.Detalhes
2.Como Dois E Dois
3.A Namorada
4.Você Não Sabe o Que Vai Perder
5.Traumas
6.Eu Só Tenho Um Caminho
7.Todos Estão Surdos
8.Debaixo dos Caracóis dos seus Cabelos
9.Se Eu Partir
10.I Love You
11.De Tanto Amor
12.Amada, Amante
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Ouça:
Roberto Carlos 1971


Cly Reis

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Erasmo Carlos - "Carlos, Erasmo..." (1971)

"A música impediu que eu fosse para o crime"
Erasmo Carlos



Depois de protagonizar junto com Roberto Carlos o estouro da Jovem Guarda, tornando-se um dos artistas de maior popularidade do Brasil, Erasmo, no final dos anos 60, viu-se numa encruzilhada. Roberto, ídolo de multidões, guinara sua carreira para um exitoso e popular estilo misto de bolero, balada e MPB, mais “adulto” que o iê-iê-iê e adequado a uma classe média de um economicamente milagroso país ditatorial. Erasmo, obviamente, não podia ocupar o mesmo lugar que o parceiro. O negócio seria seguir outro caminho. Então, fez uma escolha: dar vazão à sua mente criativa e “alternativa”. O marco inicial e auge desta fase é o brilhante disco “Carlos, Erasmo...” , de 1971. Em clima de reunião musical com os amigos, ele se liberta da pecha de coadjuvante e realiza um álbum “cariocamente” descolado e, ao mesmo tempo, psicodélico, onde se vale do samba, rock, música cubana, soul e baião – não necessariamente nesta ordem.
A começar pelo título, ratificando de qual dos “Carlos” se está falando, o disco é a afirmação da indenidade de Erasmo como artista. E isso se percebe como conceito em todas as faixas, deixando a sua marca em todas elas. Tal como no seu trabalho anterior (“Erasmo Carlos & os Tremendões, 1970), Erasmo gravara uma música de Caetano Veloso; mas desta vez, ao invés de somente interpretar, como bem fizera com a bossa nova “Saudosismo”, Erasmo reinventa a canção do baiano. Encomendada por ele a Caetano, à época ainda no exílio em Londres, “De Noite na Cama” é uma verdadeira ode a esta nova fase do Tremendão: como numa festa com muitas vozes ao fundo e com participação de toda a galera da banda no coro (entre eles os ex-Mutantes Dinho Leme e Liminha), a faixa que abre o disco traz um maravilhoso berimbau acompanhando o baixo (engenhosa ideia que o RPM repetiria 17 anos depois em “A Estratégia do Caos”, do álbum “Os 4 Coiotes”), uma guitarra afiada na base e uma cuíca chorando por toda a melodia. Um show! Misturando samba, soul, rock e baião, Erasmo celebra o Tropicalismo de Caetano e Gil e demarca sua entrada no segundo momento deste movimento, influência que confirmaria nos seus álbuns seguintes daquela década.
O disco traz lindas parcerias com Roberto: a swingada “É Preciso Dar um Jeito Meu Amigo”, a “viajante” “Sodoma e Gomorra” e a rumba “chapada” “Maria Juana” – na qual a dupla, muito antes do Planet Hemp popularizar a verdinha, capciosamente proclamava: “Eu quero Maria Joana”. Outra incrível dos dois é “Mundo Deserto”, um funk no melhor estilo Motown e de ótima letra em que Erasmo solta o gogó, mostrando toda sua influência da black music americana.
O disco traz ainda outras duas pérolas. Uma delas é outra versão de muita criatividade, desta vez prestando vivas a outro amigo tropicalista, Jorge Ben, na genial “Agora Ninguém Chora Mais”. Nesta, Erasmo convoca os parceiros Golden Boys, Fevers, MPB4 e a banda de apoio para cantarem junto com ele, formando uma capa sonora densa e de rara beleza. Com arranjo do maestro-maluco Rogério Duprat, a música de Ben vira um funk sincopado com efeitos psicodélicos, como ruídos “espaciais” e um impressionante solo de sino (!). A guitarra pesada, lembrando Funkadelic, sai dos dedos de outro artista referência do Tropicalismo, o “inglês brasileiro” Lenny Gordin. O resultado é uma obra-prima, que consegue ser melhor que a original. E, como se não bastasse, uma jogadinha genial: o coro, após cantar toda a primeira parte, se duplica na segunda, só que invertendo as estrofes, fazendo com que dois coros se sobreponham, reencontrando-se no final no verso: “Chora maaaaaais...”, o que provoca um efeito impressionante. Simples, mas de pura criatividade. Com poucos recursos (a hoje precária mesa de 16 canais dos estúdios da Phillips), Erasmo alcança nesta música um resultado tão moderno que é de fazer um Beck corar de vergonha.
Quase tão legal quanto, “Dois Animais na Selva Suja da Rua”, de Taiguara, além da letra reflexiva e poética (“Por isso somos iguais/ Nós somos dois animais que se animam/ que se amigam...”), tem a base marcada por notas fortes de piano e um instrumental intenso, chegando ao ápice no refrão, quando todos os elementos se adensam, inclusive a linda orquestração de cordas do maestro Chiquinho de Moraes.
Cult, “Carlos, Erasmo...”, 31º entre os 100 melhores discos da MPB pela Rolling Stone, é seguramente mais vanguardista e contemporâneo do que muita coisa que se faz hoje dentro e fora do Brasil. Ao se comemorar os 50 anos de carreira de Erasmo Carlos, uma justa homenagem a um dos grandes artistas brasileiros vivos.
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FAIXAS:

  1. "De noite na cama"
  2. "Masculino, feminino"
  3. "É preciso dar um jeito, meu amigo"
  4. "Dois animais na selva suja da rua"
  5. "Agora ninguém chora mais"
  6. "Sodoma e Gomorra"
  7. "Mundo deserto"
  8. "Não te quero santa"
  9. "Ciça, Cecília"
  10. "Em busca das canções perdidas nº 2"
  11. "26 anos de vida normal"
  12. "Maria Joana"

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Ouça:
Erasmo Carlos - Carlos, Erasmo...
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Altamente recomendáveis também os discos “Sonhos e Memórias: 1941-1972” (1972), que traz clássicos como “Mané João” e “Mundo Cão” (da trilha do filme “Os Machões”, pelo qual Erasmo foi premiado como Melhor Ator no Festival de Cinema de Brasília), e o excelente “Banda dos Contentes” (1976), disco que marcou época pelo enorme sucesso da faixa de abertura, "Filho Único", da trilha de uma novela da Globo, e que conta também com uma das melhores canções de Gilberto Gil, feita especialmente para Erasmo: “Queremos Saber” (regravada por Cássia Eller no seu Acústico MTV).

Ouça também:
Sonhos e Memórias
Banda dos Contentes

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Toni Tornado - "Toni Tornado" (1971) *




"É o hino. 
É um marco. 
É a estrada da vida. 
A gente corre e a gente morre na BR-3"
Tony Tornado
 sobre a canção "BR-3"


Por incrível que possa parecer, não é todo mundo que sabe que Tony Tornado foi cantor e, por sinal, não um cantorzinho qualquer, mas um baita cantor. Quem só o conhece dos papéis na TV, em séries, novelas e filmes, não faz ideia de que logo no início de sua carreira, em 1970, aquele negro imponente, com seu vozeirão trovejante ganhava o concorridíssimo Festival Internacional da Canção, à época, o grande evento musical do país, com a soul tristonha "BR-3", derrubando adversários como Gonzaguinha, Ivan Lins, Martinho da Vila, Wanderléa, entre outros.

A vencedora "BR-3", de interpretação precisa e marcante de Tony, acompanhado do Trio Ternura, que alternava um tom melancólico com ênfases explosivas veio a integrar seu primeiro álbum de 1971, que levava simplesmente seu nome, com "i", na época, "Toni Tornado". O disco, altamente influenciado pela música negra norte-americana traz baladas amorosas, como a composição de Roberto e Erasmo, "Não Lhe Quero Mais", peças ao estilo gospel americano, bem caracterizadas por "Juízo Final" e "Eu Disse Amém", uma mistura das duas coisas, o romantismo e a religiosidade, na balada 'Uma Canção para Arla", ritmos bem embalados como em "Um Vida" e "Breve Loteria", e funkões poderosos ao melhor estilo James Brown, como é o caso de "Dei a Partida" e "O Jornaleiro".

Tony só viria a lançar mais um álbum, um ano depois, e depois dedicar-se-ia à exitosa, embora pouco protagonista, carreira de ator. Foram apenas dois discos mas ambos de alta qualidade sendo responsáveis, bem como os trabalhos de Tim Maia, por grande parte da assimilação dos ritmos negros americanos dentro da música brasileira.

Você que só conhecia o Tony Tornado do "Roque Santeiro", do "Agosto" ou da "Malhação", agora já sabe: Tony Tornado foi, sim, um cantor. E, por sinal, não um cantorzinho qualquer.

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FAIXAS:

1. Juízo final (Renato Corrêa/ Pedrinho)
2. Não lhe quero mais (Erasmo Carlos/ Roberto Carlos)
3. Dei a partida (Getúlio Côrtes)
4. Uma canção para Arla (Major/ Tony Tornado)
5. Breve loteria (Fafi)
6. Eu disse amém (Getúlio Côrtes)
7. BR-3 (Tibério Gaspar/ Antônio Adolfo)
8. Uma vida (Arnoldo Medeiros/ Dom Salvador)
9. Papai, não foi esse o mundo que você falou (Erasmo Carlos/ Roberto Carlos)
10. Me libertei (Tony/ Frankye)
11. O repórter informou (Hyldon)
12. O jornaleiro (Major/ Tony Tornado)


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Ouça:
Toni Tornado - Toni Tornado (1971)

* Posteriormente, já como ator, o artista mudou a grafia do seu nome artístico para Tony, com a letra "y" no final.


 


por Cly Reis



quarta-feira, 19 de março de 2014

Tim Maia - "Nuvens" (1982)



“Arlênio pega a pelota/ E passa pro China/ Trindade pisa na bola/ Mas é bom menino.”
da letra de “Haddock Lobo, Esquina com Matoso”



Ed Motta, profundo conhecedor da música soul e, além de tudo, sobrinho de Tim Maia, disse certa vez: “’Nêgo’ tá de bobeira com negócio de [Tim Maia] Racional, muito menos musical. O lance é esse aqui.” O “lance” a que ele se refere é “Nuvens”, que seu tio gravara em 1982. Uma preciosidade da soul music brasileira da fase final da era black rio que Tim foi, se não o principal, um dos protagonistas juntamente com Cassiano, Hyldon, Dom Salvador, Érlon Chaves, Oberdan Magalhães, Carlos Dafé, entre outros craques. Tudo gente da maior categoria, músicos de primeira, a quem Tim, em “Nuvens”, faz questão de reverenciar de uma forma ou de outra.

O disco, assim, é uma volta às raízes da errante carreira desse junkie total chamado Tim Maia (afinal, o cara, cheirava, fumava, bebia e comia, tudo em excesso). Tim já era uma lenda desde o final dos anos 50, antes mesmo apresentar seu gogó de veludo ao mundo do entretenimento. Nos anos 60, viajou, no peito e na raça (negra), para os Estados Unidos em plena ebulição de Luther King e Black Panthers e em uma época que não era comum um preto sul-americano pobre fazê-lo (ainda não é...) para viver no gueto de Nova York fazendo música “y outras cositas mas”. Foi, evidentemente, deportado por porte de drogas... Voltou ao Brasil, foi gravado pelo já ícone Roberto Carlos e fez dueto com outro ícone, Elis Regina. Tudo isso antes do seu aguardado – e confirmado – debut solo, "Tim Maia" (1970) (já resenhado aqui no ClyBlog). Entre sucessos estrondosos ao longo da década seguinte (“Primavera”, “Não Quero Dinheiro”, “Você”, “Azul da Cor do Mar” e mais uma dezenas de hits), Tim também amargou fracassos homéricos, fosse pela sua inabilidade como empresário à frente da gravadora própria, a Seroma, fosse pelo comportamento de toxicômano ou pelo seu temperamento irascível, o que lhe indispunha diretamente com toda a indústria fonográfica. O limite da “irracionalidade” se deu em 1975, quando, em uma séria crise de abstinência, parou com todas as drogas químicas para se viciar na Cultura Racional, uma espécie de seita ocultista cuja filosofia ia do nada ao nada, mas que o motivou a gravar os dois históricos discos “Tim Maia Racional Vol. 1” e “Vol. 2”.

Após o (óbvio) fracasso do projeto (o Racional virou cult no mundo 30 anos depois sem render, no entanto, nenhum centavo ao bolso de Tim) e de um retorno com tudo às drogas, ele limpou-se de novo e ainda se recuperou nas paradas no final dos anos 70, mas tudo com mais baixos do que altos. Curiosamente, a despeito do caixa zerado, esse período de sua carreira é extremamente rico e fértil. Maduro como músico (tocava quase todos os instrumentos, do violão à bateria, além compor, arranjar e de dominar a mesa de estúdio), Tim enfileira discos excepcionais, como os homônimos de 1976 (que contém “Rodésia”) e 1978 (o todo em inglês) e “Reencontro”, de 1979 (o da linda “Lábios de Mel”). “Nuvens”, como Ed Motta ressalta, é o ápice dessa fase, e um dos segredos para tal êxito está justamente na volta às origens. Tim, então chegado aos 40 anos, parecia ter compreendido que era necessário não se afastar de todos, como fizeram na fase Racional, mas, sim, se reaproximar (física ou espiritualmente) daqueles que construíram sua história, expondo, assim, o que ele realmente era: um cara de talento ímpar, excêntrico e difícil, mas generoso e amigo.

Assim, voltam à cena Hyldon, Robson Jorge e, principalmente, o “genial Genival”: Cassiano, cuja participação já lá no primeiro álbum de Tim é fundamental. A faixa-título e de abertura, parceria de Cassiano com o “gringo brasileiro” Deny King, evidencia seu toque refinado. Como destaca Ed Motta: “tema do Cassiano lindaço, moderno harmonicamente”. De fato, a harmonia bossa-novista, com sinuosidades a la Marvin Gaye, ao mesmo tempo romântica e espacial, tem a sua cara. O paraibano contribui ainda com seu falsete e arranjo vocal no refrão, no qual forja, numa improvável alocação, a palavra “você” dentro de apenas meio tempo do compasso sobre um riff de metais matador. Genial. Genival. Cassiano.

O álbum segue com temas interessantíssimos: o sambão romântico “Outra Mulher”, ao estilo “Gostava Tanto de Você”, “Réu Confesso” e “Vou Correndo te Buscar”, característico de Tim; a foliosa “A Festa”, com uma levada de baixo em escala que é de um groove impressionante; a autoavaliativa “Ninguém Gosta de se Sentir Só”, cuja gostosa melodia lembra outra de Tim, “Brother, Father, Sister and Mother” (presente em “Tim Maia”, de 1976); e a balada quase bolero “Deixar as Coisas Tristes pra Depois”, também com a mãozinha de Cassiano no coro. Mais uma fruto de parceria com um “brother”, Robson Jorge, “Ar Puro”, de letra ecologicamente consciente numa época em que não era moda este termo (“Mas eis que estão matando o verde/ E o quê irá sobrar?/ Sujando os mares e os rios/ O volume do ar/ Ar.”), é daqueles soul super dançáveis, igualmente às versões de “O Trem”, tanto o tema instrumental (infalível em qualquer disco de Tim) quanto o “falado”, que tem improvisos super bacanas da banda Vitória Régia.

Ainda no espírito de resgates, Tim chama Hyldon para tocar na regravação do maior sucesso do amigo, “Na rua, na chuva, na fazenda (Casinha de Sapê)”, em que empresta seu vozeirão com direito a ouverdub para a pegajosa letra da canção: “Jogue suas mãos para o céu/ E agradeça se acaso tiver...”. Mas para muitos críticos e fãs é “Haddock Lobo, Esquina com Matoso” – endereço do bairro da Tijuca, Zona Norte do Rio, ponto de encontro de uns moleques que se tornariam algumas maiores nomes da MPB dos anos 50 até os dias de hoje – o verdadeiro hit de “Nuvens”. “Foi lá que toda a confusão começou”, alerta Tim! Pois foi lá que Tim formou seu primeiro grupo musical juntamente com Roberto Carlos, Arlênio Lívio (aquele que “pega a pelota”), o “bom menino” Edson Trindade (um dos grandes parceiros de Tim ao longo da carreira, autor do clássico “Gostava Tanto de Você”, gravada por Tim em 1973) e Wellington Oliveira, Os Sputniks, posteriormente, renomeado The Snakes, já sem Tim e Roberto mas com as substituições de outro Roberto, o China, e de outro Carlos, o Erasmo. Ele recobra esta origem de subúrbio ao trazer situações e personagens, como Jorge Ben (“A turma estava formada/ Com lindas meninas/ E o Jorge com um camarada/ Era o Babulina”) e os próprios Roberto e Erasmo (“Erasmo, um cara esperto/ Juntou com Roberto/ Fizeram coisas bacanas/ São lá da esquina...”). Como se vê, uma das lembranças gostosas desse tempo está relacionada a futebol, nas peladas que batiam pelas ruas quando meninos. Uma menção breve acerca do esporte, mas bastante simbólica no que se refere ao conceito de resgate emocional (Tim era um jogador de futebol frustrado) que o disco carrega.

Depois dessa passagem nostólgico-futebolística, merecem atenção dois funks. O primeiro,  “Apesar dos Poucos Anos”, de Tim e Cajueiro, mas que quem dá a roupagem caprichada é Cassiano na fineza da harmonia e da linha vocal com sutilezas de Nile Rodgers e Quincy Jones. Por último, justamente a faixa que encerra o disco, “Sol Brilhante”, uma canção, simplesmente, solar, tal seu colorido e boas energias que transmite: “Vê que dia lindo/ Com muito amor, viver sorrindo/ Com este sol da manhã/ Com este sol penetrante/ Sol brilhante...”. Tudo numa execução exata da banda, num ritmo swingado e com vocal aberto, cantado pra fora. Inspiração total. O jornalista e escritor Marcello Campos, admirador e conhecedor da obra do artista, que diz: “’A musica do Sol’ é uma das coisas mais lindamente felizes e inspiradoras que eu já ouvi. Lindo demais.”

Definitivamente, “Nuvens” é um dos mais ricos e bem-acabados trabalhos da longa e sinuosa carreira de Tim Maia, seja pelas interpretações, pelos arranjos perfeitos, pela diversidade rítmica – percebida antes com tanta variedade, a bem da verdade, somente nos Racional – ou pelas referências que absorve, que vão desde Banda Black Rio até Gaye, James Brown, Curtis Mayfield e Stevie Wonder, passando pelos companheiros de rock e soul dos anos 60-70 e o samba carioca. Tudo isso não quer dizer, entretanto, que “Nuvens” tenha sido um sucesso. Marcello Campos confirma isso: “Esse disco é ensolarado como a capa, mas, por questões ‘tim-maianas’, um fracasso de mercado“. Mas, como de costume na obra te Tim Maia, virou mitológico tempo depois. Qual a validade disso? Em relação a Tim Maia, “só não vale dançar homem com homem e nem mulher com mulher”. O resto vale.

"Haddock Lobo, Esquina com Matoso" - Tim Maia


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FAIXAS:
1. "Nuvens" (Cassiano/Deny King) - 3:05
2. "Outra Mulher" - 3:11
3. "Ar Puro" – (Tim Maia/Robson Jorge) - 3:08
4. "O Trem - 1ª Parte" - 1:56
5. "A Festa" - 4:26
6. "Apesar dos Poucos Anos" (Tim Maia/Beto Cajueiro)- 3:24
7. "Deixar as Coisas Tristes para Depois" (Pedro Carlos Fernandes) - 2:58
8. "Ninguém Gosta de se Sentir Só" - 3:13
9. "Haddock Lobo, Esquina com Matoso"- 3:53
10. "O Trem - 2ª Parte" - 1:56
11. "Na Rua, na Chuva, na Fazenda (Casinha de Sapê)" (Hyldon) - 3:38
12. "Sol Brilhante" (Tim Maia/Rubens Sabino) - 2:50
Todas de Tim Maia, exceto indicadas

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OUÇA O DISCO





quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Meu Babaca Favorito


Em tempos de idolatrias tão efêmeras, edificadas sobre méritos mínimos, e cancelamentos quase automáticos motivados pelo primeiro deslize, posicionamento ou frase mal colocada de um ídolo que, não muito tempo atrás, era elevado à condição de semideus, pessoas com um pouco mais de critério, de apego a suas influências e referências, têm uma certa resistência em, simplesmente, adotar o tão usual procedimento vigente de CANCELAR uma personalidade que, de alguma forma sempre admirou e que fora seu referencial, por mais que este faça por merecer um belo "block" por conta de procedimentos, atitudes, declarações, que revelam uma pessoa diferente daquela que se imaginava ou que demonstrava ser.
Os caras se esforçam pra fazer merda, cagar pela boca, demonstrar o quanto são desprezíveis, pessoas que a gente não aceitaria no nosso meio social, mas aí a gente pensa no que já fizeram de fantástico na sua arte, o quanto foram (e são) importantes pr'a gente, o quanto os admiramos, e não conseguimos, meramente, virar as costas e dizer que não os admiramos mais. E aí que com muito esforço, colocamos seu trabalho, sua figura, suas músicas, suas letras, acima de tudo e, separamos o ser-humano de sua obra. Só assim mesmo pra aguentar uns, ó, que, vou te contar...
Muitos desses, os mais recentes, já tinham seu espaço para dizer o que pensavam, tiveram microfone, seus próprios álbuns, palco, livros, espaço na imprensa, mas com a ascensão das mídias sociais, uma verdadeira terra-de-ninguém, onde todo mundo tem opinião formada sobre tudo mesmo, muitas vezes, sem qualquer embasamento ou informação, pareceram encorajados a assumir posições, que não são decepcionantes por serem divergentes da minha ou de determinado segmento, mas sim por serem lamentáveis do ponto de vista humano.
Listamos, aqui, alguns dessas criaturas que a gente só não "cancela" porque não dá pra deixar de lado o que já fizeram e, cá entre nós, porque a gente adora esses caras mesmo. Mas que estão pedindo, estão...
Uns são de hoje, outros tem histórias que vem de muito tempo, uns se revelaram por conta da pandemia, outros revelaram preferências políticas bem preocupantes, enfim, tem um monte nessa barca, mas aqui vamos pegar apenas alguns desses "caraterzinhos" duvidosos, que a gente sabe que são uns idiotas, uns babacas, mas que odiamos amar.


Tá certo é esse cachorro!
Eric Clapton - "Clapton é Deus". A inscrição frequentemente vista em muros de Londres nos anos 60, quando o guitarrista inglês hipnotizava os fãs com sua técnica e habilidade, está longe de ser verdade. Ao contrário, hoje, muitos fãs preferem ver o diabo do que o gênio da guitarra.
Recentes declarações de Eric Clapton, acerca da situação da Covid-19 e do isolamento, comparando os protocolos de segurança à escravidão, reforçadas pela gravação de uma canção anti-lockdown, "Stand and Deliver", de Van Morrison, por sinal, outro que tem se revelado um grandíssimo feladaputa, provocaram indignação entre seus admiradores e de quebra ainda tiraram alguns velhos esqueletos do armário. Os atuais posicionamentos de Clapton fizeram com que pessoas lembrassem de um episódio em 1976 em que ele, durante um show em Birmingham, "convocou" os estrangeiros e imigrantes a se retirarem do país. Na ocasião, Clapton disse, se dirigindo ao público, “Vamos impedir o Reino Unido de virar uma colônia negra. Expulsem os estrangeiros, mantenham a Inglaterra branca. Os negros, árabes e jamaicanos não pertencem a este país e nós não os queremos aqui (...) “Precisamos deixar claro que eles não são bem-vindos. A Inglaterra é um país para brancos, o que está acontecendo conosco?” . Pois é... Clapton pode até ser um deus na guitarra, mas passa longe de ser um santo.
Ao que parece, até seus amigos músicos perderam a paciência e não aguentam mais tanta baboseira, uma vez que o lendário guitarrista tem reclamado de se sentir abandonado pelos colegas do meio musical.
Toma!
Mas não adianta: tem como odiar o cara que fez "Layla", "Cocaine", "Crossroads" e outras tantas maravilhas? Não, né?


Roberto sendo homenageado
pelos militares, nos anos 70
.
Roberto Carlos - Sabe aquele cara que sempre que se fala dele tem aquele asterisco ao lado do nome? Sim, esse cara é ele. As coisas que depõe contra o Rei não são de hoje e não são relacionadas com pandemia, isolamento, redes sociais nem nada tão atual, mas acompanham sua figura pública já de bastante tempo e, de certa forma, embora seja inegável sua contribuição para a música brasileira e seu talento para composições, nunca conseguimos perdoá-lo totalmente.
O problema de Roberto Carlos, na verdade, foi mais seu silêncio do que o que teria dito. Enquanto seus colegas do meio cultural, musical, das artes bradavam contra a ditadura militar no Brasil, sofrendo suas consequências de censura, prisões e exílios, Roberto, confortável e convenientemente não só não se manifestava em relação ao regime e as reprimendas sofridas pelos colegas e continuava, simplesmente, gravando suas canções alienadas com temas românticos ou de "curtição", como ainda não se esforçava em esconder uma proximidade com os generais e até mesmo era agraciado com comendas e homenagens pelos tiranos governantes brasileiros daquele nefasto período da nossa história.
Como se não bastasse, Roberto é conhecido no meio artístico por seu comportamento egoísta, mesquinho e antiético, sabotando outros artistas, reivindicando vantagens e benefícios junto a produtoras, gravadores, emissoras, etc., e, como se diz popularmente, "puxando o tapete" de colegas de profissão. Tim Maia foi um exemplo de um que, depois de ter sido parceiro de banda, ter convivido junto, foi ignorado e menosprezado por Roberto, assim que o Rei começou a estourar nas paradas de sucesso e tornar-se o fenômeno que veio a ser. O anglo-brasileiro Ritchie, sucesso nos anos 80, é outro que teria sofrido pelas mãos de Roberto que, segundo se sabe, e é confirmado por outros artistas, teria "mandado" a gravadora boicotar o sucesso de Ritchie, dificultando a distribuição do material do músico, sua participação em eventos e programas e negligenciando a divulgação em rádios do material do próprio contratado.
Mas não dá pra ignorar o tamanho desse cara na música brasileira, a qualidade de suas composições e a quantidade de grandes e inesquecíveis canções com que ele nos brindou. Se sua atividade no microfone, no estúdio, nos palcos é incontestável e proporcionou a todos nós momentos mágicos em músicas como "Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos", "Emoções", os DETALHES das suas atuações nos bastidores, de alguma forma sempre mancharão um pouco seu nome, pois, como diz aquela canção, são coisas muito grandes pra esquecer.


Não se orgulhar mais de ter usado
camiseta do MST, tudo bem, mas Bolsonaro?
Lobão - O cara foi, simplesmente, uma espécie de símbolo da democracia da geração rock dos anos 80. Tinha a Plebe Rude que era contundente, tinha a Legião que se posicionava com ênfase e inteligência, o Capital Inicial correndo por fora mas ainda assim engajado, mas o Lobão era o cara que gritava. Ele participava de comício, ele fazia música que avacalhava o Sarney, chamava a galera pra votar consciente, tocava o hino nacional na guitarra, ao melhor estilo Hendrix, em pleno Globo de Ouro, na maior emissora de TV do país... e tudo isso pra quê? Pra acabar apoiando o Bolsonaro. Putaquiuparil
Ele alega ter se decepcionado com a esquerda, se arrependido de ter votado no PT, ter perdido a confiança em quem governou o país e acabou em tribunais respondendo por corrupção... Ok, Lobão. Mas daí a apoiar a eleição de uma criatura, visivelmente, incapaz, limitada e mal-intencionada como o atual presidente brasileiro, é muita ignorância, ingenuidade ou burrice. Um cara que tinha tudo pra dar errado, não apresentou nenhuma proposta durante a campanha se apoiando somente em um montão de bravatas e, por isso mesmo fugiu dos debates como o diabo da cruz; baseou sua campanha em notícias falsas; destilou ódio e preconceitos contra negros, indígenas, homossexuais, além de manifestar contumaz desprezo pela classe artística, da qual, exatamente o senhor João Luiz Woerdenbag, mais conhecido como Lobão, faz parte, não podia dar outra coisa senão o que deu.
Faz parte do meio artístico mas, a bem da verdade, por outro lado, também faz parte de uma classe-média alta elitista, mimada que, nos anos 80, recém saída da ditadura, via seus filhos, rebeldes sem causa, lutarem sem saber bem pelo quê, por causas como diretas, igualdade social, contra a fome, muito mais pelo embalo e pela modinha, do que por qualquer convicção. Tudo uns filhinho de papai que, na hora que perceberam que estavam perdendo privilégios, deixaram cair a máscara.
Lobão até se arrependeu - pelo menos é o que ele diz. Mas agora, depois de ajudar a eleger aquele ser ignóbil que ocupa a cadeira da presidência, aí já é tarde e já condenou o país a um retrocesso vai ser duro de reverter. Quando criaturas como Lobão, Roger, do Ultraje, Paula Toller, Rodolpho do Raimundos, mostram esse tipo de atitude, de posicionamento de caráter, eu tenho que dar razão para a aquela música que um cara muito legal do rock nacional dos anos '80 compôs: O rock errou.


O cara que bradava contra o sistema...  
John Lydon - O Rei dos Punks, o cara que gritava por anarquia, que bradava contra o poder, contra a caquética monarquia britânica, quem diria..., apoia Donald Trump. Pois é. Preferências políticas à parte, de direita, esquerda, democratas, republicanos, liberais, socialistas, já estar cansado das "bobagens intelectuais" da esquerda, como o próprio Lydon afirma, tudo bem, a gente entende, mas, agora, um cara que já simbolizou a atitude contra o poder, contra o opressor, daí a se manifestar, veementemente, a favor de uma pessoa elitista, odiosa, arrogante, egoísta, megalomaníaca, racista, xenófoba, um negacionista que, por conta de sua ignorância, falta de humanismo e empatia, ignorou a presente pandemia e, por conta de seu discurso, sua falta de ações efetivas, condenou milhares de seus compatriotas (e, por tabela, outros tantos milhões, indiretamente, pelo mundo afora) à morte, é inaceitável.
Como se não bastasse apoiar abertamente um maluco egocêntrico e considerá-lo a "última esperança e o verdadeiro representante da classe operária (???), o ex-líder dos Sex Pistols, vêm dando indesculpáveis demonstrações de intolerância e racismo. Além de "passar pano" no episódio de George Floyd, dizendo que existem policiais brancos ruins mas que aquilo teria sido apenas um episódio isolado, e ter ofendido com injúrias racistas o integrante da banda Block Party, Kele Okereke, durante um festival, diante de pessoas que confirmam o incidente, Joãozinho Podre ainda vem afirmando e reafirmando que os jovens ingleses que participam de manifestações contra o racismo são uns "mimadinhos" que, segundo ele, "têm merda na cabeça". Tá certo que a simpatia nunca foi mesmo uma marca forte na vida de John Lydon, mas agora com essas ele não se ajuda a que continuemos tendo algum respeito por ele ou pelo que já representou.
"Eu posso estar certo, eu posso estar errado", era o que ele mesmo cantava, já nos tempos de PIL, e creio que, diante das últimas atitudes não é muito difícil constatar qual das alternativas prevaleceu.


Morrissey exibindo, sem pudor,
 seu apoio à direita britânica.
Morrissey - O que mais me dói ver o lixo humano que se tornou. Morrissey era uma espécie de amigo, o cara que a gente ouvia porque parecia que sentia como a gente e exprimia suas dores, seus problemas, suas angústias, da maneira como gostaríamos de manifestar, com sinceridade, sem medo de se expôr, como um ser humano que só quer ser amado. Pois bem..., como é que essa pessoa se tornou esse ser deplorável que temos acompanhado ultimamente é algo misterioso para mim. Talvez nem tanto. Se formos prestar atenção alguns sinais já vinham sendo dados mas, nós fãs, nem levávamos em consideração, tipo, "Morrissey não é assim", ou passávamos um pano, bem bonito, justificando por alguma descontextualização ou má interpretação. Achávamos graça das declarações mal-educadas do ídolo, classificando como uma acidez típica dos gênios, quando efetivamente, deveríamos estar preocupados com o que aquilo representava.
Na verdade, aquele "England is mine...", de "Still Ill", ainda da época do The Smiths, já era um indicativo e eu é que não entendia totalmente... As coisas começaram a ficar mais claras em "National Front of Disco", canção de 1998, uma evidente alusão à Frente Nacional, partido de extrema direita inglês, contestada por alguns mas que, naquele momento, muita gente (inclusive eu) preferiu interpretar como uma "figura" compositiva dentro do contexto poético da música. Só que de uns tempos pra cá, Moz resolveu confirmar publicamente o que insistíamos em negar: tornara-se (se é que em algum momento não fora) um fascista de direita, racista, xenófobo e desprezível. Depois de usar, durante a turnê de seu álbum "Low in the High School", um broche do partido For Britain (foto), de perfil excludente e xenófobo, o cantor reafirmou em um programa de TV norte americano seu apoio às plataformas do partido e ainda, durante a entrevista, minimizou, e até ridicularizou o racismo, afirmando que, atualmente, a expressão é sem sentido e que uma pessoa será acusada de racista, nos dias de hoje, simplesmente, por discordar da opinião dos outros. No balaio de disparates, Morrissey ainda comparou a suposta perseguição que a imprensa impõe a ele, e o boicote que alega sofrer de gravadoras e da mídia ao nazismo e, a propósito de Terceiro Reich, de quebra, afirmou que Hitler seria de esquerda. 
Ah, e tem a que chineses são uma "subespécie", que fronteiras são coisas maravilhosas e foram feitas para serem respeitadas" (sobre imigrantes), que Obama, na verdade, era "branco por dentro", tem a de expulsar fãs do próprio show acusando-os de terem sido mandados pela imprensa, a de sugerir que a criança assediada por Kevin Spacey sabia o que estava fazendo ao ir para o quarto com um homem adulto... Olha..., eu não sei como eu ainda ouço as músicas dê-se cara! Pra falar a verdade, hoje, sempre que eu tenho vontade de ouvir alguma coisa dos Smiths ou de sua carreira solo, eu penso, "Eu vou ouvir esse merda?". Aí eu, a muito custo, separo o homem do artista e lembro do que ele mesmo falou em uma de suas letras: "Não se esqueça das canções que lhe fizeram chorar/ e das canções que salvaram sua vida"
Aí ele me convence e eu o ouço mais uma vez.
(Por enquanto...).


Cly Reis