Uma das missões de minha profissão, a de jornalista, é a de, a partir de
meu filtro capacitado e abalizado, informar as pessoas daquilo que não lhes está
evidente, ajudando-as a se elucidar e formar opinião. Quando se trata de
assuntos envolvendo cultura e arte, não é diferente. Levar-lhes o “não óbvio”,
aquilo que não conhecem, pois o que já conhecem não precisa, certo? Não exatamente.
Há tanta confusão de informação no ar (e nas redes) que o “óbvio”, por
desconhecimento ou falta de critério, mistura-se com o irrelevante ou passa até
a ser relegado. Os melhores filmes franceses de todos os tempos, por exemplo: numa
recente lista, vi apontados títulos queridinhos como “O Fabuloso Destino de
Amélie Poulin” e “Intocáveis” como sendo indispensáveis, enquanto que não
figuraram nada de Jean Vigo ou Michel Carné. Ora, convenhamos! E olha que
não estou nem falando de obras de cineastas menos conhecidos, mas igualmente merecedores,
como Sacha Guitry ou Julien Duvivier – mas aí, seria exigir demais.
O cinema francês é um dos mais ricos e referenciais da cinematografia
mundial, desde os irmãos Lumière até as escolas e movimentos que este promoveu
ao longo do tempo, como o Realismo Poético, o Cinema Vérité e a revolucionária Nouvelle
Vague. Nada contra os bons “Intocáveis” ou “Amélie Poulin” – este último, aliás,
se tivesse que escolher um de Jeunet, preferiria “Delicatessen” ou “Ladrão de
Sonhos”. Porém, basta conhecer um pouco da história do cinema do país de Victor
Hugo para enxergar o rico e numeroso universo de produções relevantes para além
desses sucessos recentes. O pioneirismo, as inovações estilísticas, as contribuições
técnicas e teóricas se deram em vários momentos da história da sétima arte.
Definitivamente, o cinema francês não deve ser reduzido a uma amostra que nem
de longe reproduza seu tamanho e importância.
Por conta disso, elaborei uma lista de 20 títulos realmente essenciais
para se compreender e admirar o cinema francês. Óbvios para mim, mas a quem não
conhece ou se enreda em avaliações mal ajuizadas, talvez não. Afora a
criteriosa tarefa de selecionar os mais relevantes entre tantos títulos ótimos,
elencá-los foi delicioso. Estão aqui mencionados, sem ordem de preferência,
clássicos que determinaram épocas, obras-primas consagradas do cinema mundial e
filmes que cumpriram papéis além do próprio cinema: tornaram-se ícones da arte
e da cultura do século XX, como “Acossado”, “A Regra do Jogo” ou “A Nós a
Liberdade. A ideia foi a de constar um de cada grande realizador, embora alguns
(Truffaut e Resnais, por exemplo) inevitavelmente haja mais tendo em vista a indispensabilidade
das realizações citadas. Também, dentro da lógica de informar a partir de meu
filtro pessoal, se perceberão toques de meu entendimento próprio. De Carné,
optei por incluir “Os Visitantes da Noite” e não o consagrado “O Boulevard do
Crime”; De Buñuel, “O Discreto Charme da Burguesia” a “Bela da Tarde”; De Godard,
“Je Vous Salue, Marie” a algum dos cult-movies
dos anos 60, como “Pierre Le Fou” ou “Alphaville”. Crítica pessoal pura, mas
que em nada prejudica a representatividade da seleção como um todo.
Claro, ficou de fora uma enormidade de coisas, como “Lacombe Lucien”,
de Malle, “Orfeu Negro”, de Camus, “Eu, um Negro”, de Rouch, “A Bele e a Fera”,
de Cocteau, ou “Napoleon”, de Gance. Privilegiou-se os essencialmente
franceses, por isso não aparecem co-produções como “O Último Tango em Paris” ou
“A Comilança”. Também não entraram nada de Maurice Pialat, Eric Rohmer,
Costa-Gavras, Jacques Demy, Jacques Rivette... Paciência. Além da impossível
unanimidade de listas, uma como esta, que represente algo tão relevante e robusto,
incorreria em incompletude. Uma coisa é certa: não perdemos tempo com
irrelevâncias. Ah, isso não. Voilà!
- “Viagem à Lua”, de Georges Méliès (“Le Voyage dans la lune”, 1902)
- “A Nós a Liberdade”, de René Clair (“À Nous la Liberté”, 1931)
- “Zero de Conduta”, de Jean Vigo (“Zéro de conduite”, 1933)
Poster original de
"Zero de Conduta"
- “A Regra do Jogo”, de Jean Renoir (“La Regle Du Jeu”, 1939)
- “Os Visitantes da Noite”, de Michael Carné (“Les Visiteurs du Soir“,
1942)
- “Orfeu”, de Jean Cocteau (“Orphée”, 1950)
A visão de Cocteau para a
saga de Orfeu
- “As Diabólicas” (“Les Diaboliques”), de Henri-Georges Cluzot (1955)
- “Meu Tio”, Jacques Tati (“Mon Oncle”, 1958)
- “Os Incompreendidos”, de François Truffaut (“Les 400 Coups”, 1959)
Cena do revolucionário
"Os Incompreendidos"
- “Os Primos”, de Claude Chabrol (“Les Cousins”, 1959)
- “Hiroshima, Moun Amour”, de Alain Resnais (1959)
- “Acossado”, de Jean-Luc Godard (“À bout de souffle”, 1960)
- “O Ano Passado em Marienbad”, de Alain Resnais (“L'Année dernière à
Marienbad”, 1961)
- ‘Jules et Jim”, de François Truffaut (1962)
- “Cleo das 5 às 7”, de Agnès Varda (“Cléo de 5 à 7”, 1962)
- “La Jetée”, de Chris
Marker (1962)
As impressionantes foos de Marker
que compõe a narrativa de "La Jetée"
- “Trinta Anos Esta Noite”, de Louis Malle (“Le feu follet”, 1963)
- “O Discreto Charme da Burguesia”, de Luis Buñuel (“Le charme discret
de la bourgeoisie”, 1972)
- “Je Vous Salue, Marie”, de Jean Luc Godard (1985)
"Je Vous Salue, Marie", a produção
mais recente da lista
junto com Betty Blue
- “Betty Blue”, de
Jean-Jacques Beineix (“37° le Matin”, 1986)
Tem aquelas frases que marcam o final de um filme e agente lembra delas ainda muito tempo depois e cita e menciona em diversas situações e diálogos cotidianos. Quero colocar aqui algumas das minhas preferidas. As 10 mais! Mas não são diálogos finais. São um encerramento. Aquela última coisa que um personagem diz e aí baixam os créditos, sobe a música, escurece a tela. Posso estar esquecendo de alguma mas acho que não. Dei uma ‘busca’ legal na minha cachola. Aí vão:
Christine, indestrutível.
Será?
1. "Chistine: O Carro Assasino", de John Carpenter (1983)
Para mim, a frase campeã está neste filme. A menina ex-namorada do dono de um carro que sempre começava a tocar rock'n roll sozinho quado matava, ao destruir o carro numa compactadora de ferro-velho, declara cheia de ódio: "Eu odeio rock'n roll!".
Detalhe: a tela escurece e começa a tocar "Bad to the Bone", de George Thorogood". Seria o carro revivendo mais uma vez ou apenas a música final?
Demais!
Clássico de Brian De Palma
2. "Os Intocáveis", de Brian de Palma (1987)
Depois de uma empreitada ardorosa para apanhar o chefão da máfia e do tráfico de bebidas, Al Capone, quando perguntado o que faria se a Lei Seca fosse revogada, o agente Elliot Ness responde com bom humor e bom sendo: “Vou tomar um drink.”.
E sobe a exepcional trilha de Ennio Morricone, a câmera sobe por uma avenida de Chicago, se afasta e acompanha Elliot Ness se afastando. Grande final!
Dorothy descobriu em Oz
o valor de sua casa.
3. “O Mágico de Oz” de Victor Fleming (1939)
Depois de ter fugido de casa e ter passado por todoas as aventuras no fantástico reino de Oz, a pequena Dorothy chega à mais óbvia conclusão que poderia: Não existe lugar melhor do que a nossa casa.”.
Eu que adoro estar em casa e voltar para ela, sempre repito essa.
Grande tacada de Scorsese
4. “A Cor do Dinheiro”(1986), de Martin Scorscese
Do grande Paul Newman, jogador de bilhar revitalizado depois de uma temporada de trambiques com um talentoso porém vaidoso aprendiz. Num embate revanche entre os dois, o velhote dipõe as bolas na mesa, encara o adversário e dispara: “Eu estou de volta!”.
Uma tacada e fim do filme.
Matador.
Você gosta de olhar, não gosta?
5. "Invasão de privacidade” de Phillip Noyce (1993)
Passa longe de ser um grande filme mas gosto do final quando Sharon Stone, tendo descoberto que era vigiada indiscretamente por seu senhorio e amante, destrói o equipamento de bisbilhotagem do voyeur. A loira atira nas telas dos monitores de TV onde o curioso observa a intimidade dos moradores e larga essa: “Arranje o que fazer".
Perfeito!
Apenas humanos.
6. "Robocop 2", de Paul Verhoeven (1990)
Irônica e perfeita frase dita por um robô no segundo filme da franquia original "Robocop". "Somos apenas humanos".
E diz isso ajustando um parafuso na cabeça.
Ótimo.
Quando se ama...
7. "Quanto Mais Quente Melhor", de Billy Wilder (1959)
Fugitivo de mafiosos e travestido de mulher, a fim de dar credibilidade a seu disfarce, um músico, interpretado brilhantemente por Jack Lemmon, infiltrado numa orquestra feminina, depois de ter "conquistado" um velhote ricaço e diante de um inusitadíssimo pedido de casamento, é obrigado a se revelar como homem, ao que surpreendentemente ouve como resposta: "Ninguém é perfeito”.
Mestre Billy Wilder.
O bom filme "Kuarup"
8. “Kuarup”de Ruy Guerra (1989)
Outro que não é um grande filme mas tem um final marcante. O personagem interpretado por Taumaturgo Ferreira, diante de uma total derrocada final, sem perspectivas é perguntado sobre o que iria fazer então diante daquela situação: “Eu vou fazer um Kuarup”.
Sempre penso nessa frase final quando não há mais nada o que fazer.
Confusão de corpos, frases,
sentimentos, significados e lugares.
9. “Hiroshima, meu amor” de Alain Resnais” (1959)
Revelação bombástica do jogo sensual e enigmático dos amantes, ele japonês e ela francesa, em meio a lençóis no clássico de Alain Resnais. “Teu nome é Nevers”.
A boca vermelha de Maria.
O adeus à pureza?
10. "Je Vous Salue, Marie!", Jean-Luc Godard, de 1985
Maria se dá o direito de ser mulher. Fuma, passa um batom escarlate vibrante nos lábios e é saudada pelo "anjo" Gabriel com a frase: “Je vous salue, Marie!".
Ih, parece que o menino Jesus vai ter um irmãozinho.
e como extra...
10 +1. "Cidadão Kane", de Orson Welles (1941)
Frase que não é frase e que também não é dita, é mostrada no trenó do magnata Kane, quando jogado ao fogo, sendo que sabemos que fora a última palavra proferida por ele antes de morrer, e é a palavra que encerra a obra-prima de Orson Welles: "Rosebud".
E sobe a fumaça, sobe a trilha e... FIM.
Cena final de Cidadão Kane, considerado por muitos o melhor filme de todos os tempos.
Será que só eu não gostei do “Cópia
Fiel” do iraniano Abbas Kiarostami?
Não, não é querer ser do contra, estar na contramão das
opiniões, ser polêmico, mas volta e meio me deparo com umas ‘unanimidades’ que,
assim, ó... vou te falar: acho que o pessoal aplaude por decreto. Porque é do fulaninho, porque é cult, porque é referência.
, fiz montes assim para o
elogiadissimo "A Rede Social", bati de frente com os defensores do
badaladíssimo "O Cisne Negro", isso só para falar de alguns, sendo que, em
especial no caso destes três, Tarantino e Fincher são dos meus diretores
preferidos dos últimos tempos. Ou seja, não trata-se de implicância, de
preconceito, ignorância (acho que não). Só não tem babação para diretores que, temos que admitir, por mais valorosos e
competentes que sejam também erram a mão.E não é que sou obrigado a avacalhar outro dos meus
favoritos? Mesmo sendo diretor de algumas das melhores obras dos últimos 20
anos como “Gosto de Cereja” e “Vida e Nada Mais”, não posso me furtar a
criticar o último filme de Abbas Kiarostami, que só tive a oportunidade de assistir
agora, ‘Cópia Fiel”, sua primeira produção fora de seu país de origem. E olha que fui com grande expectativa.
Lamento, Abbas, lamento. Sei que isso não fará nenhuma
diferença na sua vida, ainda mais considerando que crítica e público continuam
a seu lado incondicionalmente, ao que parece independentemente do que faça, mas
eu não quero ficar indiferente.
“Cópia Fiel” parte de um princípio interessantíssimo
enquanto argumento: de que uma cópia pode ter tanto valor quanto um original.
OK! Esse é o tema do livro do personagem James Miller que começa o filme
defendendo a idéia diante de uma pequena platéia no lançamento do livro
homônimo ao filme numa cidadezinha interiorana na Toscana. O desenvolvimento do
conceito é bem sustentado em princípio pelo personagem do escritor porém mal
conduzido numa discussão extremamente forçada e estereotipada, sobretudo no que
diz respeito à personagem de Juliete Binoche, uma comerciante de antiquário. A
conversa no carro embora notavelmente bem ambientada, com o reflexo da paisagem
no vidro do carro ‘participando’ da ação, por exemplo, parece um esforço do
diretor em nos apresentar dois lados sobre o assunto, porém sem paciência de
que cheguemos às conclusões sobre os dois interlocutores. Por um lado está o
escritor defendendo suas teorias, com simplicidade e sinceridade, é verdade,
mas sendo excessivamente didático às vezes; e por outro uma mulher confusa,
cética, infeliz. O papo tem algumas tiradas boas, perspicazes, engraçadas até,
como a piada da Coca-Cola, mas mostra-se no fim das contas um grande exercício
de apresentação de personalidades ao melhor estilo cinema francês, recheado de
análises filosóficas pretensiosas.
Essa caracterização excessiva não seria o suficiente para
derrubar o filme se não fosse a virada que ele dá a partir do momento em que o
casal passa a encenar uma antiga relação marido e mulher, que em determinado
momento chega a causar dúvida no expectador quanto à sua pré-existência ou não,
mas que, com a devida atenção a alguns fatos anteriores do próprio filme,
percebemos que nunca existiu. Pois é... o tal do faz-de-conta é inverossímil, é
abrupto, é ‘grande’ demais no próprio contexto, ultrapassa o limite da própria
tolerância humana de aceitar se desgastar em nome de um personagem, de defender
um conceito, de abrir a mente, etc., ainda mais diante de um estranho. É certo
que o envolvimento que começa a aparecer entre os dois estimula a farsa. Sim, é
verdade, mas em havendo um interesse mútuo como foi acontecendo, tamanha
exposição pessoal não justificariam as alterações de humor, o exercício de
infelicidade, fraquezas e tantas outras fragilidades.
Devem pensar, “mas o
cara ta pensando na trama de uma maneira muito rígida, muito linear, muito
real“. É porque o universo ao qual somos levados pelo diretor é real. Ele e
não tem nada de surreal, de fantástico, e no entanto, de repente, nos propõe a
tal ponto abandonarmos a plausibilidade do seu filme e entregar-mo-nos à mesma
ficção de seus personagens, fixando-nos apenas à frieza dos fatos, estes sim,
inegavelmente crus e fortes.
Não! Posso estar sendo muito fechado, pragmático, realista
mas não me caiu bem definitivamente o modelo de cinema adotado por Kiarostami
desta vez. Pode ter acertado na locação, nos personagens, na idéia, no tema,
mas na minha visão peca no produto final.
A seu favor, contudo, tenho a sinalizar a integração
ambiente-personagens, sempre precisa, desde um porão de antiquário cheio de cópias
de objetos de arte, passando por uma colunata de ciprestes, por becos
estreitos, e chegando a um quarto de hotel, tudo dialogando de alguma forma com
as naturezas pessoais ou com estados psicológicos correspondentes à cena ou à
situação. Também o tema, sobre os relacionamentos, o casamento, as escolhas,
que salvo o fato de propostos equivocadamente dentro do objeto filme,
mostram-se na maior parte das vezes pertinentes e bem colocados. Não se pode
deixar de elogiar a atuação de Juliette Binoche que com uma ótima interpretação
supera até mesmo a primeira parte do próprio texto que faz questão de lhe
autocarimbar na testa as alcunhas de ‘chata’, ‘estressada’, ‘intolerante’,
‘ciumenta’.
Li por aí que é obra-prima, melhor filme do diretor, melhor
dos últimos tempos... Posso estar errado, nada invalida isso, mas sinceramente
não compartilho dessas opiniões.
Kiarostami parece ter ocidentalizado rápido demais e seu
filme tem muito de cinema francês logo na primeira incursão internacional do
diretor. Chega a lembrar um pouco os Resnais, “Hiroshima, Meu Amor” com suas
discussões e reminiscências e “Ano Passado em Marienbad” com seu desencontro
amoroso de toques surreais, ambos com longas caminhadas acompanhadas de longas
conversas existencialistas. Talvez tenha servido de inspiração. Talvez a
intenção tenha sido mesmo copiar Resnais, copiar o cinema francês, o que só
reforçaria o conceito do livro do personagem Miller e do próprio filme. Se fez
parte da intenção do diretor, a meu juízo, terá sido o principal ponto a favor
do seu filme, ainda que não possa-se usar a máxima defendida por ele neste caso
de que a cópia supera o original.
Sondar as profundezas da natureza humana é uma das mais recorrentes propostas do cinema de autor. Neste universo, há inúmeros títulos que abordam o tema sob enfoques dos mais diversos. Determinados cineastas, no entanto, tomam este tipo de temática quase como uma obsessão – o que lhes faz soar formalmente ainda mais freudianos. O cinema europeu, mais dado a estes instigantes “intrincamentos psicologizantes”, tem em Bergman uma referência indissociável, mas ainda há Antonioni, Wenders, Resnais, Buñuel, Fassbinder e alguns outros. No cinema americano a prática de levar a câmera ao divã é mais incomum, porém, por sorte, não inexistente. Inspirado no cinema marginal americano dos anos 40-50 (Penn, Aldrich, Ray), no expressionismo alemão e pelas vanguardas dos anos 60 e 70 – que tomavam os corações de jovens cineastas pelo mundo todo àquela época –, o norte-americano John Frankenheimer (1930-2002) muito perseguiu em seus filmes a temática psicanalítica. Seu mais assertivo feito é, entretanto, “O Segundo Rosto” (Seconds, EUA, 1966), uma brilhante metáfora sobre a perda de identidade e a dilaceração do indivíduo na sociedade moderna.
Um dos livros mais importantes do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, “Modernidade e Holocausto”, traz, através da visão crítica e ampla peculiar do autor, a ideia de que os sintomas da Solução Final da Segunda Guerra Mundial ultrapassam o castigo aplicado ao povo judeu (o que já seria, contudo, suficientemente trágico). Para ele, as implicações do massacre praticado pelo regime nazista se estendem às esferas política, sociológica e psicológica com tal força que se torna, ainda hoje, problema não só de judeus, mas de não-judeus, de ocidente e oriente; da sociedade moderna como um todo. Trata-se, obviamente, de um fenômeno maligno, mas cujos fatores psicossociais formadores não são necessariamente perversos, visto que pautado no tripé da burocracia moderna, da eficiência racional-tecnológica e da mistificação – aspectos que, convenhamos, isoladamente, não inspiram essencialmente maldade.
Nesta linha, “O Segundo Rosto” traz à tona, num enredo envolto em mistério, ficção-científica e surrealismo, um dos resultados psicossociais dos efeitos devastadores que o genocídio impregnou no inconsciente coletivo: a divisão do “eu”. Afinal, a Crise dos Mísseis havia ocorrido há apenas 4 anos, a cisão entre as “Alemanhas” estava no auge e a Guerra Fria era “compensada” pelos Estados Unidos num conflito injustificável no Vietnã. Tal tensão fica explícita na construção do personagem-protagonista (s?). Na história, um homem de meia idade, John Hamilton (maravilhosamente interpretado por John Randolph), vice-presidente de um banco, vive com a esposa numa confortável casa de subúrbio. Angustiado e insatisfeito com sua vida burocrática e repetitiva, contrata uma empresa especializada em "renascimentos". A organização forja sua morte e, após avançados procedimentos cirúrgicos, faz com que ele renasça na figura de Anthiocus Wilson (Rock Hudson), um pintor de sucesso cuja história toda pré-programada ele, agora renovado por fora, terá de se incubar “por dentro”. Claro, não sem enormes desafios psicológicos.
Cena de "Seconds": modernidade e Holocausto
Frankenheimer concebeu um filme revolucionário, inspirador de grandes realizadores como David Cronenberg e Roman Polanski, de quem se vê em vários trabalhos elementos pescados de “O Segundo Rosto”. A relação carne/alma, recorrente discussão na obra de Cronenberg – “A Mosca” (1986) e “Crash” (1996), por exemplo –, é explorada numa brilhante metáfora no filme: a “companhia de renascimentos” usa como fachada um frigorífico. A utilização das perturbações mentais como elemento narrativo é também típica do cinema tanto de Cronenberg quanto de Polanski, que de “O Segundo Rosto” se valeu bastantemente para compor os roteiros e a atmosfera sombria de suspenses psicológicos como “O Bebê de Rosemary” (1968) e “O Inquilino” (1976).
De fato, “O Segundo Rosto” inova e surpreende. Começa com a hipnótica abertura do mestre Saul Bass, designer alemão que revolucionou o modo de apresentar os filmes ao adicionar, com técnica e criatividade, o conceito do filme já nos subtítulos, e cujos créditos iniciais de obras-primas como “Um Corpo que Cai”, “O Homem do Braço de Ouro” e “Cabo do Medo”, assinadas por ele, são um espetáculo à parte. Em “O Segundo Rosto”, Bass se vale de imagens em hipercloses distorcidas de um rosto casadas com a tensa música de outro mestre, Jerry Goldsmith, dando a tônica do que virá no decorrer da trama.
A marcante abertura assinada por Saul Bass
As interpretações são outro destaque, principalmente a de Rock Hudson, cuja mente perturbada consegue-se penetrar pelo espectador a ponto de causar uma quase náusea. Perversão, culpa, alucinação, medo, inocência; está tudo ali, embaraçado. As figuras que, por paranoia ou não, aterrorizam o mundo de Anthiocus parecem saídas de um tenebroso sonho, lembrando as caracterizações feitas por Orson Welles em “O Processo” (1962).
Afora o roteiro, eficiente e preciso, equilibrando densidade e didática, a direção e a fotografia merecem aplausos. O olhar de Frankenheimer é cirúrgico, usando os elementos fílmicos com precisão e clareza de objetivos. A câmera, por exemplo, é um artifício para, independente da forma como é empregada, transmitir desequilíbrio, seja em movimentos bruscos – como na fascinante cena inicial na estação (presa à altura da cabeça do ator, esta técnica de hiperrealismo ainda é muito usada hoje, na publicidade, por exemplo, para fortalecer a proximidade física do espectador com o “objeto” filmado) –, seja em enquadramentos fixos, ora em angulações distorcidas e inclinadas, ora aproveitando-se da profundidade de campo proporcionada pela lente objetiva.
O "eu" dividido: simbologia do espelho como terror
A propósito disso, a fotografia expressionista em P&B assinada pelo chinês James Wong Howe, outro craque de Hollywood que modificou a forma de fotografar em audiovisual, é um dos pontos mais marcantes do filme, tendo concorrido, inclusive, ao Oscar daquele ano. Não só o uso da perspectiva funciona como ressignificação da complexidade psicológica do protagonista como, igualmente, os closes nas texturas rugosas das peles, nas gotículas de suor que escorrem do rosto, no brilho artificial da íris dos olhos. Foco e desfoco andam juntos o tempo todo, e a composição dos cenários, às vezes propositadamente poluída de elementos visuais, reforçam o deslocamento psicológico de Hamilton-Anthiocus no mundo em que vive – embora o termo “viver” não seja propriamente o mais adequado nesta situação.
Falando em terminologias, este é outro fator expressivo no que se refere à metalinguagem que o filme suscita. O título original pode ser traduzido tanto como “segundo” ou “outro”, pontuando o conceito de dualidade marcante da obra, quanto por “segundos”, numa referência à passagem do tempo, seja este imagético ou físico, real ou psicológico, cronológico ou anacrônico. Outro termo que merece atenção é o “renome” que o protagonista recebe: Anthiocus. Ora: se alguém que busca reinventar-se na modernização forçada de suas feições e biografia recebe um nome etimologicamente referido a “antigo”, é porque alguma coisa está errada! Na sua nova vida, o agora artista, amante de uma linda jovem, conviva da alta classe burguesa e bonito feito um Deus submerso num novo inferno, na verdade, não se desfez daquele velho Hamilton que há dentro dele e cuja casa à art nouveau sempre pareceu um museu – e dos gélidos. Sua profissão de artista plástico, como o "Pintor da vida moderna" de Baudelaire – cuja existência servia para transpor à tela o momento presente –, soa como uma irônica metalinguagem da abstração da realidade pelo cinema enquanto arte.
Duas cenas de "Seconds": influência expressionista nas imagens distorcida e aterradoras
Este Fausto revisitado, como bem associou o crítico cinematográfico francês Jean Tulard, tem tudo a ver com as crias que o fantasma do Holocausto produziu e produz. Se pensarmos que a pós-modernidade em que vivemos hoje é fruto da modernidade e de que, embora o mundo globalizado e a era digital signifiquem um novo paradigma repleto de novas significações, a própria recentidade história do pós-Guerra intui que problemáticas advindas com este período não tenham sido ainda esgotadas. Tudo bem em se renovem os questionamentos; mas, conforme assinala Bauman, sofre-se ainda, como o personagem de “O Segundo Rosto”, do mal-estar característico da crise da modernidade, impelido pelo também recente advento da psicanálise, pela queda do materialismo histórico e pela quebra do Estado clássico. O resultado é a perda de direção e a criação de um grande “nada”, o qual se impõe à frente de tudo. Alguma semelhança com a falta de critérios e distinções morais da família, da sociedade, do Estado de Direito que se vê hoje?
Cena de "Brilho Eterno...": poesia do inconsciente
Fugir, então: eis a solução! Este “eu” que, do século passado para cá, de tão massacrado, não está mais se achando. “Eu” que se reduziu a suas meras limitações na filosofia existencialista; “eu” de um K. de “O Processo” de Kafka, que não sabe para onde vai e nem porque; “eu” que perde-se no labirinto das veleidades e da estética, como o hedonista fotógrafo Thomas de “Blow Up” (Antonioni, 1966); ou aquele “eu” lisérgico, marginal e impulsivamente desistente do sistema de Jack Kerouac, Para onde correr, se só há o nada em qualquer direção em que se vá? O jeito é reinventar-se – mesmo que artificialmente. Mais recente, o poético “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” (Michael Gondry, 2004) navega por mares bem parecidos com o de “O Segundo Rosto”. Neste lindo romance psicológico da era digital, Joel (Jim Carrey) vive um marido magoado por sua esposa Clementine tê-lo, como nos computadores, deletado de sua mente. Resolve, então, retribuir na mesma moeda. No decorrer da operação na “clínica”, Joel percebe que, na verdade, não quer excluí-la de sua vida, e sim manter em sua memória os momentos em que estiveram felizes. A partir disso, ele enfrenta uma incrível luta mental para que essas memórias continuem vivas dentro de si.
O conflito em que esses personagens se consumem e os leva a uma divisão de si mesmos está, em ambos os filmes, diretamente ligada à relação com suas mulheres. Elas lhes são o espelho de suas identidades. Analisando o filme Frankenheimer, a esposa de Hamilton-Anthiocus exerce um papel fundamental na trama, tanto no início da história, no descompasso entre eles, quanto no desfecho, quando se reafirma este desafino. Embora o objeto espelho seja recorrente no cinema para expressar duplicidade, divisão, diferenciação, afastamento, ruptura etc, a repetição deste no decorrer de “O Segundo Rosto” é ludicamente deliciosa ao mostrar a “distorção” da imagem tanto de Hamilton quanto de Anthiocus. Há, porém, na cena crucial do diálogo entre o ele e sua (ex) esposa na casa em que viviam, onde é ela quem se vê refletida e não se “reconhece”, tal como ocorre com o (ex) marido a todo instante, antes e depois da cirurgia.
"O Inquilino" de Piolanski: dissociação do "eu"
A formação do “eu” no olhar do “outro”, de acordo com o psicanalista francês Jacques Lacan, inicia na infância na relação do ser humano com os sistemas simbólicos fora dele mesmo. O que ele chama de "fase do espelho" é quando a criança, não possuindo qualquer autoimagem como uma pessoa "inteira", vê-se ou "imagina" a si própria refletida, figurativamente, no "espelho" que é o olhar do outro. Só aí ela pode se ver como uma "pessoa inteira". Mas o que ocorre quando este “espelho” está “quebrado”? Outro famoso psicanalista, o suíço C. J. Jung, disse que “não se cura a dissociação dividindo-a, mas dilacerando-a”. No já citado “O Inquilino”, o personagem principal, num processo semelhante ao de Anthiocus, a certa altura, questiona-se: caso mutilassem partes de seu corpo, poder-se-ia, mesmo assim, ele e suas partes continuarem se chamando pelo mesmo nome? Despedaçado, sua angústia está em perder a “unidade” de sua alma, de ser um mero “inquilino” dentro de si mesmo.
Embora este sujeito complexo e problemático esteja sempre partido, ele passa a vivenciar sua própria identidade como se ela estivesse reunida e "resolvida", como resultado da fantasia de si mesmo que ele formou naquele espelho em cacos. Aspectos tão profundos da psique humana e do inconsciente coletivo encontram, por sorte, leito na obra de autores do cinema americano como Frankenheimer (e aí se podem citar também Allen, Scorsese, Eastwood e Altman), coisa que o cinema de outras partes do mundo, infelizmente, muitas vezes não tem tanto poder em atingir um público maior valendo-se de recursos semelhantes. Apesar de pessimista, a visão de Frankenheimer supõe um alarme, um apontamento do erro de nossa pós-modernidade de que fugir de si esvazia e dilacera.
Depois de uma manhã e uma tarde lotadas de passeios por São Paulo, o horário da visitação gratuita ao Masp, fim de tarde, se aproximava. Já sabíamos que as entradas online estavam esgotadas dada a alta procura, ainda mais porque naquela semana havia estreado justamente a exposição que mais atraía as pessoas (e a nós): "A Ecologia de Monet". Mas estávamos Leocadia e eu próximos, andando pela Av. Paulista e, mesmo cansados, pensamos: "por que não tentar?" Talvez esse espírito flaneur tenha nos presenteado com dois ingressos, que nos foi alcançado logo que chegamos em frente ao lindíssimo prédio projetado pela arquiteta Lina Bo Bardi.
Com muita fila e sala lotada, pudemos mesmo assim, apreciar as poucas (32) mas bem reunidas obras de Claude Monet, um dos maiores gênios das artes de todos os tempos. Já havia tido a oportunidade de ver Monet numa exposição interativa em Porto Alegre anos atrás, onde não havia nenhuma obra original dele, apenas reproduções, e lembro de, apesar da beleza inconteste, ficar um tanto frustrado de não ver um “Monet Monet”. Dessa vez, realizei o sonho.
A seleção da exposição evidencia a relação de Monet com a natureza, as transformações ambientais, a modernização da paisagem e as tensões entre ser humano e natureza, mostrando como ele estava adiantado no tempo no que se refere ao pensamento ecológico, algo mais evidente somente no final do século 20.
O interessante recorte dado pela curadoria pinça obras dos diferentes ambientes naturais que o artista impressionista pintou em sua vida, desde Havre, na Normandia, Belle-Ille, na Bretanha, Vétheuil, no interior da França, a seu famoso jardim em Giverny, próximo a Paris, onde realizou algumas de suas mais marcantes obras, como a série das “Ninfeias” e a famosa ponte chinesa de seu quintal, as quais mereceram uma sessão especial na mostra.
Porém, não apenas estas, mas as paisagens da Normandia começando a ser turística e moderna ao mesmo tempo, como registrou em “Vista do antigo porto de Havre”, de 1874. Ou a beleza impactante das rochas milenares de Port-Gouphar (1886), em que a brutalidade de suas formas contrasta, primeiro, com a delicadeza do céu nublado em tons leves, mas, principalmente, com a organicidade da água à sua frente, cujas pinceladas curtas e marcadas fazem o quadro parecer vivo.
Por falar em vivacidade da água, a ecologia fluvial de Monet é um dos aspectos mais investigados e valorizados da exposição, visto que justifica duas sessões: "O Sena como Ecossistema", onde podem ser vistos quadros como “O Passeio de Argenteuil” (1872), e "Os Barcos de Monet", que mostram a relação deste com o curso d'água do afluente do rio Sena em uma imersão. As barcas são mostradas de pontos de vista elevados, eliminando, assim, a noção de uma linha do horizonte. Para um apaixonado por cinema, é impossível não enxergar na forma de enquadrar de Monet referências daquilo que se tornaria gramatical no cinema, a qual ele viu nascer enquanto arte. Não são à toa os planos incomuns de Dreyer em "A Paixão de Joana D'Arc" ou o constante distorção imagética do Expressionismo Alemão.
Note-se a correnteza do rio é destacada por pinceladas onduladas em tons de vermelho e amarelo que se somam ao verde intenso. O traço impressionista, embora caracterizado pela dissolução, se modificado conforme a necessidade: ora mais intenso, mais sutil, mais ou menos carregado, o que vai provocando diferentes texturas e sensações. Novamente recorrendo ao cinema, há quadros das plantas ninfeias que, afora o "enquadramento" fora dos padrões, jogando a linha do horizonte para a parte superior da tela, as plantas aquáticas ganham como vizinhas o reflexo das árvores no lago, provocando aquilo que em cinema se chamaria facilmente de sobreposição como as que David Lynch e Alain Resnais usavam largamente em seus filmes.
Há ainda o núcleo “Neblina e Fumaça”, que discute como Monet representou as transformações urbanas e industriais de seu tempo com a chegada da energia a vapor, da expansão das fábricas e a produção de carvão, que mudaram radicalmente as cidades europeias do fim do século XIX. A sequência de trabalhos em que o artista retrata as pontes de Waterloo e de Charing Cross, de Londres, são emblemáticos, pois dão a ver a forma como Monet explorou a perspectiva atmosférica com cores e pinceladas singulares, conferindo espessura à neblina e evidenciando o ar carregado pela fumaça liberada pelas indústrias instaladas às margens do rio Tâmisa. A poluição, sim: a poluição!
Por fim, outro núcleo é “O Pintor como Caçador”, que explora as trilhas por onde caminhava em busca de pontos de vista originais. Traz visões muito poéticas de Monet em pinturas realizadas em suas viagens pela costa francesa - Normandia, Bretanha e Mediterrâneo -, além de passagens por outros países, como a Holanda.
Saímos ainda mais cansados do que já estávamos, mas completamente arrebatados e preenchidos por termos a sorte de conseguir entrar e presenciar a arte maior de Monet. Era um objetivo nesta ida a São Paulo, que pareceu por algum momento que não seria possível realizar. Foi.
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A impressionante “Vista do antigo porto de Havre”: começo do turismo de praia no Mediterrâneo
Composição magistral dos barcos atracados
Genialidade: as rochas de Port-Gouphar e o espelho d'água
Público embasbacado com tamanha maestria na pintura
Dos mais impressionantes, “O Passeio de Argenteuil”
Muito público para ver a exposição
no final de tarde/início de noite no Masp
A série das "Ninfeias". Basta admirar
Sessão das Ninfeias disputada
Aula de enquadramento e de fusão de imagens: totalmente cinema
Mais das Ninfeias, aqui na famosa ponte chinesa de Giverny
A ponte de Waterloo e a... poluição, já em fins do século 19. Ah, o homem...
Outra cena linda de barcos sob o céu nublado
Detalhe de uma das cenas de "caça" de Monet. Sempre em busca de novos olhares
Duo de quadros que junta o trato com a água e o enquadramento diferenciado de Monet...
...Que fecham/abrem a exposição magistralmente
E estes dois flaneurs em estado de graça após verem a exposição