"Christmas In Hollis" - Run DMC
quinta-feira, 25 de dezembro de 2025
quarta-feira, 24 de dezembro de 2025
ClyBlood#6 - Especial de Natal - "A Invasora", de Alexandre Bustillo e Julien Maury (2007)
Noite de Natal. Há quem prefira a confraternização com parentes e amigos na comemoração do nascimento de Cristo, e os que preferem fugir de toda a agitação , uma espécie de isolamento introspectivo. Sarah até tinha o que comemorar, o filho que estava prestes a chegar, mas por outro lado também tinha motivos para lamentar e refletir. Um acidente de carro levara seu marido mas poupara a ela e ao bebê que levava no ventre. Agora, meses depois, na véspera de Natal, sua opção foi pedir a casa de um amigo, se afastar do resto do mundo, se isolar de tudo, refletir, lamentar uma vida que se fora e esperar pela nova vida que virá. No entanto, uma indesejada visitante viria a lhe perturbar a paz. Uma misteriosa mulher insiste em entrar na casa e, depois de ardilosamente conseguir, faz do retiro natalino de luto de Sarah, uma verdadeira noite infeliz. A todo custo, sem limites, sem piedade, a invasora tenta, com todos os recursos possíveis, matar aquela mulher grávida. O resultado dessa caçada dentro de uma casa suburbana francesa é um banho de sangue e brutalidade num nível quase insuportável.
Representante do chamado Novo Cinema Extremo Francês, "A Invasora", não se preocupa em poupar o espectador de cenas chocantes, desconfortáveis e perturbadoras. O ataque a uma mulher grávida, indefesa, leva inevitavelmente o espectador à questão do por quê alguém agiria daquela maneira selvagem, incontrolável, irascível contra uma pessoa tão vulnerável? E sem levar minimamente em consideração o fato de sua vítima estar carregando em seu ventre um inocente! E o pior ainda: ter esse ser indefeso que nem nasceu também como alvo.
O motivo? Seria spoiler contar se existe um motivo ou não e qual seria ele. Não cometerei essa canalhice com meu leitor. O que posso dizer é que independente da razão, se existe, se é justificável ou não, essa invasora proporciona ao fã do terror uma das caçadas mais cruéis que já se viu no cinema, indo até o limite total de suas forças, possibilidades, armas, condição física, para atingir seu objetivo.
Uma das minhas vilãs preferidas do cinema. Béatrice Dalle, a eterna Betty Blue, aqui determinada, impiedosa, implacável, imparável! Se é pra ser má, se é pra cumprir o que se propôs, não é pra ter mimimi. E com essa invasora anônima de Natal, não tem mesmo.
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| Ela, a misteriosa assassina, não vai desistir até dar um fim na pobre grávida que só queria um pouco de paz interior na véspera de Natal. |
Cly Reis
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quarta-feira, 25 de dezembro de 2024
"Feliz Natal", de Joe Begos (2022)
"Feliz Natal", (no original "Christmas Blooby Christmas" - muito melhor!) traz um Papai Noel desses, tipo, de enfeite de porta de loja, desses que canta e se mexe quando o cliente entra, sabe? Só que esse "brinquedo" no caso específico, era um projeto abandonado das forças armadas e como não atendia às exigências militares, peças foram doadas, vendidas para fins comercias ou recreativos. Agora, imagine só... Quanta irresponsabilidade, não?
Na véspera de Natal, a descolada dona de uma loja de discos de uma cidadezinha interiorana, planeja ter uma noite de sexo com um carinha do Tinder, ao passo que seu único funcionário, gamado por ela, tenta convencê-la de passar a noite com ele bebendo, falando de rock'n roll e filmes de terror e, quem sabe, alguma coisa a mais, se rolar. Em meio a isso, o Santa Claus de enfeite na porta da loja de brinquedos da tal cidadezinha, tem uma pane, se descontrola e desperta seus instintos militares para o qual fora programado originalmente, aniquilando implacavelmente todos que cruzam seu caminho. Alguns perguntar-se-ão, "Mas é só isso? Ele não tem motivos?". Isso é que é o melhor! Ele não tem motivações, não tem remorso, não sente pena, não tem o que o faça parar. Adoro os assassinos do tipo quanto mais implacáveis possível, e este é um deles. É o objetivo, e só.
Sendo ele um robô, uma máquina senti falta de uma aparência, um gestual, uma expressão corporal, um pouco mais mecânica, mas o importante é que, depois que deu tilt no sistema da máquina, o Santa dá conta do recado no que a gente espera dele, e senta o machado na garotada. SEM PERDÃO, SEM PENA, SEM DISTINÇÃO ENTRE MULHER, CRIANÇA, IDOSO, ETC.
Em muitos momentos, pela determinação assassina, pela gradual deterioração e pela sobrevivência mesmo quase reduzido a uma carenagem metálica, lembra um pouco o "Exterminador do Futuro", mas também, em muitos momentos, pela fotografia, as tomadas rasteiras, a iluminação avermelhada, luzes picantes, lembra o clássico underground "Hardware, O Destruidor do Futuro".
Como se não bastassem os méritos sanguinários, pra mim muito importantes quando se fala em terror, a dupla de protagonistas é um barato com suas discussões sobre rock e filmes de terror, cheios de referências a clássicos e desafios musicais, do tipo "qual o melhor Hellraiser?", " Cemitério Maldito 1 ou 2?", "qual a melhor canção rock de Natal?", "por que bandas de rock ficam ruins depois que os caras cortam o cabelo?", etc.
Poderiam discutir também qual o melhor terror sanguinário de Natal... "Noite do Terror", "Natal Sangrento", "Krampus"...? "Feliz Natal" talvez não chegue a tanto mas certamente entra na lista dos bons no assunto, e é uma pedida interessante para cinéfilos que curtem referências cinematográficas e fãs do horror em busca de uma boa noite natalina repleta de sangue. Para estes, um feliz Natal.
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| Aqui o "Bom Velinho" já bem avariado (mas insistente) depois dos enfrentamentos com a brava Tori, dona da loja de discos local. |
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por Cly Reis
terça-feira, 24 de dezembro de 2024
cotidianas #850 - "Natal Brasileiro"
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| presépio "Neste Natal que Ele nasça em todos os lares", de C. Freire, F. Carlos, D. Murta, B.L. de Oliveira e C.S. Veiga foto: JR |
Mas que Natal é esse?
É o Natal brasileiro, amor
Depois da Missa do Galo
Parentes, amigos e convidados
Reunidos na mesma mesa, toda enfeitada
E no centro um cabrito assado, tenro, todo recheado,
Mas que Natal é esse?...
E lá fora os partideiros
Jorge da Viola, Neném da Cuíca
Representando os três Reis Magos
Trazendo de presente o samba
E a alegria pro terreiro
Pois o filho homem de Dona Maria
Que acabou de nascer
É a imagem do menino Rei,
sábado, 21 de dezembro de 2024
"Meninas Malvadas", de Mark Waters (2004) vs. "Meninas Malvadas", de Samantha Jayne, Arturo Perez Jr. (2024)
Em "Meninas Malvadas", Cady Heron, uma adolescente que sempre vivera na África com os pais pesquisadores e fora educada em casa, ao retornar para os Estados Unidos, finalmente entra para uma escola. Lá, num primeiro momento, consegue fazer apenas alguns poucos amigos, dois míseros na verdade, e estes lhe apresentam as "tribos" do território, e a alertam em especial para um grupo de 'patricinhas' pretenciosas, conhecidas como "As Poderosas". Um pouco por curiosidade, um pouco por competitividade, outro tanto por crueldade, Regina George, a 'abelha-rainha' convida a novata Cady para fazer parte do grupo. Uma vez dentro, ela conhece toda a perversidade das riquinhas que desprezam e difamam as demais garotas da escola e ainda mantém um livro de comentários maldosos, fofocas, mentiras, e bullying, com fotos e ofensas contra muitas das outras alunas, com o qual se deliciam dando risadas.
Nesse meio-tempo, Cady cai de amores por um garoto da escola, só que o gatinho fora namorado exatamente de Regina, que sabendo do interesse da caloura, reata com o rapaz somente para comprovar força e magoar a outra. Indignada com o fato e solidária à única amiga de verdade, a esquisitona Janis, que sofrera humilhações nas mãos de Regina no passado, Cady resolve aproveitar sua situação dentro do grupo para desmoralizar a abelha-rainha, ganhar o garoto e tomar seu lugar na liderança das Poderosas.
As coisas dão certo... mas nem tanto... os objetivos são alcançados mas acabam gerando efeitos colaterais e, digamos, todas têm as lições que merecem e que precisam. Todas, TODAS mesmo! Inclusive as outras garotas da escola que aprendem e entendem a grande lição que meninas, garotas, mulheres devem se apoiar ao invés de ficaram se desvalorizando e se difamando.
Com pequeníssimas mudanças, a história é a mesma, até mesmo as falas são as mesmas e estão nos mesmos lugares no filme. O que muda é que o remake troca a narração da protagonista por uma condução musical para as explicações, elucidações, impressões e passagens de tempo. Criativo... Ousado... Interessante.
Mas o fato é que, praticamente tudo que a refilmagem se propõe a (re)fazer, é melhor no primeiro.
A apresentação às Poderosas no refeitório; a famosa cena em que Aaron fala com Cady pela primeira vez e que consagrou o dia 3 de outubro como o Dia Mundial das Meninas Malvadas; a fantasia de Halloween de Cady; a surpresa, o choque, a incredulidade pelo inusitado do atropelamento de Regina; a reunião de grupo de todas as garotas da escola no auditório para analisarem suas atitudes em relação às outras; a competição de matemática; e, é claro a icônica apresentação de Natal, que o remake até muda um pouco a situação excessivamente 'pastelão' do original, mas mesmo assim não chega perto da do Jingle Bell Rock com Lindsay Lohan salvando a apresentação e botando tudo abaixo numa performance inesquecível.
A propósito, as atualizações de mídias, temas, discussões, atmosfera, o comportamento, são alguns dos méritos da nova versão, mas ao contrário do que eu, que não gosto de musicais, imaginava, os números musicais que conferem ao longa um ar de um grande videoclipão, e as performances vocais de Reneé Rapp, a nova Regina George, são o grande trunfo para o novo filme e fazem com que ele realmente valha a pena.
Mas fica nisso...
Do outro lado temos um dos maiores clássicos teen desde os filmes de John Hughes e não tem como ganhar desse time. Quem pode segurar um ataque com Rachel McAdams, Amanda Seyfried e Lindsay Lohan? Impossível! (E ainda tem a boa Lacey Chabert fazendo função tática no meio). O trio de estrelas trama várias vezes pelo meio da defesa adversária totalmente desguarnecida e marca o primeiro. 1x0
As cenas clássicas já mencionadas: "Às quartas usamos rosa"; "No dia 3 de outubro ele me perguntou que dia era"; os 'atropelamentos'; a coreografia de Natal... Tudo isso garante o segundo gol para as malvadas de 2004. 2x0
O terceiro é dela, Lindsay "Loca" . Atleta difícil, daquelas que poderia ter construído um carreira mais exitosa se tivesse mais comprometimento, disciplina e outros detalhezinhos mais... mas que inegavelmente, em sua boa época, em jogos como esse desequilibrava. E foi o que aconteceu: atuação perfeita. Discreta quando tem que ser tímida, verdadeiramente divertida nos momentos engraçados, convincente na parte dramática, arrasadora quando tem que ser poderosa, e irresistível quando tem que fazer a gostosona. Lindsay Malvadeza se infiltra no campo do adversário (o covil da Poderosas), faz a leitura perfeita da jogada (o Livro do Arraso), dá um chega pra lá na rival (dizem que ela empurrou Regina na frente do ônibus...), cai, levanta, marca com categoria (dividindo a coroa do baile) e corre para o abraço com os verdadeiros amigos (Janis e Damian). 3x0
O remake faz o seu por conta das já destacadas partes musicais, os pequenos videoclipes de transições, pensamentos e devaneios com ótimas adaptações, bem pop e revitalizadas, das canções da peça da Broadway para o filme, além das excelentes performances vocais da cantora Reneé Rapp, cujas canções para sua personagem são especialmente legais. Legais mesmo! 3x1 para MM2004.
O novo filme até surpreende, joga bem, usa seus recursos, até tenta uma cartada de mestre usando a própria craque do time adversário, Lindsay Lohan, que aparece em uma cena como a mediadora da olimpíada de matemática, mas já veterana e sem o mesmo brilho de outros tempos não tem capacidade de mudar o resultado do jogo. Vitória das Poderosas de 2004.
por Cly Reis
segunda-feira, 25 de dezembro de 2023
sábado, 25 de dezembro de 2021
Jingle Black - 7 vezes em que Papai Noel caiu na soul music
| O black loucão George Clinton dando uma de Papai Noel |
E se os gringos foram os que lançaram a moda, aqui no Brasil o pessoal da soul não fica para trás, não! Tem brazucas de respeito nesta listagem também, todos hábeis em colocar Papai Noel pra remexer os quadris. Afinal, se é cabível a discussão de que Jesus Cristo era preto, porque não sondar que o Bom Velhinho também não possa ser “da cor”? Pelo menos na música, em vários momentos ele foi, e aqui vão alguns bons exemplos.
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The Supremes – “Merry Christmas” (1965)
COTIDIANAS nº #739 - ESPECIAL DE NATAL - "Papai Noel, Vá Direto para a Favela"
Papai Noel, vá direto para a favela
Amarre suas renas, uh!
E vá direto pra favela
Papai Noel, vá direto para a favela
Encha todas as meias que você encontrar
As crianças vão te amar tanto, uh!
Deixe um brinquedo pra Johnny
Deixa uma boneca pra Maria
Deixe algo bonito pra Donnie
E não se esqueças de Gary
Papai Noel, vá direto para a favela
Papai Noel, vá direto para a favela
Diga que foi James Brown enviou você, huh!
E vá direto para a favela
Você sabe que eu sei o que você verá
Porque uma vez este fui eu
Bata! Bata!
Você verá mães e irmãos da alma
Papai Noel, vá direto para a favela
Papai Noel, oh Senhor, vá direto para a favela
Se alguém quiser saber
Diga que Hank Ballard me disse isso
Papai Noel, vá direto para a favela
Nunca pensei que eu iria me dar conta
Que estaria cantando uma música com lágrimas nos meus olhos
Papai Noel, vá direto para a favela
Não deixe nada pra mim
Eu tive minha chance, você vê
Papai Noel, vai direto para a a favela
Papai Noel, os irmãos da alma precisam de você assim
Papai Noel, diga a eles que James Brown enviou você...
sexta-feira, 24 de dezembro de 2021
"Pooka", de Nacho Vigalongo (2018)
Um ator, Wilson Clowes, em busca de uma oportunidades, em Los Angeles, faz uma audição para um papel, mas não sabe que, na verdade, a seleção é para promover um novo brinquedo para o Natal usando uma roupa do personagem. O Pooka é um boneco eletrônico que, de certa forma, muda de humor, repetindo algumas frases, que, conforme a cor que acende em seus olhos, azul ou vermelho, podem ser gentilezas ou malcriações...
O emprego não era bem o que ele imaginava mas, como pagava bem e o dono do negócio garantia o anonimato, ele acaba topando. As coisas até que vão bem, Wilson tem um trabalho, vai organizando sua nova vida num novo apartamento, conhece uma mulher por quem se interessa, passa a sair com ela, conquista a confiança do filho dela, mas simultaneamente a tudo isso, as coisas começam a ficar estranhas. A roupa parece ter influência nas ações dele que passa a não lembrar de coisas que fizera e nem ao menos se realmente as fez e, "absurdamente", passa a suspeitar que o Pooka, o personagem, o boneco, a roupa, esteja por trás de atos violentos. Assim, sem certeza da realidade, desconfiado de tudo, duvidando de si mesmo e com medo, gradualmente, as coisas vão saindo de seu controle.
"Pooka", inicialmente, parece apenas mais um filme de terror de época de Natal mas aos poucos mostra-se um pouco mais interessante que os demais da sua categoria. Aos poucos vai crescendo, vai ganhando o interesse do espectador e vai revelando uma situação totalmente diferente do que parecia ser.
Além do suspense, das situações tensas e angustiantes, de um certo mistério e das surpresas, "Pooka" lida com temas interessantes como desemprego, frustrações, relações abusivas, violência doméstica, gerando, ao seu final, uma situação de incerteza e inquietude no espectador. Filme daqueles que a gente não dá nada por ele mas surpreende e ainda te deixa com aquela cara de, "Puxa, era isso mesmo?".
Clowes e o Pooka se confundem e, em determinado momento,
o ator desempregado já não tem mais certeza de seus póprios atos.
Cly Reis
quarta-feira, 22 de dezembro de 2021
Música da Cabeça - Programa #246
Só pensando na ceia de Natal? Quem tal, então, essa nossa trilha sonora pra acompanhar? No MDC desta semana natalina, teremos um saco cheio de presentes, como Tim Maia, Dire Straits, Happy Mondays, Bootsy Collins, Garotos Podres e mais. Além dos quadros de sempre, um Sete-List pra botar o Papai Noel chamar no groove. É só se servir, que o programa de hoje será servido às 21h, na natalícia Rádio Elétrica. Produção, apresentação e ho ho ho, let's go!: Daniel Rodrigues.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2020
Música da Cabeça - Programa #194
http://www.radioeletrica.com/
quarta-feira, 25 de dezembro de 2019
Música da Cabeça - Programa #142
Trazemos a boa-nova! Não, não é o nascimento do JC: é o MDC! O Música da Cabeça de Natal vai estar bem brasileiro e com o saco cheio dos presentes sonoros: TNT, Ed Motta, Rita Lee, Alceu Valença, Renato Russo e Caetano Veloso, além dos estrangeiros Cocteau Twins, Michael Jackson e JohnCale. Tem também “Música de Fato” falando das mulheres, “Palavra, Lê” com letra natalina e um “Cabeção” reverenciando o múltiplo Brian Eno. Põe tudo na conta do Papai Noel, que ele garante um programa no nível que a data merece. É às 21h, no presépio cultural da Rádio Elétrica. Produção e apresentação: Daniel Rodrigues (Ho Ho Ho/ Let’s Go!).
Rádio Elétrica:
http://www.radioeletrica.com/
Tribalistas - "Tribalistas" (2002)
Quando, em 2002, “Já sei Namorar” se tornou o último hit de verão brasileiro com qualidades musicais e “Velha Infância” era ouvida tanto na boca de jovens quanto de senhoras donas de casa, estava claro que “Tribalistas”, o disco, já nascia popular e clássico. Também pudera: um supergrupo formado por Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte tinha tudo para dar certo, como de fato deu. Era como se os três principais polos culturais do Brasil se juntassem na figura destes três artistas: São Paulo, por meio do concretismo multimídia arejado de Arnaldo; o mítico Rio de Janeiro, com sua tradição da MPB e do pop nacional pela via de Marisa; e a Bahia, cuja ancestralidade afro-indígena em cores rítmicas e melódicas se materializava através de Carlinhos. Juntos eles traziam a capacidade de potencializar o que há de melhor na história da música popular brasileira como nunca antes acontecera. Mas se como banda era então algo inédito, a construção desta simbiose entre os três vinha de muito tempo.
A antenada Marisa foi a catalisadora do “anti-movimento” tribalista. Foi ela a principal intérprete a revelar as potencialidades dos parceiros compositores antes mesmo de suas carreiras-solo: Arnaldo, ainda com os Titãs, em 1991, no disco “Mais”, no qual lhe gravou três músicas inéditas, e Carlinhos a partir de “Verde Anil Amarelo Cor-de-Rosa e Carvão”, de 1994, antes deste se tornar um popstar internacional. Naturalmente, os três perceberam várias sintonias e complementaridades entre si. A química do grave da voz de Arnaldo e com a leveza mezzo de Marisa, por exemplo, já está lá no primeiro disco dele, “Nome”, de 1992, em “Alta Noite” e “Carnaval”. Com Carlinhos, o estreitamento da relação veio em seguida com as gravações de “Maria de Verdade” e “Segue o Seco”, marcos na carreira dela. Juntos os três aparecem pela primeira vez em “Memórias, Crônicas e Declarações de Amor” na canção “Amor, I Love You”, composição de Carlinhos e Marisa de 2000, cantada por ela e que tem a declamação poética de Eça de Queiroz na voz característica de Arnaldo. Mas antes mesmo outros sinais “tribalistas” já se anunciavam, como no duo dela com Carlinhos em “Hawaii e You” e “Busy Man”, de “Omelete Man”, de 1998 (que tem, aliás, produção dela), e em “O Silêncio” (1996), em que o titã e o líder da Timbalada cantam juntos.
A partir daí, só cresceu a irmandade e eles nunca mais se separaram. “Paradeiro”, “Água Também é Mar”, “Não Vá Embora”, “Universo ao meu Redor”, “Doce do Mar”, “Não é Fácil”, “Talismã” e uma dezena de músicas são fruto de suas colaborações nos anos seguintes. Quando decidiram, então, se unir como banda, a identidade e a sinergia entre eles já era tamanha que bastava apenas dar um nome ao projeto: “Tribalistas”. Enfim, “chegou o tribalismo no pilar da construção”. Na execução, os percentuais de participação de cada um são quase iguais. Quando não realizam as mesmas funções, proporcionalmente compensam em outras. Multi-instrumentista, Carlinhos tem a voz menos destacada, mas é quem naturalmente comanda os arranjos. Marisa, além de ser a produtora, é a figura central com seu violão, seu canto e sua liderança. Arnaldo, por sua vez, influencia menos nos arranjos, mas é a cabeça criativa de várias letras e ideias sonoras, além de também dar forma às melodias vocais. Isso tudo ajudado pela qualidade musical de Dadi e Cezar Menezes.
Perfeito do início ao fim em sonoridades, timbres, arranjos, produção e até duração (13 faixas que não se estendem mais do que 42 minutos), o disco tem, além da memorável capa desenhada em chocolate pelo artista visual Vik Muniz, a fineza das interpretações e, principalmente, das composições do trio, melodistas de mão cheia. Neste quesito, tanto Marisa quanto Arnaldo e Carlinhos colaboram diretamente. “Carnavália”, que abre o disco com um ar nobre, é um híbrido de estilos dos três. Uma levada de violão de influência ibérica ao estilo de Milton Nascimento, com som amplo e cheio, se une a vozes em uníssono e elementos de samba e eletrônicos, coisas que os três valorizam e se valem amplamente em suas obras. "Um a Um", logo em seguida, entra rasgando numa balada ardente e apaixonada (“Muito além do tempo regulamentar/ Esse jogo não vai acabar/ É bom de se jogar/ Nós dois/ Um a um”), também resultado da integração compositiva do trio.
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| Arnaldo, "Zé" Marisa e Carlinhos: soma de talentos sem igual na história da música brasileira moderna |
Uma sequência mais cadenciada emenda a “arnaldística” “O Amor é Feio”, em que aparece a tal tabelinha vocal entre ele e Marisa já experimentada por ambos ao longo dos anos; outra balada romântica, "É Você", tão característica de Marisa quanto de Carlinhos - mas não sem os toques de Arnaldo, como os versos “Deita no meu leito e se demora” ou “Um ritmo, um pacto e o resto rio afora”; e “Carnalismo”, melodiosa como uma delicada caixinha de música (“No rastro do seu caminhar/ No ar onde você passar...”) e onde funciona novamente o vocal Arnaldo/Marisa.
A natalina “Mary Cristo”, mesmo coassinada por Arnaldo e Marisa, é claramente produto da criatividade do baiano da turma. Hábil em compor melodias lúdicas, é Carlinhos, inclusive, quem praticamente põe a primeira voz. A letra, que mescla termos em inglês com português com total fluidez (“Mary, Mary, Mary Cristo/ Cristo, Cristo, Mary, Mary”), como já fizera em “Amor, I Love You”, “Everybody, Gente” ou “Uma Brasileira”, é uma característica dele. Também, o uso de onomatopeias com finalidade tanto melódica quanto poético-sintática (“Carneirinho me dá lã, mé” e “Blim blom”) é igual ao que ele já apresentara em “Meia Lua Inteira” ou “Amantes Cinzas”.
"Anjo da Guarda" mantém o clima quase infantil da anterior, porém amplificando a ideia muito afeita a Arnaldo (“Direitinho”, “As Árvores”, “Pequeno Cidadão”) e também a Marisa (“Borboleta”, “O Céu”). "Lá de Longe", uma das mais brilhantes do disco, traz uma atmosfera etérea e circular, como um mantra. Tanto Marisa quanto Carlinhos e Arnaldo vão intercalando os vocais, formando um encadeamento perfeitamente homogêneo dado pelo arranjo e pela técnica de estúdio. E que melodias e letra bonitas! (“Longe, lá de longe/ De onde toda beleza do mundo se esconde/ Mande para ontem/ Uma voz que se expanda e suspenda esse instante/ Lá de longe...”).
Bem Marisa novamente, “Pecado É lhe Deixar De Molho” é uma bossa nova muito parecida com os que eles produziria em “Infinito Particular”, de 2006. Quase acabando o disco, contrariando, aliás, as regras da indústria fonográfica de destacar a música de trabalho entre as primeiras para facilitar o consumo, vem “Já sei Namorar”. Colocação, entretanto, que não a impediu de se tornar um enorme sucesso de público e crítica, tendo recebido Grammy Latino de "Gravação do Ano", Prêmio Multishow de Música do Ano, e MTV Video Music Brasil 2003 pela escolha da audiência. Bastante Arnaldo em concepção, é quase uma continuação de “Não Vou me Adaptar”, do repertório dos Titãs, porém trazendo como tema a fase da adolescência agora não como o medo de tornar-se adulto e o desconforto do corpo em transformação, mas já experimentando a sexualidade e o desejo de individuação de uma maneira espontânea e bonita. A letra diz: “Já sei namorar/ Já sei beijar de língua/ Agora só me resta sonhar/ Já sei onde ir/ Já sei onde ficar/ Agora só me falta sair”. Dançante e melodiosa ao mesmo tempo, a música foi parar na playlist de qualquer festa ou lugar que se frequentasse à época do seu lançamento. Não à toa, pois é uma doçura de canção.
Arnaldo entoa palavras-chave que determinam não apenas a faixa que dá título ao trabalho e ao grupo como também marca o encerramento do disco. Um ritmo pop tribal típico dele, mas que conta com as mãos de Marisa e Carlinhos, obviamente, fecha o álbum num clima animado e despojado. “Os Tribalistas já não querem ter razão/ Não querem ter certeza, não querem ter juízo nem religião/ Os Tribalistas já não entram em questão/ Não entram em doutrina, em fofoca ou discussão”. E o refrão, adorável, é daqueles de cantar acompanhando-os: “Pé em Deus/ e fé na Taba”.
O disco foi lançado com um DVD – um sucesso de audiência na TV Globo –, que traz a mesma sequência de faixas sendo executadas pela banda e que quase não se percebe diferença para com as gravações em estúdio tamanha é a qualidade técnica desses músicos. No vídeo, dá para perceber algumas nuances do processo criativo dos Tribalistas e a irmandade entre eles, espírito este que transparece para os sons que produzem. Tanto é verdade que essa afinação entre os três se repetiu 15 anos mais tarde com igual êxito em “Tribalistas 2”. Por isso, mais do que apenas a faixa “Mary Cristo”, este álbum tem muito a ver com Natal, haja vista este amor entre os três, amor de irmãos que se respeitam, se admiram e se complementam entre si com suas semelhanças e diferenças. Dois homens e uma mulher: Arnaldo, Carlinhos e Zé.
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FAIXAS:
1. "Carnavália" - 4:16
2. "Um a Um" - 2:41
3. "Velha Infância" (Antunes, Brown, Monte, Davi Moraes, Pedro Baby) - 4:10
4. "Passe em Casa" (Antunes, Brown, Monte, Margareth Menezes) - 3:54
5. "O Amor É Feio" - 3:11
6. "É Você" - 2:51
7. "Carnalismo" (Antunes, Brown, Monte, Cezar Mendes) - 2:36
8. "Mary Cristo" - 3:00
9. "Anjo da Guarda" - 2:47
10. "Lá de Longe" - 2:17
11. "Pecado É lhe Deixar de Molho" - 2:58
12. "Já Sei Namorar" - 3:16
13. "Tribalistas" - 3:23


























